Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 31 de 45

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Sete anos

Dercy

20 de julho de 2008

Dercy

 

Nesta semana, morreu Dercy Gonçalves. Dercy gostava de ir ao teatro, conversamos algumas vezes no camarim. Por trás da irreverência, dos palavrões, do escracho e dos peitos de fora se escondia uma cabeça lúcida e arguta. Eu adorava a Dercy.

Tive a honra de tê-la na plateia de A casa dos budas ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. “Ele deve ser”, afirmou ela.

Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi.

No dia em que Dercy foi assistir a A gaivota — adaptação da peça de Anton Tchékhov dirigida por Daniela Thomas —, minha mãe, Matheus Nachtergaele, Celso Frateschi, Antônio Abujamra, Nelson Dantas e eu interrompemos os aplausos para dedicar a sessão a ela. O público redobrou as palmas e, quando já estávamos prontos para fechar a cortina, percebemos uma figura pequena se encaminhando para o palco com a ajuda de uma bengala.

Era a Dercy.

Elétrica, se virou para os espectadores e comentou em voz alta: “Como é que esse homem pode saber tanto da minha vida?! Como é que esse russo pode ter escrito a história da minha vida?!”.

Assim como a heroína russa, Dercy deixou sua cidade natal, Madalena, por um amor e pelo circo.

Equilibrada num salto alto, subiu com desenvoltura a escadinha sem corrimão que dá acesso à ribalta, se juntou ao elenco e repetiu que A gaivota era a aventura da vida dela. Dercy agradeceu de mãos dadas conosco, se curvando em reverência, como se tivesse acabado de fazer o espetáculo. O pano caiu com ela em cena. A plateia foi ao delírio.

Dercy Gonçalves é a melhor tradução para o português de Nina Mihailovna Zarechnaia.