Sete anos
Jane Eyre
22 de fevereiro de 2013
Jane Eyre
Trabalho num roteiro de terror. A conselho materno, aluguei uma adaptação de 2011 do romance de Charlotte Brontë, Jane Eyre, que poderia servir de referência.
O filme tem direção segura de Cary Fukunaga, uma baita fotografia do brasileiro Adriano Goldman, e traz Michael Fassbender e Judi Dench no elenco. Não li o livro, mas percebe-se na dubiedade, na crueza e no desamparo dos personagens a boa literatura.
Seduzida pelo patrão e aprisionada à posição de serva, Eyre diz se dirigir não à pessoa do poderoso Rochester, mas ao seu espírito. “É o meu espírito que fala ao seu”, afirma ela, eliminando, entre os dois, as barreiras sociais, os impedimentos formais e a cerimônia entre gêneros.
A igualdade nas relações entre senhor e escravo, homem e mulher, sustenta o duelo verbal. Para alcançá-lo, é preciso falar ao espírito. Michael Fassbender é um ator vertical. Seu Rochester é vil, apavorante, e não menos violento quando apaixonado. Ataca baixo e pausadamente a longa fala em que confessa sentir-se atado a Eyre por um fio ligado ao plexo, que teme que a distância arrebente, deixando aberta uma ferida incurável.
Ninguém diz isso a passeio. É preciso estar imbuído de alguma grandeza, ser capaz de delinear a vastidão da dependência amorosa sem cair em choros fúteis. Cabe ao intérprete investir no caráter trágico, viril do Romantismo.
Orson Welles, em 1943, foi o Rochester de Joan Fontaine. William Hurt fez a versão de 1996, de Franco Zeffirelli, ao lado de Charlotte Gainsbourg. Fui atrás de Welles, mas só encontrei trechos na internet — na falta, me contentei com Hurt.
Vale o exercício. Assista a Fassbender, Welles e, depois, Hurt.
Welles é louco, tem a coragem do canastrão, a voz de um cantor de ópera e a esperteza do gênio. É dele o melhor beijo final, um primor de voracidade, que Fassbender, contrariamente a todas as expectativas, executa reservado e cortês.
Hurt age como se estranhasse o próprio castelo. Nota-se que não é nobre e muito menos inglês. Faz de Rochester um homem amuado, ranzinza e abatido.
De cócoras, abraçado aos joelhos em posição fetal, dá as costas para Eyre, enquanto declama indefeso a jura de amor sobre o fio que o liga à jovem preceptora. abril de 2007
Gainsbourg tem mais pena do que desejo por Hurt. Falta aristocracia ao ator e sobra autopiedade burguesa.
Minha mãe costuma dizer que, com raras exceções, os americanos tendem a ser cronísticos. Não há transcendência, segundo ela, se chamar um psicanalista acaba com o problema dramático. A melancolia do Rochester de Hurt estaria curada com o auxílio de um antidepressivo. A fúria de Welles e Fassbender, não.
Essa divisão entre o que é crônica, trama, e o que é páthos, drama, norteia o julgamento crítico de dona Fernanda. E com ela fui assistir a A hora mais escura, de Kathryn Bigelow.
O filme busca a neutralidade dos fatos. É jornalístico. Faz a retrospectiva dos dez anos que levaram até a captura de Osama bin Laden, encena torturas e atentados realistas, além de uma impressionante reconstituição da emboscada ao esconderijo do terrorista. Mas os cabelos anelados da protagonista, alisados na chapinha na passagem de tempo, denunciam a frieza da obra.
Existe um quê de 24 horas, de Supremacia Bourne, em A hora mais escura. Sua eficiência narrativa satisfaz, e muito, o meu apreço por filmes de ação; mas carece de uma visão humana da guerra santa.
Falta o Romantismo.
O que Rochester diz a Eyre bem caberia na boca do torturador. “Você não é naturalmente austera, não mais do que eu naturalmente vil.” Ou do torturado. “Você é capaz de se dirigir a mim como a um igual?”
Talvez por isso a cena em que a agente olha o cadáver do homem que procura há uma década, que ordenou a morte de milhares de pessoas e acabou com a vida de muitos de seus amigos, surge protocolar. Ela está certa no lugar em que está, é bem enquadrada, sóbria, econômica, mas não há catarse.
Falta a doença do Romantismo.