A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 29 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 28

28

DE PARTIDA PARA UM LUGAR MELHOR

 

— Ouça, Sherman. Acha que ela honestamente se importa se você é um cavalheiro ou qualquer outra coisa a essa altura? Acha que vai prejudicar voluntariamente os interesses dela para ajudá-lo? Ela nem mesmo fala com você, droga.

— Não sei.

— Eu sei. Ainda não percebeu o quadro? Ela se casou com Ruskin, droga, e o que é que acha que sentia por ele? Aposto como estudou as tabelas de seguros. Certo? Aposto como estudou mesmo as porras das tabelas de seguros.

— Talvez tenha razão. Mas isso não desculpa nada que eu faça. É de um funeral que estamos falando, o funeral do marido dela!

Killian riu.

— Pode chamar de funeral se quiser. Mas para ela é noite de Natal.

— Mas fazer isso a uma viúva no dia do funeral do marido, praticamente em cima do cadáver dele!

— Tudo bem. Vamos colocar a coisa de outro modo. O que é que você quer, uma medalha de ouro por ética... ou o seu próprio funeral?

Killian estava com os cotovelos apoiados nos braços da cadeira, à escrivaninha. Curvou-se para a frente e enviesou a cabeça como se dissesse: “O que você disse, Sherman? Não estou ouvindo.”

E, naquele instante, Sherman teve uma visão daquele lugar e deles. Se tinha que ir para a prisão, mesmo por alguns meses — para não falar de anos...

— Essa é a única vez que você sabe que vai vê-la — disse Killian. — Ela tem que aparecer na porra do funeral do cara. Vai se defrontar com você e com dez como você para o acerto de contas ao final.

Sherman baixou os olhos e disse:

— Tudo bem. Farei o que quer.

— Acredite-me — continuou Killian —, é perfeitamente legal e, nas circunstâncias, perfeitamente justo. Você não está fazendo nada contra Maria Ruskin. Está se protegendo. Tem todo o direito.

Sherman ergueu os olhos para Killian e assentiu com a cabeça, como se estivesse concordando com o fim do mundo.

— É melhor começarmos — disse Killian — antes que Quigley saia para almoçar. Ele faz todas as nossas instalações.

— Faz isso tantas vezes assim?

— Estou lhe dizendo, é o procedimento padrão, atualmente. Não anunciamos publicamente, mas fazemos isso o tempo todo. Vou chamar Quigley.

Killian se levantou e saiu pelo corredor. O olhar de Sherman vagou pelo horroroso interior fechado da salinha. Que lugar indizivelmente intimidador! No entanto, ali se encontrava. Era o seu último reduto. Estava sentado ali, de livre e espontânea vontade, esperando que instalassem fios elétricos para roubar, por meio do mais indecente ardil, o testemunho de alguém a quem amava. Acenou com a cabeça, como se houvesse mais alguém na sala, e esse aceno dizia: “É, mas isso é o que vou fazer.”

Killian voltou com Quigley. Acima da cintura de Quigley havia um coldre e do lado esquerdo um revólver calibre 38 com o punho voltado para a frente. Entrou trazendo uma espécie de malinha de executivo. Sorriu para Sherman de uma maneira inesperada e profissional.

— Muito bem — disse Quigley a Sherman —, terá que tirar a camisa.

Sherman fez o que ele mandou. A vaidade física de um macho não conhece limites. A preocupação imediata de Sherman foi que os contornos de seus músculos peitorais, abdominais e tríceps saltassem o suficiente para que esses dois homens se impressionassem com o seu físico. Por um instante isso se sobrepôs a todo o resto. Sabia que se esticasse os braços para baixo como se estivesse apenas mantendo-os retos ao longo do corpo, os tríceps se flexionariam.

Quigley anunciou:

— Vou instalar o gravador na curva lombar. Você vai usar um paletó por cima, certo?

— Certo.

— Muito bem. Então não haverá problema.

Quigley se abaixou sobre um joelho, abriu a malinha, retirou a fiação e o gravador, que tinha o tamanho aproximado de um baralho. O microfone era um cilindro cinzento do tamanho de uma borracha, dessas com cinta de metal na ponta de um lápis comum. Primeiro, ele prendeu o gravador nas costas de Sherman com esparadrapo. Em seguida prendeu o fio em torno da cintura, das costas para a frente, subindo pelo abdômen até a depressão entre os músculos peitorais, logo acima do esterno, onde conectou o microfone.

— Está ótimo — disse. — Ficou bem escondido. Não vai aparecer nada, principalmente se você usar uma gravata.

Sherman aceitou isso como um elogio. “Bem escondido... entre os cômoros maciços dos meus viris músculos peitorais.”

— Muito bem — disse Quigley —, pode vestir a camisa; vamos testar.

Sherman tornou a vestir a camisa, a gravata e o paletó.

Bom... agora estava com a fiação pronta. Contatos frios de metal na curva da coluna lombar e sobre o esterno... Tinha se tornado aquele animal asqueroso... o... o... Mas “asqueroso” era apenas uma palavra, não era? Agora que se transformara de fato naquele bicho, já não sentia realmente nem uma pontada de culpa. O medo remapeara sua geografia moral muito depressa.

— Muito bem — disse Killian. — Agora vamos repassar o que vai dizer. Só vai precisar de algumas afirmações dela, mas tem que saber exatamente como vai extraí-las. Certo? Então vamos começar.

Ele indicou uma cadeira de plástico branco, e Sherman se sentou para aprender a máscula arte de armar uma arapuca. “Não é arapuca”, disse de si para si. “É a verdade.”

Harold A. Burns, na Madison Avenue, era a casa funerária mais elegante de Nova York há muitos anos, mas Peter Fallow nunca pusera os pés naquele lugar. As portas duplas verde-escuras eram ladeadas por um par de imponentes pilastras. O vestíbulo não tinha mais que 4 metros de largura. Contudo, no momento em que entrou, Fallow tomou consciência de uma sensação esmagadora. A iluminação do espaço exíguo era intensíssima, tão intensa que nem quis procurar de onde vinha, com medo de ficar cego. Um senhor calvo de terno cinza-escuro estava parado no vestíbulo. Entregou a Fallow um programa e disse:

— Por favor, assine o livro.

Havia uma estante, em que se encontravam um grande livro e uma caneta esferográfica presa a uma corrente de latão. Fallow acrescentou seu nome à lista.

À medida que seus olhos se acostumavam à luz, percebeu que havia um grande portal ao fundo do vestíbulo e que alguém o observava. Não alguém, diversas pessoas... não diversas, mas... dezenas delas! O portal se abria para um pequeno lance de escadas. Tantos olhos fixos nele! Os acompanhantes estavam sentados no que parecia o santuário de uma capelinha, e todos o observavam. Os bancos estavam voltados para um palco, onde se realizaria o serviço religioso e ao pé do qual descansava o caixão do falecido. O vestíbulo era um segundo palco, lateral, e virando a cabeça os acompanhantes podiam ver cada pessoa que chegava. E todos viravam a cabeça. Mas, claro! Isso era Manhattan. O Upper East Side! O querido morto, que repousa naquela urna ali à frente? Ai de nós, o pobre-diabo se finou, morreu e partiu. Mas os que estão vivos e bem-dispostos — ah! — aí sim, temos alguma coisa. Eles ainda ardem com a bela wattagem social da cidade! Não quem parte, mas quem chega! Vamos a todo custo iluminá-los e medir sua luminosidade!

E não paravam de chegar, o barão Hochswald, Nunnally Voyd, Bobby Shaflett, Red Pitt, Jackie Balch, os Bavardages, todos sem faltar um, toda a população que aparece em negrito nas colunas sociais, pisando no vestíbulo ofuscante de luz com rosto tão apropriadamente circunspecto que faziam Fallow ter vontade de rir. Solenemente registravam os nomes no livro. Iria dar uma boa olhada naquela lista de autógrafos antes de sair.

Logo a casa estava apinhada. Um sussurrar perpassou os acompanhantes. A porta a um lado do palco se abriu. As pessoas começaram a se erguer das cadeiras para ver melhor. Fallow semiergueu-se.

Bom, ali estava ela — ou pelo menos Fallow presumia que fosse ela. À frente do cortejo vinha... a Morena Misteriosa, a Viúva de Ruskin. Era uma mulher elegante e usava um tailleur de seda preta de mangas compridas com ombros enormes, uma blusa de seda preta, e um chapéu preto no estilo de um fez, de onde saía um farto véu preto. Aquele traje ia custar ao espólio o preço de algumas passagens para Meca. Acompanhavam-na meia dúzia de pessoas. Duas eram os filhos do primeiro casamento de Ruskin, um par de homens de meia-idade, cada um deles suficientemente idoso para ser pai de Maria Ruskin. Havia uma senhora quarentona que Fallow presumiu ser a filha de Ruskin com a segunda esposa. E uma velha, talvez a irmã de Ruskin, e mais duas mulheres e dois homens que Fallow não conseguia imaginar quem fossem. Sentaram-se no primeiro banco, junto ao caixão.

Fallow sentara-se do lado da sala oposto à porta por onde Maria Ruskin entrara e por onde poderia desaparecer ao fim do serviço religioso. Talvez isso exigisse um pouco de grosseira agressividade jornalística. Pôs-se a imaginar se a Viúva Ruskin teria contratado algum tipo de guarda-costas para a ocasião.

Uma figura alta, magra, muito buliçosa subiu os quatro ou cinco degraus até o palco principal e se encaminhou para a estante. Estava elegantemente vestido para o funeral, com um jaquetão marinho, gravata preta, camisa branca e sapatos pretos de bico fino. Fallow consultou o programa. Era aparentemente um homem chamado B. Monte Griswold, diretor do Metropolitan Museum. Ele tirou do bolso interno um par de óculos para perto, espalhou algumas folhas de papel na estante, baixou os olhos, ergueu-os, tirou os óculos, parou, e disse numa voz um tanto aflautada:

— Estamos aqui reunidos não para chorar Arthur Ruskin, mas para comemorar a sua vida... cheia e generosa.

Isso fez Fallow se arrepiar — a propensão que os americanos tinham para os discursos pessoais e sentimentais. Os ianques não conseguiam deixar nem os mortos partirem com dignidade. Todos na capela podiam ir se preparando. Dava para sentir a coisa vindo, o pathos despropositado, as colheradas transbordantes de alma. Era suficiente para fazer um inglês voltar para o seio da Igreja Anglicana, onde a morte e todas as contingências importantes da vida eram tratadas no terreno elevado do Divino, uma eminência invariável e admiravelmente formal.

Os oradores que se encarregaram do elogio fúnebre de Ruskin não foram menos imbecis e deselegantes do que Fallow imaginara que seriam. O primeiro foi um senador dos Estados Unidos por Nova York, Sidney Greenspan, cujo sotaque era excepcionalmente vulgar, mesmo para os padrões americanos. Salientou a generosidade de Arthur Ruskin com o United Jewish Appeal, uma nota infeliz diante da circunstância há pouco revelada de que seu império financeiro fundara-se no transporte de muçulmanos para Meca. O senador foi seguido por um dos sócios de Ruskin, Raymond Radosz. Ele começou de maneira bastante agradável contando uma história do período em que os dois estavam quase falidos, mas desembocou numa tangente constrangedora sobre as glórias da holding que possuíam, a Rayart Equities, que manteria vivo o espírito de Artie — chamava-o de Artie —, enquanto os empréstimos flutuassem e as debêntures permanecessem conversíveis. Depois veio um pianista de jazz, “o favorito de Arthur”, chamado Manny Leerman, para tocar um pot-pourri das “músicas preferidas de Arthur”. Manny Leerman era um ruivo gordo que usava um jaquetão azul como um ovo de tordo, que ele desabotoou muito à vontade depois de se sentar ao piano, de modo que a gola do paletó não subisse além da linha do colarinho. As músicas preferidas de Arthur eram “September in the rain”, “The day, isn’t long enough” (“When I’m with you”) e “O voo do besouro”. Essa última foi executada pelo rubicundo pianista de maneira vibrante, mas não impecável. E encerrou o espetáculo girando o banquinho do piano 180 graus, antes de se dar conta de que não se encontrava num clube e que não devia se curvar para agradecer. Abotoou o jaquetão antes de se retirar do palco.

Então chegou a vez do orador principal, Hubert Birnley, o astro de cinema, que resolveu que faltava um toque leve e uma referência ao lado humano de Arthur, o grande financista e capitão dos fretamentos do mundo árabe. Atolou com um relato que dependia em sua maior parte da compreensão que se tivesse dos problemas com filtros de piscina em Palm Springs, Califórnia. E se retirou do palco enxugando os cantos dos olhos com um lenço.

O último orador do programa era o cantor Myron Branoskowitz, da Congregação Schlomoch’om, de Bayside, Queens. Era um rapagão de uns 150 quilos, que começou cantando em hebraico com uma voz forte e clara de tenor. Suas lamentações começaram a crescer em volume. Eram infindáveis e irreprimíveis. Sua voz emitia soluços e vibratos. Se havia uma opção entre terminar uma frase numa oitava mais baixa ou mais alta, ele invariavelmente subia, como um cantor de ópera em um concerto, deliciando-se com seu virtuosismo. Punha lágrimas na voz que teriam constrangido o pior ator de Pagliacci. A princípio, as pessoas ficaram impressionadas. Depois se assustaram quando a voz se avolumou. Em seguida ficaram preocupadas quando o rapaz pareceu inchar como um sapo. E agora começavam a se entreolhar, cada qual se perguntando se o vizinho estaria pensando a mesma coisa: “Esse garoto não bate bem.” A voz se elevava, se elevava, repicava com uma nota que por pouco não era um yodel antes de cair para uma escala mais grave com uma lacrimosa cascata de vibratos, e fazer um corte abrupto.

O serviço terminou. A plateia descansou, mas Fallow não. Esgueirou-se para o corredor e, curvando-se ligeiramente, começou a andar depressa em direção ao palco. Estava a dez ou doze fileiras do palco quando uma figura à frente dele fez a mesma coisa.

Era um homem de terno azul-marinho, chapéu de aba caída e óculos escuros. Fallow só teve um vislumbre do perfil... o queixo... Era Sherman McCoy. Sem dúvida usara o chapéu e os óculos para entrar na casa funerária sem ser reconhecido. Contornou os primeiros bancos e se encaixou atrás do pequeno cortejo de familiares. Fallow fez o mesmo. Agora podia ver melhor o perfil. Era de fato McCoy.

Os circunstantes já estavam no rebuliço típico da saída de um serviço de funeral, aliviando a tensão de trinta ou quarenta minutos de respeito obrigatório por um homem rico que, enquanto vivo, não fora especialmente caloroso ou amável. Um funcionário da casa funerária mantinha aberta a portinha lateral para a Viúva Ruskin. McCoy continuava rente aos calcanhares de um homem alto que era, pelo que Fallow via, Monte Griswold, o mestre de cerimônias. Os oradores estavam se reunindo à família ao fundo da cena. McCoy e Fallow eram meros participantes do cortejo fúnebre de ternos azul-marinho e vestidos pretos. Fallow cruzou os braços no peito para esconder os botões dourados do blazer, com medo de que parecessem deslocados.

Não havia problema. O porteiro da casa funerária só estava preocupado em conduzir para dentro quem parecia se encaminhar para dentro. A portinha levava a uma pequena escada ao fim da qual encontrava-se um conjunto de aposentos, que lembrava um apartamentinho. Todos se reuniram numa salinha de recepções decorada com cortinas franzidas e painéis de tecido emoldurados com madeira dourada, no estilo francês do século XIX. Todos apresentavam condolências à viúva, que mal dava para se divisar por trás da parede de ternos azuis. McCoy mantinha-se na periferia, conservando os óculos escuros. Fallow postou-se atrás dele.

Ouvia o burburinho abaritonado de Hubert Birnley falando com a viúva e sem dúvida dizendo coisas perfeitamente corretas e tolas com um sorriso Birnley, triste, mas encantador, no rosto. Agora era a vez do senador Greenspan, com sua voz anasalada dizendo sem dúvida as coisas erradas misturadas com as certas. Então chegou a vez de Monte Griswold, murmurando coisas impecáveis, podia-se ter certeza, e esperando para receber os cumprimentos da viúva por sua habilidade como mestre de cerimônias. Monte Griswold despediu-se da Viúva Ruskin e — pimba! — McCoy estava diante dela. Fallow vinha logo atrás. Vislumbrava as feições de Maria Ruskin pelo véu negro. Jovem e bela! Incomparável! O vestido acentuava-lhe os seios e ressaltava os contornos do ventre. Olhava diretamente para McCoy. Ele estava tão próximo ao rosto dela que Fallow pensou a princípio que ia beijá-la. Mas estava cochichando. A Viúva Ruskin dizia alguma coisa em voz baixa. Fallow chegou mais perto. Estava de tocaia bem atrás de McCoy.

Não conseguia discernir. Uma palavra aqui, outra ali... “direto”... “essencial”... “os dois”... “carro”...

“Carro.” Assim que ouviu essa palavra, Fallow experimentou a sensação que é a vida dos jornalistas. Antes que a mente possa digerir o que os ouvidos acabaram de ouvir, um alarme põe o sistema nervoso em alerta vermelho. Um furo! E um fenômeno nervoso, uma sensação tão palpável quanto qualquer outra registrada pelos cinco sentidos. Um furo!

Droga. McCoy estava sussurrando de novo. Fallow acercou-se ainda mais. “o outro”... “rampa”... “derrapou”...

“Rampa! Derrapou!”

A voz da viúva se elevou.

— Chââmân — parecia que o chamava de Chââmân. — Não podemos falar disso mais tarde? — Então percebeu que estava dizendo “mais tarde”.

Agora era a voz de McCoy que se elevava:

— ... tempo, Maria... “ali comigo: você é minha única testemunha!”

— Não consigo pensar nisso tudo agora, Chââmân. — A mesma voz tensa, terminando com um pequeno soluço na garganta. — Será que não compreende? Não percebe onde está? Meu marido está morto, Chââmân.

Ela baixou os olhos e começou a se sacudir com soluços audíveis. Imediatamente surgiu um homem troncudo e atarracado ao lado dela. Era Raymond Radosz, o que falara durante o serviço.

Mais soluços. McCoy se afastou rapidamente, rumando para a saída. Por um instante, Fallow começou a segui-lo, mas deu meia-volta. A Viúva Ruskin era o fato, agora.

Radosz abraçou a viúva com tanta força que os enormes ombros do seu tailleur de luto vergaram. Ela parecia torta.

— Tudo bem, doçura — disse. — Você é uma garota corajosa, e sei exatamente como se sente, porque eu e Artie passamos muita coisa juntos. Nossa amizade vem de longa, longa data, antes mesmo de você nascer, creio. E posso lhe afirmar uma coisa. Artie teria gostado do serviço religioso. Posso lhe afirmar isso. Teria gostado de ver o senador e todos os outros.

Esperou um elogio.

A Viúva Ruskin refez-se do pesar. Era a única maneira de se livrar do ardente acompanhante.

— Mas especialmente de você, Ray — disse Maria. — Você o conhecia melhor, e soube exatamente como traduzir isso em palavras. Sei que Arthur se sentirá mais tranquilo depois do que você disse.

— Ahhhh, bom, obrigado, Maria. Sabe, era como se eu pudesse ver Artie diante de mim enquanto falava. Não tive que pensar no que ia dizer. Simplesmente saiu.

Dali a pouco ele se retirou, e Fallow se adiantou. A viúva sorriu para ele, um tantinho desconcertada porque não sabia quem era.

— Sou Peter Fallow — disse. — Como talvez saiba, eu estava em companhia de seu marido quando ele morreu.

— Ah, sim — disse, lançando-lhe um olhar zombeteiro.

— Só queria que soubesse — disse Fallow — que ele não sofreu. Simplesmente perdeu a consciência. Aconteceu... — Fallow ergueu as mãos num gesto de desalento — assim. Quero que saiba que tudo o que poderia ter sido feito foi feito, ou pelo menos assim me parece. Tentei uma respiração artificial, e a polícia atendeu com muita presteza. Sei como a pessoa pode ficar imaginando essas coisas, e queria que soubesse. Tínhamos acabado de jantar e de manter uma excelente conversa. A última coisa que me lembro é da maravilhosa risada de seu marido. Com toda a sinceridade devo confessar-lhe que há maneiras piores... foi uma perda terrível, mas não um fim terrível.

— Muito obrigada. O senhor é extremamente gentil em me contar isso. Tenho me censurado por minha ausência quando ele...

— Não deveria — atalhou Fallow.

A Viúva Ruskin ergueu os olhos e sorriu. Ele percebeu o brilho em seus olhos e a curiosa ondulação de seus lábios. Tinha habilidade de dar um toque coquete até nos agradecimentos de viúva.

Sem mudar o tom de voz, Fallow continuou:

— Não pude deixar de reparar que o sr. McCoy estava falando com a senhora.

A viúva sorria com os lábios ligeiramente entreabertos. Primeiro o sorriso murchou. Em seguida os lábios se fecharam.

— De fato, não pude deixar de entreouvir sua conversa — disse Fallow. Então com uma expressão inteligente e afável no rosto e um sotaque escancarado de fim de semana inglês, como alguém que indagasse sobre a lista de convidados para um jantar: — Tenho a impressão de que estava no carro com McCoy quando houve aquele infeliz acidente no Bronx.

Os olhos da viúva se transformaram em duas brasas.

— Tinha esperanças de que talvez pudesse me dizer exatamente o que aconteceu naquela noite.

Maria Ruskin encarou-o por mais um instante e em seguida falou por entre os lábios contraídos:

— Olhe, Sr... Sr...

— Fallow.

— ... Crápula! Estamos no funeral de meu marido, e não o quero aqui. Entendeu? Portanto, dê o fora... e desapareça.

Deu as costas e se acercou de Radosz e de um grupo de ternos azuis e vestidos negros.

Ao se retirar da casa funerária Harold A. Burns, Fallow estava eufórico com o conhecimento que adquirira. A reportagem existia não só em sua mente, mas em sua pele e em seu plexo solar. Fluía como uma corrente elétrica em cada axônio e dendrito de seu corpo. Assim que se sentasse ao processador de texto, a reportagem jorraria de seus dedos... pré-escrita. Não teria que, digamos, pretextar, insinuar, especular que a bela e agora fabulosamente rica, alegre e jovem Viúva Ruskin era a Morena Misteriosa. McCoy dissera: “Ali comigo: minha única testemunha!” A Viúva Ruskin permanecera calada... mas não negara. Tampouco negara quando o jornalista, o grande Fallow, quando eu... quando eu... quando eu... era isso. Escreveria na primeira pessoa. Mais uma exclusiva na primeira pessoa, como “MORTE ESTILO NOVA YORK”, “Eu, Fallow...” santo Deus, ele sentia gula, luxúria, pelo processador de texto! A reportagem vibrava em sua mente, seu coração, suas entranhas.

Mas forçou-se a parar junto ao livro na entrada e a copiar os nomes das famosas personagens que tinham comparecido para apresentar seus respeitos à linda viúva do Capitão dos Fretamentos para Meca sem sequer sonhar com o drama que se desenrolava diante de seu nariz pruriente. Logo saberiam. “Eu, Fallow!”

Fora, na calçada, pouco além do vestíbulo, havia grupos das mesmas personalidades luminosas, a maioria mantendo o tipo de conversa exuberante e sorridente que as pessoas em Nova York não conseguem evitar nas ocasiões que dramatizam a sua posição elevada. Os funerais não eram exceção. O enorme cantor jovem, Myron Branoskowitz, falava com — ou falava para — um homem mais velho de aspecto severo, cujo nome Fallow acabara de copiar do livro: Jonathan Buchman, diretor-geral da Columbia Records. O cantor falava com grande animação. Suas mãos esvoaçavam no ar. A expressão de Buchman era rígida, paralisada pela sonora logorreia que o cantor ejaculava sem parar em seu rosto.

— Não tem problema! — dizia o cantor. Era quase um grito. — Não tem problema nenhum! Já preparei as fitas cassetes! Cantei todos os sucessos de Caruso, um por um! Posso entregá-las no seu escritório amanhã! Tem um cartão?

A última coisa que Fallow viu antes de ir embora foi Buchman puxando um cartão de dentro de uma elegante carteirinha de couro de lagarto, enquanto o cantor Branoskowitz acrescentava, no mesmo tom de tenor declamatório:

— Os de Mario Lanza, também! Fiz Mario Lanza! Quero que os escute também!

— Bom...

— Não tem problema!