Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 39 de 45

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Sete anos

Homo bahianus

20 de janeiro de 2012

Homo bahianus

 

Passei o Ano-Novo em Salvador. Na despedida, assisti à missa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Há dois anos, fortes chuvas danificaram a estrutura da capela original, erguida por escravos e alforriados. Enquanto aguardam a restauração, os fiéis realizam as preces na igreja do Carmo.

O ritual é o retrato do sincretismo religioso que tanto vingou no Brasil. Atabaques saúdam o Senhor enquanto pães de santo Antônio rodopiam nas mãos de beatos bailarinos. Ninguém recebe santo em solo sagrado, a liturgia católica permanece intacta, mas, como na mais primitiva das experiências, a catarse rítmica arremessa a alma às alturas.

“Eu sou ateu, posso sair?”, perguntou, entediado, meu filho de doze anos. Eu o deixei ir. Jamais induzi minhas crias a essa ou àquela religião, mas também não cultivei o ateísmo.

Caetano Veloso riu da certeza categórica em tão tenra idade e confessou que também não acreditava em Deus na adolescência. Mais velho, no entanto, percebeu uma censura repressora por trás da rejeição da esquerda e se reaproximou do divino.

É mesmo impossível negar a fé na Bahia. Ela não é imposta, é um hábito concreto, festivo, que domina o calendário anual. Cada igreja tem o seu dia; cada terreiro, uma agenda; cada imagem, uma adoração. E, mesmo no Carnaval, o mais pagão dos blocos só põe o pé na folia depois de ungido.

Os soteropolitanos sabem cultuar seus tesouros. Sempre que caminho no Pelourinho lamento a devastação do patrimônio colonial carioca.

O Rio de Janeiro decepou o morro do Castelo. Em 1921, a faraônica obra de remoção deu fim à favelização. Hoje, a ladeira da Misericórdia, antigo acesso à igreja dos Jesuítas, termina num abismo em linha reta tomado por mato. É tudo o que sobrou do berço da cidade.

Salvador enfrenta o milagre da multiplicação de prédios de trinta andares, estilo paulista, avançando pela orla como ocorreu na Barra da Tijuca. As cidades tendem a se perder quando assaltadas por corridas imobiliárias, mas a capital resiste.

Ao menos quando vista do mar no primeiro dia do ano, entre o farol da Barra e o do Humaitá, durante o trajeto da procissão do Bom Jesus dos Navegantes.

Acordei cedo para acompanhar a galeota que leva as imagens de Jesus e Maria entre a basílica Nossa Senhora da Conceição da Praia e a igreja da Boa Viagem.

O hino do Bonfim, na voz juvenil de Gil e Caetano, abriu os trabalhos, seguido do arrocha.

A romaria é uma invenção grandiosa que envolve a população, a geografia e as águas cristalinas da baía de Todos os Santos.

Levei na mala o livro de Nelson Motta sobre a juventude de Glauber Rocha. Só agora entendo o grau da amizade entre o cineasta e João Ubaldo Ribeiro. Que turma. Fala-se muito da sensualidade e da expansividade dos baianos, mas um dos grandes traços daquela terra é o refinamento intelectual.

Paulo César de Souza, cuja recomendada tradução do alemão de Assim falou Zaratustra acaba de ser lançada pela Companhia das Letras, mora lá. Paulo é discreto, lembra Antonio Cicero, e em nenhum momento se vangloria, ou mesmo deixa transparecer, da dimensão do seu saber. A razão, na Bahia, é uma prática tão espontânea quanto a fé. E o sexo.

No documentário Caverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog, sobre as pinturas paleolíticas da caverna Chauvet, na França, o antropólogo Jean Clottes diz que o termo Homo sapiens não define bem o que somos. Homo spiritualis, na sua opinião, seria mais adequado.

A caverna Chauvet era um templo destinado à realização de cultos. Seus desenhos datam de 30 mil anos atrás. É um dos mais antigos sítios arqueológicos dessa natureza de que se tem notícia.

Ali, foram lapidados o sentido da representação, a arte, a música, o espírito e a fluidez da alma; a revolução que catapultou o abrupto desenvolvimento do homem moderno. A Bahia é a caverna Chauvet do Brasil, ainda em atividade. Daí a força do Homo bahianus.