Sete anos
Caos
25 de novembro de 2010
Caos
O embaixador do México quis aprender a tocar cavaquinho antes de deixar o Brasil. Acabou desistindo quando descobriu que não há partitura fiel ao dedilhado dos virtuosos. Cavaquinho se aprende no convívio. Na despedida, o embaixador confessou que o Rio de Janeiro era como o cavaquinho, a prática não tinha nada a ver com a teoria.
Há dois anos, quando um gaúcho da civilizada paragem de Santa Maria, José Mariano Beltrame, aceitou chefiar a Secretaria de Segurança da ex-Guanabara, não houve um amigo que não o parabenizasse para, em seguida, lamentar a dor de cabeça que, bar-ba-ri-da-de!, o conterrâneo formado em direito, administração e inteligência estratégica estava prestes a enfrentar.
Cabe à polícia lidar com as contradições da sociedade. No Rio, elas são infinitas. O Rio é a capital universal da informalidade.
O jogo do bicho, por exemplo, é uma tradição centenária. Não conheço ninguém que já não tenha feito sua fezinha. Os anotadores de apostas estão em cada esquina, inclusive na da Secretaria de Segurança, no Centro, apesar de ser uma atividade ilegal. Ninguém acha justo prender o tiozinho da banca; mas quando se pensa nos grandes bicheiros, o jogo não parece uma atividade tão inofensiva assim.
Os empresários do bicho se organizam em feudos fortemente armados que movimentam somas polpudas sem pagar um centavo de imposto, ajudam a corromper a polícia e incluíram os caça-níqueis — ligados às milícias — no cardápio de seus interesses. Por outro lado, as escolas de samba, patrimônio cultural e turístico, são financiadas por eles, o que os torna figuras folclóricas da cidade.
Como deve agir a polícia diante do vespeiro de pecadores leves e grandes contraventores?
Se a sociedade em peso deseja sonhar com o coelho e apostar na cobra, por que o bicho é proibido? Por que a Mega-Sena pode e o bicho, não? Talvez porque molhar a mão de um policial saia mais barato do que encarar o fisco. A informalidade gera violência, desordem e dividendos.
Os vinte anos de populismo carioca e assistencialismo eleitoreiro criaram centenas de zonas abandonadas pelo Estado e ocupadas por poderes paralelos. São décadas ao largo da lei.
Quando José Mariano assumiu, os problemas eram tamanhos que o secretário centrou seu plano de ação na questão territorial. Seu objetivo é a reintegração de posse de áreas que, esquecidas pelo poder público, foram tomadas pelas três principais facções mantidas pelo tráfico.
Sua estratégia é das mais antigas: após dominada uma pequena área, duplas de policiais, os cosmes e damiões, ocupam o local em caráter permanente. Conquista-se rua a rua, bairro a bairro, favela a favela.
Na Cidade de Deus, Beltrame se chocou com o lixo e os porcos convivendo com as crianças. Nos postes de luz apagados, viam-se fotos e fotos de deputados e vereadores com seus números no TRE.
O secretário é um caso raro de político mais interessado em problemas concretos do que nos lucros eleitorais de suas ações. Ele se refere à ocupação do Complexo do Alemão como a reconquista da Normandia e tem vontade de anunciar o dia e a hora de sua chegada para que os bandidos recuem sem tiros. Ouvindo-o falar, parece até possível.
Perguntado sobre medidas de segurança nacional, Beltrame responde com a mesma objetividade. A União reserva fatias de sua arrecadação para investir diretamente em educação e saúde, mas a segurança pública não recebe nada do governo federal. Cada estado depende dos próprios cofres para remunerar o contingente. Beltrame defende, entre outras prioridades, que uma parte do orçamento da União seja reservada para a segurança dos estados.
Apesar do sucesso das UPPs, o secretário sabe que a polícia não age sobre as causas da tragédia social nem tem poder de preencher o vazio deixado pelo tráfico. Cabe agora aos outros setores do Estado ocupar a lacuna socioeconômica deixada pelo desmantelamento do poder paralelo. É preciso entrar com educação, saúde, transporte, cultura, lazer e esporte; criar perspectiva de futuro para uma população discriminada e mal preparada.
Se as chances de emprego para um rapaz branco, de classe média, que teve acesso à escola já são duvidosas, imagina as de um menino negro e semialfabetizado num sistema de aprovação automática?
Estudos populacionais garantem que cidades compostas de jovens rapazes desocupados enfrentam um nível de testosterona ocioso que se transforma em agressão, briga, roubo e baderna. Junte-se a isso a miséria e está pronto o coquetel molotov. Mas a falta de perspectiva não é problema de Beltrame.
O secretário caminha na fina linha que separa a eficiência do abuso. A lei, muitas vezes, age contra; mas sem a lei, ele reconhece, seria muito pior.
Nas prisões de segurança máxima, os advogados são os pombos-correios das vontades dos traficantes. O direito à privacidade não permite a gravação de conversas entre um advogado e seu cliente, mas esse direito propicia o comando de ações terroristas fora dos muros dos presídios.
Na manhã em que eu me encontrei com Beltrame, o Rio estava sofrendo uma onda planejada de arrastões que perduraria até o dia seguinte. Os chefes do tráfico, expulsos das favelas tomadas pelas UPPs, acreditavam que a nova política linha-dura seria substituída após a eleição, mas a população votou em peso pela continuidade. Eles estão revidando.
Além da guerra anunciada, Beltrame lida com crimes de colarinho-branco e sonegação de impostos que esbarram, com frequência, em deputados no Congresso que se locupletam com a morosidade e a indulgência da Justiça no Brasil.
Depois de investigar e prender um vereador miliciano, Beltrame viu a assembleia livrá-lo da cassação porque o político alegou justa causa para sua ausência: ele estava preso.
A polícia não vai dar jeito na injustiça e na desigualdade, mas, talvez, ela possa diminuir a impunidade.