Sete anos

Fernanda Torres · Capítulo 4 de 45

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Sete anos

Ben-Hur

dezembro de 2012

Ben-Hur

 

Eu sei que não é de bom-tom gostar de Charlton Heston. Mas como controlar as impressões de infância? Amo Charlton Heston à loucura, especialmente a fase bíblica e a sua filmografia niilista, pós-Guerra-Fria, comendo Soylent Green e apanhando no Planeta dos macacos.

Revi Ben-Hur com meu filho pequeno. Os olhos nórdicos de Heston brilharam na tela, em contraste com a morenice do Crescente Fértil. O corpo musculoso arqueou, colapsando a cabeça sobre o peito, enquanto elevava a corcova para sustentar o peso do sofrimento humano. Heston se contorce quando ama e quando odeia, deslocando-se em câmera lenta, como se o ar fosse feito de gelatina.

São cenas de uma dificuldade ímpar para o intérprete. Entremear o texto com pausas solenes, reagir em big close à notícia de que a mãe e a irmã contraíram lepra na masmorra, exibir-se de tanga, acorrentado ao remo, e conduzindo a biga. A biga! Quem, da Royal Shakespeare Company, chicotearia os cavalos com a dramaticidade de Heston?

A representação mais poética que o cinema já produziu do mito da caverna de Platão está em Ben-Hur. Do fundo escuro da gruta dos leprosos, uma gigantesca boca negra mostra uma paisagem ao sol. Ela permanece estática, como nuvem, em contraste com a moldura da cova. A mãe balbucia um “tenho medo”, enquanto a futura nora a encaminha em direção ao paraíso. “O mundo é muito mais do que se vê”, assegura Esther.

Chorei e emendei com Os dez mandamentos, onde o saiote egípcio e a peruca em tufo lateral não favorecem o ianque. Yul Brynner leva vantagem em trajes típicos. Mas o anacronismo vai além das vestes. As convicções pessoais do astro contradizem o discurso misericordioso de seus personagens. A águia romana fez ninho na América, e Heston, bélico e republicano, encarna seu poderio. Ele é mais alto e atlético do que todos os figurantes a quem chama de sua gente.

Após o fim da Segunda Guerra, os americanos foram elevados à condição de escolhidos de Deus. Heston encarna Judá — o príncipe hebreu com talento para ser Moisés — com a certeza de que representa o bem e a justiça. Mas a potência que ajudou a Europa a derrotar Hitler arrasou Hiroshima com a mesma determinação das legiões e exportou o American way of life à maneira de Roma.

Em A vida de Brian — obra-prima do Monty Python —, radicais palestinos debatem sobre a vilania do Império de César. “O que Roma nos deu?”, indaga um revolucionário. “Estradas”, responde alguém. “Fora isso”, insiste o revoltado. “E aquedutos!”, completa um segundo. “Arquitetura! Saneamento básico, educação, progresso! A arte e os banhos!” A lista não tem fim.

O movimento sionista, fundado para pôr um ponto final nas perseguições às juderías, recebeu o apoio de homens como o barão de Rothschild, cujas doações à causa arremataram 125 mil acres de Terra Prometida. Israel trouxe desenvolvimento e riqueza para a região, mas também segregação, injustiça e insatisfação. É o enredo de Ben-Hur só que fora de ordem, com os judeus no papel de romanos e os árabes no papel de judeus. É estranhíssimo.

A maior afronta do mundo árabe, segundo Hany Abu-Assad — diretor palestino de Nazareth 2000 —, é resistir ao consumismo imposto pelo Ocidente. Sua postura é similar à de Ben-Hur perante Messala, que recusa a exigência do tribuno de se transformar em romano.

Eu, por preconceito gerado pelo fato de os muçulmanos não se parecerem comigo, acreditei que o terno bem cortado de Bashar al-Assad e o Louboutin da esposa seriam garantias de civilidade, mas a elegância do casal foi proporcional à ferocidade.

Os papéis de senhor e do escravo independem de credo ou etnia. Basta ver Ben-Hur com a perspectiva dos últimos cinquenta anos.