A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 5 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 4

4

 

REI DA SELVA

 

Tapumtapumtapumtapumtapumtapumtapum — o martelar dos aviões levantando voo era tão forte que ecoava nele. O ar estava impregnado de fumaça das turbinas. O fedor atravessava direto até seu estômago. Carros surgiam continuamente no portal da rampa e avançavam com dificuldade por entre a multidão que vagava pela cobertura à luz do crepúsculo, procurando os elevadores, ou seus carros, ou os carros de outras pessoas — para roubar! roubar! roubar! — e o dele seria o primeiro da lista, não? Sherman parou com a mão na maçaneta, imaginando se ousaria deixá-lo ali. O carro era um Mercedes esporte, preto, de dois lugares, que lhe custara 48 mil dólares — ou 120 mil, dependendo de como se calculasse. Na faixa de imposto de um Senhor do Universo, com impostos federais, estaduais e municipais a pagar, Sherman precisava ganhar 120 mil dólares e assim ter uma sobra de 48 mil para gastar num carro esporte de dois lugares. Como iria explicar a Judy se o carro fosse roubado do último andar de um terminal aqui no Aeroporto Kennedy?

Bem — por que deveria lhe dar explicações? Durante uma semana inteira jantara em casa todas as noites. Talvez fosse a primeira vez que conseguira fazer isso desde que começara a trabalhar para a Pierce & Pierce. Dera atenção a Campbell, passando mais de 45 minutos com ela uma noite, o que era extraordinário, embora provavelmente fosse se sentir surpreso e ofendido se algum dia alguém comentasse isso. Tinha trocado a fiação de um abajur de pé da biblioteca sem reclamar nem suspirar. Com três dias desse comportamento modelar, Judy abandonara o divã no quarto de vestir e voltara para o quarto do casal. Verdade, o Muro de Berlim agora passava pelo meio da cama, e ela não lhe dava nem um dedinho de conversa. Mas era sempre educada com ele quando Campbell estava por perto. Era o que importava.

Duas horas antes, quando ligara para Judy para avisar que ia fazer serão, ela aceitara naturalmente. Bem — ele merecia! Deu uma última olhada para o Mercedes e se encaminhou para a área de desembarque internacional.

Estava localizada nas entranhas do edifício, no que deveria ter sido originalmente projetado para a guarda de bagagens. Tubos de luz fluorescente lutavam contra as sombras daquele lugar. As pessoas se aglomeravam por trás de uma grade de metal, esperando os passageiros que vinham do exterior saírem da alfândega. E se houvesse alguém ali que os conhecesse, ele e Judy? Inspecionou a multidão. Shorts, tênis, jeans, camisetas de futebol — nossa, quem eram aquelas pessoas? Um a um os viajantes iam saindo da alfândega. Malhas de ginástica, camisetas, casacos esporte, calças de malha, macacões, blusões, bonés de beisebol e camisetas de alcinhas; recém-chegados de Roma, Milão, Paris, Bruxelas, Munique e Londres; os viajantes do mundo; os cosmopolitas; Sherman levantou o queixo de Yale para enfrentar a maré.

Quando Maria finalmente apareceu, não foi difícil identificá-la. No meio daquela turba ela parecia algo vindo de outra galáxia. Usava uma saia e uma jaqueta de ombros largos azul-vivo, que estava na moda na França, uma blusa de seda listrada de azul e branco, e escarpins de crocodilo azul-elétrico com ponteiras de pelica branca. Só o preço da blusa e dos sapatos seria suficiente para pagar as roupas de quaisquer outras vinte mulheres naquele saguão. Caminhava com o nariz empinado, e um remelexo nos quadris de modelo na passarela, calculado para provocar o máximo de inveja e rancor. As pessoas olhavam-na fixamente. Junto dela marchava um carregador com um carrinho de alumínio atulhado de malas, uma quantidade prodigiosa, um jogo completo de couro bege com debrum chocolate nas bordas. “Vulgar, mas nem tanto quanto Louis Vuitton”, pensou Sherman. Passara apenas uma semana na Itália para procurar uma casa de verão no lago de Como. Não conseguia imaginar por que levara tantas malas. (Inconscientemente associava coisas desse tipo à falta de educação em criança.) Ficou se perguntando como iria meter aquela bagagem toda no Mercedes.

Foi contornando a grade e saiu ao seu encontro. Aprumou os ombros.

— Alô, boneca — disse.

— Boneca? — exclamou Maria. Acrescentou um sorriso, para fingir que não estava aborrecida, mas obviamente estava. Era verdade que nunca a chamara de boneca antes. Tinha querido parecer confiante, mas displicente, um Senhor do Universo apanhando a amiguinha num aeroporto.

Segurou-lhe o braço, acertou o passo com o dela, e decidiu experimentar outra vez.

— Como foi o voo?

— Ótimo — respondeu Maria —, se a pessoa não se importar de ser chapeada por um inglês durante seis horas.

Passaram-se alguns segundos antes que Sherman percebesse que ela dissera “chateada”. A moça tinha os olhos perdidos na distância como se refletisse sobre aquela provação.

Na cobertura, o Mercedes sobrevivera à multidão de gatunos. O carregador não conseguiu acomodar muita bagagem na malinha do carro esporte. Teve que empilhar metade dela no assento traseiro, que não era muito maior do que uma prateleira estofada. “Formidável”, pensou Sherman. “Se tiver que frear, vou levar um conjunto voador de malas bege com debrum chocolate na base do crânio.”

Até sair do aeroporto e entrar na Via Expressa Van Wyck em direção a Manhattan, apenas a última claridade fraca e embaçada do dia era visível por trás dos edifícios e das árvores do South Owne Park. Era aquela hora do crepúsculo em que as luminárias da rua e os faróis se acendem mas de pouco adiantam. Um rio de lanternas vermelhas rolava à sua frente. No acostamento da via expressa, passando Rockaway Boulevard, viu um enorme sedã de duas portas, o tipo de carro que costumavam fabricar nos anos 1970, enganchado na mureta. Um homem... caído de braços e pernas abertas na estrada... Não, ao se aproximar, viu que não era um homem. Era o capô do carro. O capô inteiro fora arrancado e jazia no chão. As rodas, assentos e volante tinham desaparecido... Esse enorme veículo em ruínas agora fazia parte da paisagem... Sherman, Maria, a bagagem e o Mercedes seguiram em frente.

Tentou mais uma vez.

— Bom, que tal estava Milão? Quais são as últimas no lago de Como?

— Sherman, quem é Christopher Marlowe? — Chââmân, quem é Cristâfâh Mââlon?

— Christopher Marlowe? Não sei. Eu o conheço?

— Esse que eu estou falando foi escritor.

— Você se refere ao dramaturgo?

— Acho que sim. Quem foi ele? — Maria continuava a olhar para a frente. Pelo tom de voz parecia que morrera seu último amigo.

— Christopher Marlowe... Foi um dramaturgo inglês da época de Shakespeare, acho. Talvez um pouquinho anterior a Shakespeare. Por quê?

— Quando foi? — Não podia parecer mais infeliz.

— Vejamos. Não sei... Século XVI... XV... por aí. Por quê?

— Que foi que ele escreveu?

— Nossa... não tenho a mínima ideia. Ouça, achei que já estava me saindo bem só em lembrar quem era. Por quê?

— Sei, mas você sabe quem ele foi.

— Mais ou menos. Por quê?

— E o dr. Fausto?

— Dr. Fausto?

— Ele escreveu alguma coisa sobre o dr. Fausto?

— Hummmmm. — Um fiapinho de lembrança; mas passou depressa. — Talvez. Dr. Fausto... O judeu de Malta! Ele escreveu uma peça chamada O judeu de Malta. Tenho certeza disso. O judeu de Malta. Tenho certeza de que nunca a li.

— Mas você sabe quem ele foi. É uma das coisas que se tem obrigação de saber, não é?

E ali ela pusera o dedo na ferida. A única coisa que realmente permanecera na cabeça de Sherman a respeito de Christopher Marlowe, depois de nove anos em Buckley, quatro anos em St. Paul, e quatro anos em Yale, era que o sujeito de fato tinha obrigação de saber quem fora Christopher Marlowe. Mas isso ele não ia dizer.

Então, perguntou:

— Quem tem obrigação de saber?

— Qualquer um — Maria murmurou. — Eu.

Escurecia. Os relógios e medidores vistosos do Mercedes agora estavam iluminados como os de um avião de combate. Aproximavam-se do viaduto sobre a Atlantic Avenue. Havia outro carro abandonado do lado da estrada. As rodas tinham sumido, o capô estava erguido, e dois vultos, um deles segurando uma lanterna, estavam mergulhados no berço do motor.

Maria continuava a olhar para a frente quando entraram no tráfego da Grand Central Parkway. Uma galáxia de faróis e lanternas pontilharam o seu campo de visão, como se a energia da cidade estivesse agora transformada em milhões de globos de luz orbitando na escuridão. No interior do Mercedes, com as janelas fechadas, todo aquele estupendo espetáculo passava deslizando sem qualquer ruído.

— Sabe de uma coisa, Sherman? — Sabe de uma coisa, Chââmân? — Odeio ingleses. Odeio.

— Você odeia Christopher Marlowe?

— Obrigada, engraçadinho — disse Maria. — Você parece o filho da mãe que sentou ao meu lado.

Agora estava olhando para Sherman e sorrindo. Era o tipo de sorriso que se dá em meio à dor, reunindo toda a coragem que se tem. Seus olhos pareciam prestes a marejar.

— Que filho da mãe? — perguntou.

— No avião. O tal inglês — ou seja, um sinônimo de lombriga. — Ele começou a conversar comigo. Eu estava folheando o catálogo do espetáculo de Reiner Fetting que vi em Milano — incomodou a Sherman que ela usasse a forma italiana, Milano, em vez de Milão, principalmente porque nunca ouvira falar em Reiner Fetting — e ele começa a fazer comentários sobre Reiner Fetting. Tinha um desses Rolexes de ouro, desses enormes? é um milagre que se consiga levantar o braço? — Maria tinha o hábito das moças sulistas de transformar frases afirmativas em perguntas.

— Acha que estava dando em cima de você?

Maria sorriu, desta vez com prazer.

— É claro que estava!

O sorriso trouxe a Sherman um grande alívio. O feitiço se quebrara. Exatamente por quê, ele não sabia. Não compreendia que existiam mulheres que pensavam na atração sexual do mesmo jeito que ele pensava no mercado de obrigações. Só sabia que o feitiço se quebrara e que o peso desaparecera. Não fazia realmente muita diferença do que falasse dali em diante. E ela continuou a tagarelar. Discorreu em profundidade sobre a indignidade que sofrera.

— Não pôde nem esperar para me dizer que era produtor de filmes. Estava rodando um filme baseado nessa peça, Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, ou só Marlowe, acho que foi só o que disse, apenas Marlowe, e nem sei por que respondi alguma coisa, mas pensei que alguém chamado Marlowe escrevia para cinema. Na verdade, o que acho que pensei foi que havia um filme com uma personagem chamada Marlowe. Robert Mitchum fazia parte.

— Isso mesmo. Era uma história de Raymond Chandler. — Maria olhou para ele sem entender nada. Ele parou de falar em Raymond Chandler.

— Então o que disse a ele??

— Disse: Ah, Christopher Marlowe! Não foi ele que escreveu um filme? E sabe o que o... filho da puta... me respondeu? Respondeu: “Eu diria que não. Ele morreu em 1593.” Eu diria que não.

Seus olhos faiscavam só de lembrar. Sherman aguardou um pouquinho.

— E foi só?

— E foi só? Tive vontade de estrangulá-lo. Foi... humilhante. Eu diria que não. Eu não consegui acreditar na... arrogância.

— E o que foi que você disse a ele?

— Nada. Fiquei vermelha. Não consegui dizer uma palavra.

— E foi isso que a deixou nesse estado?

— Sherman, me diga a verdade. Se a pessoa não sabe quem é Christopher Marlowe, isso faz dela uma burra?

— Ora, pelo amor de Deus, Maria. Não posso acreditar que foi isso que a deixou assim.

— Assim como?

— Nessa depressão em que você desembarcou.

— Você não me respondeu, Sherman. Isso faz dela uma burra?

— Não seja ridícula. Mal consegui lembrar quem ele era, e provavelmente estudei-o em algum curso ou outra coisa qualquer.

— Muito bem, é justamente isso. Pelo menos você o estudou em algum curso. É isso que me faz sentir tão... você nem consegue compreender de que estou falando, não é?

— Não mesmo. — Sorriu, e ela retribuiu o sorriso.

A essa altura estavam passando pelo Aeroporto La Guardia, iluminado por centenas de lâmpadas de sódio. Não parecia um grande portão para o céu. Parecia uma fábrica. Sherman passou para a pista de fora, pisou no acelerador e disparou com o Mercedes por baixo do viaduto da 31st Street e subiu a rampa para a Ponte Triborough. A depressão passara. Sentia-se mais uma vez satisfeito consigo mesmo. Conseguira animá-la.

Agora precisava diminuir a marcha. As quatro pistas estavam congestionadas. Quando o Mercedes subiu pelo grande arco da ponte, deu para ver a ilha de Manhattan à esquerda. As torres eram construídas tão próximas, que era possível sentir seu volume e peso estupendos. Pense só nos milhões de pessoas de todo o mundo que sonhavam em estar nessa ilha, nessas torres, nessas ruas estreitas! Ali estava Roma, Paris, a Londres do século XX, a cidade da ambição, a rocha densa e magnética, o destino irresistível de todos aqueles que insistem em estar onde as coisas estão acontecendo — e ele estava entre os vencedores! Morava na Park Avenue, a rua dos sonhos! Trabalhava na Wall Street, cinquenta andares acima da rua, para a lendária Pierce & Pierce, descortinando o mundo! Sentava-se ao volante de um carrão esporte de 48 mil dólares com uma das mais belas mulheres de Nova York — não era formada em literatura comparada, certo, mas linda — e ao lado dele! Um animalzinho jovem e travesso! Ele pertencia àquela raça cujo destino natural era... ter o que queria!

Tirou uma das mãos do volante e fez um gesto grandioso na direção da pujante ilha.

— Lá está, boneca!

— Voltamos à boneca outra vez?

— Estou com vontade de chamá-la de boneca, boneca. Nova York. Lá está.

— Você realmente pensa que sou do tipo boneca?

— Tão boneca quanto é possível ser, Maria. Onde quer jantar? É toda sua. A cidade de Nova York.

— Sherman! Não era ali que devia entrar?

Ele olhou para a direita. Era verdade. Estava duas pistas à esquerda da pista de descida para Manhattan, e não havia jeito de cortar na diagonal. A essa altura aquela pista — a pista do lado — e a pista seguinte — todas as pistas — eram um comboio de carros e caminhões, para-choque contra para-choque, rodando de centímetro em centímetro em direção a um posto de pedágio a uns noventa metros à frente. Em cima do posto havia uma enorme placa verde, iluminada por luzes amarelas indicando BRONX ESTADO DE NOVA YORK NOVA INGLATERRA.

— Sherman, tenho certeza de que aquele é o retorno para Manhattan.

— Tem razão, queridinha, mas não tenho como chegar até lá agora.

— Para onde vai essa estrada?

— Para o Bronx.

Os comboios de veículos avançavam vagarosamente numa nuvem de partículas de carbono e enxofre em direção ao pedágio.

A carroceria do Mercedes era tão baixa que Sherman teve que se esticar para entregar as duas notas de um dólar. Um preto com ar cansado olhou para ele da janela de um poleiro muito alto. Alguma coisa deixara um longo corte do lado da cabine. A fenda estava enferrujando.

Uma inquietação vaga, indistinta, abissal começou a se infiltrar na cabeça de Sherman. O Bronx... Era nascido e criado em Nova York e sentia um prazer másculo em conhecer a cidade. Conheço a cidade. Mas na realidade sua familiaridade com o Bronx, em trinta anos de vida, resumia-se a cinco ou seis passeios ao zoológico do Bronx, dois ao jardim botânico, e talvez uma dúzia de idas ao Yankee Stadium, a última em 1977, para um jogo mundial. Sabia que o Bronx tinha ruas numeradas que eram a continuação das de Manhattan. O que faria era... — bem, pegaria uma rua transversal e seguiria para oeste até chegar a uma das avenidas que o levasse de volta a Manhattan. Seria tão ruim assim?

A maré de luzes vermelhas continuava fluindo à frente deles e agora começava a incomodá-lo. No escuro, em meio a esse enxame vermelho, não conseguia se orientar. Estava perdendo o senso de direção. Ainda devia estar rumando para o norte. A ponte ainda não fizera uma curva muito grande. Mas agora só havia as placas para se orientar. O seu estoque de marcos conhecidos acabara, tinha ficado para trás. No fim da ponte a via expressa se dividia em um Y. MAJOR DEEGAN PONTE GEORGE WASHINGTON... BRUCKNER NOVA INGLATERRA... Major Deegan ia para o interior do estado... Não!... Vire para a direita... De repente mais um Y... EAST BRONX NOVA INGLA... TERRA th East 138 BRUCKNER BOULEVARD... Escolha uma, seu panaca... Par ou ímpar... uni-duni-tê... Tornou a virar à direita... East 138th... uma rampa... De repente não havia mais rampa, não havia mais via expressa demarcada. Estava ao nível do chão. Era como se tivesse caído em um ferro-velho. Parecia estar sob a via expressa. Na escuridão conseguia divisar uma cerca de tela reforçada para a esquerda... alguma coisa presa nela... Uma cabeça de mulher!... Não, era uma cadeira com três pernas e o assento queimado com o estofo carbonizado saindo para fora em grandes chumaços, enganchada numa cerca de tela... Quem meteria uma cadeira na tela de uma cerca? E por quê?

— Onde estamos, Sherman?

Podia afirmar pelo tom de voz dela que não iam ter mais discussões a respeito de Christopher Marlowe ou de onde jantariam.

— Estamos no Bronx.

— Sabe como sair daqui?

— Claro. Se conseguir encontrar uma rua transversal... Vejamos, vejamos, vejamos... 138th Street...

Estavam rumando para norte sob a via expressa. Mas que via expressa? Duas pistas, ambas correndo na direção norte... Para a esquerda um muro de contenção e a cerca reforçada e pilares de concreto sustentando a via expressa... Tinha que seguir para oeste a fim de encontrar uma rua que o levasse de volta a Manhattan... vire à esquerda... mas não pode virar à esquerda por causa do muro... Vejamos, vejamos... 138th Street... Onde fica isso?... Ali! A placa: 138th STREET... Ele se mantém à esquerda, para virar... Uma grande abertura na parede... 138th Street... Mas não pode virar à esquerda! Para a esquerda há cinco ou seis pistas de tráfego, aqui, embaixo da via expressa, duas indo para o norte, duas indo para o sul, e outra mais além, carros e caminhões em alta velocidade nas duas direções — não há jeito de cortar na diagonal... Então prossegue... se embrenhando no Bronx... Outra abertura na parede se aproxima... Ele se mantém na pista esquerda... Mesma situação!... Não consegue virar à esquerda! Começa a se sentir numa ratoeira ali na escuridão sob a via expressa... Mas seria tão ruim assim? Havia bastante tráfego...

— Que estamos fazendo, Sherman?

— Estou tentando virar à esquerda, mas não há jeito de se virar à esquerda para sair dessa maldita estrada. Vou ter que virar à direita em algum lugar aqui e dar meia-volta ou fazer outra coisa qualquer para passar para o outro lado.

Maria não fez comentário algum. Sherman observou-a. Estava olhando para a frente, séria. À direita, no alto de uns edifícios decrépitos, ele avistou um cartaz onde se lia:

O MELHOR DO BRONX

ATACADISTA DE CARNES

Atacadista de carnes... no coração do Bronx... Mais uma abertura na parede adiante... agora ele começa a virar para a direita — uma tremenda buzinada! — um caminhão o ultrapassa pela direita... Ele dá uma guinada para a esquerda...

— Sherman!

— Desculpe-me, boneca.

... Tarde demais para virar à direita... Continua rodando, colado do lado direito da pista direita, pronto para virar... Mais uma abertura... vira à direita... uma rua larga... Quanta gente de repente... Metade dos moradores parece estar na rua... escuros, mas parecem latinos... Porto-riquenhos?... Lá adiante um prédio baixo e comprido com janelas de água-furtada recortadas em festões... algo que lembra um chalé suíço saído de um livro de histórias... mas horrivelmente enegrecido... Mais perto, um bar — ele espia — tapado até a metade por persianas metálicas... Tanta gente na rua... Diminui a marcha... Prédios de apartamentos baixos faltando janelas... Faltando caixilhos inteiros... Um sinal vermelho. Ele para. Vê a cabeça de Maria girando para todos os lados... Aaaaiiieee! Um tremendo berro à esquerda do carro... Um rapaz de bigodinho e camisa esporte atravessa a rua. Uma moça corre atrás gritando. Aaaaiii... O rosto moreno, cabelos crespos e louros... Passa o braço pelo pescoço dele, mas em câmara lenta, como se estivesse bêbada. Aaaaiiieee! Tenta estrangulá-lo! Ele nem ao menos a olha. Mete o cotovelo no estômago dela com força. Ela escorrega desprendendo-se do corpo dele. Cai na rua de quatro. Ele continua a andar. Não olha para trás nem uma vez. Ela se levanta. Avança contra o homem de novo. Aaaaiiieee! Agora estão bem diante do carro. Sherman e Maria estão sentados nas poltronas de encosto móvel em couro bege, os olhos fixos neles. A moça tem o homem preso pelo pescoço outra vez. Ele torna a golpeá-la no estômago com o cotovelo. O sinal abre, mas Sherman não pode andar. Gente acorreu à rua dos dois lados para ver a confusão. Riem. Aplaudem. Ela puxa o cabelo dele. Ele faz caretas e reage golpeando-a com os dois cotovelos. Há gente por toda parte. Sherman olha para Maria. Nenhum dos dois diz uma única palavra. Duas pessoas brancas, uma delas uma jovem mulher usando uma jaqueta azul-vivo da Avenue Foch com ombreiras deste tamanho... e suficiente bagagem assinada no assento traseiro para uma viagem à China... Um Mercedes esporte, de 48 mil dólares... no meio do South Bronx... Assombroso! Ninguém lhes presta atenção. É só um carro parado no sinal. Os dois combatentes gradualmente se deslocam para o lado oposto da rua. Agora atracam-se como dois lutadores de sumô, cara a cara. Cambaleiam, entrelaçam-se. Estão cansados. Procuram recuperar o fôlego. Já chega. Tanto faria se estivessem dançando. A multidão está perdendo interesse, dispersando-se.

Sherman comenta com Maria:

— Amor de verdade, boneca. — Quer que ela pense que não está ligando.

Agora não há ninguém na frente do carro, mas o sinal fechou de novo. Ele espera abrir e começa a descer a rua. Não há tanta gente agora... uma rua larga. Faz a volta e retorna pelo caminho que vieram.

— Que vai fazer agora, Sherman?

— Acho que está tudo bem. Esta é uma rua principal. Estamos indo na direção certa. Estamos rumando para oeste.

Mas quando atravessaram a longa estrada sob a via expressa, viram-se numa caótica interseção. Havia ruas convergindo de ângulos estranhos. Gente atravessava de todas as direções... Rostos escuros... Aqui uma entrada de metrô... Ali prédios baixos, lojas... Maravilhosa Comida Chinesa para Viagem... Não sabia dizer que rua saía para oeste... Aquela — a mais provável — rumou para ela... uma rua larga... carros estacionados dos dois lados... mais adiante, estacionados em fila dupla... fila tripla... uma aglomeração de pessoas... Conseguiria passar? Então virou... para lá... Havia uma placa de rua, mas os nomes das ruas já não eram paralelos às próprias ruas. Parecia haver alguma coisa correndo naquela direção... Então seguiu por essa rua, mas logo ela se fundiu com uma rua lateral estreita, ladeada de prédios baixos. Estavam aparentemente abandonados. Na esquina seguinte, ele virou — para oeste, assim imaginou — e prosseguiu por alguns quarteirões. Havia mais prédios baixos. Talvez fossem garagens, talvez galpões. Havia cercas com espirais de arame farpado no alto. As ruas eram desertas, tudo bem, disse para si mesmo, mas ao mesmo tempo sentia o coração bater com uma pontada de nervosismo. Tornou a virar. Uma rua estreita com fileiras de prédios de apartamentos de sete e oito andares; não havia sinal de moradores; nenhuma luz às janelas. No quarteirão seguinte, a mesma coisa. Tornou a virar, e ao contornar a esquina...

... espantoso. Totalmente vazio, um vasto descampado. Quarteirões e mais quarteirões — quantos? — seis? oito? doze? — quarteirões inteiros da cidade sem um único prédio de pé. Havia ruas, meios-fios, calçadas e postes de iluminação e mais nada. A malha lúgubre de uma cidade descortinava-se diante dele, à luz amarela dos lampiões. Aqui e ali havia vestígios de entulho de obra. A terra parecia feita de concreto, só que descia nessa direção e subia naquela... as colinas e vales do Bronx... reduzidos a asfalto, concreto e cinzas... num medonho crepúsculo amarelo.

Teve que olhar duas vezes para se certificar de que ainda estava dirigindo por uma rua de Nova York. A rua levava a um longo aclive... A dois quarteirões de distância... a três quarteirões de distância... era difícil calcular nesse enorme descampado... Havia um prédio solitário, o último... Ficava na esquina... com três ou quatro andares... Parecia prestes a adernar a qualquer momento... Estava iluminado no térreo, como se houvesse ali uma loja ou um bar... Três ou quatro pessoas se encontravam na calçada. Sherman podia avistá-las à luz do lampião da esquina.

— Que é isto aqui, Sherman? — Maria o encarava.

— Southeast Bronx, imagino.

— Está dizendo que não sabe onde estamos?

— Sei mais ou menos onde estamos. Enquanto continuarmos rumando para oeste, estaremos bem.

— Que o faz pensar que estamos rumando para oeste?

— Ora, não se preocupe, estamos rumando para oeste. Só que, ahn...

— Só que o quê?

— Se vir uma placa de rua... Estou procurando uma rua numerada.

A verdade era que Sherman já não sabia dizer para onde estavam indo. Ao se aproximarem do prédio, ouviu um tum tum tum tum tum tum. Conseguiu ouvi-lo mesmo com as janelas do carro fechadas... Um contrabaixo... Um fio elétrico descia do poste de iluminação da esquina e entrava pela porta. Fora, na calçada, havia uma mulher usando o que parecia uma camiseta de basquete e short e dois homens de camisa esporte de mangas curtas. A mulher estava curvada com as mãos nos joelhos, rindo e girando a cabeça num grande círculo. Os homens riam dela. Seriam porto-riquenhos? Não saberia dizer. No interior do portal, o portal por onde passava o fio elétrico, Sherman viu uma luz baixa e silhuetas. Tum tum tum tum tum... O contrabaixo e os sons agudos de notas tirados num trompete... Música latino-americana? A cabeça da mulher não parava de girar.

Olhou para Maria. Estava ali naquela incrível jaqueta azul-vivo. Os cabelos curtos, espessos e escuros emolduravam um rosto que parecia imobilizado numa fotografia. Sherman acelerou o carro e saiu do sombrio posto avançado na vastidão deserta.

Virou em direção a alguns prédios... lá adiante... Passou por casas sem caixilhos nas janelas...

Chegaram a uma pracinha com grades de ferro a toda a volta. Tinha que virar à esquerda ou à direita. As ruas corriam em ângulos inesperados. Sherman perdera inteiramente a noção da malha de ruas. Aquilo já não parecia Nova York. Lembrava mais uma cidadezinha decadente da Nova Inglaterra. Virou à esquerda.

— Sherman, isto está começando a não me agradar.

— Não se preocupe, guria.

— Agora é guria?

— Você não gostou de boneca. — Queria parecer tranquilo.

Agora apareciam carros estacionados ao longo da rua... Três rapazes estavam parados debaixo de um lampião; três rostos escuros. Usavam jaquetas acolchoadas. Olharam para o Mercedes. Sherman virou mais uma vez.

Divisava à frente a claridade indistinta e amarelada do que parecia ser uma rua mais larga e mais bem iluminada. Quanto mais perto chegavam, mais gente havia... nas calçadas, nas portas, na rua... Quantas caras escuras... Adiante, alguma coisa na rua. Os faróis eram engolidos pela escuridão. Então conseguiu distinguir o que era. Um carro estacionado no meio da rua, nem mesmo próximo ao meio-fio... um grupo de meninos em volta... Mais rostos escuros... Conseguiria ao menos contorná-los? Comprimiu o botão que trancava as portas. O clique eletrônico assustou-o, como se fosse a batida de um tambor de parada. Passou por eles devagar. Os meninos se abaixaram e espiaram pelas janelas do Mercedes.

Pelo canto do olho viu um deles sorrir. Mas não fez comentário. Apenas espiava e sorria. Graças a Deus havia espaço suficiente. Sherman continuou devagar. E se furasse um pneu? Ou o motor falhasse? Estaria numa enrascada. Mas não se sentiu assustado. Ainda estava ao volante. Continue andando. Isso é o mais importante. Um Mercedes de 48 mil dólares. Vamos, seus boches, seus cabeças de Panzer, seus mecânicos de cérebro de aço... Façam seu trabalho... Ultrapassou o carro. Adiante, uma estrada... O tráfego cortava a interseção a uma boa velocidade nos dois sentidos. Deixou escapar um suspiro. Ia nessa! Para a direita! Para a esquerda! Não fazia diferença. Chegou à interseção. O sinal estava fechado. Ora, para o inferno com ele. Atravessou.

— Sherman, você está avançando um sinal fechado!

— Ótimo. Talvez a polícia apareça. Não iria me incomodar nem um pouco.

Maria emudeceu. As preocupações de sua vida de luxo convergiam para um foco rígido. A existência humana só tinha uma finalidade: sair do Bronx.

Adiante a claridade mostarda e esfumaçada dos lampiões era mais intensa e mais difusa... Uma espécie de interseção principal... Espere aí... Acolá, uma entrada de metrô... Aqui, lojas, bares de comida barata... Galinha Frita do Texas... Maravilhosa Comida Chinesa para Viagem... Maravilhosa Comida Chinesa para Viagem!

Maria estava pensando a mesma coisa.

— Nossa, Sherman, estamos de volta aonde começamos! Você andou em círculo!

— Eu sei. Eu sei. Só espere um instante. Vou lhe dizer o que vamos fazer. Vou virar para a direita. Vou voltar para a estrada sob a via expressa. Vou...

— Não se meta debaixo daquela pista outra vez, Sherman.

A via expressa ficava logo adiante. O sinal estava aberto. Sherman não sabia o que fazer. Alguém buzinava atrás deles.

— Sherman! Olhe ali! Diz Ponte George Washington!

Onde? A buzina continuava a tocar. Então viu. Ficava do outro lado, por baixo da via expressa, à claridade crepuscular e cinzenta, uma placa num poste de concreto... 95 895 LESTE PONTE GEORGE WASHINGTON... Deve ser uma rampa...

— Mas não queremos ir naquela direção! Vai para o norte!

— E daí, Sherman? Pelo menos você sabe o que é! Pelo menos é a civilização! Vamos dar o fora daqui!

A buzina fazia um estardalhaço. Alguém atrás berrava. Sherman acelerou, enquanto o sinal estava para ele. Atravessou as cinco pistas na direção da plaquinha. Estava de volta sob a via expressa.

— É logo ali, Sherman!

— Certo, certo, estou vendo.

A rampa parecia uma calha negra entre dois pilares de concreto. O Mercedes pulou com força ao passar por um buraco.

— Nossa! — exclamou Sherman. — Nem vi esse.

Debruçou-se sobre o volante. A luz dos faróis altos projetava-se nos pilares de concreto num delírio. Engrenou a segunda. Virou à esquerda contornando um pilar e acelerou rampa acima. Corpos!... Corpos na estrada... Dois deles enroscados! Não, não eram corpos... saliências no lado... formas... Não, latões, algum tipo de latão... Latas de lixo... Teria que se espremer pela esquerda para passar por eles... Reduziu para primeira e virou para a esquerda... Um vulto à luz dos faróis... Por um instante pensou que alguém tivesse pulado da mureta da rampa... Não era bastante grande... Era um bicho... Estava deitado na estrada, bloqueando a passagem... Sherman meteu o pé no freio... Uma mala o atingiu na nuca... duas malas...

Um grito de Maria. Havia uma mala no encosto do assento dela. O carro estancara. Sherman puxou o freio de mão, afastou a mala da cabeça de Maria e empurrou-a para o banco de trás.

— Você está bem?

A moça não olhava para ele. Espiava pelo para-brisa.

— O que é aquilo?

Bloqueando a estrada — não era um bicho... Bandas de rodagem... Era uma roda... Seu primeiro pensamento foi que uma roda se soltara de um carro na via expressa e rolara até a rampa. De repente o carro ficou completamente silencioso, o motor morrera. Verificou o freio para se certificar se estava travado. Então abriu a porta.

— Que está fazendo, Sherman?

— Vou empurrar aquilo para fora do caminho.

— Cuidado. E se vier um carro?

— Ora. — Deu de ombros e saltou.

Sentiu-se esquisito no momento em que pôs o pé na rampa. Do alto vinha um tremendo barulho de metal produzido pelos veículos ao passarem sobre uma junta ou uma chapa na via expressa. Ficou olhando para o ventre enegrecido da estrada. Não conseguia ver os carros. Só conseguia ouvi-los avançar pesadamente pela via expressa em alta velocidade, produzindo um barulho metálico e criando um campo de vibração. A vibração envolvia a enorme estrutura negra e corroída num zumbido. Mas ao mesmo tempo conseguia ouvir os seus sapatos, seus sapatos de 650 dólares da New & Lingwood. New & Lingwood, da Jermyn Street em Londres, com sola e salto de couro inglês, fazendo um barulhinho arenoso e rascante à medida que subia a rampa em direção à roda. O sonzinho arenoso e rascante dos sapatos era tão nítido quanto qualquer outro som que já tivesse ouvido. Dobrou-se. Não era uma roda, afinal, apenas um pneu. Imagine um carro perdendo um pneu. Apanhou-o.

— Sherman!

Virou-se, na direção do Mercedes. Dois vultos!... Dois rapazes — negros — na rampa, vindo por trás dele... Boston Celtics! O mais próximo usava um blusão de basquetebol, prateado e com a palavra CELTICS no peito... Não estava a mais de quatro ou cinco passos de distância... um físico musculoso... A jaqueta estava aberta... uma camiseta branca... um peito impressionante... o rosto quadrado... queixo largo... uma boca rasgada... Que expressão era aquela?... Caçador! Predador!... O rapaz encarou Sherman olho no olho... caminhava lentamente... O outro era alto, mas magricela, com um pescoço comprido, um rosto fino... delicado... os olhos muito abertos... assustado... Parecia aterrorizado... Usava um suéter muito largo... Estava a um ou dois passos atrás do outro...

— Eh! — disse o grandalhão. — Precisa de ajuda?

Sherman ficou parado, segurando o pneu e encarando-o.

— Que aconteceu, cara? Precisa de ajuda?

Era uma voz prestimosa. “Está blefando! Uma mão no bolso da jaqueta.” Mas parece sincero. “É uma armação, seu idiota!” Mas suponha que queira apenas ajudar? “Que estão fazendo nesta rampa?” Não fizeram nada — não ameaçaram. “Mas vão!” Seja bonzinho. “Está louco? Faça alguma coisa! Aja!” Um som invadiu sua cabeça, o som de úm jato de vapor. Segurou o pneu diante do peito. “Agora!” Zás — avançou para o grandalhão e atirou o pneu nele. Estava voltando direto para Sherman! O pneu estava voltando direto para ele! Ergueu os braços. O pneu bateu nos braços e quicou. Um estatelamento — o bruto caiu sobre o pneu. A jaqueta prateada dos CELTICS — no chão. O ímpeto de Sherman o projetou para a frente. Ele escorregou nos sapatos sociais da New & Lingwood. Rodopiou.

— Sherman!

Maria estava ao volante do carro. O motor roncava. A porta da direita estava aberta.

— Entre!

O outro, o magricela, se encontrava entre ele e o carro... uma expressão de terror na cara... olhos arregalados... Sherman era um frenesi só... Tinha que chegar ao carro!... Avançou. Abaixou a cabeça. Chocou-se contra o rapaz. O rapaz saiu rodopiando para trás, bateu no para-choque traseiro do carro, mas não caiu.

— Henry!

O grandalhão estava se levantando. Sherman se atirou para dentro do carro.

O rosto de Maria lívido e aflito:

— Entre! Entre!

O ronco do motor... os mostradores do Mercedes feitos pelos crânios do Panzer... Uma sombra do lado de fora do carro... Sherman agarrou a maçaneta do automóvel e com uma tremenda explosão de adrenalina fechou-a com estrondo. Pelo canto do olho viu o grandalhão — quase alcançando a porta do lado de Maria. Sherman meteu a mão na trava de segurança. Treque! Ele estava puxando a maçaneta da porta — CELTICS a centímetros da cabeça de Maria e apenas o vidro entre eles. Maria engrenou a primeira no Mercedes e saiu cantando os pneus. O rapaz pulou para o lado. O carro estava rumando direto para os latões de lixo. Maria meteu o pé no freio. Sherman foi atirado contra o painel. Uma frasqueira aterrissou no câmbio. Sherman tirou-a. Agora estava em seu colo. Maria engrenou o carro em marcha a ré. Ele disparou para trás. Olhou à direita. O magricela... O rapaz magricela estava parado olhando para ele... puro medo em seu rosto delicado... Maria tornou a engrenar a primeira... Respirava em grandes sorvos como se estivesse se afogando...

Sherman gritou:

— Cuidado!

O grandalhão vinha na direção do carro. Segurava o pneu no alto. Maria disparou para a frente, rangendo os pneus, direto em cima dele. Ele mergulhou tirando o corpo fora... uma sombra... um tranco terrível... O pneu atingiu o para-brisa e quicou sem quebrar o vidro... Os boches! Maria deu uma guinada à esquerda para evitar bater nas latas... O magricela parado bem ali... A traseira do carro rabeou... toque! O magricela já não estava de pé... Maria lutava com o volante... Uma fina entre a mureta e os latões de lixo... Pisou fundo no acelerador... Um cantar furioso de pneus... O Mercedes disparou rampa acima... A estrada surgiu do lado dele... Sherman aguentou firme... A língua imensa da via expressa... Luzes passando vertiginosamente por eles... Maria freou o carro... Sherman e a malinha foram jogados contra o painel... Hah hah hah hah... A princípio pensou que estivesse rindo. Mas estava apenas tomando fôlego.

— Você está bem?

Ela acelerou o carro. Uma buzinada...

— Pelo amor de Deus, Maria!

O carro que buzinara desviou e passou voando, e eles entraram na via expressa.

Os olhos dele ardiam de suor. Tirou uma das mãos da frasqueira para enxugar os olhos, mas a mão começou a tremer tanto que tornou a pousá-la na pequena bolsa. Sentia o coração bater na boca. Estava encharcado. O paletó estava se desfazendo. Sentia. Abria-se pelas costuras das costas. Seus pulmões lutavam para receber mais oxigênio.

Rodavam em alta velocidade pela via expressa, depressa demais.

— Mais devagar, Maria! Nossa!

— Onde vai dar isso, Sherman? Onde vai dar isso?

— É só seguir as placas que dizem Ponte George Washington e, pelo amor de Deus, vá mais devagar.

Maria tirou uma das mãos do volante para afastar o cabelo da testa. O braço inteiro, e não só a mão, tremia. Sherman se perguntou se seria capaz de controlar o carro, mas não quis perturbar a concentração dela. Seu coração disparava em batidas surdas, como se estivesse solto na caixa torácica.

— Ah, merda, meus braços estão tremendo! — exclamou Maria naquele seu sotaque. Nunca a ouvira usar a palavra “merda” antes.

— Tenha calma — disse Sherman. — Está tudo bem, agora está tudo bem.

— Mas onde vai dar isso?

— Tenha calma! É só seguir as placas. Ponte George Washington.

— Ah, merda, Sherman, isso foi o que fizemos antes!

— Tenha calma, pelo amor de Deus. Eu aviso.

— Não se atrapalhe dessa vez, Sherman.

Sherman percebeu que suas mãos seguravam a frasqueira no colo como se fosse um segundo volante. Tentou se concentrar na estrada à sua frente. Então arregalou os olhos para uma placa adiante na estrada: CRUZAMENTO BRONX — PONTE GEORGE WASHINGTON.

— Cruzamento Bronx! Que é isso? Troque de pista!

— Merda, Sherman!

— Troque de pista! — repetiu ele.

— Vou continuar na estrada. Está tudo bem.

Ele fixou os olhos na linha branca do leito da estrada. Fixou com tanta intensidade, que começaram a se separar nele... as linhas... as placas... as luzes traseiras... Não conseguia mais discernir o padrão... Estava se concentrando em... fragmentos! moléculas!... átomos!... Nossa!... “Perdi a capacidade de raciocinar!”... Seu coração disparou... e então um grande... pim! e voltou ao ritmo normal...

Então, no alto: MAJOR DEEGAN PONTE TRIBORO.

— Está vendo aquilo, Maria? Ponte Triborough! É por ali!

— Ora, Sherman, Ponte George Washington!

— Não! Queremos a Triborough, Maria! Vai nos levar certinho de volta para Manhattan!

Então seguiram pela via expressa. Dali a pouco, no alto: WILLIS AVE.

— Onde é a Willis Avenue?

— Acho que é no Bronx — respondeu Sherman.

— Merda!

— Mantenha-se à esquerda! Está tudo bem!

— Merda, Sherman!

Sobre a estrada uma grande placa: TRIBORO.

— Lá está, Maria! Está vendo?

— Estou.

— Pegue a direita lá em cima. Vai sair pela direita! — Agora Sherman agarrava a frasqueira e lhe dava instruções com o corpo para virar à direita. Estava segurando uma frasqueira e lhe dando instruções com o corpo. Maria vestia uma jaqueta azul-vivo da Avenue Foch com ombreiras... que vinham até aqui... um animalzinho tenso a se contorcer sob as ombreiras azul-vivo vindas de Paris... Os dois num Mercedes de 48 mil dólares com vistosos mostradores de avião... desesperados para fugir do Bronx...

Alcançaram a saída. Ele se segurou com unhas e dentes, como se um tornado pudesse surgir a qualquer momento e varrê-los da pista certa — de volta ao Bronx!

Conseguiram. Estavam agora na longa descida que levava à ponte e a Manhattan.

— Hah hah hah hah Sherman!

Olhou para ela. Suspirava e inspirava grandes sorvos de ar.

— Está tudo bem, queridinha.

— Sherman, ele jogou aquilo... bem em mim!

— Jogou o quê?

— Aquela... roda, Sherman!

O pneu atingira o para-brisa bem na direção dos olhos dela. Mas outra coisa lampejou pela cabeça de Sherman... toque!... o som do para-choque traseiro batendo em alguma coisa e o rapaz magricela desaparecendo de vista... Maria soltou um soluço.

— Controle-se! Só falta mais um pouquinho!

Ela engoliu as lágrimas.

— Deus...

Sherman esticou o braço e massageou-lhe a nuca com a mão esquerda.

— Você está bem, fofura. Você está indo muito bem.

— Ah, Sherman.

O estranho era — e pareceu-lhe estranho naquele exato momento — sentir vontade de sorrir. Eu a salvei! Sou seu protetor! E continuava a esfregar-lhe a nuca.

— Foi apenas um pneu — disse o protetor, saboreando o luxo de acalmar o fraco. — Se não fosse, teria quebrado o para-brisa.

— Ele o atirou... bem... em mim.

— Eu sei, eu sei. Está tudo bem. Já passou.

Mas ouvia-o de novo. O toque. E o rapaz magricela desaparecendo.

— Maria, acho que você — acho que nós atropelamos um deles. Você — nós — já então um instinto profundo apelava para o velho patriarca peganhento, a culpa.

Maria não disse nada.

— Sabe, quando derrapamos. Houve uma espécie de... essa espécie de... barulhinho, um toque.

Maria continuou em silêncio. Sherman a observava. Finalmente falou:

— É... eu... eu não sei. Estou me lixando, Sherman. A única coisa que me importa é que conseguimos sair de lá.

— Bem, isso foi o mais importante, mas...

— Ah, meu Deus, Sherman, foi como... o pior dos pesadelos! — Começou a sufocar os soluços, o tempo todo curvada para a frente com os olhos fixando a estrada pelo para-brisa, concentrando-se no tráfego.

— Está tudo bem, queridinha. Está tudo bem, agora. — Esfregou-lhe a nuca um pouco mais. O magricela estava parado lá. Toque. E não estava mais lá.

O tráfego aumentava. A maré de lanternas vermelhas adiante deles passava sob um viaduto, fazia uma curva e subia por uma rampa. Não estavam longe da ponte. Maria diminuiu a marcha. Na escuridão, o pedágio era um grande borrão de concreto amarelado pelas luzes que vinham do alto. Lá na frente, as luzes vermelhas se transformavam em um enxame fechando o cerco às cabines. Ao longe, Sherman divisava a escuridão densa de Manhattan.

Tanta gravidade... tantas luzes... tanta gente... tantas almas partilhando esse borrão amarelo de concreto com ele... e todos indiferentes a tudo aquilo que acabara de passar!

Sherman esperou até estarem rodando pela FDR, ao longo do East River, de regresso à Manhattan Branca, e Maria estar mais calma, antes de puxar novamente o assunto.

— Bem, que acha, Maria? Imagino que deveríamos comunicar à polícia.

Ela não respondeu. Olhou para ela. Fixava séria a estrada.

— Que acha?

— Para quê?

— Bem, só acho que...

— Sherman, cale a boca — disse isso baixinho e gentilmente. — Deixe-me dirigir esse maldito carro.

As paliçadas góticas do Hospital New York, velhas conhecidas que datavam de 1920, se aproximavam. A Manhattan Branca! Tomaram a saída da 71st Street, deixando a estrada.

Maria estacionou do lado oposto ao palacete onde tinha seu esconderijo no quarto andar. Sherman desceu e imediatamente se pôs a examinar o para-lama direito. Para seu grande alívio — nenhuma mossa; nenhum sinal de nada, pelo menos não ali no escuro. Já que Maria dissera ao marido que não voltaria da Itália até o dia seguinte, queria levar a bagagem para o apartamentinho, também. Por três vezes Sherman subiu a escada desconjuntada, sob a claridade miserável das “auréolas de senhorio”, carregando as malas.

Maria despiu a jaqueta azul-vivo com as ombreiras de Paris e colocou-a sobre a cama. Sherman tirou o paletó. Estava bem rasgado nas costas, ao longo das costuras laterais. Huntsman, Savile Row, Londres. Custara uma fortuna. Atirou-o na cama. A camisa pingava de tão molhada. Maria soltou os sapatos com os pés e se sentou em uma das cadeiras torneadas junto à mesa de base de carvalho, apoiou um cotovelo na mesa e deixou a cabeça pender sobre o braço. A mesa velha afundou daquele seu jeito desconjuntado. Então Maria se aprumou e olhou para Sherman.

— Quero um drinque — disse. — Quer um também?

— Quero. Quer que prepare?

— Ah-hã. Quero muita vodca, pouco suco de laranja e umas pedrinhas de gelo. A vodca está lá no armário.

Ele entrou na cozinha apertada e acendeu a luz. Uma barata estava pousada na borda de uma frigideira suja em cima do fogão. Ora, que se dane. Preparou a vodca com suco de laranja para Maria e em seguida encheu o próprio copo com uísque, gelo e um pouquinho de água. Sentou-se à mesa, numa das cadeiras torneadas diante dela. Descobriu que queria muito aquele drinque. Desejava sentir cada pancada de gelo e fogo em seu estômago. O carro rabeou. Toque. O rapaz alto e delicado não estava mais parado lá.

Maria já ingerira metade do copo que lhe trouxera. Fechou os olhos, jogou a cabeça para trás, em seguida olhou para Sherman e sorriu com um ar cansado.

— Juro — disse — que pensei que ia ser... o fim.

— Bem, que vamos fazer agora? — perguntou Sherman.

— Que quer dizer com isso?

— Acho que devíamos... acho que devíamos comunicar à polícia.

— Foi o que disse. Tudo bem. Diga-me para quê.

— Bem, eles tentaram nos assaltar... e acho que talvez você... acho que é possível que tenha atropelado um deles.

Ela ficou parada olhando para ele.

— Foi quando você acelerou de verdade e derrapamos.

— Bem, quer saber de uma coisa? Espero que tenha atropelado. Mas se fiz isso, tenho certeza de que não o atingi com muita força. Mal cheguei a ouvir alguma coisa.

— Foi apenas um toque baixinho. Logo depois ele não estava mais lá.

Maria sacudiu os ombros.

— Bem... só estou pensando alto — disse Sherman. — Acho que devíamos comunicar. Dessa forma nos protegemos.

Maria expirou com força, como se faz quando se está chegando ao final da paciência, e virou a cabeça.

— Bem, suponha que o sujeito esteja ferido.

Ela olhou para ele e riu baixinho.

— Francamente, não ligo a mínima.

— Mas suponha...

— Olhe, conseguimos sair de lá. Como conseguimos não faz diferença.

— Mas suponha...

— Suponha uma ova, Sherman. Aonde pretende ir para contar à polícia? Que vai dizer?

— Não sei. Só vou contar o que aconteceu.

— Sherman, vou dizer a você o que aconteceu. Sou da Carolina do Sul e vou lhe dizer em inglês claro. Dois crioulos tentaram nos matar e fugimos. Dois crioulos tentaram nos matar na selva e fugimos da selva e ainda estamos respirando e é isso aí.

— É, mas suponha...

— Suponha você! Suponha que vá à polícia. Que vai dizer? Que vai dizer que estávamos fazendo no Bronx? Afirma que só vai contar o que aconteceu. Muito bem, conte a mim, Sherman. Que aconteceu?

Então era isso o que na realidade ela estava dizendo. Será que se diz à polícia que a sra. Arthur Ruskin da Fifth Avenue e o sr. Sherman McCoy da Park Avenue por acaso estavam tendo um tête-à-tête noturno quando perderam a saída da Ponte Triborough para Manhattan e se meteram numa ligeira enrascada no Bronx? Repassou isso mentalmente. Bom, podia simplesmente dizer a Judy — não, não havia maneira de poder simplesmente dizer a Judy que dera um passeio de carro com uma mulher chamada Maria. Mas se eles — se Maria tivesse atropelado o rapaz, então era melhor arranjar coragem e simplesmente dizer o que acontecera. Que fora o quê? Bom — dois rapazes tentaram assaltá-los. Bloquearam a estrada. Aproximaram-se. Disseram... Sentiu um choquezinho atravessar seu plexo solar. “Eh! Precisa de ajuda?” O grandalhão dissera apenas isso. Não puxara uma arma. Nenhum dos dois fizera qualquer gesto ameaçador até ele atirar o pneu. Será que — espere aí. Isso é loucura. Que mais poderiam estar fazendo numa rampa para uma via expressa a não ser um bloqueio, no escuro — Maria confirmaria sua interpretação — interpretação! — um animalzinho travesso — instantaneamente percebeu que mal a conhecia.

— Não sei — disse. — Talvez tenha razão. Vamos refletir um pouco. Só estou pensando alto.

— Eu não preciso pensar, Sherman. Há coisas que compreendo melhor do que você. Não são muitas, mas certamente algumas. Adorariam pôr as mãos em você e em mim.

— Quem?

— A polícia. E que bem faria isso, afinal? Nunca apanharão aqueles rapazes.

— Que quer dizer com pôr as mãos em nós?

— Por favor, esqueça a polícia.

— De que está falando?

— De você, para começar. Você é um colunável.

— Não sou um colunável. — Senhores do Universo viviam num platô muito acima dos colunáveis.

— Ah, não? Seu apartamento apareceu no Architectural Digest. A sua foto, no W. Seu pai era... é... bom, o que quer que seja. Você sabe.

— Minha mulher colocou o apartamento na revista.

— Bem, pode explicar isso à polícia, Sherman. Tenho certeza de que perceberão a diferença.

Sherman estava mudo. Era um pensamento odioso.

— E não se importarão nem um pouco em pôr as mãos em mim, tampouco, já que é assim. Sou apenas uma mocinha da Carolina do Sul, mas meu marido tem centenas de milhões de dólares e um apartamento na Fifth Avenue.

— Tudo bem, só estou tentando imaginar a sequência, as coisas que podem descobrir, é só. E se você atropelou o rapaz? E se está machucado?

— Você o viu ser atropelado?

— Não.

— Nem eu. Que eu saiba, não atropelei ninguém. Tenho fé em Deus que tenha atropelado, mas que eu saiba, e que você saiba, não atropelei ninguém. Certo?

— Bem, acho que tem razão. Não vi nada. Mas ouvi alguma coisa, e senti alguma coisa.

— Sherman, tudo aconteceu tão depressa, que você não sabe o que aconteceu, e eu também não. Aqueles rapazes não vão à polícia. Pode ter certeza disso. E se você for à polícia, ela não os encontrará, tampouco. Só vão se divertir com a sua história — e você não sabe o que aconteceu, sabe?

— Acho que não.

— Também acho que não sabe. Se levantarem a questão algum dia, só o que aconteceu foi que dois rapazes bloquearam a estrada e tentaram nos assaltar, e conseguimos fugir deles. E ponto final. É só o que sabemos.

— E por que não comunicamos?

— Porque não faria sentido. Não estávamos feridos e imaginamos que de qualquer maneira nunca encontrariam aqueles rapazes. E sabe de uma coisa, Sherman?

— O quê?

— Acontece que tudo isso é a verdade. Você pode imaginar o que quiser, mas isso é só o que você sabe e só o que eu sei.

— É. Tem razão. Eu não sei, mas me sentiria melhor se...

— Você não precisa se sentir melhor, Sherman. Era eu quem estava dirigindo. Se atropelei o filho da mãe, então fui eu que o atropelei... e estou afirmando que não atropelei ninguém, e não vou comunicar nada à polícia. Por isso não precisa se preocupar.

— Não estou me preocupando, só que...

— Ótimo.

Sherman hesitou. Bem, era verdade, não era? Ela é que estava dirigindo. O carro era dele, mas ela resolveu dirigi-lo, e, se o caso viesse à tona, o que quer que tivesse acontecido era responsabilidade dela. Ela é que estava dirigindo... portanto se havia alguma coisa a comunicar, a responsabilidade também era dela. Naturalmente, podia contar com ele... mas isso já tirava um grande peso de suas costas.

— Tem razão, Maria. Foi como se estivéssemos na selva. — Balançou a cabeça diversas vezes para indicar que finalmente compreendera a verdade.

Maria disse:

— Poderíamos ter sido mortos, bem ali, com a mesma facilidade.

— Sabe de uma coisa, Maria? Nós lutamos.

— Lutamos?

— Estavámos naquela maldita selva... fomos atacados... e brigamos para escapar. — Agora falava como se a verdade se tornasse cada vez mais clara. — Puxa, não me lembro qual foi a última vez que estive numa briga, uma briga para valer. Talvez tivesse uns doze, treze anos. Sabe de uma coisa, boneca? Você foi demais. Foi fantástica. Foi mesmo. Quando a vi atrás do volante — eu nem sabia que você dirigia! — Ele exultava. Ela estava dirigindo. — Mas dirigiu como ninguém! Foi demais! — Ah, a verdade finalmente raiara. O mundo se iluminava com a sua radiosidade.

— Nem me lembro do que fiz — disse Maria. — Foi só um... um... tudo acontecendo ao mesmo tempo. O pior foi passar para o assento do motorista. Não sei por que põem o câmbio ali no meio. Prendi a saia nele.

— Quando a vi lá, não consegui acreditar! Se você não tivesse feito aquilo — sacudiu a cabeça —, nunca teríamos conseguido.

Agora que entravam na parte triunfal da história de guerra, Sherman não pôde resistir a dar uma deixa para ser elogiado.

Mas Maria continuou:

— Bem, eu agi por... não sei... por instinto. — Era bem típico dela; não reparara na deixa.

— É — concordou Sherman —, bom, foi um ótimo instinto. Àquela altura eu não tinha mais como me virar! — Uma deixa suficientemente grande para um caminhão.

Essa até ela percebeu.

— Ah, Sherman... sei que não tinha. Quando atirou aquela roda, aquele pneu, naquele rapaz... nossa, pensei... cheguei a pensar... que tinha vencido os dois, Sherman! Você venceu os dois!

“Venci os dois.” Nunca o Senhor do Universo ouvira música igual. Continue! Não pare nunca!

— Eu não conseguia imaginar o que estava acontecendo! — disse Sherman. Agora sorria animado e nem mesmo tentava reprimir o sorriso. — Atirei o pneu, e de repente ele voltou em direção à minha cara!

— Foi porque ele levantou as mãos para aparar e o pneu quicou e...

Os dois mergulharam nos detalhes excitantes da aventura.

Suas vozes se elevaram, seus ânimos se ergueram, e eles riam aparentemente dos detalhes bizarros da batalha, mas na realidade de pura alegria e espontâneo júbilo pelo milagre. Juntos tinham enfrentado o pior pesadelo de Nova York, e tinham triunfado.

Maria se aprumou na cadeira e começou a olhar para Sherman com os olhos muito arregalados, os lábios entreabertos sugerindo um sorriso. Ele teve uma deliciosa premonição. Sem dizer palavra ela se levantou e tirou a blusa. Não usava nada por baixo. Ele admirou seus seios, que eram gloriosos. A pele bela e clara estava prenhe de concupiscência e cintilante de suor. Ela se aproximou da cadeira em que estava sentado, parou entre suas pernas e ele começou a desfazer o nó da gravata. Passou o braço pela cintura dela e puxou-a com tanta força que a moça perdeu o equilíbrio. Rolaram pelo chão para cima do tapete. Que momentos felizes e desajeitados passaram, contorcendo-se para se livrar das roupas!

Agora se encontravam estendidos no chão, sobre o tapete, que estava imundo, entre cotões, e quem se importava com sujeira e cotões? Estavam afogueados e molhados de transpiração e quem se importava com isso, tampouco? Era melhor assim. Tinham atravessado a muralha de fogo juntos. Tinham lutado na selva juntos, não tinham? Estavam deitados lado a lado, com os corpos ainda quentes da refrega. Sherman beijou-a nos lábios, e ficaram deitados assim durante muito tempo, apenas se beijando, os corpos unidos. Então ele passou os dedos pelas costas dela e a perfeita curva do seu quadril e a perfeita curva da coxa e a perfeita curva da entrecoxa — e nunca experimentaram tal excitação. O fluxo corria direto da ponta de seus dedos para a virilha e daí se espalhava por todo o sistema nervoso em bilhões de sinapses explosivas. Ele queria possuir essa mulher literalmente, encerrá-la em sua própria pele, abarcar esse corpo branco, belo e quente, na doce, rude e firme saúde animal do vigor da juventude, e torná-lo seu para sempre. Amor perfeito! Pura felicidade! Príapo, rei e senhor! Senhor do Universo! Rei da Selva!

Sherman guardava os dois carros, o Mercedes e uma grande caminhonete Mercury, numa garagem subterrânea a dois quarteirões de seu edifício. Ao pé da rampa ele parou, como de hábito, junto à cabine de madeira do guardador. Um homenzinho gorducho de camisa esporte de mangas curtas e calça folgada de sarja cinzenta apareceu à porta. Era o que ele detestava, Dan, o ruivo. Desceu do carro e rapidamente enrolou o paletó, esperando que o empregadinho não visse que estava rasgado.

— Ei, Sherm! Como vai?

Isso era o que Sherman realmente detestava. Já era bastante ruim que esse homem insistisse em chamá-lo pelo nome de batismo. Mas abreviá-lo para “Sherm”, coisa que nunca se fizera — era passar da presunção à odiosidade. Sherman não conseguia lembrar de nada que tivesse dito, de nenhum gesto que tivesse feito, que pudesse ser tomado como um convite ou ao menos uma abertura para essa familiaridade. Familiaridade gratuita não era o tipo de coisa com que a pessoa devesse se importar nos dias que corriam, mas Sherman se importava. Era uma forma de agressão. “Você pensa que sou seu inferior, seu branco, anglo-saxão, protestante da Wall Street, com esse queixo de Yale, mas vou lhe mostrar.” Muitas vezes tentara pensar em uma resposta educada mas fria e cortante para esses cumprimentos animados e pseudossimpáticos, porém não lhe ocorrera nenhuma.

— Sherm, como vai? — Dan estava colado nele. Não ia desistir.

— Bem — o sr. McCoy respondeu friamente... mas também insatisfatoriamente. Uma das regras implícitas do código de status é que quando um inferior o cumprimenta com um como vai, não se responde à pergunta. Sherman virou-se para ir embora.

— Sherm!

Ele parou. Dan estava parado do lado do Mercedes com as mãos nos quadris gordos. Tinha os quadris iguais aos de uma mulher.

— Sabe que seu paletó está rasgado?

O bloco de gelo, com o queixo Yale erguido, nada disse.

— Logo ali — disse Dan com imensa satisfação. — Dá para ver o forro. Como foi que fez isso?

Sherman podia ouvir — toque — e podia sentir a traseira do carro rabear, e o magricela alto desaparecer de onde estava. “Nem uma palavra sobre esse assunto” — e no entanto sentia um terrível impulso de contá-lo a esse homenzinho odioso. Agora que atravessara a muralha de fogo e sobrevivera, ele experimentava uma das compulsões mais agudas e menos compreendidas no homem: a compulsão informativa. Queria contar seu caso de guerra.

Mas a cautela venceu, a cautela escorada pelo esnobismo. Não deveria mencionar a ninguém o que acontecera; e muito menos a esse homem.

— Não tenho ideia.

— Não percebeu?

O gélido boneco de neve com queixo de Yale, sr. Sherman McCoy, indicou o Mercedes com um gesto.

— Não vou tirar o carro até o fim de semana. — Então deu meia-volta e saiu.

Ao chegar à calçada, uma lufada de vento varreu a rua. Sentiu como a camisa estava úmida. A calça ainda estava molhada na parte de trás dos joelhos. O paletó rasgado ia pendurado no braço. O cabelo parecia um ninho de rato. Estava um horror. Seu coração batia um pouquinho depressa demais. “Estou com a consciência pesada.” Mas com o que estava se preocupando? Não era ele quem dirigia o carro quando aconteceu — se aconteceu. Certo! Se aconteceu. Não vira o rapaz ser atropelado, e ela também não, e mais, fora no calor de uma luta pelas próprias vidas — e era ela quem dirigia, de qualquer modo. Se não queria comunicar, o problema era dela.

Parou, respirou fundo e olhou à sua volta. É; a Manhattan Branca, o santuário das East Seventies. Do lado oposto da rua havia um porteiro parado sob o toldo do edifício, fumando um cigarro. Um rapaz de terno escuro e uma moça engraçadinha de vestido branco caminhavam em sua direção. O sujeito conversava com ela a duzentos quilômetros por hora. Tão jovem e vestido como um velho num terno da Brooks Brothers ou da Chipp ou da J. Press, parecia-se com ele quando começara a trabalhar para a Pierce & Pierce.

Instantaneamente uma maravilhosa sensação invadiu Sherman. Pelo amor de Deus, por que estava preocupado? Parou ali mesmo na calçada, completamente imóvel, com o queixo erguido e um largo sorriso no rosto. O rapaz e a moça provavelmente pensaram que era doido. Sem dúvida — era um homem. Naquela noite, apenas com as mãos e a coragem lutara contra o inimigo elementar, o caçador, o predador, e triunfara. Conseguira se livrar de uma emboscada lutando no terreno dos pesadelos e triunfara. Salvara uma mulher. Chegara a hora de agir como homem, e ele agira e triunfara.

Não era apenas um Senhor do Universo; era mais; era um homem. Sorrindo e cantarolando “Mostre-me apenas dez homens que sejam valentes”, o homem valente ainda molhado da refrega andou dois quarteirões até o seu apartamento dúplex, de onde se descortinava a rua dos sonhos.