A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 1 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Prólogo

FOGO NO VIRA-LATA

 

— E aí dizer o quê? Dizer “esqueçam que têm fome, esqueçam que um tira racista acertou um tiro nas costas da gente... que Chuck esteve aqui? Que Chuck veio ao Harlem...”

— Não, vou dizer o quê...

— Chuck veio ao Harlem e...

— Vou dizer o quê...

— Dizer “Chuck veio ao Harlem e vai resolver o problema da comunidade negra?”

Foi o bastante.

Ih-ihigggggggggggghhhhhhhhhh!

Ouve-se uma dessas espantosas gargalhadas de contralto em algum ponto da plateia. Um som que sai do fundo das entranhas, de sob múltiplas e generosas camadas de tecido, e ele sabe exatamente que aparência a mulher deve ter. Noventa e um quilos, nem mais nem menos! E a estrutura de uma caldeira! A gargalhada contagia os homens. E explodem aqueles ruídos de barriga que ele tanto odeia.

E começam:

— Ihihih... ahhaaaa-ahahhh... É isso aí... Vai fundo, irmão... Eh...

Chuck! O insolente — ele está bem ali, bem ali na frente — e acabou de chamá-lo de Charlie! Chuck é a abreviação de Charlie, e Charlie é o velho apelido que dão aos fanáticos brancos. Que insolência! Que descaramento! O calor e a claridade são infernais. Fazem o prefeito apertar os olhos. São as luzes da TV. Ele está envolto numa névoa ofuscante. Mal consegue discernir o rosto do provocador. Vê um vulto alto e os fantásticos ângulos que os cotovelos ossudos do homem formam quando agita as mãos no ar. E um brinco. O homem usa um enorme brinco de ouro em uma orelha.

O prefeito se curva para o microfone e diz:

— Não, já sei o que vou fazer. Certo? Vou lhes dar os números reais. Certo?

— Não queremos saber dos seus números, cara!

— “Cara” — diz ele. — Que atrevimento! Você é que puxou esse assunto, meu amigo. Portanto, vou lhe dar os números reais. Certo?

— Não venha nos embromar com mais números!

Outra explosão de risos na plateia, desta vez mais forte:

— Ahhhh-ahhhh-ahhh... É isso aí, mermão... Vai fundo... Eh, Gober!

— Nesta administração — e isso é do domínio público — a percentagem do orçamento global anual da cidade de Nova York...

— Ora, caaara — grita o provocador —, não fique aí tentando nos engrupir com seus números e seu papo de burocrata!

Eles adoram isso. Que atrevimento! Os insolentes disparam outra explosão. Ele espreita através da claridade escaldante das luzes da televisão. Mantém os olhos apertados. Está consciente de uma enorme massa de vultos, diante dele. A multidão se agiganta. O teto parece comprimi-lo. E revestido de placas bege. As placas estão riscadas de cortes ondulados. As bordas esfareladas. Amianto! Ele sabe identificar quando vê! Os rostos — estão esperando a festa começar, a pancadaria. Nariz pingando sangue! — é essa a ideia. O próximo segundo significa tudo. Ele sabe que pode se sair bem! Sabe lidar com provocadores! Só tem 1,70 metro, mas é ainda melhor nessas coisas do que Koch costumava ser. É o prefeito da maior cidade da terra — Nova York! Ele!

— Tudo bem! Você já se divertiu e agora vai calar a boca por um minuto!

Isso surpreende o agitador. Ele congela. Era isso que o prefeito precisava. E sabe o que fazer.

— Vocêêêê fez a mimmmm uma pergunta, não fez? e arrancou muuuuitas risadas de sua claque. E agora vocêêêê vai ficar quieeeeto e ouuuuvir a resposta. Certo?

— Disse claque? — O homem perdera o fôlego, mas continuava de pé.

— Certo? Agora vamos ver as estatísticas para a suuuuaa comunidade, aqui mesmo, no Harlem.

— Disse claque? — O filho da mãe se aferrara a essa palavra “claque” como a um osso. — Ninguém come estatísticas, cara!

— É isso aí. Eh... Eh, Gober!

— Deixe-me terminar. Vocêêêê acha...

— Não venha com percentagens de orçamento anual para cima de nós, cara! Queremos empregos!

A multidão explode outra vez. Pior que antes. A maior parte ele não consegue entender — interjeições lá do fundo do estômago. Mas tem essa história do Eh. Há um desordeiro no fim da sala com um vozeirão que fura tudo.

Eh, Gober! Eh, Gober! Eh, Gober!

Mas ele não está dizendo “Gober”. Está dizendo “Goldberg”.

“Eh, Goldberg! Eh, Goldberg! Eh, Goldberg!”

Isso o atordoa. Nesse local, no Harlem! Goldberg é o apelido que dão no Harlem aos judeus. É insolente! — ofensivo! — que alguém atire esse insulto na cara do prefeito de Nova York!

Vaias, assobios, grunhidos, gargalhadas, gritos. Eles querem ver alguns dentes partidos. Impossível controlar.

— Vocês...

Não adianta. Não consegue se fazer ouvir nem com o microfone. Há ódio estampado nos rostos! Puro veneno! E hipnotizante.

— Eh, Goldberg! Eh, Goldberg! Eh, Jacó!

Jacó! Lá vêm eles de novo! Um está gritando Goldberg e o outro, Jacó. Então começa a perceber. O reverendo Bacon! E o pessoal do Bacon. Tem certeza. Os cidadãos participantes que comparecem aos debates no Harlem — as pessoas que Sheldon deveria ter arregimentado para encher o auditório — não estariam ali berrando essas afrontas! Era obra de Bacon! Sheldon falhara! Bacon enfiara seu pessoal ali!

Uma onda da mais pura autocomiseração engolfa o prefeito. Pelo canto do olho vê as equipes de televisão se contorcendo na névoa de luzes. As câmeras se projetam de suas cabeças como chifres. Giram para um lado e para o outro. Estão se aproveitando! Estão ali pela baderna. Não levantariam um dedo. São uns covardes! Parasitas! Vermes da vida pública!

No instante seguinte compreende, horrorizado:

— Terminou tudo. Não consigo acreditar. Perdi.

— Chega de seus... Fora daqui... Uhhhh... Não queremos... Eh, Goldberg!

Guliaggi, o chefe da equipe de segurança do prefeito, está vindo pela coxia em sua direção. O prefeito faz-lhe um sinal com a mão abaixada para que volte, sem olhá-lo diretamente. Que poderia fazer, afinal? Trouxera apenas quatro policiais. Não queria vir com um exército. A ideia era mostrar que podia vir ao Harlem para falar num debate da mesma maneira que o fazia em Riverdale ou Park Slope.

Na primeira fila, através da névoa, seus olhos encontraram os da sra. Langhorn, a mulher de penteado cênico, presidente do conselho comunitário, a mulher que acabara de apresentá-lo — quê? — há poucos minutos. Ela aperta os lábios, tomba a cabeça para um lado e põe-se a sacudi-la. Esse gesto provavelmente quer dizer: “Gostaria de ajudá-lo, mas que posso fazer? Veja a cólera do povo!” Ah, ela está amedrontada como os demais. Sabe que deveria enfrentar a tempestade! Da próxima vez irão perseguir gente negra como ela! E terão prazer com isso! Ela sabe. Mas as pessoas de bem se deixam intimidar. Não ousam fazer nada! Laços de sangue! Eles e nós!

— Dê o fora!... Uhhhh... Uhgggghhhh... Uh!

Ele experimenta o microfone de novo.

— É isso que... é isso que...

Inútil. É como gritar contra a arrebentação. Tem vontade de cuspir neles. Tem vontade de lhes dizer que não tem medo. Vocês não estão me obrigando a fazer um papelão! Estão deixando um punhado de provocadores neste auditório obrigarem todo o Harlem a fazer um papelão! Vocês deixam meia dúzia de desordeiros me chamarem de Goldberg e de Jacó, e não mandam que eles se calem — mandam que eu me cale! É inacreditável! Será que as pessoas trabalhadoras, respeitáveis e tementes a Deus que vivem no Harlem, as senhoras como a sra. Langhorn, os cidadãos conscientes — será que realmente pensam que eles são seus irmãos? Quais foram seus amigos todos esses anos? Os judeus! E deixam esses provocadores me chamarem de Charlie! Xingam-me desses nomes e vocês não dizem nada?

O auditório inteiro parece estar pulando. Brandem os punhos. Têm a boca aberta. Estão gritando. Se pularem mais alto, batem no teto.

Vai aparecer na TV. A cidade inteira verá. Vão adorar. O Harlem se rebela! Que espetáculo! Não são as prostitutas, os traficantes e os cafetões que se rebelam — é o Harlem que se rebela! Toda a Nova York negra se rebela! Ele é apenas prefeito de parte do povo! É prefeito da Nova York branca! Fogo no vira-lata! Os italianos verão isso na TV e vão adorar. E os irlandeses. Até os brancos, anglo-saxões, protestantes. Não perceberão o que estão vendo. Sentarão em seus apartamentos na Park Avenue, Fifth Avenue, East 72nd Street e Sutton Place, e sentirão arrepios com a violência e gozarão o espetáculo. Carneiros! Cabeças-ocas! Anjos! Goyim! Nem sequer desconfiam, não é? Acham realmente que esta cidade continua sendo sua? Abram os olhos! A maior cidade do século XX! Acham que o dinheiro irá preservá-la para vocês?

Desçam dos seus elegantes apartamentos, sócios e advogados de grupos empresariais! Aqui embaixo fica o Terceiro Mundo! Porto-riquenhos, antilhanos, haitianos, dominicanos, cubanos, colombianos, hondurenhos, coreanos, chineses, tailandeses, vietnamitas, equatorianos, panamenhos, filipinos, albaneses, senegaleses e afro-americanos! Visitem as fronteiras, seus grandíssimos poltrões! Morningside Heights, St. Nicholas Park, Washington Heights, Fort Tryon — por qué pagar más? O Bronx — o Bronx acabou para vocês! Riverdale é apenas um pequenino porto livre! Pelham Parkway — um corredor aberto para Westchester Brooklyn — o seu Brooklyn já não existe! Brooklyn Heights, Park Slope — pequenas Hong Kongs, é o que são! E Queens! Jackson Heights, Elmhurst, Hollis, Jamaica, Ozone Park — de quem são? Sabem? E como ficam Ridgewood, Bayside e Forest Hills? Já pensaram nisso? E Staten Island! Vocês que fazem seus consertinhos aos sábados acham que realmente estão seguros em suas casinhas? Pensam que o futuro não é capaz de atravessar uma ponte? E vocês, brancos, anglo-saxões, protestantes, frequentadores de bailes de caridade, sentados em montanhas de dinheiro herdado, em seus apartamentos com um pé-direito de mais de 3,50 metros e duas alas, uma para vocês e outra para os empregados, acham-se realmente inexpugnáveis? E vocês, financistas judeo-alemães, que finalmente conseguiram se mudar para os mesmos edifícios, para melhor se isolarem das hordas do shtetl, acham realmente que estão protegidos do Terceiro Mundo?

Pobres obesos! Marshmallows! Galinhas! Vacas! Esperem até ter um reverendo Bacon como prefeito, uma Câmara Municipal e uma Comissão Orçamentária com um bando de reverendos Bacons de uma ponta a outra! Aí é que vão saber realmente quem são! Eles irão procurá-los! Irão visitá-los no número 60 da Wall e no número 1 da Chase Manhattan Plaza! Sentarão sobre suas mesas de trabalho e tamborilarão os dedos! Limparão os cofres de banco para vocês, sem cobrar nada...

Completamente alucinadas, essas ideias que ribombavam em sua cabeça! Absolutamente paranoicas! Ninguém vai eleger Bacon para nada. Ninguém vai marchar sobre o centro da cidade. Sabe disso. Mas sente-se tão só! Abandonado! Incompreendido! Eu! Esperem até me perder! Vão ver o que é bom! E me deixam sozinho aqui nesta tribuna com a droga desse teto de amianto caindo na minha cabeça...

— Uhhh!... Ehggghh!... Ahhggghhh!... Eh!... Goldberg!

Há um tumulto incrível de um lado do palco. As luzes da TV estão chapadas em seu rosto. Muito empurra-empurra — ele vê um operador de câmera cair. Alguns dos filhos da mãe estão se dirigindo para os degraus do palco, e as equipes de televisão estão no caminho. Vão passar por cima delas. Empurrões — atiram alguém escada abaixo — os homens dele, a equipe de segurança à paisana, o grandalhão, Norrejo — Norrejo está empurrando alguém escada abaixo. Alguma coisa atinge o prefeito no ombro. Dói pra danar! Ali no chão — um frasco de maionese, um frasco de 250 gramas de maionese Hellman’s. Pela metade! Já usado! Alguém atirou um frasco parcialmente usado de maionese nele! Naquele minuto o detalhe mais insignificante domina sua mente. Quem, em nome de Deus, traria um vidro de 250 gramas de maionese Hellman’s pela metade para um debate?

As malditas luzes! O povo está no palco... muita confusão... um verdadeiro melê... Norrejo agarra um diabo daqueles pela cintura, mete a perna por trás dele e o atira no chão. Os outros dois detetives, Holt e Danforth, estão de costas para o prefeito. Curvam-se como se fizessem um bloqueio para manter a passagem livre. Guliaggi está a seu lado.

— Fique atrás de mim — diz Guliaggi. — Vamos sair por aquela porta.

Será que está sorrindo? Guliaggi parece ter um sorrisinho nos lábios. Acena com a cabeça na direção da porta ao fundo do palco. Ele é baixo, tem a cabeça pequena, a testa estreita, os olhos miúdos e apertados, o nariz chato, a boca larga e cruel com um bigodinho fino. O prefeito continua com os olhos fixos na boca. Será um sorriso? Não pode ser, mas talvez seja. Essa torção estranha e perversa dos lábios parece dizer: “Até agora o espetáculo foi seu, mas agora é meu.”

Em todo caso, o sorriso decide a questão. Como Custer, o prefeito abandona seu posto de comando na tribuna. E se entrega ao seu Little Rock. Agora os outros também se agrupam em torno dele, Norrejo, Holt, Danforth. Rodeiam-no como quatro cantos de um cercadinho. O povo está por todo o palco. Guliaggi e Norrejo forçam caminho pela multidão à força de músculos. O prefeito está colado aos calcanhares deles. Rostos rosnam a toda a volta. Há um sujeito, a menos de dois palmos, que não para de pular e berrar “Seu velhote babaca! Seu velhote babaca!”.

Todas as vezes que o filho da mãe pula, o prefeito vê os olhos brancos esbugalhados e seu enorme pomo de adão. É do tamanho de uma batata-doce.

— Seu velhote babaca! — Ele continua a vociferar. — Seu velhote babaca!

Bem diante dele... o agitador grandalhão em pessoa! O tal dos cotovelos e do brinco de ouro! Guliaggi está entre o prefeito e o agitador, mas este é mais alto do que Guliaggi. Deve ter mais de 1,95 metro. Grita na cara do prefeito:

— Dá o fora... xô!

De repente, o filho da mãe afunda, com a boca aberta e os olhos esbugalhados. Guliaggi meteu o cotovelo no plexo solar do homem.

Guliaggi alcança a porta e a abre. O prefeito o segue. Sente que os outros detetives o empurram pela porta. Achata-se contra as costas de Guliaggi. O sujeito é um bloco de rocha!

Juntos descem uma escada. Os sapatos batem, estridentes, nos degraus estreitos de metal. Ele está inteiro. A turba nem está em seu encalço. Está seguro — mas acabrunhado. Nem mesmo estão tentando segui-lo. Jamais quiseram realmente tocar nele. E naquele instante... percebe. Percebe antes mesmo que sua mente tenha montado todas as peças.

— Cometi um erro. Cedi àquele sorrisinho. Entrei em pânico, Pus tudo a perder.