Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 33 de 45

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Sete anos

Coutinho

4 de fevereiro de 2014

Coutinho

 

Conheci Eduardo Coutinho em 2003, no laboratório de roteiros que o Festival de Sundance promoveu, em parceria com o Sesc de São Paulo. O Redentor não teve a sorte de contar com ele como analista, mas o sistema de imersão tratou de nos aproximar. Convivíamos nas horas vagas, nos longos jantares onde todos disputavam a sua atenção.

Coutinho já era o autor de Cabra marcado para morrer e Edifício Master, mas o que encantava eram o mau humor persistente, a magreza de santo, o cigarro inseparável e a ironia fina.

Uma noite, a conversa evoluiu para Tchékhov. Eu contei que havia feito uma adaptação de A gaivota que jamais funcionou a contento, depois de levantada a cortina. “Nossa melhor apresentação”, confessei, “foi um ensaio geral, antes de botarmos os pés no teatro.”

“Tchékhov não foi feito para estrear”, disse ele com razão.

Anos mais tarde, Coutinho me convidaria para participar de Jogo de cena — documentário que explora a fronteira entre o falso e o verdadeiro. Nele, atrizes e mulheres comuns se alternam narrando umas as histórias das outras.

Duvidei da minha capacidade de chegar a um resultado aceitável desde o dia em que recebi o material. Era uma batalha perdida, atingir uma interpretação convincente de um depoimento que se mostrava tão fresco, e próprio, na boca de quem o viveu.

O fato de ser uma atriz conhecida depunha contra. Era mentira porque partia de mim, alguém que vivia de fingir. Mesmo descrente, me empenhei na tarefa. No dia marcado, dirigi até o teatro onde Coutinho filmava os depoimentos.

Esperei no camarim, ele disse que me chamaria com a câmera já valendo. Subi as escadas concentrada e sentei na cadeira em frente à câmera em estado de representação.

Coutinho soltou uma exclamação em tom alto: “Nossa, você falou igual a ela”. Eu tentei seguir em frente, mas ele insistiu em me chamar pelo meu nome. Pânico.

Coutinho não percebeu e continuou a me perguntar sobre o melhor lugar para ele se posicionar, mencionou a sua falta de jeito, pediu que eu dissesse a hora de começar, mas a hora já havia passado. Esfriei. Não teve mais volta.

Tentei atacar a fala, mas um diabo insistente me sussurrava no ouvido: “É mentira!”. Parei. Foi melhor parar, admitir que eu não acreditava no que estava dizendo. Tirei zero na prova.

Como velho comunista que era, acho que Coutinho, embora carinhoso, guardava certas reservas com relação a pessoas como eu. Ele usava palavras como “estrela” e “celebridade” para me definir. Era bastante sedutor, apesar de tímido, e muitas vezes cruel nas observações.

Ele me mostrou o material com grande ansiedade, tinha receio de que eu não liberasse, que ficasse ofendida, ou tivesse problemas de me revelar frágil. Reagiu aliviado e surpreso quando viu que eu não criaria problemas.

Fiel ao que ouvi dele no laboratório do Sundance — que Tchékhov não foi feito para estrear —, aceitei tornar público o aperto. Coutinho eternizou o torturante ensaio. Na maior parte do tempo, é naquele estado que os atores vivem.

Eu sempre achei que a trava dele com o mundo, a inadequação confessa, a dedicação ao fumo, o olhar severo ainda que humorado, fosse herança da esquerda. Como também achei que o cigarro o mataria.

Nem uma coisa nem outra. A realidade, como nos seus melhores filmes, superou a ficção.