A Fogueira das Vaidades
Capítulo 13
13
A ENGUIA LUMINOSA
Kramer e os dois detetives, Martin e Goldberg, chegaram ao Edgar Allan Poe Towers num Dodge sedã standard por volta de 16 horas e 15 minutos. A manifestação estava programada para as 17 horas. O conjunto habitacional fora projetado durante a fase ecológica de erradicação de cortiços. A ideia fora construir edifícios de apartamentos numa área ajardinada onde as crianças pudessem dar cambalhotas e os velhos pudessem se sentar à sombra das árvores ao longo de aleias sinuosas. Na verdade, as brincadeiras infantis tinham partido, cortado ou arrancado as mudas de árvores frondosas, logo no primeiro mês, e qualquer velho que fosse suficientemente tolo para se sentar ao longo das aleias sinuosas ia receber o mesmo tratamento. O conjunto era agora um enorme aglomerado de torres de tijolos fuliginosos assentados numa placa de cinzas e terra batida. Com as ripas de madeira pintadas de verde há muito destruídas, os pés de concreto dos bancos lembravam ruínas antigas. A inchação e o esvaziamento da cidade, causados pelas marés de mão de obra, não produziam sequer uma marola no Edgar Allan Poe Towers, onde a taxa de desemprego era no mínimo de 75 por cento. O lugar não tinha mais vida às 16 horas e 15 minutos do que ao meio-dia. Kramer não divisava vivalma, exceto um pequeno grupo de adolescentes do sexo masculino que passava correndo pelas pichações na base dos edifícios. As pichações pareciam feitas de má vontade. O tijolo fuliginoso, com todas aquelas valetas de argamassa, deprimia até os pichadores juvenis.
Martin reduziu a marcha do carro a um mínimo. Estavam na rua principal, diante do Building A, onde a manifestação supostamente iria se realizar. O quarteirão estava vazio, exceto por um adolescente desengonçado, no meio da rua, que trabalhava na roda de um carro. O carro, um Camaro vermelho, estava embicado numa vaga ao longo da calçada. A traseira do carro avançava pela rua. O garoto usava jeans preto, camiseta preta e tênis listrados. Estava acocorado com uma chave de boca na mão.
Martin parou o carro a menos de três metros dele e desligou o motor. O garoto, ainda acocorado, olhou para o Dodge. Martin e Goldberg estavam no banco dianteiro e Kramer, atrás. Martin e Goldberg ficaram sentados ali, olhando em frente. Kramer não conseguia imaginar o que estavam fazendo. Então Martin desceu do carro. Usava um casaco esporte bege, camisa polo e calça cinza de aparência barata. Caminhou até o rapaz, parou e perguntou:
— O que está fazendo? — E não perguntou educadamente.
Confuso, o garoto respondeu:
— Nada. Ajustando uma calota.
— Ajustando uma calota — retorquiu Martin, com a voz impregnada de insinuações.
— Ééééééééé...
— Você sempre estaciona assim, no meio da porra da rua?
O garoto se levantou. Tinha bem mais de 1,80 metro de altura. E braços longos e musculosos, mãos fortes, segurando numa delas a chave de boca. Boquiaberto, observou Martin, que repentinamente parecia um anão. Os ombros estreitos de Martin pareciam inexistir sob o casaco esporte. Ele não usava distintivo nem qualquer outra insígnia da polícia. Kramer não conseguia acreditar no que presenciava. Estavam ali no South Bronx, a menos de trinta minutos de uma manifestação de protesto contra as falhas da Justiça Branca, e Martin atirava a luva duas vezes desafiando um rapaz negro com uma chave de boca na mão.
Martin inclinou a cabeça para um lado e contemplou o rosto incrédulo sem nem piscar. Aparentemente o rapaz também achou isso muitíssimo estranho porque não se moveu nem fez nenhum gesto. Agora olhava para o Dodge e se descobria vendo a cara grande e carnuda de Goldberg, com fendas no lugar dos olhos e um bigode preto e caído. Então tornou a olhar para Martin e fez uma cara corajosa e zangada.
— Só estou ajustando uma calota, chefe. Não é nada que lhe interesse.
Antes que chegasse à palavra “interesse”, já estava se afastando de Martin a passos que supunha serem descontraídos. Abriu a porta do Camaro, jogou a chave de boca no assento traseiro e no mesmo passo contornou o carro até o lugar do motorista, entrou, deu partida, manobrou para sair da vaga e foi-se embora. O Camaro soltou um ronco. Martin voltou ao Dodge e se sentou atrás do volante.
— Vou recomendá-lo para uma menção por boas relações comunitárias, Marty — comentou Goldberg.
— A sorte do garoto é que não o revistei — disse Martin. Além disso essa era a única vaga na porra do quarteirão.
“E ainda se perguntam por que são odiados no gueto”, pensou Kramer. Todavia, naquele instante ele se admirara... admirara! Ele, Kramer, era suficientemente grande e suficientemente forte para ter lutado com o garoto armado de uma chave de boca e possivelmente poderia tê-lo vencido. Mas teria sido obrigado a fazer isso. Se tivesse confrontado o garoto, a coisa teria chegado na mesma hora à briga. Mas Martin sabia desde o começo que isso não aconteceria. Sabia que alguma coisa em seus olhos faria com que o garoto pressentisse o Tira Irlandês Que Não Recua. Naturalmente não fazia mal algum ter Goldberg sentado ali parecendo o Protótipo do Capanga Cruel, e não fazia mal algum ter um 38 sob o paletó. Mesmo assim, Kramer sabia que não poderia ter feito o que esse absurdo pesinho-pluma da turma fizera, e pela quingentésima vez em sua carreira de promotor distrital assistente no Bronx, ele prestou homenagem silenciosa ao mais misterioso e invejado dos atributos masculinos, o machismo irlandês.
Martin estacionou o Dodge na vaga que o rapaz desocupara, e os três se recostaram e aguardaram.
— A babaquice impera — disse Martin.
— Ei, Martin — chamou Kramer, orgulhoso de poder chamar pelo nome esse modelo de perfeição —, vocês descobriram quem forneceu a listagem a The City Light?
Sem se virar, Martin respondeu:
— Um dos irmãos — fazendo uma imitação irlandesa do sotaque dos negros. Girou a cabeça ligeiramente e torceu a boca para indicar que era o que se poderia esperar e não havia nada que se pudesse fazer.
— Vocês vão verificar os 124 carros ou o que quer que seja?
— Vamos. Weiss esteve tratando do caso o dia todo.
— Quanto tempo vai levar?
— Três ou quatro dias. Ele designou seis homens. A babaquice impera.
Goldberg se virou e perguntou a Kramer:
— Qual é a do Weiss? Ele realmente acredita nessa merda que lê nos jornais ou o quê?
— Ele só acredita nisso — disse Kramer. — E qualquer coisa que tenha um ângulo racial o deixa doido. Como já expliquei, ele vai se candidatar à reeleição.
— Tudo bem, mas o que o faz pensar que vai encontrar testemunhas nessa manifestação, que é pura babaquice?
— Não sei. Mas foi o que disse a Bernie.
Goldberg sacudiu a cabeça.
— Não sabemos nem o lugar em que a maldita coisa aconteceu. Percebe isso? Marty e eu já corremos o Bruckner Boulevard de uma ponta a outra, e o diabo me carregue se conseguirmos estabelecer onde aconteceu o acidente. Essa foi mais uma coisa que o garoto esqueceu de contar à mãe, quando falou da placa de araque: onde foi que a porra aconteceu.
— Por falar nisso — disse Kramer —, como é que um garoto do conjunto Poe sabe que cara tem um Mercedes?
— Ah, isso eles sabem — disse Martin sem virar a cabeça. — Os cafetões e os vigaristas dirigem Mercedes.
— É — confirmou Goldberg. — Eles nem olham mais para Cadillacs. A gente vê esses garotos com essas coisas, esses enfeites dos capôs de Mercedes pendurados no pescoço.
— Se um garoto daqui quiser inventar um carro de araque para uma história de araque — disse Martin —, Mercedes é o primeiro em que vai pensar. E Bernie sabe disso.
— Bom, Weiss está se dedicando ao caso de Bernie, também — disse Kramer. Deu mais uma espiada lá fora. O gigantesco conjunto habitacional estava tão silencioso que chegava a ser esquisito. — Tem certeza de que esse é o lugar certo, Marty? Não há ninguém aqui.
— Não se preocupe — respondeu Martin. — Eles virão. A babaquice impera.
Não demorou muito, e um furgão de passageiros, cor de bronze, entrou no quarteirão e parou na frente deles. Uns doze homens desceram. Eram todos negros. A maioria usava camisas azuis de operário e calça de trabalho. Pareciam estar na casa dos vinte, talvez trinta. Um deles se destacava por ser muito alto. Tinha um perfil anguloso, um grande pomo de adão e usava um brinco de ouro em uma orelha. Disse alguma coisa para os outros, e começaram a tirar barras de madeira do furgão. Eram os paus para prender os cartazes. Empilharam os cartazes na calçada. Metade dos homens se encostou no furgão e começou a conversar, fumando cigarros.
— Já vi aquele veado alto em algum lugar — comentou Martin.
— Também acho que já o vi — confirmou Goldberg. — Ora, merda, é claro. É um dos veados do Bacon, o que chamam de Buck. Estava naquela manifestação em Gun Hill também.
Martin se endireirou no assento.
— Tem razão, Davey. É o mesmo veado. — Observou o homem do outro lado da rua. — Eu realmente gostaria de... — Falava como se sonhasse. — Por favor, veado, por favor, faça só uma besteirinha, veado... Estou saindo.
Martin desceu do Dodge, parou na calçada e muito ostensivamente começou a girar os braços e os ombros, como um lutador descontraindo os músculos. Então Goldberg saltou. Kramer saltou também. Os manifestantes do outro lado da rua começaram a observá-los.
Agora um deles, um rapaz de físico musculoso, camisa azul de operário e jeans azul, começou a atravessar a rua, gingando, e se acercou de Martin.
— Eh! — chamou. — Você é da TV?
Martin baixou o queixo e sacudiu a cabeça dizendo não, muito lentamente, de um jeito que era pura ameaça.
O negro mediu-o com os olhos e perguntou:
— Então de onde é, Jack?
— Jump City, Agnes — respondeu Martin.
O rapaz tentou franzir o cenho, depois tentou sorrir, mas não conseguiu nada com isso, a não ser um rosto cheio de desprezo irlandês. Ele deu as costas, atravessou de volta a rua e disse alguma coisa para os outros, e o que se chama Buck encarou Martin. Martin o encarou de volta com um par de lasers irlandeses. Buck virou a cabeça e reuniu quatro ou cinco dos outros em volta dele para conferenciar. De tempos em tempos davam uma olhada em Martin.
O impasse já durava alguns minutos, quando mais um furgão chegou. Desceram alguns jovens brancos, sete homens e três mulheres. Pareciam estudantes universitários, com a exceção de uma mulher de longos e crespos cabelos louro-cinza.
— Eh, Buck! — gritou. Caminhou até onde estava o homem alto de brinco de ouro e estendeu as duas mãos sorrindo francamente. Ele tomou as mãos dela, embora sem muito entusiasmo, e disse:
— Ei, como vai, Reva? — A mulher o puxou para perto, beijou-o em uma face e em seguida na outra.
— Ah, tem dó, porra — disse Goldberg. — Aquela galinha.
— Você a conhece? — perguntou Kramer.
— Sei quem é. É uma porra de uma comunista.
Então a mulher branca, Reva, se virou e disse alguma coisa, e um branco e uma branca voltaram ao furgão e retiraram mais cartazes.
Pouco depois um terceiro furgão chegou. Mais nove ou dez brancos desceram, homens e mulheres, a maioria jovens. Tiraram um grande rolo de tecido do furgão e o abriram. Era uma faixa. Kramer conseguiu discernir os dizeres: O PUNHO GAY GOLPEIA O RACISMO.
— Que diabo é aquilo?! — exclamou.
— São as lesbos e os gaybos — informou Goldberg.
— Que estão fazendo aqui?
— Estão em todas. Devem gostar do ar fresco. Eles realmente agitam as coisas.
— Mas qual é o interesse deles nesse caso?
— Não me pergunte. A unidade dos oprimidos, é como chamam. Se qualquer desses grupos precisa de gente para fazer número, eles se apresentam.
Com isso, agora havia umas duas dúzias de manifestantes brancos e uma dúzia de negros à vontade, batendo papo e armando cartazes e faixas.
Agora chegava um carro. Dois homens desceram. Um deles carregava duas máquinas fotográficas com as correias passadas pelo pescoço e uma mochila com o logotipo THE CITY LIGHT. O outro era um homem alto, lá pelos trinta anos, o nariz comprido e cabelos louros que brotavam de um bico de viúva. Sua pele clara estava manchada de vermelho. Usava um blazer azul de corte incomum, e aos olhos de Kramer, estrangeiro. Aparentemente sem razão, ele de repente se jogou para a esquerda. Parecia estar em agonia. Ficou paralisado na calçada, meteu um caderno de espiral sob o braço esquerdo, fechou os olhos e apertou as têmporas com as duas mãos, massageou-as durante muito tempo, em seguida abriu os olhos, contraiu-os, piscou e olhou em volta.
Martin começou a rir.
— Olhe só para aquela cara. Parece um tonel de polpa de centeio. O sujeito está com uma ressaca tão braba que parece que está cozinhando no próprio molho.
Fallow tornou a se jogar para a esquerda. Continuava adernando para bombordo. Alguma coisa estava seriamente errada com o seu sistema vestibular. Estava completamente envenenado, como se o cérebro estivesse envolto em cordas membranosas, como se fiapos das membranas de uma laranja, e cada contração do coração, apertassem as cordas, e o veneno fosse espremido para dentro do seu sistema. Sua cabeça já latejara antes, mas essa era uma dor de cabeça tóxica, extremamente peçonhenta...
Onde estava a multidão? Teriam vindo para o lugar errado? Parecia haver um punhado de negros e uns vinte estudantes brancos parados ali. Uma enorme faixa dizia O PUNHO GAY. O Punho Gay? Temera a ideia de barulho e confusão, mas agora se preocupava com o silêncio.
Na calçada, um pouco adiante, encontrava-se o mesmo negro alto com um brinco de ouro que levara ele e Vogel ali dois dias antes. Fechou os olhos. Vogel o levara para jantar no Leicester’s, na noite anterior, como uma espécie de comemoração (pagamento?) pela publicação da reportagem... Tomara uma vodca southside... e mais outra... O focinho do monstro! — iluminado por um lampejo azul-rádio! Tony Stalk e Caroline Heftshank chegaram e se sentaram, e Fallow tentou se desculpar pelo que acontecera com o jovem amigo dela, Chirazzi, o artista, e Caroline lhe deu um sorriso estranho e disse que ele não devia se preocupar com isso, e tomara outra vodca southside, e Caroline não parava de beber Frascati e de dar gritinhos agudos para Britt-Withers de um jeito muito tolo, e finalmente ele se aproximou, e ela desabotoou sua camisa e puxou o cabelo do peito dele com tanta força que ele praguejou, e então Fallow e Caroline estavam no escritório de Britt-Withers no andar de cima, onde Britt-Withers mantinha um bull terrier de olhos aguados numa coleira, e Caroline continuava a olhar para Fallow com aquele sorriso estranho, e ele tentou desabotoar-lhe a blusa, e ela riu dele e lhe deu palmadinhas no traseiro, desdenhosamente, mas isso o deixou doido, e — uma marola! — o monstro mexeu-se nas profundezas geladas! — e ela curvou o dedo chamando-o, e ele sabia que estava caçoando dele, mas mesmo assim atravessou o escritório, e havia uma máquina — alguma coisa sobre uma máquina e um lampejo azul-rádio — debatendo-se! buscando a superfície! — uma nadadeira de borracha — podia quase ver agora — quase! —, e ela caçoava dele, mas ele não se importava, e ela não parava de apertar alguma coisa, e o azul-rádio lampejou de dentro para fora, e ouvia-se um zumbido esmerilhante e ela se abaixou e o apanhou — mostrou — ele quase podia ver — não havia como impedir — o monstro rompeu a superfície e o encarou em cheio com o focinho nojento — e era como uma tábua emoldurada por uma aura de rádio contra um fundo negro, e o monstro continuava a encará-lo, e ele queria abrir os olhos e ir embora, mas não conseguia, e o bull terrier começou a rosnar, e Caroline já não olhava para ele, nem para mostrar seu desprezo, e então ele a tocou no ombro, mas ela de repente estava ocupada, e a máquina não parava de esmerilhar e zumbir e esmerilhar e zumbir e soltar lampejos azul-rádio, e então ela segurava uma pilha de fotografias na mão e correu escada abaixo para o restaurante, e ele continuava a adernar para um lado, e então um pensamento terrível lhe ocorreu. Ele desceu correndo a escada, que era uma espiral fechada, e isso o deixou ainda mais tonto. No salão do restaurante, tantos rostos calorosos e dentes agitados! — e Caroline Heftshank estava parada junto ao bar mostrando as fotografias a Cecil Smallwood e Billy Cortez, e então havia fotografias por todo lado, e ele estava abrindo caminho por entre as mesas e as pessoas agarravam as fotografias...
Ele abriu os olhos e tentou mantê-los abertos. O Bronx, o Bronx, estava no Bronx. Encaminhou-se para o homem com o brinco de ouro, Buck. Continuava a adernar para bombordo. Sentia-se tonto. Ficou imaginando se sofrera um enfarte.
— Alô — disse a Buck. Pretendera ter sido animado, mas o cumprimento saiu num arquejo. Buck olhou-o sem esboçar qualquer indicação de conhecê-lo. Então ele disse: — Peter Fallow, de The City Light.
— Ah, ei, como vai, irmão! — O tom do negro era agradável, mas não entusiástico. O autor dos furos brilhantes de The City Light esperava entusiasmo. O negro retomou a conversa com a mulher.
— Quando começa a manifestação? — perguntou Fallow.
Buck ergueu os olhos distraidamente.
— Assim que o Canal 1 chegar. — Mal pronunciou a palavra “chegar” e já estava de novo olhando para a mulher.
— Mas onde estão as pessoas?
Ele encarou Fallow e parou de falar, como se tentasse avaliá-lo.
— Estarão aqui... assim que o Canal 1 chegar. — Usou o tom de voz que se usa com alguém que não tem culpa de ser burro.
— Compreendo — disse Fallow, que não conseguia compreender nada. — Quando, hum, como disse, o Canal 1 chegar, hum... o que vai acontecer?
— Dê a nota para o homem, Reva — disse Buck. Uma mulher veemente, de aspecto alucinado, escarafunchou uma grande sacola de vinil a seus pés, na calçada, e lhe entregou duas folhas de papel grampeadas. A folha que era xerocopiada — xerocopiada! Azul-rádio! O focinho! — tinha o timbre da Aliança dos Povos Americanos. Um título, datilografado em maiúsculas, dizia: “O POVO EXIGE AÇÃO NO CASO LAMB”.
Fallow começou a ler, mas as palavras se juntavam como um picadinho de carne diante do rosto dele. Nesse momento um rapaz branco e sacudido se materializou. Estava usando um paletó de tweed espantosamente deselegante.
— Neil Flannagan, do Daily News — disse o rapaz sacudido. — O que está acontecendo?
A mulher chamada Reva desencavou mais uma nota. O sr. Neil Flannagan, a exemplo do próprio Fallow, estava acompanhado de um fotógrafo. O sacudido sr. Flannagan nada tinha a dizer a Fallow, mas os dois fotógrafos se enturmaram na mesma hora. Fallow podia ouvi-los reclamar da tarefa. O fotógrafo de Fallow, um homenzinho odioso que usava um boné, não parava de usar a expressão “bosta”. Era só isso que os fotógrafos dos jornais americanos pareciam falar com algum prazer, do seu desagrado ao serem mandados sair da redação para tirar fotos. A dúzia de manifestantes, entrementes, mantinha-se claramente insensível à presença dos representantes de dois dos tabloides da cidade, The City Light e Daily News. Continuavam a perambular em torno do furgão, e sua ira, se é que havia alguma, contra as injustiças sofridas por Henry Lamb, estava bem contida.
Fallow tentou ler mais uma vez a nota à imprensa mas não tardou a desistir. Olhou à volta. O conjunto Poe Towers permanecia tranquilo; anormalmente tranquilo, considerando-se o seu tamanho. Do outro lado da rua estavam parados três homens brancos. Havia um homenzinho de casaco esporte bege, um grandalhão de aparência porcina com um bigode caído, usando um blusão de aquecimento, e um homem que começava a ficar careca, de feições angulosas, usando um terno cinza mal talhado e uma gravata de listras. Fallow ficou imaginando quem eram. Mas queria principalmente dormir. Perguntou-se se seria capaz de dormir em pé, como um cavalo.
Dali a pouco ouviu a mulher, Reva, dizer a Buck:
— Acho que são eles. — Os dois olharam rua abaixo. Os manifestantes se animaram.
Subindo a rua surgiu um grande caminhão branco. Na lateral, em letras garrafais, havia a inscrição CANAL 1 AO VIVO. Buck, Reva e os manifestantes começaram a andar em direção ao caminhão. O sr. Neil Flannagan, os dois fotógrafos e, finalmente, o próprio Fallow saíram atrás deles. O Canal 1 chegara.
O caminhão parou, e do lado do passageiro do banco dianteiro saiu um rapaz com os cabelos escuros bem fofos e crespos, blazer azul-marinho e calça bege.
— Robert Corso — disse Reva, com reverência.
As portas laterais se abriram e dois rapazes de jeans, suéteres e tênis de corrida saltaram. O motorista permaneceu ao volante. Buck apressou-se a recebê-los.
— Eh-h-h-h-h! Robert Corso! Como vai, cara! — Inesperadamente Buck se abriu num sorriso que iluminava a rua.
— Otimo! — respondeu Robert Corso, procurando retribuir o cumprimento com entusiasmo. — Ótimo! — Obviamente não tinha a menor ideia de quem fosse esse negro de brinco de ouro.
— Que quer que a gente faça? — perguntou Buck.
O rapaz sacudido interrompeu-os:
— Ei, Corso, Neil Flannagan, Daily News.
— Ah, oi.
— O que quer que a gente...
— Onde é que vocês têm andado?
— O que quer que a gente...
Robert Corso consultou o relógio.
— São apenas 17 horas e 10 minutos. Só vamos entrar no ar ao vivo às 18 horas. Temos bastante tempo.
— É, mas tenho que terminar até as 19 horas.
— O que quer que a gente faça? — insistiu Buck.
— Bom... ei! — disse Robert Corso. — Não sei. O que fariam se eu não estivesse aqui?
Buck e Reva o olharam com sorrisinhos sem graça, como se ele estivesse brincando.
— Onde estão o reverendo Bacon e a sra. Lamb? — perguntou Robert Corso.
— No apartamento da sra. Lamb — informou Reva. Fallow não gostou. Ninguém se preocupara em lhe dar essa informação.
— Ei, quando você disser — disse Buck.
Robert Corso sacudiu a cabeça fofa. Resmungou:
— Ora, bolas, não posso organizar a coisa para você. — E para Buck: — Vai demorar um pouquinho até montarmos o equipamento. Acho que a calçada é o melhor lugar. Quero pegar os prédios ao fundo.
Buck e Reva puseram-se a trabalhar. Desandaram a gesticular e a dar instruções aos manifestantes, que agora voltavam até os furgões e começavam a apanhar os cartazes empilhados na calçada. Algumas pessoas começaram a acorrer à cena, vindas do Poe Towers.
Fallow desistiu de Buck e Reva e se aproximou de Robert Corso.
— Com licença — disse. — Sou Peter Fallow, de The City Light. Será que o ouvi dizer que o reverendo Bacon e a sra. Lamb estão aqui?
— Fallow? — exclamou Robert Corso. — Foi você quem escreveu as reportagens? — Estendeu a mão e apertou a de Fallow com entusiasmo.
— Receio que sim.
— Você é a razão de estarmos neste maldito lugar? — disse com um sorriso de reconhecimento.
— Sinto muito. — Fallow sentiu um calorzinho por dentro. Essa era a espécie de homenagem que ele aguardara· o tempo todo, mas não esperava recebê-la de alguém da TV.
Robert Corso ficou sério.
— Você acha que Bacon está sendo realmente honesto neste caso? Bom, obviamente acha.
— Você não? — perguntou Fallow.
— Diabos, nunca se sabe, com o Bacon. Ele é abominável. Mas, para dizer a verdade, quando entrevistei a sra. Lamb, fiquei impressionado. Ela me pareceu uma boa pessoa: é inteligente, tem emprego certo, um apartamentinho limpo e arrumado. Fiquei impressionado. Não sei... acredito nela. O que você acha?
— Você já a entrevistou? Pensei que estava se preparando para entrevistá-la aqui.
— Bem, estou, mas é só para dar o toque final. Vamos dar o toque final ao vivo às 18 horas.
— Dar o toque final ao vivo... Creio que não entendo de toques finais ao vivo.
O americano porém não percebeu a ironia.
— Bom, o que fazemos é o seguinte: vim aqui com uma equipe hoje à tarde, depois que a sua reportagem saiu. Muito obrigado por isso! Realmente adoro trabalhar no Bronx. Em todo caso, entrevistamos a sra. Lamb, entrevistamos alguns vizinhos, gastamos alguns metros de filme no Bruckner Boulevard e no local em que o pai do rapaz foi assassinado e todo o resto, e em algumas cenas estáticas do rapaz. Com isso já temos a maior parte da reportagem em teipe. Vamos transmiti-la durante uns dois minutos, e o que vamos fazer agora é o seguinte: vamos entrar ao vivo durante a manifestação, passamos o teipe, voltamos a entrar ao vivo e terminamos com um segmento ao vivo. Isso é que é o toque final ao vivo.
— Mas o que é que vai mostrar? Não há ninguém aqui a não ser esses gatos-pingados. A maioria é branca. — Fallow fez um gesto indicando Buck e Reva.
— Ah, não se preocupe. Haverá bastante gente aqui assim que o nosso telescópio subir.
— Seu telescópio...
— Nosso transmissor a distância. — Robert Corso olhou na direção do caminhão. Fallow acompanhou-o com os olhos. Dava para ver dois homens da equipe, de jeans, lá dentro.
— Seu transmissor a distância. Por falar nisso, onde estão os seus concorrentes?
— Nossos concorrentes?
— As outras estações de televisão.
— Ah, nos prometeram uma exclusiva.
— Verdade? Quem?
— Bacon, imagino. Isso é o que não me agrada nessa história. Bacon está sempre manipulando. Ele tem um canal de comunicação direta com o meu produtor, Irv Stone. Conhece Irv?
— Receio que não.
— Já ouviu falar dele.
— Hummm, na verdade, não.
— Ele ganhou uma porção de prêmios.
— Hummmm.
— Irv... bom, Irv é gente fina, mas é um desses velhos filhos da mãe que foi radical universitário na década de 1960, quando se faziam manifestações antibélicas e coisas do gênero. Ele acha que Bacon é um líder romântico do povo. Ele é uma porra de um vigarista, isso é o que eu acho. Mas, em todo caso, ele prometeu a Irv uma exclusiva se fizesse a reportagem ao vivo às 18 horas.
— Isto é muito conveniente. Mas por que faria isso? Por que não iria querer que todas as estações estivessem aqui?
— Porque dessa maneira talvez não conseguisse tirar proveito algum. Aposto com você que todos os dias há vinte ou trinta manifestações ocorrendo em Nova York e estão todos brigando para ganhar uma cobertura. Desse jeito ele sabe que terá um grande destaque. Se nos damos ao trabalho de mandar um caminhão, e transmitimos ao vivo, e se pensarmos que temos exclusividade, então será uma das notícias de maior importância. Será ao vivo, terá destaque e amanhã os canais 5, 7, 2 e todos os outros sacarão que é melhor cobrirem o caso também.
— Compreendo — disse Fallow. — Hummmm... Mas como é que ele pode garantir, como diz, uma exclusiva? O que impedirá os outros, hum, canais de aparecerem aqui?
— Nada, exceto que ele não informará a hora nem o lugar.
— Ele não teve tanta consideração assim comigo, teve? — disse Fallow. — Notei que o Daily News sabia da hora e do lugar.
— É — retorquiu Robert Corso —, mas você teve exclusivas durante dois dias. Agora ele tem que deixar os outros jornais entrarem também. — Calou-se. Seu rosto americano de cabelos fofos, jovem e simpático, se entristeceu de repente. — Mas acha mesmo que a história é genuína?
— Ah, perfeitamente — disse Fallow.
Corso continuou:
— Esse Henry Lamb é... era... um bom garoto. Um aluno brilhante, sem ficha na polícia, sossegado, os vizinhos parecem gostar dele — não é assim que lhe parece?
— Ah, sem dúvida alguma — respondeu o inventor do aluno brilhante.
Reva se aproximou deles.
— Estamos prontos. Quando quiser é só avisar.
Robert Corso e Fallow olharam para a calçada onde três dúzias de manifestantes estavam agora alinhados informalmente. Seguravam os paus dos cartazes nos ombros, como espingardas de brinquedo.
Robert Corso perguntou:
— Bacon está pronto? E a sra. Lamb?
Reva disse:
— Bom, você avisa ao Buck ou a mim. O reverendo Bacon não quer descer com a sra. Lamb e ficar aqui à toa. Mas está pronto.
— Tudo bem — disse Robert Corso. Virou-se para o caminhão CANAL 1 AO VIVO: — Ei, Frank! Vocês estão prontos?
De dentro do furgão responderam:
— Quase!
Ouviu-se um zunido arrastado. Do teto do furgão saiu uma haste prateada, um cilindro. Presa à extremidade do cilindro havia uma bandeira ou uma faixa luminosa. Não, era um cabo, um cabo com um grosso isolamento, largo, mas achatado, como uma enguia elétrica. A enguia laranja e barulhenta estava enrolada em torno do cilindro em espiral. A haste prateada e a espiral laranja continuavam a subir, subir, subir. A haste era composta de seções, como um telescópio, e subia, subia, subia, e o furgão zunia, zunia, zunia.
As pessoas começaram a surgir das torres silenciosas do conjunto, que já não estavam silenciosas. Um ruído borbulhante, borbulhas produzidas por muitas vozes, subiu da porcaria da charneca. Ali vinham eles, homens, mulheres, bandos de garotos, criancinhas, os olhos presos na haste ascendente prata e laranja e na bandeira laranja-radiação.
Agora a haste estava dois andares e meio acima do nível da rua, com a sua enguia laranja enroscada. A rua e a calçada não estavam mais vazias. Um povaréu bem-humorado reunia-se para a festa. Uma mulher gritou: “Robert Corso.” Canal 1! O homem de cabelos fofos que aparecia na TV!
Robert Corso olhou na direção dos piquetes, que tinham se agrupado numa oval serpenteante na calçada e começavam a marchar. Buck e Reva assistiam. Buck tinha um megafone na mão. Conservava os olhos fixos em Robert Corso. Então Robert Corso olhou na direção da equipe de TV. Seus câmeras estavam a uns dois metros de distância. A câmera parecia minúscula ao lado do furgão e da fantástica haste, mas a turba estava fascinada por aquele olho muito fundo de catarata. Ela nem estava ligada, mas toda vez que o câmera se virava para falar com o técnico de som, e o grande olho girava, uma agitação perpassava a turba, como se a máquina possuísse um impulso cinetico próprio e invisível.
Buck olhou para Robert Corso e ergueu a mão, com a palma para cima, a perguntar “Quando?”. Robert Corso encolheu os ombros e, enfadado, apontou o dedo para Buck. Buck levou o megafone à boca e gritou:
— Que é que queremos?
— Justiça! — responderam as três dúzias de piquetes. Suas vozes pareciam extremamente fracas contra o pano de fundo formado pela multidão, as torres do conjunto e a esplêndida lança de prata do CANAL 1 AO VIVO.
— QUE É QUE RECEBEMOS?
— Ra-cismo!
— QUE É QUE QUEREMOS?
— Jus-tiça! — Um pouco mais alto, mas não muito.
— QUE É QUE RECEBEMOS?
— Ra-cismo!
Seis ou oito adolescentes empurravam e davam encontrões uns nos outros e riam, brigando para chegar ao campo de filmagem da câmera. Fallow estava parado a uma pequena distância do astro Robert Corso, que segurava um microfone, mas permanecia calado. O homem com o megafone potente chegou mais perto da linha oval de piquetes, e a multidão cresceu em resposta. Os cartazes e faixas subiram. A JUSTIÇA DE WEISS É UMA JUSTIÇA BRANCA... LAMB: SACRIFICADO PELA INDIFERENÇA... LIBERTEM JOHANNE BRONX... O PULSO GAY GOLPEIA O RACISMO... O POVO BRADA: VINGUEM HENRY!... DESCRUZE OS BRAÇOS, ABE! GAYS E LÉSBICAS DE NOVA YORK EXIGEM JUSTIÇA PARA NOSSO IRMÃO HENRY LAMB: CAPITALISMO + RACISMO = HOMICÍDIO LEGAL... A MENTIRA DO ATROPELAMENTO E FUGA!... AÇÃO AGORA!...
— O que queremos?
— Jus-tiça!
— O que recebemos?
— Ra-cismo!
Buck dirigiu o megafone para a multidão. Queria que as vozes entrassem em cena.
— O QUE QUEREMOS?
Não houve resposta. Com a maior satisfação, eles apreciavam o espetáculo.
Buck respondeu à própria pergunta:
— JUS-TIÇA.
— O QUE RECEBEMOS?
Nada.
— RA-CISMO!
— MUITO BEM! O QUE QUEREMOS?
Nada.
— IRMÃOS E IRMÃS — disse Buck, com o megafone vermelho diante do rosto. — Nosso irmão, nosso vizinho, Henry Lamb, foi atropelado... por um motorista irresponsável... e no hospital... não fazem nada por ele... e os tiras e o promotor público... não querem se incomodar... Henry está às portas da morte... e não estão ligando... Henry é um aluno brilhante... e eles dizem “E daí?”... porque ele é pobre, mora num conjunto habitacional... porque é negro... Então por que estamos aqui, irmãos e irmãs?... Para obrigar Chuck a cumprir sua obrigação!
Isto provocou alguns risos de compreensão na multidão.
— Para fazer justiça ao nosso irmão, Henry Lamb! — continuou Buck. — Muito bem. ENTÃO, O QUE QUEREMOS?
— Justiça — disseram vozes no meio do povo.
— E O QUE RECEBEMOS?
Risos e olhares.
Os risos vinham de seis ou oito adolescentes que estavam empurrando e dando encontrões uns nos outros, brigando para ocupar uma posição logo atrás de Buck. Isto os poria em linha reta com a lente da câmera, cuja hipnotizante luz vermelha agora brilhava.
— Quem é Chuck? — perguntou Kramer.
— Chuck é Charlie — disse Martin —, e Charlie é O Homem, e falando em nome d’O Homem, gostaria de botar as mãos naquele monte de merda.
— Está vendo aqueles cartazes? — perguntou Kramer. — A JUSTIÇA DE WEISS É UMA JUSTIÇA BRANCA E DESCRUZE OS BRAÇOS, ABE!?
— Estou.
— Se mostrarem isso na TV, Weiss vai endoidar.
— Ele já está doidão, se quer saber minha opinião — disse Goldberg. — Olhe só essa bosta.
De onde Kramer, Goldberg e Martin estavam parados, a cena do lado oposto da rua parecia um curioso teatrinho de arena. A peça era sobre a mídia. Sob a torre altaneira de um caminhão de TV, três dúzias de pessoas, duas dúzias delas brancas, marchavam agrupadas num círculo, levando cartazes. Onze pessoas, duas delas negras, nove brancas, acompanhavam-nas para levar suas vozes fracas e mensagens escritas a Pilot a uma cidade de 7 milhões de habitantes: um homem com um megafone, uma mulher com uma mochila, um apresentador de TV, um câmera e um técnico de som presos ao caminhão por cordões umbilicais, dois técnicos visíveis pelas portas abertas do caminhão, o motorista, dois fotógrafos e dois repórteres de jornais com blocos nas mãos, um deles ainda adernando para bombordo de vez em quando. Uma plateia de duzentas ou trezentas almas comprimia-se em torno deles, apreciando o espetáculo.
— Muito bem — disse Martin —, está na hora de começar a falar com as testemunhas. — Começou a atravessar a rua, em direção à aglomeração.
— Ei, Marty — disse Goldberg. — Fique calmo, está bem?
Tirou as palavras da boca de Kramer. Esse não era o cenário ideal para fazer uma demonstração de machismo irlandês para o mundo. Teve uma visão horrível de Martin tirando o megafone do homem de branco e tentando metê-lo goela abaixo, diante dos moradores do Poe Towers.
Os três, Kramer, Martin e Goldberg, estavam a meio caminho quando os piquetes e a multidão de repente se manifestaram. Começaram uma barulheira infernal. Buck gritava alguma coisa pelo megafone. A tromba high tech do câmera oscilava para cá e para lá. De algum lugar surgira uma figura alta, um homem de terno preto e um fantástico colarinho branco engomado, e uma gravata preta com listras brancas. Com ele vinha uma negra miúda, usando um vestido preto brilhante de seda ou cetim. Eram o reverendo Bacon e a sra. Lamb.
Sherman estava de pé na metade do piso de mármore do saguão de entrada quando viu Judy na biblioteca. Estava sentada na bergère, com uma revista ao colo, assistindo à televisão. Ergueu os olhos para ele. Que olhar era aquele? Era de surpresa e não de carinho. Se lhe desse uma pontinha ao menos de carinho, ele entraria direto e... contaria a ela! Ah, é? Contaria o quê? Contaria... pelo menos a debacle no escritório, o jeito com que Arnold Parch falara com ele, e pior, olhara para ele! Os outros, também! Como se... Evitou formar as palavras do que deviam estar pensando dele. Seu desaparecimento, o colapso do esquema das obrigações garantidas em ouro... e então contaria o resto também? Será que a essa altura já teria visto um artigo sobre um Mercedes... RF... Mas não havia nem uma pontinha de carinho. Havia apenas surpresa. Eram seis horas da tarde. Não chegava em casa cedo assim há muito tempo... Havia apenas surpresa naquele rosto triste e magro com a corola de cabelos castanhos e macios.
Continuou caminhando para ela. Em todo caso entraria na biblioteca. Sentaria na outra poltrona e assistiria à televisão, também. Isso ficaria implícito entre eles. Os dois poderiam se sentar juntos na biblioteca e ler ou assistir à televisão. Dessa maneira poderiam fazer os gestos maquinais de uma família, para o bem de Campbell, tanto quanto para o dos outros, sem precisar conversar.
— Papai!
Ele se virou. Campbell corria para ele da porta que levava à cozinha. Tinha um sorriso glorioso no rosto. Quase partiu seu coração.
— Oi, gatinha! — Segurou-a por baixo das axilas, ergueu-a do chão e a abraçou. Ela passou os braços pelo pescoço dele e as pernas pela cintura e disse:
— Papai! Adivinhe o que eu fiz!
— O quê?
— Um coelho.
— Fez mesmo? Um coelho?
— Vou lhe mostrar. — Começou a se contorcer para descer.
— Vai me mostrar? — Não queria ver o coelho, não naquele momento, mas a obrigação de parecer entusiasmado o dominou. Deixou-a escorregar para o chão.
— Venha! — Ela o tomou pela mão e começou a puxá-lo com uma força fantástica. Desequilibrou-o.
— Ei! Para onde estamos indo?
— Vamos! É na cozinha! — Rebocando-o em direção à cozinha, curvava-se tanto para a frente que quase todo o peso do seu corpo pendia da mão que segurava a dela.
— Ei! Cuidado. Você vai cair, queridinha.
— Va... mos! — Ele saiu atrás dela, dividido entre os temores e o amor pela criança de seis anos que queria lhe mostrar um coelho.
A porta abria para um pequeno corredor, coberto de armários, e em seguida para uma copa, cheia de armários com portas de vidro contendo fileiras e mais fileiras de cristais faiscantes e pias de aço inoxidável. Os armários com suas molduras, pilaretes, cornijas — nunca conseguia se lembrar de todos os nomes — tinham custado milhares... milhares de dólares... A paixão que Judy pusera nessas... coisas... A maneira como tinham gastado dinheiro... Uma hemorragia de dinheiro...
E agora estavam na cozinha. Mais armários, cornijas, aço inoxidável, azulejos, spots, congelador Sub-Zero, fogão Vulcan — tudo do melhor que as pesquisas infinitas de Judy conseguiram encontrar, tudo infinitamente caro, numa hemorragia que não tinha fim... Bonita estava parada junto ao fogão Vulcan.
— Oi, sr. McCoy.
— Alô, Bonita.
Lucille, a criada, estava sentada em um banquinho junto a uma mesa, tomando café.
— Sr. McCoy.
— Ah, alô, Lucy. — Não a via há uma eternidade; não chegava em casa suficientemente cedo. Deveria ter alguma coisa para lhe dizer, uma vez que tanto tempo se passara, mas não conseguia pensar em nada, exceto como tudo era tão triste. Elas continuavam a cumprir suas tarefas rotineiras, seguras em sua crença de que tudo estava como sempre fora.
— Aqui, papai. — Campbell continuava a puxá-lo. Não queria que se distraísse falando com Bonita e Lucille.
— Campbell! — disse Bonita. — Não puxe seu papai assim!
Sherman sorriu e se sentiu incompetente. Campbell não deu atenção. Depois parou de puxar.
— Bonita vai assá-lo para mim. Para ficar duro.
Lá estava o coelho. Na mesa com tampo de fórmica branca. Sherman olhou. Mal conseguia acreditar. Era um coelho excepcionalmente bom, feito de barro. A execução era primitiva, mas a cabeça estava inclinada para um lado e as orelhas colocadas em ângulos expressivos, as pernas abertas numa pose pouco convencional em matéria de coelhinhos, o volume e a proporção do lombo eram excelentes. O animal parecia assustado.
— Meu amor! Você fez isso?
Muito orgulhosa:
— Fiz.
— Onde?
— Na escola.
— Sozinha?
— Foi. De verdade.
— Bom, Campbell... este é um lindo coelho! Estou muito orgulhoso de você! Você é muito talentosa!
Muito tímida:
— Eu sei.
De repente teve vontade de chorar. Um coelhinho assustado. Pensar no que significava ser capaz de desejar, neste mundo, fazer um coelhinho e em seguida fazê-lo com toda a inocência, toda a confiança de que o mundo o veria com amor, carinho e admiração... pensar no que ela imaginava aos seis anos de idade, ou seja, que essa era a natureza do mundo e que a mamãe e o papai — seu papai! — faziam o mundo ser assim e naturalmente nunca o deixariam ser diferente.
— Deixe-me mostrá-lo à mamãe — disse.
— Ela já viu.
— Aposto que adorou.
A vozinha tímida:
— Eu sei disso.
— Vamos mostrar nós dois juntos.
— Bonita precisa assá-lo. Para ficar duro.
— Bom, eu quero ir dizer à mamãe o quanto gostei do coelho. — E, demonstrando sua satisfação, apanhou Campbell no colo e atirou-a sobre o ombro. Ela tomou isso como uma grande brincadeira.
— Papai!
— Campbell, você está ficando tão grande! Não vou poder mais carregá-la como um saco de ração. Abaixar! Vamos passar pela porta.
Em meio a muitas risadinhas e contorções, ele a carregou pelo piso de mármore até a biblioteca. Judy ergueu os olhos, severa.
— Campbell, não faça seu pai carregá-la. Você está muito grande para isso.
Com uma pontinha de desafio:
— Não fui eu que fiz ele me carregar.
— Estávamos só brincando — disse Sherman. — Você viu o coelho de Campbell? Não é uma beleza?
— É. É lindo. — E voltou a cabeça para a televisão.
— Estou realmente impressionado. Acho que temos uma garotinha extremamente talentosa nas mãos.
Sem resposta.
Sherman baixou Campbell do ombro para os braços, como se ela fosse um bebê, e então sentou-se na poltrona e acomodou-a no colo. Campbell se remexeu para encontrar uma posição mais confortável e se aninhou contra ele, e o pai passou os braços em volta dela. Olharam para a tela da televisão.
Estava passando o noticiário. A voz do comentarista. Um borrão de rostos negros. Um cartaz de piquete: AÇÃO... AGORA!
— O que estão fazendo, papai?
— Parece uma manifestação, querida.
Outro cartaz: A JUSTIÇA DE WEISS É UMA JUSTIÇA BRANCA.
Weiss?
— O que é uma manifestação? — Campbell estava sentada em seu colo e olhou para ele ao fazer a pergunta, atrapalhando a visão da tela. Ele procurou ver pelos lados.
— O que é uma manifestação?
Distraidamente, tentando manter um olho na televisão:
— Hum... é uma... às vezes, quando as pessoas ficam zangadas com alguma coisa, elas preparam cartazes e saem andando com eles pelas ruas.
A MENTIRA DO ATROPELAMENTO E FUGA!
Atropelamento e fuga!
— Com o que ficam zangadas?
— Um instantinho, querida.
— Com o que ficam zangadas, papai?
— Com quase tudo. — Sherman agora se inclinava todo para a esquerda para ver a tela. Tinha que segurar Campbell com firmeza pela cintura para evitar empurrá-la para fora do colo.
— Com o quê?
— Bom, vamos ver.
Campbell voltou-se para a tela, mas imediatamente tornou a virar a cabeça. Só havia um homem falando, um negro, muito alto, trajando um paletó preto, camisa branca e uma gravata listrada, parado junto a uma negra magra de roupa preta. Havia uma enorme aglomeração de rostos negros atrás deles. Garotos com sorriso no rosto apareciam a toda hora por detrás, olhando para a câmera.
— Quando um rapaz como Henry Lamb — dizia o homem —, um estudante brilhante, um rapaz excepcional, quando um rapaz como Henry Lamb entra em um hospital com uma concussão cerebral aguda e tratam apenas do seu pulso fraturado... compreendem... quando a mãe dele fornece ao Departamento de Polícia e ao promotor público uma descrição do carro que o atropelou, uma descrição daquele carro... compreendem... e eles nada fazem, não se mexem...
— Papai, vamos voltar para a cozinha. Bonita vai assar meu coelho.
— Em um segundo...
— ... para o nosso povo é “Pouco nos importamos. Os seus jovens, os seus alunos aplicados, as suas esperanças não contam, não têm a menor importância”... compreendem... Essa é a mensagem. Mas nós nos importamos muito, e não vamos ficar parados, e não vamos nos calar. Se a estrutura de poder não quer fazer nada...
Campbell escorregou do colo de Sherman, agarrou-o pelo pulso direito com as mãos e começou a puxá-lo.
— Vamos, papai.
O rosto da negra magra encheu a tela. Lágrimas lhe rolavam pelas faces. Um rapaz branco de cabelos fofos estava na tela com um microfone junto à boca. Havia todo um universo de rostos negros por trás dele e mais meninos brigando para serem filmados pela câmera.
— ... pelo Mercedes-Benz sedã ainda não identificado com a placa começando com RE, RF, RB ou RP. E assim como o reverendo Bacon afirma que esta comunidade está recebendo uma mensagem das autoridades, estes manifestantes têm uma mensagem para elas: “Se vocês não iniciarem uma investigação ampla, nós próprios a faremos.” Robert Corso, CANAL 1 AO VIVO, do Bronx.
— Papai! — Ela o puxava com tanta força que a cadeira começou a virar.
— RF? — Judy se voltou para olhar para Sherman. — O nosso começa com RF, não começa?
Agora! Conte-lhe!
— Papai! Vamos! Quero assar o coelho!
Não havia preocupação no rosto de Judy. Estava apenas surpresa com a coincidência; tão surpresa que iniciara uma conversa.
Agora!
— Papai, vamos!
Assar o coelho.