A Fogueira das Vaidades
Capítulo 29
29
O ENCONTRO
Na manhã seguinte, Kramer, Bernie Fitzgibbon e os dois detetives, Martin e Goldberg, encontraram-se no gabinete de Abe Weiss. Era uma espécie de reunião de conselho. Weiss sentava-se à cabeceira da mesa de reuniões, feita em nogueira. Fitzgibbon e Goldberg sentavam-se à sua esquerda; Kramer e Martin, à direita. O assunto era como proceder ao júri de instrução no caso Sherman McCoy. Weiss não gostou do que ouvia de Martin. Tampouco Kramer. De quando em quando, Kramer dava uma olhada em Bernie Fitzgibbon. Só o que conseguia discernir era uma máscara de impassividade irlandesa, mas que emitia ondas curtas que diziam “Eu avisei”.
— Espere um instante — disse Weiss. Dirigiu-se a Martin. — Conte-me outra vez como foi que prendeu essas duas figuras.
— Foi num arrastão de crack — disse Martin.
— Arrastão de crack? — perguntou Weiss. — Que diabo é um arrastão de crack?
— Um arrastão de crack é uma... é o que estamos fazendo agora. Em alguns quarteirões lá pra cima, há tantos traficantes de crack que é como um mercado das pulgas. Muitos prédios estão abandonados e, nos outros, as pessoas que moram por lá têm medo de sair, porque não há mais nada na rua a não ser gente vendendo crack, gente comprando crack e gente fumando crack. Então fazemos esses arrastões. Entramos e apanhamos tudo o que está à solta.
— E isso funciona?
— Claro. Fazemos isso umas duas vezes, e eles se mudam para outro quarteirão. Chegou a tal ponto que assim que o primeiro carro-patrulha aparece na esquina, eles começam a correr para fora dos prédios. É como nesses canteiros de obra quando explodem a primeira carga de dinamite e os ratos disparam pela rua. Alguém devia levar uma dessas câmeras de filmar um dia desses. Toda aquela gente correndo pela porra da rua.
— Muito bem — disse Weiss. — Então esses dois sujeitos que vocês prenderam conhecem Roland Auburn?
— É. Todos conhecem Roland Auburn.
— Muito bem. Então o que está nos dizendo... é alguma coisa que Roland Auburn disse a eles pessoalmente ou é uma coisa que ouviram de terceiros?
— Não, essa é a versão que corre.
— Nos círculos de crack do Bronx — acrescentou Weiss.
— É, creio que sim — confirmou Martin.
— Muito bem, continue.
— Bom, a história que corre é que Roland por acaso viu esse garoto, Henry Lamb, andando em direção ao restaurante Texas Fried Chicken, e saiu atrás dele. Roland tem prazer em atormentar o garoto. Lamb é o que eles chamam de “menino bonzinho”, “filhinho da mamãe”, “menino que não assume”. Ele não sai de casa para participar da vida das ruas. Vai à escola, vai à igreja, quer ir para a universidade, não se mete em encrencas — nem ao menos é um morador permanente do conjunto. A mãe está tentando economizar dinheiro para dar entrada numa casa em Springfield Gardens, ou não estariam nem morando lá.
— Esses dois sujeitos não podem ter lhe contado isso.
— Não, isso é o que já tínhamos descoberto sobre o garoto e a mãe.
— Bom, vamos nos ater a esses dois chincheiros e ao que disseram.
— Eu estava tentando dar o quadro geral.
— Ótimo. Agora me dê o primeiro plano.
— Tudo bem. Então, Roland está descendo o Bruckner Boulevard com Lamb. Estão passando pela rampa na Hunts Poit, e Roland vê essa merda na rampa, esses pneus ou latas de lixo ou qualquer coisa assim, e percebe que alguém esteve lá em cima tentando roubar carros. Então diz a Lamb: “Vamos, vou te mostrar como se puxa um carro.” Lamb não quer tomar parte nisso, então Roland diz: “Eu não vou puxar, só vou te mostrar como se faz. Está com medo de quê?” Ele desdenha do garoto, sabe, porque é um filhinho da mamãe. Então o garoto sobe a rampa com ele e quando dá por si, Roland está atirando um pneu ou uma lata ou qualquer coisa na frente desse carro, um tremendo Mercedes, em que afinal se encontravam McCoy e uma mulher. Esse veado, o Lamb, só estava parado lá. Provavelmente se cagando de medo de estar lá, e se cagando de medo de fugir, também, por causa de Roland, que só está aprontando esse número para mostrar que ele não passa de uma bicha, pra começo de conversa. Então alguma coisa sai errado porque McCoy e a mulher conseguem escapulir, e Lamb é atingido de raspão. Em todo caso é isso que está correndo à boca miúda.
— Bom, é uma teoria. Mas você encontrou alguém que afirmasse que ouviu Roland dizer qualquer coisa?
Bernie Fitzgibbon atalhou:
— Essa teoria explicaria por que Lamb não disse nada sobre o carro que o atropelou quando deu entrada no hospital. Não queria que ninguém pensasse que estava envolvido numa tentativa de roubo de carro. Só quis que encanassem seu pulso e foi para casa.
— É — disse Weiss —, mas só o que temos aqui é uma teoria apresentada por dois chincheiros. Gente assim não sabe a diferença entre o que está ouvindo e o que está ouvindo. — Girou o dedo indicador na têmpora no melhor estilo dos desenhos do Pernalonga.
— Bom, acho que vale a pena investigar, Abe — disse Bernie. — Acho que devíamos gastar um tempinho com isso, de qualquer forma.
Kramer se sentiu alarmado, rancoroso, e pôs-se na defensiva, na defensiva de Roland Auburn. Nenhum deles tinha se dado o trabalho de conhecer Roland como ele. Roland não era um santo, mas no íntimo era bom, e estava dizendo a verdade.
Disse a Bernie:
— Não há mal algum em investigar, mas posso imaginar como uma teoria dessas realmente se origina. Quero dizer, na verdade é a teoria de McCoy. É o que McCoy contou ao Daily News e apareceu na televisão. Quero dizer, essa teoria já está nas ruas e é nisso que se transforma. Responde a uma pergunta, mas levanta dez outras. Quero dizer, por que Roland iria tentar roubar um carro na companhia desse garoto que ele sabe que é um fracote, um inútil? E se McCoy é a vítima de uma tentativa de assalto e atropela um dos assaltantes, por que hesitaria em comunicar isso à polícia? Podia fazer isso assim. — Kramer estalou os dedos e percebeu que sua voz assumira um tom argumentativo.
— Concordo que levante uma série de perguntas — disse Bernie. — Tanto mais motivo para não se antecipar a apresentação do caso perante um júri de instrução.
— Temos que apressá-lo — argumentou Weiss.
Kramer surpreendeu Bernie observando-o de um certo jeito. Via as acusações nos seus olhos pretos de irlandês.
Nesse instante o telefone à escrivaninha de Weiss deu três toques baixos. Ele se ergueu, foi até a escrivaninha e atendeu-o.
— Sim?... Tudo bem, pode ligar... Não, não vi The City Light... O quê? Você deve estar brincando...
Virou-se para a mesa de reuniões e disse a Bernie:
— É o Milt. Acho que não vamos ter que nos preocupar com teorias de chincheiros por algum tempo.
Não demorou nada e Milt Lubell, de olhos arregalados, ligeiramente sem fôlego, adentrava a sala com um exemplar de The City Light. Abriu-o na mesa de reuniões. A primeira página saltou aos olhos de todos.
“EXCLUSIVA DE City Light
VIÚVA DE
FINANCISTA É
MULHER MISTERIOSA
DO CASO MCCOY
McCoy no enterro: — Ajude-me!”
Ao pé da página uma legenda dizia: “Peter Fallow, testemunha ocular, fotos páginas 3, 4, 5, 14, 15.”
Todos — os seis — se levantaram e se debruçaram, apoiando as palmas na mesa de nogueira para se firmar. As cabeças convergiam para o epicentro, que era a manchete.
Weiss se endireitou. No seu rosto havia a expressão de um homem que sabe que é seu dever liderar.
— Muito bem, aqui está o que vamos fazer. Milt, ligue para Irv Stone no Canal 1. — Em seguida, arrolou os nomes dos responsáveis pelo noticiário de cinco outros canais. — E ligue para Fallow. E aquele sujeito, o Flannagan, do News. É isso é o que vai lhes dizer: “Vamos interrogar essa mulher o mais depressa possível.” Isso é oficial. Oficiosamente, diga-lhes que se ela for a mulher que estava em companhia de McCoy, então enfrentará a acusação de delito grave, porque era ela quem dirigia o carro depois de McCoy atropelar o garoto. Isso é fugir da cena do crime e se omitir em comunicá-lo. Atropelamento com fuga do responsável. Ele atropelou, ela fugiu. Certo?
E para Bernie:
— Quanto a vocês... — Fez uma rápida panorâmica com o olhar abrangendo Kramer, Martin e Goldberg, para indicar que também estavam incluídos. — Procurem essa mulher e digam-lhe exatamente a mesma coisa. “Sentimos que seu marido esteja morto etc. etc. etc., mas precisamos de umas respostas urgentes, e se era a senhora que estava no carro com McCoy, então está metida numa enrascada dos diabos.” Mas, se estiver disposta a confessar tudo sobre McCoy, concederemos a ela imunidade no júri de instrução. — E para Kramer: — Não seja demasiado específico sobre isso, a princípio. Ora, diabos, você sabe como fazer.
Quando Kramer, Martin e Goldberg pararam diante do prédio número 962 da Fifth Avenue, a calçada parecia um campo de refugiados. Equipes de televisão, comentaristas de rádio, repórteres e fotógrafos estavam sentados, andando e matando o tempo, vestidos de jeans, malhas, jaquetas e calçados Trapper Dan que a categoria dera para usar, e os curiosos que apreciavam a movimentação não estavam com roupas tão diferentes. Os tiras do 19º Distrito tinham armado uma fileira dupla de cavaletes para delimitar um corredor até a porta de entrada para proteger os moradores do edifício. Um patrulheiro fardado estava de um lado. Para um edifício daquele porte, catorze andares e meio quarteirão de largura, a entrada não era particularmente grandiosa. Mesmo assim, transpirava dinheiro. Havia uma única porta de vidro emoldurada em latão pesado, muito bem polido e protegido por grades de latão, que também reluziam. Um toldo estendia-se da porta até a beira da calçada. Era sustentado por postes de latão com ferros de retenção também de latão, igualmente polidos até adquirirem o aspecto de ouro branco. Mais do que qualquer outra coisa, era a perenidade do trabalho pesado representado por todo aquele latão polido que transpirava dinheiro. Por trás da porta de vidro, Kramer vislumbrou o vulto de dois porteiros uniformizados, e pensou em Martin e no seu solilóquio sobre as merdas no edifício de McCoy.
Bom... ali estava ele. Erguera os olhos para esses edifícios residenciais na Fifth Avenue, diante do Central Park, mil vezes pelo menos, mais recentemente no domingo à tarde. Estivera no parque com Rhoda, que empurrava Joshua no carrinho, e o sol da tarde iluminara as grandes fachadas de calcário a tal ponto que uma frase lhe passara pela mente: “a costa do ouro.” Mas era apenas uma observação, desprovida de sentimento, exceto talvez por uma ligeira satisfação ao passear nessas paragens douradas. Era fato sabido que as pessoas mais ricas de Nova York moravam nesses edifícios. Mas a vida delas, qualquer que fosse, era tão remota quanto um outro planeta. Tais pessoas eram apenas estereótipos, inteiramente fora do alcance de qualquer inveja concebível. Eram Os Ricos. Não teria podido citar o nome de nem um só deles.
Agora, podia.
Kramer, Martin e Goldberg desceram do carro, e Martin disse alguma coisa ao tira fardado. A massa irregular de jornalistas se agitou. Suas roupas ondulantes esvoaçaram. Examinaram os três de alto a baixo e farejaram procurando o cheiro do caso McCoy.
Será que o reconheceriam? O carro não tinha identificação, e até Martin e Goldberg estavam usando paletó e gravata, de modo que poderiam parecer três homens que casualmente se dirigissem a esse edifício. Por outro lado... será que ainda era um funcionário anônimo do sistema de justiça penal? Pouco provável. Seu retrato (feito pela deliciosa Lucy Dellafloria) aparecera na televisão. Seu nome aparecera em todos os jornais. Os três começaram a subir o corredor por entre as barricadas da polícia. Na metade do caminho... Kramer se sentiu abandonado. Nenhum interesse dessa enorme assembleia inquieta formada pela imprensa de Nova York!
Então:
— Ei, Kramer! — Uma voz à direita. Seu coração saltou. Kramer! — Seu impulso foi virar e sorrir, mas refreou-se. Deveria continuar a andar e não dar atenção? Não, não deveria bancar o superior, deveria?... Então, voltou-se na direção da voz com um ar seriíssimo.
Duas vozes ao mesmo tempo:
— Ei, Kramer, você vai...
— Quais são as acusações...
— ... falar com ela?
— ... contra ela?
Ouviu alguém perguntando:
— Quem é?
E alguém respondendo:
— E Larry Kramer. O promotor encarregado do caso.
Kramer manteve os lábios firmes e disse:
— Não tenho nada para vocês agora, rapazes.
“Rapazes!” Eles eram gente sua agora, esse bando — a imprensa, que anteriormente fora uma mera abstração, pelo menos no que lhe dizia respeito. Agora encarava toda essa turba inquieta de frente, e eles estavam atentos a suas palavras, a seus passos. Um, dois, três fotógrafos em posição. Ouvia o ruído agudo do mecanismo de rebobinar as câmeras. Um pessoal de televisão carregado de equipamento se aproximava. Uma videocâmera alongava-se do crânio de um deles como um chifre. Kramer diminuiu o passo e encarou um dos repórteres como se refletisse numa resposta, para poder expor aos sujeitos mais alguns segundos dessa sua cara solene. (Eles só estavam fazendo o trabalho deles.)
Quando ele, Martin e Goldberg chegaram à porta de entrada, Kramer disse aos dois porteiros, com autoridade gutural:
— Larry Kramer, da Promotoria Distrital do Bronx. Estão à nossa espera.
O porteiro atendeu-o imediatamente.
Lá em cima, a porta do apartamento foi aberta por um homenzinho uniformizado que parecia indonésio ou coreano. Kramer entrou — a visão o ofuscou. Era de se esperar, porque fora concebido para ofuscar gente muito mais afeita ao luxo do que Larry Kramer. Olhou para Martin e Goldberg. Eram peixes fora d’água... o teto à altura de dois andares, o enorme lustre, a escadaria de mármore, as colunas caneladas, a prataria, a sacada, as enormes pinturas, as suntuosas molduras, qualquer uma delas custava a metade do salário anual de um tira. Os olhos deles devoravam aquilo tudo.
Kramer ouvia um aspirador de pó funcionando no andar superior. Uma empregada de uniforme preto e avental branco apareceu no piso de mármore da galeria de entrada e em seguida desapareceu. O copeiro oriental conduziu-os pela galeria. Por um portal relancearam uma vasta sala inundada da claridade que vinha das janelas mais altas que Kramer já vira numa residência particular. Eram tão grandes quanto as janelas dos tribunais na ilha-fortaleza. Descortinavam o topo das árvores do Central Park. O copeiro levou-os a uma sala menor e mais escura, ao lado. Talvez fosse mais escura por comparação; na realidade, uma única janela alta voltada para o parque admitia tanta luz que a princípio os dois homens e a mulher que os aguardavam só eram visíveis em silhueta. Os dois homens estavam de pé. A mulher, sentada em uma cadeira. Havia um conjunto de escadas de biblioteca sobre rodas, uma grande escrivaninha com ornatos dourados nas pernas curvas, antiguidades sobre o tampo, dois pequenos sofás com uma grande mesa de centro de madeira entalhada entre os dois, diversas poltronas, mesinhas laterais e... coisinhas assim.
Uma das silhuetas adiantou-se, saindo da claridade, e disse:
— Sr. Kramer? Sou Tucker Trigg.
“Tucker Trigg”: esse era o nome verdadeiro do cara. Era o advogado dela, de Curry, Goad & Pesterall. Kramer marcara esse encontro por intermédio dele. Tucker Trigg tinha uma voz de WASP que parecia uma buzina fanhosa, e realmente desconcertou Kramer, mas agora que Kramer o via em pessoa, não combinava com a ideia que fazia de um WASP. Era grande, redondo, balofo, como um jogador de futebol que tivesse engordado. Apertaram-se as mãos, e Tucker Trigg disse na sua voz fanhosa:
— Sr. Kramer, essa é a sra. Ruskin.
Ela se encontrava sentada numa cadeira de espaldar alto que fez Kramer pensar em uma daquelas peças do Masterpiece Theatre. Havia um sujeito alto e grisalho postado ao lado dela. A viúva — como parecia jovem e sensual! “Tesuda”, Roland dissera. Arthur Ruskin tivera as mãos cheias, 71 anos de idade, com um segundo marca-passo tiquetaqueando. Ela usava um vestido de seda preta. O fato de que os ombros largos e a gola oficial eram a última moda passou despercebido a Larry Kramer, mas as pernas não. As pernas estavam cruzadas. Kramer tentava impedir que seus olhos corressem da curva luminosa do peito do pé à curva reluzente das pernas e daí à curva cintilante das coxas sob o vestido preto. Fez o possível. A moça possuía um maravilhoso pescoço longo e ebúrneo, seus lábios se entreabriam ligeiramente, e os olhos escuros pareciam estar sorvendo os dele. Sentiu-se atarantado.
— Lamento importuná-la nessas circunstâncias — gaguejou. Imediatamente percebeu que dissera alguma tolice. Será que ela deveria supor que em outras circunstâncias teria prazer em importuná-la?
— Ah, eu compreendo, sr. Kramer — disse suavemente, com um sorriso corajoso. Seria apenas um sorriso corajoso? Deus do céu, o jeito com que o olhava!
Não conseguia imaginar o que dizer a seguir. Tucker Trigg poupou-lhe a tarefa apresentando o homem parado junto à poltrona. Era um homem alto e mais velho. Os cabelos grisalhos estavam elegantemente penteados para trás. Tinha o tipo de postura militar que raramente se via em Nova York. Seu nome era Clifford Priddy, e era muito conhecido por defender pessoas importantes em casos criminais federais. Esse era um perfeito WASP. Olhava as pessoas do alto do seu comprido nariz. Suas roupas eram discretas e caras, como somente aqueles filhos da puta sabiam escolher. Os lustrosos sapatos pretos eram ah-tão-maciamente justos no solado do pé e bem arrematados nas pontas. O homem fazia Kramer se sentir mal-ajambrado. Seus sapatos eram pesadas lanchas marrons com solas que saíam para fora como platibandas. Bom, esse caso não era da alçada federal, onde a velha rede de famílias ricas e tradicionais ainda protegia os seus. Não, estavam tratando do primitivo Bronx, agora.
— Como está, sr. Kramer — disse o sr. Clifford Priddy afavelmente.
— Bem — disse Kramer apertando a mão dele e pensando: “Vamos ver se conserva esse ar cheio de si quando o levarmos para a Gibraltar.”
Então apresentou Martin e Goldberg, e todos se sentaram. Martin, Goldberg, Tucker Trigg e Clifford Priddy: que belo quarteto. Goldberg sentava-se um pouco curvado, um pouco intimidado, mas Martin continuava a ser o Turista Imperturbável. Seus olhos dançavam por toda a sala.
A jovem viúva de preto apertou um botão na mesa junto à cadeira. Tornou a cruzar as pernas. Os brilhos curvilíneos se dissolveram e se reagruparam e Kramer tentou desviar os olhos. Ela olhou para a porta. Uma criada, filipina — Kramer podia adivinhar —, estava parada-ali.
Maria Ruskin olhou para Kramer, depois para Goldberg e Martin e perguntou:
— Os senhores aceitariam um café?
Ninguém quis café. Ela disse:
— Nora, gostaria de tomar um café e...
— Cora — a mulher disse sem inflexão na voz. Todas as cabeças se voltaram para ela, como se tivesse acabado de puxar um revólver.
— ... e traga mais umas xícaras, por favor — disse a viúva, fingindo não ouvir a correção —, caso um dos senhores mudar de ideia.
“A gramática não é lá muito perfeita”, pensou Kramer. Tentou lembrar exatamente o que estava errado no que ela dissera e então percebeu que todos estavam em silêncio, observando-o. Agora o espetáculo era dele. Os lábios da viúva mantinham-se entreabertos com o mesmo sorrisinho estranho. Seria coragem? Troça?
— Sra. Ruskin — começou —, como disse, lamento ter vindo procurá-la neste momento, e estou muito grato pela sua cooperação. Estou certo de que o sr. Trigg e o sr. Priddy lhe explicaram a finalidade desta visita, e só, hum, quero... — Ela mexeu as pernas sob o vestido, e Kramer tentou não reparar na maneira como suas coxas se avolumaram sob a seda preta e brilhante. — ... hum, ressaltar que este caso, que envolve uma grave lesão, possivelmente fatal, num jovem, Henry Lamb... este caso é importantíssimo para o nosso gabinete, porque é importantíssimo para o povo do Bronx e para todo o povo desta cidade. — Parou. Percebeu que estava parecendo pomposo, mas não sabia como voltar a falar normalmente. A presença desses advogados WASPs e a escala desse palácio tinham-no feito assumir ares de importância.
— Compreendo — disse a viúva, possivelmente para ajudá-lo. Tinha a cabeça ligeiramente inclinada e sorria, o sorriso de uma amiga íntima. Kramer sentia pruridos de excitação. Sua mente saltou para o julgamento. Às vezes acabava-se trabalhando muito intimamente com uma testemunha cooperativa.
— É por isso que sua cooperação seria de grande valor para nós. — Levantou bem a cabeça para enfatizar a magnificência dos seus esternoclidomastóideos. — Agora, só o que desejo é tentar explicar o que estará envolvido se a senhora se dispuser a cooperar ou se por qualquer razão decidir não cooperar, porque acredito que temos que deixar isso muito claro. Determinadas coisas decorrerão naturalmente de cada uma das decisões. Agora, antes de começarmos, gostaria de lembrar... — Tornou a parar. Começara a frase mal e ia acabar se enrolando na sintaxe. Não havia nada a fazer, exceto continuar. — ... que está representada por advogados eminentes, por isso não preciso lembrá-la de seus direitos com respeito a isso. — “Com respeito a isso.” Por que essas frases pomposas e inúteis? — Mas sou obrigado a lembrá-la do seu direito de se manter calada, caso o queira por qualquer motivo.
Olhou-a e meneou a cabeça, como se perguntasse: “Fui claro?” Ela retribuiu o aceno, e ele reparou no volume de seus seios movendo-se sob a seda preta.
Ergueu de junto à poltrona sua pasta, colocou-a no colo e imediatamente desejou que não o tivesse feito. Os cantos e quinas gastos da pasta eram uma evidência de sua posição inferior. (Um promotor assistente do Bronx de 36 mil dólares anuais.) Olhe só para a maldita pasta! Toda ressequida, gretada e descorada! Sentiu-se humilhado. Que estaria passando pela cabeça desses porras desses WASPS nesse momento? Estariam contendo sorrisinhos sarcásticos por razões táticas ou por alguma delicadeza condescendente de WASPS?
Da pasta tirou duas páginas de anotações em papel amarelo e uma pasta cheia de xerocópias, incluindo recortes de jornais. Então fechou a pasta denunciadora e tornou a pousá-la no chão.
Consultou as anotações. Ergueu os olhos para Maria Ruskin.
— Há quatro pessoas que têm pleno conhecimento deste caso — disse. — Uma é a vítima, Henry Lamb, que aparentemente está em coma irreversível. Outra é o sr. Sherman McCoy, que é acusado de negligência criminosa, de abandonar a cena de um acidente, de deixar de comunicar um acidente. Ele nega essas acusações. A terceira é um indivíduo que estava presente quando ocorreu o fato e que se apresentou e identificou positivamente o sr. McCoy como o motorista do carro que atropelou o sr. Lamb. Essa testemunha nos contou que o sr. McCoy estava acompanhado de outra pessoa, uma mulher branca na casa dos vinte, e a informação fornecida a torna cúmplice de um ou mais crimes de que o sr. McCoy é acusado. — Parou, pelo tempo que julgou necessário para obter o máximo efeito. — A testemunha identificou positivamente a mulher como sendo... a senhora.
Kramer parou e olhou a viúva diretamente no rosto. A princípio ela foi perfeita. Nem piscou. Seu lindo sorriso corajoso não se alterou um instante. Mas em seguida seu pomo de adão, quase imperceptivelmente, subiu e desceu uma vez.
Engoliu em seco!
Uma sensação gostosa invadiu Kramer, todas as suas células e todas as suas fibras nervosas. Naquele instante, o instante em que a moça engoliu em seco, sua pasta gasta perdeu o significado, bem como seus sapatões de lavrador, seu terno barato, seu salário miserável, seu sotaque nova-iorquino, os barbarismos e solecismos de sua fala. Pois naquele momento ele possuía uma coisa que esses advogados WASPS, esses executivos imaculados da Wall Street do universo de Currys & Goads & Pesteralls & Dunnings & Spongets & Leaches nunca conheceriam e nunca sentiriam o prazer indizível de possuir. E permaneceriam silenciosos e educados diante disso, como estavam agora, e engoliriam em seco de medo quando e se a sua hora chegasse. E agora compreendia o que é que o animava momentaneamente a cada manhã ao ver a ilha-fortaleza surgindo em meio à desolação do Bronx, no alto da Grand Concourse. Pois não era nada além do Poder, o mesmo Poder a que Abe Weiss se entregava de corpo e alma. Era o poder do governo sobre a liberdade de seus súditos. Pensar nisso abstratamente fazia esse poder parecer teórico e acadêmico, mas senti-lo... ver a expressão daqueles rostos... ao olharem para o indivíduo mensageiro e condutor do Poder — Arthur Rivers, Jimmy Dollard, Herbert 92X e o sujeito chamado Cafetão — até mesmo eles —, e agora ver essa engolidela de medo num pescoço perfeito que valia milhões — bom, o poeta jamais cantou aquele êxtase ou mesmo sonhou com ele, e nenhum promotor, nenhum juiz, nenhum tira, nenhum fiscal de rendas jamais falará dele, porque nem ousamos mencioná-lo um para o outro, ousamos? No entanto nós o sentimos e percebemos todas as vezes que nos olham com aquela expressão que suplica piedade ou, se não é piedade, nossa!, um acaso ou um capricho de generosidade. (“Só uma chance!”) Que são todas as fachadas de calcário da Fifth Avenue, todos os saguões de mármore e bibliotecas estofadas de couro, e todas as riquezas da Wall Street diante do meu controle do seu destino e o seu desamparo diante do Poder?
Kramer prolongou aquele momento enquanto os limites da lógica e da decência permitiram, e ainda mais um pouquinho. Nenhum deles, nem os dois imaculados advogados WASPs, da Wall Street, nem a bela viúva com seus milhões, se atreveram a dar um pio.
Então disse educada, paternalmente:
— Muito bem. Agora vamos ver o que isso significa.
Quando Sherman entrou no escritório de Killian, este exclamou:
— Eiiii, qual é, qual é! Por que essa cara comprida? Você não vai se importar de ter vindo até aqui quando eu lhe disser a razão. Acha que o trouxe até aqui para lhe mostrar isto?
Atirou The City Light na beira da escrivaninha. VIÚVA DE FINANCISTA... Sherman mal olhou para o jornal. Já ouvira o zum-zum e a agitação na galeria.
— Ele estava bem ali no salão da Casa Burns. Esse Peter Fallow, eu nem o vi.
— Não faz mal — retrucou Killian, que se sentiu bem-humorado. — Isso não é mais novidade. Já sabíamos. Estou certo? Trouxe-o aqui para saber das novidades.
A verdade era que Sherman não se importava nem um pouco com essas viagens à Reade Street. Ficar sentado no apartamento... esperando a próxima ameaça pelo telefone... A própria magnificência do apartamento zombava da situação a que fora reduzido. Sentava-se ali e esperava o próximo golpe. Era preferível fazer alguma coisa. Ir de carro até a Reade Street, mover-se na horizontal sem impedimentos — grande! Fantástico!
Sherman sentou-se, e Killian disse:
— Nem quis mencionar isso pelo telefone, mas recebi uma ligação interessante. Acertamos a quina.
Sherman só olhava.
— Maria Ruskin — continuou Killian.
— Está brincando.
— Eu não brincaria com isso.
— Maria ligou para você?
Imitando o sotaque de Maria:
— “Sr. Killian, meu nome é Maria Ruskin. Sou amiga de um cliente seu, o sr. Sherman McCoy.” Estamos falando da mesma pessoa?
— Nossa! Que foi que ela disse? O que queria?
— Quer ver você.
— Essa não...
— Quer vê-lo hoje à tarde, às 16 horas e 30 minutos. Disse que você saberia onde.
— Puxa vida... Sabe, ela me falou ontem no Burns que ia me ligar. Mas não acreditei nem por um segundo. E disse por quê?
— Não, e nem perguntei. Não queria dizer nada que pudesse fazê-la mudar de ideia. Só disse que tinha certeza de que você estaria lá. E tenho certeza de que estará, cara.
— Não lhe disse que ela me telefonaria?
— Disse? Você acabou de me dizer que não acreditou que ela ligaria.
— Eu sei. Ontem não acreditei, porque ela andou me evitando. Mas não falei que não era do tipo cauteloso? Ela é uma jogadora. Não é do tipo que não se arrisca. Gosta de uma luta, e seu jogo é... bom, são os homens. O seu jogo é a lei, o meu, os investimentos, o dela, os homens.
Killian começou a rir, mais da mudança no estado de ânimo dele do que de qualquer outra coisa.
— Ótimo — disse —, fantástico. Então vamos deixar você e ela jogarem. Vamos começar. Tive outra razão para fazê-lo vir até aqui em vez de me deslocar ao seu apartamento. Temos que instalar o gravador.
Apertou um botão e disse pelo interfone:
— Nina? Diga a Ed Quigley para vir até aqui.
Precisamente às 16 horas e 30 minutos, com o coração batendo um tanto acelerado, Sherman apertou a campainha do 4B Boll. Ela devia estar aguardando junto ao interfone — o aparelho em si já não funcionava — porque logo em seguida ele ouviu a cigarra da porta e o pesado clique-clique-clique da fechadura elétrica se abrindo, e ele entrou no prédio. O cheiro tornou-se instantaneamente familiar, o ar abafado, o carpete imundo das escadas. A mesma tinta velha e lúgubre, as portas dilapidadas e a luz melancólica — familiar e ao mesmo tempo nova e assustadora, como se nunca tivesse se dado ao trabalho de realmente reparar no que aquilo era. A maravilhosa atmosfera boêmia do lugar se dissipara. Ele agora tinha a infelicidade de contemplar um sonho erótico com o olhar de um realista. Como poderia algum dia ter achado aquilo encantador?
O rangido dos degraus lembrou-o de coisas que queria esquecer. Ainda viu o dachshund alçando o corpo de salsicha pelos degraus... “Você é um toquinho molhado de salame, Mââchâll”... E andara suando... Suando, fizera três viagens por essas escadas decrépitas para subir a bagagem de Maria... E agora levava a carga mais pesada de todas... Estou cheio de fios... Sentia o gravador na coluna lombar, o microfone sobre o esterno; sentia, ou imaginava sentir, a cola do esparadrapo que prendia os fios ao seu corpo. Cada um desses elementos miniaturizados engenhosamente, furtivamente, parecia crescer a cada passo que dava. Sua pele ampliava-os, como uma língua tateando um dente partido. Certamente eram óbvios! Quanto estaria escrito em seu rosto? Quanta falsidade? Quanta desonra?
Suspirou e descobriu que já estava suando e arquejando devido à subida, à adrenalina ou ao pânico. O calor de seu corpo tornava o esparadrapo irritante — ou seria a sua imaginação?
Quando chegou à porta, aquela triste porta pintada, estava ofegando. Parou, suspirou, então bateu à porta com aquele sinal que sempre tinham usado, tap tap tap tap tap — tap tap.
A porta se abriu devagarinho, mas não havia ninguém. Então...
— Buuu! — A cabeça dela saiu de trás da porta, e ela sorria para ele. — Assustou-se, eh?
— Na verdade, não — disse Sherman. — Ultimamente tenho sido assustado por especialistas.
Ela riu, e seu riso pareceu sincero.
— Você também? Fazemos um bom par, não fazemos, Sherman? — Dizendo isso abriu os braços, como se faz quando se quer dar um abraço de boas-vindas.
Sherman olhou para ela, surpreso, confuso, paralisado. As reflexões passavam por sua mente mais depressa do que conseguia dar conta. Ali estava ela, com um vestido de seda preta, seu luto de viúva, muito justo na cintura, de modo que seu lindo corpo se avolumava para cima e para baixo. Seus olhos estavam grandes e reluzentes. Os cabelos escuros, uma perfeição, com um brilho magnífico. Os lábios, com aquela curva esquiva, que sempre o deixara doido, carnudos, entreabertos e sorridentes. Mas isso tudo não era nada, exceto um dado arranjo de roupas, carne e cabelos. Havia uma leve penugem escura em seus braços. Ele deveria deslizar por entre aqueles braços e abraçá-la, se era isso que ela queria! Era um momento delicado! Precisava tê-la do seu lado, ganhar sua confiança, pelo tempo que levasse para registrar certos fatos pelo microfone sobre o esterno, na fita às suas costas! Um momento delicado — e um dilema terrível! Suponha que a abraçasse — e ela sentisse o microfone — ou passasse as mãos por suas costas! Nunca refletira sobre isso, nem por um momento. (Quem iria querer abraçar um homem cheio de fios?) Contudo — faça alguma coisa!
Então, adiantou-se para ela, empurrando os ombros para a frente e encurvando as costas, de modo a tirar-lhe a possibilidade de encostar-se a seu peito. Assim se abraçaram, uma coisinha jovem, macia e voluptuosa e um misterioso aleijado.
Rapidamente desvencilhou-se, tentando sorrir, e ela o olhou como se quisesse ver se ele estava bem.
— Tem razão, Maria. Formamos um bom par, estamos nas primeiras páginas dos jornais. — Sorriu filosoficamente. (“Então vamos falar a sério!”) Nervosamente deu uma olhada pelo aposento.
— Vamos — ela convidou —, sente-se. — Indicou a mesa de carvalho. — Vou preparar-lhe um drinque. O que gostaria de beber?
“Ótimo; vamos sentar e conversar.”
— Tem uísque?
Ela foi até a cozinha, e ele examinou o peito para ter certeza de que o microfone não estava aparecendo. Tentou repassar as perguntas, mentalmente. Pôs-se a imaginar se a fita ainda estaria girando.
Não demorou e ela voltou com uma bebida para ele e outra para ela, uma bebida transparente, gim ou vodca. Sentou-se na outra cadeira torneada, cruzou as pernas, as pernas acetinadas e sorriu.
Ergueu a bebida como se fizesse um brinde. Ele a imitou.
— Então aqui estamos, Sherman, o casal de quem toda Nova York está falando. Muita gente gostaria de ouvir esta conversa.
O coração de Sherman saltou. Morria de vontade de espiar para baixo e ver se o microfone aparecia. Estaria insinuando alguma coisa? Estudou-lhe o rosto. Não conseguiu discernir nada.
— É, aqui estamos — disse. — Para dizer a verdade, pensei que estivesse me evitando. Minha vida não tem sido muito agradável desde que você foi embora.
— Sherman, juro que não sabia de nada até que voltei.
— Mas você nem me disse que estava indo.
— Sei disso, mas minha saída não teve nenhuma ligação com você, Sherman. Eu estava... estava quase maluca.
— Tinha ligação com o quê, então? — Inclinou a cabeça e sorriu, para mostrar que não estava magoado.
— Com Arthur.
— Ah. Com Arthur.
— É, com Arthur. Você pensa que eu tinha uma vida fácil-e-livre com Arthur, e de certa forma tinha, mas também tinha que viver com ele, e nada era realmente livre em se tratando de Arthur. Ele queria o troco de um jeito ou de outro. Eu lhe contei que começara a me xingar.
— Você mencionou.
— Chamava-me de rameira e de puta, bem na frente dos empregados ou de qualquer outra pessoa, quando tinha vontade. Tanto rancor, Sherman! Arthur queria uma esposa jovem, depois mudou e passou a me odiar porque eu era jovem e ele, velho. Queria gente interessante à sua volta, porque pensava que com todo o dinheiro que tinha, merecia relacionamentos interessantes, depois mudava e passava a odiá-los e a me odiar, porque eram meus amigos ou então estavam mais interessados em mim do que nele. As únicas pessoas interessadas em Arthur eram aqueles velhos judeus, como Ray Radosz. Espero que tenha visto o papel de tolo que ele fez no funeral. Então foi lá para trás e ficou tentando me abraçar. Pensei que ia arrancar meu vestido. Você viu? Você estava tão agitado! E eu insistindo que se acalmasse! Nunca o vi assim. E aquele narigudo filho da puta de The City Light, aquele inglês horrível e hipócrita, estava parado bem atrás de você. Ele o ouviu!
— Eu sei que estava agitado — disse. — Pensei que você estivesse me evitando. Fiquei com medo que fosse a última chance que ia ter de falar com você.
— Eu não o estava evitando, Sherman. Estou tentando explicar. A única pessoa que andei evitando foi Arthur. Simplesmente parti, simplesmente... não pensei. Simplesmente parti. Fui para Como, mas sabia que me encontrariam lá. Então fui visitar Isabel di Nodino. Ela tem uma casa nas montanhas, numa cidadezinha nos arredores de Como. É como um castelo de um livro de contos. Foi maravilhoso. Não havia telefonemas. E nem mesmo via jornais.
Inteiramente sozinha, exceto por Filippo Chirazzi. Mas isso não importava, tampouco. O mais calmamente que pôde, disse:
— Que bom que você pôde ir para longe, Maria. Mas você sabia que eu estava preocupado. Sabia da notícia no jornal, porque eu lhe mostrei. — Não conseguia se livrar da agitação na voz. — Naquela noite que aquele grandalhão maníaco estava lá... sei que se lembra disso.
— Vamos, Sherman. Você está ficando todo nervoso de novo.
— Você já foi presa? — perguntou.
— Não.
— Bom, eu fui. Foi uma das coisas que me aconteceram enquanto você esteve fora. Eu... — Parou, subitamente percebendo que estava cometendo uma grande tolice. Amedrontá-la com a perspectiva de ser presa era a última coisa que precisava fazer agora. Então sacudiu os ombros, riu e disse: — Bom, é uma experiência e tanto — como se dissesse: “Mas não tão ruim quanto você poderia pensar.”
— Mas fui ameaçada disso — retorquiu.
— O que quer dizer?
— Um homem da Promotoria Distrital do Bronx veio me procurar hoje com dois detetives.
Isso atingiu Sherman como um soco.
— Foi?
— Um merdinha pomposo. Pensou que estava bancando o durão. Não parava de atirar a cabeça para trás e fazer um gesto estranho com o pescoço, assim, e olhar para mim por entre as fendas que tem em lugar de olhos. Que sebo!
— O que você lhe contou? — Muito nervoso, agora.
— Nada. Ele estava ocupado demais me dizendo o que poderia me fazer.
— O que quer dizer com isso? — Uma corrente de pânico.
— Falou-me dessa testemunha que tinha. Muito pomposo e formal. Nem ao menos queria dizer quem era, mas obviamente era o outro garoto, o grandalhão. Nem dá para dizer como o cara era panaca.
— O nome dele era Kramer?
— É. Isso mesmo.
— Era o mesmo que estava no tribunal quando fui ouvir a leitura da acusação.
— Ele realmente simplificou a coisa, Sherman. Disse que se eu testemunhasse contra você e corroborasse a outra testemunha, concederia imunidade para mim. Se não aceitasse, então me trataria como cúmplice, e me acusariam desses... delitos. Nem consigo me lembrar quais eram.
— Mas certamente...
— Ele chegou a me dar cópias das notícias dos jornais. Praticamente fez um roteiro para mim. Essas eram as histórias corretas e essas outras eram as que você inventou. Devo concordar com as histórias certas. Se disser o que realmente aconteceu, vou para a prisão.
— Mas você lhe contou o que realmente aconteceu?
— Não contei nada. Queria falar com você primeiro.
Ele estava sentado na beira da cadeira.
— Mas, Maria, certas coisas são tão definidas neste caso, e eles ainda nem sabem delas. Só ouviram mentiras desse garoto que estava tentando nos assaltar! Por exemplo, a coisa não aconteceu numa rua, aconteceu numa rampa, certo? E paramos porque a estrada estava bloqueada, mesmo antes de vermos alguém. Certo? Não foi isso? — Percebeu que sua voz se elevara.
Um sorriso carinhoso e triste, o tipo de sorriso que se dá para uma pessoa que está sentindo dor, surgiu no rosto de Maria, e ela se ergueu, levou as mãos aos quadris e disse:
— Sherman, Sherman, Sherman, que vamos fazer com você?
Ela torceu o pé direito do jeitinho que costumava fazer e deixou-o girar um instante apoiado no salto do sapato alto. Lançou-lhe um olhar com aqueles grandes olhos castanhos e estendeu as mãos para ele com as palmas viradas para cima.
— Venha aqui, Sherman.
— Maria... isto é importante!
— Sei que é. Venha aqui um instante.
Nossa! Queria abraçá-lo de novo! Bom... abrace-a, seu idiota! É sinal de que quer estar do seu lado! Abrace-a com a vida por um fio! Sim! — mas como? “Estou cheio de fios!” Um cartucho de vergonha no peito! Uma bomba de desonra na curva da coluna! O que irá querer em seguida? Cair na cama? E aí? Bom — qual é, cara! A expressão no rosto dela diz “Sou sua!” — Ela é seu passaporte para a saída! Não estrague essa oportunidade! “Faça alguma coisa!
Aja!”
Então ergueu-se da cadeira. Lançou-se no melhor dos dois mundos. Curvou-se para que o peito não tocasse o dela, e a coluna ficasse fora do alcance de suas mãos. Abraçou-a como um velho que se debruçasse sobre uma cerca para tocar num mastro de bandeira. Abaixou bem a cabeça. Seu queixo praticamente tocava a clavícula de Maria.
— Sherman — ela perguntou —, que foi que houve? O que houve com as suas costas?
— Nada.
— Você está todo curvado.
— Sinto muito. — Virou-se de lado, mantendo os braços nos ombros dela. Tentou abraçá-la de lado.
— Sherman! — Ela afastou-se um instante. — Você está todo curvado para um lado. Que foi que houve? Não quer que eu o toque?
— Não! Não... acho que estou apenas tenso. Não sabe por que passei. — Decidiu expandir-se um pouco. — Não sabe quanto senti sua falta, quanto precisei de você.
Ela o observou e em seguida o brindou com o olhar mais carinhoso, mais lambuzado, mais labial possível.
— Bom — disse —, eu estou aqui.
Deu um passo em direção a ele. Agora estava perdido. Nada de se curvar, seu moleirão! Nada de se esquivar! Teria que se arriscar! Talvez o microfone estivesse bastante fundo e ela não o sentisse, especialmente se a beijasse — beijasse ardentemente! Os braços dela estariam enlaçados no seu pescoço. Enquanto os mantivesse aí, nunca chegariam à curva da coluna. Estavam a poucos centímetros de distância. Passou os braços por baixo dos dela, para forçá-la a abraçar o seu pescoço. Abraçou-a pelas omoplatas para mantê-las erguidas. Desajeitado, mas teria que ser assim.
— Ah, Maria. — Esse tipo de queixume apaixonado não era típico dele, mas também teria que ser assim.
Beijou-a. Fechou os olhos para demonstrar sinceridade e concentrou-se em manter os braços elevados em torno do tronco dela. Sentiu os lábios carnudos ligeiramente empastados de batom, a saliva quente e o hálito dela, que recendia a legume reciclado e era característico do gim.
Espere um instante. Que diabo ela estava fazendo? Seus braços escorregavam para baixo, por fora dos braços dele, em direção a seus quadris! Ele ergueu os cotovelos e contraiu os músculos superiores do braço para tentar afastar os braços da moça de seu corpo sem parecer demasiado óbvio. Tarde demais! Maria tinha as mãos nos quadris dele, tentando puxá-los para junto dos dela. Mas os braços não eram bastante longos! Suponha que as mãos se esgueirassem para a sua cintura. Ele empinou o traseiro. Se os dedos dela perdessem contato com os quadris, talvez desistisse. Os dedos dela — onde estavam? Por um momento não sentiu nada. Então — alguma coisa na cintura, no lado. Merda! Confunda-a... essa era a única chance. Os lábios dela comprimiam-se contra os seus. Ela se contorcia ritmicamente, apaixonadamente em meio ao ativo odor vegetal. Ele se contorcia também e mexia os quadris um pouco, para despistar. Os dedos dela — perdera-os de novo. Todas as fibras nervosas dele estavam em alerta vermelho, procurando descobrir a presença dela. De repente, os lábios de Maria pararam de se mexer. Os lábios dos dois continuavam juntos, mas o motor fora desligado. Ela afastou a boca e recuou a cabeça alguns centímetros para trás, de tal modo que ele viu três olhos flutuando diante de seu rosto. Mas os braços dela continuavam em torno de seu corpo. Não gostava da maneira com que aqueles três olhos flutuavam.
— Sherman... O que é isso nas suas costas?
— Minhas costas? — Tentou mover-se, mas ela se moveu com ele, mantendo os braços em torno de seu corpo.
— Há um calombo, um pedaço de metal ou uma coisa assim — essa coisa, nas suas costas.
Agora sentia a pressão da mão dela. Estava bem em cima do gravador! Tentou se virar um pouquinho para um lado e um pouquinho para o outro, mas ela continuava com a mão no gravador. Tentou um verdadeiro shimmy. Não adiantou! Agora ela o segurava firmemente.
— Sherman, que é isso?
— Não sei. Meu cinto... a fivela do meu cinto... não sei.
— Você não usa fivela de cinto nas costas!
Afastou-se dele, mas conservou a mão no gravador.
— Maria! Que diabo!
Virou-se de lado descrevendo um arco, mas ela deu a volta por trás dele como um lutador universitário procurando uma chance para derrubar o adversário. Viu o rosto dela de relance. Um meio sorriso — um meio desdém —, uma desagradável compreensão.
Ele girou o corpo e se desvencilhou. Ela o enfrentou.
— Sherman! — Chââmân. Um sorriso irônico à espera de explodir num grito de acusação. Lentamente: — Quero saber... o que é isso nas suas costas.
— Pelo amor de Deus, Maria. Que deu em você? Não é nada. Os botões do meu suspensório talvez... não sei.
— Quero ver, Sherman.
— Que quer dizer com ver?
— Tire o paletó.
— Que quer dizer?
— Tire-o. Quero ver.
— Isso é maluquice.
— Você já tirou muito mais do que isso aqui, Sherman.
— Vamos, Maria, você está sendo boba.
— Então faça para me agradar. Deixe-me ver o que tem nas costas.
Uma súplica:
— Maria, vamos. Está muito tarde para brincar.
Ela avançou para ele, o sorriso terrível ainda no rosto. Ia ver pessoalmente! Ele pulou para um lado. Ela veio atrás. Ele se desviou.
Com uma risadinha fingidamente divertida:
— O que está fazendo, Maria?!
Começando a respirar com dificuldade:
— Veremos! — Ela avançou. Ele não conseguiu pular fora. As mãos de Maria pegaram-no pelo peito... tentando arrancar a camisa! Ele se protegeu como uma donzela.
— Maria!
A lamúria começou:
— Você está escondendo alguma coisa, não está?
— Espere aí...
— Você está escondendo alguma coisa! O que tem debaixo da camisa?
Atirou-se contra ele de novo. Ele desviou, mas antes que desse por si, ela estava às suas costas. Tinha as mãos debaixo do paletó. Segurava o gravador, embora ele continuasse sob a camisa e a camisa continuasse dentro da calça. Sentia o aparelho se desprender de suas costas.
— É um fio, Sherman!
Ele achatou a mão dela com a própria para impedi-la de arrancar o gravador. Mas a mão dela estava sob o paletó e a dele sobre o paletó. Ele começou a dar pulos, agarrado a essa massa móvel e colérica sob sua roupa.
— Está... preso... num... fio... seu filho da puta!
As palavras esguichavam em feios sons guturais enquanto os dois saltitavam pelo aposento. Somente o esforço a impedia de pôr a boca no mundo.
Agora segurava a mão dela pelo pulso. Tinha que fazê-la largar. Apertou-a com mais força.
— Você... está me machucando!
Ele apertou com mais força ainda.
Ela deu um gritinho e soltou-o. Por um momento ele se sentiu paralisado pela fúria em seu rosto.
— Sherman... seu filho da puta nojento e desonesto!
— Maria, juro...
— Você... jura, não é? — Ela avançou mais uma vez. Ele correu para a porta. Ela o agarrou por uma manga e pelas costas do paletó. Ele tentou se desvencilhar. A manga começou a rasgar, desprendendo-se de seu corpo. Ele continuou a andar a custo em direção à porta. Sentia o gravador balançando nas nádegas. Estava pendurado para fora da calça a essa altura, fora da camisa, preso ao corpo pelo fio.
Então percebeu um borrão de seda preta e um baque. Maria estava no chão. Um dos saltos altos torcera, e as pernas cederam sob o peso do corpo. Sherman correu para a porta. Foi só o que pôde fazer para abri-la, porque o paletó estava puxado sobre os braços, manietando-os.
Agora estava no corredor. Ouviu Maria soluçar, e em seguida gritar:
— É isso, corra! Arraste o rabo entre as pernas!
Era verdade. Ele mancava escada abaixo com o gravador balançando ignominiosamente no traseiro. Sentia mais vergonha que um cachorro.
Quando chegou à porta da frente, a verdade se abatera sobre ele. Por estupidez, incompetência e cagaço conseguira pôr a perder sua única e última esperança.
Ah, Senhor do Universo.