Rogações de Eremita
Capítulo I
Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.
Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas dispersas de apagados lares.
Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu destino. E incessantemente a repetiam—assim como no coração volta a saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando{58} dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.
Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência das correntes.
Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima, chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria imobilidade e à própria sorte?!...
Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o portador bem-vindo.{59}
Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram, fúnebremente, a terra desolada.