Sete anos
A dança da morte
5 de setembro de 2008
A dança da morte
Seria cômico se não fosse sério, de Friedrich Dürrenmatt, foi o melhor espetáculo teatral que meus pais produziram. Baseada na Dança da morte, do dramaturgo sueco August Strindberg, a peça se passa no princípio do século XX e narra a história de um general aposentado, Edgar, e sua esposa, Alice, que vivem às turras, isolados num farol. Um primo mafioso, depois de cometer alguma falcatrua, se refugia na torre e desassossega a vida do casal por doze vertiginosos rounds. No fim, o cafajeste se manda, devolvendo o par à solidão.
Jamais vou esquecer do meu pai, vestido de general da Primeira Guerra Mundial, executando a dança dos boiardos. Era sensacional. Lá pelo terceiro quarto, Edgar se levantava louco, altivo, e dizia:
“Agora vou dançar a dança dos boiardos!”
E começava uma coreografia ensandecida, meio russa, meio gaúcha, pulando em torno de uma espada no chão. Querendo exibir vigor ao primo escroque da esposa, Edgar dança até o limite das forças e acaba sofrendo um AVC. A peça termina com Edgar numa cadeira, sequelado pelo derrame, e Alice arrumando a casa.
Era de uma beleza terrível, cortante, teatro com T maiúsculo. Quem viu sabe.
E, como com Dionísio não se brinca, havia ali o prenúncio de algo que viria a acontecer com os dois anos depois, só que de maneira mais redentora. Minha mãe cuidaria dele, e ele dela, mais ela dele, por problemas de saúde, no terço final de seus 57 anos de casados. Uma amiga gostava de dizer que meu pai ainda estava vivo porque minha mãe queria assim.
Em 1986, ele sofreu a primeira isquemia, não detectada, durante a representação da tragédia grega Fedra. Meu pai esqueceu o texto em cena e, como a neurologia ainda estava engatinhando, demoramos anos para entender que não era apenas um problema psicológico, mas físico; o início da dança da morte que levaria vinte anos para se realizar.
Meu pai é um mistério tão grande para mim que fica difícil falar dele num artigo. Mas como todo pai é um mistério para os filhos, ao contrário das mães, que são desabridas, arrisco um perfil.
Dono de um humor que seria cômico se não fosse sério, homem doce e sádico, careta e tresloucado, velho e criança, meu pai foi produtor, diretor e ator.
Teve a coragem de largar a medicina, enfrentando o pai — médico e político dos tempos do café com leite —, para seguir uma profissão etérea. A fagulha aconteceu durante o trote da faculdade, na Cinelândia. Ele gritou “Fiat lux!”, e as luzes da praça acenderam numa sincronicidade cósmica.
Devo a ele a curiosidade científica, devo a ele o cinema, a infância, Itaipu, Veneza, Machu Picchu e Buenos Aires. Devo ao meu pai tudo o que sou que não é ser atriz e, certamente, devo a ele a promessa de alguma serenidade diante da velhice e da morte.
Como o Fernando adoeceu há tempos, as lembranças do homem de teatro, do pai jovem e doidão, do barbudo abatido pela censura do Calabar, se misturam com as do Fernando de saúde frágil, com quem convivi no terço final de sua vida. É muito difícil para um filho lidar com a doença de um pai. Por isso, gostaria de agradecer às diversas pessoas que nos ajudaram nesse período: as fisioterapeutas Fernanda e Roberta, os enfermeiros Jorge e Cristiano; e os de casa: Jadir, Rose, Gutman, nossa amada Carmen, que sabem a importância que tiveram. Em especial, a dra. Lúcia Braga, do Hospital Sarah Kubitschek, que deu ao meu pai dez anos a mais de vida, libertando-o de uma medicina desumana, cortando catorze medicamentos e colocando no lugar o teatro, os barcos, o pingue-pongue e a vida; e a dra. Claudia Burlá, geriatra, profissão cuja profundidade eu só fui entender na noite em que meu pai morreu, em casa, conosco, sem tubos ou CTI. A morte do meu pai foi uma experiência tão caseira, apesar do sofrimento e da dor, que me fez, por alguns segundos, achar que esse absurdo que é a morte, afinal de contas, pode fazer parte da vida.
Uma salva de palmas pra ele porque ele merece.