A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 19 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 18

18

CHÂÂMÂN

 

Daniel Torres, o gordo promotor distrital assistente da Delegacia do Supremo Tribunal, chegou ao gabinete de Kramer trazendo o filho de dez anos a reboque e uma vala descendo pelo meio da testa. Estava furioso, à maneira mansa dos gordos, por ter que comparecer à ilha-fortaleza numa manhã de sábado. Parecia-se ainda mais com uma gota viscosa do que da última vez que Kramer o vira, e que tinha sido na câmara de Kovitsky. Usava uma camisa esportiva xadrez, um paletó que não tinha a mínima possibilidade de fechar por cima da grande barriga mole, e calça da Linebacker Shop, para homens corpulentos, em Fresh Meadow, que fazia a gordura saltar sob o cinto como a América do Sul. “Um caso glandular”, pensou Kramer. O filho, por sua vez, era magro e moreno com feições finas, o tipo tímido e sensível, pelo jeito. Carregava uma brochura e uma luva de beisebol. Depois de uma rápida e entediada inspeção do gabinete, sentou-se na cadeira de Jimmy Caughey e começou a ler o livro.

Torres disse:

— Quem diria que os Yankees estariam viajando — fez um gesto com a cabeça indicando o Yankee Stadium, na descida da colina... — logo no sábado que tenho que vir aqui? Esse é o meu fim de semana com... — Moveu a cabeça na direção do filho. — ... e prometi que o levaria ao beisebol, e prometi à minha ex-esposa que iria até o Kiel’s no Springfield Boulevard comprar alguns arbustos e levá-los até a casa dela, e como é que vou sair daqui para o Springfield Boulevard, ir a Maspeth e voltar a Shea em tempo para o jogo, eu não sei. E nem me pergunte por que foi que disse que levaria os arbustos até a casa dela. — Sacudiu a cabeça.

Kramer se sentiu constrangido pelo menino, que parecia estar absorto no livro. O título era Woman in the dunes. Pelo que Kramer conseguia distinguir na capa, o nome do autor era Kobo Abé. Sentindo-se curioso e compreensivo, ele se aproximou do menino e da maneira mais calorosa possível, como um tio o faria, perguntou:

— Que está lendo?

O menino ergueu os olhos como um animalzinho surpreendido pela luz de faróis.

— É uma história — respondeu. Ou foi isso o que sua boca disse. Seus olhos diziam: “Por favor, por favor, deixe-me voltar ao santuário do meu livro.”

Kramer percebeu isso, mas se sentiu compelido a prolongar a hospitalidade.

— Sobre o quê?

— Japão. — Suplicante.

— Japão? O que no Japão?

— É sobre um homem que fica preso em umas dunas de areia. — Uma voz muito baixinha, suplicante, suplicante, suplicante.

A julgar pela capa abstrata e a impressão miúda, não era um livro de crianças. Kramer, estudioso do coração humano, teve a impressão de que era um menino inteligente e reservado, o produto da metade judia de Torres, que provavelmente se parecia com a mãe e já estava se distanciando do pai. Por um instante, pensou no filhinho. Tentou imaginar-se tendo que arrastá-lo até a Gibraltar em um sábado dali a nove ou dez anos. Isso o deprimiu profundamente.

— Bom, que é que sabe do sr. Auburn, Danny? — perguntou a Torres. — Que história é essa de rei do crack na Evergreen Avenue?

— É uma mer... — Torres parou abruptamente por causa do menino. — É uma piada, é isso que é. Auburn... você sabe, é o garoto típico das redondezas. Essa é a terceira prisão dele por tráfico de drogas. O detetive que o prendeu chamou-o de rei do crack na Evergreen Avenue. Estava sendo irônico. A Evergreen Avenue só tem uns cinco quarteirões de extensão. Nem sei bem como foi que Weiss soube disso. Quando vi aquela declaração à imprensa, eu quase... nem acreditei. Graças a Deus, ninguém prestou atenção a ela. — Torres consultou o relógio. — Quando é que eles vão chegar aqui?

— Não devem demorar — disse Kramer. — Tudo anda mais devagar em Rikers Island aos sábados. Como foi que eles o apanharam?

— Bem, isso é uma coisa meio maluca — disse Torres. — Na realidade, eles o apanharam duas vezes, mas esse garoto tem muito... sangue-frio, ou então é muito burro, não sei qual dos dois. Há mais ou menos um mês esse tira disfarçado fez uma compra com Auburn e outro garoto e anunciou que estavam presos, e assim por diante, e Auburn respondeu: “Se você me quiser, seu filho... vai ter que me matar”, e começou a correr. Falei com o tira, detetive Iannucci. Ele disse que se o garoto não fosse negro, e não estivesse em um bairro de negros, ele o teria matado, ou pelo menos atirado nele. Há uma semana ele, o mesmo tira, o trouxe preso.

— Quais são as chances que ele teria caso fosse condenado por venda de drogas?

— De dois a quatro, talvez.

— Sabe alguma coisa do advogado dele, esse tal de Hayden?

— Sei. É um sujeito negro.

— Verdade? — Kramer começou a dizer “Ele não falava como negro”, mas achou melhor se calar. — Não se veem muitos negros na Assistência Jurídica.

— Não é verdade. Há um número bem grande. Muitos precisam do emprego. Sabe, esses jovens advogados negros enfrentam uma barra-pesada. As faculdades de direito os formam, mas não há vagas. No centro... chega a ser patético. Estão sempre falando nisso, mas nunca contratam advogados negros, essa é que é a verdade. Então entram para a Assistência Jurídica ou para o grupo dos que são contratados pelo Estado! Alguns vão se virando com uma clientela chinfrim. Mas os grandes vigaristas negros, os traficantes, esses não querem ser representados por um advogado negro. A arraia-miúda também não. Uma vez eu estava na penitenciária, e entrou esse advogado negro contratado pelo Estado à procura do cliente que lhe fora designado, e começou a gritar seu nome. Você sabe como eles saem gritando os nomes no xadrez. Em todo caso, o cara que lhe fora designado era negro, e ele se encaminha para as grades, olha para o advogado nos olhos e diz: “Dá o fora, seu filho... eu quero um judeu.” Juro! Ele disse: “Dá o fora, seu filho... eu quero um judeu.” Hayden parece bem inteligente, mas não o tenho visto muito.

Torres tornou a consultar o relógio, e então olhou para um canto do piso. Num abrir e fechar de olhos seus pensamentos estavam longe da sala, longe da Gibraltar. Na chácara de plantas? No time de beisebol? No antigo casamento? O filho estava no Japão com o homem preso nas dunas. Só Kramer estava ali, na sala. Sintonizado. Consciente do silêncio da ilha-fortaleza nesse sábado ensolarado de junho. Se ao menos essa figura, esse Auburn, se revelasse um artigo genuíno, se ao menos não fosse o traficante calejado de sempre, tentando aplicar golpes em todos, tentando derrotar o mundo, gritando para o vazio por trás da tela de arame...

Não tardou muito e Kramer começou a ouvir gente descendo o corredor do lado de fora. Abriu a porta e lá estavam Martin, Goldberg e, entre os dois, um rapaz negro de físico impressionante, metido numa camisa de malha de gola rulê com as mãos presas atrás. Fechando a retaguarda vinha um negro atarracado e baixo de terno cinza-claro. Devia ser Cecil Hayden.

Mesmo com as mãos presas às costas Roland Auburn conseguia gingar. Não tinha mais que 1,70 metro, mas era bem musculoso. Os peitorais, os deltoides e os trapézios se estufavam compactos e bem definidos. Kramer, o atrofiado, sentiu uma pontada de inveja. Dizer que o sujeito tinha consciência de seu físico incrível era atenuar a verdade. A camisa de malha aderia a ele como uma pele. Trazia uma corrente de ouro ao pescoço. Usava calça preta justa e tênis Reebok brancos que pareciam ter acabado de sair da caixa. Seu rosto chocolate era quadrado, duro e impassível. Tinha cabelos curtos e um fino bigode acentuando o lábio superior.

Kramer se perguntou por que Martin o algemara com as mãos para trás. Era mais humilhante do que algemá-las à frente. Fazia um homem se sentir mais desamparado e vulnerável. Ele sentia o perigo de cair. Cairia como uma árvore abatida, sem poder proteger a cabeça. Uma vez que queriam a cooperação de Roland Auburn, Kramer achou que Martin facilitaria as coisas para o homem — ou será que pensava que havia um risco provável de esse brutamontes tentar escapar? Ou será que para Martin as coisas deviam ser sempre difíceis?

O grupo entrou, enchendo o pequeno gabinete. As apresentações se arrastaram, desajeitadas. Torres, como promotor distrital assistente encarregado do caso de drogas do prisioneiro, conhecia Cecil Hayden, mas não conhecia Martin, Goldberg nem o prisioneiro. Hayden não conhecia Kramer, e Kramer não conhecia o prisioneiro, e como deveriam chamá-lo afinal? Sua verdadeira posição era a de um vagabundo preso sob acusação de venda de drogas, mas, naquele momento, tecnicamente, ele era um cidadão que se apresentava para ajudar as autoridades na investigação de um crime. Martin resolveu o problema de nomenclatura referindo-se a Roland Auburn com frequência e de maneira entediada como “Roland” .

— Muito bem, Roland, vamos ver. Onde vamos colocar você?

Correu os olhos pelo gabinete com o seu montão de velharias. Chamar um prisioneiro pelo nome de batismo era a maneira padrão de eliminar quaisquer pretensões à dignidade e ao isolamento social a que ele ainda pudesse querer se apegar. Martin ia colocar a carcaça de Roland Auburn onde bem quisesse. Parou, olhou para Kramer, e em seguida lançou um olhar dúbio para o filho de Torres. Era visível que achava que o menino não devia continuar na sala. O menino já não lia o livro. Assumira uma postura relaxada na cadeira com a cabeça caída para a frente, observando. Encolhera-se. Não restava nada além de um par de olhos desmesuradamente abertos que espiavam Roland Auburn.

Para todos ali na sala, talvez até para Auburn, isso era apenas um procedimento de rotina, um acusado negro sendo trazido ao gabinete de um promotor distrital assistente para negociar, um round de barganha. Mas esse menininho triste, sensível, livresco, jamais esqueceria o que estava vendo, um negro com as mãos algemadas às costas, no edifício do gabinete do pai, num sábado ensolarado antes de um jogo dos Mets.

Kramer disse a Torres:

— Dan, acho que talvez precisemos daquela cadeira. — Olhou para o filho de Torres. — Talvez ele queira se sentar lá dentro, no gabinete de Bernie Fitzgibbon. Não há ninguém lá.

— É, Ollie — disse Torres —, por que não vai para lá até terminarmos? — Kramer se perguntou se Torres realmente dera ao filho o nome de Oliver. Oliver Torres.

Sem dizer uma palavra o menino se levantou, apanhou o livro e a luva de beisebol e rumou para a outra sala, para o gabinete de Bernie Fitzgibbon, mas não pôde resistir a dar uma última espiada no negro algemado. Roland Auburn encarou-o de volta sem qualquer expressão. Estava mais próximo da idade do menino que da de Kramer. Com todos os seus músculos, não era muito mais que um menino.

— Muito bem, Roland — disse Martin —, vou tirar essas algemas e você vai se sentar naquela cadeira ali e se comportar, certo?

Roland Auburn não respondeu, apenas virou-se ligeiramente de costas para apresentar as mãos a Martin de modo que este pudesse abrir as algemas.

— Eiiii, não se preocupe, Marty — disse Cecil Hayden —, meu cliente está aqui porque quer sair andando deste lugar, sem precisar olhar por cima do ombro.

Kramer não conseguia acreditar. Hayden já estava chamando o dobermann irlandês pelo apelido, Marty, e acabara de conhecê-lo! Hayden era um desses sujeitinhos sacudidos cujos modos eram tão calorosos e confiantes que era preciso estar de péssimo humor para se ofender. Ele mantinha o difícil equilíbrio de mostrar ao cliente que estava defendendo os seus direitos e a sua dignidade sem enfurecer o contingente de tiras irlandeses.

Roland Auburn sentou-se e começou a esfregar os pulsos, mas parou. Não queria dar a Martin e Goldberg a satisfação de saber que as algemas tinham-no machucado. Goldberg dera a volta por trás da cadeira e estava acomodando o corpanzil na ponta da escrivaninha de Andriutti. Tinha um caderno e uma caneta esferográfica para tomar notas durante a entrevista. Martin se deslocou para o outro lado da escrivaninha de Jimmy Caughey e sentou-se na beirada. O prisioneiro estava agora entre os dois e teria que se virar para olhar qualquer um deles de frente. Torres se sentou na cadeira de Ray Andriutti, Hayden se sentou na de Kramer e Kramer, que estava comandando o espetáculo, permaneceu de pé. Roland Auburn estava agora recostado na cadeira de Jimmy Caughey com os joelhos abertos e os braços apoiados nos braços da cadeira, estalando as juntas, encarando Kramer de frente. Seu rosto era uma máscara. Nem ao menos piscava. Kramer se lembrou da frase que aparecia continuamente nos relatórios dos curadores desses jovens acusados negros de sexo masculino: “carentes de afeição.” Aparentemente isso significava que eram deficientes em sentimentos normais. Não sentiam culpa, vergonha, remorso, medo ou simpatia pelos outros. Mas sempre que cabia a Kramer falar com eles, tinha a sensação de que era outra coisa. Eles cerravam uma cortina. Excluíam-no do que havia por trás da superfície imóvel de seus olhos. Não o deixavam ver três milímetros do que pensavam dele, do Poder e de suas próprias vidas. Questionara-se antes e se questionava agora: “Quem é essa gente?” (Essa gente, cujo destino eu decido todos os dias...)

Kramer olhou para Hayden e disse:

— Advogado... — Advogado. Não sabia exatamente como chamá-lo. Hayden o chamara de “Larry” pelo telefone, desde o início, mas ainda não o chamara de nada ali na sala, e Kramer não queria chamá-lo de “Cecil” com medo de parecer muito íntimo ou desrespeitoso diante de Roland. — Advogado, explicou ao seu cliente o que estamos fazendo aqui, certo?

— Claro — respondeu Hayden. — Ele compreende.

Então Kramer olhou para Roland.

— Sr. Auburn... — Sr. Auburn. Kramer calculou que Martin e Goldberg lhe perdoariam. O procedimento usual, quando um promotor distrital assistente interrogava um acusado, era iniciar com um respeitoso “senhor”, só para dar o tom, e então passar para o nome de batismo depois que as coisas estivessem engrenadas. — Sr. Auburn, creio que já conhece aqui o sr. Torres. Ele é o promotor distrital assistente encarregado do caso em que foi preso e indiciado, por venda de tóxicos. Certo? E eu estou cuidando do caso Lamb. Agora, não podemos lhe prometer nada, mas, se nos ajudar, então nós o ajudaremos. É bem simples. Mas é preciso dizer a verdade. É preciso dizer toda a verdade. Caso contrário, estará só nos fazendo de tolos, e isso não vai ser bom para o senhor. Compreende?

Roland olhou para seu advogado, Cecil Hayden, e Hayden só fez assentir, como se dissesse: “Não se preocupe, está tudo certo.”

Roland voltou-se; encarou Kramer e disse, muito inexpressivamente:

— Hum-hum.

— Muito bem — prosseguiu Kramer. — O que me interessa é o que aconteceu a Henry Lamb na noite em que se machucou. Quero que me conte o que sabe.

Ainda recostado na cadeira de Jimmy Caughey, Roland perguntou:

— Por onde quer que comece?

— Bom.... pelo começo. Como aconteceu de estar em companhia de Henry Lamb naquela noite?

Roland disse:

— Eu estava parado na calçada, me preparando para ir até a 161 st Street, até o restaurante de comida para viagem, o Texas Fried Chicken, e vi Henry, que passava por mim. — Parou.

Kramer perguntou:

— Muito bem, e daí?

— Perguntei a ele: “Henry, onde é que você está indo?” E ele disse: “Estou indo até o restaurante de comida para viagem”, e eu disse: “Também estou indo para lá.” Então começamos a andar na direção do restaurante.

— Andar por que rua?

— O Bruckner Boulevard.

— Henry é seu amigo?

Pela primeira vez Roland demonstrou emoção. Parecia achar graça. Um sorrisinho torceu um canto de sua boca, e ele baixou os olhos, como se tivessem levantado um tópico embaraçoso.

— Não, é só conhecido. Moramos no mesmo conjunto.

— Vocês andam juntos por lá?

Mais graça.

— Não, Henry não anda muito por ali. Ele não sai muito.

— Em todo caso — disse Kramer —, os dois estão caminhando juntos pelo Bruckner Boulevard, a caminho do Texas Fried Chicken. Então o que aconteceu?

— Bom, descemos até a Hunts Point Avenue, e estamos nos preparando para atravessar a rua para ir ao Texas Fried Chicken.

— Atravessar que rua, a Hunts Point Avenue ou o Bruckner Boulevard?

— O Bruckner Boulevard.

— Só para acertarmos os ponteiros, em que lado do Bruckner Boulevard vocês estão, do lado leste atravessando para o lado oeste?

— Isso mesmo. Do lado leste atravessando para o lado oeste. Eu estava parado na rua um pouco avançado, esperando os carros passarem, e Henry está parado ali adiante. — Fez um gesto para a direita. — De modo que posso ver os carros melhor do que ele, porque estão vindo daquele lado. — Fez um gesto para a esquerda. — Os carros, a maioria anda pela pista do meio, para dentro, sabe, como uma fila, e de repente esse carro sai da fila, e quer passar todos esses outros carros à direita, e eu vejo que está chegando muito perto de onde eu estou parado. Então pulo para trás. Mas Henry, eu acho que não viu nada até me ver pular para trás, e então ouço um barulhinho e vejo Henry caindo, assim. — Ele fez um rodopio com o dedo indicador.

— Muito bem, então o que aconteceu?

— Então ouço os pneus cantando. Esse carro está freando. A primeira coisa que faço é ir olhar o Henry, e ele está deitado na rua, junto ao meio-fio, encolhido de um lado, como se estivesse segurando um braço, e eu digo: “Henry, você se machucou?” E ele diz: “Acho que quebrei o braço.”

— Ele disse que machucou a cabeça?

— Disse isso mais tarde. Quando eu estava agachado ali com ele, ele só dizia que o braço estava doendo. E então eu o estava levando para o hospital, e ele me disse que, quando estava caindo, ele estendeu os braços e caiu em cima do braço e saiu rolando e bateu com a cabeça.

— Muito bem, vamos voltar ao ponto em que o acidente acabou de acontecer. Você está junto de Henry Lamb na rua, e esse carro que acabou de atropelá-lo freou. O carro parou?

— Parou. Vejo que parou na estrada.

— A que distância?

— Não sei. Talvez uns 30 metros. A porta abre e esse cara salta, um cara branco. E esse cara está olhando para trás. Está olhando bem para mim e para o Henry.

— Que foi que você fez?

— Bom, calculei que o cara parou porque atropelou o Henry e vai ver se pode ajudar. Calculei, ei, o cara pode levar o Henry para o hospital. Então me levanto e começo a andar na direção dele e digo: “Eh! Eh! Precisamos de ajuda!”

— E o que foi que ele fez?

— O homem olhou bem para mim, e então a porta do outro lado do carro abre, e tem essa mulher. Ela fica assim, sabe, meio para fora do carro, e está olhando para trás também. Os dois estão olhando para mim, e eu digo: “Eh! Meu amigo está machucado!”

— A que distância você estava deles nessa hora?

— Não muita. Uns 2 metros e meio, 3 metros.

— Podia vê-los bem?

— Estava olhando bem na cara deles.

— Que foi que fizeram?

— Essa mulher estava com um ar estranho. Parecia assustada. Ela disse: “Chââmân, cuidado!” Está falando com o cara.

— Chââmân, cuidado? Ela disse Chââmân? — Kramer lançou um olhar para Martin. Martin arregalou os olhos e estufou o lábio superior por dentro. Goldberg estava de cabeça baixa anotando tudo.

— Foi isso que me pareceu.

— Chââmân ou Sherman?

— Parecia Chââmân.

— Está bem, que aconteceu depois?

— A mulher, ela pula de volta para dentro do carro. O homem está atrás do carro olhando para mim. Então a mulher, ela diz: “Chââmân, entra!” Só que agora é ela que está no lugar do motorista. E o homem, ele corre para o outro lado, onde ela estava sentada antes, pula para dentro do carro e bate a porta.

— Então agora eles trocaram de lugar. E que foi que você fez? A que distância deles você estava, então?

— Quase tão perto quanto estou agora do senhor.

— Você ficou zangado? Gritou com eles?

— Só o que eu disse foi “Meu amigo está machucado”.

— Você mostrou o punho fechado? Fez qualquer gesto ameaçador?

— Eu só queria arranjar ajuda para Henry. Eu não estava zangado. Eu estava assustado, por causa do Henry.

— Muito bem, então o que aconteceu?

— Corri para a frente do carro.

— De que lado?

— De que lado? Do lado direito, onde o cara estava. Eu estava olhando para eles pelo para-brisa. E estou dizendo: “Eh! Meu amigo está machucado!” Estou na frente do carro, olhando para a rua atrás, e lá está Henry. Ele está bem atrás do carro. Ele veio andando, assim meio tonto, sabe, segurando o braço assim. — Roland segurou o antebraço esquerdo com a mão direita e deixou a mão esquerda cair, como se ela estivesse partida. — Então isso quer dizer, esse cara, ele podia ver o Henry vindo o tempo todo, segurando o braço assim. Não tem jeito de ele não saber que o Henry está machucado. Eu estou olhando para o Henry, e quando dei por mim, a mulher, ela acelera o motor e corta para fora, deixando um rastro de borracha no chão. Ela corta tão rápido que eu vejo a cabeça do homem balançar para trás. Ele está olhando na minha cara, e a cabeça dele vai para trás, e eles saem de lá como foguetes. Tiraram uma fina de mim. — Ele juntou o polegar e o indicador. — Como se quisessem me machucar pior que o Henry.

— Você viu o número da placa?

— Não. Mas o Henry viu. Ou pelo menos parte dela.

— Ele lhe disse qual era?

— Não. Acho que disse à mãe. Vi isso na televisão.

— Que tipo de carro era?

— Era um Mercedes.

— Que cor?

— Preto.

— Que modelo?

— Não sei que modelo.

— Quantas portas?

— Duas. Era assim, sabe, baixo. Era um carro esporte.

Kramer tornou a olhar para Martin. Mais uma vez ele tinha os olhos arregalados e cara de quem acertou.

— Você reconheceria o homem se o visse?

— Reconheceria. — Roland disse isso com uma convicção amargurada que soava verdadeira.

— E a mulher?

— Ela também. Não havia mais nada a não ser o vidro entre mim e eles.

— Que aparência tinha a mulher? Que idade?

— Não sei. Era branca. Não sei que idade tinha.

— Bom, era velha ou moça? Estava mais próxima de 25, 35, 45 ou 55?

— Vinte e cinco, mais provavelmente.

— Cabelos claros, cabelos escuros, cabelos ruivos?

— Cabelos escuros.

— O que estava usando?

— Acho que um vestido. Estava toda de azul. Lembro porque era um azul bem vivo, e ela tinha esses ombros grandes no vestido. Lembro disso.

— Que aparência tinha o homem?

— Era alto. Estava de terno e gravata.

— Terno de que cor?

— Não sei. Era um terno escuro. É só o que me lembro.

— Que idade tinha? Você diria que era da minha idade, ou era mais velho? Ou mais novo?

— Um pouco mais velho.

— E você o reconheceria se o visse de novo?

— Eu o reconheceria.

— Bom, Roland, vou lhe mostrar algumas fotos, e quero que me diga se reconhece alguém nelas. Está bem?

— Hum-hum.

Kramer dirigiu-se à própria escrivaninha, onde Hayden estava sentado, e disse:

— Com licença, um segundo — e abriu a gaveta. Ao fazê-lo, olhou para Hayden por um instante e acenou ligeiramente, como se dissesse: “Está dando certo.” Da gaveta retirou o conjunto de fotos que Milt Lubell organizara para Weiss. Espalhou as fotos na mesa de Jimmy Caughey, diante de Roland Auburn.

— Você reconhece alguma dessas pessoas?

Roland examinou as fotos, e seu dedo indicador foi direto na de Sherman McCoy, sorridente em seu smoking.

— É ele.

— Çomo sabe que é o mesmo cara?

— É ele. Reconheço ele. E o queixo. O homem tinha um queixo grande assim.

Kramer olhou para Martin e em seguida para Goldberg. Goldberg tinha um ligeiro sorriso.

— Está vendo a mulher na foto, a mulher com quem ele está? É essa a mulher que estava no carro?

— Não. A mulher no carro era mais jovem, tinha cabelos mais escuros e era mais... mais gostosa.

— Gostosa?

Roland começou a sorrir de novo, mas se controlou.

— Sabe, um tremendo mulherão.

Kramer se permitiu um sorriso e um muxoxo. Era uma chance de deixar transparecer um pouco do entusiasmo que estava começando a sentir.

— Mulherão, hein? Muito bem, mulherão. Tudo bem. Nisso eles saem de cena. Que foi que você fez, então?

— Não tinha muito o que fazer. Henry estava parado lá, segurando o braço. O pulso estava todo torcido. Então eu disse: “Henry, você tem que ir para o hospital”, ele diz que não quer ir para nenhum hospital, que quer ir para casa. Então começamos a andar de volta pelo Bruckner Boulevard, de volta para o conjunto.

— Espere um instante — interrompeu Kramer. — Alguém viu tudo isso acontecer? Havia alguém na calçada?

— Não sei.

— Nenhum carro parou?

— Não. Acho que o Henry, se ele tivesse ficado deitado lá muito tempo, talvez alguém parasse. Mas ninguém parou.

— Então agora vocês estão subindo o Bruckner Boulevard, de volta ao conjunto.

— Isso mesmo. E Henry está gemendo e parecendo que vai desmaiar, então digo: “Henry, você tem que ir para o hospital.” Então ando com ele de volta para a Hunts Point Avenue, e atravessamos para a 161st Street até a estação de metrô e lá eu vejo o táxi que pertence ao meu companheiro Brill.

— Brill?

— É um sujeito que tem dois táxis.

— E ele os levou ao Lincoln Hospital?

— Esse cara, Curly Kale, levou. Ele é um dos motoristas de Brill.

— Curly Kale. Esse é o verdadeiro nome dele ou é um apelido?

— Não sei. É assim que chamam ele, Curly Kale.

— E ele levou os dois de carro para o hospital.

— Foi isso mesmo.

— Que achou do estado de Henry durante o trajeto para o hospital? Foi então que lhe disse que batera com a cabeça?

— Foi, mas a maior parte do tempo falava do braço. O pulso dele estava com uma cara horrível.

— Ele estava coerente? Estava lúcido, pelo que você podia observar?

— Como disse, estava gemendo muito e dizendo que o braço doía. Mas ele sabia onde estava. Sabia o que estava acontecendo.

— Quando chegaram ao hospital, que foi que você fez?

— Bom, eu desci, acompanhei o Henry até a porta, até o setor de emergência, e ele entrou lá.

— Você entrou com ele?

— Não, eu voltei para o táxi com Curly Kale e fui embora.

— Você não ficou com o Henry?

— Eu saquei que não podia fazer mais nada por ele. — Roland lançou um olhar para Hayden.

— Como foi que Henry voltou do hospital para casa?

— Não sei.

Kramer fez uma pausa.

— Muito bem, Roland, há mais uma coisa que quero saber. Por que não se apresentou com essa informação antes? Quero dizer, ali está você com um amigo, ou de qualquer forma um vizinho — moram no mesmo conjunto —, e ele é vítima de um atropelamento em que o responsável foge bem diante de seus olhos, e o caso está na televisão e em todos os jornais, e não ouvimos nem um pio de você até agora. Que me diz a isso?

Roland olhou para Hayden, que apenas assentiu com a cabeça, e Roland respondeu:

— Os tiras estavam atrás de mim.

Hayden disse:

— Havia um mandado de captura por venda ilegal, posse ilegal, resistência à prisão, e mais algumas outras, as mesmas acusações pelas quais já fora indiciado.

Kramer dirigiu-se a Roland:

— Então você estava se protegendo. Você preferiu guardar essas informações a falar com os tiras.

— Isso mesmo.

Kramer estava tonto de alegria. Já conseguia visualizar a coisa tomando forma. Esse Roland não era nenhuma florzinha, mas era perfeitamente verossímil. Faça-o despir a malha colante e os tênis! Quebre o quadril dele para que não possa gingar! Enterre essa história de rei do crack na Evergreen Avenue! Não causava boa impressão aos júris se um criminoso viesse prestar testemunho em troca de uma sentença reduzida. Mas era só dar uma limpeza e uns acertos — era só do que esse caso precisava! De repente, Kramer via... o desenho...

Disse a Roland:

— E você está me dizendo toda a verdade.

— Hum-hum.

— Não está acrescentando nada nem suprimindo nada.

— Hum-hum.

Kramer foi até a escrivaninha de Jimmy Caughey, ao lado de Roland, e recolheu as fotos. Então virou-se para Cecil Hayden.

— Advogado — disse —, tenho que discutir o caso com os meus superiores. Mas, a não ser que esteja muito enganado, acho que poderemos fazer um acordo.

Ele o viu antes mesmo que as palavras saíssem de sua boca... o desenho... feito pelo artista do tribunal... Via-o como se a tela da televisão já estivesse bem diante dele... Promotor distrital assistente Lawrence N. Kramer... de pé... o dedo indicador erguido... seus maciços esternodidomastóideos se distendendo... Mas como será que o artista desenharia seu crânio, onde perdera tanto cabelo? Bom, se o desenho fizesse justiça ao seu físico, ninguém iria reparar. A coragem e a eloquência... isso é o que veriam. Toda a cidade de Nova York veria. A srta. Shelly Thomas veria.