Sete anos
Leila
31 de agosto de 2012
Leila
Quando comecei, uma das motivações que levavam uma atriz a posar nua, além do cachê, era dar provas de ser uma mulher desejada, com coragem suficiente para estar à frente de seu tempo. Heranças de Leila Diniz.
Os nus de hoje chocariam o mais avançado apreciador de então. Há vinte anos, close de rego e lábios, só nas impressões hard-core.
Leila não faria.
A mudança reduziu a presença das divas nas páginas das revistas masculinas. Mais pudicas do que as profissionais do ramo, com raras e louváveis exceções, costumam produzir ensaios mornos, café com leite.
Com a explosão da indústria do sexo explícito, algo parecido ocorreu nas telas. O novo gênero livrou o cinema da obrigação de causar ereções. A distância criada entre a arte e o varejo simplificou o dilema do ser ou não ser Leila Diniz.
Sempre achei que havia uma linha definida entre a mecânica pura do pau-na-buça e o soft pornô intelectual made in Brazil. Mas, num fim de domingo besta, zapeando na TV, encontrei, no Canal Brasil, é claro, um tesouro da arqueologia. O elo perdido entre a pornochanchada e a pornografia.
Mulheres desnudas riam endiabradas em meio à folhagem de um jardim tropical; algumas bem à vontade, outras nem tanto. Lascivas, abandonavam a mata para atacar um homem de cabelos fartos e barriga descomunal, também pelado, sentado à beira de uma fonte. Numa bacanal angustiante, as possessas empurravam o mastodonte para a água, afogando-o entre guinchos e gargalhadas. Tratava-se de um pesadelo de Carlos Imperial.
Ele, um viúvo deflorador de virgens, vivia consumido entre a perdição do sexo e a culpa pela esposa defunta. As diabas, enviadas pela morta, vinham arrastá-lo para o além.
Em meio à tormenta, o herói seguia o destino de pecador, persuadindo a tia a permanecer no andar de baixo, enquanto subia ao quarto para se deleitar com a sobrinha donzela.
Defendido pela pança, Imperial metia as caras numa xoxota peluda, comum na década de 1970 mas pré-histórica para os padrões atuais. A cabeleira púbica, única barreira a defender a mucosa íntima da panorâmica, se confundia com as madeixas de Imperial. Sentada sobre a fronte do colega, a atriz fingia gostar, mal escondendo a vontade de se ver livre da cena.
Foi chocante. O Imperial é um personagem da minha infância, eu não sabia que ele havia chegado a tanto. Na derradeira cavalgada, a mal dublada falecida gritava sobre a montanha de banha: “Vem, Augusto, goza comigo!”. Augusto obedecia e morria de amor.
Como peguei no meio, não entendi se o fim era feliz ou triste. Se a fantasma levava o canalha para as chamas do inferno, ou se o filme era um elogio culpado ao amor conjugal. Não importa: o que impressionava era o arrojo sexual. A obra do Imperial é a fronteira final, o estertor da mistura da Boca do Lixo com o cinema cabeça. A quase pornografia.
Leila não faria.
Ganhei um livro do Roland Barthes chamado Mitologias. Barthes abre os trabalhos com um capítulo sobre o telecatch, que ele não chama de luta, mas de pantomima sobre a moral e a justiça. O filme do Imperial não deixa de ter a mesma ambição.
Carlos Imperial teria uma carreira brilhante nos ringues. A encarnação da escrotidão humana. Despido sobre o colchão, assustador debaixo da luz chapada, o tarado personifica a vitória da carne sobre o espírito.
Dali para a frente, só a fornicação.
O julgamento do mensalão é outro divisor de águas.
Diante das acusações de venda de voto, o caixa dois se apresenta como prova de inocência. O custoso marketing eleitoral empurrou a política para essa encruzilhada.
O Supremo enfrenta a mesma questão da comediante, a de conseguir separar o que é arte do que é exploração; no caso, o que é política do que é falta de decoro, ou crime.
É preciso estar atento para o que Leila não faria.