A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 26 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 25

25

NÓS, O JÚRI

 

— Isso é apenas o Sistema protegendo os seus — disse o reverendo Bacon. Ele estava recostado na cadeira à escrivaninha e falava ao telefone, mas seu tom era oficial, pois falava com a imprensa. — Isso é a Estrutura de Poder produzindo e disseminando mentiras com a conivência solícita de seus lacaios da mídia, e essas mentiras são transparentes.

Edward Fiske III, embora jovem, reconhecia a retórica do movimento de fins da década de 1960 e início da década de 1970. O reverendo Bacon olhava para o bocal do telefone com uma expressão de justificada cólera. Fiske afundou um pouco mais na cadeira. Seus olhos iam do rosto do reverendo Bacon para os sicômoros amarelo-pântano no quintal diante da janela, voltavam para o reverendo Bacon, e mais uma vez para os sicômoros. Não sabia se um contato visual com o homem era prudente a essa altura ou não, ainda que o fato que provocara a ira não tivesse relação com sua visita. Bacon estava furioso com a notícia publicada essa manhã no Daily News sugerindo que Sherman McCoy poderia estar fugindo de uma tentativa de assalto quando seu carro atropelou Henry Lamb. The Daily News dava a entender que o cúmplice de Lamb era um delinquente condenado chamado Roland Auburn e que todo o caso da promotoria contra Sherman McCoy baseava-se numa história inventada por esse indivíduo, que agora estava tentando uma redução de pena numa acusação de tráfico de drogas.

— Você duvida que tenham se rebaixado a tanto? — O reverendo Bacon declamou ao telefone. — Duvida que possam ser tão desprezíveis? Pois agora está vendo se rebaixarem ao ponto de tentar manchar a reputação de Henry Lamb. Agora está vendo difamarem a vítima, que está mortalmente ferida e não pode se defender. Dizerem que Henry Lamb é um ladrão... isso é que é crime. Mas isso é a mentalidade torta da Estrutura de Poder, a mentalidade racista subjacente. Uma vez que Henry Lamb é um jovem negro do sexo masculino, acham que podem estigmatizá-lo como criminoso... entende... Acham que podem manchar o seu nome assim. Mas estão enganados. A vida de Henry Lamb refuta as suas mentiras. Henry Lamb é tudo o que a Estrutura de Poder diz aos jovens negros de sexo masculino que devem ser, mas quando as necessidades de um dos seus exigem... então não acham errado virar tudo e tentar destruir o bom nome do rapaz... Como?... Dizer quem são eles?... Acha que Sherman McCoy está desassistido? Acha que está sozinho? Ele é um dos homens mais poderosos da Pierce & Pierce, e a Pierce & Pierce é uma das firmas mais poderosas da Wall Street. Eu conheço a Pierce & Pierce... entende... Sei o que são capazes de fazer. Você já ouviu falar de capitalistas. Você já ouviu falar de plutocratas. Dê uma olhada em Sherman McCoy e estará olhando para um capitalista, estará olhando para um plutocrata.

O reverendo Bacon tornou insignificante a ofensiva notícia do jornal. The Daily News era um notório bajulador dos interesses das corporações. O repórter que escrevera aquele amontoado de mentiras, Neil Flannagan, era um lacaio tão descarado que emprestava seu nome a uma campanha revoltante dessas. A sua pseudofonte de informações — a que se referia discretamente como “fontes ligadas ao caso” — era obviamente McCoy e sua cabala.

O caso McCoy não tinha interesse para Fiske, exceto como fofoca, embora conhecesse o inglês que denunciara a situação, um sujeito maravilhosamente espirituoso chamado Peter Fallow, um mestre na arte de conversar. Não, o único interesse de Fiske era saber em que medida o envolvimento de Bacon na questão iria complicar sua tarefa, que era recuperar os 350 mil dólares ou parte disso. Na meia hora em que estivera sentado ali, a secretária de Bacon passara ligações de dois jornais, da Associated Press, de um vereador do Bronx, de um deputado do Bronx e do secretário executivo do movimento gay, todos a respeito do caso McCoy. E o reverendo Bacon agora conversava com um homem chamado Irv Stone, do Canal 1. A princípio Fiske pensou que sua missão seria (mais uma vez) irrealizável. Mas por trás da grandiloquência perniciosa do reverendo Bacon ele começara a perceber uma vivacidade, uma joie de combat. O reverendo Bacon adorava o que estava acontecendo. Liderava a cruzada. Estava no seu enlevo. Em algum ponto em tudo isso, se escolhesse o momento exato, Edward Fiske talvez encontrasse uma brecha nas maquinações promíscuas desse Cruzado Celestial para recuperar os 350 mil dólares da Igreja Episcopal.

O reverendo Bacon dizia:

— Existe a causa e existe o efeito, Irv... entende... E tivemos uma manifestação no conjunto Poe, onde Henry Lamb mora. Isso foi o efeito... entende... O que aconteceu a Henry Lamb foi o efeito. Bom, hoje vamos levar esse efeito à causa. Vamos levá-lo à Park Avenue. À Park Avenue, entende, de onde partem as mentiras... de onde partem as mentiras... Como?... Certo. Henry Lamb não pode falar por si mesmo, mas vai ganhar uma voz potente. Vai ter a voz de seu povo, e essa voz vai ser ouvida na Park Avenue.

Fiske nunca vira o rosto do reverendo Bacon tão animado. Começou a fazer perguntas técnicas a Irv Stone. Naturalmente, não poderia garantir ao Canal 1 exclusividade desta vez, mas será que poderia contar com uma transmissão ao vivo? Qual era a hora ideal? A mesma de antes? E assim por diante. Finalmente desligou. Voltou-se para Fiske, observou-o com fantástica concentração e disse:

— O vapor.

— O vapor?

— O vapor... Lembra-se que lhe falei do vapor?

— Ah, sim, lembro.

— Bom, agora você vai ver a pressão da caldeira se tornar crítica. A cidade inteira vai ver. Bem na Park Avenue. As pessoas pensam que o fogo se apagou. Pensam que a violência é uma coisa do passado. Não sabem que está apenas represada. É quando o vapor está sob pressão que se descobre o que é capaz de fazer... entende... É quando se descobre que é um paiol de pólvora para você e toda a sua gente. A Pierce & Pierce só sabe lidar com um tipo de capital. Não conhece o vapor. Não são capazes de negociar com vapor.

Fiske descobriu uma brechinha.

— A propósito, reverendo Bacon, estive conversando com um homem da Pierce & Pierce a seu respeito outro dia. Linwood Talley, da divisão de subscrições.

— Eles me conhecem, lá — disse o reverendo Bacon. Sorriu, mas um tantinho ironicamente. — Conhecem a mim. Não conhecem o vapor.

— O sr. Talley esteve me falando dos Investimentos Urbanos Garantidos. Contou-me que têm apresentado muito bons resultados.

— Não posso me queixar.

— O sr. Talley não entrou em detalhes, mas entendi que têm apresentado — procurou o eufemismo adequado — lucros desde o início.

— Hummmmmmm. — O reverendo Bacon não parecia inclinado a se expandir.

Fiske se calou e procurou sustentar o olhar do reverendo, na esperança de criar um vácuo na conversa a que o grande cruzado não fosse capaz de resistir. A verdade sobre a Investimentos Urbanos Garantidos, que Fiske de fato soubera por Linwood Talley, era que o governo federal recentemente dera à firma 250 mil dólares na qualidade de subscritor “minoritário” das ações de um lançamento de 7 milhões de dólares de obrigações municipais garantidas pelo governo federal. A chamada lei de proteção exigia que houvesse uma participação minoritária na venda de tais obrigações e a Investimentos Urbanos Garantidos fora criada para ajudar a satisfazer esse quesito da lei. Não havia qualquer exigência de que a firma minoritária realmente vendesse as obrigações ou mesmo as recebesse. Os legisladores não tinham pretendido dificultar a tarefa com restrições burocráticas. Era necessário apenas que a firma participasse do lançamento. A participação tinha um sentido amplo. Na maioria dos casos — Investimentos Urbanos Garantidos era apenas uma entre muitas firmas do gênero em todo o país — a participação significava receber um cheque do governo federal no valor da comissão, depositá-lo e praticamente mais nada. Investimentos Urbanos Garantidos não possuía empregados, nem equipamentos, apenas um endereço (Fiske estava por dentro), um número de telefone e um presidente, Reginald Bacon.

— Ocorreu-me, portanto, reverendo Bacon, com relação às nossas conversas, às preocupações naturais da diocese e às pendências, que se pretendemos resolver o que tanto o senhor quanto o bispo querem resolver, e é preciso que lhe diga, ele vem me pressionando... — Fiske parou. Como ocorria muito frequentemente em suas conversas com o reverendo Bacon, não conseguia se lembrar como começara a frase. Não tinha a menor ideia do número e do tempo em que deveria ficar o predicado — ... pressionando, e, hum, hum, a coisa é que achamos que o senhor talvez estivesse em posição de transferir parte desses fundos para a conta sob custódia que mencionamos, a conta sob custódia destinada à Creche Pequeno Pastor, até que os nossos problemas de licenciamento estejam resolvidos.

— Não estou compreendendo — disse o reverendo Bacon.

Fiske teve a sensação deprimente de que teria de pensar em outra maneira de repetir tudo.

Mas o reverendo Bacon dispensou-o disso.

— Está me dizendo que devemos transferir dinheiro da Investimentos Urbanos Garantidos para a Creche Pequeno Pastor?

— Não foi bem isso que eu disse, reverendo Bacon, mas se os fundos estiverem disponíveis ou puderem ser emprestados...

— Mas isso é ilegal! Você está falando de confundir fundos! Não podemos transferir fundos de um empreendimento para o outro só porque parece que um está mais necessitado.

Fiske contemplou o rochedo de probidade fiscal, quase esperando uma piscadela, embora soubesse que o reverendo Bacon não era homem de piscadelas.

— Bom, a diocese sempre esteve pronta a ultrapassar os limites normais para atendê-lo, reverendo Bacon, pois há possibilidade de sermos flexíveis na leitura dos nossos regulamentos, como na ocasião em que o senhor e a diretoria da Sociedade de Reestruturação da Família fizeram uma viagem a Paris e a diocese cobriu a despesa com fundos da Sociedade Missionária... — Estava de novo se afogando no caldo sintático, mas não fazia mal.

— De jeito nenhum — disse o reverendo Bacon.

— Bom, que não seja desse jeito, então...

A voz da secretária do reverendo Bacon no interfone:

— O sr. Vogel está na linha.

O reverendo Bacon girou a cadeira para o lado do móvel com o telefone.

— Al?... Vi, sim. Vão arrastar o nome daquele rapaz pela lama sem nem se incomodarem.

O reverendo Bacon e seu interlocutor, Vogel, conversaram durante algum tempo sobre a notícia do Daily News. Esse tal de sr. Vogel evidentemente lembrou ao reverendo Bacon que o promotor público, Weiss, declarara ao Daily News que não havia absolutamente evidência alguma para sustentar a teoria da tentativa de assalto.

— Não podemos confiar nele — disse o reverendo Bacon. — Ele é como o morcego. Conhece a fábula do morcego? Os pássaros e os animais de pelo estão travando uma guerra. Enquanto os pássaros estiverem ganhando, o morcego vai dizer que é pássaro, porque é capaz de voar. Quando os animais de pelo estiverem ganhando, o morcego vai dizer que é um mamífero porque tem dentes. É por isso que o morcego não sai durante o dia. Não quer que ninguém veja as suas duas máscaras.

O reverendo Bacon ouviu alguns minutos e então disse:

— Tenho sim, Al. Há um senhor da diocese episcopal de Nova York comigo agora. Quer que lhe telefone depois?... Humhum... Humhum... Você diz que o apartamento dele vale 3 milhões de dólares? — Sacudiu a cabeça. — Nunca tinha ouvido falar numa coisa dessas. Pois eu digo que já é hora da Park Avenue ouvir a voz das ruas... Humhum... Ligo depois para falar sobre isso. Vou conversar com Annie Lamb antes de telefonar. Quando está pensando em dar entrada na ação? ... Na mesma, quando falei com ela ontem. Está todo entubado. Não fala nada nem conhece ninguém. Quando se pensa naquele rapaz, não há dinheiro que pague, há?... Bom, volto a me comunicar com você assim que puder.

Após desligar, o reverendo Bacon balançou a cabeça tristemente, mas em seguida a ergueu com um brilho nos olhos e um ligeiro sorriso. Com agilidade atlética levantou-se da cadeira e deu a volta à escrivaninha com a mão estendida, como se Fiske tivesse acabado de anunciar que precisava se retirar.

— É sempre bom vê-lo!

Num ato reflexo, Fiske apertou-lhe a mão, dizendo ao mesmo tempo:

— Mas, reverendo Bacon, ainda não...

— Voltaremos ao assunto. Tenho muito que fazer... uma manifestação bem na Park Avenue; tenho que ajudar a sra. Lamb a entrar com uma ação de 100 milhões de dólares contra Sherman McCoy...

— Mas, reverendo Bacon, não posso sair sem uma resposta. A diocese realmente chegou ao fim... quer dizer, insiste que eu...

— Diga à diocese que está agindo muito bem. Disse-lhe da última vez que esse é o melhor investimento que já fizeram. Diga-lhes que estão fazendo uma opção. Estão comprando o futuro com desconto. Diga-lhes e verão ao que me refiro muito breve, não vai demorar nada. — Passou o braço pelos ombros de Fiske como se fossem camaradas e apressou sua saída, dizendo o tempo todo: Não se preocupe com nada. Você está agindo muito bem, entende? Muito bem. Eles vão dizer: “Aquele rapaz se arriscou, mas acertou em cheio.”

Inteiramente desnorteado, Fiske foi envolvido externamente por uma onda de otimismo e pela pressão de um braço musculoso em suas costas.

O ruído do megafone e dos gritos de fúria elevava-se dez andares acima da Park Avenue no calor de junho — dez andares! nada disso — quase conseguia tocá-lo! — até que o tumulto embaixo parecia fazer parte do ar que ele respirava. O megafone berrava seu nome! O C duplo cortava o rugido da turba e pairava acima da vasta malha de ódio na avenida. Aproximou-se da janela da biblioteca e arriscou uma espiada. Suponha que me vejam! Os manifestantes haviam se espalhado pela rua, dos dois lados do canteiro central, paralisando o tráfego. A polícia tentava fazê-los recuar de volta às calçadas. Três policiais saíam no encalço de um outro grupo, quinze ou vinte no mínimo, pelas tulipas amarelas do canteiro central. Ao correrem, os manifestantes erguiam uma longa faixa: ACORDA, PARK AVENUE! VOCÊ NÃO PODE SE ESCONDER DO POVO! As tulipas amarelas caíam ao avanço dos manifestantes que deixaram uma enxurrada de flores amassadas que os policiais transpunham com as botas. Sherman olhava, estarrecido. A visão das tulipas primaveris, amarelas e perfeitas, da Park Avenue tombando aos pés da turba paralisava-o de medo. Uma equipe de televisão movia-se com dificuldade pela rua, tentando alcançá-los. O homem que transportava a câmera ao ombro tropeçou e foi ao chão, estatelando-se no asfalto com câmera e tudo. As faixas e os cartazes da turba oscilavam em todas as direções como velas numa enseada ventosa. Uma enorme faixa dizia, inexplicavelmente: O PUNHO “GAY” CONTRA A JUSTIÇA CLASSISTA. Os dois esses em CLASSISTA eram suásticas. Uma outra — nossa! Sherman prendeu o fôlego. As letras gigantescas diziam:

SHERMAN MCCOY:

NÓS, O JÚRI,

QUEREMOS VOCÊ!

E havia uma grosseira imitação de um dedo apontando diretamente para todos como nos antigos cartazes de O TIO SAM QUER VOCÊ. Pareciam estar segurando o cartaz em ângulo, para que ele pudesse lê-lo ali de cima. Fugiu da biblioteca e sentou-se na parte dos fundos da sala de estar em uma poltrona, uma das bergères Luís-Alguma-Coisa de que Judy tanto gostava, ou seria uma fauteuil? Killian andava de um lado para o outro, ainda exultando com o artigo do Daily News, aparentemente visando melhorar o seu estado de ânimo, mas Sherman já não prestava atenção. Ouvia a voz grave e desagradável de um dos guarda-costas, que estava na biblioteca atendendo o telefone. “Engula.” Todas as vezes que proferiam uma ameaça pelo telefone, o guarda-costas, um homem moreno e franzino chamado Occhioni, dizia: “Engula.” Pela maneira como o dizia, fazia parecer pior do que qualquer das clássicas obscenidades. Como teriam obtido seu número de telefone? Provavelmente da imprensa — na caverna aberta. Estavam ali na Park Avenue à sua porta. Entravam pelo telefone. Quanto tempo mais até que irrompessem pelo vestíbulo, e surgissem gritando pelo piso solene de mármore verde! O outro guarda-costas, McCarthy, encontrava-se no vestíbulo, sentado em uma das estimadas cadeiras de Judy, estilo Thomas Hope, e de que adiantaria? Sherman recostou-se, os olhos baixos, fixos nas pernas delicadas de uma mesa Sheraton Pembroke, uma peça barbaramente cara que Judy encontrara em um desses antiquários da 57th Street... barbaramente cara... barbaramente... o sr. Occhioni, que dizia “Engula” a qualquer um que ligasse ameaçando sua vida... duzentos dólares por turno de oito horas... mais duzentos dólares pelo impassível sr. McCarthy... o dobro disso pelos dois guarda-costas na casa de seus pais, na East 73rd Street, onde Judy, Campbell, Bonita e a srta. Lyons se encontravam... oitocentos dólares por turno de oito horas... todos antigos policiais de Nova York em algum departamento que Killian conhecia... 2.400.000 dólares por dia... uma hemorragia de dinheiro... McCoy!... McCoy!... um tremendo alarido elevou-se da rua... E em pouco tempo ele já não pensava mais na mesa Pembroke nem nos guarda-costas... Tinha os olhos parados catatonicamente e pensava no cano da espingarda. Que tamanho tinha? Usara-a tantas vezes, a última fora na caçada do Leash Club no outono anterior, mas não se lembrava do tamanho! Era grande, por ser uma arma de cano duplo, calibre 12. Seria grande demais para meter na boca? Não, não poderia ser tão grande, mas que sensação produziria? Que sensação produziria ao tocar no céu da boca? Que gosto teria? Será que teria dificuldade de respirar o tempo suficiente para... para... Como puxaria o gatilho? Vejamos, manteria o cano firme na boca, com uma das mãos, a mão esquerda — mas que tamanho tinha o cano? Era comprido... Alcançaria o gatilho com a mão direita? Talvez não! O dedo do pé... Lera em algum lugar que alguém descalçara o sapato e apertara o gatilho com o dedão... Onde faria isso? A espingarda estava na casa de Long Island... presumindo que conseguisse chegar a Long Island sair desse edifício, fugir da Park Avenue sitiada, sair vivo do... NÓS, O JÚRI... O canteiro para além do depósito de ferramentas... Judy sempre o chamara de canteiro de corte... Sentaria lá fora... Se fizesse uma bagunça, não importaria... Suponha que Campbell descobrisse o corpo!... O pensamento não o levou às lágrimas conforme pensara... esperara que levasse... Não estaria descobrindo o pai... Não era mais seu pai... não era mais ninguém que tivesse sido conhecido como Sherman McCoy... Era apenas uma caverna que se enchia rapidamente de ódio aviltante e intenso...

O telefone tocou na biblioteca. Sherman se preparou. Engula? Mas só o que ouviu foi o som grave da voz normal de Occhioni. Pouco depois o homenzinho meteu a cabeça na sala e disse:

— Ei, sr. McCoy, é alguém chamada Sally Rawthrote. Quer atender ou não?

“Sally Rawthrote?” Era a mulher ao lado de quem sentara na casa dos Bavardages, a mulher que perdera o interesse nele quase de imediato e em seguida lhe dera o gelo pelo resto do jantar. Por que iria querer falar com ele agora? Por que iria querer atendê-la agora? Não queria, mas uma centelhinha de curiosidade luziu na caverna, ele se ergueu, olhou para Killian, deu de ombros, dirigiu-se à biblioteca, sentou-se à escrivaninha e apanhou o fone.

— Alô?

— Sherman! Sally Rawthrote. — Sherman. Um velhíssimo amigo. — Espero que a hora não seja muito imprópria.

“Hora imprópria?” Lá de baixo chegou um tremendo rugido, o megafone berrava e estrondeava, e ouviu seu nome. McCOY!... McCOY!

— Bom, naturalmente a hora é imprópria — disse Sally Rawthrote. — Que bobagem! Mas pensei em arriscar um telefonema e saber se poderia ajudar de alguma maneira.

“Ajudar?” Enquanto falava, o rosto dela voltou-lhe à lembrança, aquele rosto tenso e míope que focalizava a pessoa a dez centímetros do nariz.

— Bom, muito obrigado — respondeu Sherman.

— Sabe, moro a poucos quarteirões de você. Do mesmo lado da rua.

— Ah, é?

— Na ponta noroeste. Se alguém vai morar na Park Avenue, não há ponto melhor que o noroeste. É tão ensolarado! Naturalmente o seu ponto também é bom. O seu edifício tem alguns dos apartamentos mais bonitos de Nova York. Não estive no seu desde que os McLeods o venderam. Foram donos antes dos Kittredges. Em todo caso, do meu quarto, que fica no canto, posso ver a Park até onde você mora. Estou espiando pela janela neste exato momento, e essa turba — é um absurdo inominável! Sinto tanto por você e por Judy... tive que telefonar para saber se posso ajudar em alguma coisa. Espero que não esteja sendo inoportuna.

— Não, é muita bondade. A propósito, como conseguiu meu número?

— Telefonei para Inez Bavardage. Fiz mal?

— Para lhe dizer a verdade, não faz a mínima diferença a essa altura, sra.

Rawthrote.

— Sally.

— De qualquer modo, muito obrigado.

— Como disse, se puder ajudá-lo em alguma coisa, me diga. Com o apartamento, é o que quero dizer.

— Com o apartamento?

Mais um ronco surdo... um vozerio... McCOY! McCOY!

— Se decidir que quer fazer alguma coisa com o apartamento. Trabalho para Benning Sturtevant, como deve saber, e sei que muitas vezes em situações como essa as pessoas, por vezes, acham vantajoso liquefazer ao máximo o seu patrimônio. Ha, ha, isso bem que me conviria! Em todo caso, é uma ponderação, e posso lhe garantir — posso lhe garantir — que consigo 3 milhões e meio pelo seu apartamento. Num abrir e fechar de olhos. Posso lhe garantir.

O desplante da mulher era assombroso. Ultrapassava os limites da boa e da má educação, e até do bom gosto... Era surpreendente. Isso fez Sherman sorrir, e ele não sabia que ainda era capaz de sorrir.

— Ora, ora, ora, ora, Sally. Realmente admiro a sua visão. Você espiou pela sua janela que abre para noroeste e viu um apartamento à venda.

— De modo algum! Só pensei que...

— Bom, você chegou atrasada, Sally. Terá que falar com um homem chamado Albert Vogel.

— Quem é esse?

— É o advogado de Henry Lamb. Ele entrou com uma ação de indenização de 100 milhões de dólares contra mim, e não estou muito seguro se tenho ou não liberdade para vender até mesmo um tapete, a esta altura. Bom, talvez possa vender um tapete. Quer vender um tapete para mim?

— Ha, ha, não. Não entendo nada de tapetes. Não vejo como podem congelar os seus bens. Isso me parece totalmente injusto. Quero dizer, afinal a vítima foi você, não foi? Li a matéria no Daily News de hoje. Em geral leio apenas Bess Hill e Bill Hatcher, mas estava folheando o jornal... e lá estava a sua foto. Eu disse: “Meu Deus, é o Sherman!”. Então li a matéria... e você estava apenas evitando uma tentativa de assalto. É tão injusto! — E continuou a tagarelar. Era à prova de fogo. Não adiantava ironizar.

Depois de desligar, Sherman voltou à sala de estar.

Killian perguntou:

— Quem era?

Sherman respondeu:

— Uma corretora de imóveis que conheci em um jantar. Queria vender o meu apartamento.

— Disse quanto poderia obter?

— Três milhões e meio de dólares.

— Bom, vejamos — disse Killian. — Se receber uma comissão de 6 por cento, dá... hummmm... 210 mil dólares. Vale a pena parecer uma oportunista insensível, imagino. Mas direi uma coisa em favor dela.

— E o que é?

— Ela o fez sorrir. Então, não é tão má assim.

Mais um ronco surdo, o mais alto até agora... McCOY!... McCOY!... Os dois estavam parados no meio da sala de estar e escutaram por instantes.

— Nossa, Tommy — começou Sherman. Era a primeira vez que o chamava pelo nome de batismo, mas não parou para pensar nisso. — Não consigo acreditar que estou parado aqui e que tudo isso está acontecendo. Estou encurralado no meu apartamento, e a Park Avenue está ocupada por uma turba à espera para me matar. Me matar!

— Ahhhhhhh, corta essa, isso é a última coisa que querem fazer. Morto, você não vale um caracol para Bacon, mas vivo ele acha que vai valer muitíssimo.

— Para Bacon! Que é que ele ganha com isso?

— Milhões é o que acha que vai ganhar com isso. Não posso provar, mas afirmo que isso tudo vai muito além das ações cíveis.

— Mas é só o Henry Lamb que está me acionando. Ou a mãe dele, acho, em nome dele. Como é que Bacon vai ganhar alguma coisa com isso?

— Muito bem. Quem é o advogado que está representando Henry Lamb? Albert Vogel. E como é que a mãe de Henry Lamb chegou a Albert Vogel? Por que admira a brilhante defesa que fez dos Quatro de Utica ou dos Oito de Waxahachie em 1969? Esqueça. Bacon levou-a a Vogel, porque os dois estão lisos. O que quer que Lamb receba de indenização, Vogel receberá pelo menos um terço, e pode ter certeza de que vai rachar com Bacon, ou terá um bando de desordeiros atrás dele que não vai ser fácil. Se há uma coisa neste mundo que conheço de A a Z são os advogados, de onde vem seu dinheiro e para onde vai.

— Mas Bacon começou essa campanha sobre Henry Lamb mesmo antes de saber que eu estava envolvido.

— Ah, no início estavam atrás do hospital, alegando negligência. Iam processar a cidade. Se Bacon conseguisse criar um grande caso na imprensa, então um júri poderia conceder o que queria. Um júri num caso cível... com uma coloração racista? Era uma sacada.

— O mesmo se aplica a mim — disse Sherman.

— Não vou tentar enganá-lo. E verdade. Mas se você ganhar o caso criminal, não haverá caso cível.

— E se não ganhar o caso criminal, pouco me importa o caso cível — comentou Sherman, parecendo muito mal-humorado.

— Bom, você tem que admitir uma coisa — disse Killian com a voz animada —, essa coisa o transformou em um gigante da Wall Street. Um gigante, pô. Viu o que foi que Flannagan disse de você no Daily News? O fabuloso operador número um da Pierce & Pierce. Fabuloso. Uma lenda em vida. Você é filho do aristocrático John Campbell McCoy, antigo dirigente da Dunning Sponget & Leach. Você é o fabuloso, genial e aristocrático banqueiro de investimentos. Bacon provavelmente pensa que possui metade do dinheiro do mundo.

— Se quer saber a verdade — disse Sherman —, nem mesmo sei onde vou arranjar dinheiro para pagar... — Acenou a cabeça na direção da biblioteca, onde Occhioni se encontrava. — Esse processo cível inclui tudo. Querem até mesmo a cota trimestral dos lucros que eu supostamente iria receber no fim deste mês. Não consigo imaginar como souberam disso. Até se referiram à cota pelo nome que usamos internamente, “Pier B”. Teriam que conhecer alguém na Pierce & Pierce.

— A Pierce & Pierce vai cuidar dos seus interesses, não vai?

— Hã. Eu nem existo mais para a Pierce & Pierce. Não há o que se chama de lealdade na Wall Street. Talvez tenha havido algum dia: meu pai costumava falar como se houvesse; mas hoje não há mais. Recebi um telefonema da Pierce & Pierce, e não foi de Lopwitz. Foi de Arnold Parch. Queria saber se havia alguma coisa que pudessem fazer, e em seguida fez tudo para desligar o mais depressa possível, com medo de que eu me lembrasse de pedir alguma coisa. Embora eu não saiba por que esteja mencionando a Pierce & Pierce. Todos os nossos amigos particulares têm agido assim. Minha mulher nem consegue arranjar amiguinhas para minha filha brincar fora da escola. E ela só tem seis anos...

Parou. Sentiu-se subitamente constrangido por estar desfilando suas mágoas pessoais diante de Killian. Aqueles desgraçados do Garland Reed e da esposa! Não quiseram nem deixar Campbell ir brincar com McKenzie! Uma desculpa tão absolutamente esfarrapada... Garland não telefonara uma única vez, e conhecera-o a vida inteira. Pelo menos Rawlie tivera a coragem de ligar. Ligara três vezes. Provavelmente até teria coragem de visitá-lo... se algum dia NÓS, O JÚRI esvaziassem a Park Avenue... Talvez viesse...

— A pessoa cai na real, com a rapidez com que a coisa acontece, quando acontece — disse a Killian. Não queria falar tanto, mas não conseguiu se conter. — Todos esses vínculos que se tem, todas essas pessoas com quem se frequentou a escola, que são sócios do seu clube, pessoas com quem se janta: são apenas um fio de linha, Tommy, todos esses vínculos que constituem a vida, e quando ele se parte... acabou... Acabou... Tenho tanta pena de minha filha, minha garotinha! Ela vai chorar por mim, vai chorar pelo papai, o papai de quem se lembra, sem saber que ele já morreu.

— De que diabo está falando? — interrompeu Killian.

— Você nunca passou por uma coisa dessas antes. Não duvido de que tenha visto muita coisa, mas nunca as experimentou pessoalmente. Não sei explicar a sensação. Só sei lhe dizer que já morri, ou que o Sherman McCoy da família McCoy, de Yale, da Park Avenue e da Wall Street morreu. O eu... não sei como explicar isso, mas se, Deus o livre, algo parecido um dia lhe acontecer, saberá o que quero dizer. O seu eu... são as outras pessoas, todas as pessoas a que está ligado, e são apenas um fio.

— Eiiiii, Sherman! — exclamou Killian. — Dê-me uma chance. Não faz bem nenhum sair filosofando no meio de uma guerra.

— E que guerra!

— Droga, qual é, qual é? Essa reportagem no Daily News é muito importante para você. Weiss deve estar louco de raiva. Revelamos a verdadeira identidade desse marginal drogado que ele arranjou para testemunhar. Auburn. Agora temos outra teoria para o caso todo. Agora temos base para as pessoas o apoiarem. Veiculamos a ideia de que você era a vítima de uma armação, num assalto. Isso muda todo o quadro para você, e não o comprometemos com absolutamente nada.

— É tarde demais.

— Que quer dizer com é tarde demais? Dê-me um tempinho, droga. Esse tal Flannagan do News vai fazer o nosso jogo o tempo que quisermos. O inglês, Fallow, em The City Light, está arrancando os cabelos com esse artigo. Com isso vai aceitar o que eu lhe der. Essa merda de notícia que ele acabou de escrever não poderia ter saído melhor se eu a tivesse ditado. Ele não só identifica Auburn, como usa a foto da polícia que Quigley conseguiu! — Killian estava imensamente satisfeito. — E incluiu o fato de que duas semanas atrás Weiss chamou Auburn de “rei do crack” na Evergreen Avenue.

— Que diferença faz isso?

— Não fica bem. Se você tem um cara na prisão acusado de um delito grave e de repente ele se apresenta para depor em troca do arquivamento da acusação ou de uma redução de pena, não fica bem. Não fica bem para o júri, e não fica bem para a imprensa. Se ele é acusado de um delito leve ou de uma contravenção, não faz muita diferença, porque presume-se que não faça tanta diferença para ele o tempo de prisão que terá de cumprir.

Sherman disse:

— Uma coisa sempre me deu o que pensar, Tommy. Por que Auburn, quando inventou a história dele... por que me pôs dirigindo o carro? Por que não Maria, que estava realmente dirigindo o carro quando Lamb foi atropelado? Que diferença fazia para Auburn?

— Tinha que contar assim. Não sabia que testemunhas poderiam ter visto o seu carro pouco antes de Lamb ser atropelado e logo depois de sê-lo, e precisava explicar por que você estava dirigindo até o ponto em que a coisa aconteceu e foi ela quem arrancou com o carro para irem embora. Se disser que você parou, e então vocês dois trocaram de lugar e ela arrancou e atropelou Lamb, então a pergunta lógica seria “Por que pararam”, e a resposta lógica seria “Porque um marginalzinho como Roland Auburn armou uma barricada e tentou assaltá-los”.

— Como é o nome dele?... Flannagan... não menciona nada disso.

— Certo. Você vai notar que não falei nada de uma mulher estar no carro de um jeito ou de outro. Quando chegar a hora, queremos Maria do seu lado. Também vai notar que Flannagan escreveu a porra da notícia sem nem dar muito destaque à “mulher misteriosa”.

— Um sujeito muito amável. Por que isso?

— Ah, conheço o cara. É outro “jumento” como eu, tentando sobreviver nos Estados Unidos. Faz seus depósitos no Banco de Favores. Os Estados Unidos são um país maravilhoso.

Por um momento, o ânimo de Sherman melhorou um ou dois pontos, mas em seguida piorou como nunca. Foi a euforia óbvia de Killian que provocou isso. Killian estava exultando com a sua genialidade estratégica “na guerra”. Conduzira uma surtida bem-sucedida de algum tipo. Para Killian isso era um jogo. Se ele vencesse, fantástico. Se perdesse... bom, na próxima guerra... Para Sherman, não havia nada a ser ganho. Já perdera quase tudo, irrecuperavelmente. Na melhor das hipóteses, só poderia evitar perder tudo.

O telefone tocou na biblioteca. Sherman se preparou mais uma vez, mas logo Occhioni estava de novo à porta.

— E um sujeito chamado Pollard Browning, sr. McCoy.

— Quem é ele? — perguntou Killian.

— Mora aqui no edifício. É o síndico.

Entrou na biblioteca e apanhou o fone. Na rua lá embaixo, mais um vozerio, mais gritos pelo megafone... McCOY!... McCOY!... Sem dúvida era igualmente audível chez Browning. Podia imaginar o que Pollard estaria pensando.

Mas sua voz era bastante simpática.

— Está aguentando firme, Sherman?

— Ah, mais ou menos, Pollard, suponho.

— Gostaria de dar uma passada para vê-lo, se não se incomoda.

— Você está em casa? — perguntou Sherman.

— Acabei de chegar. Não foi fácil entrar no edifício, mas consegui. Está bem para você?

— Claro. Suba.

— Vou subir pela escada de incêndio, se não se importar. Eddie está ocupadíssimo na portaria. Nem sei se consegue ouvir a campainha.

— Vou esperá-lo lá atrás.

Informou a Killian que iria lá atrás, na cozinha, para abrir a porta a Browning.

— Eiiii! — exclamou Killian. — Está vendo? Não o esqueceram.

— Veremos — respondeu Sherman. — Você está em vias de conhecer Wall Street em sua forma mais pura.

Nos fundos do apartamento, na cozinha silenciosa, com a porta aberta, Sherman ouvia Pollard fazendo ressoar os degraus de metal das escadas de incêndio. Não tardou a aparecer, bufando com a subida de dois lances inteiros, mas impecável. Pollard era o tipo de quarentão gorducho que parece mais saudável que qualquer atleta da mesma idade. Seus maxilares lisos transbordavam de uma camisa branca feita de algodão brilhante. Um terno cinzento de lã penteada, de belo corte, cobria cada centímetro de seu corpo fofo sem uma única ruga. Usava uma gravata marinho com o emblema do Yacht Club e um par de sapatos tão bem-feitos que faziam seus pés parecerem minúsculos. Estava elegantíssimo.

Sherman conduziu-o da cozinha para o vestíbulo, onde o irlandês, McCarthy, encontrava-se sentado na cadeira Thomas Hope. A porta da biblioteca estava aberta, e Occhioni estava bem à vista.

— Guarda-costas — Sherman sentiu-se compelido a explicar a Pollard, em voz baixa. — Aposto que nunca pensou que conheceria alguém que tivesse guarda-costas.

— Um dos meus clientes... você conhece Cleve Joyner da United Carborundum?

— Não, não conheço.

— Tem guarda-costas há uns seis ou sete anos. Vão com ele a toda parte.

Na sala de estar, Pollard deu uma olhada rápida e perfunctória nas roupas de Killian, e uma expressão aflita e contraída surgiu em seu rosto. Pollard cumprimentou-o.

— Como está? — A frase saiu quase ininteligível, e Killian respondeu também ininteligivelmente:

— Como vai? — As narinas de Pollard se contraíram ligeiramente, do mesmo jeito que as do pai de Sherman quando ele mencionara o nome Dershkin, Bellavita, Fishbein & Schlossel.

Sherman e Pollard sentaram-se em um dos grupos de estofados que Judy arranjara para encher a enorme sala. Killian retirou-se à biblioteca para falar com Occhioni.

— Bom, Sherman — disse Pollard —, estive em contato com todos os membros da nossa administração, exceto Jack Morrisey, e gostaria que soubesse que tem o nosso apoio, e que faremos tudo o que pudermos. Sei que deve ser uma situação terrível para você, Judy e Campbell. — Balançou a pequena cabeça redonda.

— Ora, muito obrigado, Pollard. Não tem sido exatamente uma festa.

— Agora, estive em contato com o inspetor do 19º Distrito pessoalmente, e ficaram de fornecer proteção para a porta do edifício, de modo que possamos entrar e sair, mas ele diz que não pode manter os manifestantes inteiramente afastados daqui. Pensei que pudessem mantê-los a uns 150 metros de distância, mas ele afirma que não pode fazer isso. Francamente, acho que é uma afronta. Aquele bando de... — Sherman via Pollard vasculhando a cabeça lisa e redonda à procura de uma maneira delicada de expressar um epíteto racial. Abandonou o esforço: — ... aquela ralé. — Balançou um pouco mais a cabeça.

— É um futebol político, Pollard. Eu sou um futebol político. É isso que se ganha quando a pessoa se mete no que não entende. — Sherman tentou sorrir. Contra todos os seus instintos, queria que Pollard gostasse dele e se solidarizasse com ele. — Espero que tenha lido o Daily News de hoje, Pollard.

— Não, raramente leio o Daily News. Li, no entanto, o Times.

— Bom, leia a reportagem do Daily News, se puder. É a primeira notícia que dá uma ideia do que realmente está se passando.

Pollard sacudiu a cabeça ainda mais pesarosamente.

— A imprensa é tão ruim quanto os manifestantes, Sherman. São positivamente desaforados. Atacam de surpresa. Atacam qualquer pessoa que tente entrar aqui. Tive que desafiá-los agora há pouco para entrar no meu próprio edifício. E então caíram em cima do meu motorista! São atrevidos! São um bando de selvagens. — “Selvagens?” — E naturalmente a polícia não toma providência alguma. É como se você fosse caça autorizada só porque tem a felicidade de morar num edifício destes.

— Não sei o que dizer. Sinto muito sobre o que está acontecendo, Pollard.

— Bom, infelizmente... — Interrompeu-se. — Nunca houve nada parecido na Park Avenue, Sherman. Quero dizer, uma manifestação contra a Park Avenue como área residencial. É intolerável. É como se pelo fato de ser a Park Avenue, nos seja negado o santuário de nossas casas. E o nosso edifício é o foco de tudo.

Sherman sentiu um alerta neural do que poderia estar por vir, mas não teve certeza. Começou a balançar a cabeça acompanhando o ritmo da de Pollard, para mostrar que seu coração se encontrava no lugar certo.

Pollard continuou:

— Aparentemente pretendem vir aqui todos os dias ou ficar noite e dia até... até não sei o quê. — Sua cabeça realmente balançava agora.

Sherman acelerou o ritmo da própria cabeça.

— Quem lhe informou isso?

— Eddie.

— Eddie, o porteiro?

— É. E Tony também, o que estava de serviço até Eddie entrar, às 4 horas. Disse a Eddie a mesma coisa.

— Não posso acreditar que façam isso, Pollard.

— Até hoje não se poderia acreditar que um bando de... que fariam uma manifestação diante do nosso edifício na Park Avenue, não é mesmo? Quero dizer, e aí está.

— Isso é verdade.

— Sherman, somos amigos há muito tempo. Frequentamos Buckley juntos. Era uma época de inocência, não era? — Sorriu, um sorrisinho frágil. — Meu pai conhecia seu pai. Por isso estou falando como um velho amigo que quer fazer o que pode por você. Mas também sou síndico de todos os moradores deste edifício, e tenho uma responsabilidade perante eles que leva precedência sobre as minhas preferências pessoais.

Sherman sentiu o rosto começar a enrubescer.

— E isso significa o quê, Pollard?

— Bom, só isso. Não posso imaginar que essa situação seja de forma alguma confortável para você, permanecer como prisioneiro virtual neste edifício. Já pensou em... mudar de residência? Até que as coisas se acalmem um pouco?

— Ah, pensei nisso sim. Judy, Campbell, nossa governanta e a babá estão hospedadas em casa dos meus pais, agora. Francamente, já estou aterrorizado com a possibilidade de aqueles filhos da mãe lá fora descobrirem e irem lá e fazerem alguma coisa, e um palacete é inteiramente vulnerável. Pensei em ir para Long Island, mas você conhece a nossa casa. É completamente aberta. Porta-janelas por toda parte. Não seguram nem os esquilos. Pensei num hotel, mas não existe segurança num hotel. Pensei em me hospedar no Leash, mas também é um palacete. Pollard, estou recebendo ameaças de morte. Ameaças de morte. Já houve no mínimo uns doze telefonemas, hoje.

Os olhinhos de Pollard correram rapidamente pela sala como se eles pudessem estar entrando pelas janelas.

— Bom, francamente, tanto mais razão, Sherman.

— Razão para quê?

— Bom, para que você refletisse... tomasse providência. Sabe, não é apenas você que está correndo riscos. Todos aqui no edifício estão correndo riscos, Sherman. Compreendo que não seja sua culpa, não diretamente, sem dúvida, mas isso não altera os fatos.

Sherman sabia que seu rosto estava vermelho, escaldante.

— Alterar os fatos! Os fatos são que a minha vida está sendo ameaçada, e este é o lugar mais seguro de que disponho, que acontece ser minha casa, se me permite lembrar-lhe este fato.

— Bom, deixe-me lembrar a você... e mais uma vez, só estou fazendo isso porque tenho uma responsabilidade maior... deixe-me lembrar que você tem sua casa aqui porque é coparticipante de um empreendimento residencial. Chama-se um condomínio por esta razão, e determinadas obrigações de sua parte e da parte da diretoria decorrem do contrato que você assinou quando comprou sua cota-parte. Não há maneira de se alterar tais fatos.

— Estou na conjuntura mais crítica de minha vida... e você me vem falar de contratos legais?

— Sherman... — Pollard baixou os olhos e acenou as mãos tristemente: — Tenho que pensar não só em você e sua família, mas em treze outras famílias deste edifício. E não estamos lhe pedindo para fazer nada em caráter permanente.

“Nós! Nós, o júri... no interior dessas paredes!”

— Bom, por que não se muda, Pollard, se está tão aterrorizado, pô? Por que você e toda a comissão administradora não se mudam? Tenho certeza de que o seu brilhante exemplo inspirará outros, e eles se mudarão, e ninguém correrá riscos no seu querido edifício, exceto os desgraçados dos McCoys, que criaram todos esses problemas para começar, certo?

Occhioni e Killian espiavam pela porta da biblioteca, e McCarthy observava do saguão de entrada. Mas ele não conseguia se conter.

— Sherman...

— Mudar?... Tem alguma ideia do idiota absurdo e pomposo que você é? Entrar aqui, morto de medo, e me dizer que a comissão em sua sabedoria acha conveniente que eu me mude?

— Sherman, sei que está agitado...

— Mudar?... A única pessoa que vai se mudar, Pollard, é você! Você vai se mudar deste apartamento... agora! E vai sair pelo lugar por onde entrou: a porta da cozinha! — Apontou um braço e um dedo rígidos na direção da cozinha.

— Sherman, subi aqui de boa-fé.

— Ahhhhhh, Pollard... Você era um fanfarrão gordo e ridículo em Buckley e é um fanfarrão gordo e ridículo agora. Já tenho bastante problemas na cabeça sem a sua boa-fé. Até logo, Pollard. — Tomou-o pelo cotovelo e tentou fazê-lo voltar-se para a cozinha.

— Não ponha a mão em mim!

Sherman retirou a mão. E sibilando:

— Então saia.

— Sherman, você não está nos deixando nenhuma alternativa, exceto executar as medidas previstas para as Situações Inaceitáveis.

Apontou o braço de aço para a cozinha e disse baixinho:

— Marche, Pollard. Se ouvir mais uma palavra sua entre aqui e aquela escada de incêndio, pode ter certeza de que vai haver uma situação inaceitável.

A cabeça de Pollard pareceu inchar apopleticamente. Então se virou e caminhou rapidamente pelo vestíbulo e entrou na cozinha. Sherman o acompanhou o mais ruidosamente possível.

Quando Pollard chegou ao santuário da escada de incêndio, voltou-se e, furioso, exclamou:

— Lembre-se de uma coisa, Sherman. Foi você quem deu o tom.

— Deu o tom. Fantástico. Você é um autêntico fazedor de frases, Pollard! — E bateu a velha porta corta-fogo da cozinha.

Quase imediatamente arrependeu-se de tudo. Ao caminhar de volta para a sala de estar, seu coração batia violentamente. Tremia. Os três homens, Killian, Occhioni e McCarthy, estavam parados ali com uma displicência de show de mímica.

Sherman forçou-se a sorrir, só para mostrar que estava tudo bem.

— Seu amigo? — perguntou Killian.

— É, um velho amigo. Frequentamos a escola juntos. Ele quer me expulsar do edifício.

— Não tem a mínima chance — disse Killian. — Podemos enrolá-lo pelos próximos dez anos.

— Sabe, tenho uma confissão a fazer — disse Sherman. Forçou-se de novo a sorrir. — Até esse filho da mãe subir aqui, eu estava pensando em estourar os miolos. Agora eu nem sonharia em fazê-lo. Isso resolveria todos os problemas dele, e ele jantaria fora durante um mês para comemorar e se sentiria muito justo e correto. Contaria a todos que crescemos juntos, e balançaria aquela grande bolha redonda que lhe serve de cabeça. Acho que vou convidar aqueles filhos da puta — indicou as ruas com a cabeça — para virem aqui dançar uma mazurca bem em cima desse cabeça de bolha.

— Eiiiiii! — exclamou Killian. — Assim está melhor. Agora você está virando irlandês, pô. Os irlandeses estão vivendo de sonhos de vingança nos últimos 1.200 anos. Agora você falou, irmão.

Mais um ronco surdo elevou-se da Park Avenue no calor de junho... McCOY!... McCOY!