Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 18 de 45

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Sete anos

O rebu

12 de julho de 2013

O rebu

 

O quebra-quebra da quinta-feira histórica comia solto na retrospectiva da TV quando foi interrompido pelo intervalo comercial. Um anúncio sobre a inclusão social exibia torcedores de verde e amarelo, a pátria de chuteiras, tomando as ruas a caminho da Copa das Confederações.

Diante da violência do noticiário, a alegria dos figurantes mais parecia uma piada de mau gosto.

A famosa marca de carro seguiu na mesma linha, convocando a população a ocupar as esquinas. Multidões gritavam o gol das telefônicas; todo o planejamento publicitário, realizado com base na cartilha do feliz é quem tem, desafinava no Jornal das Dez.

Lembrei de uma aula do Mobral do Millôr Fernandes, em que a professora primária prima por não ensinar coisa nenhuma. A lição termina com um paradoxo sobre o Brasil: “É, enfim, um país do futuro, sendo que este se aproxima a cada dia que passa”. Passou mais rápido do que eu imaginava.

Um mês antes da Primavera Tropical, eu estava no carro, engarrafada, a caminho não sei do quê, quando os acordes de O guarani anunciaram A Voz do Brasil. A locutora listou os tópicos do dia, com destaque para o Bolsa Mobília. Gente humilde agradecia a chance de trocar os móveis e a televisão. A próxima eleição está resolvida, pensei.

Vale-Consumo, emprego em alta, Eike na Forbes e Anderson campeão invicto, não havia motivo para insatisfação, só indícios. Pouco antes da grita, ouvi uma senhora distinta se referir a Mantega como “Margárina”. Não era um bom sinal. O trocadilho me fez lembrar da descrença jocosa com que tratávamos o Funaro, o Maílson, e do ódio que tínhamos da Zélia. Temi a volta do bicho-papão.

O aparelhamento político das empresas estratégicas, a crise na infraestrutura, o inchaço da máquina governamental, o PIBinho e o retorno do zumbi inflação, até ontem assuntos considerados elitistas, irrelevantes para o perde-ganha do jogo democrático, de repente, se tornaram questões mais que urgentes.

A rede de Anonymous as colocou em pauta, atropelando a versão arco-íris dos tradicionais meios de propaganda: públicos e privados.

As agências de publicidade enfrentam, agora, o desafio de substituir a imagem do consumidor ávido por carro, fogão e geladeira pela do patriota consciente. Terão que moderar o orgulho cívico esportivo com certa dose de engajamento.

A política, tão ligada à propaganda, encara a pressão de, um ano antes da eleição, espelhar a vontade do povo. O problema é que a vontade do povo pede o fim da própria política; ou, pelo menos, da política pela política.

A praça quer mais administração e menos política. A redução dos 39 ministérios — criados para satisfazer alianças partidárias — seria um gesto bem-vindo.

Suspeito do plebiscito redigido a toque de caixa, para ser votado logo e posto em prática já nas próximas eleições. A precipitação tem sido a marca das ações do Planalto.

Nos dias seguintes ao estouro da boiada, aguardei com ansiedade o pronunciamento oficial. Ele veio protocolar. Lamentei que Dilma não tivesse memorizado, ou mesmo escrito, o texto.

A garantia de que estava atenta à voz da nação, e acredito que esteja, esbarrava na leitura pausada e vacilante, no sorriso triste e na falta de convicção do conteúdo da fala. Pareceu discurso de candidato.

Faltou a estadista e sobrou o assessor de marketing.