A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 2 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 1

1

O SENHOR DO UNIVERSO

 

Naquele mesmo instante, no mesmo tipo de apartamento que tanto obcecava o prefeito... pé-direito de mais de 3,50 metros... duas alas, uma para os brancos, anglo-saxões, protestantes, donos da casa e uma para os empregados... Sherman McCoy estava ajoelhado no vestíbulo, tentando colocar uma coleira num bassê. O piso era de mármore verde-vivo e parecia não ter fim. Levava a uma escada de nogueira de 1,50 metro de largura, que se erguia em uma curva majestosa até o andar superior. Era o tipo de apartamento que só em pensar faz arder labaredas de inveja e cobiça na população de toda Nova York e, aliás, na de todo o mundo. Mas Sherman só ardia de ansiedade por fugir dessa fabulosa propriedade por meia hora.

E ali estava ele, de joelhos postos no chão, pelejando com um cachorro. O bassê, pensava, era o seu visto de saída.

Quem olhasse para Sherman McCoy, agachado daquele jeito e vestido assim, camisa xadrez, calça cáqui e mocassins de velejar, nunca teria ideia da figura imponente que normalmente era. Ainda jovem... 38 anos... alto... quase 1,85 metro... um porte formidável... formidável ao ponto de parecer autoritário... tão autoritário quanto o pai, o Leão de Dunning Sponget... vasta cabeleira castanho-clara... nariz longo... queixo proeminente... Orgulhava-se do queixo. O queixo McCoy; o Leão também o possuía. Era um queixo másculo, grande e arredondado como o que os graduados de Yale costumavam exibir nos desenhos de Gibson e Leyendecker, um queixo aristocrático, se querem saber a opinião de Sherman. Ele próprio tinha passado por Yale.

Mas nesse instante toda a sua aparência se esforçava por expressar: “Só estou saindo para passear com o cachorro.”

O bassê parecia saber o que o esperava. Procurava se esquivar da guia. As pernas curtas do bicho enganavam. Quando se tentava agarrá-lo, transformava-se em um rolo de meio metro de músculos. Para se atracar com ele, Sherman tinha que se atirar ao chão. E quando se jogava, a rótula batia no piso de mármore e a dor o enraivecia.

— Vamos, Marshall — não parava de resmungar. — Fique parado, droga.

O bicho se desvencilhava, ele machucava de novo o joelho, e agora não sentia raiva apenas do animal, mas de sua mulher também. Para começar, fora no delírio de uma carreira de decoradora de interiores que ela se tornara responsável por essa ostentosa superfície de mármore. A minúscula orla negra de gorgorão na ponta de um sapato de mulher...

... ela estava parada ali.

— Você está se esbaldando, Sherman. Que está fazendo?

Sem levantar a cabeça:

— Vou levar Marshall para passea-a-a-a-a-ar.

“Passear” saiu num gemido, porque o bassê tentava uma glissada e Sherman teve que passar o braço em volta do cachorro.

— Sabe que está chovendo?

Ainda de cabeça baixa:

— Sei.

Finalmente conseguiu engatar a guia na coleira do animal.

— Não resta dúvida de que, de repente, está sendo bonzinho com o Marshall.

Espere aí. Seria uma ironia? Será que suspeitava de alguma coisa? Ergueu a cabeça.

Mas o sorriso em seu rosto era obviamente sincero, perfeitamente gentil... um lindo sorriso, de fato... “Continua uma linda mulher, minha esposa”... de feições delicadas, grandes olhos azul-claros, magníficos cabelos castanhos... “Mas tem quarenta anos!”... Não há como fugir... Hoje “bela”... Amanhã estarão comentando: “Que mulher de aparência digna”... Não é culpa dela... “Mas não é minha tampouco!”

— Tenho uma ideia — sugeriu ela. — Por que não deixa que eu passeie com Marshall? Ou que eu peça a Eddie para ir? Você sobe e lê uma história para Campbell dormir. Ela adoraria. Não é sempre que você está em casa tão cedo. Por que não faz isso?

Observou-a. Não era um truque! Estava sendo sincera! E, no entanto, zip zip zip zip zip zip zip, com umas poucas pinceladas rápidas, umas poucas frases, ela o... imobilizara! — com grilhões de culpa e lógica! Sem nenhum esforço!

O fato de que Campbell talvez estivesse deitada na caminha — “minha única filha! — a absoluta inocência de uma criança de seis anos!” — querendo que o pai lesse uma história para dormir... enquanto ele estava... fazendo o que quer que estivesse fazendo... “Culpa!”... O fato de que normalmente chegava em casa tarde demais até para vê-la... “Culpa sobre culpa!”... Adorava Campbell! — Amava-a mais que tudo no mundo!... E para piorar as coisas — a lógica dos argumentos! O rosto meigo da esposa, que ele observava, acabara de fazer uma sugestão sensata, uma sugestão lógica... tão lógica que o emudecera! Não havia no mundo suficientes mentirinhas inofensivas para burlar essa lógica! E ela só estava querendo ser gentil!

— Vamos — animou. — Campbell ficará tão contente! Deixe que eu cuido de Marshall.

O mundo estava de cabeça para baixo. Que estava ele, um Senhor do Universo, fazendo ali no chão, reduzido a vasculhar o cérebro à procura de mentirinhas inofensivas para burlar a lógica inocente da mulher? Os Senhores do Universo eram uma coleção de sinistros e predatórios bonecos de plástico com que sua filha, sob outros aspectos perfeita, gostava de brincar. Pareciam deuses nórdicos halterofilistas e tinham nomes como Dracon, Ahor, Mangelred e Blutong. Eram extraordinariamente vulgares, até mesmo para brinquedos de plástico. Porém um belo dia, num assomo de euforia, depois de ter erguido o fone e recebido um cupom de dividendos que lhe rendeu 50 mil dólares de comissão, num piscar de olhos, essa mesma expressão lhe ocorrera. Na Wall Street, ele e uns poucos — quantos? trezentos, quatrocentos, quinhentos? tinham se transformado exatamente nisso... Senhores do Universo. Não havia... limites, simplesmente! É claro que nunca nem sussurrara essa expressão para ninguém. Não era idiota. Contudo não conseguia tirá-la da cabeça, E ali estava o Senhor do Universo no chão com um cachorro, de pés e mãos amarrados como um porco, pela doçura, a culpa e a lógica... Por que não podia (sendo um Senhor do Universo) simplesmente explicar? Olhe, Judy, eu ainda a amo e amo nossa filha e amo nossa casa e amo nossa vida, e não quero mudar nadinha — é que eu, um rapaz ainda no vigor da juventude, mereço mais vez por outra, quando me dá vontade —, mas sabia que jamais poderia pôr tais pensamentos em palavras. Então o rancor começou a fervilhar em seu cérebro... De certa forma ela era a causadora disso, ou não... Essas mulheres cuja companhia agora parecia apreciar... essas... essas... A frase lhe acorre à mente naquele instante: “radiografias ambulantes”... Conservam-se tão magras que parecem chapas de raios X... Dá para ver a luz através dos ossos... enquanto tagarelam sobre “decoração de interiores e paisagismo”... e cobrem as canelas esqueléticas com calças tubulares de lycra brilhante para ir a aulas de ginástica... E isso não adiantou nada, adiantou?... Olhe como o rosto e o pescoço dela parecem chupados... Concentrou-se no rosto e no pescoço... chupados... Não havia dúvida... ginástica... transformando-a “numa delas”...

Conseguiu produzir rancor suficiente para inflamar a famosa cólera McCoy.

Sentiu o rosto esquentar. Baixou a cabeça e disse:

—Juuuuuudy...

Foi um grito sufocado pelos dentes. Apertou o polegar e os primeiros dois dedos da mão esquerda, erguendo-a diante dos maxilares cerrados e dos olhos faiscantes, e disse:

— Olhe... estou decidido a passear com o cachorro... E vou sair para passear com o cachorro... Está bem?

Em meio à frase percebeu que era totalmente desproporcional a... a... mas não conseguiu se segurar. Esse era, afinal, o segredo da cólera McCoy... na Wall Street... aonde quer que fosse... o excessivo autoritarismo.

Judy comprimiu os lábios. Sacudiu a cabeça.

— Faça como quiser — disse, sem inflexão. Deu-lhe as costas, atravessou o vestíbulo de mármore e subiu a suntuosa escadaria.

Ainda de joelhos, acompanhou-a com o olhar, mas ela não se voltou. “Faça como quiser.” Impusera sua vontade. Sem discussão. Mas era uma vitória vã.

Mais um espasmo de culpa...

O Senhor do Universo se levantou e conseguiu manter segura a guia e se enfiar na capa de chuva. Apesar de velha, era uma formidável capa inglesa de montaria com revestimento de borracha, cheia de abas, tiras e fivelas. Ele a comprara na Knoud, na Madison Avenue. Antigamente considerava o seu ar surrado elegantíssimo, combinando com a moda dos sapatos de couro craquelê estilo Boston. Agora tinha suas dúvidas. Deu um puxão na guia do bassê e saiu do vestíbulo para o saguão do elevador e apertou o botão.

Em vez de continuarem a pagar turnos de 24 horas a irlandeses do Queens e porto-riquenhos do Bronx a 200 mil dólares por ano para operar os elevadores, os proprietários dos apartamentos tinham decidido, havia dois anos, automatizá-los. Nessa noite isso convinha bastante a Sherman. Com aquelas roupas e um cachorro que se contorcia a reboque, não lhe apetecia andar num elevador com um cabineiro fardado de coronel do exército austríaco de 1870. O elevador desceu — e parou dois andares abaixo. Browning. A porta se abriu, e o corpanzil e a queixada lisa de Pollard Browning entraram. Browning examinou Sherman, a roupa esportiva e o cachorro, de alto a baixo, e disse, sem o menor vestígio de sorriso:

— Olá, Sherman.

“Olá, Sherman” estava na ponta de uma vara de 3 metros e em apenas quatro sílabas transmitia a mensagem: “Você, suas roupas e seu bicho estão aviltando o nosso elevador de painéis de mogno.”

Sherman ficou furioso e, contudo, quando deu por si, estava se abaixando para tirar o cachorro do chão. Browning era o síndico do condomínio. Era um garotão nova-iorquino que saíra do ventre materno aos cinquenta anos de idade já sócio da Davis Polk e presidente da Associação Comercial. Só tinha quarenta anos, mas parecia ter tido cinquenta nos últimos vinte anos. Seu cabelo era penteado para trás cuidadosamente, cobrindo o crânio redondo. Vestia um imaculado terno azul-marinho, camisa branca, gravata xadrez, e não usava capa. Postou-se de frente para a porta do elevador, virou a cabeça, deu mais uma olhada em Sherman, não fez comentários e tornou a se virar para a frente.

Sherman o conhecia desde o tempo de garotos na Buckley School. Browning fora um pequeno esnobe gorducho, saudável e mandão que aos nove anos sabia onde garimpar a surpreendente informação de que McCoy era um nome caipira (e uma família caipira), como o da famosa disputa entre Hatfields e McCoys, enquanto ele, Browning, era um verdadeiro descendente dos colonizadores holandeses de Nova York. Costumava chamar Sherman de “Sherman McCoy o caipirabói”.

Quando chegaram ao térreo, Browning comentou:

— Sabe que está chovendo, não sabe?

— Sei.

Browning olhou para o bassê e sacudiu a cabeça.

— Sherman McCoy. Amigo do melhor amigo do homem.

Sherman sentiu o rosto esquentar outra vez. Respondeu:

— Só.

— Só o quê?

— Você teve do oitavo andar ao térreo para pensar em alguma coisa inteligente e me sai com isso? — Sua intenção era ser ironicamente condescendente, mas percebeu que deixara escapar umas rebarbas de raiva.

— Não sei do que está falando — disse Browning, e seguiu em frente. O porteiro sorriu, cumprimentou-o com a cabeça e abriu a porta para ele. Nem uma gotinha de chuva caiu em sua figura lustrosa, e ele partiu suavemente, imaculadamente, e se juntou ao enxame de luzes vermelhas que demandavam a Park Avenue. Nenhuma capa de montaria maltratada estorvava as costas lisas e gordas de Pollard Browning.

Na verdade a chuva era leve e não ventava, mas o bassê não queria nem saber. Estava começando a se debater nos braços de Sherman. A força do danadinho! Sherman pousou o cachorro na passadeira sob o toldo e saiu para a chuva com a guia. Na escuridão, os edifícios do lado oposto da avenida formavam uma parede negra e serena que continha o céu da cidade, de um roxo fulgurante. O céu refulgia como se estivesse esbraseado de febre.

Droga, não estava tão ruim do lado de fora. Sherman puxou, mas o cachorro cravou as unhas na passadeira.

— Vamos, Marshall.

O porteiro parara do lado de fora da porta, observando-o.

— Acho que ele não está muito feliz com o passeio, sr. McCoy.

— Nem eu tampouco, Eddie. — “E dispenso o comentário”, pensou Sherman. — Vamos, vamos, vamos, Marshall.

A essa altura Sherman, na chuva, dava um bom puxão na guia, mas ainda assim o bassê não se mexia. Então ele o apanhou, afastou-o da passadeira de borracha e depositou-o na calçada. O cachorro tentou correr para a porta. Sherman não podia dar nenhuma folga à guia, senão ele ia voltar exatamente para o ponto de partida. Com isso, ele agora puxava para um lado, e o cachorro, para o outro, a guia esticada entre os dois. Era um cabo de guerra entre um homem e um cachorro... na Park Avenue. Por que diabos o porteiro não voltava para dentro do prédio onde era seu lugar?

Sherman deu um safanão na guia. O bassê derrapou alguns centímetros para a frente na calçada. Dava para ouvir as unhas raspando. Bom, talvez se o puxasse com bastante força desistiria e começaria a andar só para evitar ser arrastado.

— Vamos, Marshall! Só vamos até a esquina!

Deu outro safanão na guia e continuou a puxá-la com toda a força. O cachorro escorregou meio metro para diante. Escorregou! Recusava-se a andar. Recusava-se a desistir. O centro de gravidade do animal parecia estar no eixo da terra. Era como tentar arrastar um trenó com uma pilha de tijolos dentro. Jesus, se ao menos pudesse chegar até a esquina. Era só o que queria. Por que seria que as coisas mais simples — deu outro puxão na guia e manteve a tensão. Estava curvado como um marinheiro contra o vento. Começava a sentir calor sob a capa de borracha. A chuva escorria-lhe pelo rosto. O bassê tinha as patas esparramadas na calçada. Os músculos dos ombros estavam abaulados. Debatia-se de um lado para outro. O pescoço estava esticado. Graças a Deus, pelo menos não latia! Deslizava. Jesus, dava para ouvir! Dava para ouvir as unhas arranharem a calçada. Não cedia um centímetro. Sherman estava de cabeça baixa, os ombros encurvados, e arrastava esse bicho pela escuridão e a chuva da Park Avenue. Sentia a chuva bater-lhe na nuca.

Agachou-se e apanhou o bassê, relanceando os olhos para Eddie, o porteiro, ao fazê-lo. Continuava a observar! O cachorro começou a corcovear e a se debater. Sherman tropeçou. Olhou para baixo. A guia se enrolara em suas pernas. Começou a saltitar pela calçada. Finalmente conseguiu dobrar a esquina e chegar ao telefone público. E pôs o cachorro no chão.

Jesus! Quase escapole! Agarra a guia na hora certa. Está suando. Tem a cabeça empapada de chuva. O coração bate com força. Ele enfia o braço pela alça da guia. O cachorro continua a lutar. A guia torna a se enredar nas pernas de Sherman. Ele tira o fone do gancho e o aconchega entre o ombro e a orelha, e cata uma moeda de 25 cents no bolso; insere-a na ranhura e disca.

Três toques e uma voz de mulher:

— Alô?

Mas não era a voz de Maria. Imagina que seja a amiga Germaine, de quem ela subloca o apartamento. Então diz:

— Posso falar com Maria, por favor?

A mulher pergunta:

— Sherman? É você?

Essa não! É Judy! Ele ligou para o próprio apartamento! Está aterrado — paralisado!

— Sherman?

Desliga. Meu Deus. Que fazer? Vai blefar. Quando perguntar, dirá que não sabe do que está falando. Afinal, disse apenas cinco ou seis palavras. Como pode ter certeza?

Mas não iria adiantar. Ela teria certeza. Além do mais, não era bom de blefe. Ela veria que estava mentindo. Mesmo assim, que mais poderia fazer?

Ficou parado ali na chuva, no escuro, junto ao telefone. A água conseguira escorrer para dentro do colarinho da camisa. Ele respirava com dificuldade. Tentava adivinhar a gravidade da coisa. Que faria Judy? Que diria? Ficaria muito aborrecida? Dessa vez teria algo em que se basear. Merecia fazer uma cena se quisesse. Fora realmente burro. Como pudera fazer uma coisa dessas? Censurava-se. Já não estava aborrecido com Judy. Conseguiria blefar ou se enrascara realmente de vez? Teria mesmo magoado a mulher?

De repente, Sherman tomou consciência de um vulto que se aproximava pela calçada, nas sombras escuras e úmidas das casas e das árvores. Mesmo à distância de 15 metros, na escuridão, ele o pressentia. Era aquela preocupação muito íntima que existe no fundo da cabeça de todo residente da Park Avenue ao sul da 96th Street — um negro jovem, alto, de pernas longas, tênis brancos. Agora estava a 12 metros, 10 metros. Sherman encarou-o. Muito bem, que venha! Não vou arredar pé! Este é o meu território! Não vou cedê-lo a nenhum delinquente!

O rapaz negro inesperadamente fez uma curva de 90 graus e atravessou em linha reta para a calçada oposta. A claridade pálida e amarelada de uma lâmpada de sódio refletiu-se por um instante em seu rosto, no momento em que descartava Sherman.

Ele atravessara! Que sorte!

Nem por um instante ocorreu a Sherman McCoy que o que o rapaz vira, por sua vez, fora um branco de 38 anos, encharcado, vestindo uma espécie de capa de chuva de aspecto militar cheia de tiras e fivelas, segurando nos braços um animal que se contorcia violentamente, com os olhos arregalados, fixos, e falando sozinho.

Sherman continuava parado junto ao telefone, respirando rapidamente, quase arfando. Que ia fazer agora? Sentia-se tão acabrunhado que era preferível voltar para casa. Mas se o fizesse imediatamente, daria na vista, não é? Não saíra para passear com o cachorro, mas para dar um telefonema. Além disso, o que quer que Judy fosse dizer, não estava preparado para ouvir. Precisava pensar. Precisava se aconselhar. Precisava tirar esse animal intratável da chuva.

Assim sendo, catou mais uma moeda de 25 cents e registrou mentalmente o número do telefone de Maria. Concentrou-se. Decorou-o. Então discou com lenta deliberação, como se estivesse usando aquela invenção, o telefone, pela primeira vez.

— Alô?

— Maria?

— É.

E sem querer se arriscar:

— Sou eu.

— Sherman? — pronunciou Chââââ-mân. Sherman se tranquilizou. Era Maria mesmo. Empregava uma variante do sotaque sulista em que metade das vogais eram pronunciadas como ás e a outra metade como is breves.

— Ouça — disse. — Estou indo para aí. Estou numa cabine telefônica. A uns dois quarteirões de distância.

Houve uma pausa, que ele interpretou como sinal de irritação. E finalmente:

— Por onde você andou?

Sherman riu desdenhoso.

— Olhe, estou chegando.

A escada da casa afundava e gemia à medida que Sherman a galgava. Em cada andar um único tubo circular de lâmpada fluorescente de 22 watts, sem proteção, conhecido como “auréola de senhorio”, irradiava uma luz azul-tísica sobre as paredes pintadas de verde-apartamento-de-aluguel. Sherman passou por portas com numerosas trancas, umas em cima das outras em fileiras bêbadas. Havia chapas de proteção contra alicates sobre as fechaduras e barras contra pés de cabra sobre as ombreiras e telas anti-invasão nos painéis das portas.

Em momentos alegres, quando o rei Príapo reinava sem crises em seus domínios, Sherman empreendia essa escalada para o apartamento de Maria com prazer romântico. Como era boêmio! Como esse lugar era... real! Como era perfeito para os momentos em que o Senhor do Universo se despia das tediosas convenções da Park Avenue e da Wall Street e deixava seus hormônios marotos se libertarem para uma escapulida. O conjugado de Maria, com um armário-cozinha e um armário-banheiro, esse pseudoapartamento, quarto andar, fundos, que ela sublocava da amiga Germaine — era assim, perfeito. Germaine já era outra história. Sherman a encontrara duas vezes. Tinha o físico de um hidrante de rua. Uma agressiva moita de pelos sobre o lábio superior era quase um bigode. Sherman estava convencido de que era lésbica. E daí? Era tudo real! Sórdido! Nova York! Uma erupção de fogo nas entranhas.

Mas nessa noite Príapo não reinava. Nessa noite, a feiura da velha construção de arenito pardo pesava no espírito do Senhor do Universo.

Só o bassê estava feliz. Alçava a barriga para subir as escadas em passos rápidos e alegres. Ali dentro era quente, seco e familiar.

Quando Sherman chegou à porta de Maria, surpreendeu-se ao se descobrir sem fôlego. Transpirava. Seu corpo positivamente desabrochava em suor sob a capa de montaria, a camisa xadrez e a camiseta.

Antes que batesse, a porta se abriu uns trinta centímetros, e lá estava ela. Não acabou de abrir a porta. Ficou parada ali, observando Sherman de alto a baixo, como se estivesse zangada. Seus olhos reluziam acima daqueles notáveis malares altos que possuía. Seus cabelos curtos pareciam uma touca negra. Os lábios estavam abertos formando um o. De repente se abriu num sorriso e começou a rir de boca fechada dando fungadinhas para aliviar o riso.

— Vamos — disse Sherman —, deixe-me entrar! Espere até lhe contar o que aconteceu.

Então Maria abriu completamente a porta, mas ao invés de convidá-lo para entrar, encostou-se na ombreira, cruzou as pernas, dobrou os braços sob os seios, e continuou a encará-lo dando risadinhas. Usava escarpins de salto alto em que o couro formava um padrão xadrez em preto e branco. Sherman entendia muito pouco de modelos de sapatos, mas registrou que este estava na moda. Vestia uma saia de gabardine branca feita sob medida, muito curta, uns bons dez centímetros acima dos joelhos, revelando as pernas, que aos olhos de Sherman pareciam as de uma dançarina, e ressaltando a cintura minúscula. E uma blusa de seda branca, aberta até a curva dos seios. A luz na entrada estreita era tal que punha em relevo todo o conjunto: o cabelo escuro, os malares, as feições finas do rosto, a curva carnuda dos lábios, a blusa sedosa, os seios cremosos, as pernas tremeluzentes, tão displicentemente cruzadas.

— Sherman... — Chââââ-mân. — Sabe de uma coisa? Você é uma gracinha. Parece o meu irmãozinho.

O Senhor do Universo se sentiu ligeiramente contrariado, mas entrou, passando direto por ela, e exclamou:

— Puxa! Espere até lhe contar o que aconteceu.

Sem alterar a pose no portal, Maria baixou os olhos para o cachorro, que farejava o carpete.

— Alô, Marshall! — Mââchâl. — Você parece um toquinho de salame molhado, Marshall.

— Espere até lhe contar...

Maria começou a rir e em seguida fechou a porta.

— Sherman... você está com cara de quem acabou de ser... amassado — ela amassou uma folha imaginária de papel — e atirado no lixo.

— É assim que me sinto. Deixe-me contar o que aconteceu.

— Igualzinho ao meu irmão caçula. Todos os dias ele voltava para casa da escola com o umbigo de fora.

Sherman olhou para baixo. Era verdade. A camisa xadrez estava para fora da calça, e o umbigo estava aparecendo. Meteu a camisa para dentro, mas não despiu a capa de chuva. Não podia ficar à vontade. Não podia se demorar muito. Não sabia muito bem como dizer isso a Maria.

— Todos os dias meu irmãozinho brigava na escola...

Sherman parou de ouvir. Estava cansado do irmãozinho de Maria, não tanto porque a intenção fosse dizer que ele, Sherman, era infantil, mas porque ela insistia no assunto. À primeira vista, Maria nunca parecera a Sherman a imagem que se faz de uma moça do sul. Lembrava uma italiana ou uma grega. Mas falava como sulista. O jorro de tagarelice não parava. Ainda estava falando quando Sherman disse:

— Sabe, acabei de te ligar de uma cabine telefônica. Quer saber o que aconteceu?

Maria deu-lhe as costas e caminhou até o meio do apartamento, deu meia-volta, fez uma pose, a cabeça para um lado, as mãos nos quadris, um pé virado para fora displicentemente, os ombros jogados para trás e as costas ligeiramente arqueadas, empinando os seios, e perguntou:

— Nota alguma novidade?

De que diabos estava falando? Sherman não estava com disposição para novidades. Mas obedientemente observou-a. Seria um novo penteado? Uma joia nova? Puxa, o marido a cumulava de tantas joias, como lembrar? Não, devia ser alguma coisa na sala. Seus olhos saltaram de um lado para o outro. Provavelmente fora construída cem anos antes para servir de quarto de criança. Havia uma parede arredondada com três janelas de caixilhos e um banco acompanhando toda a curvatura. Examinou a mobília... as mesmas três cadeiras velhas de verga, a mesma mesa velha e deselegante de carvalho com pedestal, o mesmo velho sofá forrado de veludo cotelê e três ou quatro almofadas escocesas espalhadas no assento numa tentativa de fazê-lo parecer um divã. O apartamento inteiro gritava: faz-se o que se pode. De qualquer modo, não havia alterações.

Sherman balançou a cabeça.

— Não nota mesmo? — Maria acenou a cabeça em direção à cama.

Sherman agora reparava, sobre a cama, um pequeno quadro de moldura clara. Aproximou-se. Era a figura de um homem nu, visto de costas, os contornos em grossas pinceladas negras, do jeito que uma criança de oito anos pintaria, supondo que uma criança de oito anos tivesse a ideia de pintar um nu masculino. O homem parecia estar tomando banho de chuveiro, ou pelo menos havia uma coisa que lembrava um esguicho acima da cabeça e alguns traços grossos e pretos saindo desse esguicho. Parecia estar tomando um banho de óleo combustível. A pele do homem era bronzeada com repugnantes borrões rosa arroxeados, como se tivesse sofrido queimaduras graves. Que lixo... Era nojento... Mas desprendia um odor santificado de arte séria, e sendo assim, Sherman hesitou em ser sincero.

— Onde arranjou isso?

— Gosta? Conhece a obra dele?

— A obra de quem?

— Filippo Chirazzi.

— Não, não conheço a obra dele.

Ela sorria.

— Saiu um artigo inteiro sobre ele no Times.

Sem querer passar por um filisteu da Wall Street, Sherman retomou o exame da obra-prima.

— Bem, tem uma certa... como posso dizer?... franqueza. — Ele lutava contra o impulso de ironizar. — Onde o conseguiu?

— Filippo me deu. — Muito animada.

— Foi muita generosidade.

— Arthur comprou quatro de seus quadros, dos grandes.

— Mas ele não deu esse ao Arthur, deu-o a você.

— Quis um para mim. Os grandes são de Arthur. Além disso, Arthur não saberia distinguir Filippo de... sei lá o quê, se eu não lhe dissesse.

— Ah.

— Você não gostou, não é?

— Gostei. Para dizer a verdade, estou atordoado. Acabei de fazer uma coisa muito idiota.

Maria desistiu da pose e sentou-se na beira da cama, no pseudodivã, como se dissesse “Muito bem, estou pronta para ouvir”. Cruzou as pernas. A saia estava agora na metade das coxas. Embora aquelas pernas, aquelas primorosas pernas e coxas, não viessem ao caso no momento, Sherman não conseguia afastar os olhos delas. As meias emprestavam-lhes brilho. Elas cintilavam. Todas as vezes que se mexia, os volumes tremeluziam.

Sherman permanecia de pé. Não dispunha de muito tempo, conforme estava em vias de explicar.

— Trouxe Marshall para passear. — Marshall estava então estirado no carpete. — E está chovendo. E ele começou me dando muito trabalho.

Quando chegou na parte do telefonema propriamente dito, só em descrevê-lo já se tornou agitadíssimo. Notou que Maria refreava sua preocupação, se é que sentia alguma, com muito sucesso, mas ele não conseguia se acalmar. E prosseguiu descrevendo o cerne emocional da questão, o que sentiu imediatamente depois de desligar — e Maria o interrompeu com um sacudir de ombros e um leve piparote no ar com as costas da mão.

— Ora, isso não é nada, Sherman. — Não é nada, Châââmân.

Ele arregalou os olhos.

— Você só deu um telefonema. Não sei por que não disse simplesmente: “Ah, desculpe. Estava ligando para minha amiga Maria Ruskin.” É isso que eu teria feito. Nunca me dou ao trabalho de mentir para o Arthur. Não conto tudinho, mas não minto.

Teria sido possível usar uma estratégia tão descarada? Repassou-a mentalmente.

— Ahnnnnnnnn. — Terminou num gemido. — Não vejo como poderia sair às 9 e meia da noite dizendo que vou passear com o cachorro e em seguida telefonar e dizer: “Ah, desculpe, na realidade estou ligando para Maria Ruskin.”

— Sabe qual é a diferença entre mim e você, Sherman? Você tem pena de sua mulher, e eu não tenho pena do Arthur. Arthur vai completar 72 anos em agosto. Sabia que eu tinha amigos quando se casou comigo, e sabia que não gostava deles, e ele tinha amigos e sabia que eu não gostava deles, Não os suporto. Todos aqueles velhos judeus.... Não olhe para mim como se eu tivesse dito uma coisa horrível! É assim que Arthur fala. “Os yiddim.” E os goyim, e eu sou uma shiksa. Nunca tinha ouvido falar disso antes de conhecer Arthur. Sou eu quem está casada com um judeu e não você, e já tive que engolir suficiente papo de judeu nos últimos cinco anos para poder usar um pouquinho se quiser.

— Você contou a ele que tem um apartamento aqui?

— Claro que não. Já lhe disse. Não minto, mas não entro em detalhes.

— E isso é um detalhe?

— Não é nada tão importante quanto você pensa que é. É uma chateação. O senhorio está de novo em pé de guerra.

Maria levantou-se, foi até a mesa, apanhou uma folha de papel, entregou-a a Sherman e voltou para a beira da cama. Era uma carta da firma de advocacia Golan, Shander, Morgan e Greenbaum à sra. Germaine Boll sobre sua situação de inquilina de um apartamento de aluguel tabelado, de propriedade da Winter Real Properties, Inc. Sherman não conseguia se concentrar. Não queria pensar nisso. Estava ficando tarde. Maria continuava a sair pela tangente. Estava ficando tarde.

— Não sei, Maria. Isso é uma coisa que só Germaine pode resolver.

— Sherman?

Ela sorria com os lábios entreabertos. Levantou-se.

— Sherman, venha aqui.

Ele deu dois passos em direção a ela, mas resistiu ao impulso de chegar muito próximo. O olhar no rosto dela, no entanto, dizia que ela o queria juntinho.

— Você acha que está encrencado com sua mulher, e só o que fez foi dar um telefonema.

— Hum. Não acho que estou encrencado, sei que estou encrencado.

— Bom, se já está encrencado, e nem chegou a fazer nada, então talvez fosse melhor fazer alguma coisa, já que dá no mesmo.

Então ela o tocou.

O rei Príapo, que estivera apavorado, agora ressurgia dos mortos.

Esparramado na cama, Sherman viu de relance o bassê. O bicho tinha se erguido do tapete, encaminhava-se para a cama e olhava para eles batendo o rabinho.

Nossa! Haveria por acaso alguma maneira de um cachorro poder dar a entender... Haveria alguma coisa que cachorros fizessem para demonstrar que tinham visto... Judy conhecia os animais. Ela comentava e se preocupava com cada mudança de humor de Marshall, chegava a ser revoltante. Haveria alguma coisa que bassês fizessem depois de observar... Mas então o seu sistema nervoso começou a se desintegrar, e ele parou de se importar.

Sua Majestade, o mais antigo dos reis, Príapo, Senhor do Universo, não possuía consciência.

Sherman abriu a porta do apartamento e fez questão de amplificar os sons usuais de aconchego.

— Isso, Marshall, ótimo, ótimo.

Despiu a capa de chuva, fazendo farfalhar exageradamente o material de borracha, tilintar as fivelas e soltou alguns suspiros.

Nem sinal de Judy.

A sala de jantar, a sala de estar e uma pequena biblioteca desembocavam no vestíbulo de mármore. Cada uma tinha suas cintilações e fulgores de madeira esculpida, vidro lapidado, cortinas de seda crua, laca e todos os demais toques, de um luxo de tirar o fôlego, dados por sua mulher, a aspirante a decoradora. Então percebeu. A grande bergère de couro que em geral ficava defronte da porta da biblioteca estava virada. Dava para ver apenas o alto da cabeça de Judy por trás. Havia um abajur junto à cadeira. Ela parecia estar lendo um livro.

Encaminhou-se para a porta.

— Muito bem! Estamos de volta!

Não houve resposta.

— Você tinha razão. Molhei-me até os ossos, e Marshall não ficou nem um pouco feliz.

Ela não virou a cabeça. Ouviu apenas sua voz, vinda da direção do espaldar da poltrona.

— Sherman, se quer falar com alguém chamado Maria, por que telefona para mim?

Sherman deu um passo, entrando na sala.

— Que quer dizer? Se eu quero falar com quem?

A voz:

— Ora, pelo amor de Deus. Não se dê o trabalho de mentir.

— Mentir... sobre o quê?

Então Judy meteu a cabeça pelo lado da bergère. O olhar que lançou!

Com o coração nas mãos, ele se aproximou da cadeira. Emoldurado pela corola de cabelos castanhos e sedosos, o rosto da mulher era pura aflição.

— De que está falando, Judy?

Estava tão abalada que a princípio não conseguia desabafar.

— Gostaria que pudesse ver a expressão vulgar de seu rosto.

— Não sei do que está falando!

O tom estridente de sua voz a fez rir.

— Muito bem, Sherman, você vai ficar aí parado e me dizer que não telefonou para cá e não pediu para falar com alguém chamado Maria?

— Com quem?

— Alguma putinha, se é para eu adivinhar, chamada Maria.

— Judy, juro por Deus, não sei de que está falando! Estive fora passeando Marshall! Nem ao menos conheço alguém chamado Maria! Alguém ligou para cá procurando alguém chamado Maria?

— Hummm! — foi o resmungo breve de descrença. Ela se ergueu e o encarou nos olhos.

— E você fica parado aí! Acha que não conheço sua voz ao telefone?

— Talvez conheça, mas não a ouviu hoje à noite! Juro por Deus.

— Você está mentindo! — Concedeu-lhe um sorriso medonho. — E é um péssimo mentiroso. E é um mau-caráter. Você se acha o máximo, mas é tão ridículo! Você está mentindo, não está?

— Não estou mentindo. Juro por Deus, levei Marshall para dar uma volta e vim direto para casa, e hum — quero dizer, nem sei o que dizer, porque sinceramente não sei do que está falando. Você está me pedindo para provar uma proposição negativa.

— Proposição negativa. — A repugnância exsudava do termo elegante. — Você se demorou demais. Foi lhe dar um beijinho de boa noite e aconchegá-la na cama, também?

— Judy...

— Foi?

Sherman afastou o rosto daquele olhar colérico, ergueu a palma das mãos e suspirou.

— Ouça, Judy, você está redondamente... redondamente enganada. Juro por Deus.

Ela o encarou. De repente, havia lágrimas em seus olhos.

— Ah, você jura por Deus. Ah, Sherman. — Agora começava a fungar sufocando as lágrimas. — Eu não vou... eu vou subir. O telefone está aí. Por que não telefona para ela daqui? — Forçava as palavras por entre as lágrimas. — Não faz diferença. Realmente não faz diferença alguma.

E em seguida saiu da sala. Ele ouviu seus sapatos retinindo pelo mármore em direção à escada.

Sherman se dirigiu à escrivaninha e se sentou na cadeira giratória estilo Hepplewhite. Afundou-se nela. Seus olhos pousaram no friso que corria à volta do teto da salinha. Era formado de figuras apressadas numa calçada citadina esculpidas em alto-relevo em sândalo vermelho. Judy mandara fazê-lo em Hong Kong por uma quantia assombrosa do... meu dinheiro. Então se debruçou na mesa. Aquela desgraçada. Desesperado, tentava reacender as chamas da sua justa indignação. Seus pais tinham razão, não tinham? Merecia uma mulher melhor. Ela era dois anos mais velha, e a mãe dissera que essas coisas podiam fazer diferença — o que, pela maneira como dissera, significava que fariam diferença, mas lhe dera ouvidos? Ahhhhh, não. O pai, possivelmente se referindo a Cowles Wilton, que tivera um casamento breve e tumultuado com uma judiazinha desconhecida, afirmara: “Será que não era igualmente fácil se apaixonar por uma moça rica de boa família?” E lhe dera ouvidos? Ahhhhhh, não. E todos esses anos, Judy, filha de um professor de história do meio-oeste — um professor de história do meio-oeste! — agira como se pertencesse à aristocracia intelectual — mas não tivera escrúpulos de usar seu dinheiro e o de sua família para se associar a esse seu novo grupo de grã-finas e começar esse papo de decoração e estampar seus nomes e seu apartamento nas páginas dessas publicações vulgares, W e Architectural Digest e outras do mesmo quilate, tivera? Ahhhhhhhh, não, nem por um minuto! E o que sobrara para ele? Uma quarentona correndo para aulas de ginástica...

... e instantaneamente a viu como a vira pela primeira vez naquela noite, havia catorze anos, em Greenwich Village, no apartamento de Hal Thorndike, paredes cor de chocolate, uma mesa enorme coberta de pirâmides de comida e um grupo de convidados que eram bem mais que boêmios, se é que ele entendia de boêmios — e a moça de cabelos castanhos e feições delicadas e um ousado vestido curto que revelava tanto daquele corpinho perfeito. E na mesma hora ele sente a maneira inexprimível com que se aconchegaram em um casulo perfeito, em seu apartamentinho na Charles Street e no apartamentinho dela na West 19th, imunes a tudo o que seus pais e Buckley e St. Paul e Yale tinham lhes imposto — e se lembra como dissera — praticamente nessas palavras! — que o amor deles transcenderia... tudo...

... e agora ela, quarentona, famélica e exercitada quase à perfeição, se retirara para ir chorar na cama!

Tornou a se afundar na cadeira giratória. A exemplo de tantos homens antes, ele não tinha armas contra as lágrimas de uma mulher. E deixou pender seu nobre queixo sobre o colarinho. Entregou os pontos.

Distraidamente apertou um botão no tampo da mesa. A porta giratória de um falso armário Sheraton deslizou, revelando a tela de uma televisão. Mais um dos toques da sua cara decoradora lacrimosa. Abriu a gaveta e tirou o dispositivo de controle remoto e comprimiu o botão fazendo a tela ganhar vida. Noticiário. O prefeito de Nova York. Um palco. Uma multidão raivosa de negros. Harlem. Muita agitação. Um tumulto. O prefeito se abriga. Gritos... caos... uma briga das boas. Absolutamente sem sentido. Para Sherman não tinha mais significação do que uma rajada de vento. Não conseguia se concentrar na notícia. Desligou a TV.

Ela estava certa. O Senhor do Universo era ridículo, e era mau-caráter, e era mentiroso.