Sete anos
Pagãos
25 de janeiro de 2013
Pagãos
Um rapaz de quinze anos, abastado, inteligente e educado, me disse que pagar R$ 0,99 por uma música na internet era uma exploração sem precedentes.
Graças a um certo atraso geracional, vivo alheia às questões de direitos autorais das novas mídias, mas, dessa vez, me senti algo indignada. Rebati perguntando o porquê de ele achar correto o preço de um refrigerante e se sentir afrontado com o da composição. Ele respondeu que não teria como arcar com as mais de 2500 músicas arquivadas no seu drive. Sugeri que quem possui um computador caríssimo, jeans custosíssimos, além de iPads, iTouches e afins na sua parafernália de entretenimento, tem, sim, condições de arcar com o ônus de uma canção.
Com a calma de quem vive uma realidade que eu desconheço, o infante me explicou que a internet dá ao artista a chance de divulgar seu trabalho e que não há lógica em cobrar por uma oportunidade.
Outro jovem, esse com tendências mais à esquerda do que o primeiro, completou, aos brados, que o verdadeiro artista não trabalha por dinheiro, e lembrou que os pobres devem ter acesso à cultura tanto quanto os endinheirados. Essa alegação empurrou a discussão para o campo da insensibilidade social, emudecendo a velha guarda.
Os adultos só tiveram chance porque a babá de um dos imberbes se manifestou, sustentando que toda vez que um rico quer defender o seu ponto de vista apela para o direito dos menos favorecidos. “Pobre não tem computador”, afirmou ela.
Animados com o apoio da classe trabalhadora, os de maior contra-atacaram dizendo que o que parecia cultura para todos não passava de uma apropriação indevida das grandes corporações que faturavam trilhões em cima do conteúdo de terceiros.
“E os milhões que os cantores acumulam nos shows?”, devolveram os adolescentes. “E o direito autoral dos compositores?!”, vociferaram os mais velhos. “Eles não entendem”, concluíram os menores, como se os nascidos antes da virada do milênio fossem matusaléns sem cura, presos ao tempo em que era possível numerar o vinil, o livro ou o celuloide.
Um dos poucos antenados da segunda idade lembrou que Gilberto Gil, o mais apto membro da MPB a lidar com as novas diretrizes do mercado fonográfico, liberou parte de sua obra para ser “downloadada” de graça, ao mesmo tempo que protegeu o melhor de sua discografia da ferocidade da pirataria. “Hipócrita!”, gritou, ultrajado, o mais à esquerda dos pequenos.
A noite terminou em lágrimas, com os pais ofendidos pelas crias e os de menor aviltados pelo atraso das gerações pregressas.
Passei dias atormentada com a violência da ceia, pensando no quanto a arte perdeu terreno para a tecnologia. E assim entramos no exuberante prédio renascentista da Scuola di San Rocco, em Veneza, onde Tintoretto preencheu cada milímetro de parede com a sua extraordinária versão da Bíblia. E descemos a Bota com os moleques, arrastando-os pelas capelas cobertas por Giotto, Michelangelo, Da Vinci e Fra Angelico.
É impressionante como esse levante de artistas — bancados pela Igreja e por doges e príncipes alinhados com o papa — conseguiu se superar diante de uma restrição temática tão acirrada. E tome Madona, crucificação e Santa Ceia, ressurreição e batismo, manjedoura e Menino Jesus.
A arte sempre caminhou entre a marginalidade e o sistema. O século XX foi o último a viver sob a influência do humanismo, cuja explosão ocorreu lá, na Renascença. Hoje, vivemos um ateísmo tecnológico sem precedentes, tão bem representado pela indiferença do rapaz que despreza o conteúdo artístico e venera sua nave virtual.
Fiz essa viagem para apresentar às crianças o berço do Ocidente, que pode até ter sido a Grécia mas que se desenvolveu a plena potência na Itália. Depois da via-crúcis pelas igrejas, notei o ar de vingança no rosto das crias ao adentrarem o Coliseu.
O sofrimento cristão é mesmo de uma melancolia sem fim, admirar o vigor das estátuas realistas de Trajano, Adriano e Marco Aurélio encoraja o espírito. Mas as novas gerações não se miram nem em Roma nem em Cristo, seu paganismo é de outra ordem.
O iPhone é a nova Pietà.