Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 38 de 45

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Sete anos

Exéquias

23 de outubro de 2011

Exéquias

 

Em 1897, uma expedição científica ao Ártico trouxe uma família de inuítes para ser estudada no Museu de História Natural de Nova York.

Morreram todos — vítimas das viroses dos brancos —, com exceção de um menino de nome Minik e de um adulto que retornou para a Groenlândia. O museu destinou uma de suas vitrines para a exibição das ossadas.

Minik tentou reaver o direito sobre os restos mortais do pai e dos parentes por toda a vida, até sucumbir à influenza, em 1918. Na sua crença, a alma dos insepultos está condenada a vagar pela eternidade, caso não repouse em solo sagrado.

O tormentoso além só teve fim graças ao canadense Kenn Harper, que, em 1993, realizou o funeral do clã na pátria de origem.

Nesse mesmo ano, morreu Felipe Pinheiro, ator, escritor e primeiro óbito chocante da minha juventude. Longe do Brasil, não pude enterrar meu amigo.

No dia em que voltei, abri a porta de casa e recebi uma visita inquietante. Um passarinho saiu da floresta e pousou perto de mim. Não contente, subiu pelo braço e se instalou no meu ombro. Passamos horas juntos, perambulando pelos cômodos. Desfiz as malas e adormeci com o curió ainda ao redor. Quando acordei, ele não estava mais lá. Ele nunca mais esteve lá.

Não sou espírita. Creio que virarei adubo de árvore ou árvore, ou quem comer da tal árvore; mas até hoje alimento a desconfiança de que o pequeno ser emplumado era o Felipe se despedindo de mim. Delírio confesso; fruto, talvez, do fato de eu não tê-lo sepultado.

Fiz uma novela com Jardel Filho em 1981: Brilhante. Por razões óbvias, nunca fomos íntimos, mas compareci ao enterro de Jardel.

Nosso contato mais próximo se deu enquanto esperávamos para entrar em cena, atrás da porta do cenário da mansão. Metido num smoking 007, o belo revolucionário de Terra em transe virou seus faróis azuis na minha direção e perguntou o que eu achava dele no papel do milionário Bruno Newman. Eu tinha dezesseis anos e não lembro de ter respondido. Me recordo apenas da surpresa petrificante de ver o amor de Cacilda Becker em Floradas na serra atrás de uma tapadeira, pedindo uma opinião pra mim. Jardel morreria no folhetim seguinte, Sol de Verão, em pleno Carnaval de 1983.

O velório ocorreu no foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ao som do cordão do Bola Preta, que comia solto do outro lado da rua.

Quem não chora não mama

Segura, meu bem

A chupeta

Lugar quente é na cama

Ou então

No Bola Preta

Uma longa fila de homenagens se dirigia ao caixão. O morto, postado em frente à escadaria principal, estava rodeado por uma procissão de fãs, jornalistas e notáveis, além de pierrôs, colombinas, travestis e bêbados da folia da Cinelândia. Glauber Rocha — que morrera dois anos antes — teria feito um filme e tanto da cerimônia.

Estar presente nas exéquias de Jardel me ligou definitivamente a ele, enquanto a ausência nas de Felipe me fez imaginá-lo encarnado em animais silvestres.

Os rituais não existem à toa, que o diga o esquimó.

Dedico estas linhas a Leon Cakoff, a quem não pude dar adeus.