A Fogueira das Vaidades
Capítulo 10
10
O ALMOÇO SATURNINO DE SÁBADO
Naquele instante, também em Long Island, mas a 100 quilômetros a leste, no litoral sul, o clube praieiro acabara de abrir para a temporada. O clube era proprietário de uma construção transversal nas dunas, baixa e irregular, feita de estuque, e com uns 100 metros de praia pela frente demarcados por duas cordas suspensas por postes de metal. As dependências do clube eram espaçosas e confortáveis, mas eram mantidas, devotamente, no estilo brâmane-ascético ou colégio interno, que estivera em moda por volta da década de 1920 ou 1930. Sherman McCoy encontrava-se agora sentado num deque a uma mesa de madeira absolutamente simples, sob um grande guarda-sol desbotado. Com ele estavam o pai, a mãe, Judy, e, intermitentemente, Campbell.
Dava para descer ou, no caso de Campbell, correr diretamente do deque para a praia que se estendia entre as duas cordas, e Campbell estava nesse minuto na areia com a menininha de Rewlie Thorpe, Eliza, e a filhinha de Garland Reed, Mackenzie. Sherman fazia questão de não escutar o pai, que contava a Judy como Talbot, o garçom do bar do clube, preparara o seu martíni, que era da cor de chá fraco.
— ... sei por quê, mas sempre preferi martínis feitos com vermute doce. Batidos até espumar. Talbot sempre me dá razão...
Os lábios finos do pai se abriam e se fechavam, e seu aristocrático queixo subia e descia, e seu sorriso charmoso de contador de histórias lhe enrugava as bochechas.
Certa vez, quando Sherman era da idade de Campbell, o pai e a mãe o levaram para fazer um piquenique na praia além das cordas. Havia um clima de aventura nessa excursão. Estavam se arriscando. Os estranhos lá na areia, o punhado que ficava na praia até o fim da tarde, mostraram-se inofensivos.
Agora Sherman deixava os olhos se afastarem do rosto do pai para explorar novamente a praia além das cordas. Isto fez seus olhos se apertarem, porque onde terminava o grupo de mesas e guarda-sóis, a praia era pura luz ofuscante. Então encurtou o campo de visão e se viu focalizando uma cabeça logo atrás do pai. Era a inconfundível cabeça redonda de Pollard Browning. Pollard estava sentado ali com Lewis Sanderson, o velho, que sempre fora o embaixador Sanderson quando Sherman era criança, a sra. Sanderson e Coker Channing e a mulher. De que jeito Channing se tornara sócio fugia à compreensão de Sherman, exceto pelo fato de que fizera carreira insinuando-se nas boas graças de gente como Pollard. Pollard era presidente do clube. Nossa, ele era presidente do condomínio de Sherman, também. Aquela cabeça redonda e densa... Mas dada a sua presente disposição mental, Sherman se tranquilizou com essa visão... densa como uma rocha, sólida como uma rocha, rica como Creso, irremovível.
Os lábios do pai pararam de se mover um instante, e ele ouviu a mãe dizer:
— Querido, não aborreça Judy com martínis. Isto o faz parecer tão velho! Ninguém mais toma martínis a não ser você.
— Aqui na praia se bebe. Se não acredita em mim...
— E como falar de bancos traseiros, de baratinhas ou vagões-restaurante, ou...
— Se não acredita em mim...
— ... rações de guerra ou paradas de sucesso.
— Se você não acredita em mim...
— Você alguma vez ouviu falar de uma cantora chamada Bonnie Baker? — Ela dirigiu a pergunta a Judy, não fazendo caso do pai de Sherman. — Bonnie Baker era a rainha das paradas de sucesso no rádio. Wee Bonnie Baker, as pessoas a chamavam. Inteiramente esquecida agora, imagino.
“Sessenta e cinco anos de idade e ainda bonita”, pensou Sherman. Alta, esguia, ereta, fartos cabelos brancos — recusa-se a pintá-los —, uma aristocrata, muito mais do que o pai, com todo o seu empenho em sê-lo — e ainda descascando o pedestal da estátua do grande Leão da Dunning Sponget.
— Ah, não é preciso ir tão longe — disse Judy. — Eu estava conversando com o filho de Garland, Landrum. Ele é um funcionário júnior, acho que foi o que me disse, na Brown...
— Garland Reed tem um filho na universidade?
— O filho de Sally.
— Meu Deus, tinha me esquecido completamente de Sally. Não é horrível?
— Não é horrível. É moderno — disse Judy sem sequer sorrir.
— Se não acredita em mim, pergunte a Talbot — disse o pai de Sherman.
— Moderno! — exclamou a mãe, rindo e desconsiderando o Leão e seus martínis e seu Talbot.
— De qualquer modo — disse Judy —, por acaso mencionei os hippies numa conversa, e ele ficou me olhando. Nunca ouviu falar deles. História antiga.
— Aqui na praia...
— Como os martínis — disse a mãe de Sherman a Judy.
— Aqui na praia ainda nos permitem gozar os prazeres simples da vida — disse o pai de Sherman —, ou permitiam, até há poucos instantes.
— Papai e eu fomos àquele restaurantezinho em Wainscott ontem à noite, Sherman, aquele de que papai gosta tanto, com Inez e Herbert Clark, e sabe o que a proprietária me disse — você conhece a senhora miúda e bonita que é a dona?
Sherman assentiu com a cabeça.
— Eu a acho muito jovial — disse a mãe. — Quando estávamos saindo ela me disse — bem, primeiro preciso esclarecer que Inez e Herbert tomaram dois gins-tônicas cada, papai tomou três martínis, e serviram vinho, e ela me disse...
— Celeste, seu nariz está crescendo. Eu só tomei um.
— Bem, talvez não tenham sido três. Dois.
— Celeste.
— Bem, ela achou que foi muito, a proprietária. Ela me disse: “Gosto mais dos meus velhos clientes. São os únicos que ainda bebem.” Meus velhos clientes! Não imagino o que supôs que eu acharia disso.
— Ela pensou que você tivesse 25 anos — disse o pai de Sherman. E em seguida para Judy: — De repente estou casado com uma ativista da liga de temperança.
— Ativista da liga de temperança?
— Mais história antiga — murmurou ele. — Ou então estou casado com a srta. Moderninha. Você sempre foi muito moderna, Celeste.
— Só se for comparada a você, querido. — Ela sorriu e pousou a mão no braço dele. — Eu não tiraria os seus martínis por nada neste mundo. Nem aqueles que Talbot prepara.
— Não estou preocupado com Talbot — retrucou o Leão. Sherman já ouvira o pai falar de como gostava que preparassem seus martínis no mínimo cem vezes, e Judy já devia ter ouvido vinte, mas não fazia mal. Isso dava nos nervos de sua mãe, não nos dele. Era confortável; tudo continuava o mesmo de sempre. Era assim que queria as coisas nesse fim de semana; o mesmo, o mesmo, o mesmo, cuidadosamente contido pelas duas cordas.
Só sair do apartamento, onde “Posso falar com Maria?” ainda envenenava o ar, já era uma grande ajuda. Judy viera ontem no início da tarde, na caminhonete, com Campbell, Bonita e a srta. Lyons, a enfermeira. Ele viera no Mercedes, à noite. Essa manhã, no caminho pavimentado que saía da garagem e passava por trás da grande e velha casa em Old Drover’s Mooring Lane, examinara o carro à luz do sol. Não havia evidência alguma do entrevero... tudo estava mais alegre essa manhã, inclusive Judy. Ela conversara amavelmente à mesa do café. Agora mesmo estava sorrindo para seu pai e sua mãe. Parecia descontraída... e bem bonita, de fato, bem chique... numa camisa polo, um suéter Shetland amarelo-claro e calça branca... Não era jovem, mas tinha o tipo de feições finas que envelheciam bem... Um lindo cabelo... A dieta e os abomináveis exercícios físicos... e a idade... tinham enfeado seus seios, mas ainda tinha um corpinho bem-feito... firme... Sentiu uma ligeira excitação... Talvez esta noite... ou no meio da tarde!... Por que não?... Isso talvez iniciasse o degelo, o renascimento da primavera, o retorno do sol... uma base mais sólida... Se ela concordasse, então o... problema desagradável... terminaria... Talvez todo o problema terminasse. Quatro dias tinham agora se passado e não aparecera nem uma nota sobre algo terrível que tivesse acontecido com um rapaz alto e magriço na rampa de uma rodovia no Bronx. Ninguém viera bater à sua porta. Além do mais, era ela quem dirigia. Ela mesma pusera a coisa nesses termos. E o que quer que houvesse, ele estava moralmente certo. (Nada a temer de Deus.) Lutara por sua vida e pela dela...
Talvez o episódio todo fosse um aviso de Deus. Por que ele, Judy e Campbell não saíam dessa loucura de Nova York... e da megalomania da Wall Street? Quem mais a não ser um tolo arrogante iria querer ser Senhor do Universo — e correr os riscos insensatos que andara correndo? Por um triz!... Meu bom Deus, juro que de hoje em diante... Por que não vendiam o apartamento e se mudavam para cá —, morar em Southampton o ano todo — ou para o Tennessee... Tennessee... Seu avô William Sherman McCoy saíra de Knoxville para Nova York quando tinha 31 anos... um caipira aos olhos dos Brownings... Bem, que mal havia em ser um bom caipira americano?... O pai de Sherman o levara a Knoxville. Ele vira a casa absolutamente decente em que seu avô se criara... Uma cidadezinha encantadora, uma cidadezinha sóbria e razoável, Knoxville... Por que não se mudava para lá e arranjava um emprego em uma corretora, um emprego regular, sensato e responsável, sem tentar fazer o mundo virar de cabeça para baixo, um emprego das 9 às 5, ou qualquer que fosse o horário, em lugares como Knoxville; 90 mil dólares ou 100 mil dólares por ano, um décimo ou menos do que ele tão tolamente achava que precisava agora, e seria suficiente... uma casa estilo georgiano com uma varanda telada numa ponta... de 4 a 8 mil metros quadrados de bom gramado, um cortador de grama que ele próprio podia operar de vez em quando, uma garagem em que a porta se abre com um dispositivo que se mantém preso ao espelho retrovisor do carro, uma cozinha com um quadro de avisos magnético onde se deixam recados um para o outro, uma vida aconchegante, uma vida de amor. Nossa Cidade...
Judy agora sorria de alguma coisa que seu pai dissera, e o Leão sorria de prazer por ela ter apreciado a sua finura de espírito, e a mãe sorria para ambos, e nas mesas adiante, Pollard sorria, e Rawfie sorria, e o embaixador Sanderson, com suas pernas velhas e flácidas, e tudo mais estava sorrindo, e o sol cálido do início de junho à beira-mar aquecia os ossos de Sherman, e pela primeira vez em duas semanas ele se descontraiu, e sorriu para Judy e para a mãe, como se na realidade estivesse prestando atenção às brincadeiras deles.
— Papai!
Campbell veio correndo em sua direção dos lados da areia e da luminosidade ofuscante, subiu no deque e passou por entre as mesas.
— Papai!
Ela parecia absolutamente radiosa. Agora, com quase sete anos, perdera as feições de bebê e se tornara uma menininha de pernas e braços finos e músculos firmes, sem nenhum defeito. Estava usando um maiô rosa com uma estamparia de letras do alfabeto em preto e branco. Sua pele brilhava com o sol e a agitação. Só o fato de vê-la, de estar diante dessa... visão... trouxe sorrisos ao rosto de seu pai, sua mãe e Judy. Ele girou o corpo tirando as pernas de baixo da mesa e abriu os braços. Queria que corresse direto para abraçá-lo.
Mas ela parou antes. Não viera pedir carinho.
— Papai. — Ofegava. Tinha uma pergunta importante. — Papai.
— Que é, querida?
— Papai. — Mal conseguia recuperar o fôlego.
— Calma, queridinha. Que foi?
— Papai... o que é que você faz?
O que é que ele fazia?
— Faz? Que quer dizer, queridinha?
— Bom, o pai de MacKenzie faz livros e tem oitenta pessoas trabalhando para ele.
— Foi isso que MacKenzie lhe disse?
— Foi.
— Ah, ah! Oitenta pessoas! — exclamou o pai de Sherman, num tom que usava para falar com crianças. — Ora, ora, ora!
Sherman podia imaginar o que o Leão pensava de Garland Reed. Garland herdara a gráfica do pai e há dez anos não fizera nada a não ser mantê-la viva. Os “livros” que “fazia” eram serviços gráficos que as pessoas que realmente os editavam lhe encomendavam, e o produto final era muito provavelmente manuais, listas de clubes, contratos de empresas e relatórios anuais, nada, nem remotamente, ligado à literatura. Quanto aos oitenta empregados — oitenta pobres-diabos sujos de tinta estaria mais próximo da verdade — eram linotipistas, impressores, e assim por diante. No auge de sua carreira, o Leão tivera duzentos advogados da Wall Street sob seu chicote, a maioria deles de famílias ricas e tradicionais.
— Mas, o que é que você faz? — perguntou Campbell, agora se impacientando. Queria voltar para MacKenzie com a informação e obviamente exigia algo impressionante.
— Bem, Sherman, o que você diz? — perguntou o pai com um largo sorriso. — Quero mesmo ouvir a sua resposta. Muitas vezes me perguntei o que é que gente como você faz, exatamente. Campbell, esta é uma excelente pergunta.
Campbell sorriu, recebendo o elogio do avô literalmente.
Mais ironia; e dessa vez pouco bem-vinda. O Leão jamais aprovara sua escolha do negócio de obrigações em vez da escolha do consultoria jurídica, e o fato de que prosperara só tornara as coisas piores. Sherman começou a sentir raiva. Não podia se sentar ali e apresentar uma imagem de si como Senhor do Universo, não com o pai, a mãe e Judy atentos a cada palavra que dissesse. Ao mesmo tempo não podia dar a Campbell uma modesta descrição de si como vendedor, um entre muitos, ou mesmo como o principal operador de obrigações, o que soaria pomposo sem contudo impressionar e, de qualquer modo, não significaria nada para Campbell — Campbell, que estava parada ali, ofegante, pronta para correr de volta para a amiguinha que tinha um pai que fazia livros e tinha oitenta pessoas trabalhando para ele.
— Bom, eu opero com obrigações, queridinha. Eu as compro, eu as vendo, eu...
— O que são obrigações? O que é operar?
Então, a mãe dele começou a rir.
— Tem que se esforçar mais, Sherman!
— Bom, fofinha, obrigações são... uma obrigação é... bem, deixe-me ver qual é a melhor maneira de lhe explicar.
— Explique para mim também, Sherman — disse o pai. — Devo ter preparado 5 mil contratos de compra, e sempre caí no sono antes de conseguir descobrir por que alguém queria as obrigações.
“É porque você e seus duzentos advogados da Wall Street não passavam de funcionários dos Senhores do Universo”, pensou Sherman, aborrecendo-se mais a cada segundo. Viu Campbell olhar para o avô, penalizada.
— Seu avô só está brincando, fofinha. — Lançou um olhar de censura ao pai. — Uma obrigação é uma forma de emprestar dinheiro às pessoas. Vamos dizer que você queira construir uma estrada, e não uma estradinha, mas uma grande rodovia, como aquela em que viajamos no verão passado para Maine. Ou quer construir um grande hospital. Bom, isso exige muito dinheiro, muito mais dinheiro do que se poderia jamais conseguir pedindo aos bancos. Então o que se faz é lançar o que chamamos de obrigações.
— Você constrói estradas e hospitais, papai? É isso que você faz?
Agora o pai e a mãe começaram a rir. Ele lançou aos dois olhares de franca reprovação, o que os fez rir ainda mais. Judy sorria com o que parecia ser uma certa solidariedade.
— Não, na realidade não as construo, queridinha. Eu opero as obrigações, e as obrigações são o que torna possível...
— Você ajuda a construí-los?
— Sim, de certa forma.
— Quais?
— Quais?
— Você disse estradas e hospitais.
— Bem, nada em particular.
— A estrada para Maine?
Agora tanto o pai quanto a mãe sufocavam o riso, com o ruído enfurecedor de quem está fazendo o possível para não cair na gargalhada na cara da pessoa.
— Não, não a...
— Acho que você perdeu o pé, Sherman! — disse a mãe. A palavra “pé” saiu quase como uma exclamação sonora.
— Não a estrada para Maine — disse Sherman, fingindo não ter ouvido o comentário. — Deixe-me explicar com outras palavras.
Judy o interrompeu.
— Deixe-me tentar.
— Bem... está bem.
— Querida — disse Judy —, papai não constrói estradas nem hospitais, e não ajuda a construí-los, mas opera as obrigações para as pessoas que levantam o dinheiro.
— Obrigações?
— É. Imagine que uma obrigação é uma fatia de bolo, e você não fez o bolo, mas, todas as vezes que serve a alguém um pedaço do bolo, cai um pedacinho, como uma migalhinha, e você pode ficar com o pedacinho para você.
Judy estava sorrindo e também Campbell, que parecia perceber que isso era uma brincadeira, uma espécie de conto de fadas baseado no que o pai fazia.
— Migalhinhas? — disse animando a mãe.
— É — disse Judy. — Imagine migalhinhas, mas uma grande quantidade de migalhinhas. Se você servir muitas fatias de bolo, logo terá suficientes migalhinhas para fazer um bolo gigante.
— Na vida real? — perguntou Campbell.
— Não, não é na vida real. É só para imaginar. — Judy procurou com o olhar a aprovação da mãe e do pai de Sherman para a sua espirituosa descrição da operação de obrigações. Eles sorriram incertos.
— Não tenho muita certeza de que esteja esclarecendo as coisas para Campbell — disse Sherman. — Nossa mãe... migalhinhas. — Sorriu para demonstrar que sabia que isso era apenas uma brincadeira à mesa do almoço. Na verdade... estava acostumado com a atitude superior de Judy com relação à Wall Street, mas não estava muito feliz com “migalhinhas”.
— Não acho que seja uma metáfora muito ruim — disse Judy, também sorrindo. Então voltou-se para o pai dele: — Deixe-me dar um exemplo real, John, e seja você o juiz.
John. Embora houvesse alguma coisa... anormal... na história das migalhinhas, essa era a primeira indicação real de que as coisas talvez não andassem muito bem. John. Seu pai e sua mãe sempre tinham estimulado Judy a chamá-los de John e Celeste, mas ela não se sentia à vontade. Por isso evitava chamá-los do que quer que fosse. Esse John, displicente e confiante, não era muito dela. Até o pai pareceu um pouco na defensiva.
Judy se lançou numa descrição do esquema Giscard. Então comentou para o pai:
— A Pierce & Pierce não emite as obrigações para o governo francês e não as compra do governo francês, mas de alguém que já as comprou do governo francês. Então as transações da Pierce & Pierce não têm nada a ver com nada que a França tenha esperanças de construir ou de desenvolver ou de... realizar. Foi tudo feito muito antes da Pierce & Pierce entrar em cena. Então elas são apenas uma espécie de... fatias de bolo. Bolo de ouro. E a Pierce & Pierce recolhe milhões de maravilhosas — sacudiu os ombros — migalhas de ouro.
— Pode chamá-las de migalhas, se quiser — retrucou Sherman, procurando sem sucesso não parecer rabugento.
— Bom, essa foi a melhor forma que consegui para explicar — disse Judy animada. E, dirigindo-se aos sogros: — A atividade de um banco de investimentos é fora do comum. Não sei se existe alguma maneira de explicá-la a alguém com menos de vinte anos. Ou talvez trinta.
Sherman então reparou que Campbell continuava parada com uma expressão aflita no rosto.
— Campbell — disse ele —, sabe de uma coisa? Acho que mamãe quer que eu mude de profissão. — Sorriu, como se aquela fosse a discussão mais divertida dos últimos anos.
— De modo algum — disse Judy rindo. — Não estou reclamando das suas migalhas de ouro!
“Migalhas — basta!” Sentiu a raiva crescer. Mas continuou a sorrir.
— Talvez eu devesse experimentar ser decorador. Perdão, arquiteto de interiores.
— Não creio que seja talhado para isso.
— Ah, não sei. Deve ser divertido procurar cortinas franzidas e chintz para... quem eram aquelas pessoas?... aqueles italianos para quem decorou o apartamento?... os Di Ducci?
— Não acho que seja particularmente divertido.
— Bom, então é criativo. Certo?
— Bom, pelo menos pode-se apontar para alguma coisa que se fez, alguma coisa tangível, alguma coisa definida...
— Para os Di Ducci.
— Mesmo que seja para pessoas fúteis e superficiais, é algo real, algo descritível, algo que contribui para a simples satisfação humana, por mais espúrio e temporário que seja, algo que pelo menos se pode explicar para os filhos. Quero dizer, na Pierce & Pierce, que diabo vocês dizem um ao outro que fazem todos os dias?
De repente, um grito de dor. Campbell. Lágrimas rolavam pelo seu rosto. Sherman a abraçou, mas seu corpo estava rígido.
— Está tudo bem, querida!
Judy se levantou, aproximou-se e a abraçou também.
— Ah, Campbell, Campbell, Campbell, meu amor! Papai e eu só estávamos caçoando um do outro.
Pollard Browning estava olhando na direção deles. Rawlie também. Rostos nas mesas à volta olhavam para a criança magoada.
Como ambos estavam tentando abraçar Campbell, Sherman se descobriu com o rosto junto ao de Judy. Sentiu ganas de estrangulá-la. Olhou para seus pais. Estavam perplexos.
Seu pai levantou-se.
— Vou buscar um martíni — anunciou. — Vocês são modernos demais para mim.
Sábado! No SoHo! Depois de uma espera de menos de vinte minutos, Larry Kramer e a esposa, Rhoda, Greg Rosenwald e a namorada-amante, Mary Lou Ama-Greg, Herman Rappaport e a esposa, Susan, agora ocupavam uma mesa de janela no restaurante Haiphong Harbor. Do lado de fora, na West Broadway, fazia um dia tão claro e radiante de fim de primavera que nem mesmo a fuligem do SoHo conseguiu empaná-lo. Nem mesmo a inveja que Kramer tinha de Greg Rosenwald conseguia empaná-lo. Ele e Greg tinham sido colegas de turma na Universidade de Nova York. Tinham trabalhado juntos no Conselho de Atividades Estudantis. Herman agora era editor, um entre muitos, na Putnam, a editora, e fora em grande parte graças a ele que Rhoda conseguira seu emprego na Waverly Place Books. Kramer era promotor distrital assistente, um entre 245, no Bronx. Mas Greg, Greg com suas roupas elegantes e a linda Mary Lou Loura do lado, era colaborador de The Village Voice. Até aqui, Greg era a única estrela daquele grupinho de grã-finos rurais que brilhara. Isso se tornara aparente no momento em que se sentaram. Sempre que os outros tinham um comentário a fazer, olhavam para Greg ao fazê-lo.
Herman estava olhando para Greg quando disse:
— Já esteve nessa loja Dean and DeLuca? Viu os preços? Salmão... escocês... defumado... a 35 dólares meio quilo? Susan e eu estivemos lá recentemente.
Greg sorriu com conhecimento de causa.
— É para o círculo dos Sevilles de Short Hills.
— O círculo dos Sevilles de Short Hills? — perguntou Rhoda. Minha mulher, o espelho perfeito. Não era só isso, tinha o tipo de sorriso no rosto que se dá quando se sabe que vem aí uma resposta espirituosa.
— É — respondeu Greg —, dê um’olhada lá fora. — Sua pronúncia era tão atroz quanto a de Rhoda. — Em cada dois carrozum Cadillac Seville com placa de Nova Jersey. Mas dê uma espiada no que eles usam. — Não era só o sotaque atroz, ele tinha o pique de 300 watts de David Brenner, o comediante. — Eles saem de suas casas georgianas de seis quartoz em Short Hills com jaqueta de bombardeiroz e blue jeans, entram nos Cadillacs Seville e rumam para SoHo todozus sábados.
Um horror a pronúncia. Mas Rhoda e Herman e Susan abriam-se em sorrisos e riam de prazer. Achavam que isso era o máximo. Só Mary Lou Faróis Louros parecia menos arrebatada pela deliciosa blague. Kramer resolveu que se conseguisse dizer alguma coisa, dirigir-se-ia a ela.
Greg saiu dissertando sobre todos os elementos burgueses que eram agora atraídos para o bairro dos artistas. Por que não começava por ele mesmo? Era só olhar para ele. Uma barba vermelha ondulada tão comprida quanto a do rei de copas, que escondia a sua falta de queixo... um paletó de tweed verde-sujo com ombros enormes e lapelas com recortes até as costelas... uma camiseta preta com o logotipo do Pus Casserole, a faixa chapada no peito... calça preta de boca justa... e ar Preto Seboso que era tão... pós-punk, tão elegante, tão... na onda... Mas na verdade ele era um bom rapazinho judeu de Riverdale, que era a Short Hills da periferia urbana de Nova York, e seus pais tinham uma grande e agradável casa colonial, ou Tudor, ou o que quer que fosse... Um joão-ninguém de classe média... um colaborador de The Village Voice, um sabe-tudo, o dono de Mary Lou Coxas Macias... Greg começara a viver com Mary Lou quando ela se matriculara no seminário de Jornalismo de Investigação que ele estava conduzindo na UNY, seios proeminentes, aparência clássica de branca, anglo-saxã, protestante. Atraía as atenções no campus da UNY como alguém de outro planeta. Kramer a chamava de Mary Lou Ama-Greg, que era uma maneira de dizer que abrira mão de sua verdadeira identidade para viver com Greg. Ela os incomodava. Incomodava Kramer mais que todos. Achava-a densa, distante, intensamente desejável. Ela o fazia lembrar da moça de batom cor de terra. E, por isso, invejava Greg mais que tudo. Ele se apossara dessa criatura encantadora e a possuía, sem assumir quaisquer obrigações, sem ficar encalhado num formigueiro de West Side, sem ter uma enfermeira inglesa sentada no pescoço, sem ter uma esposa e ser obrigado a vê-la se transformar num tipo shtetl como a mãe dela... Kramer arriscou um olhar para Rhoda e seu rosto inchado e sorridente e se sentiu imediatamente culpado. Amava o filho recém-nascido, estava preso a Rhoda para sempre, de uma forma sagrada... porém... Isto é Nova York! E eu sou jovem!
As palavras de Greg resvalavam por ele. Seus olhos vagavam. Por um instante encontraram os de Mary Lou. Ela sustentou seu olhar. Seria possível... Mas não poderia ficar olhando para sempre. Espiou pela janela as pessoas que caminhavam pela West Broadway. A maioria era jovem ou com um ar jovem — tão bem-vestidas! tão elegantes! — cintilantes, mesmo de Preto Seboso, num perfeito sábado de fim de primavera.
Ali e então, sentado à mesa no Haiphong Harbor, Kramer jurou que se tornaria parte daquilo. A moça de batom cor de terra...
... sustentara o olhar dele, e ele sustentara o dela, quando chegou o veredicto. Ele ganhara. Arrebatara o júri e condenara Herbert, que recebia uma sentença de três a seis anos, no mínimo, uma vez que já tinha uma condenação por delito grave em sua ficha. Ele fora durão, destemido, astuto — e conquistara o júri. Conquistara-a. Quando o presidente do júri, um negro chamado Forester, anunciara o veredicto, ele olhara nos olhos dela, e ela olhara nos dele, e tinham ficado assim pelo que parecia um longo espaço de tempo. Não havia dúvida.
Kramer tentou atrair o olhar de Mary Lou outra vez, mas falhou. Rhoda consultava o menu. Ouvia-a perguntar a Susan Rappaport num inglês quase ininteligível alguma coisa que significava:
— Você comeu antes de vim para cá?
Susan respondeu na mesma algaravia:
— Não, e você?
— Não, mal pude esperá pra dá o fora de casa. Não vou podê fazê isso outra vez nos próximos dezesseizanos.
— Fazêuquê?
— Ora, vim até o SoHo só porque tô com vontade de vim até o SoHo. I a qualqué lugá. A enfermeira do bebê tá indo embora na quarta-fêra.
— Por que não arranja outra?
— Tá brincando? Qué sabê quanto tamo pagando?
— Quanto?
— Quinhentuzi vinte e cinco dólares por semana. Minha mãe bancô a despesa nessas quatro semana.
Muito obrigado. Vá em frente. Diga a todas essas fofoqueiras que seu marido nem mesmo é capaz de pagar a maldita enfermeira. Ele reparou que os olhos de Susan se afastaram do rosto de Rhoda e se dirigiram para o alto. Na calçada, bem em frente à vidraça, estava parado um rapaz que tentava enxergar lá dentro. Se não fosse o vidro de um quarto de polegada, estaria debruçado na mesa deles. Continuou a olhar, olhar, olhar até que a ponta do seu nariz estava quase colada ao vidro. Agora todos os seis encaravam o sujeito, mas aparentemente ele não podia vê-los. Tinha um rosto magro, liso, bonito e jovem e cabelos castanho-claros, ondulados e macios. Com a camisa aberta ao pescoço e a gola da jaqueta da marinha virada para cima, ele parecia um jovem aviador de antigamente.
Mary Lou Carícias voltou-se para Susan com um ar travesso no rosto.
— Acho que devíamos perguntar-lhe se já almoçou.
— Hummmm — disse Susan, que, a exemplo de Rhoda, já formara sua primeira camada subcutânea de Matrona.
— Ele me parece faminto — acrescentou Mary Lou.
— Parece mais é retardado — disse Greg. Greg estava a menos de 30 centímetros de distância do rapaz, e o contraste entre a aparência doentia, Preto Seboso Elegante de fuinha hippie e o rosto saudável e corado do rapaz era esmagador. Kramer se perguntava se os outros notavam. Mary Lou devia ter notado. Esse joão-ninguém de barbas ruivas de Riverdale não a merecia.
O olhar de Kramer encontrou o dela por um momento mas ela observava o rapaz, que, desconcertado com os reflexos, agora se afastava da janela e começava a subir a West Broadway. Nas costas de sua jaqueta havia um raio bordado em ouro, e acima os dizeres RADARTRONIC SECURITY.
— Radartronic Security — disse Greg de maneira a indicar que zero, que nulidade era essa figura por quem Mary Lou resolvera endoidar.
— Podem ter certeza de que não trabalha para nenhuma empresa de segurança — disse Kramer. Estava decidido a atrair a atenção de Mary Lou.
— Por quê? — perguntou Greg.
— Porque por acaso conheço quem trabalha. Vejo-os todos os dias. Eu não contrataria um segurança nesta cidade nem que minha vida dependesse disso: principalmente se minha vida dependesse disso. São todos delinquentes violentos e confessos.
— São o quê? — perguntou Mary Lou.
— Delinquentes violentos e confessos. Têm no mínimo uma condenação por algum crime envolvendo violência contra alguém.
— Ah, corta essa! — exclamou Herman. — Isso não pode ser verdade. — Captara a atenção deles, agora. Estava jogando a sua cartada forte, a do Machão Entendido em Bronx.
— Bem, não são todos, mas aposto que 60 por cento deles. Vocês deviam assistir às sessões das câmaras criminais na Grand Concourse uma dessas manhãs. Uma das maneiras de justificar um recurso é o juiz perguntar ao acusado se ele tem emprego e, se tem, isso supostamente demonstra que possui raízes na comunidade, e assim por diante. Então o juiz pergunta a esses garotos se têm emprego, e, devo dizer, esses garotos estão detidos por assalto à mão armada, agressão, estupro, homicídio, tentativa de homicídio, é só escolher, e cada um deles, se tem algum emprego, dirá: “Segurança.” Ou seja, quem vocês acham que aceita esses empregos? Pagam salário mínimo, são tediosos, e, quando não são tediosos, são desagradáveis.
— Talvez eles sejam bons nisso — disse Greg. — Gostem de se enturmar. Saibam manejar armas.
Rhoda e Susan riram. Tão espirituoso, tão espirituoso.
Mary Lou não riu. Continuava a olhar para Kramer.
— Sem dúvida que sabem — disse ele. Não queria perder o controle da conversa e daqueles olhos azuis de seios enormes. — Todos no Bronx andam armados. Deixem-me contar um caso que acabei de encerrar. — Ahhhhh! Essa era a sua oportunidade de falar da vitória do Povo sobre o bandido Herbert 92X, e ele começou a discorrer sobre a história com prazer. Mas, desde o início, Greg criou problemas. Assim que ouviu falar no nome de Herbert 92X, se intrometeu com um artigo que fizera sobre prisões para The Village Voice.
— Não fossem os muçulmanos, as prisões desta cidade seriam realmente incontroláveis.
Isso era tolice, mas Kramer não queria que a conversa descambasse para os muçulmanos e o maldito artigo de Greg. Então disse:
— Herbert não é muçulmano de verdade. Quero dizer, os muçulmanos não frequentam bares.
A coisa se arrastava. Greg entendia de tudo. Sabia tudo sobre muçulmanos, prisões, crime, vida nas ruas da cidade bilipédica.
Ele começou a virar a história contra Kramer. Por que viviam tão ansiosos para processar um homem que não fizera nada mais que seguir o instinto natural de proteger a própria vida?
— Mas ele matou um homem, Greg! Com uma arma não licenciada que ele portava todos os dias, como um hábito rotineiro.
— É, mas veja só o emprego que ele tinha! Obviamente é uma ocupação perigosa. Você mesmo disse que todo mundo anda armado, lá.
— Veja o emprego dele? Muito bem, vamos ver. Ele trabalha para um cara que vende bebidas roubadas!
— Que qué que ele faça, trabalhe pra IBM?
— Você fala como se isso fosse impossível. Aposto como a IBM tem uma porção de programas de emprego para minorias, mas Herbert não iria querer um emprego deles mesmo que lhe dessem um. Herbert é jogador. Ele é um ladrão que tenta se encobrir com o manto da religião e continuar a ser infantil, egocêntrico, irresponsável, inútil...
De repente Kramer percebeu que estavam todos olhando para ele de um jeito estranho, todos eles. Rhoda... Mary Lou... Estavam olhando para ele com o olhar que se lança a alguém que revela ser um reacionário enrustido. Ele tinha ido longe demais nas informações sobre a justiça criminal... Estava reproduzindo o tom reacionário do sistema... Era como se estivesse numa daquelas discussões estéreis que a turma costumava ter quando estavam na UNY, só que agora estavam na casa dos trinta e o olhavam como se tivesse se transformado em algo horrível. E compreendeu instantaneamente que não havia maneira de explicar o que vira nos últimos seis anos. Eles não entenderiam, e menos ainda o Greg, que estava agarrando aquela vitória sobre Herbert 92X e metendo por sua goela abaixo.
A coisa estava indo tão mal que Rhoda se sentiu compelida a ir em seu socorro.
— Você não entende, Greg — disse ela. — Não faz ideia da carga de trabalho do Larry. Há 7 mil indiciamentos por crime a cada ano no Bronx, e eles só têm capacidade — esta última palavra foi devidamente truncada — para quinhentos julgamentos. Não há possibilidade de estudar cada ângulo de cada caso e levar tudo isso em consideração.
— Posso bem imaginar alguém tentando dizer isso para esse Herbert 92X.
Kramer olhou para o teto do Haiphong Harbor. Fora pintado de preto fosco, juntamente com uma variedade de dutos, canos e luminárias. Pareciam intestinos. Sua própria mulher. Sua ideia de procurar defendê-lo era dizer: “Larry tem tantos negros para mandar para a cadeia, que não tem tempo de tratá-los como indivíduos. Por isso não seja severo demais com ele.” Quebrara as costas trabalhando no caso Herbert 92X, cuidara dele de forma brilhante, encarara Herbert 92X nos olhos, vingara o pai de cinco filhos, Nestor Cabrillo — e o que ganhava com isso? Agora tinha que se defender contra um bando de intelectuais que acompanhavam a moda, num bistrô da moda, no SoHo em moda, porra.
Correu os olhos pela mesa. Até Mary Lou estava lhe lançando um olhar ambíguo. A bela burguesa cabeça de vento se tornara uma seguidora da moda como todo o resto.
Bom, havia uma pessoa que compreendia o caso Herbert 92X, que compreendia como fora brilhante, que compreendia a correção da justiça que ele defendera, e ela fazia com que Mary Lou parecesse... parecesse... insignificante.
Por um momento seus olhos tornaram a encontrar os de Mary Lou, mas a luz se extinguira.