A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 17 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 16

16

FALANDO IRLANDÊS

 

O machismo irlandês de Martin era tão frio que Kramer não conseguia imaginá-lo animado, exceto quando bêbado. Mas essa manhã ele estava de excelente humor. Seus olhos sinistros de dobermann estavam aumentados e brilhantes. Parecia uma criança feliz.

— Então estamos parados no saguão com esses dois porteiros — contava ele —, ouve-se uma cigarra e esse botão acende, e nossa mãe!, um desses caras sai correndo pela porta como se tivessem ligado um fio no rabo dele e começa a tocar um apito e a acenar os braços para fazer parar um táxi.

Ele olhava diretamente para Bernie Fitzgibbon enquanto contava a história. Os quatro, Martin, Fitzgibbon, Goldberg e Kramer estavam no gabinete de Fitzgibbon. Este, como condizia a um chefe da Delegacia de Homicídios da Promotoria Distrital, era um irlandês de quatro costados, de queixo quadrado, cabelos bastos e negros, olhos escuros e aquilo que Kramer chamava de “sorriso de vestiário”. Um sorriso de vestiário era fácil, mas nunca insinuante. Fitzgibbon sem dúvida sorria prontamente ao relato de Martin com seus detalhes grosseiros porque Martin era aquele tipo peculiar de irlandesinho valente, e Fitzgibbon compreendia e prezava a raça.

Havia dois irlandeses na sala, Martin e Fitzgibbon, e dois judeus, Goldberg e Kramer, mas para todos os efeitos havia quatro irlandeses. Ainda sou judeu, pensava Kramer, mas não nesta sala. Todos os tiras viravam irlandeses, os tiras judeus como Goldberg, e também os tiras italianos, os tiras latinos e os tiras negros. Até os tiras negros; ninguém compreendia os comissários de polícia, que em geral eram negros, porque sua pele escondia o fato de terem se tornado irlandeses. O mesmo se aplicava aos promotores assistentes na Delegacia de Homicídios. Esperava-se que o indivíduo se tornasse irlandês. Os irlandeses estavam desaparecendo de Nova York, em termos populacionais. Na política, os irlandeses, que vinte anos antes ainda dominavam o Bronx, Queens, Brooklyn e grande parte de Manhattan, estavam reduzidos a um mísero distrito no West Side de Manhattan, na área do rio Hudson, em que todos os cais em desuso se enferrujavam. Todo policial irlandês que Kramer encontrava, incluindo Martin, morava fora, em Long Island ou algum lugar como Dobbs Ferry, e vinha de trem para a cidade. Bernie Fitzgibbon e Jimmy Caughey eram dinossauros. Todos os transferidos para a Promotoria Distrital do Bronx eram ou judeus ou italianos. Todavia, o selo irlandês estava estampado no Departamento de Polícia e na Delegacia de Homicídios da Promotoria Distrital, e provavelmente continuaria ali para sempre. O machismo irlandês — essa era a loucura obstinada que a todos possuía. Os irlandeses se chamavam, entre si, de “gaitas” e “jumentos”. Jumentos! Usavam a palavra com orgulho, mas também como uma confissão. Compreendiam a palavra. A coragem irlandesa não era a coragem do leão, mas a do jumento. Fosse como tira, ou como promotor assistente da Delegacia de Homicídios, não importa a situação idiota em que se metessem, nunca se recuava. Aguentava-se firme. Isso é que era tão assustador mesmo no menor e mais insignificante representante daquela raça. Uma vez que tomavam uma posição, estavam dispostos a brigar. Para lidar com eles era preciso estar disposto a brigar também, e não havia nesse pobre globo terrestre muita gente que estivesse disposta a lutar. O reverso dessa medalha era a lealdade. Quando um deles se metia em apuros, os outros nunca debandavam. Bem, isso não era bem verdade, mas o jogo precisava estar praticamente perdido para que os irlandeses começassem a procurar o responsável. Os tiras eram assim, esperava-se que os promotores assistentes da Delegacia de Homicídios fossem assim. Lealdade era lealdade, e a lealdade irlandesa era um monolito, indivisível. O código do jumento! E todo judeu, todo italiano, todo negro, todo porto-riquenho internalizava esse código e se tornava um jumento de pedra também. Os irlandeses gostavam de divertir uns aos outros com casos de guerra irlandeses, de modo que quando o jumento Fitzgibbon e o jumento Goldberg escutavam o jumento Martin, só faltava a bebida para que eles pudessem completar o quadro, se embebedando e se tornando sentimentais, ou se embebedando e se enfurecendo como loucos. Não, pensava Kramer, eles não precisam de álcool. Eles já estão altos só de pensar nos filhos da mãe valentões e inegáveis que são.

— Pedi a um dos porteiros para me explicar — continuou Martin. — Quero dizer, tínhamos muito tempo. Esse desgraçado desse McCoy nos faz esperar no saguão uns quinze minutos. Em todo caso, em cada andar, junto do elevador, há dois botões. Um é para o elevador e o outro, para o táxi. Você aperta o botão, e esse merdinha sai correndo para a rua apitando e sacudindo os braços. De qualquer forma, finalmente entramos no elevador, e de repente me lembro que não sei em que andar o filho da mãe do cara mora. Então meto a cabeça para fora do elevador e pergunto ao porteiro que botão eu aperto e ele responde: “nós mandamos vocês para cima.” Nós mandamos vocês para cima. A gente pode apertar os botões que quiser dentro do elevador e não adianta porra nenhuma. Um dos porteiros tem que apertar o botão no painel junto à porta. Mesmo se a gente morar na porra do edifício e quiser visitar alguém, não se pode entrar no elevador e apertar o botão do andar da pessoa. Não que o lugar me pareça o tipo de edifício em que se aparece para fazer visitinhas. Em todo caso, esse tal de McCoy mora no décimo andar. A porta se abre, e se entra nessa salinha. Não abre para um corredor, abre para essa salinha, e só tem uma porta. Naquele andar, o elevador é só para esse apartamento.

— Você viveu uma vida protegida, Marty — disse Bernie Fitzgibbon.

— Protegida uma porra, se quer saber minha opinião — disse Martin. — Aperta-se a campainha, e uma criada de uniforme abre a porta. Ela é porto-riquenha ou sul-americana, uma coisa assim. Esse saguão em que se entra é todo de mármore e tem painéis de madeira e uma dessas escadas enormes que se sobe assim, como uma dessas porras de cinema. Então, esfriamos os calcanhares no chão de mármore por algum tempo, até que o cara imagina que já nos fez esperar tempo suficiente, e aí ele desce as escadas, muito devagarinho, com a porra do queixo, juro por Deus, com a porra do queixo lá no alto. Reparou bem nisso, Davey?

— Reparei — confirmou Goldberg. Riu divertido.

— Que aparência ele tem? — perguntou Fitzgibbon.

— É alto, usa o tal terno cinzento, tem o queixo lá em cima: o veado típico de Wall Street. Não é nada feio. Quarentão.

— Qual foi a reação dele à visita de vocês?

— Estava muito senhor de si com a coisa toda, a princípio — disse Martin. — Convidou-nos para entrar na biblioteca, acho que era isso. Não era muito grande, mas você devia ter visto a merda que tinha em volta do teto. — Ele ergueu o braço num gesto abrangente. — Toda essa gente, esculpida em madeira, como uma multidão numa calçada, e essas lojas e merdas no segundo plano. Você nunca viu nada igual. Então estamos sentados lá, e estou explicando a ele que isso é uma verificação rotineira de carros dessa marca, com essa placa de licença e todo o resto, e ele está dizendo é, ouvi falar do caso pela televisão e é, ele tem um Mercedes com uma placa que começa com R, e não há dúvida é uma porra de uma coincidência... e quero dizer, eu calculo, bom, esse é mais um nome para riscar da merda dessa lista que nos deram. Quero dizer, se você quiser pensar no cara menos provável que você conseguir imaginar, andando de carro pelo Bruckner Boulevard no Bronx à noite, esse é o cara. Quero dizer, estou praticamente me desculpando ao cara por estar gastando o tempo dele. E então pergunto se podemos dar uma olhada no carro, e ele pergunta: “Quando?” E eu digo “Agora”, e foi só o que precisei dizer. Quero dizer, se ele respondesse: “Está na oficina” ou “Minha mulher está com o carro”, ou qualquer merda, eu não sei nem se voltaria para investigar, a coisa toda era muito improvável. Mas ele aparece com essa expressão no rosto, e a boca começa a tremer, e começa a enrolar dizendo que “não sabe”... e qual é “a rotina”... mas é principalmente a expressão no rosto dele. Eu olhei para Davey, e ele olhou para mim, e nós dois vimos a mesma porra. Não é verdade, Davey?

— É. De repente aparece o covarde nele. Dava até para ver.

— Já vi gente assim antes — disse Martin. — Ele não gosta nada dessa merda. Não é um mau sujeito. Parece meio besta, mas provavelmente é até um bom sujeito. Tem mulher e filha. Tem esse puta apartamento. Não tem peito para a coisa. Não tem peito para ficar do lado errado da lei. Não importa quem seja, algum dia na vida a pessoa vai estar do lado errado da lei, e há gente que tem peito para isso e há gente que não tem.

— Ele não tem peito para ver você sentado na porra da escrivaninha dele — disse Goldberg rindo.

— Na escrivaninha dele? — perguntou Fitzgibbon.

— Ah, é — disse Martin, rindo da lembrança. — Bom, o caso é o seguinte, eu vejo o cara começar a desmoronar, e digo a mim mesmo “Ora, merda, ainda não li a porra dos direitos dele, então é melhor fazer isso logo”. Então estou tentando parecer bem tranquilo e digo que apreciamos a cooperação e tudo mais, mas que ele não é obrigado a dizer nada que não queira, e tem direito a um advogado, e assim por diante, e agora estou pensando mais adiante. Como é que vou dizer “Se não puder contratar um advogado, o Estado providenciará um gratuitamente”, e fazer isso parecer casual, quando a porra dos entalhes na parede custam mais do que a porra de um advogado contratado pelo Estado em um ano? Então calculo que vou apelar para a velha manobra do “chega pra lá” por precaução, e fico em pé olhando para ele de cima: ele está sentado nessa grande escrivaninha, e olho para ele com aquela expressão de “Você não vai me fazer a putaria de ficar de boca calada, só porque estou lendo os seus direitos, vai?”.

— Foi pior que isso — disse Goldberg. — Marty começa sentando na ponta da mesa do cara, porra!

— E que foi que ele fez? — perguntou Fitzgibbon.

— A princípio, nada — esclareceu Martin. — Ele sabia que vinha coisa. Não há maneira de se dizer simplesmente “Por falar nisso”, e ler para alguém uma lista de direitos como se estivesse passando o tempo. Mas ele está confuso. Posso ver que seus olhos estão cada vez maiores. Ele se enrola como um filho da mãe. Então se levanta, e diz que quer conversar com um advogado. O engraçado é que ele começa a desmoronar quando lhe perguntamos pelo carro, e então vamos ver o carro, e não há nada. Não há uma única marca no carro.

— Como foi que acharam o carro dele?

— Foi muito simples. Ele nos disse que guardava em uma garagem. Então calculei, quando se tem tanto dinheiro como esse filho da mãe, guarda-se o carro na garagem mais próxima. Então perguntei ao porteiro onde ficava a garagem mais próxima. E foi só. Nem mencionei o McCoy.

— E na garagem, eles lhe mostraram o carro sem mais nem menos?

— Foi, eu mostrei o distintivo, e Davey se postou do outro lado do homem e perfurou a cabeça dele com os olhos. Você sabe, um judeu mal-encarado parece muito mais mal-encarado do que um irlandês mal-encarado.

Goldberg abriu um largo sorriso. Considerou isso um elogio.

— O cara diz “Que carro?” — conta Goldberg. — Conclusão: eles guardam dois carros na garagem, o Mercedes e uma caminhonete Mercury, e custa 410 dólares por mês guardar um carro lá. Está afixado na parede. Oitocentos e vinte dólares por mês por dois carros. São duzentos dólares a mais do que pago por toda a porra da minha casa em Dix Hills!

— Então o sujeito mostra o carro? — perguntou Fitzgibbon.

— Ele revela onde está e diz “Sirvam-se” — disse Goldberg. — Fico com a impressão de que ele não morre de amores por McCoy.

— Bom, ele não sai do caminho para protegê-lo — acrescentou Martin. — Pergunto-lhe se o carro foi usado na terça-feira passada, à noite, e ele diz, ah claro, lembra-se muito bem. McCoy tira o carro, aí pelas seis, e volta às dez, todo amarrotado.

— É bom ter quem cuide dos interesses da gente — comentou Goldberg.

— Sozinho? — perguntou Fitzgibbon.

— Foi o que ele disse — informou Martin.

— Então tem certeza que ele é o cara.

— Ah, tenho.

— Muito bem — diz Fitzgibbon —, e onde é que está o caso?

— Temos o começo de um caso agora — disse Martin. — Sabemos que ele estava dirigindo o carro naquela noite.

— Nos dê mais vinte minutos com o veado e extraímos o resto — disse Goldberg. — Ele já está meio acovardado.

— Eu não contaria com isso — disse Fitzgibbon —, embora vocês possam tentar. Sabe, na realidade não temos porra nenhuma. Não temos testemunhas. O garoto não conta. Nem sabemos onde foi que a coisa aconteceu. E não é só isso, o garoto dá entrada no hospital na noite do acidente e não diz uma palavra sobre o atropelamento.

Uma ideia começou a surgir. Kramer interrompeu-os:

— Talvez ele já estivesse meio desconexo. — Um clarão surgia desse caso antes considerado uma merdinha. — Sabemos que ele levou uma boa pancada na cabeça.

— Talvez — disse Fitzgibbon —, mas isso não me dá elementos para agir, e, estou lhes dizendo, Abe vai querer ação. Ele não gostou nada daquela manifestação de ontem. “A JUSTIÇA DE WEISS É UMA JUSTIÇA BRANCA.” Isso estava estampado em todos os jornais, e apareceu na TV.

— E era uma encenação — comentou Goldberg. — Nós estávamos lá. Umas duas dúzias de piquetes, metade deles os malucos de sempre, essa tal de Reva-Sei-Lá-o-Quê e seus anõezinhos, e o resto eram curiosos.

— Experimente dizer isso ao Abe. Ele viu pela TV, como todo mundo.

— Bem, você sabe — interpôs Kramer —, esse McCoy parece alguém que talvez possamos desentocar.

— Desentocar?

— É. Só estou pensando alto agora... mas talvez se tornássemos isso público...

— Tornássemos isso público? — exclamou Fitzgibbon. — Você está brincando? A troco de quê? Só porque o sujeito fica nervoso quando dois tiras aparecem em seu apartamento para interrogá-lo, significa que ele estava dirigindo o carro na noite em que o garoto foi atropelado? Sabe o que se pode concluir disso? Nada.

— Eu disse que só estava pensando em voz alta.

— E, muito bem, faça-me um favor. Não pense alto essas coisas na frente do Abe. Ele é bem capaz de levar a sério.

A Reade Street era uma dessas ruas antigas próximas aos tribunais e à prefeitura. Era uma rua estreita, e os prédios de cada lado, edifícios de escritórios e águas-furtadas ocupadas por indústrias leves com colunas de ferro e arquitraves, mantinham-na num lusco-fusco desolador, mesmo num dia claro de primavera como esse. Gradualmente os prédios nessa área, conhecida como TriBeCa, “triângulo abaixo da Canal Street”, estavam sendo reformados para abrigar escritórios e apartamentos, mas a área conservava uma fuligem irredutível. No quarto andar de um velho edifício de ferro, Sherman caminhava por um corredor com um piso de ladrilhos encardidos.

Na metade do corredor havia uma placa de plástico com os nomes DERSHKIN, BELLAVITA, FISHBEIN & SCHLOSSEL. Sherman abriu a porta e se encontrou num minúsculo vestíbulo fechado por uma divisória de vidro, excessivamente iluminado e guardado por uma moça latina sentada atrás da divisória. Ele deu o nome e pediu para ver o sr. Killian, e a moça apertou uma campainha. Uma porta de vidro levou-o a um espaço maior e ainda mais iluminado, de paredes brancas. As luzes no teto eram tão fortes que Sherman mantinha a cabeça baixa. Um tapete de barbante industrial laranja cobria o chão. Sherman apertava os olhos, tentando evitar a tremenda wattagem. Um pouco adiante, no chão, ele conseguiu distinguir a base de um divã. Era feita de fórmica branca. Havia almofadas de couro cru em cima. Sherman sentou-se, e o seu cóccix imediatamente escorregou para a frente. O assento parecia se inclinar para o lado errado. As suas omoplatas bateram nas almofadas traseiras, que estavam apoiadas numa placa de fórmica presa perpendicularmente à base. Desajeitado, ele ergueu a cabeça. Havia mais um divã vis-à-vis. Nele encontravam-se dois homens e uma mulher. Um dos homens vestia um conjunto de corrida azul e branco com duas grandes faixas de couro azul-elétrico no peito. O outro usava um casacão esporte feito de um tipo de couro granuloso, empoeirado, opaco, talvez de elefante, com os ombros tão largos que o faziam parecer gigantesco. A mulher usava um casaco curto de couro preto, também de corte muito avantajado, calça de couro preta e botas pretas que dobravam abaixo do joelho como as de um pirata. Os três estavam apertando os olhos, como Sherman. Também não paravam de escorregar para a frente e de se contorcer para se endireitar, e as roupas de couro farfalhavam e rangiam. O Povo do Couro. Espremidos no divã, eles lembravam um elefante atormentado pelas moscas.

Um homem vindo de um corredor interno apareceu na recepção, alto, magro e careca, de sobrancelhas espessas. Usava camisa e gravata, sem paletó, e trazia um revólver num coldre alto sobre o quadril esquerdo. Lançou um sorriso inexpressivo a Sherman do tipo que um médico daria numa sala de espera se não quisesse ser importunado. Então tornou a entrar.

Vozes no corredor interno: um homem e uma mulher. O homem parecia estar empurrando a mulher para diante. A mulher dava passinhos e olhava para ele por cima do ombro. O homem era alto e esguio, provavelmente quase quarentão. Usava calça e jaquetão azul-marinho, axadrezado de azul-claro, camisa listrada com colarinho duro, branco. O colarinho tinha um tamanho exagerado, um colarinho de vigarista, na opinião de Sherman. Tinha um rosto magro, delicado, poder-se-ia dizer, não fosse pelo nariz, que parecia fraturado. A mulher era jovem, não tinha mais que 25 anos, toda seios — lábios vermelhos brilhantes, cabelos flamejantes e maquiagem pesada —, que saltavam de um suéter preto de gola rulê. Usava calça preta e se equilibrava no alto de sapatos pretos de salto fino.

A princípio as vozes eram abafadas. Então a voz da mulher se elevou e a do homem se abaixou. Era um caso clássico. O homem quer confinar as questões a argumentos em voz baixa e em particular, mas a mulher resolve jogar um de seus trunfos, que é Fazer uma Cena. Há o Fazer uma Cena e há As Lágrimas. Esse era o Fazer uma Cena. A voz da mulher se elevava cada vez mais e por fim a do homem se elevou, também.

— Mas você tem que — dizia a mulher.

— Mas não tenho que, Irene.

— O que você espera que eu faça? Apodreça?

— Você espera que eu pague as suas contas como todo mundo — dizia ele, imitando-a. — Você já me roubou metade dos honorários. E não para de me pedir para fazer coisas que podem custar a minha licença.

— Você não se importa.

— Não é que eu não me incomode, Irene. É que eu não me incomodo mais. Você não paga as suas contas. Não olhe para mim assim. Você agora está por conta própria.

— Mas você tem quê! O que vai acontecer se eles tornarem a me prender?

— Deveria ter pensado nisso antes, Irene. Que foi que eu lhe disse quando entrou pela primeira vez neste escritório? Disse-lhe duas coisas. Primeiro: “Irene, não vou ser seu amigo. Vou ser seu advogado. Mas vou fazer mais por você do que seus amigos.” Segundo: “Irene, sabe por que faço isso? Faço por dinheiro.” E disse ainda: “Irene, lembre-se dessas duas coisas.” Não foi assim? Não foi o que lhe disse?

— Não posso voltar lá — disse a moça. Ela baixou as pálpebras pesadas de Tropical Twilight e em seguida a cabeça. Seu lábio inferior tremeu; a cabeça e o cabelo flamejante sacudiram e os ombros também.

As Lágrimas.

— Ah, pelo amor de Deus, Irene. Corta essa!

As Lágrimas.

— Está bem. Olhe... Vou descobrir se vão enquadrá-la no artigo 220-31, e irei defendê-la na releitura do libelo, se o fizerem, mas é só.

As Lágrimas! — vitoriosas ainda depois de tantos milênios. A mulher assentiu como uma criança penitente. Saiu pela sala de espera, que flamejava. Seu traseiro balançava com um brilho espesso e negro. Um dos Homens de Couro olhou para Sherman e sorriu, de homem para homem, e exclamou:

— Ay, caramba.

Nesse território alienígena, Sherman se sentiu compelido a retribuir o sorriso.

O vigarista entrou na sala de espera e disse:

— Sr. McCoy? Sou Tom Killian.

Sherman se levantou e apertou a mão dele. Killian não apertava a mão com muita firmeza; Sherman pensou nos dois detetives. Acompanhou Killian por um corredor com mais spots.

A sala de Killian era pequena, moderna e lúgubre. Não tinha janelas. Mas pelo menos não era exagerada mente clara. Sherman examinou o teto. Dos nove spots embutidos, sete tinham sido desenroscados ou estavam queimados.

Sherman comentou:

— As luzes lá fora... — Sacudiu a cabeça e não se deu o trabalho de terminar a frase.

— É, eu sei — disse Killian. — É isso que se arranja quando se fode a decoradora. O cara que arrendou este lugar trouxe essa figurinha, e ela achou que o edifício era sombrio. Ela meteu, quero dizer, luzes. A mulher tinha febre de watts. O lugar deveria lembrar a Key Biscayne. Foi o que ela disse.

Sherman não ouviu mais nada depois de “fode a decoradora”. No papel de Senhor do Universo, ele sentia um certo orgulho masculino em pensar que era capaz de enfrentar todas as facetas da vida. Mas agora, como muitos respeitáveis machos americanos antes dele, estava descobrindo que Todas as Facetas da Vida eram coloridas quando se estava na plateia. “Fode a decoradora.” Como poderia permitir que esse tipo de pessoa tomasse qualquer decisão que afetasse sua vida, nesse tipo de ambiente? Avisara na Pierce & Pierce que estava doente — a mentirinha mais capenga, fraca e covarde da vida —, para vir a esse cortiço do mundo legal.

Killian indicou uma cadeira, uma cadeira moderna com uma estrutura curva cromada e estofamento vermelho, e Sherman se sentou. O espaldar era baixo demais. Não havia maneira de se sentir confortável. A cadeira de Killian, à escrivaninha, não parecia muito melhor.

Killian soltou um suspiro e tornou a girar os olhos.

— O senhor me ouviu falando com a minha cliente, srta... — Ele fez uma curva no ar com a mão em concha.

— Ouvi, sim.

— Bom, ali temos a lei penal em sua forma elementar, com todos os elementos. — A princípio Sherman pensou que o homem falava com aquele sotaque estranho, continuando a imitar a mulher que acabara de sair. Então percebeu que não era o sotaque da mulher. Era o do próprio Killian. O almofadinha engomado que estava sentado diante dele tinha o sotaque das ruas nova-iorquinas, suprimindo consoantes e torturando vogais. Contudo, dera uma injeção de ânimo em Sherman ao indicar que sabia que ele era novo no mundo da lei penal e que se situava em um platô bem acima.

— Que tipo de caso? — perguntou Sherman.

— Tóxicos. Quem mais pode pagar a um advogado penalista durante oito semanas? — Então, sem fazer qualquer transição, continuou: — Freddy me contou o seu problema. Também andei lendo sobre o caso nos tabloides. Freddy é um grande homem, mas tem classe demais para ler tabloides. Eu os leio. Por que não me conta o que realmente aconteceu?

Para sua surpresa, uma vez que começou, Sherman não teve dificuldade em contar sua história naquele lugar e para aquele homem. Como um padre, um confessor, aquele almofadinha de nariz de boxeador pertencia a uma outra ordem.

De quando em quando um interfone de plástico na mesa de Killian produzia um sinal e1etrônico, e a voz ligeiramente latina da recepcionista dizia “Sr. Killian... o sr. Scannesi na 3-0”, ou “Sr. Rothblatt na 3-1”, e Killian respondia “Diga-lhe que ligarei depois”, e Sherman retomava o relato. Mas então o aparelho tocou, e a voz disse:

— Sr. Leong na 3-0.

— Diga-lhe... vou atender. — Killian fez um gesto suplicante com a mão como se dissesse: “Isso não é nada comparado ao assunto de que estamos tratando, mas terei que falar com essa pessoa um instantinho.”

— Eiiii, Lee — disse Killian. — Que foi, que foi?... Não brinca... Ei, Lee, estava mesmo lendo um livro sobre você... Bom, não era sobre você mas sobre vocês, Leongs... E eu brincaria com você? O que é que você acha, que quero um machado nas costas?

Sherman sentiu sua irritação crescer. Ao mesmo tempo estava impressionado. Aparentemente Killian estava defendendo um dos acusados no escândalo eleitoral de Chinatown.

Finalmente Killian desligou, voltou-se para Sherman e disse:

— Então levou o carro de volta à garagem, trocou algumas palavras com o empregado e foi para casa a pé. — Isso sem dúvida para mostrar que não se deixara distrair pela interrupção.

Sherman prosseguiu, concluindo com a visita dos dois detetives, Martin e Goldberg, ao seu apartamento.

Killian se curvou para a frente e comentou:

— Muito bem. A primeira coisa que precisa compreender é o seguinte: de agora em diante, tem que manter a boca fechada. Compreende? Não tem nada a ganhar, nada, falando nisso com ninguém, seja quem for. Só o que pode lhe acontecer é o seguinte: ser empurrado para lá e para cá como aconteceu com os dois tiras.

— Que deveria ter feito? Eles estavam no edifício. Sabiam que eu estava em casa. Se me recusasse a falar com eles, seria uma clara indicação de que tinha alguma coisa para esconder.

— Só o que precisava dizer a eles era: “Senhores, muito prazer em conhecê-los, os senhores estão conduzindo uma investigação, não tenho a mínima experiência nessa área, por isso vou encaminhá-los ao meu advogado, boa noite, não deixem a maçaneta bater nas suas costas quando saírem.”

— Mas, mesmo isso...

— Seria melhor do que o que aconteceu, certo? Na verdade, eles provavelmente teriam pensado: “Bom, aqui está esse grã-fino da Park Avenue que é ocupado demais ou superior demais para falar com tipos como nós. Ele tem gente que faz essas coisas por ele.” Não teria prejudicado o seu caso em nada, provavelmente. Daqui para a frente, pode estar certo que não vai. — Ele começou a dar risadinhas. — O sujeito chegou a ler os seus direitos, hein? Gostaria de ter visto. O panaca provavelmente mora numa casa para duas famílias em Massapequa, e está sentado ali num apartamento da Park Avenue na altura da 70th Street, e tem que lhe informar que, se não puder pagar um advogado, o Estado providenciará um. Ele tem que ler a coisa toda.

Sherman gelou com a capacidade do homem de se distanciar e achar graça.

— Muito bem — disse ele —, mas o que significa isso?

— Significa que estão procurando descobrir evidências para uma acusação criminal.

— Que tipo?

— Que tipo de evidência ou que tipo de acusação?

— Que tipo de acusação.

— Eles têm diversas possibilidades. Presumindo que Lamb não morria... — (mal conjugado) — há irresponsabilidade criminosa.

— Isso é o mesmo que direção irresponsável?

— Não, é um crime. E um delito grave. Ou se quiserem endurecer o jogo, poderiam trabalhar na teoria de agressão com uma arma perigosa, o carro. Se Lamb morre, isso cria mais duas possibilidades. Homicídio culposo é uma delas, homicídio por negligência criminosa é outra, embora durante todo o tempo em que trabalhei na Promotoria Distrital nunca ouvi falar de acusarem ninguém de homicídio por negligência criminosa a não ser que a pessoa estivesse bêbada ao volante. Além disso ainda têm o abandono da cena do acidente e a omissão em comunicar um acidente. Ambos crimes.

— Mas, uma vez que eu não estava dirigindo o carro na hora que o rapaz foi atropelado, eles podem fazer essas acusações contra mim?

— Antes de chegarmos lá, deixe-me explicar uma coisa ao senhor. Talvez não possam fazer acusações contra ninguém.

— Não? — Sherman sentiu todo o seu sistema nervoso se acelerar com esse primeiro sinal de esperança.

— O senhor examinou o carro com todo o cuidado, certo? Nenhuma mossa? Nenhum sangue? Nenhum fragmento de tecido? Nenhum vidro partido? Certo?

— Certo.

— Isso torna bastante óbvio que o garoto não foi atingido com muita força. O setor de urgências do hospital cuidou do pulso fraturado dele e o dispensou. Certo?

— Certo.

— O cerne da questão é o seguinte: o senhor nem ao menos sabe se o seu carro o atropelou, sabe?

— Bom, eu ouvi alguma coisa.

— Com toda a merda que estava acontecendo naquele momento, poderia ter sido qualquer coisa. O senhor ouviu alguma coisa. Não viu nada. O senhor não sabe realmente, sabe?

— Bom... isso é verdade.

— Está começando a perceber por que não quero que fale com ninguém?

— Estou.

— E estou me referindo a qualquer um, certo? Agora, mais uma coisa. Talvez não tenha sido o seu carro que o atropelou. Já lhe ocorreu essa possibilidade? Talvez não tenha sido carro algum. O senhor não sabe. E eles não sabem — os tiras não sabem. Essas notícias no jornal são muito estranhas. Supostamente temos um grande caso, mas ninguém sabe onde foi que esse atropelamento confuso ocorreu. Bruckner Boulevard. O Bruckner Boulevard tem 8 quilômetros de extensão! Não têm testemunhas. O que o garoto contou à mãe é considerado boato. Não significa nada. Não têm a descrição do motorista. Mesmo que conseguissem estabelecer que foi o seu carro que o atropelou... não podem prender um carro. Um dos empregados da garagem poderia tê-lo emprestado para o sobrinho da cunhada para ir a Fordham Road dar um beijinho de boa noite na namorada. Eles não sabem. E o senhor não sabe. Na realidade aconteceram coisas mais estranhas.

— Mas suponha que o outro garoto se apresente. Juro que havia um segundo rapaz, um sujeito grande e forte.

— Acredito. Era uma armação. Eles iam assaltá-lo. É, ele poderia se apresentar, mas me parece que tem suas razões para não fazê-lo. A julgar pela história que a mãe conta, o garoto também não mencionou o companheiro.

— É — disse Sherman —, mas poderia. Juro, estou começando a achar que deveria me antecipar, tomar a iniciativa e ir à polícia com Maria, a sra. Ruskin, e contar-lhes exatamente o que aconteceu. Quero dizer, não entendo de leis, mas sinto-me moralmente certo de que agi corretamente e que ela agiu corretamente na situação em que nos encontrávamos.

— Eiiiii! — exclamou Killian. — Os chefões da Wall Street são realmente jogadores! Eiiiiii! Que é isso, que é isso! — Killian sorria. Sherman olhou-o, espantado. Killian deve ter reparado, porque asssumiu uma expressão absolutamente séria. — Tem ideia do que o promotor público faria se o senhor simplesmente entrasse e dissesse: “É, fui eu e minha namorada, que mora na Fifth Avenue, no meu carro”? Eles o devorariam: de-vo-ra-ri-am.

— Por quê?

— O caso já se transformou num futebol político, e eles não têm nada em que se basear. O reverendo Bacon está aos gritos, o caso está na TV, The City Light endoidou e está pressionando Abe Weiss, e ele vai enfrentar uma eleição. Conheço Abe Weiss muito bem. O mundo real não existe para Abe Weiss. Só existe o que aparece na TV e nos jornais. Mas vou lhe dizer mais uma coisa. Eles não lhe dariam uma chance mesmo que não houvesse ninguém de olho.

— Por que não?

— O senhor sabe o que se faz o dia inteiro quando se trabalha na Promotoria Distrital? Processa-se gente chamada Tiffany Latour, LeBaron Courtney, Mestaffalah Shabazz, Camilio Rodriguez. Chega-se a tal ponto que se fica morrendo de vontade de pôr as mãos em alguém com mais peso. E se alguém lhe oferece um casal como o senhor e sua amiguinha, sra. Ruskin, eiiiiii, é uma festa!

O homem parecia sentir uma horrível nostalgia por uma presa daquelas.

— O que aconteceria?

— Para começo de conversa, não há nada no mundo que os impeça de prendê-lo e, se conheço Weiss, ele iria transformar isso num espetáculo. Talvez não conseguissem detê-lo por muito tempo, mas seria extremamente desagradável. Isso eu posso garantir.

Sherman tentou imaginar. Não conseguiu. Seu ânimo bateu no fundo do poço. Deixou escapar um suspiro.

— Agora está entendendo por que não quero que fale com ninguém? Deu para sacar?

— Deu.

— Mas, olhe, não estou tentando deprimi-lo. Minha tarefa no momento não é defendê-lo, mas evitar que precise ser defendido. Quero dizer, presumindo que me escolha para representá-lo. Nem vou falar de honorários a essa altura, porque não sei o que isso vai exigir. Se tiver sorte, vou descobrir que este caso não se sustenta.

— Como pode descobrir isso?

— O chefe da Delegacia de Homicídios na Promotoria Distrital do Bronx é um cara que começou comigo lá, Bernie Fitzgibbon.

— E ele lhe dirá?

— Acho que sim. Somos amigos. Ele é um “jumento” como eu.

— Um jumento?

— Um irlandês.

— Mas isso é sensato, deixar que eles saibam que contratei um advogado e estou preocupado? Será que isso não vai pôr ideias na cabeça deles?

— Nossa, eles já estão com ideias na cabeça e sabem que você está preocupado. Se não tivesse ficado preocupado depois que aqueles dois panacas foram procurá-lo, teria que haver alguma coisa errada com o senhor. Mas posso cuidar disso. O que precisa é começar a pensar na sua amiga, sra. Ruskin.

— Foi isso que Freddy disse.

— Freddy tinha razão. Se eu for cuidar desse caso, quero conversar com ela, e quanto mais cedo melhor. Acha que estaria disposta a fazer uma declaração?

— Uma declaração?

— Uma declaração juramentada na presença de testemunhas?

— Antes de conversar com Freddy, eu teria respondido que sim. Agora não sei. Se eu tentar convencê-la a fazer uma declaração juramentada, num ambiente legal, não sei o que fará.

— Bom, de um jeito ou de outro, quero falar com a sra. Ruskin. Pode se comunicar com ela? Não me importo de ligar eu mesmo, se for o caso.

— Não, seria melhor que eu o fizesse.

— E uma coisa: o senhor não quer que ela saia por aí falando, tampouco.

— Freddy me disse que o senhor frequentou a Yale Law School. Quando foi isso?

— No fim da década de 1970 — respondeu Killian.

— Que tal achou?

— Foi boa. Ninguém lá sabia que merda de língua eu estava falando. Tanto fazia eu ter vindo do Afeganistão, quanto de Sunnyside, no Queens. Mas gostei. É um belo lugar. E fácil, em termos de escolas de direito. Não tentam afogá-lo em detalhes. Dão-lhe uma visão acadêmica, uma visão global. Ensinam-lhe o padrão geral. São muito bons nisso. Yale é fantástica para qualquer coisa que se queira fazer, desde que não envolva gente com tênis, armas, drogas, luxúria ou malandragem.