A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 8 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 7

7

APANHANDO PEIXES

 

A campainha do telefone foi a explosão que acordou Peter Fallow dentro do ovo despojado da casca em que apenas a membrana vitelina permanecia intacta. Ah! A membrana vitelina era a cabeça dele, e o lado direito da cabeça descansava no travesseiro, e a gema era pesada como mercúrio, e rolava como mercúrio, e pressionava sua têmpora direita e seu olho direito e sua orelha direita. Se tentasse se levantar para atender o telefone, a gema, o mercúrio, a massa venenosa, se deslocaria e rolaria e romperia a membrana e seu cérebro escorreria.

O telefone estava ao chão, no canto, próximo à janela, em cima do tapete marrom. O tapete era repugnante. Sintético; os americanos fabricavam tapetes repugnantes; Metalon, Streptolon, espesso, felpudo, com uma textura que provocava arrepios. Uma segunda explosão; estava bem diante dos seus olhos, um telefone branco e um fio branco e mole se aninhando entre as fibras compridas e imundas do Streptolon marrom. Por trás das persianas o sol brilhava tanto que doía nos olhos. O quarto só recebia claridade entre uma e duas horas da tarde, quando o sol passava entre dois edifícios ao se deslocar pelo quadrante sul. Os outros cômodos, o banheiro, a cozinha e a sala nunca recebiam sol algum. A cozinha e o banheiro não tinham janelas. Quando acendia a luz do banheiro, que possuía um módulo plástico de chuveiro e banheira — módulo! — uma unidade pré-moldada que afundava ligeiramente quando ele entrava na banheira —, quando acendia a luz do banheiro, um ventilador começava a girar por trás de uma grade metálica no teto, suprindo a ventilação. O ventilador produzia um ruído estridente e uma tremenda vibração. Por isso, quando acabava de acordar, ele não acendia mais a luz do banheiro. Dependia exclusivamente da claridade azulada e doentia de uma luz fluorescente no teto do corredor. Mais de uma vez fora trabalhar sem se barbear.

Com a cabeça ainda no travesseiro, Fallow olhava fixamente o telefone que não parava de explodir. Tinha mesmo que comprar uma mesinha de cabeceira para a cama, se é que se podia chamar um colchão e um conjunto de molas numa dessas molduras metálicas e ajustáveis americanas, ótimas para cortar juntas e dedos, principalmente quando se tentava ajustá-las — se é que se podia chamar isso de cama. O telefone tinha um aspecto pegajoso e imundo ali no tapete imundo. Mas ele nunca convidava ninguém para visitá-lo, exceto moças, e isso era sempre tarde da noite, quando já tinha consumido duas ou três garrafas de vinho e não estava ligando a mínima. Isso não era bem verdade, era? Quando subia com uma garota, sempre via a espelunca patética pelos olhos dela, pelo menos por instantes. O pensamento no vinho e na garota tocou numa corda de seu cérebro, e um arrepio de remorso percorreu seu sistema nervoso. Acontecera alguma coisa na noite anterior. Ultimamente era frequente acordar assim, com uma ressaca peçonhenta, um medo de se mexer, tomado de uma sensação abstrata de desespero e vergonha. O que quer que tivesse feito jazia submerso como um monstro no fundo de um lago frio e escuro. A lembrança afogara-se na noite, e ele só sentia o desespero enregelante. Tinha que procurar o monstro dedutivamente, aos poucos. Às vezes percebia que, fosse o que fosse, não conseguiria enfrentá-lo, e decidia voltar-lhe as costas para sempre, mas naquele instante algum detalhe perdido emitia um sinal e a besta vinha à superfície e mostrava seu focinho nojento.

Lembrava-se de quando isso começara, ou seja, no Leicester’s, onde, a exemplo dos muitos ingleses que frequentavam o restaurante, conseguira se insinuar na mesa de um americano em quem se podia confiar que iria pagar a conta sem fazer cara feia, no caso um sujeito gordo chamado Aaron Gutwillig, que recentemente vendera uma companhia de arrendamento de simuladores por 12 milhões de dólares e gostava de ser convidado para as festas que as colônias inglesa e italiana davam em Nova York. Outro ianque, um homenzinho grosso, mas divertido, chamado Benny Grillo, que produzia os chamados novos documentários para televisão, estava alto e queria ir à Limelight, no centro, uma discoteca montada no que costumava ser uma igreja episcopal. Grillo podia pagar a conta da Limelight, e ele acompanhara Grillo, duas modelos americanas, Franco di Nodini, um jornalista italiano, Tony Moss, que conhecera na Universidade de Kent, e Caroline Heftshank, que acabara de chegar de Londres e estava absolutamente petrificada de medo com os crimes das ruas de Nova York, sobre os quais lia diariamente em Londres, e pulava toda vez que via uma sombra, o que a princípio era engraçado. As duas modelos pediram sanduíches de rosbife no Leicester’s, e puxavam a carne do pão e a balançavam diante da boca aberta e a comiam com os dedos. Caroline Heftshank pulou muitas vezes quando desceram do táxi diante da Limelight. A discoteca estava praticamente cercada por rapazes negros que usavam tênis enormes e se encarapitavam nas velhas grades da igreja, espiando os bêbados e as cabeças que entravam e saíam pela porta. Lá dentro, a Limelight parecia anormalmente grotesca, e Fallow se sentiu anormalmente espirituoso, bêbado e charmoso. Tantos travestis! Tantos punks supinamente repulsivos! Tantas americaninhas de cara emplastrada, dentes ortoperfeitos, batom prateado e maquiagem noite-orvalhada nos olhos! Que música metálica, interminável, destrambelhada e alta, que videoteipes granulosos e borrados nas telas cheias de rapazes muito magros e casmurros e bombas de fumaça! Tudo submergia cada vez mais profundamente no lago. Estavam em um táxi indo e vindo pelas ruas na altura da West 50th Street, procurando um lugar com uma porta de metal galvanizado, chamado Cup. Um piso preto emborrachado e uns rapazes irlandeses asquerosos e sem camisa, ou pelo menos pareciam irlandeses, borrifando cerveja em todo o mundo; e também algumas moças sem blusa. Ah. Alguma coisa acontecera diante de algumas pessoas em uma sala. Na medida em que a memória não o enganava, lembrava que... Por que fazia essas coisas?... A casa em Canterbury... o vestiário em Cross Keys... Ele se via com a aparência que tinha então... os cabelos louros de romance vitoriano, de que tivera tanto orgulho... o nariz comprido, o queixo longo e fino, o corpo alto e magro, sempre magro demais em relação à altura, de que também tivera tanto orgulho... seu corpo alto e magro... Uma ondulação... O monstro estava emergindo do fundo do lago! Dentro de instantes... o seu focinho nojento!

Não sou capaz de enfrentá-lo...

O telefone explodiu de novo. Ele entreabriu os olhos e examinou aquela sordidez moderna à claridade do sol; com os olhos abertos era ainda pior. Com os olhos abertos: o futuro imediato. Que desesperança! Que gélido desespero! Olhou e estremeceu e tornou a fechar os olhos. O focinho!

Reabriu-os depressa. Essa tal coisa que fizera quando estava muito bêbado — além do desespero e do remorso, agora sentia medo.

A campainha do telefone começou a assustá-lo. E se fosse The City Light? Depois do último sermão do Rato Morto, ele prometera a si mesmo chegar ao escritório às 10 horas toda manhã e já passava das 13 horas. Nesse caso... era melhor não atender. Não... se não atendesse o telefone, submergiria para sempre, junto com o monstro. Rolou para fora da cama e pôs os pés no chão, e a horrível gema mexeu. Sentiu uma violenta dor de cabeça. Quis vomitar, mas sabia que a cabeça doeria demais para permitir que isso acontecesse. Dirigiu-se ao telefone. Deixou-se cair de joelhos e ficou de quatro. Arrastou-se até o aparelho, ergueu o fone e se deitou no carpete, esperando que a gema voltasse a se acomodar.

— Alô — disse.

— Peter? (Pitâh?) — Graças a Deus era uma voz inglesa.

— Sim?

— Peter, você está gorgolejando. Eu o acordei, não? Aqui é o Tony.

— Não, não, não, não, não. Eu estou... eu estava na sala. Estou trabalhando em casa, hoje. — Percebeu que sua voz minguara para um barítono confidencial.

— Bom, você faz uma excelente imitação de alguém que acabou de acordar.

— Não está me acreditando, não é? — Graças a Deus era Tony. Tony era um inglês que viera trabalhar em The City Light na mesma época que ele. Eram camaradas membros de comando nesse país inculto.

— Claro que acredito em você. Mas isso me coloca em minoria no momento. Se eu fosse você, vinha para cá o mais depressa possível.

— Hummmmmmm. Sei.

— O Rato acabou de passar perguntando onde você estava. E não foi simples curiosidade. Parecia extremamente aborrecido.

— O que disse a ele?

— Disse que você estava na Vara de Órfãos e Sucessões.

— Hummmm. Não quero ser indiscreto, mas que é que estou fazendo lá?

— Nossa, Peter, realmente tirei você da cama, não tirei? Aquele caso Lacey Putney.

— Hummmmmmm. Lacey Putney. — Dor, náusea e sono rolaram pela cabeça de Fallow como uma onda havaiana. A cabeça estava achatada no carpete. A gema venenosa sacudia barbaramente. — Hummmmmmm.

— Não finja que está fugindo, Peter. Não estou brincando. Acho que devia vir até aqui se apresentar.

— Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei, eu sei. Obrigado, Tony. Você tem absoluta razão.

— Você vem?

— Vou. — Só de dizer isso, imaginou o que ia sentir quando tentasse se pôr de pé.

— E me faça um favor.

— Qualquer coisa.

— Tente se lembrar de que estava na Vara de Órfãos e Sucessões. O inventário Lacey Putney. Não que o Rato tenha acreditado. Mas você sabe.

— Sei. Lacey Putney. Obrigado, Tony.

Fallow desligou, levantou-se do chão, deu de cara nas persianas e cortou a boca. As palhetas eram daquelas de metal estreito de que os ianques gostavam. Pareciam giletes. Limpou o sangue da boca com as costas do dedo indicador. Não conseguia manter a cabeça de pé. A gema de mercúrio prejudicava seu senso de equilíbrio. Cambaleou em direção ao banheiro e passou pela claridade tísica da luz fluorescente no corredor. No espelho da porta do armarinho, à luz doentia, o sangue em sua boca parecia roxo. Não fazia mal. Poderia viver com o sangue roxo. Mas se acendesse a luz do banheiro, estaria liquidado.

Fileiras de terminais de computação com luzes de diodo em caixas cinzentas 2001 emprestavam à redação de The City Light um verniz de ordem e atualidade. Essa impressão não sobrevivia a um segundo exame. As escrivaninhas estavam atulhadas com a habitual desordem de papel, xícaras de plástico, livros, manuais, almanaques, revistas e cinzeiros sujos. Os habituais rapazes e moças de costas encurvadas sentavam-se ao teclado. Um matraquear surdo e monótono — tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque tuque — se erguia dos teclados, como se um gigantesco torneio de mah-jong estivesse em curso. Os repórteres, revisores e redatores estavam curvados naquela postura imemorial dos jornalistas. A intervalos, uma cabeça se levantava, como se subisse para tomar ar, e gritava alguma coisa sobre entretítulos, batidas de manchetes ou tamanho da notícia. Mas nem a agitação provocada pela pressão dos prazos era capaz de durar muito tempo. Uma porta dos fundos se abria, e um grego vestindo um uniforme branco entrava vacilante carregando uma prodigiosa bandeja cheia de café e soda, caixas de rosquinhas, pães de queijo e cebola, cavacos, e toda variedade de porcarias e frituras conhecida no mundo da comida para viagem, e metade da sala desertava dos computadores e caía sobre ele, avançando para a bandeja como gorgulhos famintos.

Fallow se aproveitou desse hiato para atravessar a sala em direção ao seu cubículo. No centro da área de terminais de computação parou e, com um ar de interesse profissional, apanhou um exemplar da segunda edição, que acabara de subir da impressão. Abaixo do logotipo — THE CITY LIGHT — a primeira página era tomada por enormes letras maiúsculas que desciam pelo lado direito:

“ESCALPELOU

A AVÓ

PARA

ROUBÁ-LA”

e uma fotografia ocupando o lado esquerdo. A fotografia era uma ampliação recortada do tipo de retrato retocado e sorridente que os estúdios produzem. Era a foto de uma mulher chamada Carolina Pérez, 55 anos, sem muita aparência de avó, com uma farta cabeleira negra puxada para trás no estilo antiquado das damas espanholas.

Nossa mãe! Escalpelá-la devia ter sido uma trabalheira! Se estivesse se sentindo melhor, Fallow teria prestado uma homenagem silenciosa à extraordinária esthétique de l’abattoir que permitia que esses demônios descarados, seus patrões, compatriotas, companheiros ingleses, seus condescendentes de Shakespeare e Milton publicassem coisas como essas dia após dia. Pense só no fino senso de sintaxe sórdida que os inspirava a criar uma manchete em que só existiam verbos e objetos, e faltava o sujeito, para melhor obrigar a pessoa a esgaravatar essas páginas negras de tinta para descobrir que filhos de Satanás eram perversos o suficiente para completar a frase! Pense só na perseverança de gusano que permitia um repórter invadir chez Pérez e extrair um retrato da vovó que fazia o leitor sentir aquele ato sanguinolento na ponta dos dedos — até na junta dos ombros! Pense só no anticlímax sugerido por “Escalpelou a avó”... “para roubá-la”. O anticlímax brilhante e inútil! Puxa, se dispusessem de mais espaço poderiam ter acrescentado “e deixou todas as luzes da cozinha acesas”.

Naquele momento, porém, estava intoxicado demais para apreciar isso. Não, ficou parado olhando para esse último exemplo de genialidade em tabloide apenas para estabelecer o fato, à vista de todos — e especialmente, assim esperava, à do próprio Rato Morto —, de que ele estava no recinto e não tinha outro interesse no mundo senão o City Light de Nova York.

Segurando o jornal nas mãos e com os olhos na primeira página como se estivesse petrificado diante de tanta virtuosidade, atravessou o resto da sala e entrou em seu cubículo. Era formado por paredes de 1,20 metro de aglomerado num tom enjoativo de salmão, o chamado posto de trabalho, com pequenas curvas high tech nos cantos, que confinavam uma escrivaninha de metal cinzento, o onipresente terminal de computação com teclado, uma cadeira plástica moldada numa desagradável forma ortopédica e um cabideiro plástico modular, engenhosamente preso à parede, também modular. Já estava rachado no pé. No cabideiro encontrava-se pendurada uma única peça descolorida, a capa de chuva de Peter Fallow, que nunca saía do cubículo.

Junto ao cabideiro havia uma janela em que podia ver o seu reflexo. De frente, parecia um homem jovem e bonitão de 36 anos e não um quarentão acabado. De frente, seu bico de viúva de onde ondulavam os cabelos louros meio longos mais parecia... bom, um byroniano... E, visto de frente... ia dar tudo certo! O nariz fino e longo parecia aristocrático de uma ponta a outra, sem ser bulboso na extremidade. O grande queixo com uma cova não parecia demasiado comprometido pelas bolsas que se formavam de cada lado. O paletó esporte azul-marinho que fora feito sob encomenda por Blades há oito — não, dez! — anos estava ficando um tantinho... brilhoso... nas lapelas... mas provavelmente poderia eriçar o pelo do tecido com uma dessas escovas de aço... Começava a aparecer-lhe uma barriga e estava acumulando gordura demais nos quadris e nas coxas. Mas isso não seria problema agora que parara de beber. Nunca mais. Começaria um programa de exercícios naquela noite mesmo. Ou no dia seguinte, em todo caso; sentia-se bilioso demais para pensar na noite. E não seria essa patética mania americana de correr, tampouco. Seria algo limpo, revigorante, enérgico, estrênuo... inglês. Pensou em medicine balls, escadas, cavalos de pau, bastões, polias com pesos, barras paralelas, cordas grossas forradas de couro nas pontas, e então percebeu que esses eram os aparelhos existentes no ginásio de Cross Keys, a escola que frequentara antes de ingressar na Universidade de Kent. Deus do céu... há vinte anos. Mas só tinha 36 anos, 1,85 metro e um físico perfeitamente saudável, em tese.

Encolheu a barriga e inspirou profundamente. Sentiu-se tonto. Apanhou o telefone e levou o fone ao ouvido. Pareça ocupado! Essa era a ideia essencial. Achou o ruído de discar calmante. Teve vontade de poder entrar no fone, flutuar de costas no ruído de discar e deixar aquele zumbido lamber as pontas de seus nervos. Como seria fácil descansar a cabeça na mesa, fechar os olhos e tirar quarenta cochilos. Talvez pudesse fazer isso sem dar na vista se encostasse um lado do rosto na mesa, com a nuca virada para a redação, e mantivesse o fone colado ao outro ouvido como se estivesse falando. Não, ainda assim pareceria esquisito. Talvez...

Ah, essa não. Um americano chamado Robert Goldman, um dos repórteres, rumava para seu cubículo. Goldman usava uma gravata vermelha berrante, amarela, preta, com listras diagonais azul-celeste. Os americanos sempre usavam gravatas que saltavam das camisas como se quisessem anunciar a deselegância que as acompanhava. Duas semanas antes, ele pedira cem dólares emprestados a Goldman. Dissera-lhe que precisava pagar uma dívida de jogo — gamão — até o anoitecer no Bracer’s Club — uma turma de europeus extravagantes. Os ianques arregalavam os olhos, fascinados com histórias de libertinos e aristocratas. Desde então, o merdinha o aborrecera três vezes pedindo o dinheiro, como se o futuro na terra dependesse dos cem dólares. Segurando o fone ao ouvido, Fallow observou a figura que se aproximava, e a gravata que anunciava a sua vinda, com desprezo. Como a maioria dos ingleses em Nova York, ele encarava os americanos como crianças incorrigíveis a quem a Divina Providência perversamente doara a grande galinha gorda que era esse continente. Qualquer que fosse o modo que a pessoa escolhesse para aliviá-los de sua riqueza, excetuando a violência, era no mínimo esportivo, se não moralmente justificável, uma vez que só iriam esbanjá-la mesmo em alguma coisa inútil e de mau gosto.

Fallow começou a falar como se estivesse absorto a conversar com alguém ao telefone. Vasculhou o cérebro envenenado à procura de algum monólogo que os dramaturgos tivessem inventado para cenas ao telefone.

— Que disse?... Que o juizado se recusa a permitir que o estenógrafo forneça uma transcrição? Ora, diga a ele... Certo, certo... É claro... É uma total violação... Não, não... Agora ouça com atenção...

A gravata — e Goldman — estavam parados bem do lado dele. Peter Fallow manteve os olhos baixos e ergueu a mão, como se dissesse: “Por favor! Este telefonema não pode ser interrompido.”

— Alô, Pete — cumprimentou Goldman.

“Pete!” , dissera ele, e sem muita animação. “Pete!” Só o tom do apelido lhe dava nos nervos. Essa... espantosa... familiaridade ianque! E a gracinha! Os ianques — com os seus Arnies e Buddies e Hanks e... Peters! E esse marmanjão gauche com sua gravata espalhafatosa tinha a coragem de entrar numa baia enquanto a pessoa estava ao telefone, só porque estava com os nervos em frangalhos por causa de seus patéticos cem dólares! — e chamava a pessoa de “Pete”!

Fallow retesou o rosto numa expressão de grande concentração e começou a falar a 100 quilômetros por hora.

— Tudo bem!... Diga ao juizado e ao estenógrafo que queremos a transcrição até amanhã ao meio-dia!... Naturalmente! É óbvio!... Isso é alguma coisa que o patrono dela armou! Eles são todos unha e carne, lá!

— É juiz que se diz — observou Goldman sem inflexões na voz. Fallow ergueu rapidamente os olhos para o americano com uma expressão ameaçadora.

Goldman sustentou seu olhar com um trejeito ligeiramente irônico nos lábios.

— Eles não dizem “estenógrafo”, dizem “escrevente”. E não dizem “patrono”, embora entendam o que você quer dizer.

Fallow cerrou os olhos e os lábios formando três linhas tensas, sacudiu a cabeça e abanou a mão, como se estivesse diante de uma intolerável demonstração de impertinência.

Mas, quando abriu os olhos, Goldman continuava ali. Goldman olhava para ele e assumiu uma expressão de falsa animação, ergueu as duas mãos, esticou os dez dedos na cara de Fallow, em seguida as mãos fechadas e de novo os dez dedos esticados e repetiu esse gesto dez vezes — e disse:

— Cem paus, Pete. — Deu as costas e voltou para a redação. “Que impertinência! Que impertinência!” Uma vez claro que aquele baboso impertinente não ia voltar, Fallow desligou o telefone, levantou-se e foi até o cabideiro. Tinha jurado — mas puxa vida! Isso que acabara de sofrer passava... da... conta. Sem tirar a capa do gancho, abriu-a e meteu a cabeça dentro dela como se estivesse examinando as costuras. Então puxou a capa em torno dos ombros de modo que a metade superior do corpo desaparecesse de vista. Era o tipo de capa que tinha bolsos-faca, que se abriam tanto para dentro quanto para fora e permitiam o acesso ao paletó ou à calça sem desabotoar a capa quando chovia. Sob a tenda de popeline, Fallow apalpou a abertura interna do bolso esquerdo. Do bolso retirou um cantil de meio litro.

Desenroscou a tampa, levou o gargalo à boca, tomou dois grandes goles de vodca e esperou pelo soco no estômago. O líquido bateu e refluiu por todo o corpo e a cabeça como uma onda de calor. Ele tornou a rosquear a tampa, meteu o cantil de volta no bolso e saiu de dentro da capa. Seu rosto estava em fogo. Tinha lágrimas nos olhos. Lançou um olhar preocupado na direção da redação e...

Merda!

... o Rato Morto estava olhando diretamente para ele. Fallow não se atrevia sequer a piscar, muito menos a sorrir. Não queria provocar reação alguma no Rato. Voltou o rosto como se não o tivesse visto. Será que a vodca era realmente inodora? Esperava fervorosamente que fosse. Sentou-se à mesa, tornou a apanhar o fone e moveu os lábios. O sinal de discar zumbia, mas ele estava nervoso demais para se deixar envolver. Será que o Rato o vira debaixo da capa? E se o vira, desconfiaria de alguma coisa? Ah, como aquele traguinho fora diferente dos gloriosos brindes de seis meses antes! Ah, que perspectivas gloriosas ele jogara no lixo! Revia a cena... o jantar no grotesco apartamento do Rato na Park Avenue... os convites pomposos e excessivamente formais impressos em relevo: “Sir Gerald Steiner e Lady Steiner gostariam de ter o prazer de sua presença no jantar em homenagem ao sr. Peter Fallow” (“jantar” e “sr. Peter” escritos à mão)... o absurdo museu de móveis estilo Luís de França e os surrados tapetes Aubusson que o Rato Morto e Lady Ratazana tinham reunido na Park Avenue. Não obstante, que noite inebriante fora aquela! Todos à mesa eram ingleses. Só havia mesmo uns três ou quatro americanos nos escalões superiores do The City Light, e nenhum deles fora convidado. Não tardara a descobrir que havia jantares como aquele por todo o East Side de Manhattan, todas as noites, copiosos jantares só com ingleses ou só com italianos ou só com europeus: de qualquer forma, nada de americanos. Tinha-se a sensação de uma legião secreta muito rica e muito amena que se insinuara nos condomínios da Park Avenue e da Fifth Avenue, para dali atacar à vontade a galinha gorda dos ianques, para devorar calmamente o último naco de carne branca dos ossos do capitalismo.

Na Inglaterra, Fallow sempre pensara em Gerald Steiner como “aquele judeu Steiner”, mas naquela noite todos os esnobismos mesquinhos haviam se evaporado. Eles eram os camaradas de armas da legião secreta, a serviço do chauvinismo ferido da Grã-Bretanha. Steiner informara a mesa sobre a genialidade de Fallow. Steiner se deixara arrebatar por uma série de reportagens sobre a vida da aristocracia rural que Fallow fizera para o Dispatch. Fora recheada de nomes e títulos e helicópteros e desconcertantes perversões (“aquela da xícara”) e doenças caras, e tudo isso descrito com tanta astúcia que era impossível processá-lo por difamação. Fora o maior triunfo de Fallow como jornalista (o único, para dizer a verdade), e Steiner não fazia ideia de como isso se concretizara. Fallow sabia exatamente como, mas conseguia esconder a lembrança com os babados da vaidade. Cada detalhe picante da série ele ouvira de uma garota com quem estava saindo à época, uma mocinha rancorosa chamada Jeannie Brokenborough, filha de um negociante de livros raros que corria no páreo dos grã-finos rurais como o anão social dos haras. Quando a pequena srta. Brokenborough tomou outro rumo, a mágica diária de Fallow desapareceu com ela.

O convite de Steiner para vir para Nova York chegara bem na hora, embora Fallow não encarasse a coisa desse modo. À semelhança de outros autores que obtiveram triunfo antes dele, mesmo a nível do Dispatch de Londres, Fallow não dava crédito à sorte. Será que teria dificuldade em repetir seu triunfo numa cidade inteiramente desconhecida, num país que encarava como uma formidável piada? Bom... por que teria? Sua genialidade mal começara a desabrochar. E afinal de contas isso era apenas jornalismo, uma xícara de chá a caminho do futuro triunfo como romancista. O pai de Fallow, Ambrose Fallow, era romancista, positivamente um romancista menor, conforme se veio a constatar. O pai e a mãe eram de East Anglia e o tipo de jovens muito instruídos de boa família que depois da Segunda Guerra Mundial acreditaram na ideia de que a sensibilidade literária podia transformar a pessoa num aristocrata. A ideia de ser aristocrata nunca se afastava de suas mentes, nem da de Fallow. Fallow tentara compensar a falta de dinheiro sendo espirituoso e libertino. Esses feitos aristocráticos lhe granjearam apenas um lugar inseguro na cauda do cometa da sociedade elegante de Londres.

Agora, participando da brigada de Steiner em Nova York, Fallow também ia fazer fortuna com a carne branca do Novo Mundo.

As pessoas se perguntavam por que Steiner, que não tinha tradição no jornalismo, viera para os Estados Unidos e se lançara no empreendimento extremamente oneroso de fundar um tabloide. A explicação inteligente era que The City Light fora criado para servir de arma de ataque ou de contra-ataque para seus outros investimentos financeiros de muito maior vulto nos Estados Unidos, onde já era conhecido como “o temível inglês”. Mas Fallow sabia que era exatamente o contrário. Os investimentos “sérios” existiam para servir The City Light. Steiner fora criado, educado, treinado e dotado de fortuna pelo velho Steiner, um financista vulgar e pomposo que vencera por esforço próprio e queria transformar o filho em um verdadeiro par do reino e não apenas num judeu rico. Steiner, le fils, viera a ser o rato bem-educado, bem-instruído, bem-vestido e correto que o pai exigia. Nunca tivera coragem para se rebelar. Agora, tarde na vida, descobrira o mundo dos tabloides. Seu mergulho diário na lama — “ESCALPELOU A AVÓ PARA ROUBÁ-LA” — trazia-lhe indizível felicidade. Uhuh! Finalmente livre! Todos os dias ele arregaçava as mangas e mergulhava na vida da redação. Havia dias em que ele mesmo escrevia as manchetes. Era possível que tivesse escrito “ESCALPELOU A AVÓ”, embora a frase revelasse o toque inimitável de seu editor, um proletário de Liverpool chamado Brian Highridge. Apesar das muitas vitórias de sua carreira, porém, nunca alcançara o sucesso social. Isso se devia em grande parte à sua personalidade, mas o sentimento antissemita não estava morto, e ele não podia descontá-lo de todo. De qualquer forma, encarava com genuína satisfação a perspectiva de Peter Fallow armar uma boa e esbraseante fogueira por baixo de todos os nobres que o olhavam com desprezo. Portanto, esperou...

E esperou. A princípio, a conta de despesas de Fallow, que era bem maior do que a de qualquer outro colaborador do City Light (excetuando a rara missão no exterior), não causava preocupação. Afinal, para penetrar na alta sociedade era preciso viver nela, até certo ponto. As fantásticas contas de almoços, jantares e bares eram acompanhadas de divertidos relatórios sobre a figura que o sr. Peter Fallow estava fazendo como um genial companheiro britânico nas casas noturnas da moda. Decorrido algum tempo foram perdendo a graça. Não havia perspectiva de nenhum grande furo na crônica da alta sociedade dado por esse mercenário especial. Mais de uma vez Fallow entregara artigos e descobrira que tinham sido reduzidos a notas anônimas no dia seguinte. Steiner mandara chamá-lo para apresentar relatórios dos seus progressos. Essas conversas foram se tornando cada vez mais frias. Com o orgulho ferido, Fallow começara a divertir os colegas referindo-se a Steiner, o famoso “temível inglês” como o Rato Morto. Todos pareciam achar uma enorme graça nisso. Afinal, Steiner tinha realmente um nariz longo e pontudo como o de um rato, não tinha queixo, sua boca era pequena e enrugada, as orelhas grandes, as mãos e os pés minúsculos, olhos sem vida e uma vozinha cansada. Recentemente, porém, Steiner se tornara definitivamente frio e brusco, e Fallow começou a imaginar se não teria sabido da piada do Rato Morto.

Ergueu os olhos... lá estava Steiner, a dois metros de distância, na entrada do cubículo, olhando incisivamente para ele, com uma das mãos pousada na parede modular.

— Que prazer nos dá a sua visita, Fallow.

Fallow! Era o cumprimento bem desdenhoso de um inspetor escolar! Fallow ficou mudo.

— Muito bem — disse Steiner —, o que você trouxe para mim? — Fallow abriu a boca. Vasculhou o cérebro envenenado em busca da palavra fácil que o tornara famoso e acabou engasgando e gaguejando.

— Bem... lembra-se... do inventário Lacey Putney... mencionei isso... se não me engano... tentaram nos criar dificuldades no juizado, os... os... — Diabos! Eram estenógrafos ou algo como escritores? Que dissera Goldman? — Bem!... Não.. . Mas agora já apurei tudo! É só uma questão de... Posso afirmar... isso vai realmente dar uma boa matéria...

Steiner nem esperou que terminasse.

— Sinceramente espero que sim, Fallow — disse em tom de ameaça. — Sinceramente, espero que sim.

Então se retirou e mergulhou de volta em sua querida redação.

Fallow afundou na cadeira. Conseguiu esperar quase um minuto completo antes de se levantar e desaparecer dentro da capa.

Albert Teskowitz não era o que Kramer ou qualquer outro promotor chamaria de ameaça quando chegava a hora de convencer um júri com a mágica de suas perorações. Os crescendos emocionais estavam fora do seu alcance e mesmo qualquer ímpeto retórico que conseguisse reunir era rapidamente suplantado por sua aparência. Sua postura era tão ruim que todas as mulheres do júri, ou todas as boas mães, pelo menos, ansiavam por gritar: “Endireite os ombros!” Quanto à sua oratória, não que não preparasse as perorações, mas obviamente preparava-as num bloco amarelo, que colocava sobre a mesa da defesa.

“Senhoras e senhores, o acusado tem três filhos, de seis, sete e nove anos de idade”, dizia Teskowitz, “que estão presentes neste momento no tribunal, aguardando o resultado do julgamento.” Teskowitz evitava chamar seu cliente pelo nome. Se pudesse ter dito Herbert Cantrell, sr. Cantrell, ou mesmo Herbert, estaria tudo bem, mas Herbert não aceitava nem ser chamado de Herbert. “Meu nome não é Herbert”, disse a Teskowitz assim que este se encarregou do caso. “Não sou o motorista da sua limusine. Meu nome é Herbert 92X.”

“Não era um criminoso que estava sentado no banco dos réus aquela tarde”, continuava Teskowitz, “mas um trabalhador que tinha um emprego e uma família.” Hesitou e voltou o rosto para o alto com aquela expressão muito, muito, muito distante de alguém que está prestes a ter um ataque epilético. “Um emprego e uma família”, repetia sonhadoramente, a quilômetros dali. Então deu meia-volta, foi até a mesa da defesa, curvou o tronco já curvado pela cintura e consultou o bloco de papel amarelo com a cabeça inclinada para um lado, como um pássaro espiando uma minhoca. Manteve essa pose durante um tempo que pareceu uma eternidade e em seguida voltou para a bancada do júri e disse:

— Ele não foi o agressor. Não estava tentando acertar contas, agredir, ou se vingar de alguém. Era um trabalhador com um emprego e uma família, preocupado apenas com uma coisa, e tinha todo o direito de estar: o perigo que sua vida corria. — Os olhinhos do advogado se arregalaram como um foco de lente, deu meia-volta, retornou à mesa da defesa e consultou mais uma vez o bloco amarelo. Curvado como estava, ele apresentava a silhueta de uma torneira de pia de cozinha industrial... Uma torneira de pia de cozinha industrial... um cão com delírio de fome... Imagens ociosas começaram a se infiltrar na mente dos jurados. Começaram a se aperceber de coisas como a camada de poeira depositada nas imensas janelas do tribunal e a maneira como o sol poente iluminava a poeira, como se fosse aquele tipo de plástico com que se fazem brinquedos, o tipo que absorve a luz, e as donas de casa no júri, até as desleixadas, ficaram imaginando por que alguém não lavava aquelas janelas. Imaginaram muitas coisas, todas alheias ao que Albert Teskowitz estava dizendo sobre Herbert 92X, e imaginaram principalmente o que seria aquele bloco amarelo, que parecia trazer o pobre pescoço magro e curvado de Teskowitz preso a uma coleira.

— ... e considerarão o acusado... inocente. — Quando Teskowitz finalmente concluiu sua peroração, eles nem tinham certeza de que tivesse terminado. Estavam com os olhos grudados no bloco amarelo. Esperavam que o bloco o puxasse de volta à mesa, mais uma vez, com um safanão. Até Herbert 92X, que não perdera um detalhe, parecia intrigado.

Nesse momento ouviu-se um canto baixo e monótono no tribunal.

— Ôôô-ôôôôôô... — Vinha dali.

— Ôôô-ôôôôôô... — Vinha de lá.

Kaminsky, o guarda gordo, começara, em seguida Bruzzieli, o escrevente, o sustentara e até Sullivan, o estenógrafo, que estava sentado à máquina logo abaixo da cadeira de Kovitsky, uniu-se aos dois numa versão discreta: “Ôô-ôôôô.”

Sem piscar um olho, Kovitsky bateu o martelo e anunciou um intervalo de trinta minutos.

Kramer não pensou duas vezes. Era hora de reunir o comboio na fortaleza, só isso. Essa era a prática corrente. Se um julgamento tinha probabilidade de se estender além do pôr do sol, então era preciso reunir o comboio. Todos sabiam disso. O julgamento ia se estender além do pôr do sol, porque a defesa acabara de concluir a sua peroração, e o juiz não podia suspender a sessão até o dia seguinte sem que a promotoria fizesse a sua réplica. Portanto, era hora de reunir o comboio.

Durante o intervalo, todos os funcionários que tinham vindo trabalhar de carro, e precisavam permanecer no tribunal depois do pôr do sol por causa do julgamento, levantavam-se, saíam e se dirigiam aos seus carros no estacionamento. O juiz Kovitsky não era exceção. Nesse dia, ele mesmo dirigira o carro, por isso foi até o vestiário, uma porta a um lado de sua cadeira, despiu a toga negra e rumou para o estabelecimento, como todos os outros.

Kramer não tinha carro, mas não podia pagar oito ou dez dólares a um táxi pirata para voltar a casa. Os táxis piratas — muitos dirigidos por recentes imigrantes africanos, vindos de lugares como a Nigéria e o Senegal — eram os únicos táxis que se aproximavam do tribunal dia e noite, à exceção daqueles que faziam corridas de Manhattan para o Edifício da Municipalidade do Bronx. Os motoristas acendiam o aviso de RECOLHER antes mesmo de acionar o pedal do freio, largavam o passageiro e partiam velozes. Não com um ligeiro aperto no coração, Kramer tomou consciência de que essa era uma daquelas noites em que teria de caminhar três quarteirões até a estação do metrô da 161st Street, no escuro, e ficar parado na que era considerada uma das dez estações de metrô mais perigosas da cidade, em termos de crime, e rezar para que houvesse um carro suficientemente cheio de gente para não ser apanhado pela matilha de lobos como um bezerro desgarrado da boiada. Calculava que os tênis Nike de corrida lhe davam 50 por cento de chances de lutar. Para começar, eram uma camuflagem. No metrô do Bronx, um par de sapatos de couro Johnston & Murphy o identificava como um alvo privilegiado na primeira olhada. Era como usar um letreiro ao pescoço com os dizeres ROUBE-ME. Os Nikes e a sacola da A & P pelo menos os fariam pensar duas vezes. Poderiam tomá-lo por um policial à paisana voltando para casa. Não havia um único policial à paisana no Bronx que não usasse tênis. Segundo, se chovesse merda, usando Nikes ele podia pelo menos correr ou se entrincheirar e lutar. Não ia mencionar nada disso a Andriutti e Caughey. Não que se importasse com Andriutti, mas sabia que não iria aguentar o desprezo de Caughey. Caughey era irlandês e teria preferido levar uma bala na cara a usar a porra de uma camuflagem no metrô.

Quando os jurados voltaram à sala do júri, Kramer ficou olhando para a srta. Shelly Thomas até sentir o acetinado do seu batom cor de terra quando a moça passou, e ela o mirou um instante — com um leve sorriso! — e ele começou a se torturar pensando de que maneira a moça iria para casa, e não havia nada que pudesse fazer, já que obviamente não poderia se aproximar dela ou mandar-lhe qualquer recado. Mesmo com todo esse “Ôô-ôôôôôô” ninguém jamais informava o júri ou as testemunhas sobre a reunião do comboio, o que não significava que se fosse permitir a um jurado ir até o estacionamento durante um intervalo do julgamento.

Kramer desceu até a entrada da Walton Avenue para esticar as pernas, respirar um pouco e apreciar o desfile. Na calçada, um grupo, que incluía Kovitsky e seu funcionário, Mell Herskowitz, já se formara. Os guardas judiciários estavam com eles, parados ali como guias. O barricão, Kaminsky, estava na ponta do pés, esticando o pescoço, para ver se mais alguém queria acompanhá-los. O estacionamento preferido pelos que frequentavam regularmente o tribunal situava-se no alto da Grand Concourse passando o topo, na 161st Street, numa enorme depressão sem pavimentação em frente ao Edifício dos Tribunais Criminais. A depressão, que ocupava um quarteirão inteiro, fora escavada para assentar as fundações de um prédio que não chegara a ser construído.

O grupo se reuniu com Kaminsky à frente e um outro guarda judiciário à retaguarda. Os guardas levavam seus 38 bem visíveis, à cintura. O pequeno contingente rumou corajosamente para o território índio. Eram 17 horas e 45 minutos. A Walton Avenue estava silenciosa. Não havia bem uma hora de pico no Bronx. As vagas de estacionamento na Walton Avenue junto à fortaleza eram dispostas a 90 graus com relação à calçada. Havia apenas um punhadinho de carros estacionados. Dez vagas eram reservadas junto à entrada para Abe Weiss, Louis Mastroiani e outros supremos representantes do Poder no Bronx. O guarda à entrada bloqueava as vagas com cones luminosos de plástico vermelho quando seus usuários oficiais estavam fora. Kramer reparou que o carro de Abe Weiss ainda se encontrava lá. Havia mais um que ele não reconheceu, mas as outras vagas estavam livres. Kramer caminhou pela calçada junto à entrada para um lado e para o outro com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos, concentrando-se na sua peroração. Estava ali para falar em favor da pessoa mais importante do caso, que não podia falar por si mesma, ou seja, a vítima, o morto. Nestor Cabrillo, um bom pai e um bom cidadão do Bronx. Tudo se encaixava facilmente. Argumentos sólidos, porém, não bastariam; não para o objetivo que pretendia alcançar. Sua peroração precisava comovê-la, levá-la às lágrimas ou à admiração, ou, no mínimo, a uma embriaguez provocada pelo prazer de um crime no Bronx, em que se apresentava um corajoso e jovem promotor assistente com uma língua de ouro e uma oratória destemida, sem mencionar aquela beleza de pescoço musculoso. Assim ele caminhava para cima e para baixo na calçada contígua à entrada da fortaleza na Walton Avenue, armando a cama para Herbert 92X e retesando seus esternoclidomastóideos enquanto a visão da moça de batom cor de terra dançava em sua cabeça.

O primeiro dos carros não tardou a chegar. Ali vinha Kovitsky em sua enorme banheira branca, o Pontiac Bonneville. Encostou em uma das vagas reservadas próximas à porta. Chuóp! A enorme porta branca se abriu e ele desceu, um carequinha pouco conspícuo num terno cinza muito comum. Em seguida veio Bruzzielli, num desses carrinhos esporte japoneses de onde ele parecia prestes a irromper. Depois, Mell Herskovitz e Sullivan, o estenógrafo. E Teskowitz em seu novo Buick Regal. “Merda”, pensou Kramer. “Até Al Teskowitz pode ter um carro. Até ele, um advogado de indigentes, e eu volto para casa de metrô!” Logo, praticamente todas as vagas do edifício do lado da Walton Avenue estavam ocupadas pelos funcionários. O último carro a estacionar foi o do próprio Kaminsky. Dera ao outro guarda judiciário uma carona de volta. Os dois desceram, Kaminsky viu Kramer, prorrompeu num sorriso bondoso e gritou:

— Ôô-ôôôôôôô!

— Ô ô ô — respondeu Kramer.

O comboio. “Ôô-ôôôôôôôô” era o grito de John Wayne, o herói e principal guia, dando o sinal para os pioneiros mudarem a posição das carroças. Esse era o território dos índios e dos bandidos, e estava na hora de reunir as carroças em círculo para passar a noite. Qualquer um que pensasse que poderia caminhar dois quarteirões da Gibraltar até o estacionamento depois de escurecer, no 44º distrito, e voltar tranquilamente para casa e para mamãe, o companheiro ou a mana, estava jogando o jogo da vida só com a metade do baralho.

No fim do dia, Sherman recebeu um telefonema da secretária de Parch, dizendo que ele queria vê-lo. Parch tinha o cargo de vice-presidente executivo, mas não era pessoa que costumasse chamar funcionários da sala de operação ao seu escritório com muita frequência.

A sala de Parch era, naturalmente menor que a de Lopwitz, mas tinha a mesma vista fantástica para o oeste sobre o rio Hudson e Nova Jersey. Contrastando com a sala de Lopwitz, com suas antiguidades, a de Parch era decorada com mobília moderna e grandes quadros modernos do tipo que Maria e o marido gostavam.

Parch, que era sempre sorrisos, sorriu e indicou uma cadeira estofada tão aerodinâmica e rente ao chão que parecia um submarino emergindo. Sherman afundou até ter a impressão de que estava sentado abaixo do nível do chão. Parch sentou-se diante dele numa cadeira idêntica. Sherman tinha plena consciência da existência de muitas pernas, as dele e as de Parch. No horizonte de Sherman, o queixo de Parch mal aparecia acima dos joelhos.

— Sherman — disse o rosto sorridente por trás das rótulas —, acabei de receber um telefonema de Oscar Suder, de Columbus, Ohio, e ele está realmente furioso com essas obrigações da United Fragrance.

Sherman estava pasmo. Queria erguer mais a cabeça, mas não conseguia.

— Está? E telefonou para você! O que ele disse?

— Disse que você ligou e lhe vendeu 3 milhões de obrigações a 102. Também disse que o aconselhou a comprá-las depressa, porque estavam subindo. Essa manhã elas desceram a cem.

— Não é possível! Não acredito!

— Bem, é verdade, e estão descendo, se é que estão variando. Standard & Poor acabaram de reclassificá-las de AA para BBB.

— Não... acredito, Arnold! Eu as vi cair de 103 para 102,5 anteontem, e verifiquei com a Análise, e estava tudo certo. Então, ontem, desceram a 102, depois a 101 7/8 e tornaram a subir para 102. Então imaginei que outros operadores estariam atentos e foi aí que liguei para o Oscar. Elas estavam subindo de novo. Era uma compra ótima a 102. Oscar andara procurando alguma coisa que rendesse acima de nove, e ali estava algo de 9,75, quase dez, AA.

— Mas você consultou a Análise, antes de vendê-las a Oscar?

— Não, mas elas subiram mais um oitavo depois que as comprei. Estou perplexo com isso. É inacreditável.

— Nossa, Sherman! — exclamou Parch, que já não sorria —, não percebe o que aconteceu? Alguém em Salomon estava aprontando com você. Estavam carregados de obrigações da United Fragrance, sabiam que o relatório da Standard & Poor estava para sair e aproveitaram para aprontar. Abaixaram o preço há dois dias, para ver se havia reação. Então compraram-nas de volta para fazer parecer que havia movimento. Baixaram de novo o preço ontem e aumentaram-no de novo. Então viram que você mordeu a isca — e foi uma boa mordida — e aumentaram o preço mais uma vez, para ver se você morderia de novo a 102 1/8. Só havia você e Solly em todo o mercado, Sherman! Ninguém mais se interessou. Foi tudo armação. Agora Oscar perdeu 60 mil dólares e tem 3 milhões de BBB que não queria.

Um clarão terrível. Claro que era verdade. Deixara-se embromar num lance de amador. E ainda por cima com Oscar Suder! Oscar, com quem estava contando para fazer parte do pacote Giscard... eram apenas 10 milhões em 600 milhões, mas eram 10 milhões que teria de arranjar em outro lugar...

— Não sei o que dizer — respondeu Sherman. — Você tem absoluta razão. Bobeei. — Percebeu que esse “bobeei” soou como se ele não estivesse ligando. — Foi um erro idiota, Arnold. Eu devia ter percebido a armação. — Sacudiu a cabeça. — Puxa, logo com o Oscar. Será que devo telefonar-lhe pessoalmente?

— Eu não faria isso agora. Ele está realmente aborrecido. Queria saber se você ou mais alguém sabia que o relatório da Standard & Poor estava saindo. Eu disse que não, porque sabia que você não passaria o Oscar para trás. Mas de fato a Análise sabia. Você deveria ter verificado com eles, Sherman. Afinal, 3 milhões de obrigações...

Parch sorriu aquele sorriso de quem não está ressentido. Obviamente ele próprio não gostava desse tipo de conversa.

— Tudo bem. Acontece; acontece. Mas você é o nosso operador número um, Sherman. — Ergueu as sobrancelhas e as sustentou no alto da testa, como se dissesse: “Deu para entender?”

Ergueu-se com esforço da cadeira. O mesmo fez Sherman. Parch estendeu a mão com considerável constrangimento, e Sherman a apertou.

— Muito bem, vá à luta — disse Parch com um sorriso largo, mas inexpressivo.

A distância que separava Kramer, à mesa da promotoria, de Herbert 92X, à mesa da defesa, para começar não era superior a 6 metros. Kramer se aproximou alguns passos, fechando esse espaço até que todos no tribunal perceberam que algo estranho estava ocorrendo, sem serem capazes de precisar exatamente o quê. Ele chegara à parte em que deveria destruir qualquer piedade por Herbert que Teskowitz pudesse ter suscitado.

— Ora, sei que ouvimos certos detalhes da história pessoal de Herbert 92X — disse Kramer encarando o júri —, e aqui está hoje Herbert 92X, sentado no tribunal. — Diferentemente de Teskowitz, Kramer colocava o nome de Herbert 92X em quase todas as frases, até que começou a parecer um robô de filme de ficção científica. Então girou, baixou a cabeça, encarou Herbert no rosto e disse: — Sim, senhores, aqui está Herbert 92X... gozando de uma saúde perfeita!... cheio de energia!... pronto a retornar às ruas e retomar a vida, no estilo de Herbert 92X, o que significa carregar ilegalmente, às ocultas, sem licença, um revólver calibre 38!

Kramer olhou Herbert 92X nos olhos. Estava agora a menos de 3 metros dele, e lançava-lhe ao rosto as palavras saúde, energia e retomar, como se estivesse pessoalmente disposto a suprimir a saúde, a energia e a possibilidade de retomar uma vida de trabalho, aliás, uma vida de qualquer tipo, com as mãos. Herbert não era pessoa de se esquivar a um desafio. Contemplava Kramer com um sorriso tranquilo no rosto, que só faltava dizer: “Continue falando, otário, porque vou contar até dez e... amassá-lo.” Aos jurados — a ela — Herbert deve ter parecido que estava suficientemente próximo para esticar os braços e estrangulá-lo e, além disso, estava ansioso por fazê-lo. Isso não preocupava Kramer. Estava garantido por três guardas judiciários que já se sentiam animados só de pensar nas horas extras que iriam receber pelo trabalho daquela noite. Que deixassem Herbert se sentar ali com aquela roupa árabe e fazer a cara de mau que quisesse! Quanto mais mau Herbert parecesse aos olhos do júri, melhor seria para a acusação de Kramer. E quanto mais perigoso parecesse, aos olhos da srta. Shelly Thomas, tanto mais heroica a aura que envolvia o destemido e jovem promotor.

A pessoa realmente incrédula era Teskowitz. Sua cabeça balançava para diante e para trás lentamente, como um irrigador giratório de jardim. Não conseguia acreditar na cena que presenciava. Se Kramer estava acossando Herbert desse jeito, aquele merdinha, que diabo faria se tivesse um verdadeiro criminoso nas mãos?

— Pois bem, senhores e senhoras — disse Kramer virando-se para o júri mas permanecendo à mesma distância de Herbert —, é meu dever falar em favor de alguém que não está sentado diante de nós neste tribunal porque foi abatido e morto por uma bala saída de um revólver que estava nas mãos de um homem que ele nunca vira antes na vida, Herbert 92X. Gostaria de lembrar que o que está em questão neste julgamento não é a vida de Herbert 92X, mas a morte de Nestor Cabrillo, um bom homem, um bom cidadão do Bronx, um bom marido, um bom pai... de cinco crianças... ceifado no apogeu da vida devido à presunçosa crença de Herbert 92X... de que ele tem o direito de andar com um revólver calibre 38, às ocultas, sem licença, ilegalmente, em seu poder...

Kramer agraciava os jurados com o olhar, um por um. Mas ao final de cada frase grandiloquente seus olhos pousavam nela. Ela estava sentada quase no fim da segunda fila, à esquerda, de modo que esse movimento era um tanto canhestro, talvez até um pouco óbvio. Mas a vida é curta! E, puxa! — que rosto branco e imaculado! — que exuberante auréola de cabelo! — que lábios perfeitos pintados de batom cor de terra! E que brilho de admiração percebia agora naqueles grandes olhos castanhos! A srta. Shelly Thomas estava absolutamente bêbada de prazer com o crime no Bronx.

Fora, na calçada, Peter Fallow observava os carros e táxis passarem em alta velocidade pela West Street, afastando-se do centro da cidade. Nossa, como gostaria de poder entrar num táxi e dormir até chegar ao Leicester’s. Não! O que estava pensando? Nada de Leicester’s hoje à noite; nem uma gota de álcool, de maneira alguma. Essa noite iria direto para casa. Estava escurecendo. Daria qualquer coisa por um táxi... enroscar-se num táxi para dormir e rumar direto para casa... Mas a corrida custaria de nove a dez dólares, e possuía menos de 75 dólares para gastar até o dia do pagamento, que seria na semana seguinte, e em Nova York 75 dólares não eram nada, um mero suspiro, uma arfada, um pensamento passageiro, um capricho, um estalar de dedos. Continuava a observar a entrada principal do City Light, que era uma torre moderna e encardida dos anos 1920, na esperança de descobrir um americano do jornal com quem pudesse rachar um táxi. O truque era saber para onde o americano ia e depois escolher um destino quatro ou cinco quarteirões antes, e anunciar que esse era o seu destino. Nenhum americano tinha o topete de pedir a alguém para rachar um táxi nessas circunstâncias.

Passado algum tempo, surgiu um americano chamado Ken Goodrich, o diretor de comercialização do City Light, o que quer que isso fosse. Será que teria coragem mais uma vez? Já pegara carona com Goodrich duas vezes nos últimos dois meses, e na segunda o prazer de Goodrich de ter oportunidade de conversar com um inglês a caminho de casa fora consideravelmente menor; consideravelmente. Não, não se atrevia. Então preparou o lombo para a caminhada de oito quarteirões até a prefeitura, onde poderia tomar o metrô da Lexington Avenue.

Essa parte velha da Manhattan baixa esvaziava-se rapidamente à noite, e enquanto Fallow se arrastava à luz do crepúsculo sentia-se cada vez mais condoído de si mesmo. Vasculhou o bolso do paletó para ver se tinha uma ficha de metrô. Tinha, e isso suscitou uma lembrança deprimente. Duas noites antes, no Leicester’s, procurara no bolso uma moeda de 25 cents para Tony Moss dar um telefonema — queria se sentir generoso com relação aos 25 cents, porque estava começando a angariar uma reputação de filante até entre seus conterrâneos — e apanhou uma mão cheia de trocados, e bem ali, entre as moedas de dez, cinco e 25 cents e pence, havia duas fichas de metrô. Sentiu-se como se a mesa inteira estivesse olhando para as fichas. Sem dúvida Tony Moss as vira.

Fallow não tinha medo físico de andar no metrô de Nova York. Imaginava-se um sujeito parrudo, e de qualquer modo até ali nada lhe acontecera. Não, o que temia — e isso chegava a ser um medo real — era a miséria. Descer as escadas da estação do metrô da prefeitura com todas essas pessoas escuras e malvestidas era como descer, voluntariamente, numa masmorra, uma masmorra muito suja e barulhenta. Concreto enegrecido e grades negras estavam por toda parte, seção após seção, nível sobre nível, um delírio visto através de barras negras em todas as direções. Todas as vezes que um trem entrava ou saía da estação havia um guincho agonizante de metal, como se um imenso esqueleto de aço estivesse sendo aberto por uma alavanca de incompreensível força. Por que seria que nesse país opulento, com seus montes obscenos de dinheiro e a sua obsessão ainda mais obscena por confortos animais, eles eram incapazes de construir um metrô tranquilo, ordeiro, apresentável e — bom — decente como o de Londres? Porque eram infantis. Desde que estivesse debaixo da terra, fora das vistas, não fazia diferença que aspecto tinha.

Fallow conseguiu um assento àquela hora, se é que um espaço em um estreito banco de plástico podia ser chamado de assento. Diante dele descortinavam-se a costumeira confusão de pichações, a costumeira galeria de gente escura e maltrapilha com suas roupas cinzentas e marrons e seus tênis — exceto por duas pessoas defronte a ele, um homem e um garoto. O homem, que provavelmente andava pelos quarenta, era baixo e gordo. Usava um terno de bom gosto e aparência cara, cinzento, com riscas de giz, camisa branca engomada e, para um americano, uma gravata discreta. Também usava um par de sapatos pretos elegantes, bem-feitos e bem engraxados. Os homens americanos em geral destruíam um conjunto de roupas que poderia ser considerado apresentável com o uso de sapatos grosseiros, de sola grossa e malcuidados. (Raramente viam os próprios pés, assim, sendo infantis, não se preocupavam muito com o que calçavam.) Entre os pés levava uma pasta de couro escuro e obviamente cara. Curvava-se para falar ao ouvido do garoto, que parecia ter oito ou nove anos de idade. O menino vestia um blazer azul-marinho de uniforme, uma camisa de terno e uma gravata listrada. Sempre falando com o menino, o homem lançava olhares aqui e ali e gesticulava com a mão direita. Fallow calculou que ali estava um homem que trabalhava na Wall Street e que recebera a visita do filho no escritório, e agora passeava com ele no metrô e apontava os mistérios dessa masmorra sobre rodas.

Observava os dois distraidamente, enquanto o trem ganhava velocidade, e se acomodava ao movimento dos sacolejos, guinadas e rugidos da viagem para a zona residencial da cidade. Fallow revia o próprio pai. Um pobre magricela, um sujeitinho triste, era no que se transformara, um pobre magricela que tivera um filho chamado Peter, um fracassadozinho que se sentava lá entre seus adereços de boêmio numa casa desmantelada em Canterbury... “E o que sou eu”, pensou Peter, “sentado nesta masmorra sobre rodas na alienada cidade de Nova York, neste país de doidos? Ansiando por um drinque, ansiando por um drinque...” Mais uma onda de desespero se abateu sobre ele... Baixou os olhos para as lapelas. Podia ver que brilhavam até nessa claridade deplorável. Decaíra... era menos que um boêmio... A palavra horrível surgiu em sua mente: “andrajoso.”

A parada de metrô na esquina da Lexington Avenue com a 77th Street era perigosamente próxima do Leicester’s. Mas isso não era problema. Peter Fallow não ia mais fazer esse jogo. Ao chegar ao alto da escada e pisar na calçada à luz do crepúsculo, procurou visualizar a cena mentalmente, apenas com a finalidade de pôr à prova a sua resolução e rejeitá-la. O madeirame velho, as luminárias de vidro fosco, as luzes do poço por trás do bar e a maneira como iluminavam as fileiras de garrafas, o acotovelamento próprio dos pubs, o calor fragoroso de suas vozes — suas vozes — vozes inglesas... Talvez se bebesse apenas um suco de laranja com ginger ale e quinze minutos de vozes inglesas... Não! Seria firme.

Agora estava diante do Leicester’s, que, para o transeunte inocente, sem dúvida parecia apenas mais um bistrô ou uma trattoria aconchegante do East Side. Por entre os mainéis antigos que emolduravam as vidraças viu rostos de pessoas conversando reunidas às mesas junto às janelas, rostos brancos, agradáveis e felizes, iluminados por lâmpadas amarelo-rosadas. Foi o bastante. Precisava de consolo, de um suco de laranja com ginger ale e de vozes inglesas.

Quando entra no Leicester’s, vindo da Lexington Avenue, a pessoa se depara com um salão cheio de mesas com toalhas de xadrez vermelho, à moda dos bistrôs. Ao longo de uma parede há um grande bar com uma barra de latão para apoiar os pés. A um canto fica uma sala de jantar menor. Nessa sala, sob a janela que se abre para a Lexington Avenue, existe uma mesa em torno da qual podem se espremer oito ou dez pessoas, presumindo que se conheçam. Por hábito implícito essa se tornou a mesa dos ingleses, uma espécie de mesa de clube, onde, à tarde e no início da noite, os ingleses — membros do bon ton londrino que ora vivem em Nova York — vêm e vão, para tomar alguns drinques... e ouvir vozes inglesas.

As vozes! Seu calor e aconchego já eram grandes quando Fallow entrou.

— Alô, Peter!

Era Grillo, o americano, parado entre aqueles que se aglomeravam no bar. Era um sujeito divertido e simpático, mas Fallow já se enchera de americanos por aquele dia. Sorriu e entoou um “Alô, Benny!” e rumou direto para a sala lateral.

Tony Moss estava à Mesa; e Caroline Heftshank; e Alex Britt-Withers, dono do Leicester’s; e St. John Thomas, diretor do museu e negociante de arte; e o namorado de St. John, Billy Cortez, um venezuelano que frequentara Oxford e poderia ser considerado inglês; e Rachel Lampwick, uma das duas filhas de Lorde Lampwick sustentadas por ele em Nova York; e Nick Stopping, o jornalista marxista — stalinista para ser mais exato — que vivia principalmente dos artigos em que elogiava os ricos, publicados em House & Garden, Art & Antiques e Connoisseur. A julgar pelos copos e garrafas, a Mesa estava em atividade havia algum tempo, e logo começariam a procurar um pato, a não ser que Alex Britt-Withers, o dono... não, Alex nunca perdoava a conta.

Fallow sentou-se e anunciou que estava começando vida nova e só queria um suco de laranja com ginger ale. Tony Moss quis saber se isso significava que parara de beber ou parara de pagar. Fallow não se importou, porque a piada vinha de Tony, de quem gostava, por isso riu e disse que na realidade o dinheiro de ninguém teria serventia aquela noite porque o generoso anfitrião, Alex, estava sentado à Mesa. Ao que Alex respondeu:

— E suspeito que o seu terá menos serventia do que o dos outros.

Caroline Heftshank disse que Alex ferira os sentimentos de Fallow, e Fallow confirmou que era verdade e naquelas circunstâncias era forçado a mudar de ideia. Pediu ao garçom para lhe servir uma vodca southside. Todos riram, porque isso era uma alusão a Asher Herzfeld, uma americana, herdeira da fortuna da indústria de vidros Herzfeld, que discutira violentamente com Alex na noite anterior porque ele não lhe arranjara uma mesa. Herzfeld sempre deixara os garçons malucos pedindo aquele veneno americano, vodca southside, que era preparado com hortelã e em seguida reclamava que a hortelã não estava fresca. Isto predispôs a Mesa a contar histórias de Herzfeld. St. John Thomas, na sua voz mais aflautada, contou que fora jantar no apartamento de Herzfeld na Fifth Avenue e Herzfeld insistira em apresentar os convidados a seus quatro empregados, o que constrangera os empregados e aborrecera os convidados. Ele estava certo de ter ouvido o jovem criadinho sul-americano dizer: “Bom, então por que não vamos todos jantar na minha casa?”, o que provavelmente teria sido uma noite muito mais divertida, na opinião de St. John.

— Bom, teria sido ou não? — perguntou Billy Cortez, com um toque de sincera censura. — Tenho certeza de que aceitou o convite. Por sinal, um porto-riquenho espinhento.

— Não é porto-riquenho — corrigiu St. John. — Peruano. E não é espinhento.

Agora a Mesa entrava no prato principal, como era costume dos americanos. Os americanos, com o seu senso pervertido de culpa, estavam sempre apresentando convidados aos empregados, principalmente “gente como Herzfeld”, comentou Rachel Lampwick. Então falaram das esposas, as esposas americanas que exerciam um controle tirânico sobre os maridos. Nick Stopping informou que descobrira por que os empresários americanos em Nova York gastavam tantas horas para almoçar. Era o único momento em que conseguiam se livrar das esposas para ter relações sexuais. Ia escrever um artigo chamado “Sexo ao meio-dia” para Vanity Fair. Não deu outra, o garçom trouxe uma vodca southside para Fallow e, em meio a muitos risos e brindes e reclamações a Alex sobre o estado da hortelã, ele bebeu o drinque e pediu mais um. Era de fato muito gostoso. Alex deixou a Mesa para ver como iam as coisas no salão, e Johnny Robertson, o crítico de arte, apareceu e contou uma história engraçada sobre um americano que insistia em chamar o ministro do Exterior italiano e a esposa pelos primeiros nomes, na abertura do show de Tiepolo, na noite anterior, e Rachel Lampwick contou a do americano que foi apresentado ao pai dela — “Esse é Lorde Lampwick” — e ele disse: “Oi, Lloyd.” “Mas os professores de universidade americanos ficam terrivelmente magoados se alguém se esquece de chamá-los de doutor”, disse St. John, e Caroline Heftshank queria saber por que os americanos insistiam em escrever o endereço do remetente na frente do envelope, e Fallow pediu mais uma vodca southside, e Tony e Caroline perguntaram por que não pediam outra garrafa de vinho. Fallow disse que não se importava que os americanos o chamassem pelo nome de batismo, se ao menos não insistissem em abreviá-lo para Pete. Todos os ianques em The City Light chamavam-no de Pete, e chamavam Nigel Stringfellow de Nige, e também usavam gravatas regimentais falsas que saltavam do peito de suas camisas, de modo que todas as vezes que via uma dessas gravatas gritantes, isso provocava uma cadeia estímulo-resposta e ele se preparava para o “Pete”. Nick Stopping contou que jantara uma noite na casa de Stropp, o banqueiro de investimentos, na Park Avenue, e a filhinha de quatro anos de Stropp com a segunda esposa entrou na sala de jantar puxando um caminhãozinho em que havia um montinho de fezes humanas frescas — isso mesmo, fezes! dela, imagine-se, e a menina rodeou a mesa três vezes, e nem Stropp nem a esposa fizeram nada além de sacudir a cabeça e sorrir. Isso não exigia maiores comentários, porque a indulgência melosa dos ianques com os filhos era bem conhecida, e Fallow pediu mais uma vodca southside e brindou à ausência de Asher Herzfeld, e todos pediram mais bebida.

Agora Fallow começou a perceber que pedira bebidas no valor de vinte dólares, que não pretendia pagar. Como se unidos pelo inconsciente coletivo de Jung, Fallow, St. John, Nick e Tony tomaram consciência de que chegara a hora do pato. Mas que pato?

Foi Tony, finalmente, que exclamou:

— Alô, Ed!

Com o sorriso mais caloroso possível no rosto, ele começou a chamar um homem alto para a Mesa. Era um americano, bem-vestido, bonitão até, com feições aristocráticas e um rosto bonito, corado, liso e orvalhado como um pêssego.

— Ed, quero que conheça Caroline Heftshank. Caroline, esse é o meu bom amigo Ed Fiske.

Como vais por todos os lados à medida que Tony apresentava o jovem americano à mesa. Então Tony anunciou:

— Ed é o príncipe do Harlem.

— Ah, corta essa — disse Ed Fiske.

— É verdade! — confirmou Tony. — Ed é a única pessoa que conheço que pode andar por todo o Harlem, no sentido do comprimento e da largura, pelas ruas, pelos becos, na alta sociedade, nos bares da moda, sempre que queira, onde queira, a qualquer hora, de dia ou de noite, e ser absolutamente bem-vindo.

— Tony, isso é um terrível exagero — interpôs o sr. Ed Fiske, corando, mas também sorrindo de uma forma que indicava que não era um exagero absurdo. Sentou-se e foi encorajado a pedir uma bebida, o que fez.

— O que está acontecendo no Harlem, Ed?

Corando mais um pouco, o sr. Ed Fiske confessou ter estado no Harlem naquela mesma tarde. Sem mencionar nomes, contou o seu encontro com um indivíduo com quem tinha a delicada missão de insistir que devolvesse uma grande quantia, 350 mil dólares. Contou a história de forma hesitante e um tanto incoerente, uma vez que teve o cuidado de não salientar o fator cor nem de explicar por que havia tanto dinheiro envolvido — mas os ingleses prestavam atenção a cada palavra com rostos embevecidos e sorridentes, como se ele fosse o contador de casos mais brilhante que tinham encontrado no Novo Mundo. Casquinavam, riam, repetiam as perguntas de suas frases, como o coro de um musical de Gilbert e Sullivan. O sr. Ed Fiske não parava de falar, ganhando cada vez mais confiança e fluência. A bebida atingira o alvo. Ele desfiou as histórias mais seletas e fantasiosas que conhecia do Harlem. Que rostos ingleses cheios de admiração à volta dele! Como sorriam! Eles realmente apreciavam a arte de conversar! Com uma generosidade displicente pediu uma rodada de bebidas para a Mesa, e Fallow tomou mais uma vodca southside, e o sr. Ed Fiske falou de um homem alto e ameaçador, apelidado Buck, que usava um enorme brinco de ouro, como um pirata.

Os ingleses tomaram as bebidas, e então, um a um, foram saindo, primeiro Tony, depois Caroline, depois Rachel, depois Johnny Robertson, depois Nick Stopping. Quando Fallow disse baixinho: “Com licença, um instantinho” e se levantou, só restavam St. John Thomas e Billy Cortez, e Billy estava puxando a manga de St. John, porque agora descobrira mais do que um toque de sinceridade no olhar embevecido que St. John lançava a esse rapaz bonito e aparentemente rico de tez aveludada.

Do lado de fora, na Lexington Avenue, Fallow ficou imaginando o tamanho da conta que em breve seria apresentada ao jovem sr. Fiske. Sorriu no escuro, beatificamente alto. Chegaria a quase duzentos dólares. Sem dúvida ele a pagaria sem reclamar, o pobre pato.

Os ianques. Deus do céu.

Só faltava resolver o problema do jantar. O jantar no Leicester’s, mesmo sem vinho, custava no mínimo quarenta dólares por pessoa. Fallow se dirigiu a um telefone público na esquina. Havia o tal Bob Bowles, o editor de revista americano... Daria certo. A mulher magricela com quem ele vivia, Mona de Tal, era quase insuportável, mesmo quando estava calada. Mas tudo na vida tinha seu preço, não tinha?

Entrou na cabine e inseriu uma moeda de 25 cents na ranhura. Se tivesse sorte estaria de volta ao Leicester’s dentro de uma hora, comendo seu prato favorito, o paillard de frango, que era particularmente saboroso com vinho tinto. Gostava de Vieux Galouches, um vinho francês que vinha numa garrafa com um gargalo excêntrico, o melhor.