Sete anos
Buquê
29 de novembro de 2013
Buquê
T. é amigo de meus enteados, tem 23 anos e faz o estilo Jesus Cristo Superstar. É bonito, selvagem, boa-praça e popular entre as mulheres. O mais experiente entre os seus, já levou à lona uma coroa de 32.
T. arrumou uma namorada fixa, também bela, interessante, inteligente. M. é uma garota sagaz que acaba de sair de uma relação de um ano com um homem mais velho. M. trata T. como a um ogro adorável, quer criá-lo para si, talvez como o outro fez com ela.
Era um fim de festa em minha casa, sobraram os adolescentes já não tão adolescentes e eu, para lá de balzaca. T., como quem revela uma angústia a um amigo, me confessou num aparte:
“Minha namorada me proíbe de tomar Coca-Cola e comer chocolate.”
Por solidariedade ao gênero, e fiel às tendências orgânicas, dei razão à moça, argumentando em prol de uma dieta saudável; T. me interrompeu, brusco:
“Você não entendeu, ela grita comigo.”
A mesa ouviu e refletiu calada.
“Vocês acham certo isso? Ela gritar por causa de uma Coca-Cola?”, perguntou, impotente.
Jesus Cristo não desconfiava, mas começava para ele um noviciado. T. estava sendo introduzido no ardiloso mundo da histeria feminina. Parecia assustado e tinha motivos para tanto.
As mulheres têm o dom de surtar. A fragilidade atávica lhes permite perder a cabeça, chorar além do suportável, entrar no túnel, sofrer até sair da pele. Aos homens, resta o recuo, a obrigação do amparo. A posição de vítima é, por conquista, da mulher.
Apesar do aspecto irracional, todo descabelamento feminino é fundamentado numa razão concreta, um direito não atendido. É o que as salva da loucura.
“Ela grita?”, eu quis saber.
“Grita”, ele disse.
“Por uma Coca-Cola?”
T. confirmou, dúbio, baixou os olhos e, depois de demorada pausa, fez a revelação.
“Ela se irrita porque… porque ela diz que muda o gosto…” — ia falar “da porra”, mas teve pudor por minha causa — “… do gozo”, concluiu, formal.
A mesa reagiu estupefata. Ninguém havia relacionado o cardápio ao sexo, tratava-se de uma surpreendente guinada.
“Isso existe?”, indagou ele, surpreso.
M. tinha razões para vociferar. Anos de feminismo desaguaram nela, no direito de temperar os fluidos do companheiro.
Discretamente, a plateia passou em revista os alimentos que poderiam justificar a indignação de M.: fast-food, acarajé, cebola, mostarda, agrião, cítricos. Que influência teriam no sêmen? Que mistura acentuaria o buquê de aromas terrosos, o retrogosto de calcário harmonizado, a estrutura firme, a adstringência clássica e os taninos de consistência ácida?
Perdida no devaneio e querendo honrar o posto de anciã, lembrei-me de um amigo de Nova York, gay militante, que repetia, categórico: “Forget asparagus!”. Richard conhecia os dois lados da balança e não tenderia nem para M. nem para T.
“Meus queridos”, eu disse, “esqueçam o aspargo!”
Os moleques respiraram aliviados, não gostavam de aspargo. Não seria nenhum sacrifício abrir mão dele, não era um Polenguinho, um cheese-tudo, ou um balde de refrigerante. R., o menor, que só recentemente concluíra a puberdade tardia, sorriu satisfeito.
“Ainda bem que eu me alimento direito”, declarou, com uma placidez invejável.
Tive uma pena colossal, um carinho imenso pela inocência dele.
Já T. não parecia tão seguro. Percebia a gravidade da situação. M., afinal, tinha direitos sobre as secreções dele. Bastava olhar o súbito interesse culinário dos presentes. Tal prerrogativa dava à namorada a liberdade de soltar os cachorros sobre ele quando bem entendesse, de ser dona de tudo, de se apossar geral, de moldá-lo ao seu bel-prazer.
Entre o chocolate e a carícia íntima, quem há de negar que a segunda supera a primeira no interesse comum do casal? M. zelava pelos dois, era a boa, a pura, a santa. O egoísta era ele.
T. acabou a noite com um sorriso inconformado no rosto. Pelo bem da união, via-se, agora, como parte de uma engrenagem sexo-digestiva. A fábrica de excrementos do Mimi, o metalúrgico. O rapaz refletia se sobreviveria em tais condições.
O mais provável é que T. desenvolva a surdez seletiva às lamúrias dela, na esperança de que M. canse ou se conforme com o seu sabor adocicado.