Sete anos
Pornochanchada
24 de julho de 2011
Pornochanchada
Acabo de assistir a um concerto da Orquestra Filarmônica da Radio France no Albert Hall de Londres. Eu jamais havia pisado no Maracanãzinho vitoriano e me surpreendi, não só com a qualidade de dois compositores contemporâneos que não conhecia, Pascal Dusapin e Olivier Messiaen, mas também com a popularidade da casa.
Pessoas de jeans e camiseta lotavam os milhares de assentos. Muitos assistiam de pé, como num concerto de rock, provando que a música erudita na Europa é uma tradição tão mundana quanto o futebol.
No avião para cá, li a opinião uníssona das resenhas a respeito de Cilada.com de Bruno Mazzeo e José Alvarenga Jr., afirmando que o filme marca o retorno definitivo das pornochanchadas às telas brasileiras.
Cada país tem a tradição cultural que merece e é preciso bendizê-la.
A pornochanchada influenciou o cinema feito no Brasil por quase vinte anos e não me espanta vê-la ressurgir repaginada.
Na ditadura, os cineastas fugidos da perseguição e da censura se infiltraram na Boca do Lixo e produziram o mais bizarro gênero cinematográfico de que se tem notícia, uma mistura de heróis niilistas com mulheres de calcinha: a pornochanchada cabeça.
A bem-sucedida fusão foi a saída para os que almejavam o grande público, bem como para os que pregavam a revolução para as massas.
Giselle é um exemplo fascinante do gênero. Fruto da devassidão da elite abastada, a grã-fina Giselle seduz o pai, a madrasta e o irmão até conhecer uma guerrilheira sapata, com quem descobre a aliança entre o sexo e o amor.
Depois de presenciar o assassinato da amante — metralhada pela repressão durante um encontro clandestino num aparelho —, a moça retorna à perdição da aristocracia. E dá-lhe polca!
O filme, de 1980, é modelo de uma estética que comandou as telas brasileiras até a retomada. Nela, o Cinema Novo, a Boca do Lixo e as chanchadas da Atlântida se mesclavam com a predominância de uma ou outra corrente.
De Dona Flor a Rio Babilônia, passando por Eu te amo, Xica da Silva, Engraçadinha, inúmeros títulos de nossa filmografia nasceram dessa mistura de escolas.
Depois do deserto criado com o fim da Embrafilme, a tragédia social tomou o lugar do nheco-nheco nas salas de exibição do país. A partir de filmes como Cidade de Deus e Central do Brasil, os meninos de rua e a violência social substituíram as fornicações nas cachoeiras da Tijuca.
Obedecendo à lei do eterno retorno, era de esperar que um gênero proscrito tão poderoso voltasse a se fazer presente. As comédias burguesas substituíram a onda dos filmes sobre a miséria no gosto da audiência e, assim como nos anos 1970, a sexualização não tardou a acontecer.
O Brasil, ao contrário da Argentina, tem dificuldade de filmar dramas burgueses. Parece que não há tragédia digna de ser contada sobre brasileiros que comem mais de uma vez por dia. A classe média é motivo de riso e perversão por aqui.
Quando eu terminei as filmagens de Os Normais 2 — também dirigido por José Alvarenga Jr. —, descobri que, sem perceber, havíamos feito uma versão atualizada de uma pornochanchada. Afirmo isso sem nenhum desmerecimento ao filme.
Fala-se de Se beber, não case, O virgem de 40 anos e Porky’s como influência, mas ninguém cita A superfêmea ou Histórias que nossas babás não contavam.
É preciso lapidar as origens de escracho carnal. Os europeus transformaram canções medievais em sinfonias. O problema é que leva séculos para isso acontecer.