A Fogueira das Vaidades
Capítulo 24
24
OS INFORMANTES
O pavoroso tapete laranja chamejava. Bem junto ao sofá de fórmica em que estava derreado, o tapete se soltara no encontro com a parede, e as fibras metálicas e crespas se esfiapavam. Sherman pôs-se a observar a ruptura do tapete como uma forma de desviar os olhos das figuras sinistras no sofá defronte ao seu. Temia que o estivessem olhando e soubessem quem era. O fato de que Killian o fizesse esperar assim selou, confirmou a correção do que estava prestes a fazer. Esta seria sua última visita a esse lugar, sua última descida à vulgaridade dos Bancos de Favores, contratos, almofadinhas da ralé e filosofias de esgoto.
Mas sua curiosidade não tardou a levar a melhor, e ele olhou para os pés deles... Dois homens... Um tinha um fino par de mocassins com correntes douradas atravessadas na gáspea. O outro usava um par de imaculados tênis Reebok brancos. Os sapatos arrastavam um pouco quando o traseiro dos homens escorregava pelo sofá e eles se aprumavam de volta com as pernas, tornavam a escorregar e a se aprumar e a escorregar e a se aprumar. Sherman escorregou e se aprumou. Eles escorregavam e se aprumavam. Sherman escorregava e se aprumava. Tudo nesse lugar, até a obscena inclinação dos sofás, proclamava a falta de gosto, a ambiguidade, a vulgaridade, e, no fundo, a pura ignorância. Os dois homens conversavam no que Sherman tomou por espanhol. “Oy el miimo”, um repetia o tempo todo. “Oy el miimo.” Deixou os olhos deslizarem até a cintura deles. Os dois usavam camisa de malha e paletó de couro; mais Povo do Couro. “Oy el miimo.” Arriscou-se: os rostos. Imediatamente tornou a baixar os olhos. Estavam olhando fixamente para ele. Que olhares cruéis! Os dois pareciam ter uns trinta e poucos anos. Cabelos pretos e grossos penteados e aparados, assim, em cortes vulgares, mas provavelmente caros. Os dois usavam o cabelo repartido ao meio e eriçado de tal maneira que parecia jorrar para o alto em perfeitas fontes rituais. Que expressões enviesadas quando olhavam para ele! Será que sabiam?
Agora ouvia a voz de Killian, abrindo as vogais. Consolou-se com o pensamento de que não teria de ouvi-la muito mais. O Leão estava certo. Como poderia ter confiado o seu destino a alguém metido naquele ambiente sórdido? Killian apareceu à porta do corredor interno. Tinha o braço passado pelos ombros de um homenzinho branco atarracado e completamente desanimado, que usava um terno patético com um colete particularmente patético que empinava para a frente na altura da barriga.
— Que posso lhe dizer, Donald? — falava Killian. — A lei é como todo o resto. Recebe-se de acordo com o preço. Certo? — O homenzinho saía desalentado sem nem mesmo olhar para ele. Não estivera uma só vez na presença de Killian em que o assunto não fosse dinheiro — o dinheiro devido a Thomas Killian.
— Eiiii — exclamou Killian, sorrindo para Sherman. — Não tive intenção de deixá-lo esperar. — Lançou um olhar significativo para o homenzinho que se retirava e ergueu as sobrancelhas.
Enquanto ele e Sherman caminhavam pelo corredor sob os spots faiscantes até o escritório, Killian comentou:
— Agora, aquele ali — sua cabeça acenou na direção do homenzinho — é um sujeito com problemas. Um diretor assistente de 57 anos, irlandês, católico, com mulher e família, e é apanhado sob a acusação de fazer propostas obscenas a uma menina de sete anos. O policial que o prendeu diz que ofereceu à menina uma banana e partiu daí.
Sherman não fez comentários. Será que aquele almofadinha esperto e insensível, com seu cinismo perene, pensava realmente que o faria se sentir melhor? Sentiu um arrepio pelo corpo todo. Era como se o destino do homenzinho atarracado fosse o dele.
— Reparou naqueles dois sujeitos sentados defronte a você?
Sherman se preparou. Em que inferno estavam encurralados?
— Vinte e oito, 29 anos, os dois, e estariam na relação Forbes dos quatrocentos mais ricos se as suas empresas publicassem relatórios anuais. Têm dinheiro assim. São cubanos, mas importam da Colômbia. São clientes de Mike Bellavita.
O rancor de Sherman aumentava a cada palavra do sabe-tudo. Será que o almofadinha realmente achava que a sua apreciação ligeira do cenário local, seu distanciamento, seu tom cínico o lisonjeariam, o fariam sentir-se superior aos detritos carregados pela maré de imundícies que passava por ali? Não sou superior, seu tolo ah-tão-onisciente, ah-tão-ignorante! Sou um deles! Meu coração se apieda deles! Um velho tarado irlandês... dois jovens traficantes cubanos com seu triste cabelo pomposo; em suma, estava aprendendo sozinho a verdade que existia no ditado “Um liberal é um conservador que foi preso!”.
Na sala de Killian, Sherman sentou-se e observou o almofadinha irlandês recostar-se na cadeira à escrivaninha e girar os ombros sob o jaquetão, compondo-se. Sentiu um rancor ainda maior. Killian estava animadíssimo. Os jornais achavam-se empilhados sobre a escrivaninha. “Gangue Mercedes: ele atropela, ela foge.” Mas é claro! O caso criminal mais quente de Nova York era dele.
Bom, estava prestes a perdê-lo. Como iria dizer-lhe? Sua vontade era simplesmente dizer-lhe de chofre. Mas as palavras saíram com um certo tato.
— Espero que compreenda — disse Sherman — que estou muito infeliz com o que aconteceu ontem.
— Eiiii, quem não estaria? Foi revoltante, até para o Weiss.
— Acho que não está entendendo. Não estou me referindo às coisas a que fui submetido em si, estou falando que você...
Foi interrompido pela voz da recepcionista no interfone sobre a escrivaninha de Killian.
— Neil Flannagan do Daily News no 3-0.
Killian se curvou na cadeira.
— Diga-lhe que ligarei para ele. Não, espere. Diga-lhe que ligarei dentro de trinta minutos. Se estiver fora do escritório, então peça que me ligue dentro de trinta minutos. — E para Sherman: — Desculpe-me.
Sherman parou, lançou um olhar malévolo ao almofadinha e disse:
— Estou me referindo a outra coisa. Estou me referindo a...
Killian interrompeu-o:
— Não quero dizer com isso que só vamos conversar trinta minutos. — As vogais abertas. — O dia é todo seu se quiser e se precisarmos. Mas quero falar com esse tal de Flannagan do News. Ele vai ser o nosso antídoto... contra o veneno.
— Bom, isso é ótimo — respondeu Sherman o mais secamente possível —, mas temos um problema. Você me garantiu que tinha os seus “contatos” especiais no gabinete do promotor distrital do Bronx. Você me disse que tinha um “contrato” com esse tal Fitzgibbon. Creio que me lembro de uma verdadeira dissertação sobre alguma coisa denominada “Banco de Favores”. Agora não entenda mal o que estou lhe dizendo. Pelo que sei, você pode até ter uma aguda percepção das leis...
A voz no interfone:
— Peter Fallow de The City Light na 3-0.
— Anote o telefone. Diga-lhe que chamarei depois. — Para Sherman: — Falando em veneno, a cabeça da cascavel aparece.
O coração de Sherman estremeceu, palpitando, em seguida se acalmou.
— Continue. Você estava dizendo...
— Não estou duvidando do seu tirocínio legal, mas você me acenou com essas garantias, e eu ingenuamente acreditei e... — Parou para escolher a palavra certa.
Killian atalhou:
— Você foi traído, Sherman. Eu fui traído. Bernie Fitzgibbon foi traído. O que Weiss fez foi inescrupuloso. Não... se faz... o que ele fez. Não se faz.
— Contudo, ele fez, e depois de você me ter dito...
— Eu sei como se sente. É como ser atirado numa fossa. Mas Bernie não ficou inteiramente impotente. Weiss queria fazer pior. Precisa entender isso. O filho da puta queria prendê-lo em casa! Queria uma prisão na Park Avenue! Ele é maluco, maluco, maluco! E sabe o que teria feito se sua vontade tivesse prevalecido? Teria mandado os policiais algemarem-no em casa, depois levarem-no para um distrito e deixarem você experimentar um pouco o xadrez do distrito, em seguida colocarem-no num camburão com telas de arame nas janelas, com um bando daqueles animais, e só então apresentarem-no no Registro e deixarem-no passar tudo o que passou. Isso é o que ele queria.
— Contudo...
— Sr. Killian, Irv Stone do Canal 1 na 3-2. Essa é a terceira vez que ele liga.
— Peça o número do telefone e diga-lhe que ligarei depois. — E para Sherman: — Hoje terei que falar com essas pessoas mesmo que não tenha nada para lhes dizer. Só para manter as linhas abertas. Amanhã começaremos a dar uma virada na situação.
— Dar uma virada na situação — repetiu Sherman num tom que pretendia ser de amarga ironia. O almofadinha não notou. A excitação do almofadinha com as atenções da imprensa estava estampada em seu rosto. Na minha degradação, a sua glória mesquinha.
Então tentou mais uma vez:
— Dar uma virada na situação.
Killian sorriu.
— Sr. McCoy, acho que realmente duvida de mim. Bem, tenho notícias para o senhor. De fato, tenho muitas notícias para o senhor. — Apertou o botão do interfone. — Ei, Nina. Peça a Quigley para vir à minha sala. Diga que o sr. McCoy está aqui. — E para Sherman: — Ed Quigley é o nosso investigador, o sujeito de quem lhe falei, o sujeito que costumava trabalhar na Delegacia de Delitos Graves.
Um homem alto e careca apareceu à porta. Era o mesmo homem que Sherman vira na recepção ofuscante na primeira visita. Carregava um revólver num coldre alto sobre o quadril esquerdo. Usava uma camisa branca, mas sem gravata. As mangas estavam enroladas e revelavam um par de pulsos e mãos enormes. A mão esquerda segurava um envelope pardo. Era o tipo de homem alto e ossudo que parece mais forte e ameaçador aos cinquenta do que parecia aos 25. Os ombros eram largos, mas tinham uma curvatura causada pelo desleixo. Os olhos pareciam ter afundado na cavidade orbital.
— Ed — disse Killian —, este é o sr. McCoy.
Sherman acenou com a cabeça, mal-humorado.
— Prazer em conhecê-lo — disse o homem. Mimoseou Sherman com o mesmo sorriso inexpressivo que dera da primeira vez.
Killian perguntou:
— Conseguiu a fotografia?
Quigley tirou uma folha de papel do envelope e entregou-a a Killian, e este passou-a a Sherman.
— Isto é uma xerox, mas está razoável... nem vou lhe contar o que foi preciso para conseguir essa foto. Reconhece?
Uma fotografia de frente e de perfil de um negro, com um número. Traços quadrados, pescoço musculoso.
Sherman suspirou.
— Parece ele. O outro rapaz, o grandalhão, o que disse: “Eh! Precisa de ajuda?”
— Ele é um marginal chamado Roland Auburn. Mora no conjunto Poe. Neste momento está em Rikers Island aguardando julgamento do seu quarto indiciamento por tráfico de drogas. Obviamente, está fazendo um acordo com a Promotoria Distrital em troca de um testemunho contra você.
— E mentindo.
— Isso não viola de forma alguma os princípios que têm norteado a vida do sr. Roland Auburn até agora — disse Killian.
— Como foi que descobriu isso?
Killian sorriu e apontou para Quigley.
— Ed tem muitos amigos na polícia, e muitos entre os melhores devem-lhe favores.
Quigley apenas contraiu ligeiramente os lábios.
Sherman perguntou:
— Ele já foi preso por roubo... ou o tipo de coisa que tentou fazer comigo?
— Quer dizer assalto na estrada? — Killian riu do que acabara de dizer. — Nunca pensei nisso antes. É isso que é, assalto na estrada. Certo, Ed?
— Creio que sim.
— Não que saibamos — disse Killian —, mas pretendemos descobrir bem mais sobre o filho da puta. Os presidiários são famosos pelos testemunhos que prestam... e isso constitui toda a porra do caso de Weiss! Foi com esse testemunho que ele o prendeu!
Killian sacudiu a cabeça com aparente repugnância, e continuou a sacudi-la. Sherman percebeu que estava sentindo uma sincera gratidão. Era o primeiro indício de remissão que alguém lhe oferecia.
— Muito bem, isso é uma notícia — retomou Killian. E para Ed: — Agora conte-lhe sobre a sra. Ruskin.
Sherman ergueu os olhos para Quigley, e este informou:
— Ela embarcou para a Itália. Segui a pista até a casa que alugou no lago de Como. É uma espécie de estância de veraneio na Lombardia.
— É isso mesmo — disse Sherman. — Ela acabara de voltar de lá na noite em que tudo isso aconteceu.
— Bom, há alguns dias — continuou Quigley —, ela deixou a casa de carro com um cara novo chamado Filippo. É só o que sei — o nome “Filippo”. Tem alguma ideia de quem possa ser? Vinte e poucos anos, magro, altura mediana. Cabeludo. Roupas punk. Boa-pinta, ou pelo menos foi o que meu homem disse.
Sherman suspirou.
— É um artista que ela conhece. Filippo Charazza ou Charizzi.
— Conhece algum outro lugar na Itália para onde ela possa ter ido?
Sherman sacudiu a cabeça.
— Como descobriu tudo isso?
Quigley olhou para Killian, e este disse:
— Conte a ele.
— Não foi muito difícil — disse Quigley. Orgulhoso por ser o centro das atenções, não conseguiu evitar um sorriso. — A maioria dessas pessoas tem o Globexpress. Sabe, o cartão de crédito. Há uma mulher... uma pessoa com quem lido num escritório de contabilidade na Duane Street. Eles possuem uma rede de computadores que recebe informações do mundo inteiro. Pago-lhe cem dólares por informação. Nada mau por cinco minutos de trabalho. Não deu outra, essa Maria Ruskin tinha duas despesas feitas há três dias nessa tal cidade de Como. Lojas de roupas. Então ligo para um sujeito que trabalha para nós em Roma, e ele telefona para uma das lojas, diz que é da Globexpress, dá o número da conta dela e diz que precisa mandar-lhe um telegrama para “esclarecer uma dúvida contábil”. Eles pouco se importam. Fornecem o endereço onde entregaram a mercadoria, ele vai a Como e verifica tudo. — Quigley deu de ombros como se dissesse “moleza para um cara como eu”.
Reparando que Sherman estava devidamente impressionado, Killian disse:
— Com isso, agora temos uma pista dos nossos dois artistas. Sabemos quem é a testemunha deles, e vamos encontrar a sua amiga, sra. Ruskin. E vamos trazê-la de volta, mesmo que Ed precise metê-la numa caixa com furinhos para respirar. Não fique chocado. Sei que dá à moça o benefício da dúvida, mas pelos meus padrões objetivos não posso aceitá-la como sua amiga. Você está metido na maior encrenca de sua vida, ela é a sua salvação, e parte para a Itália com um rapagão chamado Filippo. Eiiii, qual é, qual é?
Sherman não pôde deixar de rir. Sua vaidade era tal, porém, que imediatamente presumiu que deveria haver uma explicação inocente.
Depois que Quigley se retirou, Killian disse:
— Ed Quigley é o máximo. Não há melhor investigador no mercado. Ele... faz... qualquer coisa. É aquele irlandês confiável das ruas de Nova York. Os garotos com quem Ed brincava tornaram-se marginais ou policiais. Os que se tornaram policiais foram aqueles que a Igreja conseguiu fisgar, os que se preocupavam um pouquinho com o pecado. Mas todos eles gostam das mesmas coisas. Todos gostam de marretar cabeças e quebrar os dentes dos outros. A única diferença é que, quando se é policial, pode-se fazer isso legalmente com o padre aprovando o que se faz e olhando para o outro lado ao mesmo tempo. Ed foi um tremendo policial. Era um terror.
— Como foi que ele conseguiu essa fotografia? — Sherman olhava para a xerox. — Foi mais um dos seus... “contratos”?
— Uma coisa dessas? Ahhhh. Esqueça. Conseguir essa informação... com um retrato?... isso ultrapassa tanto os limites... quero dizer, isso está além do Banco de Favores. Eu não pergunto, mas a não ser que esteja enganado, isso é o Banco de Favores e mais o banco de verdade, como os seus ativos negociáveis. Esqueça. Falo sério. Pelo amor de Deus, não mencione isso. Não torne a pensar nisso.
Sherman se recostou na cadeira e olhou para Killian. Entrara ali para despedi-lo... e agora não tinha muita certeza.
Como se lesse seus pensamentos, Killian disse:
— Deixe-me explicar uma coisa. Não é que Abe Weiss esteja pouco ligando para a justiça — empregou a terceira pessoa do singular corretamente. “Que ideia elevada”, perguntou-se Sherman, “teria passado por sua cabeça?” — Ele provavelmente liga. Mas esse caso não tem nada a ver com justiça. Isso é uma guerra. É o Abe Weiss preparando-se para a reeleição, e aquele emprego é toda a sua vida, e quando a imprensa se assanha com um caso como está fazendo agora ele não quer saber de justiça. Vai fazer qualquer coisa que precise fazer. Não quero assustá-lo, mas é isso que está ocorrendo, uma guerra. Não preciso preparar uma simples defesa para você, tenho que travar uma campanha. Não creio que tenha grampeado o seu telefone, mas tem poder para tanto e é perfeitamente capaz de fazê-lo. Por isso, se eu fosse você, não diria nada que fosse essencial a esse caso pelo telefone. De fato, não diga nada sobre o caso pelo telefone. Dessa maneira não precisa se preocupar com o que é importante e o que não é.
Sherman assentiu com a cabeça para indicar que compreendera.
— Agora vou ser muito direto com você, Sherman. Isso vai custar muito dinheiro. Sabe quanto custa o homem de Quigley na Lombardia? Dois mil dólares por semana, e isso é apenas uma etapa do que teremos de fazer. Vou lhe pedir um adiantamento bem vultoso logo de saída. E isso não inclui o julgamento, que espero não ser necessário.
— Quanto?
— Setenta e cinco mil dólares.
— Setenta e cinco mil dólares?
— Sherman, que posso lhe dizer? A lei é como qualquer outra coisa, certo? Você recebe pelo que paga.
— Mas, Deus do céu! Setenta e cinco mil!
— Você me obriga a ser imodesto. Nós somos o que existe de melhor. E lutarei por você. Adoro uma luta. Sou tão irlandês quanto Quigley.
Então Sherman, que viera dispensar o advogado, preencheu um cheque de 75 mil dólares.
Entregou-o a Killian.
— Você terá que me dar algum tempo para pôr todo esse dinheiro na minha conta.
— É justo. Que dia é hoje? Quarta? Não vou depositá-lo até sexta-feira de manhã.
O cardápio tinha pequenos anúncios em preto e branco ao pé da página, pequenos retângulos com bordas antiquadas e logotipos altamente estilizados, de coisas como chocolate Nehi, ovas de arenque Captain Henry, café bem torrado com chicória Café du Monde, pneus-balão para bicicletas Indian Chief, fumo para cachimbo Edgeworth, remédio para resfriados 666. Os anúncios eram apenas decorativos, lembranças do tempo das velhas estradas de terra batida na Louisiana. Um sexto sentido fez Kramer vacilar. Essa merda faux-Caseira era tão cara quanto a merda faux-Boêmia displicente. Ele nem queria pensar quanto isso tudo custaria, talvez uns cinquenta dólares. Mas não havia como recuar agora, havia? Shelly estava sentada diante dele no reservado observando cada gesto e expressão sua, e ele passara a última hora e meia projetando a imagem de um homem que assume e tem o comando, e além disso é um másculo bon vivant, que sugerira que passassem à sobremesa e ao café. Ademais, sentia uma necessidade premente de tomar sorvete. Sua boca e suas entranhas estavam em fogo. O Café Alexandria não tinha um único prato na lista que não fosse uma conflagração. O “quiabo crioulo com areia do banhado” — ele pensou que a palavra “areia” fosse uma metáfora usada para designar algum condimento saibroso, alguma raiz ou algo assim, mas havia mesmo areia na merda da sopa, aparentemente impregnada de tabasco. A “broa de milho Cayenne” — era um pão com formigas de fogo dentro. O “filé de bagre com quiabo tostado guarnecido de arroz amarelo com molho de maçã e mostarda chinesa” — a mostarda chinesa era uma bandeira vermelha, mas tinha que pedir o bagre porque era a única entrada meio barata do cardápio, dez dólares e meio. E Andriutti dissera que era um restaurantezinho crioulo barato na Beach Street “realmente sensacional”. A Beach Street era suficientemente miserável para ter um restaurante barato, por isso acreditara.
Mas Shelly não parava de dizer como era maravilhoso. Estava radiante, uma radiosidade divina com batom cor de terra, embora ele não estivesse inteiramente seguro de que isso fosse amor. Talvez a maquiagem de outono em Berkshire ou fogo nas entranhas.
Sorvete, sorvete, sorvete... Ele esquadrinhou a prosa à beira da fogueira do cardápio, e por entre ondas caloríferas encontrou um único tipo de sorvete: “sorvete de baunilha batido à mão coberto com chutney-chili de nozes.” Chili? Bom, rasparia a cobertura para o lado e se concentraria no sorvete. Não teve coragem de pedir à garçonete moderninha, com todos aqueles cachos cor de mel, para suprimir a cobertura. Não queria parecer um fracote sem coragem de arriscar diante de Shelly.
Shelly pediu “torta de lima com massa folhada”, e os dois pediram “café de Nova Orleans com chicória moído na hora”, ainda que alguma coisa lhe dissesse que a chicória significaria mais sofrimento para as suas entranhas ferventes.
Tendo encomendado a sobremesa e o café com uma voz firme e máscula determinação, pousou os antebraços na quina da mesa, curvou-se para a frente e mergulhou os olhos nos de Shelly, para lhe servir mais uma dose de crime bem como o restinho da garrafa de vinho Crockett Sunp White Zinfandel que estava lhe dando um prejuízo de doze dólares. Esse era o segundo vinho mais barato da carta de vinhos. Não teve coragem de pedir o mais barato, que era um chablis de 9,5 dólares. Só um estraga-prazeres inexperiente pedia chablis.
— Gostaria de poder levá-la comigo só para você ouvir esse tal de Roland Auburn. Já o entrevistei três vezes até agora. A princípio parecia tão machão, tão duro, tão... sabe... ameaçador. Ele é uma pedra, com aqueles olhos sem vida, o tipo de adolescente que aparece no pesadelo de qualquer um numa rua escura em Nova York. Mas se o escutar durante cinco minutos... só escutar... você começa a ouvir mais alguma coisa. Você ouve a mágoa. Ele é um garoto, pelo amor de Deus. Está assustado. Esses garotos crescem no gueto sem que ninguém lhes dê realmente atenção. São aterrorizados. Erguem essa muralha de machismo, pensando que vai protegê-los das vicissitudes, quando na realidade estão o tempo todo prontos para serem destruídos. É isso que os espera: serem destruídos. Não, não estou preocupado com Roland perante o júri. Vou fazer o seguinte, vou propor-lhe algumas perguntas inofensivas sobre sua vida pregressa no primeiro minuto e meio ou dois minutos, então ele começará a despir aquela casca grossa, sem mesmo perceber, e acreditarão nele. Não vai passar a imagem de um criminoso empedernido ou de qualquer outra coisa do gênero. Vai passar a imagem de um garoto amedrontado que sonha com um pouquinho de decência e um pouquinho de beleza na vida, porque isso é exatamente o que ele é. Gostaria de arranjar uma maneira de mostrar ao júri os desenhos e colagens que ele faz. Shelly, ele é brilhante. Brilhante! Bom, não há nenhuma possibilidade de isso acontecer, suponho. Já vai ser bastante espinhoso conseguir fazer o verdadeiro Roland sair daquela casca grossa. Vai ser o mesmo que retirar uma lesma de um caracol.
Kramer girou um dedo e riu da sua própria analogia. Os lábios brilhantes de Shelly sorriram de admiração. Eles refulgiam. Ela refulgia.
— Ah, eu adoraria assistir ao julgamento — disse. — Quando vai ser?
— Ainda não sabemos. (“Eu e o promotor público, que por acaso somos muito ligados.”) Não vamos nem apresentar o caso perante o júri de instrução até a próxima semana. Poderíamos chegar ao julgamento em dois meses ou em seis. É difícil precisar a data em um caso que recebeu tanta publicidade quanto este. Quando a mídia enlouquece com alguma coisa, complica tudo. — Sacudiu a cabeça como se dissesse: “Há que se aprender a aguentar isso.”
Shelly deu um sorriso radiante.
— Larry, quando cheguei em casa e liguei a televisão ontem à noite e vi você, aquele desenho... comecei a rir como uma criança. Disse “Larry!” em voz alta, como se fosse você quem tivesse acabado de entrar na sala. Não conseguia me refazer da surpresa.
— Também fiquei um pouco atordoado, para falar a verdade.
— Daria tudo para assistir ao julgamento. Posso?
— Claro.
— Prometo que não farei nenhuma tolice.
Kramer sentiu uma vibração. Sabia que esse era o momento. Estendeu as mãos e escorregou a ponta dos dedos por baixo da ponta dos dedos dela sem olhar. Ela também não olhou para baixo, tampouco retirou os dedos. Continuou a fitá-lo nos olhos e apertou a ponta dos dedos dele nos seus.
— Não me incomodo se fizer alguma tolice — disse. Surpreendeu-se com a própria voz. Estava tão rouca e tímida...
Fora do restaurante, depois de deixar praticamente todo o seu dinheiro na caixa registradora manual à antiga do Café Alexandria, tomou a mão da moça e entrelaçou seus grossos dedos de alavanca nos dedos macios e finos dela, e começaram a caminhar pela escuridão decrépita da Beach Street.
— Sabe, Shelly, você não pode imaginar o que significa para mim ter alguém como você para conversar. Quando se tenta chegar ao cerne de qualquer coisa, os sujeitos do meu gabinete pensam que a pessoa está amolecendo. E Deus a ajude se amolecer. E minha mulher... não sei, ela simplesmente não... não quer ouvir mais falar de nada. A esta altura só pensa que está casada com um cara que tem uma sombria tarefa a executar, mandando um bando de gente patética para a prisão. Mas esse caso não é patético. Sabe o que é esse caso? É um sinal, é um sinal muito importante para as pessoas desta cidade que pensam que estão à margem do contrato social. Sabe? É a história de um homem que pensa que a sua posição elevada na vida o dispensa da obrigação de tratar a vida de alguém no fim da escala da mesma maneira que trataria alguém como ele. Não duvido nem por um minuto que se tivesse atropelado alguém mesmo remotamente parecido com ele, McCoy teria cumprido o seu dever. Provavelmente ele é aquilo que conhecemos como um “cara decente”. É isso que torna o caso fascinante. Ele não é de modo algum um mau sujeito... mas praticou uma má ação. Está me acompanhando?
— Acho que sim. A única coisa que não compreendo é por que Henry Lamb não disse que tinha sido atropelado por um carro quando deu entrada no hospital. E agora que me falou da sua testemunha, Roland... não publicaram nada sobre ele nos jornais, publicaram?
— Não, e não vamos liberar nenhuma notícia sobre ele por algum tempo. Isso que lhe contei tem que ficar entre nós.
— Bom, em todo caso, agora se descobre que Roland não contou a ninguém que o amigo fora atropelado durante quase duas semanas depois do acidente. Isso não é um tanto estranho?
— Que é que isso tem de estranho? Nossa, Shelly, Lamb está sofrendo de uma lesão fatal na cabeça, ou provavelmente fatal, e Roland sabia que seria preso por um delito grave se falasse com a polícia! Eu não chamaria isso de estranho.
A srta. Shelly Thomas resolveu sair pela tangente.
— Não foi bem “estranho” o que quis dizer. Acho que quis dizer... não o invejo, o tipo de preparação e investigação que precisa fazer para documentar um caso desses.
— Ah! Se me pagassem hora extra por todas as horas que terei de gastar nesse caso... bom, eu poderia me mudar para a Park Avenue. Mas sabe de uma coisa? Isso não faz diferença. Realmente não faz. O que me interessa, qualquer que seja o tipo de vida que leve, é poder olhar para trás e dizer: Eu mudei alguma coisa. Esse caso é muito importante, em todos os níveis que se pode conceber, e não apenas em termos da minha carreira profissional. É... não sei como dizer... um capítulo inteiramente novo. Eu quero mudar alguma coisa, Shelly.
Ele parou e, ainda segurando a mão da moça, enlaçou-a pela cintura e puxou-a para si. Ela o olhava, radiante. Seus lábios se encontraram. Ele espiou só uma vez, para ver se ela mantinha os olhos fechados. Mantinha.
Kramer sentia o abdômen da moça esmagado contra o seu. Será que aquela elevação era o monte de Vênus dela? Chegara a esse ponto, tão depressa, tão docemente, tão lindamente — e merda! Não tinha para onde levá-la!
Imagine só! Ele! A estrela ascendente do caso McCoy... e não tinha um lugar... não tinha lugar algum! — nessa Babilônia do século XX!... onde levar uma linda moça complacente de batom cor de terra. Pôs-se a imaginar o que estaria passando pela cabeça dela nesse momento.
Na verdade, estava pensando sobre o jeito de ser dos homens nova-iorquinos. Sempre que se sai com um, primeiro se é obrigada a sentar e ouvi-lo discorrer duas ou três horas sobre a Minha Carreira.
Foi um Peter Fallow triunfante que entrou no Leicester’s àquela noite. Todo mundo à Mesa, e dezenas de outros entre aqueles que lotavam o barulhento bistrô, mesmo aqueles que viravam o nariz para The City Light, sabiam que ele era o autor do furo de reportagem sobre o caso McCoy. Até mesmo St. John e Billy, que raramente falavam sério sobre alguma coisa que não fossem as mútuas infidelidades, deram-lhe os parabéns com aparente sinceridade. Sampson Reith, o correspondente político do Daily Courier de Londres, que se encontrava em Nova York por alguns dias, passou pela Mesa e contou o seu almoço com Irwin Gubner, editor executivo assistente de The New York Times, em que este lamentara que The City Light tivesse tido praticamente a exclusividade da notícia, o que naturalmente se aplicava a Peter Fallow, seu autor e mentor. Alex Britt-Withers ofereceu uma vodca southside por conta da casa, e estava tão boa que Fallow pediu mais uma. O maremoto de louvores era tão grande que Caroline deu o primeiro sorriso que ele recebia dela em muito tempo. A única nota dissonante foi Nick Stopping. Sua aprovação foi decididamente contida e tíbia. Então Fallow percebeu que Nick, o marxista-leninista, o espartaquista oxfordiano, o Rousseau do Terceiro Mundo, estava sem dúvida consumido de ciúmes. Esse era o tipo de matéria para ele, não para o palhaço frívolo do Fallow — agora Fallow podia encarar a opinião de Nick sobre ele com magnânima superioridade —, mas ali estava Fallow na vanguarda, andando no trem de carga da história, enquanto ele, Stopping, escrevia mais um artigo para House & Garden sobre a vila da mais recente sra. Grã-Fina em Hobe Sound, ou outro lugar qualquer.
Bom, por falar em grã-fina, Rachel Lampwick tinha caçoado bastante dele por usar essa palavra com tanta frequência.
— Peter, acho que você poderia ser um pouquinho mais gallant — pronunciou a palavra como os franceses — com essa sra. McCoy, não poderia? Quero dizer, você não para de falar sobre o grã-fino sr. McCoy e seu carro grã-fino e seu apartamento grã-fino e seu cargo grã-fino e sua namorada grã-fina, ou como foi mesmo que você a chamou?... Tesuda... Gosto disso... e a coitada da sra. McCoy é apenas “a esposa quarentona”, o que na realidade quer dizer muito sem sal, não é isso? Não está sendo nada gallant, Peter.
Mas obviamente Rachel andara devorando cada palavra do que escrevera. De modo que não sentiu nada além do carinho de um vencedor por ela e por todos.
— The City Light não considera esposas glamourosas a não ser que sejam infiéis — disse Fallow. — Guardamos nosso entusiasmo para A Outra.
Então todos começaram a especular sobre a Morena Tesuda, e Billy Cortez, lançando um olhar para St. John, comentou que ouvira falar de homens que levavam suas tortinhas para lugares fora de mão para evitar serem flagrados, mas, francamente, o Bronx parecia ser indicativo de uma paranoia progressiva, e Fallow pediu outra vodca southside.
A algazarra era calorosa, alegre e inglesa, e os brilhos laranja e ocre do Leicester’s eram suaves e ingleses, e Caroline estava olhando muito fixamente para ele, por vezes sorrindo, por vezes com uma expressão travessa, e isso espicaçava sua curiosidade, e ele tomou mais uma vodca southside, e Caroline se levantou do lugar e deu a volta na mesa até onde ele estava e debruçou-se e cochichou-lhe no ouvido.
— Vamos lá em cima um instante.
Seria possível? Era tão improvável, mas — seria? Subiram a escada em caracol ao fundo do escritório de Britt-Withers, e Caroline, assumindo subitamente uma expressão séria, disse:
— Peter, provavelmente eu não deveria contar-lhe o que vou contar. Você realmente não merece. Não tem sido muito bonzinho para mim.
— Eu! — exclamou Fallow com uma risada alegre. — Caroline! Você tentou fazer a minha caveira por toda Nova York!
— O quê? Sua caveira? — Caroline sorriu, corando. — Bom, não foi por toda Nova York. De qualquer forma, depois do presente que estou em vias de lhe dar, acho que podemos nos considerar quites.
— Presente?
— Acho que é um presente. Sei quem é a sua Morena Tesuda. Sei quem estava no carro com McCoy.
— Está brincando.
— Não estou brincando.
— Muito bem: quem?
— O nome dela é Maria Ruskin. Você a conheceu naquela noite na Limelight.
— Conheci?
— Peter, você fica tão bêbado... Ela é a esposa de um homem chamado Arthur Ruskin, que tem três vezes a idade dela. É judeu ou uma coisa assim. Muito rico.
— Como sabe disso?
— Lembra-se do meu amigo, o artista? O italiano? Filippo? Filippo Chirazzi?
— Ah, sei. Não dava muito bem para esquecer, dava?
— Bom, ele a conhece.
— Como é que a conhece?
— Da mesma maneira que outros tantos homens a conhecem. É uma piranha.
— E ela contou a ele?
— Contou.
— E ele contou a você?
— Foi.
— Nossa, Caroline. Onde posso encontrá-lo?
— Não sei. Eu mesma não consigo encontrá-lo, o filho da mãe.