Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 12 de 45

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Sete anos

Parecer ser ou não ser

31 de maio de 2010

Parecer ser ou não ser

 

Desde as eleições americanas de 1961, quando Richard Nixon perdeu a disputa para a boniteza de John Kennedy, não basta apenas ser, é preciso parecer ser o candidato que os outros esperam que você seja.

Nesse sentido, é de tirar o chapéu a maneira obstinada como Dilma lidou com as próprias imperfeições. Foram-se os óculos, os sapatos e as roupas; carregaram na maquiagem, suavizaram as rugas, exigiram que aprendesse a sorrir e a quase não se irritar. Como se não bastasse, Dilma enfrentou o tratamento de um linfoma durante a campanha, com uma dignidade rara.

Com os números subindo nas pesquisas, fica a dúvida se o Pigmalião PT se dará por satisfeito com a Galateia. Se depender do entusiasmo do correligionário que gritava no jornal: “A Dilma está linda! Linda!”, não há como superar a perfeição.

O rosto severo de ministra é tão datado, hoje, quanto a foto de sua carteira de identidade dos tempos da ditadura. A insegurança está ficando para trás, junto com a antiga aparência.

Experimentos neurológicos demonstram que um sorriso artificial é capaz de detonar uma real sensação de felicidade; assim como uma carranca infeliz pode causar depressão.

Quando, em 2002, Duda Mendonça criou o Lulinha Paz e Amor, talvez não tivesse consciência do quanto o personagem se apropriaria do dono. Estive com Lula num encontro com artistas, durante a disputa com Fernando Collor. Lula sempre foi carismático, mas parecia fechado, sisudo. Anos mais tarde, logo após a sua eleição, fui apresentar o filme Redentor no Palácio da Alvorada. É claro que o presidente estava aliviado, feliz, vencedor; e é lógico que todos esses sentimentos agiam sobre seu rosto. Mas o que impressionava era a elegância de Lula. A autoestima ajudava, mas também um trato burguês: da pele viçosa ao terno bem cortado, dos cabelos aparados ao tratamento dentário.

Acredito que os artifícios usados em Dilma já estejam agindo no interior da ex-guerrilheira. Me pergunto o que sente ao se olhar no espelho, se se reconhece no que vê. Penso também no que pensaria de si mesma a ex-militante; se compreenderia aos vinte a mulher na qual se transformou aos sessenta. Todo jovem acredita que a divisão entre o falso e o verdadeiro é uma linha definida. Com a idade, descobre-se que essa fronteira não é tão clara assim. A Dilma de antes acreditava na revolução armada, a de agora aceita a tortura fascista do salto alto. É o sinal dos tempos. A democracia midiática no lugar da revolução.

A gente não sabe nada a respeito do porvir.

Serra, talvez, tenha corrigido os dentes, como eu e a maioria das pessoas que conheço, e suavizado as bolsas debaixo dos olhos em recentes candidaturas. Mas para estar à altura da revolução estética realizada pela adversária, teria que tomar medidas drásticas, não sei, implantar uma cabeleira ruiva e chamar a Gisele Bündchen para vice da chapa.