Sete anos
Orgia
28 de setembro de 2012
Orgia
A travessia africana de Carl G. Jung, narrada no livro Memórias, sonhos, reflexões, termina com um embate diplomático nos cafundós do Sudão. Partindo de Mombaça, no Quênia, em direção à nascente do Nilo, a expedição cruza as terras altas dos Massai até atingir o território “dos pretos mais pretos que já conheci”, segundo as palavras do psicólogo e psicanalista.
Cansados, os viajantes se preparam para dormir, quando são surpreendidos por uma dezena de guerreiros armados de lanças. Com medo de um ataque, Jung e os outros trocam oferendas e veem o grupo se retirar. Já na vigília, o suíço escuta uma algazarra do lado de fora da barraca.
São os guerreiros que retornam acompanhados do restante da tribo. Animados, erguem uma imensa fogueira, se dividem em dois círculos — mulheres por dentro e o dos homens por fora — e se põem a dançar freneticamente em torno do fogo.
Aliviados com a recepção amigável, os europeus assistem pasmos à cerimônia imemorial que se estende pela madrugada. Jung comunga do transe nativo, grita, rebola, bebe, e roda o chicote, até que, vencido pelo cansaço, sugere, com tato, uma retirada ao chefe. Mas o cacique responde que não, que eles querem dançar, e manda acelerar o batuque. Outra hora de catarse e nada de o festejo ter fim.
Desesperado de sono, Jung, entre sério e jocoso, ordena com voz de lobo mau que se acabe com a balbúrdia. E arrisca estalar o chicote, numa exibição de força digna de um babuíno. Surpresos com a atitude do estranho, os africanos estancam. Jung receia tê-los ofendido, mas uma gargalhada geral reverbera na selva e os faz retomar o rito. Já sem humor, o branco repete enfático a sua pantomima de insatisfação. O líder, finalmente, entende o recado e comanda a debandada.
O som longínquo da orgia ressoa até a tarde do dia seguinte.
Lembrei-me do causo ao adentrar a ArtRio, feira de arte contemporânea que aconteceu no Rio de Janeiro em meados de setembro.
Sempre gostei de passar as tardes em museus, de ir aos ateliês dos amigos, às galerias e bienais, mas jamais havia estado numa feira de arte. Ao contrário dos exemplos anteriores, todos filtrados por um olhar, do curador, do galerista ou do próprio artista, na feira cabe a você separar o que é arte do que é excesso.
O domingão de sol com as crianças, somado ao calor abafado e à extensão da mostra, proporcionou uma visão distorcida do evento. Os estandes, com divisórias repletas de desenhos, esculturas, pinturas, instalações e vídeos, todos à venda, pareciam uma feira de adoção de animais. Um surto coletivo semelhante ao dos sudaneses de Jung.
As sessões privadas para colecionadores, razão primeira da iniciativa, devem ter causado outra impressão. O real forte e a falta de dinheiro no Primeiro Mundo merecem ser capitalizados, temos que compensar o exílio do Abaporu, mas em meio a tanto de tudo: tanta gente, tanta obra, tanta expressão por metro quadrado, Di Cavalcanti, Mourão, Koons e Barrão se equivaliam pelas paredes.
A instalação do Ernesto Neto na Estação da Leopoldina, onde passei com a família antes de me dirigir ao mercado — um intestino rugoso que digere visitantes a dez metros de altura —, essa, sim, me trouxe contemplação. A feira, não, a feira foi só angústia.
Dentre todas as manifestações artísticas, as artes plásticas são as que melhor se adaptaram aos valores modernos, tão ligados à economia e às massas. O teatro, a literatura, o cinema e a música permanecem órfãos do século XX.
Com vantajosa liquidez, as artes plásticas se transformaram num fenômeno popular comparável à culinária, à moda e à decoração. O luxo para todos. E fizeram isso sem perder o caráter íntimo de seus artistas. Mesmo amontoados, Moore, Hirst, Tarsila e Varejão resistiam sendo Moore, Hirst, Tarsila e Varejão.
Apesar da voracidade e do cheiro de bolha inflacionária da quermesse dominical, comemorei a boa fase da arte no Brasil. Mas tive vontade de rodar o chicote e gritar: “Levem essas obras para casa!”.