Sete anos
Páthos
6 de agosto de 2012
Páthos
Tenho fascínio por perdedores. Admiro a invencibilidade chinesa, a americana, mas tendo a torcer pelos fracos.
Nas Olimpíadas de Londres, durante a eliminatória de hipismo, uma amazona japonesa entrou no picadeiro mais levada pelo cavalo do que no comando das rédeas. Não lembro se o conjunto derrubou o primeiro obstáculo, mas na hora de passar pelo segundo, a jovem puxou o freio na hora errada e fez o animal perder o momento. Três paus foram ao chão. Espantada, tentou continuar, mas o bicho refugou, atropelando mais duas traves. Ela parou, afagou o pescoço do animal e foi aplaudida. O gesto significava que assumia a culpa pela performance ruim. Com espírito olímpico, decidiu terminar o circuito. No trajeto, arrastou o que encontrou pela frente. Foi até o fim. O comentarista fez elogios ao cavalo por ele ter sobrevivido à moça. Foi inesquecível.
Na ginástica olímpica, Gabrielle Douglas executou sua série no solo com eficiência cortante, sem tensão ou risco de queda. Segundo informações de coxia, o técnico americano aconselhava as atletas a se divertirem, a have fun, no momento da apresentação. O pior já havia ficado para trás. A menina seguia à risca a vontade do mestre, sorrindo na conclusão de cada diagonal. Por um segundo, a espontaneidade mecânica dos musicais da Broadway iluminava os dentes alvos, como se o have fun fosse a obrigação final dos vencedores da América.
Quando terminou, Douglas estava com o ouro a um palmo do pescoço. A única adversária à altura, a russa Viktoria Komova, teria de superá-la no solo e dificilmente apagaria da memória dos juízes o desequilíbrio grosseiro durante a aterrissagem do cavalo. Douglas passou pela rival a caminho do banco. Não cruzaram o olhar.
A delegação russa vivia o quarto ato de O lago dos cisnes. Um desespero mudo, controlado Deus sabe como, um ódio intempestivo, fazia o peito de Komova arfar. Ela entrou em cena compenetrada.
Deu piruetas aéreas dignas do Ballet Bolshoi. Nenhum have fun. No fun. Komova dançava seu drama injusto: a queda do cavalo, os anos de sacrifício, o ouro merecido que lhe fugia das mãos. Ela oferecia, além da perfeição, o páthos que une a arte ao esporte.
Foi impecável, emocionante. Saiu ovacionada, abraçou o treinador e se juntou à colega, Aliya Mustafina, para aguardar o veredicto. As duas levantaram os braços em prece diante do placar. Pareciam mirar a Virgem. Komova não escondia mais a angústia, rezava. Ao saber que era prata, aceitou resignada a segunda colocação. Foi a grande perdedora da noite. Uma heroína à altura dos melhores romances do século XIX.
Elejo Komova e a amazona japonesa como dois dos pontos altos da competição de 2012. Tragédia e Comédia a serviço do esporte.