Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 42 de 45

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Sete anos

Minotauro

13 de setembro de 2012

Minotauro

 

Sou uma das 15 mil pessoas que vociferam no evento de 27 de agosto do UFC no Rio de Janeiro. Shogun soca a fronte de Forrest Griffin de cima para baixo com todo o peso do corpo; quando cansa, vira a mão de lado em forma de marreta e continua encacetando o opositor inerte.

Sentada ao lado de Álvaro Barreto — mestre de jiu-jítsu formado por Carlos e Hélio Gracie —, escuto o Yoda repetir baixo: “Tem que finalizar… tem que finalizar”. Por “finalizar”, entenda-se “apagar o parceiro de maneira rápida e sem martírio”. Esse, revela Barreto, é o objetivo primeiro do embate. Percebo que o professor não admira chutes e bofetadas. Embora domine todas as artimanhas de ataque, sua predileção são as chaves de pernas e braços. “O sufocamento é o golpe perfeito. Aperta-se o pescoço do adversário até interromper a corrente sanguínea no cérebro. Ele vai à lona antes mesmo de sentir falta de ar.”

Shogun não teve o requinte. Coube ao juiz dar por encerrada a revanche aos 1’53” do primeiro round. Segundo as regras, o árbitro deve intervir quando o que está apanhando para de se defender.

Chega a vez do Minotauro no octógono. Lutador experiente, operou a bacia e poucos acreditam no seu retorno. Brendan Schaub o acerta nas fuças mais de uma vez até que, com uma sequência veloz de bordoadas, o homem-touro nocauteia o adversário, escala as grades e urra para a plebe ignara.

O vale-tudo é o Coliseu romano. A diferença é que, depois de Jesus Cristo, a morte caiu em desuso.

Assisti a uma execução pública na Espanha, onde a tauromaquia resiste intacta. Não era um dia de gala na grande Plaza de Toros, mas não importa. Qualquer tourada de segunda já é capaz de impressionar o leigo. Assim como ensina Barreto, o bom toureador deve matar o monstro sem infligir dor. Se ele perfurar com exatidão o ponto nevrálgico da coluna vertebral do animal, a tonelada arriará como gelatina e a peleja estará concluída com a grandeza de uma obra de arte.

Naquela tarde, nenhuma besta havia tido a sorte de encarar um pelejador talentoso. Na terceira apresentação, o incapaz manejou a capa sem maiores brios, escondendo a espada debaixo do pano, e se encaminhou para o gran finale. Ruim de mira, chamou a fera pra cima uma, duas, três vezes, a cada vez uma estocada, e nada de o boi cair.

A arquibancada ecoou em vaias.

Atrás de mim, quatro senhorzinhos espanhóis observavam a carnificina enojados. Um deles não aguentou e berrou para quem quisesse ouvir: “Dá um rifle pra ele!”. Quando o mastodonte por fim desabou, a turba arremessou as almofadas dos assentos no picadeiro. O mártir foi amarrado pelo chifre a uma carroça e arrastado em volta olímpica sob ovação da plateia.

Na hora, me lembrei da resposta da professora de religião a quem perguntei se era pecado assassinar borboletas: “Não, minha filha, mas mata rápido”.

O apagão fulminante é o ato de misericórdia, a prova de civilidade do guerreiro.

Que o diga o bailarino Anderson Silva.