Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 34 de 45

Páginas do PDF

Sete anos

Acaso

10 de outubro de 2009

Acaso

 

O homem é uma realidade finita que existe por sua própria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois é que

se define, mas no princípio ele é nada. Ele não será nada até o que fizer de si mesmo: Logo, não há natureza humana,

porque não há Deus para concebê-la. O homem simplesmente é não apenas o que concebe de si mesmo, mas o que

deseja ser. Esse é o primeiro princípio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de

angústia e do fracasso. Não! É uma teoria que afirma que o homem está lançado e entregue ao determinismo do

mundo, que pode tornar possíveis ou impossíveis as suas iniciativas. Esta contingência é a liberdade na relação do

homem com o mundo. O acaso é quem tem a última palavra.

Essa é a abertura da peça Viver sem tempos mortos, uma compilação de textos de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, que minha mãe levou para o palco um ano atrás. A peça nasceu do desejo de falar da influência do casal de filósofos na geração dela e do impacto da morte do meu pai.

Minha mãe se preparou na surdina, sozinha, por mais de um ano, antes de começar os trabalhos com o diretor Felipe Hirsch. Viver estreou na periferia do Rio. Eu estava trabalhando muito, com dois filhos, e acabei não assistindo a nenhum ensaio do que ela gostava de chamar de recital.

Um dia, fui tomada pelo absurdo de pensar que minha mãe perambulava com Simone de Beauvoir pelo subúrbio do Rio, sem que ninguém da família estivesse presente. Num misto de curiosidade, culpa e carência, rumei para o Sesc Nova Iguaçu. As luzes do teatro se apagaram e eu a vi entrar em cena, sentar numa cadeira — da qual não se levantou até o fim do espetáculo — e dimensionar esse conceito de Sartre sobre a liberdade e o acaso.

Chorei. Chorei por tudo, pela profundidade de artista que é minha mãe, pela obstinação profissional dela, pela falta que o meu pai me faz e pelo choque com a clarividência cruel, pausada e seca com que a mulher que me criou emitia aquelas palavras.

Nós conversamos inúmeras vezes sobre a alegria e o desespero de estar vivo, mas eu jamais a vira falar da plenitude da escolha e da aceitação do sofrimento de maneira tão pragmática.

De vez em quando, filho leva o susto de ver a mãe, alguém tão embolado com ele, existindo lá, nela, com as dores e as alegrias que lhe pertencem.

Voltamos juntas no carro, eu e minha mãe de sempre; a outra escondida em algum lugar.

Dois mil e nove está terminando. O funil de fim de ano foi especialmente funesto. Muitas doenças, perto e longe de mim, notícias de morte e desengano de gente da minha idade ou bem mais jovem do que eu.

Algumas tragédias são tão injustas que fazem crer que o soberano acaso, deus brutal e indiferente, tem mesmo a última palavra. Não há porquê, não existe lógica ou justiça suprema nos julgando de fora. Deve-se aceitar que é assim.

Amora Mautner me disse que Jorge, seu pai, homem que adoro e admiro, deixou um recado na secretária eletrônica que dizia: “Amora, a prova de que o destino existe é que ele acontece!”.

Sabe tudo o Mautner.

Que 2010 nos seja leve.