Sete anos
Oscar Wilde
1 de setembro de 2010 o
Oscar Wilde
“Toda crítica é uma autobiografia.”
A frase é de Oscar Wilde e me valho dela para voltar a um acontecimento meio passado, mas nem por isso de menor interesse.
No embate entre William Bonner e os candidatos à Presidência no Jornal Nacional, a tensão estava presente tanto no entrevistador quanto nos entrevistados.
Bonner comanda mais do que um jornal. Ele está à frente do diário oficial do país. Pelo peso da instituição e por tradição, o JN é visto como um jornal chapa-branca, isento, não afeito a sensacionalismos ou opiniões pessoais.
William Bonner é mais que um belo rosto, ou voz. Embora dotado dos dois atributos, é um jornalista preparado, de raiz.
Cid Moreira foi o locutor-modelo do JN por muitos anos. Impecavelmente radiofônico, foi o símbolo da neutralidade durante a ditadura militar — quando não havia eleições, a Globo batia na casa dos 100% de audiência e a Varig era a única companhia aérea do país.
A distância entre Cid Moreira e o William Bonner da entrevista com os candidatos é a mesma que separa o Brasil da minha infância do de agora.
Nos breves doze minutos de embate, Bonner lutou para que a ladainha eleitoreira não dominasse a sessão. Austero, e por vezes quase agressivo, administrou com usura o tempo exíguo. Interrompeu as entrevistas mais de uma vez na clara tentativa de produzir um jornal diferente do que nos acostumamos a ver no horário nobre da maior estação de TV do país.
Sua ansiedade era quase palpável.
Como bem sintetizou Wilde, o comportamento de Bonner era tão relevante quanto a mensagem dos sabatinados, ou mais relevante ainda.
Dilma foi sorteada primeiro e não esperava a veemência do entrevistador, ninguém esperava. Nossa quase presidente se ateve à sua agenda e objetivos, lançou mão mais de uma vez da metáfora da dona de casa — provando que Lula fez escola quando se trata de conseguir que uma ideia complexa chegue com simplicidade à população — e seu maior feito foi ter sustentado o sorriso — não sem esforço — até o fim.
Já enfrentei muitos ensaios terríveis, mas nada se compara ao tour de force de uma candidatura. Na mensagem final, o suor brotando no rosto da ex-ministra denunciava a dificuldade de manter a simpatia durante o ataque.
Lula, no dia seguinte, reverteu a situação em favor de sua eleita. Abraçado a Dilma, afirmou que jamais tinha visto tamanha deselegância num repórter. Com a habilidade de sempre, reduziu Bonner a um sujeito mal-educado com mulher.
Revi as três entrevistas na tentativa de saber se o âncora havia sido tendencioso. Sem dúvida, a de Dilma foi a mais tensa de todas. Mas as perguntas aos três entrevistados eram igualmente azedas.
A diferença é que Dilma, pega de surpresa com a prensa, deve ter achado que era pessoal. Os dois outros entraram preparados para o paredão.
Bonner foi excessivo com Marina, quando insistiu na pergunta, já respondida, do porquê de a senadora não ter abandonado o ministério no escândalo do mensalão.
A mudança editorial do JN é um grande fato político desta eleição.