Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 19 de 45

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Sete anos

Pecado mortal

9 de agosto de 2013

Pecado mortal

 

Voltei de viagem. Como é bom voltar de viagem.

Trocaram as maçanetas da casa na minha ausência. As antigas rangiam, saíam na mão, eram ejetadas para longe num simples fechar de porta. Com as novas, passeio pelos cômodos, entro e saio só para testar o engenho. A humanidade caminhou muito, basta comparar as maçanetas de hoje com as de outrora.

Três milhões de peregrinos lotavam a praia de Copacabana para ver o Santo Padre e eu agradecida às maçanetas. Deus perdoa. É a carne.

Terminei de ler Os miseráveis pouco antes de embarcar; no estrangeiro, ouvi relatos sobre as barricadas do Leblon. A palavra “barricada” me remeteu ao pivete Gavroche, a Marius e Javert, mas o rosto dos incendiários do Leblon permanecia desconhecido para mim.

Cabral abusou do direito de ir e vir de helicóptero, da intimidade com o setor privado, houve descontrole da polícia nos enfrentamentos com os manifestantes, além de acasos e tragédias que levaram à vigília eterna de sua residência. Como se não bastasse, o desaparecimento do pedreiro Amarildo veio agravar o quadro de rejeição.

Mas foi sob o comando de Cabral que José Mariano Beltrame implantou uma estratégia de reocupação de vastas áreas dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro. Algo impensável, desde os tempos de Brizola. A atitude lhe valeu uma reeleição folgada.

A arrogância pela esmagadora vitória, somada aos desvios citados, contribuiu para o caos do Leblon. Mas surpreende que “Fora Cabral” se transforme em palavra de ordem na capital paulista.

Há décadas, a riqueza exponencial tornou São Paulo indiferente às mazelas políticas da Guanabara. E elas não foram poucas. Jamais presenciei um “Fora Garotinho”, “Rosinha” ou “Brizola” ali. O que acontece na Bahia, em Pernambuco, Minas e Goiás tem mais relevância para São Paulo do que as agruras da faixa de Gaza do vizinho.

De repente, “Fora Cabral” vira slogan na garoa. Quem carrega o andor? É impressão minha ou houve uma mudança radical no perfil das manifestações?

As novas mídias viabilizaram a insurreição súbita das massas. Agora, a política ajusta os métodos, criando partidos de Anonymous a serviço precisa saber de quem. Está difícil distinguir o que é espontâneo do que é orquestrado.

Na primeira vez em que vi na televisão o nome de Sérgio Cabral surgir ao lado do de Geraldo Alckmin, esperei pelo esquadrão anti-Haddad, mas ele não apareceu. Estranhei. Ninguém vai pedir o pescoço do prefeito?

Ainda presa ao apartidarismo das passeatas de julho, achei que o repúdio amplo, geral e irrestrito continuaria vigorando. No lugar do nome de Renan Calheiros, um senador da República nacionalmente chamuscado, reluzia o de Sérgio Cabral. E Haddad, que, se não me engano, figurou nas primeiras revoltas, estava com a cabeça a salvo.

Quem afia a guilhotina?

Sérgio Cabral foi o melhor governador que o Rio elegeu em décadas — o que não é muito, quando se pensa nos anteriores, mas foi um avanço. Hoje, um ano antes de encerrar o segundo mandato, enfrenta a danação bíblica pela soberba e usura.

O revelador encontro que travou com o papa daria uma pantomima medieval. A Virtude e o Poder, algo assim.

O voto de simplicidade de Francisco se opõe à idolatria do dinheiro, pregada nos quatro cantos, Vaticano inclusive. “Há santos na Cúria”, afirma o papa, e prova que há, sendo.

Francisco foi eleito em meio a tormentas internas e externas da Igreja, numa Europa em recessão desde 2008. Como poucos, soube, através de ações práticas, traçar uma conduta moral para os que detêm o poder em tempos de crise.

Aqui, e especialmente na Guanabara, vivia-se a euforia da promessa do capital. Trocávamos as maçanetas, os carros, as geladeiras, construíamos estádios. A percepção do retrocesso econômico aconteceu antes do previsto na população e flagrou os governantes ajoelhados aos pés do bezerro de ouro.

Cabral é a Cúria que Francisco pretende reformar. Mesmo ungido, o governador deverá arder no inferno por, ao menos, mais um ano; ou até que outro venha a assumir o papel de Judas. Enquanto isso, Garotinho sobe nas pesquisas de intenção de voto.

A política é um pecado mortal.