A Fogueira das Vaidades
Capítulo 22
22
BOLINHAS DE ISOPOR
Sherman virou-se para o lado esquerdo, mas logo o joelho esquerdo começou a doer, como se o peso da perna direita estivesse interrompendo a circulação. Seu coração estava batendo um pouco rápido demais. Tornou a virar para o lado direito. De algum modo o punho da mão direita foi parar debaixo da bochecha direita. Parecia que precisava dela para segurar a cabeça, porque o travesseiro não era suficiente, mas isso não tinha sentido, e afinal como seria possível adormecer com a mão sob a cabeça? Um pouquinho rápido demais, só isso... Não estava desembestando... Tornou a virar para o lado esquerdo e então deitou de bruços, mas isso forçava demais a coluna lombar, por isso rolou mais uma vez para o lado direito. Normalmente dormia sobre o lado direito. O coração estava mais acelerado, agora. Mas era uma batida regular. Continuava sob controle.
Resistiu à tentação de abrir os olhos e verificar a intensidade da luz sob as persianas. A fresta de luz aumentava gradualmente à medida que alvorecia, de modo que sempre se podia dizer quando fossem 5 e meia ou 6 horas nessa época do ano. Suponha que já estivesse alvorecendo! Mas não podia ser. Não poderia ser mais de 3, 3 e meia, na pior das hipóteses. Mas talvez tivesse dormido mais ou menos uma hora sem saber! — e suponha que as frestas de luz...
Não conseguiu mais resistir. Abriu os olhos. Graças a Deus; ainda estava escuro; continuava seguro.
Com isso... o coração disparou. Começou a martelar num ritmo assustador e com uma força assustadora, tentando escapar da caixa torácica. Isso fez todo o seu corpo sacudir. Que diferença fazia se dispunha de mais algumas horas para ficar rolando na cama ou se o calor da manhã já se armazenara sob as persianas e chegara a hora...
“Vou para a cadeia.”
Com o coração batendo e os olhos abertos, tinha a aguda sensação de estar sozinho na vasta cama. Cortinados de seda pendiam do teto nos quatro cantos da cama. A seda custara mais de 125 dólares o metro. Era a ideia mais próxima que Judy, a decoradora, fazia de uma alcova real do século XVIII. Real! Que ironia para ele, um pedaço palpitante de carne e medo encolhido na cama na calada da noite!
“Vou para a cadeia.”
Se Judy estivesse ali ao lado, se não tivesse ido deitar no quarto de hóspedes, teria passado os braços em torno dela e se agarrado a ela com todas as forças. Queria abraçá-la, sentia falta disso...
E no momento seguinte: “Que adiantaria?” Nadinha. Faria com que se sentisse ainda mais fraco e desamparado. Será que ela estava dormindo? E se entrasse no quarto de hóspedes? Muitas vezes ela dormia deitada de costas, como uma estátua jacente, como a estátua de... Não conseguia se lembrar de quem era a estátua. Chegava a ver o mármore ligeiramente amarelado e as dobras da mortalha que cobria o corpo — alguém famoso, querido e morto. Bom, mais adiante, no corredor, Campbell certamente estaria dormindo. Isso ele sabia. Dera uma espiada no quarto e a observara por um minuto, como se fosse a última vez que a veria. Dormia com os lábios ligeiramente entreabertos, entregue de corpo e alma à segurança e à paz de sua casa e sua família. Adormecera quase imediatamente. Nada do que lhe dissera era real... “prisão”... “jornais”... “Você vai entrar para a história”... Se ao menos soubesse o que ela pensava! Supunha-se que as crianças percebiam muito mais do que se imaginava, pelo tom de voz, a expressão do rosto... Mas Campbell parecia saber apenas que algo triste e excitante estava para acontecer, e que seu pai se sentia infeliz. Completamente protegida do mundo... no seio da família... os lábios ligeiramente entreabertos... ali adiante no corredor... Tinha que se controlar por causa dela. E por ora, pelo menos, foi o que fez. Seu coração desacelerou. Começou a retomar o domínio do corpo. Seria forte por causa dela, se não fosse por mais ninguém na terra. “Sou um homem.” Quando precisara lutar, lutara. Lutara na selva e vencera. O instante de fúria em que atirara o pneu no... bruto... O bruto se estatelou na rua... “Henry!”... Se precisasse, tornaria a lutar. Seria tão ruim assim?
Na noite anterior, enquanto falava com Killian resolvera tudo em sua cabeça. Não ia ser tão ruim. Killian explicara cada passo. Era uma formalidade, não uma formalidade agradável, mas não era o mesmo que ir para a cadeia. Não seria uma prisão normal. Killian tomaria providências para tanto, Killian e seu amigo Fitzgibbon. Um contrato. Não era uma prisão normal, não era uma prisão normal; apegava-se a essa frase: “Não era uma prisão normal.” Era o quê, então? Tentou visualizar como seria e, antes que desse por si, seu coração estava acelerando, disparando, em pânico, alucinado de medo.
Killian combinara de tal modo que os dois detetives, Martin e Goldberg, passariam e o apanhariam por volta das 7 e meia a caminho do trabalho, no turno das 8 horas no Bronx. Os dois moravam em Long Island e iam de carro para o Bronx todos os dias, e, com isso, fariam um desvio e passariam para apanhá-lo na Park Avenue. Killian estaria presente quando chegassem e seguiria com ele para o Bronx e estaria lá quando o prendessem — e isso era um tratamento especial.
Deitado ali na cama, com cascatas de seda de 125 dólares o metro em cada canto, fechou os olhos e tentou imaginar. Entraria no carro com os dois detetives, o baixo e o gordo. Killian estaria com ele. Seguiriam pela FDR até o Bronx. Os detetives o levariam imediatamente para o registro central, quando se iniciasse o novo turno, e ele passaria por todos os trâmites primeiro, antes que os casos do dia se acumulassem. Registro central de ocorrências — mas o que era isso? Na noite anterior, Killian usara esse nome displicentemente. Mas agora, deitado ali, percebia que não tinha a menor ideia do aspecto que teria. Os trâmites — que trâmites? “Ser preso?” Apesar de tudo o que Killian tentara explicar, era inimaginável. Tirariam suas impressões digitais. “Como?” E suas impressões seriam transmitidas para Albany por computador. “Por quê?” Para ter certeza de que não havia mandados de captura pendentes. “Mas será que não tinham certeza?” Até que a resposta de Albany voltasse pelo computador, teria que esperar no xadrez. “Xadrez!” Essa era a palavra que Killian não parava de usar. “Xadrez! — para que tipo de animais!” Como se lesse seus pensamentos, Killian dissera para não se preocupar com as coisas que lera sobre os xadrezes. O termo omitido fora “estupro homossexual”. O xadrez era uma carceragem temporária para as pessoas que tinham sido presas e aguardavam a chamada a juízo. Uma vez que as prisões às primeiras horas da manhã eram raras, ele talvez ficasse na cela sozinho. Quando chegasse a resposta, subiria para comparecer à presença do juiz. “Subiria!” Mas o que significava isso? Subiria de onde para onde? Ele se declararia inocente e seria solto mediante uma fiança de 10 mil dólares — amanhã — dentro de poucas horas — quando a luz do amanhecer entrasse pela fresta da persiana...
“Vou para a cadeia — como o homem que atropelou o brilhante aluno negro e o abandonou à própria sorte!”
Seu coração agora batia violentamente. O pijama estava empapado de suor. Tinha que parar de pensar. Tinha que fechar os olhos. Tinha que dormir. Tentou se concentrar num ponto imaginário entre os olhos. No interior das pálpebras cineminhas... formas espiraladas... um par de mangas bufantes. Elas se transformaram numa camisa, sua própria camisa branca. “Nada de muito boa qualidade”, dissera Killian, “porque o xadrez talvez esteja imundo. Mas mesmo assim, terno e gravata, naturalmente, já que essa não é uma prisão normal, não é uma prisão normal...” O velho terno de tweed cinza-azulado, aquele feito na Inglaterra... uma camisa branca, uma gravata lisa marinho ou talvez azul-médio com bolinhas miúdas... Não, a gravata marinho, que era digna e não chamava atenção — para ir para a cadeia!
Abriu os olhos. A seda descia em panejamentos do teto. “Controle-se!”, disse alto. Certamente não era verdade que isso estivesse prestes a acontecer. “Vou para a cadeia.”
Por volta das 5 e meia, quando a luz começou a amarelar sob as persianas, Sherman desistiu da ideia de dormir, ou mesmo de descansar, e se levantou. Para sua surpresa, isso o fez se sentir melhor. Suas pulsações eram rápidas, mas o pânico estava sob controle. Fazer alguma coisa ajudava, mesmo que fosse tomar um banho de chuveiro e vestir o terno de tweed cinza-azulado e a gravata marinho... “meu traje de cadeia”. O rosto que viu no espelho não parecia tão cansado quanto se sentia. O queixo Yale; ele parecia forte.
Queria tomar o café da manhã e estar fora do apartamento antes que Campbell acordasse. Não tinha muita certeza de que seria suficientemente forte diante dela. Tampouco queria ter de conversar com Bonita. Seria constrangedor demais. Quanto a Judy, não sabia bem o que queria. Não desejava ver a expressão de seus olhos, que era a expressão parada de alguém traído, mas também chocado e assustado. No entanto, gostaria de ter a esposa com ele. De fato, mal acabara de tomar um copo de suco de laranja quando Judy chegou à cozinha, vestida e pronta para enfrentar o dia. Não dormira muito mais que ele. Pouco depois Bonita chegou da ala da criadagem e silenciosamente começou a preparar o café da manhã. Não tardou e Sherman se sentiu feliz com a presença de Bonita ali. Não sabia o que dizer a Judy. Com Bonita presente obviamente não conseguiria dizer muito. Mal conseguiu comer. Tomou três xícaras de café na esperança de clarear as ideias.
Às 7 horas e 15 minutos o porteiro ligou para dizer que o sr. Killian estava na portaria. Judy acompanhou Sherman até o vestíbulo. Ele parou e a olhou. Ela tentou sorrir para animá-lo, mas o esforço deu ao seu rosto uma expressão de terrível cansaço. Em voz baixa, mas firme, ela disse:
— Sherman, tenha coragem. Não esqueça quem você é. — Abriu a boca, como se fosse acrescentar alguma coisa, mas não disse nada.
E foi só! Foi o melhor que ela conseguiu fazer! “Procuro ver mais em você, Sherman, mas só restou a casca, a sua dignidade!”
Ele assentiu com a cabeça. Não conseguia dizer uma só palavra. Deu as costas e entrou no elevador.
Killian estava parado sob o toldo, bem junto à porta. Usava um terno cinzento riscado, sapatos de couro marrom e chapéu marrom. (“Como se atreve a parecer tão descontraído no dia do meu juízo final?”) A Park Avenue estava um cinza borrascoso. O céu, escuro. Parecia que não ia tardar a chover... Sherman apertou a mão de Killian, então caminharam uns 6 metros pela calçada, para ficar fora do campo auditivo do porteiro.
— Como se sente? — perguntou Killian. Perguntou como quem pergunta a um doente.
— Ótimo — respondeu Sherman com um sorriso mal-humorado.
— Não vai ser tão ruim. Conversei com Bernie Fitzgibbon outra vez na noite passada, depois que nos falamos. Ele vai despachar você o mais rápido possível. O porra do Abe Weiss vive preocupado com a opinião pública. Toda essa publicidade o deixou aterrorizado. De outra forma nem um idiota como ele tomaria uma atitude dessas.
Sherman só fez sacudir a cabeça. Estava muito além das especulações sobre a mentalidade de Abe Weiss. “Vou para a cadeia.”
Pelo canto do olho, Sherman viu um carro encostar na calçada junto deles e, em seguida, viu o detetive Martin, ao volante. O carro era um Oldsmobile Cutlass duas portas, razoavelmente novo, e Martin estava de paletó e gravata, e com isso o porteiro talvez não o percebesse. Ah, não tardariam a perceber, todos os porteiros e senhoras e administradores de recursos financeiros e empresários e operadores de obrigações e diretores-gerais e todos os seus filhos em escolas particulares e as babás e as governantas e todos os habitantes dessa fortaleza social. Mas que alguém visse que ele estava sendo levado pela polícia era mais do que conseguiria suportar.
O carro parara apenas suficientemente longe da porta para que o porteiro não saísse. Martin desceu, abriu a porta e dobrou o banco para a frente, para que Sherman e Killian pudessem entrar no banco traseiro. Martin sorriu para Sherman. “O sorriso do algoz!”
— Olá, advogado! — Martin cumprimentou Killian. E muito alegrinho. — Bill Martin — disse, estendeu a mão, e ele e Killian se cumprimentaram. — Bernie Fitzgibbon me contou que vocês trabalharam juntos.
— Foi — confirmou Killian.
— Bernie é gente fina.
— É mais do que isso. Eu poderia lhe contar umas histórias incríveis.
Martin riu, e Sherman sentiu um borrifo de esperança. Killian conhecia esse tal Fitzgibbon, que era o chefe da Delegacia de Homicídios na Promotoria Distrital do Bronx, e Fitzgibbon conhecia Martin, e agora Martin conhecia Killian... e Killian — Killian era seu protetor!... Um pouquinho antes de Sherman se abaixar para entrar no banco traseiro, Martin avisou:
— Cuidado com a sua roupa aí atrás. Tem umas porras, com perdão da palavra, de umas bolinhas de isopor aí no banco. Meu garoto abriu uma caixa, e essas bolinhas brancas que usam para acondicionar coisas se espalharam pelo banco todo, e grudam na roupa e em tudo o que é porcaria.
Uma vez curvado, Sherman viu o gordo de bigode, Goldberg, sentado no assento ao lado do motorista. Tinha um sorriso ainda maior.
— Sherman — disse como alguém diria alô ou bom dia. Muito cordialmente. E o mundo inteiro parou, congelado. “Meu nome de batismo!” Um criado... um escravo... um prisioneiro... Sherman não disse nada. Martin apresentou Killian a Goldberg. Mais amenidades.
Sherman sentou-se atrás de Goldberg. Havia de fato bolinhas brancas de isopor por todo o banco. Duas prenderam-se a uma perna da sua calça. Uma praticamente em cima da rótula. Ele a catou e não conseguia retirá-la do dedo. Sentia mais uma sob o traseiro e procurou pescá-la às apalpadelas.
Mal tinham saído, subindo a Park Avenue em direção à 96th Street e à entrada da FDR, quando Goldberg se virou e disse:
— Sabe, tenho uma filha na escola secundária, e ela adora ler, e estava lendo um livro, e essa firma em que você trabalha... a Pierce & Pierce, certo?... aparecia nele.
— É mesmo? — Sherman conseguiu dizer. — Que livro era?
— Acho que era Mania assassina. Uma coisa assim.
Mania assassina? O livro se intitulava Mania associativa. Estaria tentando atormentá-lo com uma piada horrorosa?
— Mania assassina! — exclamou Martin. — Pô, Goldberg, é Mania associativa. — E então, por cima do ombro, dirigindo-se a Killian e a Sherman: — É o máximo ter um companheiro intelectual. — E para o companheiro: — Que formato tem um livro, Goldberg? Circular ou triangular?
— Já lhe mostro — disse Goldberg, esticando o dedo médio da mão direita. Então tornou a se virar para Sherman: — Em todo caso, ela realmente gostou do livro, e só está na escola secundária. Diz que quer trabalhar na Wall Street quando terminar a universidade. Ou pelo menos esses são os planos desta semana.
Esse Goldberg, também! A mesma insolente e aterrorizante cordialidade senhor-escravo! Agora esperavam que gostasse dos dois! Agora que o jogo terminara, ele perdera, e pertencia aos dois, não devia guardar nenhum ressentimento. Devia admirá-los. Tinham posto as garras num banqueiro de investimentos da Wall Street, e que era ele agora? Sua presa! Sua vítima! Seu bichinho de estimação. Em um Oldsmobile Cutlass! Os brutos das municipalidades da periferia — o tipo de gente que se via passando pela 58th ou 59th Street em direção à Ponte de Queensboro — rapazes gordos de bigodes caídos, feito Goldberg... e agora pertencia a eles.
Na 9rd Street, um porteiro ajudava uma velhota a passar por uma porta e descer à calçada. Usava um casaco de astracã. Era o tipo de casaco de pele negra muito formal que já não se vê hoje em dia. Uma vida feliz e protegida na Park Avenue. Indiferente, a Park Avenue, le tout Nova York, continuaria a viver o seu cotidiano.
— Muito bem — disse Killian a Martin —, vamos acertar exatamente o que faremos lá. Entramos pela porta da 161st Street, certo? E dali descemos, e o Anjo leva Sherman... o sr. McCoy, direto para tirar as impressões. O Anjo ainda trabalha lá?
— Trabalha — disse Martin —, ainda está lá, mas temos que entrar pelo lado, pela porta externa do Registro de Ocorrências.
— Para quê?
— São as ordens que tenho. O capitão responsável pela área vai estar lá, e a imprensa vai estar lá.
— A imprensa?
— Isso mesmo. E temos que algemá-lo até chegarmos lá.
— Você está curtindo com a minha cara? Falei com Bernie na noite passada. Deu-me a palavra dele. Não vai haver nenhuma sacanagem.
— Não sei o que Bernie disse. Foi Abe Weiss. É assim que Weiss quer, e recebi minhas ordens diretamente do capitão. Esta prisão vai ser feita segundo o regulamento. E você está com sorte. Sabe o que é que estavam cogitando, não sabe? Queriam levar a porra da imprensa ao apartamento dele e algemá-lo lá.
Killian olhou carrancudo para Martin.
— Quem lhe disse para fazer isso?
— O capitão Crowther.
— Quando?
— Na noite passada. Ligou para minha casa. Ouça, você conhece o Weiss. Que mais posso dizer?
— Isso... não... está... direito — disse Killian. — Bernie me deu a palavra dele. Isso... está... muito... errado. Não se faz esse tipo de sacanagem. Isso... está... muito... errado.
Os dois, Martin e Goldberg, se viraram e olharam para ele.
— Não vou me esquecer disso — disse Killian —, e não estou nada satisfeito.
— Eiiii... que é isso, que é isso — disse Martin. — Não nos culpe, porque para nós tanto faz de um jeito como do outro. Seu problema é com Weiss.
Estavam agora rodando pela FDR, para o norte, em direção ao Bronx. Começara a chover. O tráfego matinal já estava engarrafando do outro lado da grade que dividia a rodovia, mas não havia nada que o detivesse desse lado da estrada. Aproximaram-se de uma ponte para pedestres que transpunha o rio de Manhattan até uma ilha fluvial. Os cavaletes tinham sido pintados de um roxo-heliotrópio vivo num assomo de euforia na década de 1970. A falsa esperança implícita deprimiu Sherman profundamente.
“Vou para a cadeia!”
Goldberg espichou outra vez o pescoço.
— Olhe — disse —, sinto muito, mas tenho que colocar as algemas. Não posso ficar me ocupando delas quando chegarmos lá.
— Isso é pura sacanagem — disse Killian. — Espero que saibam disso.
— É o advogado falando! — disse Goldberg, queixoso. — Quando se prende alguém por um delito grave, devem-se colocar algemas. Concordo que muitas vezes não fiz isso, mas o porra do capitão vai estar lá.
Goldberg levantou a mão direita. Segurava um par de algemas.
— Dê-me os seus pulsos — disse a Sherman. — Vamos acabar logo com isso.
Sherman olhou para Killian. Os músculos do queixo de Killian estavam contraídos.
— Pode dar! — disse a Sherman com o tipo de ênfase aguda que insinua “Alguém vai ter que pagar por isso!”.
Martin disse:
— Vou dar uma ideia. Por que não tira o paletó? Ele o algema na frente e não atrás, e você pode segurar o paletó por cima dos pulsos, e nem mesmo vai ver as porras das algemas.
Pela maneira de falar, parecia que os quatro eram amigos, todos unidos para enfrentar uma sorte madrasta. Por um instante isso fez Sherman se sentir melhor. Tirou o paletó de tweed com dificuldade. Então se curvou para a frente e passou as mãos pelo vão entre os dois assentos dianteiros.
Estavam atravessando uma ponte... talvez a da Willis Avenue... não sabia realmente que ponte era. Só sabia que era uma ponte, e que cruzava o rio Harlem, saindo de Manhattan. Goldberg fechou as algemas nos pulsos dele. Sherman tornou a afundar no banco e baixou os olhos, e lá estava ele, manietado.
A chuva caía com mais força. Chegaram à outra extremidade da ponte. Muito bem, ali estavam, no Bronx. Parecia uma área velha e decrépita de Providence em Rhode Island. Havia alguns prédios maciços, mas baixos, fuliginosos e mofados, e ruas negras, sombrias e largas subindo e descendo colinas. Martin desceu uma rampa e saiu em outra rodovia.
Sherman esticou o braço para a direita para puxar o paletó e colocá-lo sobre os pulsos. Quando percebeu que precisava mover as duas mãos para apanhar o paletó, e quando o esforço fez as algemas cortarem seus pulsos, uma onda de humilhação... e vergonha!... o engolfou. Era ele mesmo, o eu que existia num cadinho impenetrável, sacrossanto e único no âmago de sua mente, que estava agora algemado... no Bronx... Decerto isso era uma alucinação, um pesadelo, uma ilusão, e ele puxaria uma camada translúcida... e... a chuva engrossou, os limpadores do para-brisa iam de um lado para o outro diante dos policiais.
Com as algemas, ele não conseguia pendurar o paletó sobre os pulsos. O paletó embolava. Killian precisou ajudá-lo. Havia três ou quatro bolinhas no paletó. Havia mais duas na perna da calça. Não seria possível pegá-las com os dedos. Talvez Killian... Mas que importava?
À frente, para a direita... o Yankee Stadium!... Uma âncora! Algo a que se apegar! Já estivera no Yankee Stadium! Para assistir a jogos internacionais, nada além... Mesmo assim, estivera lá! Isso fazia parte de um mundo são e decente! Não era esse... Congo!
O carro desceu uma rampa, deixando para trás a rodovia. A estrada contornava a base da enorme concha do estádio. Estava a menos de 12 metros de distância. Havia um homem gordo, de cabeça branca, usando um agasalho dos New York Yankees, parado do lado de fora do que parecia uma portinha de escritório. Sherman assistira aos jogos internacionais com Gordon Schoenburg, cuja companhia tinha cadeiras para a temporada, e Gordon servira uma ceia-piquenique entre o quinto e o sexto turno, acondicionada numa dessas cestas de vime próprias, cheias de compartimentos e utensílios de aço inoxidável, e oferecera pão caseiro, patê e caviar a todos, o que enfurecera alguns bêbados que observavam de uma passagem do lado de trás e começaram a dizer coisas muito ofensivas e a repetir uma palavra que ouviram Gordon dizer. A palavra era “realmente”, que repetiam sem parar como “realmente”. “Ah, re-almente” — diziam. “Ah, re-almente?” Era quase como se chamassem Gordon de fresco, e Sherman jamais esqueceu isso, embora ninguém comentasse depois. As ofensas! A hostilidade gratuita! O rancor! Martin e Goldberg! Eram todos Martins e Goldbergs.
Então Martin virou para uma rua muito larga, e passaram por baixo de uns trilhos de metrô e rumaram para uma colina. Havia muitos rostos escuros na calçada, andando apressados na chuva. Pareciam tão escuros e encharcados! Uma quantidade de lojinhas decrépitas e cinzentas, como nos centros decadentes de cidades por todos os Estados Unidos — o de Chicago, Akron, Allentown... O café, a delicatessen, a loja de malas, a agência de turismo...
Os limpadores do para-brisa empurravam lençóis de água para os lados. No alto da colina havia um imponente edifício de calcário que parecia ocupar um quarteirão inteiro, o tipo de monumento que se vê em Washington. Do lado oposto, junto a um prédio baixo de escritórios, havia um anúncio prodigioso onde se lia ANGELO COLON, CONGRESSO DOS ESTADOS UNIDOS. Ultrapassaram o topo da colina. O que viu na descida do outro lado chocou-o. Não era apenas uma área decrépita e encharcada, mas arruinada, como se tivesse sofrido alguma catástrofe. Para a direita, um quarteirão inteiro não passava de um enorme buraco no chão com uma cerca reforçada em toda a volta e árvores raquíticas aparecendo aqui e ali. A princípio pensou que fosse um ferro-velho. Então percebeu que era um estacionamento, uma enorme cratera para carros e caminhões, aparentemente sem pavimentação. Para a direita, havia um prédio novo, moderno no sentido vulgar da palavra, de aspecto bastante melancólico sob a chuva.
Martin parou e esperou o tráfego que vinha da direção oposta passar para que pudesse virar à esquerda.
— Que é isso? — Sherman perguntou a Killian, indicando o edifício com a cabeça.
— O Edifício dos Tribunais Criminais.
— É para onde estamos indo?
Killian assentiu com a cabeça e olhou fixamente em frente. Parecia tenso. Sherman sentiu o coração disparar. Palpitava de quando em quando.
Em vez de parar o carro diante do edifício, Martin desceu uma ladeirinha. Ali, próximo a uma portinha mesquinha de metal, havia uma fileira de homens e, atrás deles, um ajuntamento promíscuo de gente, trinta ou quarenta pessoas, a maioria branca, todas encolhidas na chuva, agasalhadas com ponchos, jaquetas acolchoadas, capas sujas. “Uma associação de caridade”, pensou Sherman. “Não, a sopa dos pobres.” Pareciam as pessoas que já vira nas filas de sopa dos pobres da igreja, na esquina da Madison Avenue com a 71st Street. Mas logo aqueles olhos cansados e desesperados viraram a um só tempo, como se houvesse um comando, na direção do carro — na direção dele —, e de repente Sherman tomou consciência das câmeras.
A turba pareceu se sacudir, como um enorme e imundo cão esparramado, e precipitou-se em direção ao carro. Alguns corriam, e ele via as câmeras de televisão sacolejarem para cima e para baixo.
— Nossa! — disse Martin a Goldberg. — Desça e abra aquela porta ou nunca chegaremos nem a tirá-lo da porra do carro.
Goldberg pulou para fora. Imediatamente as pessoas encharcadas e esfarrapadas surgiram de toda parte. Sherman já não conseguia ver o edifício. Só conseguia ver a turba avançando para o carro.
Killian disse a Sherman:
— Agora ouça. Não diga nada. Não demonstre nenhuma reação. Não cubra a cabeça, não abaixe a cabeça. Você nem sabe que eles estão presentes. Não se podem vencer esses veados, por isso nem tente. Deixe-me sair primeiro.
Zás! — Killian passou os pés por cima de Sherman e rolou por cima dele, num mesmo movimento. Seus cotovelos bateram nas mãos cruzadas de Sherman e empurraram as algemas contra seu abdômen. O paletó de tweed de Sherman estava embrulhado sobre suas mãos. Havia cinco ou seis bolinhas de isopor no paletó, mas não havia nada que pudesse fazer. A porta abriu, e Killian saiu do carro. Goldberg e Killian tinham os braços estendidos para ele. Sherman pôs os pés para fora. Killian, Goldberg e Martin tinham formado um bolsão em torno da porta com seus corpos. A multidão de repórteres, fotógrafos e câmeras estava em cima deles. Gente gritava. A princípio pensou que fosse uma briga. Estavam tentando agarrá-lo! Killian meteu a mão por baixo do paletó de Sherman e o pôs de pé pelas algemas. Alguém meteu uma câmera no rosto de Sherman, por cima do ombro de Killian. Ele se abaixou. Quando olhou para baixo, viu que cinco, seis, sete, Deus sabe quantas bolinhas de isopor estavam grudadas nas pernas da calça. Estavam por todo o paletó e a calça. A chuva escorria-lhe pela testa e pelas faces. Pensou em limpar o rosto, mas percebeu que teria de erguer as mãos e o paletó para fazê-lo, e não queria que vissem as algemas. Assim, a água simplesmente continuou a escorrer. Sentia-a escorrer pelo colarinho. Devido às algemas, tinha os ombros curvados para a frente. Tentou aprumá-los, mas de repente Goldberg puxou-o com força pelo cotovelo. Tentava fazê-lo atravessar a multidão.
— Sherman!
— Aqui, Sherman!
— Ei, Sherman!
Todos gritavam “Sherman!”. Seu nome de batismo! Pertencia a eles, também! A expressão do rosto deles. Que intensidade cruel! Empurravam os microfones na sua direção. Alguém deu um encontrão em Goldberg, empurrando-o contra Sherman. Uma câmera apareceu sobre o ombro de Goldberg. Ele jogou o cotovelo e o antebraço para a frente com toda a força, ouviu-se uma pancada abafada, e a câmera caiu no chão. Goldberg ainda mantinha o outro braço enganchado no cotovelo de Sherman. A força de seu soco desequilibrou Sherman. Este deu um passo para o lado, e o pé desceu sobre a perna de um homem que se contorcia no chão. Era um homem franzino de cabelos escuros e crespos. Goldberg pisou na barriga dele por precaução. O homem gritou Aaaaaiiiii.
— Ei, Sherman! Ei, cara de penico!
Surpreso, Sherman olhou para o lado. Era um fotógrafo. A câmera cobria metade de seu rosto. O outro lado tinha um pedaço de papel higiênico colado. Papel higiênico. Sherman via os lábios do homem se mexerem.
— Isso mesmo, cara de penico, olhe bem aqui!
Martin estava um passo à frente de Sherman, tentando abrir caminho.
— Abram passagem! Abram passagem! Saiam do caminho!
Killian segurou o outro cotovelo de Sherman e tentou escudá-lo daquele lado. Mas agora seus dois cotovelos estavam sendo puxados para a frente, e ele estava consciente de ser arrastado, encharcado, com os ombros curvados. Não conseguia manter a cabeça erguida.
— Sherman! — Uma voz de mulher. Havia um microfone no seu rosto. — Você já foi preso antes?
— Ei, Sherman! Vai se declarar inocente ou culpado?
— Sherman! Quem é a morena?
— Sherman! Você teve intenção de atropelar o rapaz?
Metiam os microfones entre Killian e Martin e entre Martin e Goldberg. Sherman tentava manter a cabeça erguida, mas um dos microfones o atingiu no queixo. Retraía-se o tempo todo. Todas as vezes que olhava para baixo, via as bolinhas de isopor no paletó e na calça.
— Ei, Sherman! Babaca! Está gostando dessa festinha?
Tantos insultos! Vinham dos fotógrafos. Qualquer coisa para fazê-lo olhar na direção deles, mas — tantos insultos! tanta baixaria! Não havia nada infame demais para usar contra ele! Agora pertencia a eles! Era sua criatura! Fora atirado a eles! Poderiam fazer o que quisessem! Odiava-os — mas se sentia muito envergonhado. A chuva entrava nos seus olhos. Não podia fazer nada para evitar. A camisa estava ensopada. Já não avançavam como antes. A portinha metálica estava a menos de 8 metros de distância. Uma fileira de homens comprimia-se à frente deles. Não eram repórteres, nem fotógrafos, nem câmeras. Uns eram policiais fardados. Outros pareciam latinos, rapazes em sua maioria. Depois havia alguns brancos... vagabundos... bêbados... mas, não, usavam distintivos. Eram policiais. Estavam todos na chuva. Estavam encharcados. Martin e Goldberg agora avançavam contra os latinos e os policiais, com Killian e Sherman logo atrás. Goldberg e Killian ainda seguravam os cotovelos de Sherman. Os repórteres e os câmeras continuavam a investir pelos lados e por trás!
— Sherman! Ei! Faça uma declaração!
— Só uma foto!
— Ei, Sherman! Por que foi que você o atropelou?
— ... Park Avenue!...
— ... intencionalmente!...
Martin se voltou e disse a Goldberg:
— Nossa, eles estouraram aquele clube social na 167 th Street. Há doze baratinados de merda na fila esperando para entrar no Registro de Ocorrências!
— Beleza! — exclamou Goldberg.
— Olhe — disse Killian —, você tem que levá-lo para dentro. Fale com Crowther, se precisar, mas ponha-o para dentro.
Martin se desvencilhou da multidão aos empurrões e em pouco tempo estava de volta.
— Nada feito — disse Martin, desculpando-se com um aceno de cabeça. — Ele diz que esse tem que ser dentro do regulamento. Tem que esperar na fila.
— Isso é muito errado — disse Killian.
Martin arqueou as sobrancelhas. “Eu sei, eu sei, mas que posso fazer?”
— Sherman! Que me diz de uma declaração?
— Sherman! Ei, seu filho da puta!
— Muito bem! — Era Killian quem gritava. — Querem uma declaração? O sr. McCoy não vai prestar declarações. Sou advogado dele, e vou fazer uma declaração.
Mais empurrões e acotovelamentos. Os microfones e as câmeras agora convergiam para Killian.
Sherman estava parado atrás dele. Killian largou o cotovelo de Sherman, mas Goldberg continuava a segurar o outro.
Alguém gritou:
— Como é o seu nome?
— Thomas Killian.
— Como se escreve?
— K-I-L-L-I-A-N. Certo? Isto é uma prisão carnavalesca! Meu cliente esteve todo o tempo à disposição para comparecer perante o júri e ouvir as acusações que lhe são feitas. No entanto, montaram este circo em completa violação ao acordo feito entre o promotor público do Bronx e o meu cliente.
— O que ele estava fazendo no Bronx?
— Essa é a declaração, é a declaração completa.
— Está dizendo que ele é inocente?
— O sr. McCoy nega inteiramente as acusações, e essa escandalosa prisão carnavalesca nunca deveria ter sido permitida.
Os ombros do terno de Killian estavam encharcados. A chuva permeara a camisa de Sherman, e ele sentia a água na pele.
— [4] Mira! Mira! — Um dos latinos repetia seguidamente essa palavra: mira!
Sherman estava ali parado com os ombros encharcados e curvados. Sentia o paletó empapado pesando nos pulsos. Por sobre o ombro de Killian via um matagal de microfones. Ouvia as câmeras gemerem o tempo todo. O clarão horrível em seu rosto! Queria morrer. Jamais quisera realmente morrer antes, embora, como muitas outras pessoas, tivesse brincado com esse sentimento. Agora sinceramente queria que Deus ou a Morte o salvassem. Terrível era o sentimento, que, na realidade, era uma vergonha escaldante.
— Sherman!
— Sacana!
— Mira! Mira!
E então estava morto, tão morto que nem conseguiria morrer. Nem ao menos possuía a força de vontade para cair no chão. Os repórteres, os câmeras e fotógrafos — tantas ofensas! — ainda ali, a menos de um metro de distância — eram como gusanos e moscas, e ele era o animal morto que tinham encontrado para infestar e apodrecer.
A pseudodeclaração de Killian só os distraíra por um momento. Killian! — que supostamente possuía boas ligações e ia garantir que isso não seria uma prisão normal! Não era uma prisão normal. Era a morte. Qualquer resquício de honra, respeito, dignidade que ele, um indivíduo chamado Sherman McCoy, tivesse algum dia possuído fora anulado, assim, e era a sua alma morta que se encontrava agora parada ali na chuva, algemada, no Bronx, do lado de fora de uma mesquinha porta de metal, ao fim de uma fila de outros doze prisioneiros. Os gusanos o chamavam de “Sherman”. Estavam bem em cima dele.
— Ei, Sherman!
— Vai se declarar culpado ou inocente, Sherman?
Sherman olhava duro para a frente. Killian e os dois detetives, Martin e Goldberg, continuavam a procurar escudar Sherman dos gusanos. Um câmera se aproximou, um gordo. A câmera vinha em seu ombro como uma bazuca.
Goldberg girou na direção do homem e gritou:
— Tire essa porra da minha cara!
O câmera recuou. Que estranho! Que coisa absurdamente desesperadora! Goldberg era agora seu protetor. Era uma criatura de Goldberg, um animal. Goldberg e Martin tinham capturado o seu animal e agora estavam decididos a providenciar que fosse entregue.
Killian disse a Martin:
— Isso não é direito. Vocês têm que fazer alguma coisa. — Martin deu de ombros. Então Killian disse muito sério:
— Meus sapatos estão ficando completamente destruídos.
— Sr. McCoy.
Sr. McCoy. Sherman virou a cabeça. Um homem alto e pálido com longos cabelos louros estava na frente da matilha de repórteres e câmeras.
— Peter Fallow de The City Light — disse o homem. Tinha um sotaque inglês tão inglês que parecia uma paródia de um sotaque inglês. Seria provocação? — Telefonei-lhe diversas vezes. Gostaria muito de conhecer a sua versão de tudo isso.
Sherman deu-lhe as costas... Fallow, seu algoz obsessivo de The City Light... Nenhum escrúpulo em se aproximar e se apresentar... claro que não... sua presa estava morta... Deveria odiá-lo, contudo não conseguia, porque o desprezo por si mesmo era ainda maior. Estava morto até para si mesmo.
Finalmente todos os prisioneiros detidos na batida do clube social estavam do lado de dentro, e Sherman, Killian, Martin e Goldberg chegavam à porta.
— Muito bem, advogado — Martin disse a Killian —, assumiremos a partir daqui.
Sherman olhou suplicante para Killian. (“Com certeza você vai entrar comigo!”) Killian disse:
— Estarei no andar de cima quando o levarem para a leitura da acusação. Não se preocupe com nada. Mas lembre-se: não faça declarações, não fale sobre o caso, nem mesmo com alguém no xadrez, principalmente com alguém no xadrez.
No xadrez! Mais gritos vindos do interior.
— Quanto tempo vai demorar? — perguntou Sherman.
— Não sei exatamente. Tem esses caras na sua frente. — Então, dirigindo-se a Martin: — Olhe. Faça as coisas direito. Veja se pode tirar as impressões digitais dele antes desse bando. Procure entender, porra.
— Vou tentar — prometeu Martin —, mas já lhe disse. Por alguma razão querem que ele cumpra todas as formalidades.
— Sei, mas nos devem isso — disse Killian. — Devem-nos muito... — Parou. — Façam as coisas direito.
Subitamente Goldberg estava puxando Sherman pelo cotovelo. Martin vinha logo atrás. Sherman se voltou para não perder Killian de vista. O chapéu de Killian estava tão molhado que parecia preto. A gravata e os ombros do terno estavam encharcados.
— Não se preocupe — disse Killian. — Vai dar tudo certo.
Pela maneira como Killian falou, Sherman percebeu que seu rosto devia ser uma máscara de puro desespero. Então a porta se fechou; não havia mais Killian. Sherman se encontrava isolado do mundo. Pensara que não lhe restava nenhum medo, apenas desespero. Mas sentia medo de novo. Seu coração começou a martelar. A porta se fechara, e ele fora tragado pelo mundo de Martin e Goldberg no Bronx. Bolinhas de isopor! As bolinhas de isopor que apanhara no banco traseiro do carro de Martin estavam por toda parte. Grudadas no paletó enrolado sobre os pulsos. Por toda a calça de tweed. A calça estava molhada, amarrotada, torcida a ponto de se deformar em torno dos joelhos e das coxas, e as bolinhas de isopor agarravam-se nela como vermes.
Goldberg disse a Sherman:
— Está vendo aquela sala?
Sherman olhou para o interior de uma sala, por uma grande janela de vidro. Havia arquivos e pilhas de papéis. Um enorme aparelho bege e cinza ocupava o centro da sala. Dois policiais estavam diante dele, examinando-o.
— Aquele é o computador Fax que manda as impressões para Albany — explicou Goldberg. Falou numa espécie de salmodia agradável, como se fala com uma criança amedrontada e confusa. Até o seu tom de voz aterrorizou Sherman. — Há uns dez anos — disse Goldberg — um cara inteligente teve essa ideia... foi há dez anos, Marty?
— Não sei — disse Martin. — Só sei que foi uma porra de uma ideia idiota.
— Em todo caso, alguém teve a ideia de armazenar todas as impressões da porra do estado de Nova York nesse único arquivo em Albany... compreende... e com isso todos os registros de ocorrências estão ligados a Albany, e mandam-se as impressões para lá pelo computador, e recebe-se um relatório de volta, e o suspeito sobe e ouve a acusação... compreende... Só que provoca um tremendo engarrafamento em Albany, especialmente quando o sistema cai, como agora.
Sherman não conseguia absorver nada do que Goldberg estava dizendo, exceto que alguma coisa enguiçara e Goldberg achava que estava sendo gentil com essas explicações.
Encontrava-se em uma ampla sala baixa seccionada por cubículos, alguns com janelas de vidro, como as janelas interiores de uma estação de rádio. Não havia janelas externas. Uma névoa ofuscante enchia a sala. Pessoas fardadas circulavam, mas nem todas usavam o mesmo tipo de farda. Dois homens com as mãos algemadas às costas estavam parados diante de uma mesa alta. Dois rapazes maltrapilhos estavam postados ao lado deles. Um dos prisioneiros olhou para Sherman por cima do ombro e cutucou o outro, que se virou e também olhou, e os dois riram. Vindo da lateral, Sherman ouviu o grito que ouvira lá fora: um homem berrava Mira! Mira! Seguiram-se risadas, e então o ruído alto e flatulento de alguém defecando. Uma voz grave exclamou:
— Uuhhh! Porco!
Outra voz disse:
— Muito bem, tire-os daqui. Limpe com a mangueira.
Os dois homens maltrapilhos estavam debruçados por trás dos dois prisioneiros. À mesa havia um enorme policial completamente careca, com um nariz grande e um queixo prógnato. Parecia ter no mínimo sessenta anos. Os homens maltrapilhos estavam retirando as algemas dos dois prisioneiros. Um dos rapazes rotos tinha um colete acolchoado sobre uma camiseta preta e rasgada. Usava tênis e calça de camuflagem suja, apertada nos tornozelos. Havia um distintivo, um escudo de polícia no colete acolchoado. Então Sherman viu que o outro também tinha um distintivo. Mais um policial idoso aproximou-se da mesa e disse:
— Ei, Anjo, Albany caiu.
— Beleza — disse o homem careca. — Temos esse bando, e o turno mal começou.
Goldberg olhou para Martin, girou os olhos, sorriu e depois olhou para Sherman. Ainda lhe segurava o cotovelo. Sherman baixou os olhos.
— É — comentou Martin para Sherman —, dê graças a Deus que são 8 e meia da manhã e não 4 e meia da tarde. Se já fosse de tarde, provavelmente teria que passar a noite na Casa de Detenção do Bronx ou até em Rikers.
— Rikers Island? — perguntou Sherman. Estava rouco. Mal conseguia falar.
— É — disse Martin —; quando Albany cai de tarde, esqueça. Não se pode passar a noite aqui, então levam a pessoa para Rikers. Estou lhe dizendo que tem muita sorte.
Estava lhe dizendo que tinha muita sorte. Esperavam que Sherman gostasse deles, agora! Ali dentro, eram seus únicos amigos! Sherman se sentiu intensamente amedrontado.
Alguém gritou:
— Quem morreu aqui, droga!
O cheiro chegou à mesa.
— Ora, isso é revoltante — disse o careca chamado Anjo. Olhou à volta. — Passe a mangueira!
Sherman acompanhou seu olhar. De um lado, descendo o corredor, conseguiu divisar duas celas. Azulejos brancos e grades; pareciam construídas de tijolos brancos, como um banheiro público. Dois policiais estavam postados diante de uma delas.
Um deles gritou pelas grades:
— Que é que há com você?
Sherman sentia a pressão da manzorra de Goldberg em seu cotovelo, empurrando-o para diante. Estava à frente da mesa, olhando para o Anjo. Martin tinha um maço de papéis na mão.
O Anjo perguntou:
— Nome?
Sherman tentou falar mas não conseguiu. A boca estava absolutamente seca. A língua parecia colada ao céu da boca.
— Nome?
— Sherman McCoy. — Era apenas um sussurro.
— Endereço?
— Park Avenue, 816. Nova York. — Acrescentou Nova York apenas para ser modesto e obediente. Não queria agir como se presumisse que as pessoas ali no Bronx soubessem onde ficava a Park Avenue.
— Park Avenue, Nova York. Idade?
— Trinta e oito anos.
— Já foi preso antes?
— Não.
— Ei, Anjo — disse Martin. — O sr. McCoy aqui tem sido muito cooperativo... e ah... por que não deixa ele ficar sentado por aqui em vez de pô-lo lá dentro com aquele bando de morcegos? Aquela porra lá fora que diz se chamar imprensa fez ele passar um mau pedaço.
Uma onda de gratidão profunda e emocionada invadiu Sherman. Mesmo enquanto a sentia, sabia que era irracional, mas sentia-a a despeito de tudo.
O Anjo estufou as bochechas e ficou parado olhando, como se ruminasse. Então disse:
— Não posso fazer isso, Marty. — Fechou os olhos e ergueu o enorme queixo para o alto, como se dissesse “Os homens lá em cima”.
— Com o que estão se preocupando? Os porras dos vermes da TV fizeram-no ficar lá fora parado na chuva durante meia hora. Olhe para ele. Parece que chegou aqui rastejando por um cano de água.
Goldberg riu. Então, para não ofender Sherman, disse-lhe:
— Não está com a melhor das aparências. Você sabe disso.
Seus únicos amigos! Sherman teve vontade de chorar, ainda mais porque esse sentimento patético, terrível, era sincero.
— Não posso fazer isso — retorquiu o Anjo. — Tenho que seguir toda a rotina. — Fechou os olhos e tornou a levantar o queixo para o alto. — Pode tirar as algemas.
Martin olhou para Sherman e torceu a boca para um lado. (“Bom, amigo, nós tentamos.”) Goldberg abriu as algemas e retirou-as dos pulsos de Sherman. Havia círculos brancos onde o metal estivera. As veias do dorso das mãos estavam intumescidas. “Minha pressão arterial deve ter varado o teto.” Havia bolinhas de isopor por toda a calça. Martin devolveu-lhe o paletó empapado. As bolinhas de isopor estavam por todo o paletó, também.
— Esvazie os bolsos e me entregue o que tiver — disse o Anjo.
Aconselhado por Killian, Sherman não trouxera muita coisa. Quatro notas de cinco dólares, um dólar em trocados, uma chave do apartamento, um lenço, uma esferográfica, a licença de motorista; por alguma razão pensou que deveria levar uma identificação. À medida que entregava cada objeto, o Anjo o descrevia em voz alta:
— Vinte dólares em notas, uma esferográfica de prata... — e ia entregando para alguém que Sherman não via.
Sherman perguntou:
— Posso... ficar com o lenço?
— Deixe-me ver.
Sherman o entregou. Sua mão tremia que era um horror.
— Pode, pode guardá-lo. Mas tem que me entregar o relógio.
— É apenas... é apenas um relógio barato — disse Sherman. Ergueu a mão. O relógio tinha uma caixa de plástico e uma correia de náilon. — Não vou me importar se acontecer alguma coisa com ele.
— Nada feito.
Sherman soltou a correia e entregou-lhe o reloginho. Um novo espasmo de pânico atravessou-o.
— Por favor — pediu Sherman. Assim que a frase lhe saiu da boca percebeu que não deveria tê-la dito. Estava suplicando. — Como posso calcular... será que não posso ficar com o relógio?
— Tem hora marcada ou alguma coisa do gênero? — O Anjo tentou sorrir para demonstrar que não tinha outra intenção senão a de fazer um gracejo. Mas não devolveu o relógio. Em seguida disse: — Muito bem, preciso do seu cinto e dos cordões dos sapatos.
Sherman arregalou os olhos para ele. Percebeu que estava de boca aberta. Olhou para Martin. Martin estava olhando para o Anjo. Agora foi Martin que fechou os olhos e ergueu o queixo, como o Anjo fizera, e exclamou:
— Essa, agora. (“Eles realmente estão a fim do couro dele.”)
Sherman desafivelou o cinto e puxou-o pelas presilhas. Assim que acabou de fazer isso, a calça caiu pelos quadris. Não usava o terno de tweed há muito tempo, e a cintura estava demasiado larga. Puxou a calça para cima e meteu a camisa de novo para dentro, mas ela tornou a escorregar. Teve que segurá-la na frente. Agachou-se para tirar os cordões dos sapatos. Agora era uma criatura abjeta acocorada aos pés de Martin e Goldberg. Seu rosto estava junto das bolinhas de isopor da calça. Podia até ver as rugas das bolinhas. Algum tipo de besouro ou parasita horrível! O calor de seu corpo e o bolor da lã desprendiam um odor desagradável. Estava consciente do cheiro úmido das axilas por baixo da camisa pegajosa. Uma ruína completa. Não havia dúvida alguma. Tinha a sensação de que um deles, Martin, Goldberg, o Anjo, iria simplesmente pisar nele, e, pum, seria o fim de tudo. Puxou os cordões e ficou de pé. Levantar-se de supetão fê-lo sentir a cabeça tonta. Por um instante pensou que talvez fosse desmaiar. A calça estava caindo de novo. Puxou-a com uma das mãos e entregou os cordões ao Anjo com a outra. Pareciam duas coisinhas mortas.
A voz à mesa disse:
— Dois cordões marrons de sapatos.
— Muito bem, Anjo — disse Martin —, ele é todo seu.
— Certo — confirmou o Anjo.
— Bom, boa sorte, Sherman — desejou Goldberg, sorrindo com bondade.
— Obrigado — disse Sherman. Era horrível. Ele realmente apreciara.
Ouviu a porta de uma cela abrir. Adiante, no pequeno corredor, achavam-se três policiais arrebanhando um grupo de latinos de uma cela para outra. Sherman reconheceu diversos dos homens que tinham estado na fila à frente dele.
— Muito bem, andem logo e entrem aí.
— Mira! Mira!
Um homem permaneceu no corredor. O policial o segurava pelo braço. Era alto, de pescoço comprido, e a cabeça girava, bamba. Parecia muito bêbado. Resmungava de si para si. Então lançava um olhar aos céus e gritava:
— Mira! — Segurava a calça do mesmo jeito que Sherman.
— Ei, Anjo, que é que eu faço com esse? Está com a calça toda borrada! — O policial disse “calça” com o maior nojo.
— Ora, merda! — exclamou o Anjo. — Tire a calça dele, enterre-a, lave-o e dê-lhe um daqueles uniformes verdes de faxina.
— Eu nem quero tocar nele, sargento. O senhor tem um daqueles ferros com que se tiram latas das prateleiras dos supermercados?
— Tenho um, sim — respondeu o Anjo —, e vou abrir a sua lata com ele.
O policial empurrou o homem alto de volta para a primeira cela. As pernas do homem eram como as de uma marionete.
O Anjo perguntou:
— Que é isso que tem espalhado por toda a calça?
Sherman olhou para baixo.
— Não sei — respondeu. — Estavam no banco traseiro do carro.
— O carro de quem?
— O carro do detetive Martin.
O Anjo balançou a cabeça como se agora já tivesse visto de tudo.
— Muito bem, Tanooch, leve-o até o Gabsie.
Um policial jovem tomou Sherman pelo cotovelo. A mão de Sherman apertava a calça, de modo que o cotovelo se erguia como a asa de um pássaro. A calça estava úmida até o cós. Carregava o paletó molhado pendurado no outro braço. Começou a andar. O pé direito saiu do sapato, porque já não havia cordões. Ele parou, mas o policial continuou andando, puxando seu cotovelo para a frente, num arco. Sherman meteu o pé de volta no sapato, e o policial indicou o pequeno corredor. Sherman começou a arrastar os pés, para que eles não saíssem dos sapatos. Estes faziam um ruído de esponja espremida, de tão molhados que estavam.
Sherman foi levado na direção do cubículo com as grandes janelas. Agora, do lado oposto do corredor, via o interior das duas celas. Em uma delas parecia haver uns doze vultos, doze massas cinzentas e pretas, contra as paredes. A porta da outra estava aberta. Havia apenas uma pessoa lá dentro, o homem alto, tombado num banco. Havia uma sujeira castanha no chão. O odor de excremento era insuportável.
O policial fez Sherman entrar no cubículo das janelas. No interior encontrava-se um enorme policial sardento com um rosto largo e cabelos louros e crespos, que o examinou de alto a baixo. O policial chamado Tanooch informou:
— McCoy — e entregou ao grandalhão uma folha de papel. A sala parecia cheia de tendas de metal. Uma delas se parecia com o portal para detectar metais que se vê nos aeroportos. Havia uma câmera num tripé. Havia uma coisa que parecia uma estante de música, exceto que no alto não tinha nada suficientemente grande para segurar uma partitura.
— Muito bem, McCoy — disse o policial grandalhão —, passe por aquele portal ali.
Chuí, chuí, chuí... segurando a calça com uma das mãos e o paletó molhado com a outra, Sherman arrastou os pés pelo portal. Um bipe alto e prolongado saiu da máquina.
— Opa, opa! — exclamou o policial. — Muito bem, dê-me o paletó.
Sherman entregou-lhe o paletó. O homem revistou os bolsos e então começou a apalpar o paletó de uma ponta a outra. Atirou-o na beira de uma mesa.
— Muito bem, afaste os pés e abra os braços retos para os lados, assim.
O policial abriu os braços como se fosse dar um mergulho de pássaro. Sherman arregalou os olhos para a mão direita do policial. Estava usando uma luva cirúrgica de borracha transparente. Vinha até a metade do antebraço!
Sherman afastou os pés. Quando abriu os braços, a calça escorregou. O homem se aproximou dele e começou a apalpar seus braços, o peito, as costelas, as costas e depois os quadris e as pernas. A mão com a luva de borracha produzia uma fricção seca e desagradável. Uma nova onda de pânico... Ele olhava fixamente para a luva, aterrorizado. O homem olhou-o e resmungou, aparentemente achando graça e, em seguida, ergueu a mão direita. A mão e o pulso eram enormes. A pavorosa luva de borracha estava bem diante do rosto de Sherman.
— Não se preocupe com a luva — disse. — É o seguinte: tenho que tirar suas impressões, e tenho que segurar os seus dedos um por um e colocá-los na almofada... Entendeu?.. — Falava em tom de conversa, como se fosse um vizinho, e estivessem ali a sós, numa viela, e ele estivesse explicando como é que o motor de seu novo Mazda funcionava. — Faço isso o dia inteiro e sujo as mãos de tinta e, como a minha pele é áspera, às vezes não consigo remover completamente a tinta, e vou para casa e minha mulher tem toda a sala de estar decorada em branco, e ponho minha mão num sofá ou qualquer outro móvel, e quando me levanto veem-se três ou quatro dedos no sofá e minha mulher tem um ataque. — Sherman só fazia olhar. Não sabia o que dizer. O enorme homem de aspecto feroz pretendia ser querido. Era tudo muito estranho. Talvez todos quisessem ser queridos.
— Muito bem, torne a passar pelo portal.
Sherman voltou a atravessar o portal arrastando os pés, e o alarme disparou mais uma vez.
— Merda! — exclamou o homem. — Tente outra vez.
O alarme tocou uma terceira vez.
— Isso me deixa doido — comentou o homem. — Espere um instante. Venha aqui. Abra a boca.
Sherman abriu a boca.
— Mantenha-a aberta... Espere um minuto, vire para esse lado. Não consigo ver sem luz. — Queria virar a cabeça de Sherman num ângulo esquisito. Sherman sentia o cheiro de borracha da luva. — Filho da mãe. Você tem urna merda de uma mina de prata aí dentro. Vou lhe dizer o que vai fazer. Dobre-se pela cintura assim. Procure se abaixar o máximo possível.
Sherman se dobrou, segurando a calça com a mão. “Certamente ele não iria...”
— Agora volte a atravessar o portal, mas bem devagarinho.
Sherman começou a arrastar os pés para trás, dobrado quase num ângulo de 90 graus.
— Muito bem, bem devagarinho, bem devagarinho, bem devagarinho... isso... opa!
Sherman passara quase o corpo todo pelo portal. Só os ombros e a cabeça continuavam do outro lado.
— Muito bem, recue... mais um pouquinho, mais um pouquinho, mais um pouquinho, mais um pouquinho...
O alarme disparou outra vez.
— Opa! Opa! Aí! Fique bem aí! — O alarme continuou a tocar.
— Filho da mãe! — exclamou o grandalhão. Começou a nadar de um lado para o outro, suspirando. Deu uma palmada nas pernas. — Tive um caso desses no ano passado. Muito bem, pode ficar de pé.
Sherman se aprumou. Olhou para o grandalhão, espantado. O homem meteu a cabeça pela porta e berrou:
— Ei, Tanooch! Vem cá! Olhe só isso!
Do outro lado do corredor, havia um policial na cela aberta com uma mangueira, lavando o chão. O jorro de água ecoava nos ladrilhos.
— Ei, Tanooch!
O policial que trouxera Sherman àquela sala veio do corredor.
— Olhe só isso, Tanooch. — Então disse a Sherman: — Muito bem, curve-se e faça aquilo de novo. Passe pelo portal, bem devagar.
Sherman se dobrou e fez como lhe mandara.
— Muito bem, opa, opa, opa... Agora está vendo isso, Tanooch? Até aqui, nada. Muito bem, agora recue mais um pouquinho, mais um pouquinho, mais um pouquinho... — O alarme disparou. O homem estava de novo fora de si. Caminhava para lá e para cá e suspirava e juntava as mãos. — Viu isso, Tanooch? É a cabeça dele! Juro por Deus!... É a cabeça do cara!... Muito bem, pode se levantar. Abra a boca... Isso. Não, vire para esse lado. — Ele tornou a virar a cabeça de Sherman, para conseguir mais luz. — Olhe só aqui! Quer ver um bocado de metal?
O policial chamado Tanooch não disse uma palavra a Sherman. Olhou dentro da boca, como alguém que inspecionasse uma toca num porão.
— Nossa! — exclamou Tanooch. — Você tem razão. A dentadura parece uma máquina de contar moedas. — Então dirigiu-se a Sherman como se reparasse nele pela primeira vez: — Já deixaram você embarcar num avião?
O grandalhão aproveitou para se mostrar.
— Você não é o único — disse. — Tive outro caso desses no ano passado. Quase me deixou doido. Eu não conseguia descobrir... que porra... sabe? — De repente era o tom de conversa descontraída do sujeito ao sábado no quintal, de novo. — Esse aparelho é muito sensível, mas você tem a cabeça que é só metal, tenho que lhe dizer.
Sherman sentia-se mortificado, completamente humilhado. Mas que poderia fazer? Talvez esses dois, se fizesse o jogo deles, pudessem mantê-lo fora do... xadrez! Com aquela gente! Sherman continuou parado ali, segurando a calça.
— Que coisa é essa na sua calça? — perguntou Tanooch.
— Isopor — respondeu Sherman.
— Isopor — repetiu Tanooch, assentindo com a cabeça, mas de maneira a demonstrar a sua incompreensão. E saiu da sala.
Então o grandalhão pôs Sherman diante de um suporte de metal e tirou duas fotos dele, uma de frente e outra de perfil. Sherman de repente percebeu que isso era o que se conhecia como escrachar. Esse urso acabara de escrachá-lo, enquanto Sherman estava ali parado segurando a calça. Depois levou-o para um balcão e, segurando seus dedos um a um, comprimiu-os contra uma almofada de tinta e em seguida contra um formulário. Era operação surpreendentemente brusca. Ele agarrava cada um dos dedos de Sherman como se estivesse apanhando uma faca ou um martelo e os metia na almofada de tinta. Depois se desculpava.
— Tem-se que fazer o trabalho todo sozinho — explicou a Sherman. — Não se pode esperar que alguém venha aqui levantar um dedo por nós.
Do outro lado do corredor ouviu-se um furioso som de engulho. Três dos latinos estavam junto às grades do xadrez.
— Eiiiii! — gritava um deles. — O cara está vomitando! Vomitando à beça!
Tanooch foi o primeiro policial a acudir.
— Ah, droga. Ah, beleza. Ei, Anjo! Esse cara é uma barcaça de lixo. O que vai fazer?
— É aquele mesmo? — perguntou o Anjo.
Então o cheiro de vômito começou a se espalhar.
— Eiiiiiiii, qual é, qual é! — exclamou o Anjo. — Dê uma mangueirada e deixe ele aí.
Abriram as grades, e dois policiais se postaram do lado de fora enquanto um terceiro entrava com a mangueira. Os prisioneiros pulavam de um lado para o outro, para evitar que se molhassem.
— Ei, sargento — chamou o policial. — O cara vomitou a calça toda.
— As de faxina?
— É.
— Porra. Dê uma mangueirada nelas. Isto aqui não é uma lavanderia.
Sherman via o homem alto sentado no banco, de cabeça baixa. Os joelhos estavam cobertos de vômito, e os cotovelos estavam apoiados neles .
O grandalhão observava tudo isso pela janela da sala de impressões. Balançava a cabeça. Sherman acercou-se dele.
— Olhe, oficial, não existe outro lugar onde eu possa esperar? Eu não posso entrar lá. Estou... simplesmente não posso.
O grandalhão meteu a cabeça para fora da sala de impressões e berrou:
— Ei, Anjo, que quer que eu faça com esse homem aqui, o McCoy?
O Anjo olhou lá da mesa, encarou Sherman e esfregou a careca com a mão.
— Bommm... — Em seguida apontou na direção da cela. — E isso aí.
Tanooch entrou e tomou Sherman de novo pelo braço. Alguém abriu as grades. Tanooch empurrou Sherman para dentro, e ele entrou arrastando os pés pelo chão de ladrilhos, segurando a calça. As grades se fecharam atrás dele. Sherman olhou para os latinos, que estavam sentados no banco. Eles o encararam de volta, todos, menos o homem alto, que continuava de cabeça baixa, rolando os cotovelos no vômito dos joelhos.
Todo o piso se inclinava para um ralo no centro. Ainda estava molhado. Sherman sentia a inclinação agora que pisava nele. Uns filetes de água ainda escorriam para o ralo. Era isso aí. Um cano de esgoto onde a humanidade procurava o seu nível, e a torneira de carne humana estava aberta.
Ele ouviu as grades se fecharem atrás dele e ficou parado na cela segurando a calça com a mão direita. O paletó estava pendurado no braço esquerdo. Não sabia o que fazer, nem mesmo para onde olhar, então escolheu um lugar vazio na parede e tentou dar uma olhada... neles... com a visão periférica. A roupa dele era um borrão cinza, preto e marrom, exceto pelos tênis, que criavam uma padronagem de listras e cores pelo chão. Sabia que o estavam observando. Olhou na direção das grades. Nem um único policial! Será que chegariam a mover um músculo se alguma coisa...
Os latinos tinham ocupado todos os lugares no banco. Ele escolheu um lugar a mais ou menos um metro do banco e encostou-se à parede; ela machucava sua coluna. Levantou o pé direito, e o sapato caiu. Meteu o pé de volta no sapato o mais descontraidamente possível. Olhar para o pé sobre o ladrilho brilhante o fez sentir como se fosse cair de vertigem. As bolinhas de isopor! Continuavam grudadas nas pernas da calça.
Sentiu-se presa de um medo horrível de que o tomassem por doido, o tipo de caso perdido que poderiam matar à vontade. Estava consciente do cheiro de vômito... vômito e fumaça de cigarro... Abaixou a cabeça, como se estivesse cochilando, e os espiou. Estavam de olhos fixos nele! Observavam-no e fumavam cigarros. O alto, que não parava de dizer Mira! Mira! continuava sentado no banco, de cabeça baixa e cotovelos nos joelhos cobertos de vômito.
Um dos latinos estava se levantando do banco e vindo em sua direção! Via-o pelo canto do olho. Agora ia começar! Não iam mais esperar!
O homem estava se colocando junto à parede, bem ao lado dele, recostando-se do mesmo jeito que Sherman o fizera. Tinha cabelos finos e crespos, um bigode que se curvava para baixo contornando os lábios, uma pele ligeiramente amarelada, ombros estreitos, uma barriguinha e uma expressão alucinada nos olhos. Devia ter uns trinta anos. Ele sorriu, e isso o fez parecer ainda mais alucinado.
— Ei, cara, eu vi você lá fora.
“Viu-me lá fora!”
— Com a TV, cara. Por que está aqui?
— Irresponsabilidade criminosa — disse Sherman. Sentiu como se arquejasse suas últimas palavras na terra.
— Irresponsabilidade criminosa?
— É... atropelar alguém com o carro.
— Com o carro? Você atropelou alguém com o carro, e a TV veio aqui?
Sherman sacudiu os ombros. Não queria dizer mais nada, mas o medo de parecer arredio levou a melhor.
— Por que está aqui?
— Ah, cara, 220, 265, 225. — O sujeito abanou a mão como se quisesse abarcar o mundo inteiro. — Drogas, armas, jogatina... eiiiiii, tudo quanto é merda, sabe?
O homem parecia sentir um certo orgulho dessa calamidade.
— Você atropelou alguém com o carro? — perguntou mais uma vez. Aparentemente achava isso banal e pouco masculino. Sherman ergueu as sobrancelhas e assentiu com ar de cansaço.
O homem voltou para o banco, e Sherman o viu conversar com três ou quatro de seus camaradas, que olharam para ele mais uma vez e então desviaram sua atenção, como se entediados com as notícias. Sherman tinha a sensação de que os desapontara. Muito curioso! Contudo, era isso que sentia.
O medo de Sherman foi rapidamente suplantado pelo tédio. Os minutos se arrastavam. A articulação do quadril esquerdo começou a doer. Mudou o peso do corpo para o direito, e as costas doeram. Em seguida doeu a articulação do quadril direito. O chão era ladrilhado. As paredes eram ladrilhadas. Enrolou o paletó para fazer uma almofada. Colocou-o no chão, junto à parede, sentou-se e se recostou. O paletó estava molhado, a calça também. A bexiga começava a encher, e sentia punhaladinhas de gás nos intestinos.
O homenzinho que se acercara para falar com ele, o homenzinho que conhecia tudo, foi até as grades. Tinha um cigarro na boca. Tirou o cigarro e gritou:
— Eiiiiii! Preciso de fogo! — Não houve resposta do policial postado além. — Eiiiiii, preciso de fogo!
Finalmente o que se chamava Tanooch apareceu.
— Qual é o problema?
— Eiii, preciso de fogo. — Estendeu o cigarro.
Tanooch tirou uma caixa de fósforos do bolso, acendeu um palito e segurou-o a pouco mais de um metro das grades. O homenzinho esperou, depois colocou o cigarro entre os lábios e comprimiu o rosto de encontro às grades de modo que o cigarro projetou-se para fora. Tanooch continuou imóvel, segurando o fósforo aceso. O fósforo se apagou.
— Eiiiiii! — exclamou o homenzinho.
Tanooch deu de ombros e deixou o fósforo cair no chão. — Eiiiiii! — O homenzinho se voltou para os camaradas e segurou o cigarro no ar. (“Viu o que ele fez?”) Um dos homens sentados no banco riu. O homenzinho fez uma careta para essa traição. Então olhou para Sherman. Sherman não sabia se devia lamentar ou virar o rosto. Acabou olhando, apenas. O homem se aproximou e se acocorou junto dele. O cigarro apagado pendia-lhe da boca.
— Viu isso? — perguntou.
— Vi — respondeu Sherman.
— Quando se quer fogo, eles têm obrigação de dar fogo. Filho da puta. Eiii... você tem cigarro?
— Não, eles tiraram tudo de mim. Até meus cordões de sapato.
— Sério? — Olhou para os sapatos de Sherman. Ele mantivera os cordões, Sherman reparou.
Sherman ouviu uma voz de mulher. Estava zangada com alguma coisa. Ela apareceu no corredorzinho diante da cela. Tanooch a conduzia. Era uma mulher alta e magra, de cabelos castanhos e crespos e pele muito morena, que usava calça preta e uma jaqueta estranha com os ombros muito grandes. Tanooch a acompanhava à sala de impressões. De repente, ela se virou e disse para alguém que Sherman não conseguia ver:
— Seu saco de... — Mas não completou a frase. — Pelo menos eu não fico sentada aqui nesse esgoto o dia inteiro como você! Pense nisso, seu gordo!
Muitos risos de troça dos policiais ao fundo.
— Cuidado ou ele vai atirá-la no vaso e puxar a descarga, Mabel.
Tanooch a fez prosseguir.
— Anda, Mabel.
Ela se voltou contra Tanooch.
— Quando falar comigo, me chame pelo meu nome certo! Não tem nada que me chamar de Mabel!
Tanooch respondeu:
— Vou lhe chamar de coisa pior já, já — e continuou a empurrá-la na direção da sala de impressões.
— É o 220-31 — disse o homenzinho. — Venda de drogas.
— Como é que você sabe? — perguntou Sherman.
O homenzinho simplesmente arregalou os olhos e assumiu uma expressão de quem sabe das coisas. (“Há coisas que ninguém precisa dizer.”) Então sacudiu a cabeça e disse:
— A porra do ônibus chegou.
— Ônibus?
Parecia que normalmente, quando as pessoas eram presas, primeiro as levavam para um distrito e as trancafiavam lá. Periodicamente, um ônibus da polícia passava pelos distritos e transportava os prisioneiros para o Registro Central para tirar as impressões e ouvir a acusação. Chegara uma nova batelada. Acabariam todos nesse xadrez, exceto as mulheres, que eram levadas para outro, mais adiante no corredor, dobrando uma quina. E nada andava porque “Albany caíra” .
Mais três mulheres passaram. Eram mais jovens do que a primeira.
— Duzentos e trinta — disse o homenzinho. — Prostitutas.
O homenzinho que conhecia os números estava certo. O ônibus chegara. A procissão começou da mesa do Anjo para a sala de impressões, e dali para a cela. As pontadas de medo de Sherman começaram a recrudescer. Um a um, três rapazes negros de cabeça raspada, casacos impermeáveis e enormes tênis brancos entraram na cela. Todos os recém-chegados eram negros ou latinos. A maioria era jovem. Muitos pareciam estar bêbados. O homenzinho que conhecia os números levantou-se e foi se reunir a seus camaradas e garantir seu lugar no banco. Sherman estava decidido a não se mexer. Queria ser invisível. Por alguma razão... enquanto não movesse um único músculo... eles não o veriam.
Sherman pregou os olhos no chão e tentou não pensar nos intestinos e na bexiga que doíam. Uma das linhas negras entre os ladrilhos do piso começou a mexer. Uma barata! Então viu outra... e mais uma terceira. Fascinante! — e medonho. Sherman deu uma espiada à sua volta para ver se mais alguém notara. Ninguém parecia ter notado — mas seus olhos encontraram os dos três rapazes negros. Os três olhavam fixamente para ele! Que rostos magros e maus! Seu coração imediatamente disparou em palpitações. Via o pé sacudir com a força das pulsações. Observou as baratas para tentar se acalmar. Uma barata andara até o bêbado latino, que escorregara para o chão. A barata começou a subir pelo salto do sapato. Começou a andar pela perna. E desapareceu na perna da calça. Então reapareceu. Subiu pela bainha da calça. Começou a andar em direção ao joelho. Quando o atingiu, descansou entre as placas de vômito.
Sherman ergueu os olhos. Um dos rapazes negros vinha em sua direção. Tinha um sorrisinho no rosto. Parecia incrivelmente alto. Seus olhos eram muito juntos. Usava calça preta de pernas retas e grandes tênis brancos que fechavam com tiras de Velcro no lugar de cordões. Seu rosto era absolutamente inexpressivo. Tanto mais aterrorizante! Olhou direto no rosto de Sherman.
— Ei, cara, tem um cigarro?
Sherman respondeu que não. Mas não queria que pensasse que estava sendo grosseiro ou pouco comunicativo, por isso acrescentou:
— Desculpe. Mas me tiraram tudo.
Assim que acabou de dizer isso, percebeu que fora um erro. Era uma justificativa, um sinal de que era fraco.
— Tudo bem, cara. — O rapaz pareceu meio simpático. — Por que está aqui?
Sherman hesitou.
— Homicídio — disse. Irresponsabilidade criminosa apenas não era suficiente.
— Sei. Isso é mau — disse o rapaz num tom próximo à preocupação. — Que aconteceu?
— Nada — respondeu Sherman. — Não sei do que estão falando. Por que você está aqui?
— Pelo 160-15 — informou o rapaz. Então, acrescentou: — Roubo à mão armada.
O rapaz fez um bico. Sherman não soube dizer se isso significava “Roubo à mão armada não é nada de especial” ou “Isso é uma merdinha de acusação”.
O rapaz sorriu para Sherman, ainda com os olhos presos ao seu rosto.
— Muito bem, sr. Homicídio — disse, levantou-se, girou nos calcanhares e voltou para o outro lado da cela.
“Sr. Homicídio! Ele logo percebeu que podia me tratar com arrogância!” Que poderiam fazer? Certamente não poderiam... Houvera um incidente — onde? — em que alguns prisioneiros em uma cela bloquearam a visão das grades com os corpos enquanto os outros... Mas será que os outros ali na cela fariam uma coisa dessas por esses três — será que os latinos...?
A boca de Sherman estava seca, absolutamente ressequida. A vontade de urinar era intensa. Seu coração batia nervosamente, embora não tão rápido quanto antes. Naquele momento as grades se abriram. Mais policiais. Um deles trazia duas bandejas de papelão, do tipo que as lojas de frios usam. Depositou-as no chão da cela. Em uma havia uma pilha de sanduíches; na outra, fileiras de copos plásticos.
Ele se ergueu e anunciou:
— Muito bem, hora do rango. Dividam tudo irmãmente, e não quero papo.
Não houve corrida para a comida. Em todo caso, Sherman se sentiu satisfeito de não estar muito longe das duas bandejas. Meteu o paletó imundo sob o braço esquerdo, arrastou-se até lá e apanhou um sanduíche embrulhado em plástico e um copo contendo um líquido rosado e transparente. Em seguida tornou a sentar-se sobre o paletó e experimentou a bebida. Tinha um gosto fraco e açucarado. Pousou o copo de lado no chão e arrancou o invólucro do sanduíche. Separou as duas metades do pão e espiou. Havia uma fatia de carne em pasta. Tinha uma cor amarelada e doentia. A luz fluorescente da cela chegava a parecer verde — chartreuse. A superfície era lisa e pegajosa. Levou o sanduíche ao nariz e cheirou. Um odor de produto químico se desprendia da carne. Separou as duas metades do pão, retirou a fatia de carne, enrolou-a no plástico e jogou a bolinha amarrotada no chão. Comeria o pão duro. Mas o pão desprendia um cheiro tão desagradável de carne que não conseguiu suportar. Cuidadosamente, desenrolou o plástico e enrolou o pão fazendo uma bola, e embrulhou a coisa toda, a carne e o pão. Percebeu que alguém estava parado junto dele. Tênis brancos com tiras de velcro.
Ergueu os olhos. O rapaz negro olhava para ele do alto com um sorrisinho curioso. O rapaz se acocorou até a cabeça ficar ligeiramente acima da de Sherman.
— Ei, cara — disse. — Estou com sede. Me dê a sua bebida.
“Me dê a sua bebida!” Sherman indicou com a cabeça as bandejas de papelão.
— Não sobrou nenhuma, cara. Me dê a sua.
Sherman vasculhou o cérebro à procura do que dizer. Sacudiu a cabeça.
— Você ouviu o que o homem disse. Dividam irmãmente. Pensei que eu e você fôssemos amigos.
Que tom desdenhoso de falso desapontamento! Sherman percebeu que estava na hora de traçar os limites, de parar essa... essa... Mais rápido do que os olhos de Sherman conseguiram acompanhar, o braço do rapaz avançou e agarrou o copo plástico que estava no chão ao lado de Sherman. Ele se levantou, atirou a cabeça para trás e ostensivamente esvaziou a bebida; depois estendeu o copo para Sherman e disse:
— Eu lhe pedi com educação... Compreende? Aqui, é preciso usar a cabeça e fazer amigos.
Então abriu a mão, deixou o copo cair no colo de Sherman e se afastou. Sherman tinha consciência de que a cela inteira observava. Eu deveria — eu deveria — mas estava paralisado de medo e atordoamento. Do outro lado, um latino puxava a carne para fora do sanduíche e a atirava ao chão. Havia fatias de carne por todo lado. Aqui e ali havia bolas de plástico e sanduíches inteiros, desembrulhados e atirados ao chão. O latino começara a comer o pão duro — e mantinha os olhos em Sherman. Olhavam para ele... nesse chiqueiro humano... carne amarela, pão, invólucros de plástico, copos plásticos... baratas! Aqui... ali... Olhou para o latino bêbado. Continuava inconsciente no chão. Havia três baratas cavoucando as dobras da perna esquerda da calça dele, junto ao joelho. De repente Sherman viu uma coisa na beira do bolso da calça do homem. Outra barata — não, grande demais... cinzenta... um camundongo!... um camundongo saindo do bolso do homem... O camundongo se firmou no tecido por um instante, correu pelo piso ladrilhado e tornou a parar. Em seguida avançou e agarrou um pedaço da carne. Parou de novo como se avaliasse a sua sorte...
— Mira! — Um dos latinos vira o camundongo.
Um pé passou voando vindo do banco. O camundongo saiu escorregando pelo piso ladrilhado como um disco de hóquei. Mais uma perna avançou. O camundongo disparou de volta na direção do banco... uma risada, uma gargalhada... Mira!... mais um pé... O camundongo saiu deslizando de costas e passou por cima de um pedaço de carne, que o pôs de novo de pé... Risos, gritos... Mira! Mira!... mais um chute... O camundongo veio rodopiando de costas em direção a Sherman. Ficou deitado ali, a pouco mais de 5 centímetros de seu pé, atordoado, debatendo as perninhas. Depois tentou se aprumar, mal se mexendo. O pequeno roedor estava fora da jogada, acabado. Nem mesmo o medo era suficiente para fazê-lo se mexer. Atirou-se para diante uns dois passos. Mais risos... “Devo chutá-lo como sinal de solidariedade aos meus companheiros de cela?”... Era isso o que se perguntava... Sem pensar, levantou-se. Abaixou o braço e apanhou o camundongo. Segurou-o na mão direita e se encaminhou para as grades. A cela ficou silenciosa. O camundongo se contorcia debilmente em sua mão. Quase alcançara as grades... “Filho da puta!”... uma dor fantástica no dedo indicador... O camundongo o mordera!... Sherman pulou e sacudiu a mão para o alto. O camundongo se aferrava ao seu dedo com as mandíbulas. Sherman agitou o dedo para cima e para baixo como se agitasse um termômetro. O animalzinho não largava!... Mira! Mira!... gargalhadas, risadas... Era um espetáculo incrível! Estavam se divertindo imensamente! Sherman bateu a quina da mão em uma das grades transversais. O camundongo saiu voando... bem diante de Tanooch, que trazia um maço de papéis na mão e se aproximava da cela. Tanooch saltou para trás.
— Puta que pariu! — exclamou. Então amarrou a cara para Sherman. — Ficou maluco?
O camundongo estava estendido no chão. Tanooch sapateou em cima dele com o salto. O animal ficou achatado no chão com a boca aberta.
A mão de Sherman doía horrivelmente, no ponto em que a batera nas grades. Segurou-a com a outra mão. “Quebrei-a!” Viu a marca dos dentes do camundongo no dedo indicador e uma gotinha de sangue. Com a mão esquerda, apalpou as costas e puxou o lenço do bolso traseiro direito. Isso exigiu uma tremenda contorção. Todos observavam. Ah, sim... todos observavam. Ele enxugou o sangue e amarrou o lenço na mão. Ouviu Tanooch dizer a outro policial:
— O sujeito da Park Avenue. Ele atirou um camundongo.
Sherman se arrastou de volta para onde estava o paletó dobrado no chão. Sentou-se outra vez nele. A mão já não doía tanto. Talvez não a tivesse quebrado. “Mas meu dedo pode estar infectado com a mordida!” Puxou um pouco o lenço para olhar o dedo. Não parecia tão ruim. O coágulo de sangue desaparecera.
O rapaz negro estava vindo em sua direção outra vez! Sherman levantou os olhos para ele e em seguida os desviou. O sujeito se acocorou diante dele, como fizera antes.
— Ei, cara — disse —, sabe de uma coisa? Estou com frio.
Sherman tentou fingir que não o via. Virou a cabeça. Estava consciente de ter uma expressão petulante no rosto. A expressão errada! Fraca!
— Eh! Olhe para mim quando falo com você!
Sherman voltou a cabeça para o rapaz. Pura malevolência!
— Pedi uma bebida, e você não foi gentil, mas vou lhe dar uma chance de compensar isso... sabe... estou sentindo frio, cara. Quero o seu paletó. Me dá o paletó.
“Meu paletó! Minhas roupas!”
Sherman não parava de pensar. Não conseguia falar. Sacudiu a cabeça negativamente.
— Que é que há com você, cara? Devia tentar ser simpático, sr. Homicídio. Meu amigo diz que conhece você. Viu você na TV. Você apagou alguém importante e mora na Park Avenue. Isso é ótimo, cara. Mas isto aqui não é a Park Avenue, entende? É melhor começar a fazer amigos, entende? Você andou me passando para trás bem feio, feio mesmo, mas vou lhe dar mais uma chance de consertar as coisas. Agora me dê a porra do paletó.
Sherman parou de pensar. Seu cérebro estava em fogo! Pousou a palma das mãos no chão, ergueu os quadris e oscilou para a frente até se pôr de joelhos. Então ficou de pé em um salto, segurando o paletó na mão direita. Fez isso tão repentinamente que o rapaz negro se assustou.
— Cale a boca! — ouviu-se dizendo. — Você e eu não temos nada para conversar!
O rapaz negro olhou para ele sem entender. Então sorriu.
— Cale a boca? — disse. — Cale a boca! — Sorriu e fez um ruído de desdém. — Me faça calar a boca.
— Ei! Seus vermes! Parem com isso! — Era Tanooch nas grades. Observava os dois. O rapaz negro deu um largo sorriso para Sherman e meteu a língua na bochecha. (“Divirta-se! Você vai continuar dono do seu couro mais uns sessenta segundos!”) Voltou para o banco e sentou-se, sem tirar os olhos de Sherman.
Tanooch leu os nomes numa folha de papel:
— Solinas! Gutiérrez! McCoy!
“McCoy!” Sherman vestiu apressadamente o paletó, para evitar que o vingador se precipitasse e o arrancasse de suas mãos antes que ele deixasse a cela. O paletó estava frio, gorduroso, fétido, completamente disforme. A calça caiu pelos quadris quando ele o vestiu. Havia bolinhas de isopor por todo o paletó e... moviam-se!... duas baratas tinham se abrigado nas dobras. Furiosamente ele as varreu para o chão. Ainda respirava rápida e audivelmente.
Sherman deixou a cela enfileirado atrás dos latinos. Tanooch lhe disse em voz baixa:
— Está vendo? Não esquecemos você. O seu nome na realidade é o sexto da lista.
— Muito obrigado — disse Sherman. — Sou-lhe grato.
Tanooch encolheu os ombros.
— Prefiro tirar você daí andando a ter de varrê-lo para fora.
O salão principal agora estava cheio de policiais e prisioneiros. À mesa, a mesa do Anjo, Sherman foi entregue a um guarda penitenciário, que lhe algemou as mãos às costas e o pôs numa fila com os latinos. A calça caiu-lhe agora irremediavelmente pelos quadris. Não havia possibilidade de puxá-la para cima. Ele não parava de olhar sobre o ombro, temeroso de que o rapaz negro pudesse estar logo atrás dele. Sherman, a última pessoa da pequena fila. O guarda penitenciário o conduziu por uma escada estreita. No alto da escada havia outra sala sem janelas. Mais guardas penitenciários estavam sentados a mesas metálicas maltratadas. Para além das mesas — mais celas! Eram menores, mais cinzentas, mais encardidas que as de azulejos brancos no andar de baixo. Eram verdadeiras celas de prisão, essas. Na primeira havia um letreiro descascado que dizia: SÓ HOMENS — 21 e ACIMA — CAP. 8 a 10. O número 21 e a palavra ACIMA tinham sido riscados com uma espécie de hidrográfica. Toda a fila de prisioneiros foi conduzida a essa cela. As algemas continuavam nos pulsos. Sherman conservava os olhos fixos na porta por onde tinham entrado. Se o rapaz negro entrasse e fosse colocado na mesma celinha com ele — ele — ele — seu temor o fazia enlouquecer. Suava profusamente. Perdera a noção do tempo. Deixou a cabeça pender para a frente, tentando melhorar a circulação.
Não tardou e foram conduzidos para fora da cela em direção a uma porta de grades de aço. Do outro lado da porta Sherman via uma fila de prisioneiros sentados no chão de um corredor. O corredor não chegava a medir um metro de largura. Um dos prisioneiros era um rapaz branco com uma enorme bota de gesso na perna direita. Estava de calção, de modo que a bota inteira era visível. Estava sentado no chão. Tinha um par de muletas encostado na parede ao lado dele. No fim do corredor havia uma porta. Um oficial encontrava-se postado ao lado dela. Trazia um enorme revólver no quadril. Ocorreu a Sherman, que era a primeira arma que via desde que entrara nesse lugar. À medida que cada prisioneiro saía da área de carceragem e passava pela porta, as algemas eram removidas. Sherman se deixou cair junto à parede, como todos os outros. O corredor não tinha ventilação. Não havia janelas. Estava inundado de uma névoa fluorescente e o calor e o fedor de corpos em excesso. A torneira de carne! A calha para o abatedouro! Saía... onde?
A porta ao fim do corredor se abriu, e uma voz do outro lado chamou:
— Lantier.
O guarda penitenciário do lado do corredor repetiu:
— Muito bem, Lantier.
O rapaz de muletas levantou-se com dificuldade. O latino ao lado deu-lhe uma ajuda. Ele se equilibrou no pé bom até conseguir acomodar as muletas sob as axilas. “Que diabo teria feito naquele estado?” O policial abriu a porta para ele, e Sherman ouviu uma voz do outro lado dizendo uns números em voz alta e em seguida:
— Herbert Lantier?... o advogado que representa Herbert Lantier?
O tribunal! No fim da calha estava o tribunal!
Quando chegou sua vez, Sherman se sentia atordoado, fraco, febril. A voz do outro lado chamou:
— Sherman McCoy. — O policial do lado de dentro repetiu:
— McCoy.
Sherman se arrastou pela porta, segurando a calça, fazendo os pés escorregarem para manter os sapatos calçados. Tomou consciência de uma sala moderna bem iluminada e de muita gente passando de um lado para o outro. A cadeira do juiz, as mesas, os assentos eram todos de uma madeira clara de aspecto ordinário. De um lado as pessoas se moviam em ondas ao redor do poleiro alto do juiz em madeira clara, e do outro lado se moviam em ondas no que parecia ser uma seção para o público. Tanta gente... luzes tão fortes... tanta confusão... tanta agitação... Entre as duas seções havia um gradil, também de madeira clara. E ao pé do gradil encontrava-se Killian... Ele estava ali! Parecia muito limpo e elegante em suas roupas janotas. Sorria. Era o sorriso tranquilizador que se reserva para os inválidos. À medida que Sherman se arrastava em direção ao advogado, sentiu-se agudamente consciente do aspecto que deveria ter o paletó sujo e empapado e a calça... as bolinhas de isopor... a camisa amarrotada, os sapatos molhados e sem cordões... Sentia o cheiro da própria imundície, desespero e terror.
Alguém estava lendo um número em voz alta, e então ouviu seu nome, e a seguir Killian dizendo o próprio nome e o juiz perguntando:
— Declara-se culpado ou inocente? — E Killian disse a Sherman à meia-voz:
— Diga: inocente. — Sherman repetiu a palavra muito rouco.
Parecia haver grande agitação na sala. A imprensa? Há quanto tempo estava nesse lugar? Então irrompeu uma discussão. Havia um rapaz forte, de cabelos ralos, veemente, diante do juiz. Parecia pertencer à Promotoria Distrital. O juiz murmurou murmurou murmurou e terminou com sr. Kramer. Sr. Kramer.
A Sherman, o juiz pareceu muito jovem. Era um branco gorducho com os cabelos crespos, recuados, e roupas longas que pareciam ter sido alugadas para uma formatura.
Sherman ouviu Killian resmungar:
— Filho da puta.
Kramer dizia:
— Sei, Meritíssimo, que o nosso gabinete concordou com uma fiança de apenas 10 mil dólares para esse caso. Mas os desdobramentos, questões que foram trazidas à nossa atenção desde então, tornaram impossível que o nosso gabinete concordasse com uma fiança tão baixa. Meritíssimo, este caso envolve uma lesão grave, muito possivelmente uma lesão fatal, e temos conhecimento definitivo e específico de que havia uma testemunha neste caso que não se apresentou e que essa testemunha estava de fato no carro que o acusado, sr. McCoy, dirigia, e temos razões para acreditar que fizeram ou se farão tentativas de impedir que essa testemunha se apresente, e acreditamos que não estaremos servindo aos interesses da justiça...
Killian interrompeu:
— Meritíssimo...
— ... se permitirmos ao acusado sair livre mediante uma fiança simbólica...
Um ruído surdo, resmungos, um murmúrio irado e volumoso se elevou da seção reservada ao público, e uma voz solitária e grave gritou:
— Nada de fiança!
E um poderoso coro de murmuradores:
— Nada de fiança!... Meta-o na cadeia!... Tranque a porta!
O juiz bateu o martelo. Os murmúrios foram cessando.
Killian disse:
— Meritíssimo, o sr. Kramer sabe muito bem...
O ruído surdo se elevou outra vez.
Kramer continuou, atropelando as palavras de Killian:
— Dadas as emoções nesta comunidade, despertadas muito justificadamente pelo caso, no qual parece que a justiça é uma palha...
Killian, no contra-ataque, gritava:
— Meritíssimo, isso é obviamente uma tolice!
Um ruído surdo e fortíssimo.
O ruído se alastrou num rugido; os murmúrios, em grandes apupos:
— Ooora, cara!... Uhhhhhh!... Ehhhhhh!... Cala essa boca imunda e deixa o cara falar!
O juiz bateu novamente o martelo.
— Silêncio! — O vozerio diminuiu. E dirigindo-se a Killian: — Deixe-o terminar a declaração. Poderá responder.
— Muito obrigado, Meritíssimo — disse Kramer. — Meritíssimo, gostaria de chamar a atenção do tribunal para o fato de que este caso, mesmo na etapa da leitura do libelo, num curto prazo, provocou pesadas críticas da comunidade e mais especificamente dos amigos e vizinhos da vítima, Henry Lamb, que continua em estado extremamente grave no hospital.
Kramer se virou e fez um gesto na direção dos espectadores. A seção estava repleta. Havia gente em pé. Sherman reparou num grupo de negros com camisas azuis de operário. Um deles era muito alto e usava um brinco de ouro.
— Tenho uma petição — disse Kramer, e ergueu um maço de papéis e agitou-os no alto. — Este documento foi assinado por mais de cem membros da comunidade e entregue à Promotoria Distrital do Bronx juntamente com um apelo de que o nosso gabinete os representasse, que se empenhasse para que se fizesse justiça neste caso, e naturalmente representá-los é tão somente a nossa obrigação.
— Nossa! — murmurou Killian.
— O bairro, a comunidade, o povo do Bronx pretendem acompanhar este caso, diligentemente, a cada fase do processo judicial.
Certo!... lhhhhhh!... Hum-hummmm!... É isso aí! Uma gritaria tremenda começou na seção dos espectadores.
O juiz gorducho bateu o martelo e gritou:
— Silêncio! Isto é uma leitura de acusação. Não é um rali. É só, sr. Kramer?
O ruído surdo, murmurações, “buuuuu!”.
— Meritíssimo — continuou Kramer —, recebi instruções do meu gabinete, do sr. Weiss em pessoa, de solicitar uma fiança no valor de 250 mil dólares para este caso.
— Certo!... lhhhhh!... É isso aí!... — Vivas, aplausos, pateadas no chão.
Sherman olhou para Killian. “Diga-me — diga-me — diga-me que isso não pode estar acontecendo!” Mas Killian forçava a vista na direção do juiz. Tinha a mão levantada. Seus lábios já estavam se mexendo. O juiz batia o martelo.
— Mais uma manifestação dessas e mando evacuar a sala.
— Meritíssimo — disse Killian, quando o vozerio diminuiu —, o sr. Kramer não se contenta em violar um acordo entre o seu gabinete e o meu cliente. Ele deseja transformar isto num circo! Esta manhã, meu cliente foi submetido a uma prisão circense, apesar de ter estado todo o tempo pronto a comparecer voluntariamente perante um júri. E agora o sr. Kramer fabrica uma ameaça fictícia a uma testemunha anônima e solicita ao tribunal que estabeleça uma fiança absurda. Meu cliente é proprietário e morador de longa data nesta cidade, tem família e profundas raízes em sua comunidade, e concordamos em uma solicitação de fiança, como até mesmo o sr. Kramer admite, e nada houve que pudesse alterar as premissas desse acordo.
— Muita coisa mudou, Meritíssimo! — disse Kramer.
— É — respondeu Killian —, o gabinete do promotor distrital do Bronx é que mudou.
— Muito bem! — disse o juiz. — Sr. Kramer, se o seu gabinete tem informações pertinentes à fiança deste caso, eu ordeno que colete essas informações e faça um requerimento legal a este tribunal, e o assunto será revisto a seu tempo. Até lá, o tribunal vai libertar o acusado, Sherman McCoy, sob a fiança de 10 mil dólares, até a apresentação dessa queixa-erime perante o júri.
Berros e gritos! — Buuuuuu!... Ihhhhhhhh!... Nãããooo!... Peguem ele!... — Então começou uma cantoria: — Cadeia sim: fiança não... Cadeia sim: fiança não.
Killian o conduzia para longe da mesa. Para sair do tribunal teriam que passar pela seção de espectadores, direto pela massa de gente colérica que estava agora de pé. Sherman via punhos erguidos. Então viu policiais vindo em sua direção, meia dúzia deles pelo menos. Usavam camisas brancas e cintos de balas e coldres colossais que deixavam o cabo das pistolas à mostra. De fato, eram guardas judiciários. Cercaram-no. “Vão me pôr de volta na cela!” Então percebeu que estavam formando uma ponta de lança para fazê-lo atravessar a multidão. Tantos rostos enfurecidos, negros e brancos! “Assassino!.. Filho da puta... Você vai receber o mesmo que Henry Lamb!... Diga suas preces, Park Avenue!... McCoy, diga McMorto, coração!...” Ele caminhava aos tropeções entre seus protetores de camisa branca. Ouvia-os gemer e fazer força empurrando a turba.
— Abram passagem! Abram passagem!...
Aqui e ali outros rostos apareciam, lábios se moviam... O inglês alto de cabelos louros... Fallow... A imprensa... depois mais gritos... “Você é meu, seu bêbado! Meu!... Conte os seus minutos, gracinha!... Agarre-os!... Vou te apagar, otário!... Olhe só para ele: Park Avenue!”
Mesmo em meio à tormenta, Sherman se sentia estranhamente indiferente ao que estava acontecendo. Seus pensamentos lhe diziam que era algo pavoroso, mas ele não sentia. “Já estou morto.”
A tempestade transbordou do tribunal para um saguão, que estava cheio de gente estática. Sherman viu as expressões mudarem de pena para medo. Começaram a correr para os lados, abrindo caminho para a galáxia errante de corpos que acabava de se projetar do tribunal. Agora Killian e os guardas judiciários o conduziam para uma escada rolante. Havia um mural pavoroso na parede. A escada rolante descia. Pressão por trás: mergulhou para a frente batendo nas costas de um guarda judiciário no degrau abaixo. Por um instante pareceu um avalanche de corpos — mas o guarda judiciário se firmou no corrimão. Agora a galáxia ululante irrompeu através dos portões de entrada e pelas escadarias da 161st Street. Uma parede humana barrava o caminho. Câmeras de televisão, seis ou oito delas, microfones, uns quinze ou vinte, gente gritando — a imprensa.
As duas massas humanas se encontraram, se confundiram, se imobilizaram. Killian se ergueu adiante de Sherman; os microfones estavam fixando o rosto dele, e Killian declamava num tom eloquente:
— Quero que mostrem a toda a cidade de Nova York o que acabaram de ver lá dentro. — Com um estranhíssimo alheamento, Sherman se viu prestando atenção a cada inflexão da fala das ruas na voz do almofadinha. — Vocês viram uma prisão carnavalesca, e viram uma leitura de acusação carnavalesca, depois viram a Promotoria Distrital se prostituir e perverter a lei para agradar às suas câmeras e obter a aprovação de uma turba facciosa!
— Buuuu!... Ihhhhh!... Faccioso é você, seu filho da mãe!... — Em algum ponto atrás dele, a pouco mais de um metro de distância, alguém entoava uma cantilena em falsete: — Diga suas preces, McCoy... Seus dias estão contados... Diga suas preces, McCoy... Seus dias estão contados...
Killian dizia:
— Chegamos a um acordo com o promotor distrital ontem...
A voz de falsete prosseguia:
— Diga suas preces, McCoy... Conte seus segundos...
Sherman olhou para o céu. A chuva parara. O sol aparecera. Era um belo e perfumado dia de junho. Uma abóbada macia e azul era visível sobre o Bronx.
Ele contemplou o céu e procurou ouvir os sons, apenas os sons, os tropos ressonantes e as sentenças, as cantilenas em falsete, os gritos inquisitivos, os murmúrios de hipopótamos e pensou: “Nunca mais hei de voltar lá. Não interessa o que precisarei para me manter do lado de fora, nem que tenha de meter uma espingarda na boca.”
A única espingarda que possuía, na verdade, tinha dois canos. Era uma peça grande e antiga. Parado na 161st Street, a um quarteirão da Grand Concourse, no Bronx, ele se perguntava se conseguiria meter os dois canos na boca.
4 “Olha! Olha!” Em espanhol no original. (N. do E.)