A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 16 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 15

15

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE

 

Sherman e Judy chegaram ao edifício dos Bavardages, na Fifth Avenue, num Buick sedã preto, com um motorista de cabeça branca, alugado por aquela noite da Mayfair Town Car, Inc. Moravam a apenas seis quarteirões dos Bavardages, mas caminhar estava fora de questão. Para começar, havia o vestido de Judy. Deixava os ombros nus, mas tinha mangas curtas e bufantes do tamanho de lanternas chinesas cobrindo os braços. Era justo na cintura, mas abria-se numa saia rodada que lembrava a Sherman um balão. O convite para jantar na casa dos Bavardages pedia “traje informal”. Mas nessa temporada, como tout le monde sabia, as mulheres se vestiam muito mais extravagantemente para os jantares informais em apartamentos elegantes do que para os bailes formais em grandes salões. Em todo caso, era impossível a Judy andar pela rua com esse vestido. Um vento de frente de 8 quilômetros por hora a teria enregelado.

Mas havia ainda uma razão mais imperiosa para um carro de aluguel e um motorista. Seria perfeitamente normal os dois chegarem de táxi para jantar num Bom Edifício (o termo corrente) na Fifth Avenue, e isso custaria menos de três dólares. Mas o que fariam depois da festa? Como poderiam sair andando do edifício dos Bavardages e deixar que o mundo, tout le monde, os visse parados na rua, os McCoys, aquele casal divertido, com as mãos levantadas, corajosamente, desesperadamente, pateticamente tentando fazer parar um táxi? Os porteiros não os ajudariam em nada, porque estariam ocupados em conduzir tout le monde às limusines. Por isso tinha contratado esse carro com motorista, esse motorista de cabeça branca, que os conduziria por seis quarteirões, esperaria de três e meia a quatro horas para reconduzi-los por seis quarteirões e iria embora. Incluindo uma gorjeta de 15 por cento e o imposto de vendas, o custo seria de 197 dólares e 20 cents ou 246 dólares e 50 cents, dependendo se cobrasse quatro ou cinco horas totais.

Hemorragia de dinheiro! Será que ainda tinha emprego? Remoendo o medo... Lopwitz... Decerto Lopwitz não iria despedi-lo... por causa de três dias infelizes... e 6 milhões de dólares, seu panaca! Precisava começar a mudar de vida... amanhã... Hoje à noite, naturalmente, era imperativo ter um carro e um motorista.

Para piorar as coisas, o motorista não conseguiu parar no meio-fio junto à entrada porque havia limusines demais atrapalhando. Teve que estacionar em fila dupla. Sherman e Judy tiveram que passar por entre as limusines... Inveja... inveja... Pelas placas de licença Sherman via que as limusines não eram alugadas. Eram de propriedade daqueles bonecos elegantes que se faziam transportar nelas. Um motorista, um bom motorista disposto a trabalhar muitas horas, e à noite, custava 36 mil dólares por ano, no mínimo; garagem, manutenção, seguro custariam mais uns 14 mil dólares, no mínimo; um total de 50 mil dólares, não dedutíveis do imposto de renda. “Produzo 1 milhão de dólares anuais — e no entanto não tenho dinheiro para isso!”

Chegaram à calçada. Hein? Para a esquerda, na claridade, uma figura — um fotógrafo — logo ali...

Puro terror!

Meu retrato no jornal!

O outro garoto, o grandalhão, o bruto, vê e vai à polícia!

A polícia! Os dois detetives! O gordo! O tal da cara enviesada! McCoy — vai a festas na casa dos Bavardages, é! Agora é que vão sentir cheiro de sangue!

Horrorizado, olha para o fotógrafo...

... e descobre que é apenas um rapaz passeando com o cachorro.

Parou junto ao toldo que conduz à entrada... Nem está olhando para Sherman... está observando um casal que se aproxima da porta... um velho de terno escuro e uma jovem, uma loura, de vestido curto.

“Acalme-se, pelo amor de Deus! Não seja maluco! Não seja paranoico!”

Mas uma voz sorridente e ofensiva diz: “Tem algo que queira desabafar?”

Agora Sherman e Judy estavam sob o toldo, a apenas três ou quatro passos atrás do velho e da loura, rumando para a entrada. Um porteiro de peitilho branco e engomado abriu a porta. Usava luvas brancas. A loura entrou primeiro. O velho, que não era muito mais alto que ela, parecia sonolento e taciturno. Seu cabelo grisalho e ralo estava penteado para trás. Tinha um narigão e pálpebras pesadas, como um índio de cinema. “Espere um minuto — eu o conheço...” Não, vira-o em algum lugar... Mas onde?... Bingo... Em uma foto, é claro... Era o barão Hochswald, o financista alemão.

Era só o que faltava a Sherman, logo nessa noite... Depois das catástrofes dos últimos três dias, nesse ponto baixo e perigoso de sua carreira na Wall Street, dar de cara com esse homem, cujo sucesso era tão completo, tão permanente, cuja riqueza era tão vasta e inexpugnável — ter que olhar para esse velho alemão inabalavelmente sólido...

Talvez o barão simplesmente morasse no edifício... “Por favor, meu Deus, não deixe que ele esteja indo para a mesma festa...”

Naquele mesmo instante ouviu o barão dizer para o porteiro no seu forte sotaque europeu: “Bavardage.” A luva branca do porteiro apontou para o fundo do saguão.

Sherman desesperou. Desesperou dessa noite e dessa vida. Por que não se mudara para Knoxville seis meses atrás? Uma casinha georgiana, um cortador de grama, uma rede de badminton no quintal para Campbell... Mas não! Tinha que continuar seguindo o alemão de olhos amendoados, na direção da casa de umas pessoas soberbamente vulgares chamadas Bavardage, um caixeiro-viajante festejado e sua mulher.

Sherman disse ao porteiro:

— Os Bavardages, por favor.

Enfatizou a sílaba acentuada, para que ninguém pensasse que ele prestara a menor atenção ao fato de que o nobre, o barão Hochswald, dissera a mesma coisa. O barão, a loura, Judy e Sherman se encaminharam para o elevador. O elevador era revestido de mogno envelhecido. Reluzia. Os veios eram aparentes mas harmoniosos e suaves. Ao entrar, Sherman entreouviu o barão Hochswald dizendo o nome “Bavardage” para o ascensorista. Então Sherman o repetiu como antes, “os Bavardages” — para evitar que o barão tivesse a impressão de que ele, Sherman, tomara conhecimento de sua existência.

Agora os quatro sabiam que iam ao mesmo jantar e tinham que tomar uma decisão. Faziam aquela coisa bem americana, simpática, cordial — o tipo de coisa que teriam feito sem hesitar num elevador de um prédio semelhante em Beacon Hill ou Rittenhouse Square — ou melhor, em qualquer outro edifício de Nova York, se a festa estivesse sendo oferecida por alguém de sangue e tradição, tal como Rawlie ou Pollard (na presente companhia, Pollard de repente parecia muito aceitável, um velho nova-iorquino muito recomendável) — mostravam boa disposição, sorriam e se apresentavam... ou bancavam os esnobes vulgares e ficavam parados ali, fingindo que não tinham conhecimento de que se dirigiam ao mesmo lugar e olhavam empertigados para a nuca do ascensorista enquanto esse táxi de mogno subia pelo poço?

Sherman lançou um olhar exploratório a Hochswald e à loura. O vestido dela era um tubo preto que terminava muitos centímetros acima dos joelhos e abraçava suas coxas exuberantes e a curva do abdômen inferior e se abria no alto em um babado que lembrava pétalas de flores. Nossa, como ela era sexy! Os ombros brancos e aveludados e a curva dos seios se avolumavam como se ela estivesse morrendo de vontade de despir o tubo e correr nua por entre begônias... O cabelo louro penteado para trás revelava um par de enormes brincos de rubi... Não tinha mais que 25 anos... Um petisco! Um animal ofegante!... O velho filho da mãe agarrara o que queria, não agarrara?... Hochswald vestia um terno preto de sarja, camisa branca de colarinho convencional e gravata de seda preta com um nó largo e quase folgazão... tudo exatamente como convinha... Sherman ficou satisfeito de que Judy o tivesse obrigado a usar o terno azul-marinho e a gravata escura... mesmo assim, a roupa do barão parecia incrivelmente mais elegante, por comparação.

Agora surpreendeu o velho alemão medindo Judy e ele de alto a baixo. Seus olhares se encontraram por uma fração de segundo. Então ambos voltaram a se fixar nos frisos do colarinho do ascensorista.

Assim subiram, o ascensorista e quatro mudos sociais para algum lugar no alto. A resposta era: bancavam os esnobes vulgares.

O elevador parou, e os quatro mudos desembarcaram no hall do elevador dos Bavardages. A peça estava iluminada por grupos de minúsculas arandelas, com cúpulas de seda, de cada lado de um espelho de moldura dourada. A porta estava aberta... uma claridade agradável e rosada... o ruído de uma colmeia de vozes excitadas...

Entraram no hall de entrada do apartamento. Quantas vozes! Quanta alegria! Quantos risos! Sherman enfrentava uma catástrofe em sua carreira, uma catástrofe em seu casamento — e a polícia estava rondando — e no entanto a colmeia... a colmeia!... a colmeia!... as ondas sonoras da colmeia faziam as suas entranhas vibrarem. Rostos sorridentes, reluzentes, dentes em ebulição! Como éramos fabulosos e felizes, nós poucos, por estarmos nesses salões aqui no alto com o nosso brilho radioso e rosado!

O hall de entrada era menor que o de Sherman, mas enquanto o seu (decorado por Judy, a decoradora de interiores) era magnífico e solene, este era ofuscante, efervescente. As paredes eram forradas de uma reluzente seda vermelha chinesa, a seda emoldurada por frisos dourados, e os frisos emoldurados por uma fita castanho-avermelhada, e a fita emoldurada por mais frisos dourados, e a luz de uma fileira de apliques de latão faziam a douração reluzir, e o brilho da douração e da seda vermelha chinesa tornavam todos os rostos sorridentes e os vestidos resplandecentes ainda mais gloriosos.

Ele examinou os presentes e imediatamente percebeu um padrão... presque vu! presque vu! quase já visto!... contudo não poderia tê-lo expressado em palavras. Estava fora de seu alcance. Todos os homens e mulheres nesse salão reuniam-se em grupos, buquês de conversa, por assim dizer. Não havia figuras solitárias, ninguém disperso. Todos os rostos eram brancos. (Rostos negros poderiam aparecer, ocasionalmente, em jantares de caridade elegantes, mas não em casas particulares e elegantes.) Não havia homens com menos de 35 anos e pouquíssimos com menos de quarenta. As mulheres apresentavam-se em duas variedades. Primeiro, havia as trintonas, quarentonas e mais velhas (mulheres “de uma certa idade”), todas elas pele e ossos (quase definhadas à perfeição). Para compensar a concupiscência que lhes faltava nas costelas secas e nos traseiros atrofiados, apelavam para os grandes costureiros. Nessa temporada, nenhum franzido, babado, prega, rufo, peitilho, laço, enchimento, festão, renda, pence ou viés franzido eram extravagantes demais. Elas eram as radiografias ambulantes, para usar a frase que viera à tona no cérebro do próprio Sherman. Depois, havia as chamadas tortinhas de limão. Essas eram as mulheres na casa dos vinte ou trinta, a maioria loura (o limão nas tortinhas), e eram as segundas, terceiras ou quartas esposas ou amigas dos homens com mais de quarenta, ou cinquenta, ou sessenta (ou setenta) anos, o tipo de mulheres a que os homens se referiam, quase sem pensar, como “garotas”. Nessa temporada, a tortinha podia ostentar as vantagens naturais da juventude mostrando as pernas bem acima dos joelhos e acentuando o traseiro redondo (algo que nenhuma radiografia possuía). O que estava completamente ausente chez Bavardage era aquele gênero de mulher que não é nem muito jovem nem muito velha, que acumulou uma camada de gordura subcutânea, que fulge com um corpo cheinho e um rosto rosado e fala, sem dizer palavra, de um lar, uma lareira, comida quentinha às seis horas, histórias lidas em voz alta à noite e conversas entretidas à beira da cama, pouco antes de o sono chegar. Em suma, ninguém nunca convidava... a Mãe.

A atenção de Sherman foi atraída por um buquê de rostos extáticos e fervilhantes em primeiro plano. Dois homens e uma mulher impecavelmente emaciada riam para um rapaz de cabelos louro-claros e uma mecha penteada obliquamente sobre a testa... “Já o encontrei antes... mas quem é?... Bingo!...” Mais um rosto da imprensa... O Caipira de Ouro, o Tenor Louro... Era assim que o chamavam... Seu nome era Bobby Shaflett. Era o novo tenor em cartaz no Metropolitan Opera, um indivíduo adiposamente gordo que de algum modo surgira dos altiplanos dos montes Apalaches. Quase não se podia ler uma revista ou um jornal sem ver o seu retrato. Enquanto Sherman o observava, a boca do rapaz se abriu desmesuradamente. Ha ha ha ha ha ha ha!, desatou numa imensa gargalhada de curral, e os rostos sorridentes à sua volta se tornaram ainda mais radiantes, mais arrebatados do que antes.

Sherman ergueu o queixo de Yale, endireitou os ombros, aprumou as costas, esticou-se a toda altura, e assumiu a Presença, a presença de uma Nova York mais antiga e mais fina, a Nova York de seu pai, o Leão da Dunning Sponget.

Um garçom se materializou e perguntou a Judy e Sherman o que desejavam beber. Judy pediu “água gasosa”. (Dizer “Perrier” ou qualquer outra marca se tornara demasiado banal.) Sherman não pretendia beber nada. Pretendia se manter distante de tudo que se relacionasse a essa gente, esses Bavardages, a começar pela bebida. Mas a comédia avançava, e a cabeça loura do Caipira de Ouro com a sua mecha oblíqua continuava a reboar.

— Um gim-tônica — disse Sherman McCoy do alto do queixo.

Uma mulher miúda, ossuda e rutilante surgiu entre os grupos na galeria e veio em direção a eles. Era uma radiografia com os cabelos curtos e louros em pajem e muitos dentinhos sorridentes. O corpo emaciado estava metido em um vestido preto e vermelho com agressivos ombros acolchoados, cintura muito fina e saia longa. O rosto era largo e redondo — mas sem um grama de carne. O pescoço era muito mais chupado que o de Judy. A clavícula era tão saliente que Sherman tinha a impressão de que podia estender a mão e segurar os dois grandes ossos. Dava para ver a luz das lâmpadas através de sua caixa torácica.

— Judy querida!

— Inez! — exclamou Judy, e as duas se beijaram, ou melhor, roçaram as faces, primeiro de um lado, depois do outro, à moda dos europeus que Sherman, agora o filho daquele sólido nova-iorquino, daquele velho patriarca, daquele flagelo da vida prazerosa da Igreja Episcopal, John Campbell McCoy, achava pretensiosa e vulgar.

— Inez! Acho que não conhece Sherman! — Forçou a voz para transformar a frase em uma exclamação, de modo que pudessem ouvi-la, apesar do zumbido da colmeia. — Sherman, esta é Inez Bavardage!

— Como está — disse o descendente do Leão.

— Sem dúvida, sinto-me como se já o conhecesse! — disse a mulher encarando-o nos olhos, mostrando os dentinhos e estendendo a mão. Assoberbado, ele a segurou. — Deveria ouvir Gene Lopwitz discorrendo sobre você! — Lopwitz! Quando? Sherman viu-se agarrando essa tábua de salvação. (Talvez tivesse acumulado tantos pontos positivos no passado, que o colapso das Giscards não acabaria com ele!) — E conheço seu pai também. Morro de medo dele! — Dizendo isso a mulher agarrou o antebraço de Sherman, pespegou os olhos nos olhos dele e se abriu numa extraordinária gargalhada, uma verdadeira gaitada, não um ha ha ha, mas um quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá, uma gargalhada tão cheia de jovialidade e arrebatamento que Sherman deu por si rindo como um tolo e dizendo:

— Não me diga!

— É sim! Quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá. Nunca lhe contei isso, Judy! — Ela estendeu os braços e enganchou um deles no de Judy e o outro no de Sherman e puxou os dois para perto de si, como se fossem os dois amigos mais queridos que já tivera. — Havia um homem horroroso chamado Derderian que estava processando Leon. Vivia tentando anexar coisas. Pura apoquentação. Então um fim de semana estávamos na ilha de Santa Catalina, na casa de Angie Civelli. — Ela escorregou o nome do famoso comediante sem nem alterar o tom. — E estávamos jantando, e Leon começa a conversar sobre toda a maçada que estava tendo com esse tal de Derderian, e Angie diz, e me acredite, falava absolutamente sério, ele diz: “Quer que eu me encarregue disso?” — Ao dizer isso, Inez Bavardage empurrou o nariz para um lado com o indicador para caracterizar os traficantes. — Bom, quero dizer, já tinha ouvido falar de Angie e dos Rapazes, mas não acreditei, ele falava sério! Quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá. — Puxou Sherman mais para perto e fixou os olhos bem no rosto dele. —Quando Leon regressou a Nova York foi ver seu pai e contou-lhe o que Angie dissera e em seguida comentou com seu pai: “Talvez seja a maneira mais simples de cuidar do caso.” Nunca me esquecerei do que seu pai respondeu. Ele disse: “Não, sr. Bavardage, deixe que eu cuido disso. Não vai ser simples, não vai ser rápido, e vai lhe custar um dinheirão. Mas a minha conta o senhor pode pagar. A outra — ninguém é suficientemente rico pra pagar. Não vão parar de cobrá-la até o dia em que o senhor morrer.”

Inez Bavardage continuou juntinho ao rosto de Sherman e lançou-lhe um olhar de infindável profundidade. Ele se sentiu obrigado a dizer alguma coisa.

— Bom... qual das duas o seu marido escolheu?

— A que seu pai aconselhou, é claro. Quando ele falava, as pessoas pulavam! — Uma torrente de quiás quiás quiás quiás.

— E quanto à conta? — perguntou Judy, como se estivesse deliciada em ouvir essa história sobre o pai incomparável de Sherman.

— Foi sensacional! Foi espantosa, aquela conta! — Quiá quiá quiá quiá quiá. Vesúvio, Cracatoa e Mauna Loa irrompiam em risadas, e Sherman se sentiu arrebatado pela explosão, sem querer. Era irresistível. — Gene Lopwitz o adora! — seu incomparável pai! — sua linhagem aristocrática! — que euforia você despertou no meu peito ossudo!

Ele sabia que era irracional, mas se sentia excitado, afogueado, alto, no Sétimo Céu. Recolheu o revólver do seu Rancor de volta à cintura e disse ao seu Esnobismo para se deitar ao pé da lareira. Uma mulher realmente encantadora! Quem teria pensado isso, depois de tudo o que se ouvia dizer dos Bavardages! Uma radiografia ambulante, sem dúvida alguma, mas não se pode culpá-la! Realmente muito cordial — e bastante divertida!

Como a maioria dos homens, Sherman era inocente em relação às técnicas rotineiras de boas-vindas das anfitriãs elegantes. Durante 45 segundos, no mínimo, todo convidado era o amigo mais íntimo, mais querido, mais alegre, mais espirituosamente cúmplice que uma mulher já teve. Tocava no braço de todos os convidados masculinos (qualquer outra parte do corpo apresentava problemas) e aplicava uma pressãozinha sincera. Olhava para todos os convidados, masculinos e femininos, com um engate-radar nos olhos, como se estivesse cativada (pelo brilho, espírito, pela beleza e pelas lembranças incomparáveis).

O garçom voltou com as bebidas para Judy e Sherman, Sherman tomou um longo gole do gim-tônica, o gim bateu no estômago, o vapor perfumado subiu, e ele se descontraiu e deixou o zumbido alegre da colmeia invadir sua cabeça.

Quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá, ria Inez Bavardage.

Ho ho ho ho ho ho ho ho, ria Bobby Shaflett.

Ha ha ha ha ha ha ha ha, ria Judy.

He he he he he he he he, ria Sherman.

A colmeia zumbia e zumbia.

Num abrir e fechar de olhos, Inez Bavardage conduzira-os para um buquê em que o Caipira de Ouro se exibia. Acenos, alôs, apertos de mão, sob a égide da recente melhor amiga de Sherman, Inez. Antes que se desse conta do que acontecera, Inez conduzira Judy para fora da galeria passando a algum salão interno, e Sherman foi abandonado com o festejado rapaz gordo dos montes Apalaches, dois homens e uma radiografia. Olhou um por um, a começar por Shaflett. Nenhum deles retribuiu seu olhar. Os dois homens e a mulher, extasiados, tinham os olhos fixos na enorme cabeça clara do tenor enquanto ele narrava uma história que se passara em um avião:

— ... então estou me arrumando e esperando por Barbara... ela devia voltar comigo para Nova York? — Ele tinha um jeito de terminar uma frase afirmativa com uma interrogação que lembrava o Sherman de Maria... Maria... e o enorme judeu hasid! A grande bola de sebo loura diante dele parecia aquele porco da imobiliária — se é que era da imobiliária. Um tremor frio... Eles estavam lá fora rondando, rondando... — E estou na minha poltrona... consegui uma junto à janela? E lá detrás vem um homem inacreditavelmente, absurdamente negro. Pela maneira como enfatizou o in e o ab e esvoaçava as mãos no ar, Sherman se perguntou se esse caipira gigantesco não seria, na realidade, homossexual. — Ele estava usando um casaco de arminho?... até aqui?... e um chapéu de arminho combinando?... e mais anéis do que Barbara, e tinha três empregados com ele?... saindo de Shaft?

O gigante continuava a borbulhar, e os dois homens e a mulher mantinham os olhos postos em sua enorme cara de lua, sorrindo fixamente; e, o gigante, por sua vez, só olhava para eles, nunca para Sherman. À medida que os segundos se passavam, tornava-se cada vez mais consciente de que os quatro estavam agindo como se ele não existisse. “Um fresco gigantesco com sotaque caipira”, pensou Sherman, e eles penduravam-se em cada palavra que dizia. Sherman tomou três longos goles de seu gim-tônica.

A história parecia girar em torno do fato de que o régio crioulo, que se sentara ao lado de Shaflett no avião, era o campeão mundial de peso meio-pesado, Sam (Matador) Assinare. Shaflett achava o termo “peso meio-pesado” incrivelmente engraçado — ho ho ho ho ho ho ho — e os dois homens davam risadinhas excitadas. Sherman rotulou-os imediatamente de homossexuais. Sam Matador não sabia quem Shaflett era, e Shaflett não sabia quem Sam Matador era. A graça de toda a história parecia ser que as únicas duas pessoas na primeira classe do avião que não sabiam que os dois eram celebridades eram... eram os próprios Shaflett e Assinare! Ho ho ho ho ho ho ho ho — hi hi hi hi hi — e — aha! — um dado interessante sobre Sam Matador Assinare pipocou no cérebro de Sherman. Oscar Suder — Oscar Suder! — estremeceu à lembrança, mas não desistiu —, Oscar Suder fazia parte de um sindicato de investidores do meio-oeste que financiavam Assinare e controlavam o seu dinheiro. Uma pérola! Um dado interessante! Um meio de entrar nesse grupinho festivo!

Assim que as risadas esmoreceram, Sherman disse a Bobby Shaflett:

— Você sabia que o contrato de Assinare e o casaco de arminho, pelo que sei, são propriedade de um sindicato de investidores em Ohio, principalmente em Cleveland e Columbus?

O Caipira de Ouro olhou-o como se ele fosse um mendigo.

— Hummmmmmmm — respondeu. Era o hummmmmmmm que sugere: “Compreendo, mas não estou nem um pouco interessado” — e voltou-se para os outros três e disse: — Então perguntei a ele se poderia autografar o meu cardápio. Sabem, dão à pessoa um cardápio?... e...

E estava encerrado para Sherman McCoy. Ele tornou a sacar o revólver do Rancor da cintura. Afastou-se daquele grupo e lhes deu as costas. Nenhum deles notou. A colmeia zumbia em sua cabeça.

Agora o que faria? De repente estava sozinho nessa colmeia ruidosa sem ter onde pousar. Sozinho! Sentia-se agudamente consciente de que toda a festa agora se compunha desses buquês e que não estar em nenhum deles significava ser socialmente um fracassado incompetente e abjeto. Olhou para um lado e para o outro. Quem era aquele, logo ali? Um homem alto, simpático, de expressão confiante... rostos embevecidos o admiravam... Ah!... Lembrava-se... um autor... O nome era Nunnally Voyd... um romancista... vira-o num programa de entrevistas da televisão... falso, cáustico... Veja só como aqueles tolos o adulam... Não ousava experimentar aquele buquê... Seria uma repetição do Caipira de Ouro, sem dúvida... Mais adiante, alguém que conhecia... Não! Mais um rosto famoso... o bailarino... Bóris Korolev... Mais um círculo de rostos em adoração... brilhando de arrebatamento... Os idiotas! Partículas humanas! Que história é essa de se prostrar aos pés de bailarinos, romancistas e cantores de ópera gigantescos e frescos? Eles não passam de bobos da corte, não passam de divertimento leve para... os Senhores do Universo, aqueles que empurram as alavancas que movem o mundo... e no entanto esses idiotas os adoram como se eles fossem os portais para a divindade... Nem ao menos queriam saber quem ele era... e nem seriam capazes de compreender, mesmo que quisessem.

Encontrou-se parado junto a outro grupo... Bom, pelo menos não havia ninguém famoso nesse, nenhum bobo da corte sorridente... Um homem gordo e avermelhado estava falando com um forte sotaque britânico:

— Ele estava estirado na estrada, entendem, com a perna partida, entendem, com a perna partida... — “O rapaz magricela e delicado! Henry Lamb! Ele estava comentando a história no jornal!” Mas espere aí... a perna partida... — e não parava de dizer: “Que chateação, que chateação.” — Não, estava falando de algum inglês. — “Não é nada comigo...” Os outros no grupo riam... uma mulher, de uns cinquenta anos, com pó de arroz por todo o rosto. Que grotesco... Espere!... Conhecia aquele rosto. A filha do escultor, agora cenógrafo. Não conseguia lembrar o nome... Mas então lembrou... Barbara Cornagglia... Passou adiante... Sozinho!... Apesar de tudo, apesar de eles estarem rondando — a polícia! —, sentia a pressão do fracasso social... Que poderia fazer para parecer que queria ficar sozinho, que estava passeando pela colmeia sozinho por livre escolha? A colmeia zumbia e zumbia.

Junto à porta pela qual Judy e Inez Bavardage tinham desaparecido havia um console antigo com um par de pequenos cavaletes chineses. Em cada cavalete havia um disco de veludo vinho do tamanho de uma torta e, em ranhuras no veludo, havia cartões com nomes. Eram maquetes da disposição dos convidados à mesa do jantar, de modo que cada convidado pudesse saber quem seriam os seus companheiros à mesa. Pareceu a Sherman, o homem leonino de Yale, mais uma vulgaridade. Todavia, olhou. Era uma maneira de parecer ocupado, como se estivesse sozinho apenas para estudar a disposição dos convidados à mesa.

Havia evidentemente duas mesas. Logo encontrou um cartão com o nome do sr. McCoy. Iria se sentar ao lado de, vejamos, uma sra. Rawthrote, quem quer que fosse, e uma sra. Ruskin. Ruskin! Seu coração pulou. Não poderia ser... não Maria!

Mas é claro que poderia ser. Esse era exatamente o tipo de acontecimento social ao qual ela e seu marido rico, mas um tanto irreal, seriam convidados. Ele virou o resto do gim-tônica e atravessou apressado o portal para a outra sala. Maria! Tinha que falar com ela! — mas tinha também que manter Judy afastada! Não precisava de mais essa complicação!

Encontrava-se agora na sala de estar do apartamento, ou salão, pois obviamente era uma peça destinada a recepções. Era imensa e parecia... atulhada... de sofás, almofadas, cadeiras, almofadões, todos eles guarnecidos de trancelins, borlas, orlas, fitas e... estofados... Até as paredes; as paredes eram revestidas com um tipo de tecido acolchoado em listras vermelhas, roxas e cor-de-rosa. As janelas que se abriam para a Fifth Avenue tinham cortinas de pregas fartas do mesmo material, e eram repuxadas para revelar o forro rosa, orlado de um trancelim listrado. Não havia um único sinal de século XX na decoração, nem mesmo na iluminação, que vinha de um abajur de cúpula rosada, de modo que a superfície desse planetinha gloriosamente atulhado estava mergulhada em sombras profundas e suaves claridades.

A colmeia zumbia de puro êxtase de estar nessa suave órbita estofada. Quiá quiá quiá quiá quiá quiá, a gargalhada equina de Inez Bavardage erguia-se em algum ponto. Tantos buquês de gente... faces sorridentes... dentes em ebulição... Um garçom apareceu e perguntou se ele queria uma bebida. Pediu mais um gim-tônica. Ficou parado ali. Seus olhos saltavam pelas sombras profundas e estofadas.

Maria.

Ela estava parada junto a uma das janelas de canto. Os ombros nus... um tubinho vermelho... Seus olhos surpreenderam os dele, e ela sorriu. Só isso, um sorriso. Ele respondeu com o menor sorriso imaginável. Onde estava Judy?

No grupo de Maria havia uma mulher que ele não reconhecia, um homem que não reconhecia, e um homem calvo que conhecia de algum lugar, mais um dos... rostos famosos em que esse zoo se especializava... algum tipo de escritor, um inglês... Não conseguia lembrar o nome. Completamente calvo; nem um fio de cabelo na cabeça comprida e magra; ossudo; um crânio.

Sherman esquadrinhou a sala, procurando desesperadamente por Judy. Bom, que diferença faria se Judy se encontrasse com alguém chamado Maria nessa sala? Não era um nome tão fora do comum. Mas será que Maria saberia ser discreta? Ela não era nenhum gênio e tinha uma veia travessa — e ele deveria se sentar junto dela!

Sentia o coração chutando o peito. Nossa! Seria possível que Inez Bavardage soubesse a respeito dos dois e os pusesse juntos de propósito? “Espere um pouco! Isso é muita paranoia!” Ela nunca se arriscaria a uma cena desagradável. Ainda assim...

Judy.

Lá estava ela, parada junto à lareira, rindo com vontade — “sua nova risada de festa? — quer ser uma Inez Bavardage” — rindo tanto que seu cabelo sacudia. Estava produzindo um som novo, quó quó quó quó quó quó quó. Não chegava ao quiá quiá quiá quiá de Inez Bavardage, apenas um quó quó quó quó intermediário. Escutava um velho de peito de barrica, com uma calva incipiente e grisalha e sem pescoço. O terceiro membro do buquê, uma mulher elegante, esguia e quarentona, não parecia achar tanta graça. Parecia um anjo de mármore. Sherman atravessou pelo meio da colmeia evitando os joelhos de algumas pessoas sentadas num imenso e redondo almofadão oriental, em direção à lareira. Teve que abrir caminho por entre uma densa flotilha de vestidos bufantes e rostos em ebulição...

O rosto de Judy era uma máscara de hilaridade. Estava tão fascinada pela conversa do homem de peito de barrica, que demorou a reparar em Sherman. Então o viu. Surpresa! Mas, naturalmente! — era um indício de fracasso social um cônjuge chegar ao ponto de procurar o outro em um grupo de conversa. “Mas e daí! Mantenha-a longe de Maria!” Isso era o mais importante. Judy não olhou para ele. Tornou a irradiar seu sorriso entusiasmado para o velho.

— ... então na semana passada — dizia ele — minha mulher volta da Itália e me informa que temos uma casa de veraneio em Como. “Como”, diz ela. É o tal lago de Como. Então tudo bem! Teremos essa casa de veraneio em Como. É melhor do que em Hammamet. Isso foi há dois anos. — Tinha uma voz rouca, uma voz das ruas nova-iorquinas com algum polimento. Segurava um copo de soda e olhava para um lado e para outro, de Judy para o anjo de mármore, enquanto contava sua história, recebendo grandes efusões de aprovação de Judy e uma ocasional torção do lábio superior, quando olhava diretamente para o rosto do anjo. Uma torção; poderia ter sido o começo de um sorriso cortês. — Pelo menos sei onde fica Como. Nunca ouvi falar de Hammamet. Minha mulher está louca pela Itália. Pinturas italianas, roupas italianas e agora Como.

Judy disparou mais uma explosiva risada automática, quó quó quó quó quó quó, como se a maneira com que o velho pronunciava “Como”, caçoando do amor que a mulher sentia pelas coisas da Itália, fosse a piada mais engraçada do mundo — Maria. Ocorreu-lhe sem pensar. Era de Maria que ele falava. Esse velho era o marido dela, Arthur Ruskin. Já teria mencionado seu nome, ou teria se referido apenas à “minha mulher”?

A outra mulher, o anjo de mármore, continuava parada ali. O velho inesperadamente estendeu a mão para a orelha esquerda dela e segurou seu brinco entre o polegar e o indicador. Estarrecida, a mulher enrijeceu. Ela teria afastado a cabeça num repelão, mas a orelha estava agora presa entre o polegar e o indicador dessa vetusta e apavorante criatura ursina.

— Muito bonito — disse Arthur Ruskin, ainda segurando o brinco. — Nadina D., certo? — Nadina Dulocci era uma criadora de joias muitíssimo apreciada.

— Creio que sim! — respondeu a mulher numa voz tímida, europeia. Rapidamente levou as mãos às orelhas, soltou os brincos e os entregou ao homem, num gesto muito enfático, como se dissesse: “Aqui, tome. Mas tenha a bondade de não me arrancar as orelhas.”

Despreocupado, Ruskin tomou-os nas mãos peludas e os examinou melhor.

— São de Nadina D., sem dúvida. Muito bonitos. Onde os comprou?

— Foram um presente. — Fria como mármore. Ele os devolveu, e ela guardou-os depressa na bolsa.

— Muito bonitos, muito bonitos. Minha mulher...

Suponha que dissesse Maria! — Sherman interrompeu-o.

— Judy! — E para os outros: — Com licença. — Para Judy: — Estive pensando...

Judy instantaneamente transformou sua expressão de surpresa em uma de radiosidade. Nenhuma mulher em toda a história jamais ficara mais encantada de ver o marido aparecer num buquê de conversa.

— Sherman! Já conhece Mme. Prudhomme?

Sherman esticou o queixo de Yale e assumiu uma expressão do mais correto encanto nova-iorquino para cumprimentar a assustada francesa.

— Como está?

— E Arthur Ruskin — disse Judy. Sherman apertou a mão peluda com firmeza.

Arthur Ruskin não era um setentão jovial. Tinha orelhas grandes com as bordas grossas e pelos duros brotando dos ouvidos. E papadas grossas sob os maxilares avantajados. Mantinha-se empertigado, oscilando sobre os calcanhares, o que fazia ressaltar o peito e a pesada barriga. Sua corpulência estava devidamente coberta por um terno azul-escuro, camisa branca e gravata azul-marinho.

— Perdoem-me — disse Sherman. E para Judy, com um sorriso charmoso: — Venha até aqui um instante. — A Ruskin e à francesa ofereceu um sorriso, desculpando-se, e se afastou um pouco com Judy a reboque. O rosto de Mme. Prudhomme demonstrou desapontamento. Vira a chegada dele no buquê como a sua salvação de Ruskin.

Judy, ainda com um sorriso à prova de fogo no rosto:

— O que foi?

Sherman, uma máscara sorridente de charme Yale:

— Quero que você... ah... venha conhecer o barão Hochswald.

— Quem?

— O barão Hochswald. Sabe, o alemão... um dos Hochswalds.

Judy, com o sorriso ainda congelado:

— Mas por quê?

— Subimos com ele no elevador.

Isso obviamente não tinha nenhum sentido para Judy. Em tom de urgência:

— Bom, onde é que ele está? — em tom de urgência, porque já era bem ruim ser apanhada num grande grupo de conversa com o marido. Formar um grupinho com o marido, só os dois...

Sherman, olhando à volta:

— Ora, ele estava bem aqui um minuto atrás.

Judy, já sem sorrir:

— Sherman, afinal o que é que você está fazendo? Que quer dizer com esse “barão Hochswald”?

Nesse instante o garçom chegou com o gim-tônica de Sherman. Ele tomou um grande gole e deu mais uma olhada à volta. Sentia-se tonto. Por todo lado... radiografias ambulantes com vestidos volumosos refulgindo à claridade adamascada do abajur...

— Muito bem... vocês dois! O que estão tentando aprontar? Quiá quiá quiá quiá quiá quiá. — Inez Bavardage tomou os dois pelos braços. Por um momento, antes de conseguir repor o sorriso à prova de fogo no rosto, Judy pareceu abalada. Não só acabara num grupinho com o marido, mas a anfitriã reinante em Nova York, a atual rainha do picadeiro do século os surpreendera e se sentira compelida a fazer essa corrida de ambulância para salvá-los da ignomínia social.

— Sherman estava...

— Estava procurando vocês! Quero que conheçam Ronald Vine. Ele está redecorando a casa do vice-presidente em Washington.

Inez Bavardage saiu rebocando os dois através da colmeia de sorrisos e vestidos e os introduziu em um buquê dominado por um homem ainda jovem, simpático, alto e esguio, o já falado Ronald Vine. O sr. Vine estava dizendo:

— ... jabôs, jabôs, jabôs. Receio que a mulher do vice-presidente tenha descoberto os jabôs. — Um enfastiado giro nos olhos. Os outros no buquê, duas mulheres e um homem calvo, não paravam de rir. Judy mal conseguia exibir ao menos um sorriso... Arrasada... Tivera que ser resgatada da morte social pela anfitriã.

Que triste ironia! Sherman se odiou. Odiou-se por todas as catástrofes de que ela ainda não tinha conhecimento.

As paredes da sala de jantar dos Bavardages tinham recebido tantas demãos de laca damasco-queimado, catorze ao todo, que tinham o brilho vítreo de um lago refletindo uma fogueira à noite. A sala era um triunfo de reflexos noturnos, uma entre as muitas vitórias de Ronald Vine, cujo forte era a criação de fulgores sem usar espelhos. A Indigestão de Espelhos era agora considerada um dos grosseiros pecados da década de 1970. Por isso, no início da década de 1980, da Park Avenue à Fifth Avenue, da 62nd th Street à 96

Street, ouvira-se o estrépito pavoroso de milhares de metros quadrados de espelhos, barbaramente caros, partindo-se, ao serem arrancados das paredes dos grandes apartamentos. Não, na sala de jantar dos Bavardages os olhos dos presentes esvoaçavam num universo de brilhos, cintilações, fulgores, esplendores, tremeluzires e incandescências obtidos de maneiras as mais sutis, usando-se laca, azulejos vitrificados em um friso estreito na emenda do teto, mobiliário dourado no estilo regência inglês, candelabros de prata, tigelas de cristal, vasos da School of Tiffany e talheres cinzelados tão maciços que as facas pesavam nos dedos como punhos de sabre.

Os 24 comensais estavam sentados a duas mesas redondas estilo regência. A mesa de banquete Sheraton, do tipo campo de pouso, que dava para acomodar 24 pessoas, com todas as tábuas encaixadas, desaparecera das salas de jantar mais elegantes. Não se devia ser tão formal, tão solene. Duas mesas menores; isso era muito melhor. E daí se essas duas mesas menores estavam cercadas e adornadas com uma profusão de objetos, tecidos, e bibelôs tão luxuosos que teriam feito o Rei Sol piscar? Anfitriãs do quilate de Inez Bavardage se orgulhavam de seu talento para a informalidade e o aconchego.

Para enfatizar a informalidade da ocasião, colocara-se, no centro de cada mesa, em meio à floresta de pratas e cristais, uma cesta tecida com cipós no estilo extremamente rústico do artesanato apalachiano. Envolvia os cipós, do lado externo da cesta, uma extravagância de flores silvestres. No centro da cesta, agrupavam-se três ou quatro dúzias de papoulas. Esse centro de mesa faux naïf era a marca registrada de Huck Thigg, o jovem florista, que apresentaria aos Bavardages uma conta de 3.300 dólares só por esse jantar.

Sherman observou os cipós trançados. Pareciam algo deixado por João e Maria ou pela pequena Heidi dos Alpes num banquete de Lúculo. Suspirou. Tudo... excessivo. Maria estava ao lado dele, sentada à direita, conversando sem parar com o inglês cadavérico, como quer que se chamasse, e que se encontrava à direita dela. Judy estava na outra mesa — mas tinha uma visão desimpedida dele e Maria. Precisava conversar com Maria sobre o interrogatório dos dois detetives — mas como poderia fazê-lo com Judy olhando direto para os dois? Conversaria com um inócuo sorriso de festa no rosto. Era isso! Sorriria durante toda a discussão! Ela nunca saberia a diferença... Ou saberia?... Arthur Ruskin estava à mesa de Judy... Mas, graças a Deus, encontrava-se a quatro cadeiras dela... não iria conversar com ela... Judy estava sentada entre o barão Hochswald e um homem meio jovem e de aparência um tanto pomposa... Inez Bavardage estava a duas cadeiras de Judy, e Bobby Shaflett, à direita de Inez. Judy sorria, aquele vasto sorriso social para o homem pomposo... Quó quó quó quó quó quó quó quó quó quó! Bem destacada do zumbido da colmeia, ele ouvia a sua nova risada... Inez conversava com Bobby Shaflett, mas também com a sorridente radiografia ambulante sentada à direita do Caipira de Ouro e com Nunnally Voyd, que estava à direita da radiografia ambulante. Ho ho ho ho ho ho ho, entoava o Tenor Louro... Quiá quiá quiá quiá quiá quiá, entoava Inez Bavardage... Quó quó quó quó quó quó quó quó quó, alardeava sua própria esposa...

Leon Bavardage estava sentado quatro cadeiras à direita de Sherman, mais além de Maria, do inglês cadavérico e da mulher de pó de arroz cor-de-rosa no rosto, Barbara Cornagglia. Em contraste com Inez Bavardage, Leon possuía a animação de um pingo d’água. Tinha um rosto plácido, passivo, sem rugas, cabelos crespos alourados, já rareando, nariz longo e delicado, e tez muito pálida, quase lívida. Em vez de um sorriso social de trezentos watts, tinha um sorriso tímido, recatado, com que nesse exato momento agraciava a srta. Cornagglia.

Com algum atraso ocorreu a Sherman que deveria estar falando com a mulher à sua esquerda, Rawthrote, sra. Rawthrote; quem, em nome de Deus, era ela? Que poderia lhe dizer? Voltou-se para a esquerda — e ela estava aguardando. Olhava diretamente para ele, os olhos de laser a menos de meio metro de seu rosto. Uma verdadeira radiografia ambulante com uma enorme juba de cabelos louros e um olhar tão intenso que ele pensou, a princípio, que devia saber de alguma coisa... Ele abriu a boca... sorriu... vasculhou o cérebro procurando o que dizer... esforçou-se o mais que pôde... e disse-lhe:

— Poderia me fazer um grande favor? Qual é o nome do cavalheiro à minha direita, o cavalheiro magro? Seu rosto me é tão familiar, mas não consigo, por nada no mundo, me lembrar do nome.

A sra. Rawthrote curvou-se ainda mais para perto, até que seus rostos estavam a escassos 20 centímetros de distância. Estava tão próxima que parecia ter três olhos.

— Aubrey Buffing — disse. Seus olhos continuavam a queimar os dele.

— Aubrey Buffing — repetiu Sherman pouco convincentemente. Era na realidade uma interrogação.

— O poeta — esclareceu a sra. Rawthrote. — Está na lista de indicações para o prêmio Nobel. Seu pai era o duque de Bray. — Seu tom de voz dizia: “Como pode ignorar isso?”

— É claro — disse Sherman, sentindo que além de outros pecados ainda carregava o de ser filisteu. — O poeta.

— O que acha da aparência dele? — Tinha olhos de cobra. Seu rosto continuava colado no dele. Ele queria se afastar, mas não conseguia. Sentia-se paralisado.

— Aparência? — perguntou.

— Lorde Buffing — disse. — O estado de saúde dele.

— Não... seria capaz de dizer. Não o conheço.

— Ele está se tratando no Vanderbilt Hospital. Tem aids. — Recuou alguns centímetros, para melhor ver o efeito dessa farpa em Sherman.

— Que horror! — disse Sherman. — Como sabe disso?

— Conheço seu namorado mais íntimo. — Fechou os olhos e tornou a abri-los como se dissesse: “Sei dessas coisas, mas não faça perguntas demais.” Em seguida acrescentou: — Isto fica entre nous. — Mas nunca o vi antes! — Não comente com Leon ou com Inez — continuou. — Ele é hóspede da casa, tem sido nas últimas duas semanas e meia. Nunca convide um inglês para um fim de semana. Não se consegue pô-los para fora. — Disse isso sem sorrir, como se fosse o conselho mais sério que já oferecera gratuitamente. E prosseguiu em seu exame míope do rosto de Sherman.

A fim de interromper o contato olho a olho, Sherman deu uma espiada rápida no inglês descarnado, Lorde Buffing, o Poeta Candidato ao Nobel.

— Não se preocupe — disse a sra. Rawthrote. — Não se pega comendo à mesma mesa. Se pegasse, estaríamos todos contagiados a esta altura. Metade dos garçons de Nova York são gays. Aponte-me um homossexual feliz, e lhe apontarei um cadáver gay. — Ela repetiu esse mot farouche no mesmo tom rá-tá-tá-tá de todo o resto, sem o menor vestígio de sorriso.

Nesse instante, um garçom jovem e bem-apessoado, de traços latinos, começou a servir o primeiro prato, que parecia um ovo de Páscoa sob uma pesada camada de molho branco em um platô de caviar vermelho guarnecido de alface.

— Não me refiro a esses — esclareceu a sra. Rawthrote, na frente do rapaz. — Eles trabalham em tempo integral para Inez e Leon. Mexicanos de Nova Orleans. Moram em casas fora da cidade e vêm para servir nas festas. — Então, sem qualquer preâmbulo, perguntou: — O que o senhor faz, sr. McCoy?

Sherman foi pego de surpresa. Ficou sem fala. Estava tão embatucado quanto estivera quando Campbell fizera a mesma pergunta. Uma pessoa insignificante, uma radiografia de 35 anos, e no entanto... Quero impressioná-la! As possíveis respostas passaram ribombando pela sua cabeça... Sou um funcionário graduado da divisão de obrigações da Pierce & Pierce... Não... dá a impressão de que sou uma peça substituível da burocracia e tenho orgulho disso... Sou o produtor número um... Não... parece algo que um vendedor de aspiradores de pó diria... Faço parte de um grupo que toma as principais decisões... Não... não era exato, além de ser uma observação absolutamente gauche... Ganhei 980 mil dólares no ano passado vendendo obrigações... Esse era o verdadeiro cerne da questão, mas não havia maneira de transmitir essa informação sem parecer tolo... Sou... um Senhor do Universo! Continue a sonhar!... além do mais não é possível dizer isso!... Então disse:

— Ah, tento vender umas obrigações para a Pierce & Pierce. — Sorriu muito ligeiramente, esperando que a modéstia da afirmação fosse tomada como um sinal de confiança em sua capacidade, comprovada por tremendas e espetaculares realizações na Wall Street.

A sra. Rawthrote fixou os lasers nele de novo. A 15 centímetros de distância:

— Gene Lopwitz é um dos nossos clientes.

— Cliente?

— Da Benning e Sturtevant.

— Como? — Ficou parado olhando para ela.

— Você conhece Gene — disse a senhora.

— Ora, é claro, trabalho com ele.

Evidentemente a mulher não achou isso muito convincente. Para espanto de Sherman, ela virou-se noventa graus, sem dizer mais nada, para o lado em que um homem de cara vermelha, aparatoso e jovial, conversava com a tortinha de limão que chegara em companhia do barão Hochswald. Sherman agora reconhecia quem era... um executivo da televisão chamado Rale Brigham. Sherman observou as vértebras secas da sra. Rawthrote, no ponto em que saltavam do vestido... Talvez tivesse lhe dado as costas apenas por um instante e fosse tornar a se virar para retomar a conversa... Mas não... metera-se na conversa de Brigham e da tortinha... Ouvia seu rá-tá-tá... Estava curvada para Brigham... lançando seus lasers... Dedicara todo o tempo que lhe apetecera dedicar... a um mero vendedor de obrigações!

Estava abandonado de novo. A sua direita, Maria continuava absorta em conversa com Lorde Buffing. Enfrentava mais uma vez a morte social. Era um homem sentado absolutamente só a uma mesa de jantar. A colmeia zumbia à sua volta. Todos os outros se encontravam em estado de beatitude social. Só ele estava encalhado. Só ele não arranjava par, alguém para conversar, era uma lâmpada social sem wattagem alguma no Zoo de Celebridades dos Bavardages... Minha vida está se desmoronando! — e no entanto, sobrepujando todo o resto, no seu sistema nervoso central sobrecarregado, ardia a vergonha — a vergonha! — da incompetência social.

Fixou o olhar nos cipós endurecidos de Huck Thigg, ao centro da mesa, como se fosse um estudioso de arranjos florais. Depois pespegou um sorriso no rosto, como se estivesse se divertindo, confiante. Tomou um longo gole de vinho e olhou para a outra mesa, como se tivesse cruzado o olhar com alguém lá... Sorriu... Murmurou silenciosamente para espaços vazios na parede. Tomou um pouco mais de vinho e estudou um pouco mais os cipós endurecidos. Contou as vértebras na coluna da sra. Rawthrote. Sentiu-se contente quando um dos garçons, um dos varones vindos do campo, materializou-se e completou seu copo de vinho.

O prato principal consistia de fatias de rosbife rosado, servido em enormes travessas de porcelana, com rodelas de cebola, cenouras e batatas refogadas. Era um prato principal americano, substancioso e simples. Pratos principais americanos, substanciosos e simples, entre prólogos e epílogos exoticamente concebidos, comme il faut, atualmente, combinando com a tendência informal. Quando o garçom mexicano começou a levantar as imensas travessas sobre os ombros dos comensais, de modo que pudessem se servir, produziu o efeito de um sinal convencionado para a troca de parceiros de conversa. Lorde Buffing, o poeta inglês contagiado, entre nous, voltou-se para a empoada Mme. Cornagglia. E Maria, para Sherman. Ela sorriu e olhou-o no fundo dos olhos. Fundo demais! E se Judy os surpreendesse naquele instante! Ele afetou um gélido sorriso social.

— Ufa! — exclamou Maria. Girou os olhos na direção de Lorde Buffing. Sherman não queria falar de Lorde Buffing. Queria falar da visita dos dois detetives. Mas era melhor começar devagarinho, caso Judy estivesse olhando.

— Ah, tem razão! — disse ele. Um largo sorriso social. — Esqueci-me. Você não gosta de ingleses.

— Ah, não é isso. Ele parece um bom homem. É que mal consegui entender o que dizia. Você nunca ouviu um sotaque desses.

Sorriso social:

— De que foi que ele falou?

— A finalidade da vida. Não estou brincando.

Sorriso social:

— E por acaso mencionou qual é?

— De fato, mencionou. A reprodução.

Sorriso social:

— Reprodução?

— É. Disse que levou setenta anos para perceber que essa é a única finalidade da vida: reprodução. A natureza só se preocupa com uma coisa: a reprodução pela reprodução.

Sorriso social:

— Isso é muito interessante, partindo dele. Você sabe que ele é homossexual, não sabe?

— Ah, corta essa. Quem lhe disse isso?

— Essa aí. — Fez um gesto indicando as costas da sra. Rawthrote. — Quem é ela, afinal? Você a conhece?

— Claro. Sally Rawthrote. É corretora imobiliária.

Sorriso social:

— Corretora de imóveis! — Nossa mãe! Quem no mundo convidaria uma corretora de imóveis para jantar!

Como se lesse seus pensamentos, Maria disse:

— Você está desatualizado, Sherman. Corretores de imóveis são muito chiques, agora. Ela vai a toda parte com aquele barril de cara vermelha ali adiante, Lorde Gutt. — Acenou com a cabeça em direção à outra mesa.

— O gordo com sotaque britânico?

— É.

— Quem é ele?

— Um banqueiro desses.

Sorriso social:

— Tenho uma coisa para lhe dizer, Maria, mas... não quero que fique agitada. Minha mulher está na outra mesa de frente para nós. Portanto, fique calma.

— Quem diria. Ora, sr. McCoy, queridinho.

Mantendo o sorriso social atarraxado na cara o tempo todo, Sherman lhe fez um curto relato do confronto com os policiais.

Exatamente como temera, Maria perdeu a compostura. Sacudiu a cabeça e amarrou a cara.

— Ora, por que não os deixou ver a droga do carro, Sherman! Você disse que não tinha marcas!

Sorriso social:

— Ei! Calminha! Minha mulher pode estar olhando. Eu não estava preocupado com o carro. Só não queria que conversassem com o empregado. Podia muito bem ser aquele que estava de serviço naquela noite, quando levei o carro de volta.

— Nossa mãe, Sherman. Você me diz para ficar calma, e você não tem calma alguma. Tem certeza de que não lhes disse nada?

Sorriso social:

— Tenho certeza.

— Pelo amor de Deus, tire esse sorriso idiota do rosto. Você tem direito a ter uma conversa séria com uma moça à mesa do jantar, mesmo que sua mulher esteja olhando. Não sei por que concordou em falar com a maldita polícia, para começo de conversa.

— Pareceu-me a atitude correta naquele momento.

— Eu lhe disse que você não foi talhado para isso.

Atarraxando de novo o sorriso social, Sherman deu uma espiada em Judy. Estava ocupada sorrindo para a cara de índio do barão Hochswald. Voltou-se para Maria, ainda sorrindo.

— Ah, pelo amor de Deus, Sherman! — exclamou Maria.

Ele apagou o sorriso.

— Quando posso conversar com você? Quando posso vê-la?

— Ligue-me amanhã à noite.

— Está bem. Amanhã à noite. Deixe-me perguntar uma coisa. Ouviu alguém comentando a reportagem de The City Light? Alguém aqui hoje à noite?

Maria começou a rir. Sherman se sentiu contente. Se Judy estivesse observando, pareceria que estavam tendo uma conversa divertida.

— Está falando sério? — perguntou Maria. — A única coisa que essa gente lê em The City Light é a coluna dela. — Indicou uma mulher corpulenta do outro lado da mesa, uma mulher de uma certa idade com uma absurda gaforinha de cabelos louros e pestanas falsas tão compridas e espessas que mal conseguia erguer as pálpebras superiores.

Sorriso social.

— Quem é aquela?

— É “A Sombra”.

O coração de Sherman deu um soco.

— Você está brincando! Eles convidam uma colunista para jantar?

— Claro. Não se preocupe. Ela não está interessada em você. E não está interessada em acidentes de automóvel no Bronx, tampouco. Se eu desse um tiro em Arthur, então se interessaria. E eu ficaria feliz em satisfazer-lhe a curiosidade.

Maria lançou-se numa denúncia contra o marido. Ele estava corroído de ciúmes e rancores. Estava transformando sua vida num inferno. Não parava de chamá-la de prostituta. Seu rosto ia se contraindo cada vez mais. Sherman se assustou — Judy talvez estivesse observando! Ele queria tornar a assumir o sorriso social, mas como poderia, diante das lamentações dela?

— Quero dizer, ele anda pelo apartamento me chamando de prostituta. “Sua prostituta! Sua prostituta!” — bem na cara dos criados! Como acha que me sinto? Se me chamar disso mais uma vez, vou bater na cabeça dele com alguma coisa, juro por Deus!

Pelo canto do olho, Sherman viu o rosto de Judy voltado na direção dos dois. Essa não! — e ele sem o sorriso no rosto! Rapidamente resgatou-o e atarraxou-o de novo e disse a Maria:

— Isso é horrível! Parece que ele está caducando!

Maria encarou aquela expressão social agradável por um momento, então sacudiu a cabeça.

— Vá para o inferno, Sherman. Você está tão ruim quanto ele.

Espantado, Sherman conservou o sorriso e deixou os sons da colmeia envolverem-no. Que êxtase a toda a volta! Que olhos radiantes e sorrisos à prova de fogo! Tantos dentes em movimento! Quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá, elevava-se a risada de Inez Bavardage em triunfo social. Ho ho ho ho ho ho ho, erguia-se o zurro do Caipira de Ouro em resposta. Sherman engoliu mais um copo de vinho.

A sobremesa era suflê de damascos, preparado individualmente, para cada comensal, em robustas tigelas de cerâmica da Normandia, com as bordas au rustaud pintadas à mão. As sobremesas finas tinham voltado à moda naquela temporada. O tipo de sobremesa que demonstrava que se estava preocupado com calorias e colesterol, os frutinhos e bolinhas de melão com sorvete de frutas tornaram-se um pouco classe média demais. E além disso ser capaz de servir 24 suflês individuais era um tour de force. Exigia uma cozinha anormal e uma equipe e tanto.

Uma vez que o tour de force se completara, Leon Bavardage pôs-se de pé e tamborilou no copo de vinho — um copo de sauternes de uma tonalidade rosa-escuro dourada — vinhos pesados à sobremesa também eram comme il faut — e foi respondido por uma alegre e ébria percussão de pessoas nas duas mesas, que batiam nos copos de vinho de maneira risível. Ho ho ho ho, ecoou a risada de Bobby Shaflett. Ele batia no copo com vontade. Os lábios vermelhos de Leon Bavardage abriam-se de fora a fora, seus olhos se semicerravam, como se a percussão dos cristais fosse um grande tributo à alegria que as celebridades reunidas encontravam em sua casa.

— Todos vocês são amigos tão queridos e especiais de Inez e meus que não precisamos de uma ocasião especial para querer reuni-los à nossa volta em casa — disse numa voz afável e ligeiramente feminina. Sotaque do litoral do golfo. Então se dirigiu à outra mesa, em que Bobby estava sentado. — Quero dizer, às vezes pedimos a Bobby que venha nos visitar só para podermos ouvir sua risada. A risada de Bobby é música, no meu entender: de mais a mais nunca conseguimos que cante para nós, mesmo quando Inez toca piano!

Quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá quiá, fez Inez Bavardage. Ho ho ho ho ho ho ho ho, o Caipira de Ouro abafou a risada dela com uma risada própria. Era uma risada espantosa, essa. Ho ho hoo hooo hoooo hoooo hooooo, e ia subindo, subindo, subindo, e aí começava a descer de uma forma curiosa e altamente estilizada e terminava num soluço. A sala se calou — um silêncio mortal — pelo tempo que os comensais, a maioria, levaram para compreender que tinham acabado de ouvir o famoso soluço ridente de “Vesti la giubba”, a ária de Pagliacci.

Tremendos aplausos nas duas mesas, sorrisos largos, risadas e gritos de “Mais! Mais! Mais!”.

— Ah, não! — disse o gigante louro. — Eu só canto para ganhar o meu jantar e já cantei o suficiente pelo jantar de hoje! Meu suflê não foi suficientemente grande, Leon!

Tempestades de risos, mais aplausos. Leon Bavardage fez um sinal lânguido para um dos garçons mexicanos.

— Mais suflê para o sr. Shaflett. Traga-o na banheira! — O garçom o encarou petrificado.

Sorrindo, de olhos brilhantes, arrebatado por esse dueto de gente espirituosa, Rale Brigham gritou:

— Suflê obtido ilegalmente! — A piada foi tão fraca, que Sherman teve prazer em notar que ninguém lhe deu atenção, nem mesmo a sra. Rawthrote de olhos laser.

— Mas de todo modo essa é uma ocasião especial — disse Leon Bavardage —, porque temos um amigo muito especial hospedado conosco durante sua visita aos Estados Unidos, Aubrey Buffing. — Ele sorriu radiante para o grande homem, que voltou o rosto descarnado para Leon Bavardage com um sorrisinho contraído e preocupado. — Agora, no ano passado, o nosso amigo Jacques Prudhomme — ele sorriu para o ministro da Cultura francês, que estava à sua direita — contou a Inez e a mim que soubera de fonte segura — e espero que não esteja sendo inconveniente, Jacques...

— Eu também — disse o ministro da Cultura com a voz grave, sacudindo os ombros com exagero para obter um efeito cômico. Risos de apreciação.

— Bom, você realmente disse a Inez e a mim que sabia de fonte segura que Aubrey ganhara o prêmio Nobel. Sinto muito, Jacques, mas o seu serviço secreto não é tão bom assim em Estocolmo!

Mais um magnífico sacudir de ombros, mais acordes de sua elegante voz sepulcral:

— Felizmente, não estamos prevendo hostilidades com a Suécia, Leon. — Grandes risadas.

— Mas, Aubrey, em todo caso, chegou pertinho assim — disse Leon, juntando o polegar e o indicador —, e o próximo ano talvez seja o dele. — O sorrisinho contraído do velho inglês não se alterou. — Mas, naturalmente, isso não faz grande diferença, porque o que Aubrey significa para a nossa... nossa cultura... ultrapassa de muito os prêmios, e sei que o que Aubrey significa para Inez e para mim como amigo... bom, ultrapassa os prêmios e a cultura... e — ele manquejou, procurando uma maneira de encerrar a alocução, e então disse: — ... e tudo mais. Em todo caso, quero propor um brinde a Aubrey, com os nossos melhores votos para a sua visita aos Estados Unidos...

— Ele acabou de arranjar hóspede para mais um mês — disse a sra. Rawthrote a Rale Brigham num cochicho teatral.

Leon ergueu o copo de sauternes.

— A Lorde Buffing!

Copos erguidos, aplausos, vivas ao estilo britânico.

O inglês se pôs de pé vagarosamente. Estava horrivelmente desfigurado. O nariz parecia ter um quilômetro de comprimento. Ele não era alto, contudo, por alguma razão, o enorme crânio calvo fazia-o parecer imponente.

— Você é demasiadamente bondoso, Leon — disse, olhando para Leon e em seguida baixando os olhos modestamente. — Como todos sabem... aconselha-se a todo aquele que brinca com a ideia de um prêmio Nobel que aja como se não desse conta de sua existência, e de qualquer modo estou velho demais para me preocupar com isso... Assim sendo, tenho certeza de que não sei a que se referem. — Risos leves e intrigados. — Mas não é possível desconhecer sua maravilhosa hospitalidade e a de Inez, e graças a Deus, não preciso fingir um só momento que ela não existe. — Os litotes se sucediam tão rapidamente que os circunstantes estavam desconcertados. Mas murmuravam encorajamentos. — Tanto assim — continuou — que eu, de minha parte, me sentiria muito feliz de cantar para ganhar o meu jantar...

— Seria de esperar — cochichou a sra. Rawthrote.

— ... mas não vejo como alguém poderia se atrever a fazê-lo depois da notável alusão do sr. Shaflett à tristeza de Canio em Pagliacci.

Como só os ingleses são capazes de fazer, ele pronunciou “sr. Shaflett” muito maliciosamente, ressaltando o ridículo de se dar o digno título de “senhor” àquele palhaço rústico.

Inesperadamente parou, ergueu a cabeça e olhou para a frente, como se estivesse olhando através das paredes do edifício para a metrópole que se estendia além. Riu secamente.

— Perdoem-me. De repente, fiquei ouvindo o som da minha própria voz, e me ocorreu que agora tenho aquele tipo de voz inglesa, que se tivesse ouvido meio século atrás, quando era rapaz — um rapaz estouvado, ao que me lembre —, teria abandonado esta sala.

As pessoas se entreolhavam.

— Mas sei que não irão se retirar — continuou Buffing. — Sempre achei maravilhoso ser inglês nos Estados Unidos. Lorde Gutt talvez discorde de mim — ele pronunciou Gutt com um latido tão gutural, que foi como se dissesse “Lorde Babaca” —, mas duvido que o faça. Quando vim pela primeira vez aos Estados Unidos, ainda jovem, depois da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas ouviam minha voz, diziam “Ah, você é inglês!”, e eu sempre conseguia o que queria, porque elas ficavam impressionadíssimas. Hoje em dia, quando venho aos Estados Unidos e as pessoas ouvem a minha voz, dizem: “Ah, você é inglês — coitadinho!” — e ainda consigo o que quero, porque os seus conterrâneos nunca deixam de se apiedar de nós.

Muitos risos apreciativos e alívio. O velho estava explorando um veio mais leve. Fez uma nova pausa, como se procurasse decidir se deveria prosseguir ou não. Sua conclusão, evidentemente, foi positiva.

— Por que nunca escrevi um poema sobre os Estados Unidos, realmente não sei. Bem, retiro o que disse. Eu sei, é claro. Vivi em um século em que não se espera que os poetas escrevam poemas sobre nada, pelo menos nada a que se possa dar um nome geográfico. Mas os Estados Unidos merecem um poema épico. Em diversos pontos de minha carreira considerei escrever um épico, mas tampouco o fiz. Já não se espera que os poetas escrevam épicos, apesar de os únicos poetas que sobreviveram — e sobreviverão — terem sido aqueles que escreveram épicos. Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Milton, Spencer: onde estarão o sr. Eliot ou o sr. Rimbaud — pronunciado como o fizera com Shaflett — por mérito próprio, daqui a 25 anos? Nas sombras, receio, nos pés de página, ocultos nos ibidem, nos matagais... juntamente com Aubrey Buffing e muitos outros poetas que episodicamente tive em alta conta. Não, nós, poetas, nem temos mais a vitalidade para escrever épicos. Nem temos coragem para compor rimas, e o épico americano deveria ter rimas, rimas sobre rimas numa cascata despudorada, rimas do tipo com que Edgar Allan Poe nos brindou... Sim... Poe, que viveu seus últimos anos um pouco ao norte daqui, creio, numa parte de Nova York chamada Bronx... num chalezinho com lilases e uma cerejeira... e a esposa morrendo de tuberculose. Sem dúvida ele era um bêbado, talvez um psicótico, mas dotado da loucura da visão profética. Ele escreveu um conto que nos diz tudo que precisamos saber sobre o momento em que vivemos agora... “A máscara da morte escarlate”... uma peste misteriosa, a Morte Escarlate, está devastando a terra. O príncipe Próspero... Príncipe Próspero... até o nome é perfeito... o príncipe Próspero reúne os melhores cidadãos em seu castelo, estoca provisões de comida e bebida para dois anos, fecha os portões ao mundo exterior, contra a virulência das almas inferiores, e começa um baile de máscaras que deverá durar até que a peste tenha se extinguido no exterior das muralhas. A festa é infindável e ininterrupta, e tem lugar em sete grandes salões, e em cada um deles a folia é mais intensa do que no anterior, e os foliões são atraídos para o salão seguinte, e para o seguinte, até o sétimo salão, que é decorado inteiramente em negro. Uma noite, nesse último salão, aparece um convidado disfarçado com a fantasia mais criativa e mais abominavelmente bela que esse grupo de mascarados resplandecentes já viu. O convidado está fantasiado de morte, mas tão convincentemente que Próspero se ofende e ordena que seja expulso. Mas ninguém ousa tocá-lo, de modo que a tarefa é deixada ao próprio príncipe, e no instante em que este toca a fantasia medonha, cai morto, pois a Morte Escarlate penetrara na casa de Próspero... Próspero, meus amigos... Agora, a parte primorosa da história é que, de alguma forma, os convidados sabiam o tempo todo o que os aguardava naquele salão, e no entanto se sentiam irresistivelmente atraídos para ele, porque o arrebatamento era tão intenso e o prazer tão desenfreado e os trajes, a comida, a bebida, e a carne tão magníficos... e é só o que têm. Famílias, lares, filhos, a grande cadeia do ser, a eterna maré de cromossomas já não significa nada para eles. Estão presos uns aos outros, e rodopiam em volta uns dos outros, sem cessar, partículas de um átomo condenado... e que mais poderia a Morte Escarlate ser senão uma espécie de estímulo final, o ne plus ultra? Assim Poe foi muito gentil em escrever o nosso fim há mais de cem anos. Sabendo disso, quem seria capaz de escrever todas as passagens mais amenas que deveriam vir antes? Não eu, não eu. A doença... a náusea... a dor impiedosa... se extinguiram com a febre que me enlouquecia o cérebro... com a febre chamada “viver” que ardia em meu cérebro. A febre chamada “viver”: essas foram algumas das últimas palavras que ele escreveu... Não... Eu não posso ser o poeta épico que vocês merecem. Estou velho demais e cansado demais, exaurido demais pela febre chamada “viver”, e prezo demais a sua companhia e o turbilhão da roda-viva. Muito obrigado, Leon. Muito obrigado, Inez.

E dizendo isso, o inglês espectral foi se sentando lentamente.

O intruso que os Bavardages mais temiam, o silêncio, agora dominava a sala. Os comensais se entreolhavam num constrangimento tríplice. Estavam constrangidos por aquele velho que cometera a gafe de introduzir uma nota sombria em uma noitada dos Bavardages. Estavam constrangidos porque sentiam a necessidade de exprimir a sua cínica superioridade em resposta à solenidade dele, mas não sabiam como fazê-lo. Ousariam rir? Afinal, ele era Lorde Buffing, que participava da lista de indicações para o prêmio Nobel e era hóspede do anfitrião. E estavam constrangidos porque sempre havia a possibilidade de que o velho tivesse dito alguma coisa profunda que não tivessem logrado captar. Sally Rawthrote girou os olhos, fez uma cara zombeteiramente compungida e lançou um olhar à sua volta para ver se alguém lhe seguia o exemplo. Lorde Gutt pôs um sorriso deprimido na caraça gorda e olhou para Bobby Shaflett, que por sua vez olhou para Inez Bavardage, procurando uma deixa. Ela não ofereceu nenhuma. Tinha o olhar fixo, apalermado. Judy sorria, um sorriso absolutamente tolo, pareceu a Sherman, como se pensasse que algo muito agradável tivesse acabado de ser expresso pelo destacado cavalheiro da Grã-Bretanha.

Inez Bavardage se ergueu e anunciou:

— O café será servido na outra sala.

Gradualmente, sem muita convicção, a colmeia recomeçou a zumbir.

Na corrida de volta para casa, a corrida de seis quarteirões de 123 dólares e 25 cents, ou seja, metade de 246 dólares e 50 cents, com o motorista de cabeça branca da Mayfair Town Car Inc. ao volante, Judy não parava de tagarelar. Estava borbulhante. Sherman não a via tão animada há mais de duas semanas, desde a noite em que o apanhara em um “flagrante telefônico” com Maria. Essa noite, obviamente, ela não percebera nada com relação a Maria, nem mesmo sabia que a moça bonita sentada ao lado do marido durante o jantar se chamava Maria. Não, estava de excelente humor. Ébria, não de álcool — álcool engordava —, mas de Sociedade.

Fingindo um distanciamento divertido, comentava a sagacidade de Inez na escolha de suas celebridades: três aristocratas (barão Hochswald, Lorde Gutt e Lorde Buffing), um político importante de projeção internacional (Jacques Prudhomme), quatro gigantes das artes e letras (Boby Shaflett, Nunnally Voyd, Boris Korolev e Lorde Buffing), dois designers (Ronald Vine e Barbara Cornagglia), três VIF’s...

— VIF’s? — perguntou Sherman.

— Very important fags: veados muito importantes — explicou Judy —, é assim que todo mundo os chama.

(O único nome que Sherman ouviu direito foi o do inglês que se sentara à direita dela, St. John Thomas, e o de três titãs do mundo dos negócios, Hochswald, Rale Brigham e Arthur Ruskin.) Então passou a discorrer sobre Ruskin. A mulher à esquerda dele, Mme. Prudhomme, não queria falar com ele, e a mulher à direita, a esposa de Rale Brigham, não estava interessada, e por isso Ruskin se debruçara e começara a falar ao barão Hochswald sobre o seu serviço de fretamento de aviões no Oriente Médio.

— Sherman, você tem ideia de como esse homem ganha dinheiro? Ele transporta árabes a Meca de avião... Boeings 747... dezenas de milhares de árabes... e ele é judeu!

Era a primeira vez, nem se lembrava em quanto tempo, que ela lhe contava uma fofoca, na veia alegre de antigamente. Mas ele deixara de se interessar pela vida e as aventuras de Arthur Ruskin. Só conseguia pensar no inglês descarnado e atormentado, Aubrey Buffing.

E então Judy perguntou:

— Na sua opinião, que foi que deu em Lorde Buffing, afinal? Aquela história toda foi tão... mortificante.

“Mortificante” é a palavra certa, pensou Sherman. Ele começou a responder que Lorde Buffing estava morrendo de aids, mas também já deixara de se interessar pelos prazeres da fofoca.

— Não faço ideia.

Mas era claro que fazia. Sabia exatamente. Aquela voz inglesa, educada e fantasmagórica, fora a voz de um oráculo. Aubrey Buffing estivera se dirigindo a ele, como se fosse um médium enviado pessoalmente por Deus. Edgar Allan Poe! — Poe! — a ruína dos dissolutos — no Bronx — o Bronx! O turbilhão sem sentido, a luxúria desenfreada, a obliteração da família e do lar — e, aguardando no último salão, a Morte Escarlate.

Eddie já abrira a porta para eles, quando desceram do sedã da Mayfair Town Car para a entrada do edifício. Judy exclamou: “Oi, Eddie!” Sherman mal a olhou e nada disse. Sentia-se tonto. Além de estar consumido de medo, estava bêbado. Seus olhos percorreram o saguão... A Rua dos Sonhos... Ele quase esperava ver a mortalha.