Sete anos
Apresentação
Em 2007, Mario Sergio Conti me convidou para escrever na recém-lançada revista piauí um artigo sobre o medo do ator de estar em cena.
Cristina Grillo leu “No dorso instável de um tigre” e achou que eu teria fôlego para manter uma coluna quinzenal na Veja Rio. A gravidez avançada e a possibilidade de exercer uma atividade criativa sem ter que sair de casa me levaram a aceitar a oferta.
Eu voltaria a contribuir para a piauí com os perfis de Bráulio Mantovani e Hany Abu-Assad, além de selecionar a correspondência deixada por John Gielgud e redigir uma introdução para ela. “Kuarup” foi o primeiro texto que escrevi para mim mesma, com a finalidade de ordenar as memórias dos dois meses e meio de filmagem na selva, sob o comando de Ruy Guerra. O relato ficou anos na gaveta, até que a estreia do filme Xingu criou motivo para publicá-lo. Foi minha última parceria com a revista.
Em 2010, Sérgio Dávila propôs que eu abordasse as eleições para a Presidência no caderno Poder da Folha de S.Paulo. Muitos dos artigos sobre política desta edição fazem parte desse período. Selada a vitória de Dilma, passei a manter uma coluna mensal na Ilustrada.
As crônicas aqui reunidas foram escritas ao longo de sete anos e contam, de certa forma, a história do meu noviciado. Desenvolver ideias dentro de um espaço determinado, falar, sem deixar de ser pessoal, de temas de interesse comum, e dar valor à concisão são algumas das lições que tomei do jornalismo.
Ao revisar os textos, cogitei conservá-los intactos, do modo como foram publicados, mas desisti. Cortei baldes de adjetivos, limei os advérbios que pude e resumi parágrafos; em especial, nos artigos escritos há mais tempo. Os mais recentes sobreviveram sem maiores plásticas.
Pela cronologia, este livro deveria ter saído antes do Fim. Diversas passagens que deram origem ao romance — a morte do meu pai, o velório de Jardel Filho na Cinelândia e o convívio com Jorge Dória — nasceram aqui.
Os assuntos foram organizados por blocos, mas os textos podem ser lidos aleatoriamente.
Como colaboro num jornal de São Paulo e numa revista do Rio — e eventualmente na piauí, que é lida por um público seleto —, vários artigos se mantêm inéditos para os diferentes leitores.
Existe apenas um escrito virgem, feito para a piauí, que, por pudor, eu havia preferido deixar guardado. Trata da morte do meu pai e faz parte da trinca de crônicas dedicadas a ele.
Um ator, mesmo que a sós em cena, carece de um aparato custoso para exercer seu ofício. No mínimo, do público ao redor dele. É uma profissão coletiva e extrovertida. Poder escrever que vinte elefantes entraram num quarto sem que eles tenham que estar lá é uma libertação sem nome para alguém acostumado à rotina teatral da missa de corpo presente.
As letras têm me feito grande companhia.