Sete anos
Bráulio é Pau Brasil
Nos idos de 1999, um micro-ônibus lotado de roteiristas nacionais e estrangeiros descia a serra do Mar para mais um laboratório de roteiros cinematográficos, promovido pelo Sundance Institute. Uns trinta quilômetros depois de Cubatão, o motorista virou à direita, abandonando a estrada rumo ao belo Litoral Norte paulista, e se encaminhou para a inóspita praia de Bertioga, onde, séculos atrás, o alemão Hans Staden quase foi devorado por canibais tupinambás.
O real havia sofrido a primeira grande desvalorização do mandarinato tucano. Com isso, o Laboratório de Roteiros foi transferido da pitoresca Paraty para o Centro de Convivência da Terceira Idade, gentilmente cedido pelo Sesc Bertioga.
Fui parar ali com o meu irmão, Cláudio Torres, e o roteiro de Redentor. De noite, no quarto singelo, me lembrei dos jesuítas portugueses que, na época de Hans Staden, subiram a mesma serra que acabáramos de descer, na esperança de catequizar os índios carijós. E comparei a iniciativa do criador do Sundance, Robert Redford, com a das missões. Ao contrário das tribos vizinhas, os carijós eram facilmente domesticáveis, praticavam o plantio e não traçavam carne de gente. Ocupavam uma área que ia de São Paulo a Santa Catarina, onde eram caçados por mercadores de escravos. Como a oferta de bugres propensos à catequização era exígua, os missionários centraram as preces na tribo.
Do nosso grupo, um Carijó se destacava: Bráulio Mantovani. De tão discreto, parecia invisível. Trazia consigo a primeira versão do roteiro de Cidade de Deus, adaptação do livro homônimo de Paulo Lins, que seria dirigido por Fernando Meirelles. Estava surpreso por ter sido aceito, fizera um rascunho às pressas, tinha certeza de que seria recusado. Tanta, que não quis nem preencher a ficha de inscrição; Meirelles fez isso por ele.
Com a mesma relutância, inscreveu o tratamento num concurso do Canal Brasil, em parceria com o Writers Guild Association — o sindicato dos roteiristas dos Estados Unidos e seção latino-americana da Motion Picture Association. O concurso lhe rendeu 6 mil reais de prêmio pelo primeiro lugar entre os duzentos roteiros inscritos. Com o dinheiro, pagou a operação para corrigir seus quatro graus e meio de miopia e conquistou a alegria de, durante o banho, ver os pés em foco pela primeira vez.
O que veio a seguir todo mundo conhece: Cidade de Deus arrebatou prêmios e plateias por onde passou, virou referência de cinema no Brasil e acabou indicado às principais categorias do Oscar, inclusive a de roteiro adaptado. Três anos depois de Bertioga, Bráulio tomaria assento na cobiçada fila D do Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles. Certo de que não levaria o troféu, desfrutou relaxadamente da visita oficial à corte.
A versão final de Cidade de Deus guarda muito daquela primeira, cuspida em dois meses. A perseguição da galinha, por exemplo, nunca saiu do lugar onde esteve. A ideia surgiu de um capítulo do original que é narrado do ponto de vista de um galo. Bráulio se lembrou de um filme dos primórdios do cinema, em que o rosto de um homem sem expressão era entrecortado de imagens de um prato de comida, uma briga e um caixão. Os cortes provocam uma associação entre as imagens e o rosto, conferindo ao ator sentimentos que nunca estiveram ali: fome, raiva e pesar. O efeito de montagem foi batizado com o nome do diretor que o inventou, Kulechov. Bráulio sugeriu que se fizesse o mesmo com a cara da galinha e abriu o filme com a perseguição.
Depois do furacão Cidade de Deus, os boatos em torno do seu futuro incluíam roteiros para Brad Pitt e uma casa em Malibu. Bráulio teria vencido a misteriosa barreira que separa o Brasil do resto da humanidade.
Sempre me chamou a atenção a quantidade de argentinos, peruanos e mexicanos que ocupam cargos de chefia no circuito internacional das artes. Jamais encontrei um brasileiro. Eu não sabia se Bráulio era um Carijó autêntico, educado pelo MEC, ou um mestiço de inglês, desses bilíngues de nascença.
Jantamos em São Paulo. A patricinha de Beverly Hills era eu.
Ele não só foi educado 100% em português como cursou a Escola Estadual Professora Celeste Sonnwend. “Olha o nome que eu tive que aprender aos sete anos”, avalia. Escola pública, pois. Seu pai, Carlos Mantovani, foi torneiro mecânico e só completou o primário. A mãe, Dirce, largou a fábrica para cuidar dos filhos: ele e a irmã, Élida, hoje professora de filosofia. A família morava numa casa pequena, de quarto, sala e cozinha, na rua Drava, no Ipiranga. O casal decidiu que os filhos teriam a educação que eles não puderam ter; não pensavam em faculdade, mas sim num curso técnico, para garantir logo uma profissão. Bráulio passou na seleção para a cobiçada Escola Técnica de São Bernardo, da qual, “apesar do medíocre talento para a matemática”, saiu formado em eletrotécnica. A recompensa, assegurada pelo esforço dos pais, foi não ter que trabalhar como office boy durante o dia, sina da maioria de seus colegas.
Mais tarde, a especialização lhe garantiu o emprego de professor num curso de eletricidade promovido pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo — cidade para onde a família se mudou quando ele fez quinze anos. Seu Carlos trabalhou na Mercedes-Benz e mora na cidade até hoje.
Bráulio é filho legítimo das tabas do ABC.
No livro Freakonomics, Steven Levitt e Stephen Dubner citam uma pesquisa feita nos Estados Unidos para descobrir as razões que levam ao bom desempenho na escola. O estudo demonstra que os alunos bem-sucedidos possuíam livros em casa. A simples presença do objeto ajudava no desenvolvimento intelectual do estudante. Muito antes do Freakonomics, os pais do Bráulio já enchiam a casa de coleções que não liam mas que os filhos poderiam ler. A enciclopédia em fascículos Conhecer se tornou a paixão de Bráulio, com suas ilustrações coloridas que repetiam as funções fisiológicas do corpo humano, empregando metáforas do cotidiano. O cérebro era uma junta de cientistas, as pernas, dois guindastes enormes.
No terceiro ano primário a professora chamou-o num canto para que ele confessasse quem havia escrito a redação do dever de casa, se o pai ou a mãe. O menino era um fenômeno em português. Aprendeu análise sintática — aquele horror — sozinho. Aos treze anos, ameaçou virar escritor. Preocupado, e quem sabe arrependido, seu Carlos reavaliou o investimento na biblioteca.
Bráulio devorou quadrinhos até os 26 anos. Na oitava série, as redações inspiradas o fizeram popular entre os colegas. A flor do Lácio o salvou da timidez atávica, da constituição franzina e do vexame no futebol. Para grande decepção do pai, craque de carteirinha, o filho nasceu perna de pau; assunto abertamente discutido nas rodas familiares. Acabou goleiro, míope e astigmático.
Foi um adolescente travado, que perpetrava poemas. Só não apanhou porque era primo de um rapaz cuja lembrança, diga-se, o ajudou na hora de escrever o roteiro de Cidade de Deus. “O nome dele era Abraão, filho de uma prima da minha mãe”, recorda. “Não era nenhum Zé Pequeno, mas metia medo e andava armado. Não sei se roubava ou traficava. A mãe aparecia lá em casa, chorando, toda vez que ele era preso. Morreu jovem, de aids.” A molecada só refreava a vontade de cobrir de porrada o poetinha porque alguém sempre gritava: “Para! Para que ele é primo do Abraão!”.
Um dia, foi com um amigo assistir à apresentação de um grupo de teatro de rua. “Não sei que demônio me empurrou”, diz. A peça contava com a colaboração do público e, quando Bráulio percebeu, já havia aceitado o papel de trocador e vendia bilhetes imaginários. Foi uma epifania. “Quebrei o cabaço”, comenta ele, e entrou para o grupo.
A Federação Andreense de Teatro Amador, que englobava todo o ABC, promovia palestras com gente como Gianfrancesco Guarnieri e José Celso Martinez Corrêa. O grupo de Bráulio era anarquista e Zé Celso foi tomado de encantos quando os viu desafiar o público. Na saída, foram convidados a se juntar ao sacrossanto Oficina. A convivência transformou o diretor amador num clone de Zé Celso. Bráulio se deu conta da simbiose e a cooperativa se desfez.
Dali, foi um pulo para o teatro engajado. Rezou muito pela cartilha de Bertolt Brecht no ABCD Grupo Teatral — organizado por uma associação de jornalistas, por sua vez ligada a um dos grupos que fundou o PT. Havia trotskistas, leninistas, ex-stalinistas, tudo gente séria. O ABCD foi o único a optar por uma comédia em sua estreia. Era um texto argentino sobre um homem desempregado que aceita a vaga de cão de guarda. Bráulio nunca foi chegado à esquerda tradicional, se via mais como um anarquista desimpedido.
Acabado o curso técnico, anunciou a humilde vontade de virar professor de português. O sonho de ser escritor desaparecera junto com a adolescência. Aliviados, seu Carlos e dona Dirce matricularam o filho no curso de letras na PUC. Mas Bráulio levou o teatro para dentro da faculdade, fundou a companhia Cambalache — “em homenagem ao tango anarquista” — e se dedicou às performances estudantis. A namorada de então garantia que ele só fazia isso pra poder tirar a roupa em público. Carijó autêntico, Bráulio gostava de andar pelado.
Ainda na faculdade, escreveu e dirigiu Fernando Pessoa: de quem doeu além do meu, representada nos escombros do Teatro Tuca, recém-destruído por um incêndio. E Lusíadas or not Lusíadas?, com estreia no Teatro Sérgio Cardoso. O ex-tímido foi Baco e acabou recebendo a primeira crítica elogiosa, como ator, na temida Folha de S.Paulo dos anos 1980.
O cinema entrou na sua vida por meio de uma amiga, Maria Bacellar, casada com Adilson Ruiz, cineasta, diretor de fotografia de filmes do João Batista de Andrade. Com Ruiz, Bráulio aprendeu o básico: fez câmera, montagem e escreveu seu primeiro roteiro supercabeça, baseado nos Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. “O filme ganhou todos os prêmios no Festival de Gramado, menos o de roteiro”, conta.
Para pagar as contas, trabalhou como revisor de texto para agências de publicidade, editoras e foi redator do Telecurso 2000 — onde conheceu Marcelo Tas e Fernando Meirelles, responsáveis pela produtora independente Olhar Eletrônico. Mal saído da faculdade, mandou o currículo para a Folha de S.Paulo. Em duas semanas virou editor assistente da Ilustrada.
“O José Simão estava arrancando os cabelos, não aguentava mais fazer fechamento e abandonou o cargo para virar o Macaco Simão”, lembra. Ofereceram o posto ao novato, que olhou para o estado do antecessor e recusou o convite. Cooptado pelo dinheiro — lhe dobraram o salário —, pediu para sair depois de seis meses no cargo. Estava igual ao José Simão. Ficou só como colaborador.
“Odiei ser jornalista, não volto para essa vida nem a pau”, garante. Mas algo ficou dos seus tempos de redação. Bráulio tem o humor ácido e a empáfia modesta dos homens da imprensa, além de se vestir como tal. Mora nele o jornalista, o sujeito oculto deste perfil.
Numa entrevista com Gerald Thomas para a Folha, soube que o diretor iria montar Nelson Rodrigues no teatro La Mamma, em Nova York, e pediu para fazer assistência como estagiário. No inverno de 1989, Bráulio juntou o que tinha e entrou num avião. O projeto melou, mas Gerald conseguiu que o La Mamma oferecesse um pouso para o amigo em Manhattan.
Ele arrumou uma namorada e fez faxina para sobreviver. Um dia, na caradura, ligou para o estúdio de Zbig Rybczynski, um diretor polonês de filmes experimentais que causava furor. O produtor foi simpático e disse que aparecesse, era o primeiro dia de filmagem. Naquela tarde, ajudou a carregar o cabo da câmera; na semana seguinte, foi contratado como assistente de produção; mais tarde, de câmera, e em seis meses, para inveja dos Carijó antenados de São Paulo, galgou a assistência de direção da lenda viva (e impronunciável) do cinema experimental.
Ficou dois anos em Nova York, até que a Guerra do Golfo estourou e o trabalho no estúdio o aborreceu — “Odeio set de filmagem, queria voltar para a escrita”. A namorada, estudante de moda, preferiu Madri, e Bráulio cruzou o Atlântico para mais dois anos de exílio. “Cheguei em Madri disposto a estudar e escrever”, lembra. Conseguiu uma bolsa para cursar um mestrado para roteiristas na Universidade Autónoma. “Analisávamos filme atrás de filme, sempre do ponto de vista do roteirista.”
Arranjou emprego numa produtora, escrevia documentários com um espanhol mais ou menos aceitável, até que chegou o verão e a Espanha parou. Os trabalhos foram caindo um a um. “Havia muito desemprego”, lembra, “25% da população ativa não tinha trabalho.” O dinheiro minguou e o aluguel virou problema. O casal terminou seus dias sin plata, numa aldeia de duzentos habitantes perto de um vilarejo chamado León, a trezentos quilômetros da capital. “Não havia nada para fazer ali, mas foram meses de muita felicidade.”
Lá, Bráulio descobriu o ócio criativo. Leu quase todas as peças de August Strindberg e teve tempo para se dedicar a si mesmo. Influenciado pelo dramaturgo sueco, escreveu uma peça com o estranho título de Menecma. “É um sinônimo obscuro da palavra ‘sósia’; vem de uma comédia de Plauto, nunca li a comédia; achei a palavra por acaso no dicionário.” Poucos amigos leram esse texto, mas Menecma seria vital para a carreira do autor.
Em 1992, o casal fez as malas e o Carijó voltou para a Sé.
Além da peça de teatro, Bráulio tem um romance inacabado na prateleira, mas só investe em uma coisa de cada vez. “Acho que sou ‘mono’, não consigo trabalhar para os outros e para mim ao mesmo tempo.” Ele parte sempre de uma determinada situação e vê aonde a história vai levar. Nunca imagina o roteiro de cabo a rabo. As improvisações o ensinaram a se colocar na pele dos outros e jogar. Sua técnica deve muito ao teatro.
Ao retornar de Madri, Fernando Meirelles leu Menecma e o chamou para ser o roteirista de Cidade de Deus. “O Fernando foi muito corajoso de me chamar, eu nunca tinha escrito um longa”, reconhece.
Bráulio se lançou num métier para o qual não havia demanda. Com raras exceções — Leopoldo Serran, Jorge Durán —, os diretores roteirizavam seus próprios filmes. “Sempre me pareceu estranho servir apenas de veículo para a vontade do diretor.”
O encontro de Bráulio com Fernando lembra o de Walter Salles e Daniela Thomas, em Terra estrangeira. A nova geração de cineastas, que despontou após a hecatombe da Embrafilme, aprendeu a fazer filmes pelas beiradas. A Video Filmes, de Walter, e a O2, de Fernando, produziam programas de televisão, documentários e comerciais, mas faltava aos dois a experiência em dramaturgia. Daniela e Bráulio conheciam o processo de criação teatral e desenvolveram métodos de ensaios de mesa e participação do elenco no ajuste fino dos tratamentos.
A tradição iconoclasta, simbólica, a síndrome de explicar o país, deu lugar a um cinema ligado à trama, à pequena parábola humana que, se bem contada, serve de exemplo para a experiência universal. Adeus, Clóvis Bornay de Pedro Álvares Cabral, adeus, mulheres nuas correndo sem razão por praias desertas.
Nos rendemos ao realismo.
Cidade de Deus é a tradução de um cinema maduro, com história, atores, diretor, fotografia, montagem. É um filme livre, apesar das amarras, que introduziu a favela como cenário simbólico, no lugar do sertão do Cinema Novo.
“Rrronalldínio!”, “Kakaaa!”, “Rrroubínio!”, disse o motorista de táxi londrino, depois de indagar sobre o meu país de origem. Ele era de Gana, adorava futebol, mas quando descobriu que eu era atriz, mandou na lata: “City of God! City of God!”.
Bráulio e Fernando Meirelles retomariam a parceria num filme chamado Intolerância. Ele revela que tem orgulho de ter concluído o roteiro complexo, passado em diversas partes do mundo. Mas, no cassino Hollywood, a lei de oferta e procura é tamanha, que é comum ver ideias parecidas surgirem simultaneamente, em projetos diferentes. O livro de Truman Capote A sangue-frio ganhou duas versões recentes: Capote e Infamous. Com Intolerância aconteceu o mesmo. Um ano depois do roteiro pronto — enquanto Meirelles rodava O jardineiro fiel — três outras películas, Syriana, Paradise Now e Babel, entraram em produção. “Se você juntar os três e colocar ao lado do Intolerância, pode até achar que é plágio”, diz. O projeto foi adiado indefinidamente.
O mesmo aconteceu com um drama de ação que lhe foi encomendado por Brad Pitt, sobre a história verdadeira de dois contrabandistas americanos de diamantes, perdidos na guerra civil de Serra Leoa. No meio do desenvolvimento, descobriu-se que havia outro filme sobre o mesmo tema circulando pelos estúdios.
“Durante um ano, competi com esse roteiro que já estava pronto”, conta. E só foi adiante porque os produtores acreditavam que, além de Pitt, tinham na mão uma história melhor que a do concorrente. “Só fizeram uma ressalva. Disseram que os personagens africanos estavam estupendos, mas que os americanos eram muito estereotipados.” Enquanto reescrevia, recebeu a notícia de que Leonardo DiCaprio havia aceitado o papel em Diamante de sangue. O projeto com Brad Pitt foi parar na gaveta.
Criar americanos estereotipados é um problema sério para quem tem chances na indústria internacional. Bráulio já escreveu em inglês, catando palavra em dicionário, mas aprendeu a lição: “Escrevo em português e mando traduzir”. Mas a questão vai além do domínio do idioma. “Quando disseram que meus americanos eram estereotipados, eu não tinha nenhuma ideia do que fazer para humanizá-los.”
É o estranhamento entre a visão de cada povo; a barreira invisível que separa uma cultura da outra.
Bráulio é um dos poucos brasileiros com chance de emprego fora. Diz estar numa “posição marginal bastante confortável”, a mesma que o deixou relaxado na fila D do Dorothy Chandler Pavilion. Ele tem prestígio, mas não é uma estrela. Recebe propostas de filmes gauches, justamente os que o interessam.
“Há muita gente inteligente e culta em Hollywood, pessoas que querem fazer algo além do filme-pipoca”, afirma. Quando trabalha para um estúdio, dá-se o direito de correr riscos, de ousar na narrativa, porque, na maioria das vezes, os projetos são pequenos, com menos exigências comerciais. “Ninguém arriscaria muitos dólares em um roteiro meu. A minha vantagem em Hollywood é não querer ser um roteirista de Hollywood.”
Em fevereiro, a Variety publicou uma nota contando que a Universal Pictures e a Imagine Entertainment contrataram Bráulio para escrever um guião, baseado num artigo publicado na revista Esquire, sobre o ataque de rebeldes tchetchenos a uma escola em Beslan, na Rússia. Será falado em russo e em tchetcheno, com atores amadores e nenhum astro internacional. O diretor Oliver Hirschbiegel é o mesmo de A queda. “Ele é um cara tão legal quanto o Fernando”, diz, e é o que parece importar.
“Bráulio”, como se sabe, é um dos apelidos do pinto. Coisa chata. “Sofri muito na adolescência.” Quando o Ministério da Saúde lançou uma campanha de camisinha em que o falo era explicitamente chamado de “Bráulio”, a Folha de S.Paulo telefonou para vários Bráulios, para saber o tamanho do inconveniente, mas o trauma já havia sido superado. “Eu sou um roteirista cara de pau, que bota o pau na mesa e é pau pra toda obra.” Para este perfil, ele sugeriu uma foto em nu frontal: “Dois Bráulios em um”.
O Bráulio é Pau Brasil.