Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 16 de 45

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Sete anos

Mãos que eu afaguei

8 de junho de 2012

Mãos que eu afaguei

 

Marluci enrolava meus bobes no camarim da televisão quando comentou que o depoimento do Demóstenes no Conselho de Ética, em curso naquela tarde, lhe parecia convincente.

A simpatia da cabeleireira escorreu pelo ralo junto com o Nextel do senador, pago por Cachoeira. Antes de anoitecer, ela já havia recuperado a indignação habitual.

Eu também, em frente à TV naquela manhã, senti compaixão involuntária. Pelo menos ele está falando!, pensei. O emudecimento na CPI do dia seguinte, a exemplo do Nextel, destruiu a longa defesa da véspera. Mas quem, no lugar dele, cometeria o desatino de abrir a boca?

A máquina eleitoral é um leviatã voltado para os próprios interesses que opera na ilegalidade. A política corrompe ao mesmo tempo que produz desenvolvimento e riqueza. Se não para todos, ao menos para os que sobrevivem nela.

O poder vicia. No vício, perde a inocência. E, se todos têm culpa, ninguém é culpado.

Há sete anos, quando as denúncias do mensalão espocavam nas primeiras páginas dos jornais, fui almoçar com um amigo num restaurante extinto do Leblon. Já pagando a conta, percebi que na única mesa ocupada, na saída do salão, estava sentado José Dirceu.

Roberto Jefferson entoando vingança; a careca do Valério; Delúbio dopado; Lula; o PT e o PSDB; a Telecom e o Opportunity; o próprio Dirceu, no documentário Entreatos, declarando possuir um cofre cheio de filmes bem-intencionados que arruinariam a reputação dos que concordaram em neles aparecer; sem falar na Casa Civil, no movimento estudantil, na guerrilha, nas plásticas e na clandestinidade mantida até diante da mulher — cinquenta anos de história me contemplavam em meio às mesas vazias, bem na passagem de quem queria chegar à porta.

Catei a bolsa e saí batido, eu não o conhecia, não era agora que iria me apresentar. Receei que parecesse que eu estava lhe virando a cara. Eu não me sentia pior nem melhor do que Dirceu, certamente menos audaciosa. Ele me provocava a consciência incômoda do quanto ignoro as regras do jogo político e de como vivo à beira, e à mercê, da corda bamba dos que orbitam o trono.

Anos depois dessa tarde, num forró da Flora e do Gil, durante uma conversa com o meu parente sardo, Sérgio Mamberti, cruzei os olhos com os de um homem cujo nome não me vinha à cabeça. “Oi, Ferrrnanda”, ele disse, com um sotaque carregado do interior. José Dirceu!

Era uma de suas primeiras aparições sociais depois de uma longa reclusão pós-escândalo.

A mesma paralisia do Leblon, a força gravitacional em torno daquela entidade, somada à culpa de não ter me dirigido a ele no longínquo almoço carioca, agravaram a falta de jeito. Levantei uma das mãos e acenei.

O desconforto por ter sido incapaz de encarar José Dirceu pela segunda vez me perseguiu por toda a festa. O medo de que ele houvesse notado as dúvidas que me invadem na sua presença.

Muitos o desprezam, outros o consideram a encarnação do exu capeta, alguns alegam que todos agem igual. Corre a lenda de que, nos tempos de gato incendiário, Dirceu fazia amor sobre a bandeira nacional.

Como nos insuperáveis romances do século XIX, a vilania e o heroísmo se misturam de forma explosiva em José Dirceu. Para além do bem e do mal.

No fim do arrasta-pé, sentada mais uma vez ao lado de Mamberti, senti, pelas costas, um vulto se despedir dos demais. Me virei, era Dirceu. Ele pousou a mão no meu ombro e eu, com o desejo culposo de reparar o mal-estar dos nossos dois encontros, segurei sua mão num movimento inconsciente e a beijei.

Uma fração de segundo após o ato, descolei os lábios da pele morena e olhei para os lados, aterrorizada com a ideia de ter sido pega por um fotógrafo num momento tão complexo da minha madureza.

É como bem resumiu a esposa de Cachoeira: “Isso é uma coisa que poderia acontecer com qualquer um”.