Sete anos
Humano
3 de dezembro de 2013
Humano
Em A invenção do humano, Harold Bloom afirma que a consciência do homem moderno nasceu com Hamlet. Shakespeare, afinal, seria o tronco, e todo o resto, Freud, Dostoiévski e Guimarães Rosa, seus galhos.
O crítico americano descreve o príncipe dinamarquês como um homem contemporâneo preso numa trama medieval. Os demais personagens não seriam capazes de raciocinar como o jovem, o autor não os dota do mesmo vocabulário. No choque, a razão de Hamlet só se justifica através da loucura.
Estive na galeria Uffizi, em Florença, no começo do ano. Lá, é possível acompanhar muitos desses saltos evolutivos na história da criação.
Iniciei o périplo pelas pinturas medievais. Sacras e bidimensionais, há pouco de humano nelas; são esquemáticas, como a corte do rei Cláudio. Giotto é quem dá o passo ao descolar as figuras do fundo, concedendo-lhes profundidade no sentido amplo da palavra.
A perspectiva expande o sofrimento de Madonas, Moisés e Cristos por bons séculos. Vale ressaltar a abnegação com que os mestres enfrentaram a restrição temática.
Para quem segue pelos corredores da galeria, a repetição das passagens bíblicas e divindades gregas cria um estado de beleza e embriaguez interrompido pelos primeiros retratos realistas da Renascença. Na sala 8, os perfis da duquesa e do duque de Urbino, pintados em 1472 por Piero della Francesca, marcam, na impressionante coleção, o instante em que o homem se colocou em pé de igualdade com os santos.
As salas seguintes exibem rostos comuns, nobres mas comuns, semelhantes à turistada. O duque de Urbino é pai de Hamlet e foi criado mais de século antes dele.
A Cosac Naify acaba de lançar uma edição do Decameron. Cem anos antes de Piero della Francesca, Boccaccio pedia desculpas ao Espírito Santo para falar dos dilemas mundanos de quem sobreviveu ao século XIV.
Entre 1300 e 1400, a Europa enfrentou a Guerra dos Cem Anos, a corrupção desenfreada do clero e a peste negra — que dizimou 75 milhões de pessoas, um terço da população europeia.
O cenário desolador flexibilizou a moral. A noção de família e propriedade foi abalada, bem como a crença na justiça divina. Os que sobraram se arrumaram como puderam, não como Deus queria.
“Sabe-se que as coisas deste mundo são todas transitórias e mortais, em si e fora de si cheias de tédio, de angústias e de tormentas, passíveis de infinitos perigos; às quais nós, que vivemos misturados a elas e somos parte delas, não poderíamos certamente resistir nem evitar se a especial graça de Deus não nos emprestasse força e sagacidade.”
O discurso caberia na boca de Hamlet, ou de Macbeth, não fosse a conclusão tão reverente ao Altíssimo. Aparentemente devoto, Boccaccio esclarece, logo na introdução, que sua novela não é direcionada a Deus, mas ao juízo dos homens. Ou à falta de juízo. Decameron é um decálogo de desvios, um paraíso de putas ardilosas, freiras volúveis, padres ladrões e bandidos de toda espécie.
Os bustos de mármore do Império Romano também seduzem por seus defeitos. Narigudos, papudos e olheirudos, se distanciam do ideal olímpico dos gregos. Admiro a Vênus e a Samotrácia tanto quanto os Tintorettos da Scuola di San Rocco, mas as rugas romanas me provocam o mesmo deleite que os rostos da Renascença, ou os pecadores de Boccaccio; elas revelam os anseios, a fragilidade, a torpeza e a mortalidade de gente como eu, e você.
Gosto também de admirar o modelo em cera do casal de Australopithecus afarensis caminhando abraçados pela planície de Laetoli, no Museu de História Natural de Nova York. O par de macacos bípedes passeia enlaçado, enquanto contempla a paisagem ancestral. São Adão e Eva encarnados e não destoam dos sapiens apaixonados.
Difícil mesmo é reconhecer o que há de humano nos games interativos que meu filho adolescente joga sem parar, on-line, com os amigos virtuais. Quando o vejo aos berros, imerso na batalha imaginária, tenho dificuldade de acreditar que, algum dia, Hamlet fará sentido para ele; e temo, como a mais retrógrada das santas inquisidoras, pelo futuro da humanidade.