Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 10 de 45

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Sete anos

Folhetim

14 de junho de 2013

Folhetim

 

É voz corrente que o melhor da dramaturgia americana se encontra, hoje, na televisão. O custo estratosférico da sétima arte eliminou o risco do grand écran. Com raras exceções, os filmes seguem uma receita previsível de explosões, risos, tiros e romance, capaz de atrair o gosto médio do espectador.

O legado de diretores autorais como Scorsese, Cassavetes, Coppola, Kubrick e Polanski, quem diria, vingou como produto não no cinema independente, mas nos seriados de TV.

O fim do celuloide destruiu a fronteira que separava o vídeo do cinema. Prevaleceu o vídeo. O detalhe técnico influenciou o processo criativo. O cinema privilegiou o artifício dos efeitos especiais, enquanto a TV se livrou da inferioridade artística, abandonando a herança da radionovela, erguendo a quarta parede e tirando as câmeras da boca de cena.

Um piloto para televisão tem um custo muito menor que o de um longa. Apostam-se menos fichas e, em caso de acerto, os dividendos se perpetuam durante infinitas temporadas.

A balança comercial favorável libertou a autoria. Breaking Bad, Família Soprano e House of Cards são obras que, apesar de experimentais, virulentas e amorais, obtiveram êxito de audiência.

O longa A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, baseia-se nos fatos reais que levaram à captura de Osama bin Laden, mas a paranoia novelesca de Homeland traduz melhor a realidade da América. Claire Danes, a agente bipolar, encarna o parafuso persecutório da segurança pública, enquanto o herói de guerra, depois de sofrer uma lavagem cerebral do Jihad, descobre Deus em Alá. É um enfoque bem mais instigante do que o da caça ao tesouro de Bigelow.

House of Cards se inspira em Shakespeare para traçar o perfil do Congresso americano. Kevin Spacey faz apartes para a câmera com a elegância de Ricardo III. A relação entre os políticos e a imprensa, as ONGs e as campanhas eleitorais, a ganância da distribuição de cargos, a manipulação da opinião pública, tudo é revelado com clareza educativa.

Impossível assistir a House of Cards sem se perguntar o porquê de a política ser um tema tão bissexto na dramaturgia nacional. As pesquisas de opinião afirmam que o brasileiro rejeita o mote, mas será que a aversão não se deve à falta de obras relevantes sobre o assunto?

Por que não retratamos o Congresso à maneira dos americanos, seja para enaltecê-lo, seja para dissecá-lo? A ditadura não ajudou, mas o que nos impede agora?

O Estado tutela a produção cultural do Brasil. As TVs são concessões públicas dependentes da boa relação com o Planalto. Seja lá o partido que ocupe o trono, é preciso manter um bom diálogo para ver seu direito de transmissão assegurado. E o cinema, assim como o teatro, se sustenta graças à renúncia fiscal.

José Padilha promete, no último plano de Tropa de Elite 2, chegar a Brasília na sequência da série. O êxito da franquia brinda com esse tipo de liberdade. Mas o tema mereceria o horário nobre da TV, com longos meses para desenvolver a saga de cada facção, cada secretária, cada adjunto de ministro e cada ministro.

Os americanos atingiram um grau de maturidade cívica que lhes permite falar do exercício do poder sem se comprometer com este ou aquele partido. Aqui, parece impossível tocar no assunto sem ofender as partes. Ainda preservamos a herança pessoal, coronelista.

House of Cards é uma aula prática sobre o poder ministrada por um democrata. A série consegue o feito de revirar o bom partido pelo avesso, sem privilegiar os republicanos. Não há ingenuidade ideológica, divisão entre esquerda e direita, bem e mal. A política segue a sua própria agenda moral, mais próxima de Maquiavel que de Marx ou Adam Smith.

No dia em que a política brasileira virar matéria de ficção, a democracia terá dado um passo importante por aqui.

Caso aconteça o milagre, o PMDB será o partido mais indicado para protagonizar um folhetim dessa natureza. O PMDB exerce a política por excelência; ocupa todos os cargos estratégicos e participa de todas as decisões importantes, ditando a agenda do rei.

O PMDB é o genérico, o caráter puro da política brasileira. Daria um novelão.