Sete anos
Dória
10 de novembro de 2013
Dória
Jorge Dória desvirtuou Fernando Torres. Foi ele que arrancou o meu pai da faculdade de medicina e apresentou-o ao teatro e à boemia.
Quando meus pais se casaram, em 1953, Fernando partiu em turnê com a companhia de Eva Todor e Fernanda ficou no Rio. A saudade o fazia datilografar compulsivamente, o que lhe valeu o apelido de Taradinho Underwood, dado por Dória.
Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Sérgio, Ítalo, Zanoni Ferrite, Barbara Heliodora, são pessoas com quem convivo e convivi por osmose. Tenho por eles um apreço que atravessa os seus feitos como artistas; são parentes, são de casa.
A genialidade do Dória é intraduzível. Era um louco devasso, tio, amigo fiel. Jamais esqueci da sua descrição da visão de Íris Bruzzi — sua mulher de então — montada num trator no sítio deles. As coxas na engrenagem, a loura ideal, a mulher da terra; a suculência era tamanha que o instante me ficou marcado como se eu o tivesse presenciado.
Trabalhamos juntos na TV. Esperávamos para gravar um take dentro de um carro, enquanto uma atriz, que havia sido um fenômeno de beleza, atravessava a rua em frente. Dória esperou que ela ensaiasse uma, duas vezes, até que, na falta de um amigo homem, soltou:
“Essa foi uma que embruacou.”
Continuamos mudos após o comentário. Eu, de certa forma, orgulhosa pelo fato de o mentor do meu pai segredar uma cafajestice tão sem cerimônia para mim.
Mas era em cena que a loucura de Jorge Dória reinava absoluta.
Em Escola de mulheres, vi-o aproximar-se do proscênio e dizer: “Ali é a minha casa”, enquanto apontava para o fundo da plateia, indicando o local.
Em vez de dar continuidade ao solilóquio, Dória encarou uma senhora na primeira fila e, após uma pausa estratégica, atacou:
“Não, minha senhora, ali não é a minha casa. Isto é teatro. Quando eu indico o fundo não quer dizer que a minha casa esteja lá. Não precisa se virar, basta a senhora imaginar que a minha casa está lá.”
Usando a espectadora de escada, Dória avançou num improviso bestial. A peça parou por bons cinco minutos para discutir a questão do ser ou não ser, do existir, ou não, a suposta casa.
O leão gostava de deixar Molière à espera.
Na peça, o terror dos maridos de Paris, Arnolfo, temendo a cornidão do casamento, cria uma virgem pura com quem pretende se casar. Na versão brasileira, Dória embalava a inocente Inês num balanço que caía do urdimento. Era bonito. O que o público não percebia é que, a cada balançada, Dória aproveitava para passar a mão na bunda da jovem atriz. Virou marca. Depois, ele partiu para o improviso. A pobre foi à loucura. Literalmente. Largou o espetáculo e se internou num sanatório.
Dois atores desistiram da fera, durante a temporada de O tributo. Kiko Mascarenhas assumiu o papel de Jud — Júlio na tradução —, filho de Dória. Em dada cena, Scott Templeton — virou Peter em português —, o pai, mostrava ao rapaz o álbum de fotografias da família.
“Esta é mamãe no alpendre com tio José e as meninas”, dizia ele, apontando para uma fotografia, “e esta é vovó e tio Carmelo a cavalo, na casa de tia Juquinha.”
O detalhe extraordinário é que o próprio Dória recortara imagens pesadíssimas de orgias e bacanais, de troca-trocas e felações, de sodomias e taras que fariam corar o mais liberto dos homens, e grudara nas páginas. Kiko, o único a enxergar as safadezas, desenvolveu uma técnica para controlar o riso. Ele olhava impávido para as vovós e titias e fingia emoção. Quanto mais mantinha a linha, mais Dória baixava o nível da colagem. Um dia, decepcionado com o autocontrole do colega, jogou a toalha.
“Meu filho”, disse, “você não é humano.”
Em A presidenta, vestindo tailleur à moda Dilma, Dória se queixava das atribulações do cargo. De repente, sem avisar, começava a dar detalhes das lavagens íntimas no bidê. Dizia que gostava de colocar as partes no sol da manhã, falava dos benefícios da prática. Aos poucos, ia levando o público a um estado de gozo ininterrupto.
Domingos de Oliveira — que o dirigiu em Escola de mulheres — diz que Dória ambicionava não o riso, mas o frouxo. Ondas de deleite contínuo. A submissão completa do espectador.
Celso Nunes mandou uma carta para minha mãe lamentando a morte do mito. Nela, lembrava um encontro que tiveram para convidar Jorge para fazer o primo escroque de Seria cômico se não fosse sério. O gênio preparou uma blague, disse que tinha vindo para o teste e tirou de uma mala diversos bigodes, barbas e perucas. Diante de um Celso, uma Fernanda e um Fernando boquiabertos, listou as ene possibilidades do papel, trocando de cabelo a cada investida.
Dória era Gassman, Procópio, Matthau e Tognazzi juntos.
Não tinha, e não tem, pra ninguém.