A Fogueira das Vaidades
Capítulo 11
11
AS PALAVRAS NO CHÃO
A Bolsa de Paris, la Bourse, só abria duas horas por dia, das 13 às 15 horas, o que correspondia ao horário de 7 às 9 em Nova York. Assim sendo, na segunda-feira Sherman chegou à sala de operações de obrigações da Pierce & Pierce às 6 e meia. Agora eram 7 e meia, e ele se encontrava à sua escrivaninha com o telefone colado à orelha esquerda e o pé direito apoiado na caixa de engraxate de Félix.
O ruído dos rapazes caçando dinheiro no mercado de obrigações já se elevara na sala, porque o mercado agora era uma questão internacional. Do lado oposto estava o jovem senhor dos pampas, Arguello, com o telefone ao ouvido direito e a mão esquerda cobrindo a orelha esquerda, provavelmente falando com Tóquio. Já estava no escritório no mínimo há umas doze horas, quando Sherman chegara, trabalhando numa grande venda de obrigações do Tesouro americano para o serviço postal japonês. Como esse garoto conseguira meter o dedo numa transação dessas, Sherman não conseguia imaginar, mas ali estava ele. A Bolsa de Tóquio abria das 19 horas e 30 minutos às 4, hora de Nova York. Arguello estava usando um tipo de suspensórios estou-me-lixando com desenhos do Piu-Piu, o personagem de um cartum, mas tudo bem. Estava trabalhando, e Sherman se sentia tranquilo.
Félix, o engraxate, estava curvado, dando brilho com uma flanela especial no sapato direito de Sherman, um calçado pesado de couro cru, da New & Lingwood. Sherman gostava da maneira com que a elevação do pé flexionava sua perna e fazia engrossar pressionando o interior da coxa. Isso o fazia se sentir atlético. Gostava da maneira como Félix se curvava, corcunda, como se envolvesse seu sapato com o corpo e a alma. Via o topo da cabeça do preto, que se encontrava a menos de 50 centímetros do nível de seus olhos. Félix tinha uma falha perfeitamente redonda, cor de caramelo, no alto do crânio, o que era estranho, porque o cabelo que a circundava era bem farto. Sherman gostava dessa falha de cabelo perfeitamente redonda. Félix era confiável e engraçado, e não jovem, rancoroso e ferino.
Félix tinha um exemplar de The City Light no chão ao lado da caixa, e lia enquanto trabalhava. Estava aberto na segunda página e dobrado ao meio. A página 2 continha a maior parte das notícias internacionais de The City Light. A manchete no alto dizia: “BEBÊ MERGULHA 60 METROS — E SOBREVIVE”. O local era Elaiochori, Grécia. Mas estava tudo bem. Os tabloides já não inspiravam terror em Sherman. Haviam se passado cinco dias e não aparecera uma única palavra nos jornais sobre nenhum incidente pavoroso numa rampa da via expressa do Bronx. Era como Maria dissera. Foram atraídos para uma luta na selva, lutaram e venceram, e a selva não lamentava os seus feridos. Essa manhã Sherman comprara apenas o Times na lojinha da Lexington. Chegara a ler sobre os soviéticos e os cingaleses e a luta interna cruenta no Federal Reserve durante a viagem de táxi para o centro, em vez de virar logo para a Seção B, Notícias Locais.
Depois de uma semana inteira de medo, agora conseguia se concentrar nos números verde-rádio que deslizavam pelas telas negras. Podia se concentrar na transação em pauta... a Giscard...
Bernard Levy, o francês com quem negociava na Traders’ Trust Co., estava agora na França fazendo as últimas pesquisas sobre a Giscard antes de a Trader T empenhar seus 300 milhões de dólares, fechar o negócio e imprimir o contrato... as migalhas... a frase desdenhosa de Judy passou por sua cabeça e saiu em seguida... migalhas... E daí?... Eram migalhas de ouro... Concentrou-se na voz de Levy na outra extremidade da ligação por satélite:
— Então ouça, Sherman, o problema é o seguinte. Os números da dívida que o governo acabou de anunciar deixaram todo mundo nervoso, aqui. O franco está caindo, e a tendência é continuar a cair, e ao mesmo tempo, como você sabe, o ouro está caindo, embora por outras razões. A pergunta é até onde, e...
Sherman deixou-o falar. Não era anormal as pessoas ficarem um pouco desatinadas às vésperas de investir uma soma como 300 milhões de dólares. Conversara com Bernard — chamava-o pelo nome de batismo — quase todos os dias, fazia seis semanas agora, e mal conseguia lembrar que aparência tinha. “Minha rosquinha francesa”, pensou — e imediatamente se deu conta de que isso era uma piada de Rawlie, do cinismo, do sarcasmo, do pessimismo, do niilismo de Rawlie, o que eram apenas formas de dizer da “fraqueza” de Rawlie, e com isso baniu “rosquinha” e “migalhas” de seu pensamento. Esta manhã estava de novo do lado da força e do Destino. Estava quase disposto, mais uma vez, a considerar a ideia do... domínio do universo... os gritos dos jovens titãs acuando o dinheiro soavam à sua volta...
— Estou em dezesseis, dezessete. Que é que ele quer fazer?
— Venda a 25 as de dez anos!
— Quero vender!
... e mais uma vez parecia música. Félix esfregava a flanela de polimento para frente e para trás. Sherman sentiu prazer na pressão da flanela sobre os metatarsos. Era uma massagenzinha no ego, pensando bem... esse homem forte e grande, cor de chocolate, com uma falha no alto da cabeça, ali a seus pés, puxando o brilho, indiferente às alavancas com que Sherman era capaz de mover outra nação, outro continente, apenas fazendo quicar umas palavrinhas no satélite.
— O franco não é problema — disse a Bernard. — Podemos vender a descoberto até janeiro, ou até o prazo, ou ambos.
Sentiu Félix bater na sola do sapato direito. Tirou o pé da caixa, e Félix o segurou e transferiu para o outro lado da cadeira; Sherman ergueu a perna esquerda forte e atlética e encaixou o pé esquerdo no estribo de metal da caixa. Félix virou o jornal, dobrou-o ao meio, descansou-o no chão junto à caixa e começou a trabalhar no sapato esquerdo da New & Lingwood.
— Sei, mas teremos que cobrir isso — disse Bernard —, e até agora falamos o tempo todo em operar em condições favoráveis e...
Sherman tentou imaginar sua rosquinha, Bernard, sentada numa sala de um desses edifícios modernos e alinhados que os franceses construíam, com centenas de carros minúsculos passando e tocando buzinas de brinquedo na rua embaixo... embaixo... e seu olhar pousou por acaso no jornal que estava no chão, embaixo...
Os pelos dos seus braços se eriçaram. No alto da página, a terceira de The City Light, havia uma manchete que dizia:
“MÃE DE ALUNO BRILHANTE:
TIRAS NÃO INVESTIGAM ATROPELAMENTO ”
Acima, em letras brancas menores, numa tarja preta, vinha: “Rapaz à beira da morte.” Abaixo havia uma segunda tarja preta, onde se lia: “Entrevista exclusiva a CITY LIGHT.” E abaixo: “Peter Fallow.” E mais abaixo, em uma coluna, havia uma foto meio busto — de um rapaz negro sorridente, bem-vestido, de paletó escuro, camisa branca e gravata listrada. Seu rosto fino e delicado sorria.
— Acho que o mais sensato é descobrir onde isso vai parar — disse Bernard.
— Bom... acho que está exagerando o... ah... o... ah... — “Aquele rosto!” — ... o... ah... — “Aquele rosto fino e delicado, agora de camisa e gravata! Um jovem senhor!” — ... o... ah... problema.
— Espero que sim — disse Bernard. — Mas, de qualquer forma, não fará mal algum esperar.
— Esperar? — “Eh! Precisa de ajuda?” Aquele rosto delicado e temeroso! “Uma boa pessoa!” Será que Bernard disse “esperar”? — Não entendo, Bernard. Tudo está se encaixando! — Não pretendera parecer tão enfático, tão ansioso, mas seus olhos estavam presos às palavras que estavam ali embaixo, no chão.
“Contendo as lágrimas, uma viúva do Bronx contou ontem a The City Light de que maneira seu filho, um aluno brilhante, foi atropelado por um carro de luxo, em alta velocidade — e acusou a polícia e a Promotoria Distrital do Bronx de ficarem de braços cruzados.
A sra. Annie Lamb, funcionária da Pretoria Municipal, revelou que o filho, Henry, de dezoito anos, prestes a se formar com distinção na Colonel Jacob Ruppert High School na próxima semana, disse-lhe parte do número da placa do carro — um Mercedes-Benz — antes de entrar em coma.
‘Mas o homem da Promotoria Distrital considerou a informação inútil’, disse-nos ela, argumentando que a própria vítima era a única testemunha conhecida.
Os médicos do Lincoln Hospital qualificaram o coma de ‘provavelmente irreversível’ e informaram que o estado de Lamb era ‘grave’. Lamb e a mãe moram no Edgar Allan Poe Towers, um conjunto habitacional do Bronx. Descrito por vizinhos e professores como ‘um jovem exemplar’, estava planejando entrar para a universidade no outono.
O professor de Lamb em redação e literatura avançada, na Ruppert, Zane J. Rifkind, declarou a The City Light: ‘É uma situação trágica. Henry faz parte daquela parcela excepcional de alunos capazes de superar os muitos obstáculos que a vida no South Bronx coloca em seu caminho e de se concentrar nos estudos, em seu potencial e em seu futuro. Agora só nos resta imaginar o que poderia ter realizado na universidade.’
A sra. Lamb contou que o filho saíra do apartamento no início da noite de terça-feira, aparentemente para comprar comida. Ao atravessar o Bruckner Boulevard foi atropelado por um Mercedes-Benz em que viajavam um homem e uma mulher, ambos brancos. O carro não parou. O bairro é predominantemente negro e hispânico.
Lamb conseguiu chegar ao hospital, onde trataram seu pulso fraturado e o dispensaram. Na manhã seguinte queixou-se de forte dor de cabeça e tonteira. Perdeu os sentidos no setor de urgência do hospital. Constatou-se que sofrera uma concussão subdural.
Milton Lubell, porta-voz do promotor distrital do Bronx, Abe Weiss, disse que dois detetives e um promotor distrital assistente haviam entrevistado a sra. Lamb e que ‘a investigação estava em andamento’, mas que existem 2.500 Mercedes-Benz registrados no estado de Nova York com placas que se iniciam com R, a letra que a sra. Lamb indicara. Ela disse que o filho achava que a segunda letra era E, F, B, P ou R. ‘Mesmo presumindo que uma dessas seja a segunda letra’, declarou Lubell, ‘estamos falando de quase quinhentos carros...’”
RF — Mercedes-Benz — a informação nas páginas de milhões de exemplares do jornal — atravessou o plexo solar de Sherman com uma tremenda vibração. Sua placa começava com RFH. Com uma fome aterrorizante de notícias sobre a própria condenação, ele continuou a ler:
“... e não temos descrição do motorista, não temos testemunhas e”
Foi só o que pôde ler. Félix dobrara o jornal naquele trecho. O restante estava na parte de baixo da página. Seu cérebro estava em fogo. Morria de vontade de se abaixar e virar o jornal — e morria de vontade de nunca precisar saber o que revelaria. Entrementes, a voz de Bernard Levy continuava monotonamente do outro lado do oceano, retransmitida por um satélite de comunicações da A T &T.
— ... falando de 96, se é isso que você quer dizer com as coisas estarem “se encaixando”. Mas isto está começando a parecer muito caro, porque...
Caro? Noventa e seis? “Nenhuma menção de um segundo rapaz! Nenhuma menção de uma rampa, uma barricada, uma tentativa de assalto!” O preço sempre estivera ajustado! Como é que trazia isso à baila agora? “Será que, afinal, não tinha sido uma tentativa de assalto?” Pagará em média 94 por elas. Um spread de apenas dois pontos! Não podia fazer por menos! “Esse rapaz de boa aparência morrendo! Meu carro!” Preciso me concentrar... na Giscard! Não posso fracassar, não depois de todo esse tempo e o tabloide coriscava no chão.
— Bernard... — Sua boca estava seca. — Ouça... Bernard...
— Que foi?
Mas talvez se retirasse o pé do estribo da caixa...
— Félix? Félix? — Félix não pareceu ouvi-lo. A falha perfeita cor de caramelo no alto da cabeça continuou a se agitar para a frente e para trás enquanto ele engraxava o sapato de couro cru da New & Lingwood.
— Félix!
— Oi, Sherman! Que foi que disse? — No ouvido, a voz da rosquinha francesa, sentada em cima de 300 milhões de obrigações garantidas em ouro — nos olhos, o cocuruto da cabeça de um negro sentado em cima de uma caixa de engraxate e abraçando o seu pé esquerdo.
— Um instantinho, Bernard!... Só um momento... Félix?
— Você disse Félix?
— Não, Bernard! Quero dizer, um instantinho... Félix!
Félix parou de trabalhar no sapato e ergueu os olhos.
— Desculpe, Félix, preciso esticar a perna um instante.
A rosquinha francesa:
— Alô, Sherman, não estou entendendo!
Sherman tirou o pé do estribo e esticou-o exageradamente, como se estivesse dormente.
— Sherman, você está aí?
— Estou! Com licença um instante, Bernard.
Conforme esperava, Félix aproveitou a oportunidade para virar The City Light de modo a ler a metade inferior da página. Sherman tornou a colocar o pé na caixa, Félix se curvou de novo sobre o sapato e Sherman abaixou a cabeça, tentando focalizar as palavras no chão. Baixou a cabeça aproximando-a tanto da de Félix que o negro olhou para cima. Sherman recuou e sorriu sem graça.
— Desculpe, Bernard, eu estava falando com outra pessoa.
Félix abanou a cabeça em sinal de censura, então abaixou-a e voltou a trabalhar.
— Desculpe? — repetiu a rosquinha francesa, ainda intrigada.
— Esqueça, Bernard. Eu estava falando com outra pessoa. — Lentamente Sherman foi baixando de novo a cabeça e fixou os olhos nos dizeres do jornal no chão.
“... nem ninguém que possa nos dizer o que aconteceu, nem mesmo o rapaz.”
— Sherman, você está aí? Sherman...
— Estou, Bernard. Desculpe. Ah... pode me repetir o que estava dizendo sobre preços? Porque, na verdade, isso já ficou resolvido. Ficou resolvido há semanas!
— Outra vez?
— Se não se importar. Fui interrompido aqui.
Um grande suspiro vindo da Europa via satélite.
— Eu estava dizendo que passamos de uma situação estável para uma situação instável, aqui. Não podemos mais extrapolar os números de que falamos quando fez a sua apresentação...
Sherman tentou prestar atenção às duas coisas ao mesmo tempo, mas as palavras do francês não demoraram a se transformar num chuvisco, um chuvisco via satélite, à medida que ele devorava os caracteres impressos visíveis sob o crânio do engraxate:
“Mas o rev. Reginald Bacon, presidente da Solidariedade de Todos os Povos, uma organização com sede no Harlem, afirmou que é ‘a mesma história de sempre’. A vida humana, quando se trata da vida humana de negros e da vida humana de hispânicos, não tem grande valor para a estrutura do poder. Se tivesse sido um estudante brilhante e branco, atropelado na Park Avenue por um motorista negro, eles não estariam perdendo tempo com estatísticas e obstáculos legais.
Classificou a negligência do hospital em diagnosticar imediatamente a concussão de Lamb de ‘revoltante’ e exigiu uma investigação.
Entrementes, os vizinhos têm acorrido ao apartamento pequeno e bem-cuidado da sra. Lamb no conjunto Poe Towers para reconfortá-la enquanto reflete sobre os últimos acontecimentos na história trágica de sua família. O pai de Henry foi assassinado ali mesmo há seis anos — contou ela a The City Light, apontando por uma janela, que se abre para a entrada do conjunto. Monroe Lamb, com 36 anos à época, foi morto a tiros por um assaltante uma noite em que voltava do trabalho como técnico de ar-condicionado.
‘Se eu perder Henry, será o meu fim também, e ninguém se importará com isso’, disse ela. ‘A polícia nunca descobriu quem matou o meu marido e nem mesmo quer procurar quem fez isso a Henry.’
Mas o rev. Bacon jurou pressionar as autoridades até que façam alguma coisa: ‘Se a estrutura do poder está querendo nos dizer que não faz a menor diferença o que acontece com os nossos melhores jovens, que são a esperança destas ruas miseráveis, então está na hora de mandarmos uma mensagem para a estrutura do poder: Os seus nomes não estão gravados nas Tábuas da Lei que vieram do monte Sinai. Haverá uma eleição em breve e podemos substituí-los.’”
Abe Weiss, promotor distrital do Bronx, irá enfrentar um duro desafio nas eleições democráticas primárias em setembro. O deputado estadual Robert Santiago tem o apoio de Bacon, do deputado Joseph Leonard e de outros líderes negros, bem como das lideranças do South e Central Bronx, maciçamente porto-riquenhos.
— ... e por isso eu aconselharia a aguardar algumas semanas, a deixar a poeira assentar. Até lá saberemos onde estão os limites mínimos. Saberemos se estamos falando de preços realistas. Saberemos...
Subitamente Sherman percebeu o que aquela bicha assustada estava dizendo. Mas não podia esperar — não com essa coisa desabando em cima dele — precisava mandar imprimir o contrato — já!
— Bernard, agora ouça. Não podemos esperar. Gastamos todo esse tempo encaixando tudo nos lugares. Não é preciso sentar e esperar a poeira assentar. Está assentada. Temos que nos mexer agora! Você está levantando problemas imaginários. Temos que nos acalmar e agir! Já esclarecemos todas essas coisas há muito tempo!
Não faz diferença o que acontece com o ouro e o franco em termos diários!
Mesmo enquanto falava, reconheceu a urgência fatal em sua voz. Na Wall Street, um vendedor nervoso era um vendedor morto. Sabia disso! Mas não conseguia se controlar...
— Não posso simplesmente fechar os olhos, Sherman.
— Ninguém está pedindo que o faça. — “Toque. Uma pancadinha.” Um rapaz alto e delicado, um aluno brilhante! O pensamento terrível se apossou de todo o seu consciente: “Eram realmente apenas dois rapazes bem-intencionados que queriam ajudar”... Eh!... A rampa, a escuridão... E o outro — o grandalhão? Não havia nenhuma menção de um segundo garoto... Nenhuma menção de uma rampa... Não tinha sentido... “Talvez uma simples coincidência! — outro Mercedes! — R — 2 500 Mercedes...”
Mas no Bronx, naquela mesma noite?
O horror da situação tornou a sufocá-lo.
— Sinto muito, mas não podemos fazer essa transação pelo método do arqueiro zen, Sherman. Temos que chocar os ovos mais algum tempo.
— De que está falando? Quanto tempo é “mais algum tempo”, pelo amor de Deus? — “Seria concebível verificarem 2.500 automóveis?”
— Bem, na próxima semana ou na outra. Eu diria umas três semanas, por alto.
— Três semanas!
— Temos uma série de grandes apresentações programadas. Não há nada que possamos fazer.
— Não posso esperar três semanas, Bernard! Agora veja, você levantou alguns probleminhas — droga, não chegam a ser problemas. Examinei cada uma dessas eventualidades vinte vezes! Você tem que agir agora! Três semanas não vão resolver nada!
Na Wall Street, os vendedores não diziam “tem que”, tampouco.
Silêncio. Então a voz paciente e educada da rosquinha de Paris, via satélite:
— Sherman. Por favor. Por 300 milhões de obrigações ninguém tem que fazer nada de afogadilho.
— Claro que não, claro que não. Só que eu sei que expliquei... Sei que... Sei...
Sabia que tinha que se acalmar e sair desse platô de irreflexão e ansiedade o mais depressa possível e voltar a ser a figura suave e calma do quinquagésimo andar da Pierce & Pierce, que a rosquinha da Trader T sempre conhecera, uma figura confiável e de inabalável poderio, mas... “não podia deixar de ser o seu carro. Não havia como fugir! Mercedes, RF, um homem e uma mulher brancos!”.
O fogo rugia dentro de seu crânio. O negro continuava a puxar o brilho do sapato. Os ruídos da sala de operação de obrigações o acuavam como o rugido de feras:
— Ele está querendo seis! Sua oferta é cinco!
— Não compre! Os federais estão fazendo reversões!
— Os federais estão comprando todos os cupons! Dependendo do mercado!
— Puta que pariu! Estou fora!
A Câmara 62 era só confusão, sob a presidência do juiz Jerome Meldnick. Por detrás da mesa do escrevente, Kramer contemplava a perplexidade de Meldnick com divertido desdém. Na cadeira do juiz, a cabeça grande e pálida da Meldnick parecia um queijo gouda. Estava curvada próxima à de seu secretário, Jonathan Steadman. Na medida em que o cargo de juiz que Meldnick ocupava tinha qualquer respaldo legal útil, este estava contido na cabeça de Steadman. Meldnick era secretário executivo do sindicato de professores, um dos maiores sindicatos democráticos e mais sólidos do estado, quando o governador o nomeara juiz na Divisão Criminal do Supremo Tribunal Estadual, em reconhecimento ao seu potencial de jurisprudência e às décadas de trabalho árduo para o partido. Não advogava desde o tempo em que prestava pequenos serviços para o tio logo depois de ter sido aceito como defensor, um tio advogado que cuidava de testamentos e contratos imobiliários e vendia seguros de propriedades em um prédio de dois andares, no Queens Boulevard.
Irving Bietelberg, o advogado de um delinquente chamado Willie Francisco, estava na ponta dos pés do outro lado da cadeira do juiz, espreitando e tentando dizer alguma coisa. O próprio acusado, Francisco, gordo, 22 anos, bigode fininho e uma camisa esporte listrada de vermelho e branco, estava em pé gritando para Bietelberg:
— Eh! Eh! Eh!
Três guardas judiciários estavam postados dos lados e às costas de Willie, para o caso de ele se excitar demais. Teriam ficado felizes em lhe estourar os miolos, já que matara um tira sem piscar os olhos. O tira o detivera quando saía correndo de uma ótica com um par de óculos escuros Porsche na mão. Os óculos escuros Porsche eram muito apreciados no bairro de Morrisania, no Bronx, porque custavam 250 dólares e tinham o nome Porsche gravado em branco na parte superior da lente esquerda. Willie entrara na ótica com uma receita falsificada do seguro de saúde e anunciara que queria os Porsche. O vendedor informou que não poderia levá-los, porque o seguro não reembolsaria a loja por óculos daquele preço. Ouvindo isso, Willie agarrara os óculos, fugira da loja e matara o tira.
Era uma verdadeira merdinha esse caso, uma merdinha inconteste, e Jimmy Caughey nem precisara gastar fôlego para ganhá-la. Mas então aconteceu uma coisa estranha. O júri se retirara no dia anterior, à tarde, e retornara seis horas depois, sem ter chegado a um veredicto. Nesta manhã, Meldnick dirigia a custo a sessão diária quando o júri mandou avisar que chegara a um veredicto. Então os jurados entraram um a um, e o veredicto foi que o acusado era culpado. Bietelberg, como normalmente fazia, pediu que o júri fizesse uma declaração de voto. “Culpado”, “culpado”, “culpado” foram dizendo todos até que o escrevente chegou a um senhor branco e obeso, Lester McGuigan, que também disse:
— Culpado. — Mas em seguida olhou para os olhos de Willie Francisco, sem os óculos Porsche, e acrescentou: — Não me sinto absolutamente convencido disso, mas creio que tenho de votar, e esse é o meu voto.
Willie Francisco deu um salto e gritou:
— Julgamento nulo! — Antes mesmo que Bietelberg pudesse dizê-lo e depois disso instaurou-se a confusão. Meldnick cobriu a cabeça com os braços e chamou Steadman, e a coisa estava nesse pé. Jimmy Caughey não conseguia acreditar no que via. Os júris do Bronx eram famosos por sua imprevisibilidade, mas Caughey calculara que McGuigan era um de seus sólidos esteios. Não só era branco, mas também irlandês, um velho irlandês do Bronx, que certamente reconheceria nele um jovem e valoroso irlandês. Mas McGuigan provara ser um velho com tempo de sobra, que pensava demais e adotava uma atitude filosófica demais sobre as coisas, até mesmo sobre gente como Willie Francisco.
Kramer divertia-se com a confusão de Meldnick, mas Jimmy Caughey não. Kramer encontrava-se na Câmara 62 devido a uma merdinha semelhante e tinha catástrofes ridículas semelhantes a temer. Estava presente para ouvir um recurso do advogado Gerard Scalio, que pedia audiência para apresentar novas evidências do caso de Jorge e Juan Terzio, dois irmãos que eram “um par de verdadeiros patetas”. Tinham tentado assaltar uma mercearia coreana na Rodovia Fordham, mas não foram capazes de descobrir que botões apertar na caixa registradora e acabaram arrancando dois anéis dos dedos de uma freguesa. Isso enfureceu um outro freguês, Charlie Esposito, que correu atrás deles, conseguiu alcançar Jorge, agarrou-o, imobilizou-o no chão e lhe disse:
— Sabe de uma coisa? Vocês são dois patetas.
Jorge mete a mão na camisa, puxa uma arma, dá-lhe um tiro na cara e o mata.
Uma verdadeira merdinha.
Enquanto a tempestade de merda rugia e Jimmy Caughey girava os olhos em arcos cada vez mais desalentados, Kramer pensava num futuro mais glorioso. Naquela noite iria finalmente conhecer... a Moça de Batom Cor de Terra.
Muldowny’s, aquele restaurante no East Side, na esquina da Third Avenue com a 78th Street... tijolos aparentes, madeira clara, latão, vidro fosco, plantas penduradas... aspirantes a atrizes servindo as mesas... celebridades... mas informal, com preços módicos, ou pelo menos fora o que ouvira dizer... o burburinho dos jovens em Manhattan que gozavam... a Vida... uma mesa para dois... Ele está admirando o rosto incomparável da srta. Shelly Thomas...
Uma vozinha tímida aconselhou-o a não fazer isso, ainda não. O caso se encerrara, quanto ao julgamento, e Herbert 92X fora devidamente condenado, e o júri dispensado. Então que mal havia em se encontrar com uma jurada e perguntar-lhe sobre a natureza das deliberações no caso? Nenhum... exceto que a sentença ainda não fora despachada, e tecnicamente o caso não estava encerrado. O mais prudente seria esperar. Mas nesse meio-tempo a srta. Shelly Thomas poderia... se descomprimir... se curar da embriaguez do crime... se libertar da mágica do jovem e destemido promotor distrital com a língua de ouro e os musculosos esternoclidomastóideos...
Uma voz máscula e forte perguntou-lhe se ia continuar a jogar no certo e a se conformar com pouco o resto da vida. Ele aprumou os ombros. Não desmarcaria o encontro. Tinha toda a razão! A excitação na voz dela! Era quase como se estivesse esperando que telefonasse. Estava lá naquele escritório de tijolos de vidro e balaústres de canos brancos da MVT, na Prischker & Bolka, no centro da Vida, ainda pulsando com o ritmo maroto da existência crua do Bronx, ainda eletrizada com a força daqueles que eram suficientemente másculos para enfrentar os predadores... Chegava a vê-la, chegava a vê-la... Apertou os olhos com força... Os cabelos castanhos fartos, o rosto de alabastro, o batom...
— Ei, Kramer! — Abriu os olhos. Era o escrevente. — Telefone para você.
Apanhou o telefone, que se encontrava na mesa do escrivão. Na cadeira do juiz, Meldnick, imerso numa consternação de queijo gouda, continuava debruçado com Steadman. Willie Francisco continuava a gritar:
— Eh! Eh! Eh!
— Kramer — disse Kramer.
— Larry, aqui é o Bernie. Viu The City Light hoje?
— Não.
— Há uma grande reportagem na página 3 sobre esse caso do Henry Lamb. Dizem que os tiras agem muito devagar. Dizem que nós, também. Dizem que você declarou à sra. Lamb que a informação dada por ela era inútil. É uma reportagem enorme.
— Quê!
— Não mencionam seu nome. Dizem apenas “o homem da Promotoria Distrital”.
— Isso é uma absoluta inverdade, Bernie! Disse-lhe exatamente o contrário! Disse que nos tinha dado uma boa pista! Só que não era suficiente para transformarmos isso em um caso.
— Bom, Weiss está doidão. Está subindo pelas paredes. Milt Lubell está vindo aqui a cada três minutos. O que está fazendo neste instante?
— Estou aguardando a audiência para apresentação de novas evidências no tal caso dos irmãos Terzio, os dois patetas. O caso Lamb? Essa não. Outro dia Milt disse ainda que havia um cara, uma porra de um inglês telefonando de The City Light — mas isso é ultrajante. Esse caso só tem furos. Espero que compreenda isso, Bernie.
— Eu compreendo. Bem, ouça aqui, peça um adiamento do caso dos dois patetas e venha para cá.
— Não posso. Para variar, Meldnick está sentado na cadeira com as mãos na cabeça. Um jurado acabou de se arrepender do voto de culpado no caso de Willie Francisco. Jimmy está aqui botando fumaça pelas orelhas. Não vai acontecer nada aqui até que Meldnick encontre alguém que lhe diga o que fazer.
— Francisco? Essa não. Quem é escrivão aí, Eisenberg?
— É.
— Deixe-me falar com ele.
— Ei, Phil — disse Kramer. — Bernie Fitzgibbon quer falar com você.
Enquanto Bernie Fitzgibbon falava com Phil Eisenberg ao telefone, Kramer passou para o outro lado da mesa do escrivão para recolher os papéis do caso Terzio. Não conseguia acreditar. A pobrezinha da viúva Lamb, a mulher de quem até Martin e Goldberg tinham sentido tanta pena — se transformara numa cascavel! Onde havia um jornal? Estava doido para pôr as mãos nele. Viu que estava perto do estenógrafo, ou escrivão, como era na realidade chamada essa raça, o irlandês alto, Sullivan. Sullivan se levantara da máquina de estenografar, logo abaixo da cadeira do juiz, e se espreguiçava. Sullivan era um homem bonitão, de cabelo espesso, quarentão, famoso ou notório na Gibraltar por suas roupas alinhadas. No momento vestia um paletó de tweed tão macio e luxuoso, tão cheio de evocações irlandesas, que Kramer sabia que nunca teria dinheiro para comprar um igual. Por trás de Kramer entrou um velho funcionário do tribunal chamado Joe Hyman, supervisor dos escrivães. Foi até Sullivan e perguntou:
— Vai entrar um assassinato nesta câmara. Na sessão diária. Que me diz?
Sullivan respondeu:
— Quê? Essa não, Joe. Acabamos de julgar um assassinato. Para que quero outro? Terei que ficar depois do anoitecer. Comprei entradas para o teatro. Custaram-me 35 dólares cada.
Hyman retorquiu:
— Está bem, está bem. E que tal um estupro? Há um estupro para ser julgado.
— Que merda, Joe! — exclamou Sullivan —, estupro... também estica depois do anoitecer. Por que eu? Por que tem que ser sempre eu? Sheila Polsky não trabalha com um júri há meses. Que tal ela?
— Ela tem problema de coluna. Não pode ficar sentada tanto tempo.
— Problema de coluna? — retorquiu Sullivan. — Ela só tem 28 anos, porra. Embromação. Esse é que é o problema dela.
— Mesmo assim...
— Olha, temos que fazer uma reunião. Estou cansado de ser sempre escolhido. Temos que discutir as designações de tarefa. Temos que desmascarar os embromadores.
— Está bem — disse Hyman. — Vamos fazer assim. Você fica com o estupro e ponho você em meio expediente na semana que vem. Certo?
— Não sei — disse Sullivan. Franziu as sobrancelhas contra o nariz, como se estivesse diante de uma das decisões mais angustiantes da vida. — Acha que vai haver transcrições diárias sobre o estupro?
— Não sei. Provavelmente.
“Transcrições diárias.” Agora Kramer percebia por que tinha raiva de Sullivan e de suas roupas luxuosas. Depois de trabalhar como estenógrafo do tribunal durante catorze anos, Sullivan atingira o teto salarial do serviço público, 51 mil dólares por ano — 14.500 mais do que Kramer —, e isso era apenas o básico. Além disso, os estenógrafos vendiam as transcrições página por página a um mínimo de quatro dólares e meio a página. “Transcrições diárias” significava que cada advogado de defesa e o promotor distrital assistente, além do tribunal, quer dizer, o juiz, iriam querer transcrições dos trâmites de cada dia, um trabalho de urgência que dava a Sullivan direito a um abono de seis dólares ou mais. Se houvesse “diversos acusados” — e em casos de estupro em geral havia — poderia chegar a catorze ou quinze dólares por página. Corria no tribunal que no ano anterior, no julgamento de um assassinato envolvendo uma quadrilha de traficantes albaneses, Sullivan e outro estenógrafo tinham rachado 30 mil dólares em duas semanas e meia de trabalho. Era mole esses caras ganharem 75 mil dólares por ano, 10 mil a mais do que o juiz e duas vezes mais do que ele. Um estenógrafo! Um autômato com uma máquina de estenografar! Alguém que nem pode abrir a boca em um tribunal a não ser para pedir ao juiz que mande alguém repetir uma palavra ou uma frase!
E ali estava ele, Larry Kramer, formado em direito pela Universidade de Colúmbia, promotor distrital assistente — se perguntando se realmente teria dinheiro para levar uma moça de batom cor de terra a um restaurante no Upper East Side!
— Ei, Kramer. — Era Eisenberg, o escrivão, erguendo o telefone na direção dele.
— Diga, Bernie.
— Resolvi tudo com Eisenberg, Larry. Ele vai pôr os irmãos Terzio no fim da fila. Venha para cá. Temos que dar um jeito na porra desse caso Lamb.
— Da maneira com que os ianques constroem seus conjuntos habitacionais, os elevadores param em andares alternados — disse Fallow — e cheiram a urina. Os elevadores, quero dizer. Assim que a pessoa entra, sobem vapores de urina humana!
— Por que andares alternados? — perguntou Sir Gerald Steiner, devorando esse conto das esferas inferiores. Seu editor executivo, Brian Highridge, estava postado a um lado, igualmente enlevado. A um canto do cubículo de Fallow, a capa suja continuava pendurada no cabide de plástico, e o cantil de vodca continuava escondido no bolso duplo. Mas ele contava com a atenção, os elogios e a euforia para curar a ressaca dessa manhã.
— Para poupar dinheiro com a construção, imagino — respondeu. — Ou para lembrar aos pobres coitados que estão desempregados. Está tudo muito bem e muito bom para os que têm apartamentos nos andares em que o elevador para, mas a outra metade tem que tomá-lo para o andar de cima e descer as escadas. No conjunto residencial do Bronx parece que isso é determinado pelo acaso. A mãe do rapaz, sra. Lamb, me contou que perdeu metade da mobília quando se mudou. — A lembrança trouxe um sorriso aos lábios de Fallow, o tipo de sorriso irônico que diz que a história é triste, mas não se pode deixar de admitir que é engraçada. Ela levou a mobília de elevador até o andar acima do apartamento. Tiveram que carregar peça por peça escada abaixo, e cada vez que voltavam ao andar de cima, alguma coisa tinha desaparecido. É o costume! Quando gente nova se muda para um andar sem elevador, os antigos furtam seus pertences da porta do elevador!
O Rato Morto e Highridge tentaram sufocar o riso, já que afinal estavam falando de um grande número de pessoas pobres e infelizes. O Rato Morto estava sentado na ponta da escrivaninha de Fallow, o que indicava que se sentia satisfeito demais com tudo isso para conseguir se sentar, por ora. A alma de Fallow crescia. O que via diante de si não era mais... o Rato Morto... mas Sir Gerald Steiner, o esclarecido barão da imprensa britânica que o convidara para vir ao Novo Mundo.
— Aparentemente a pessoa joga com a vida só em descer as escadas — continuou. — A sra. Lamb me preveniu que eu não deveria usá-las em circunstância alguma.
— Por que não? — perguntou Steiner.
— Parece que as escadas são as ruelas dos conjuntos residenciais, por assim dizer. Os apartamentos são empilhados formando aquelas torres altas, compreende, e as torres se espalham para lá e para cá — ele gesticulou com as mãos para indicar a planta irregular — prevendo parques. Naturalmente nem uma única gramínea sobreviveu, mas de todo modo não há ruas, nem becos nem atalhos nem bares entre os edifícios, apenas umas horríveis charnecas ao ar livre. Não há lugar para os moradores pecarem. Então usam os patamares das escadas. Fazem... de tudo... nos patamares das escadas.
Os olhos arregalados de Sir Gerald e seu editor executivo foram demais para Fallow. Eles provocaram um afluxo de licença poética nos nervos de seu cérebro.
— Devo confessar que não pude resistir a dar uma espiada. Então decidi refazer a rota que a sra. Lamb e o filho tinham percorrido quando se mudaram para o Edgar Allan Poe Towers.
Na realidade, depois do aviso, Fallow não ousara se aproximar da escada. Mas agora as mentiras, mentiras pitorescas, borbulhavam no seu cérebro a uma velocidade embriagante. Na sua intrépida excursão pelas escadas deparara com todo tipo de vício: fornicação, gente fumando crack, injeções de cocaína, jogos de dados e cartas, e mais fornicação.
Steiner e Highridge olhavam-no boquiabertos, de olhos arregalados.
— Está falando sério? — perguntou Highridge. — Que foi que eles fizeram quando o viram?
— Nada, continuaram na deles. No estado sublime em que se encontravam, que diferença fazia a passagem de um mero jornalista?
— É bem aquela miséria de Hogarth — disse Steiner. — Gin Lane. Só que é vertical.
Fallow e Highridge riram aprovando entusiasticamente a comparação.
— A Gin Lane Vertical — disse Highridge. — Sabe, Jerry, isso daria uma série em dois capítulos bem boazinha. No gênero a-vida-em-um-cortiço-financiado-pelo-governo.
— Hogarth de Alto a Baixo — disse Steiner curtindo um pouco o seu novo papel de fazedor de frases. — Será que os americanos farão alguma ideia do que sejam Hogarth e Gin Lane?
— Ah, não acho que isso seja problema — atalhou Highridge. — Lembra-se da nossa reportagem sobre o Barba-Azul de Howard Beach? Tenho certeza de que não faziam a mínima ideia de quem foi o Barba-Azul, mas isso pode ser explicado em um parágrafo, e eles ficam satisfeitos com o que acabaram de aprender. E o Peter, aqui, pode ser o nosso Hogarth.
Fallow sentiu uma ligeira apreensão.
— Pensando melhor — disse Steiner —, não tenho muita certeza de que seja uma boa ideia.
Fallow sentiu-se imensamente aliviado.
— Por que não, Jerry? — perguntou Highridge. — Acho que realmente acertou em cheio.
— Ah, acho que intrinsecamente é uma boa reportagem. Mas, sabe, eles são muito sensíveis nessas coisas. Se fizéssemos uma reportagem sobre a vida nos conjuntos habitacionais dos brancos, estaria tudo bem, mas acho que não há nenhum conjunto habitacional para brancos em Nova York. Isto é uma questão muito delicada, que está me causando uma certa preocupação no momento. Já estamos recebendo protestos dessas organizações, acusando The City Light de ser um jornal antiminorias, para usar a expressão deles. Ora, não há crime em ser um jornal branco — que jornal pode ser mais absolutamente branco do que o Times? —, mas granjear a reputação de ser branco já é diferente. Isto faz muita gente influente ficar intranquila, inclusive, poderíamos dizer, os anunciantes. Recebi uma carta horrorosa ainda outro dia de uma organização que se autodenomina Liga Contra a Difamação do Terceiro Mundo. — Sublinhou o termo “contra a difamação” como se fosse a invenção mais absurda que alguém pudesse imaginar. — Por que foi mesmo, Brian?
— “Os vândalos sorridentes” — respondeu Highridge. — Publicamos na primeira página, na semana passada, uma foto de três rapazes negros num distrito policial, rindo. Tinham sido presos por destruir uma sala de fisioterapia numa escola para crianças excepcionais. Espalharam gasolina e acenderam fósforos. Umas gracinhas. A polícia disse que estavam rindo do que tinham feito depois de serem levados para o distrito, então mandei um dos nossos fotógrafos lá, Silverstein, um americano, um homenzinho atrevido, para tirar uma foto dos rapazes rindo. — Ele deu de ombros, como se tivesse tomado apenas uma decisão de rotina jornalística.
— A polícia ajudou bastante. Trouxe-os do xadrez para a recepção, de modo que o nosso homem pudesse fotografá-los rindo, mas quando viram Silverstein com a máquina não queriam rir. Então Silverstein contou uma piada suja. Uma piada suja! — Highridge começou a rir antes de terminar. — Era a piada de uma judia que vai fazer um safári na África e é raptada por um gorila, e ele a leva para cima de uma árvore e a estupra, e a mantém presa durante um mês, estuprando-a dia e noite até que ela finalmente consegue fugir e volta para os Estados Unidos e quando está contando tudo isso para outra mulher, sua melhor amiga, cai no choro. A amiga diz: “Calma, calma, calma, agora está tudo bem.” A mulher responde: “Para você é muito fácil dizer isso. Não sabe como estou me sentindo. Ele não me escreve... não me telefona...” Os três rapazes começam a rir, provavelmente de constrangimento com uma piada tão infame, e Silverstein tira a fotografia, e nós a publicamos: “Os vândalos sorridentes”.
Steiner explodiu:
— Ah, essa é ótima! Eu não devia rir. Ah, meu Deus! Como foi que disse que era o nome do sujeito? Silverstein?
— Silverstein — confirmou Highridge. — Não pode deixar de reconhecê-lo. Anda sempre com cortes na cara. Aplica pedacinhos de papel higiênico nos cortes para parar de sangrar. Tem sempre papel higiênico colado no rosto.
— Cortes? Que tipo de cortes?
— De navalha. Parece que o pai lhe deixou uma navalha quando morreu.
E ele insiste em usá-la. Não consegue pegar o jeito. Corta-se todos os dias. Felizmente, tem jeito para tirar fotografias.
Steiner estava sem fôlego de tanto rir.
— Os ianques! Deus do céu, eu os amo! Contou uma piada. Deus do céu, Deus do céu... gosto de um sujeito peitudo. Anote aí, Brian. Dê-lhe um aumento de salário. Vinte e cinco dólares por semana. Mas, pelo amor de Deus, não diga a ele nem a ninguém por quê. Contou uma piada! Estuprada por um gorila!
O amor de Steiner pelo jornalismo sensacionalista, sua admiração pelo “peito” que dava aos jornalistas a coragem de experimentar esses expedientes, eram sinceros, e Fallow e Highridge não puderam deixar de rir com ele. O rosto miúdo de Steiner estava longe de ser o de um Rato Morto naquele momento. O pique absurdo desse fotógrafo americano, Silverstein, emprestava-lhe vida e até mesmo radiosidade.
— Em todo caso — disse Steiner, já sério — temos esse problema.
— Acho que estávamos plenamente justificados — disse Highridge. — A polícia nos garantiu que estavam rindo do que tinham feito. Foi o advogado deles, um desses sujeitos da justiça assistencial, acho que é assim que os chamam, que criou um caso, e provavelmente se comunicou com essa tal de Contra a Difamação ou que nome tenha.
— Infelizmente não são os fatos que contam — disse Steiner. — Temos que mudar certas imagens, e creio que esse caso do atropelamento com fuga é um bom começo. — Vamos ver o que podemos fazer por essa pobre família Lamb. Parece que já tem algum apoio. Esse tal de Bacon.
— Pobres carneirinhos — disse Brian Highridge.
— É. — Steiner parecia intrigado; o trocadilho fora involuntário. [2]
— Agora, deixe-me perguntar, Peter — disse Steiner —, a mãe, essa sra. Lamb, parece uma pessoa digna de crédito?
— Ah, parece — respondeu Fallow. — Tem uma boa aparência, fala bem, muito sincera. Tem emprego, parece muito cuidadosa em seus hábitos... quero dizer, esses apartamentos de conjuntos são apertados e miseráveis, mas o dela é muito arrumado... quadros nas paredes... sofá com mesinhas do lado... até mesmo uma espécie de consolezinho junto à porta.
— E o rapaz... não vai explodir na nossa cara, vai? Creio que entendi que é uma espécie de aluno brilhante, é isso?
— Pelos padrões da escola que frequenta. Não tenho muita certeza de qual seria o seu aproveitamento na Holland Park Comprehensive. — Sorriu Fallow. Era uma escola em Londres. — Nunca se meteu em encrencas com a polícia. Isso é tão extraordinário nesses conjuntos habitacionais, que falam disso como se as pessoas não pudessem deixar de se impressionar com esse fato notável.
— Que dizem os vizinhos?
— Ah... que é simpático... bem-comportado — disse Fallow. De fato, Fallow fora diretamente ao apartamento de Annie Lamb com Albert Vogel e um dos homens do reverendo Bacon, um homem alto com um brinco de ouro em uma orelha, entrevistara Annie Lamb e saíra. Mas agora sua condição de intrépido explorador das profundezas da miséria, versão Bronx, era tão digna de elogios aos olhos de seu nobre patrão, que ele por ora não fazia questão de recuar.
— Muito bem — disse Steiner. — Que teremos a seguir?
— O reverendo Bacon: é assim que todos o chamam, reverendo Bacon; ele está organizando uma grande manifestação para amanhã. E para protestar...
Nesse instante, o telefone de Fallow tocou.
— Alô?
— Eiiii, Pete! — Era a voz inconfundível de Albert Vogel. — As coisas estão esquentando. Um garoto acabou de ligar para Bacon, um garoto do Registro de Veículos. — Fallow começou a tomar notas. — Esse garoto leu a sua reportagem, e se dispôs a passar a listagem de carros no computador de lá, e diz que conseguiu reduzir os carros prováveis para 124.
— Cento e vinte e quatro? A polícia pode investigar isso?
— Será fácil... se quiserem. Podem verificá-los em poucos dias, se quiserem pôr homens para trabalhar nisso.
— Quem é esse... sujeito? — Fallow detestava o hábito americano de usar,
para designar “garoto”,[3] uma palavra que na Inglaterra se aplicava aos cabritos.
— Apenas um garoto que trabalha lá, um garoto que acha que os Lamb estão recebendo o mesmo tratamento injusto de sempre. Eu disse que era disso que eu gostava no Bacon. Ele polariza as pessoas que querem questionar a estrutura do poder.
— Como posso me comunicar com esse... sujeito?
Vogel lhe deu todos os dados, e em seguida acrescentou:
— Agora, Pete, me ouça só um instante. Bacon acabou de ler a sua reportagem e gostou muito. Todos os jornais e estações de TV da cidade estão ligando para ele, mas ele está guardando essa dica do Registro de Veículos para você. É sua, com exclusividade. Certo? Mas terá que se mexer depressa. Tem que fazer a bola rolar. Compreende o que estou dizendo?
— Compreendo.
Quando desligou, Fallow sorriu para Steiner e Highridge, que tinham os olhos nele; sacudiu a cabeça como quem sabe das coisas e disse:
— Sim, senhores... acho que estamos progredindo. Agora foi um informante do Registro de Veículos, que mantém o registro de todas as placas licenciadas.
Foi exatamente da maneira que ele sonhara que seria. Foi tão exatamente, que ele teve vontade de prender a respiração com medo de que alguma coisa quebrasse o encanto. Ela o olhava nos olhos, os dois separados apenas pela largura da mesa minúscula. Absorta em suas palavras, atraída ao seu campo magnético, tão próxima, que sentira vontade de deslizar as mãos pela mesa e meter os dedos por baixo dos dela... já... vinte minutos apenas depois de tê-la encontrado, tal a eletricidade! Mas não devia se apressar, não devia destruir o equilíbrio requintado do momento.
Ao fundo estavam os tijolos aparentes, os reflexos suaves do latão, as cataratas desenhadas nos vidros, as vozes aeróbias dos jovens e elegantes. Em primeiro plano, seus cabelos escuros e abundantes, fulgor intenso e outonal de seu rosto — na verdade, ele sabia, mesmo em meio ao encantamento, que o fulgor outonal era provavelmente maquiagem. Sem dúvida alguma o arco-íris lilás e roxo nas pálpebras superiores e órbitas occipitais eram efeitos de maquiagem — mas essa era a natureza da perfeição contemporânea. De seus lábios, túmidos de desejo, cintilantes com o batom cor de terra, saíam as palavras:
— Mas você estava tão perto e praticamente gritava com ele, e ele lhe lançava olhares assassinos... quero dizer, não teve medo de que pulasse e... não sei... quero dizer, ele não parecia ser uma pessoa decente!
— Eiiiiiiii! — exclamou Kramer, rejeitando a ideia de perigo mortal com um sacudir de ombros e uma distensão de seus poderosos esternoclidomastóideos. — Essas figuras são 90 por cento exibicionismo, embora seja uma boa ideia manter os olhos abertos para os 10 por cento restantes. Ha, ha, sem dúvida. O principal era que eu precisava revelar o lado violento de Herbert de alguma maneira, para que as pessoas pudessem vê-lo. O advogado dele, Al Teskowitz, bom, não preciso lhe dizer, não é o maior orador do mundo, mas isso não faz necessariamente nenhuma diferença num julgamento criminal. O Código Penal é algo único, porque não se está jogando com dinheiro, mas com a vida e a liberdade humanas, e posso lhe afirmar, isso desencadeia um grande número de emoções incontroláveis. Teskowitz, acredite se quiser, pode ser um gênio em confundir as pessoas, manipular um júri. Ele parece digno de pena, mas isso é calculado, pode estar certa. Sabe como despertar compaixão pelo seu cliente. Metade disso é... como é mesmo o nome?... interpretação, acho que é assim que chamam. Talvez seja apenas canastrice, mas ele sabe fazer isso muitíssimo bem, e eu não podia deixar que essa ideia de que Herbert era um bom homem de família — um homem de família! — ficasse pairando ali no ar como uma espécie de balão vistoso, sabe. Então o que calculei foi...
As palavras jorravam em torrentes, descrevendo todas as maravilhas de sua coragem e seu talento, com medo de que não tivesse para quem contar. Não podia falar assim com Jimmy Caughey ou Ray Andriutti, ou mesmo sua mulher, cuja receptividade para crimes a essa altura era igual à de uma parede de pedra. Mas a srta. Shelly Thomas — precisava mantê-la inebriada! E ela engolia tudo. Aqueles olhos! Aqueles lábios cor de terra cintilantes! A sede de suas palavras era infinita, o que era uma boa coisa, porque ela não estava bebendo nada além de água. Kramer pedira um copo de vinho branco da casa e tentava se controlar para não bebê-lo de um gole, porque já percebera que esse restaurante não era tão barato quanto pensara. Nossa! A droga da sua cabeça estava pensando em planos paralelos a 100 quilômetros por hora! Era como um gravador com duas fitas. Em uma, ele deitava falação sobre a maneira como conduzira o julgamento...
— ... pelo canto do olho vi que ele estava prestes a se descontrolar. A corda estava retesada! Eu nem sabia se conseguiria chegar ao fim da minha peroração, mas estava disposto...
... e na segunda fita ele pensava nela, na conta (e ainda nem tinham encomendado o jantar), e onde poderia levá-la (se!), e nos frequentadores do Muldowny’s. Nossa! Aquele não era John Rector, comentarista do noticiário do canal 9, ali naquela mesa mais à frente, junto à parede de tijolos aparentes? Não! Ele não iria mencionar isso. Só havia espaço para uma celebridade ali — ele — o vencedor do violento Herbert 92X e do astuto Al Teskowitz. Gente jovem, gente de aparência elegante — o restaurante estava apinhado — perfeito —, não poderia ser melhor. Shelly Thomas, afinal, era grega. Um certo desapontamento. Tinha querido... não sabia bem o quê. Thomas era o sobrenome do padrasto; ele fabricava vasilhames de plástico na cidade de Long Island. O nome do pai verdadeiro era Choudras. Morava em Riverdale com o padrasto e a mãe, trabalhava para a Prischker & Bolka, não tinha dinheiro para um apartamento em Manhattan, e queria desesperadamente ter um — não era possível encontrar mais nenhum “cantinho em Manhattan” (não precisava dizer isso a ele)...
— ... o fato é que os júris do Bronx são muito imprevisíveis. Poderia lhe contar o que aconteceu com um dos rapazes do meu gabinete hoje de manhã no tribunal! — mas você provavelmente percebeu a que estou me referindo. Quero dizer, há pessoas que já chegam à bancada dos jurados com a cabeça... como posso dizer, com uma certa atitude. Há muitos de Nós contra Eles. Eles, sendo a polícia e a promotoria... mas você provavelmente sentiu um pouco isso.
— Não, na realidade não senti. Todos eram muito sensatos, e pareciam querer fazer o que era certo. Eu não sabia o que esperar, mas fui agradavelmente surpreendida.
“Será que pensa que tenho prevenção?”
— Não, não quero dizer... há muita gente boa no Bronx, só que há certas pessoas que assumem uma atitude agressiva, e aí acontecem coisas muito estranhas. — Vamos evitar esse terreno. — Considerando que estamos falando francamente, se importa se eu lhe disser uma coisa? Eu estava preocupado com você enquanto jurada.
— Comigo! — Ela sorriu e pareceu ruborizar a tal ponto que transpareceu através do colorido da maquiagem, deliciada por ter sido objeto de avaliação estratégica no Supremo Tribunal do Bronx.
— Isso mesmo! É verdade! Você entende, num julgamento criminal aprende-se a ver as coisas de uma perspectiva diferente. Talvez seja uma perspectiva deformada, mas essa é a natureza do animal. Num caso como esse... você era... bom, passava a imagem de ser inteligente demais, culta demais, distanciada demais do mundo de uma figura como Herbert 92X, e portanto... e aí reside a ironia... demasiado capaz de compreender os problemas dele, e como dizem os franceses: “Compreender tudo é tudo perdoar.”
— Bem, na verdade...
— Não estou dizendo que isso seja correto ou preciso, mas é assim que a pessoa aprende a encarar os dados em casos desse tipo. Não você... mas alguém como você... pode ser demasiado sensível.
— Mas você não me protestou. É esse o termo?
— É. Não, não protestei. Bom, primeiro, não acho direito protestar um jurado só porque ele é — ela é inteligente e culta. Quero dizer, tenho certeza de que reparou que não havia mais ninguém de Riverdale no seu júri. Nem mesmo havia alguém de Riverdale no painel durante a escolha. Todo mundo está sempre se queixando de que não conseguimos jurados mais instruídos no Bronx, e aí aparece um... bom, é quase um desperdício de recursos ou coisa parecida protestar alguém só porque se acha que talvez seja sensível. Além disso... — Teria coragem de tentar? Teve. — Eu... para ser honesto... eu queria que você estivesse naquele júri.
Ele fixou o olhar mais penetrante que pôde naqueles grandes olhos com arco-íris lilás e assumiu a expressão mais honesta e franca que conhecia, e ergueu o queixo, de modo que ela pudesse ver a perfeição de seus esternoclidomastóideos.
Ela baixou os olhos e tornou a enrubescer tanto, que o rubor permeou a maquiagem. Então ergueu os olhos e olhou bem no fundo dos olhos dele.
— Eu percebi que me olhava muito.
“Eu e todos os outros funcionários no tribunal!” — mas não era bom deixá-la saber disso.
— Percebeu? Tinha esperanças de que não fosse tão óbvio! Nossa, espero que outras pessoas não tenham notado.
— Ha, ha! Acho que notaram. Sabe a senhora que estava sentada ao meu lado, uma senhora negra? Era uma pessoa muito simpática. Trabalha para um ginecologista, é muito meiga, muito inteligente. Pedi o número do telefone dela e prometi telefonar. Não quer saber o que ela me disse?
— O quê?
— Disse: “Acho que o promotor distrital está a fim de você, Shelly.” Ela me chamava de Shelly. Nós nos dávamos muito bem. “Não consegue tirar os olhos de você.”
— Ela disse isso? — Ele começou a sorrir.
— Disse!
— Ficou aborrecida com isso? Quero dizer, ah nossa, não pensei que estivesse sendo tão óbvio!
— Não, ela achou graça. As mulheres gostam dessas coisas.
— Fui tão óbvio assim, hein?
— Para ela foi!
Kramer balançou a cabeça, como se estivesse encabulado, mantendo o tempo todo os olhos mergulhados nos dela, que retribuía o olhar. Já tinham transposto o fosso, e sem muito esforço. Ele sabia — sabia! — que podia escorregar as mãos pela mesa e segurar a ponta dos dedos dela, e ela deixaria, e tudo aconteceria sem que seus olhos se desviassem um do outro, mas se conteve. Estava tudo perfeito e indo bem demais para correr o menor risco.
Ele continuava a sacudir a cabeça e a sorrir... cada vez mais sugestivamente... Na realidade, estava preocupado, não com o fato de outros terem reparado na sua obsessão por ela no tribunal. Onde ir — era isso que o preocupava. Ela não tinha apartamento, e naturalmente não haveria jeito nesse mundo de Deus de levá-la para o seu formigueiro. Um hotel? — grosseiro demais, e além disso, com que dinheiro iria pagá-lo? Até um hotel de segunda cobrava quase cem dólares por quarto. Só Deus sabia quanto ia custar esse jantar. O menu tinha um ar despojado de manuscrito que disparava um alarme no sistema nervoso central de Kramer: dinheiro. Por alguma razão sabia, baseado em muito pouca experiência, que essa falsa displicência significava dinheiro.
Nesse momento, a garçonete voltou.
— Já decidiram?
Ela também era um perfeito doce. Jovem, loura, cabelos crespos, radiosos olhos azuis, o tipo perfeito da atriz aspirante, com covinhas e um sorriso que dizia: “Bom! Vejo que vocês dois já decidiram alguma coisa!” Ou talvez dissesse: “Sou jovem, bonita, encantadora, devo esperar uma generosa gorjeta quando pagarem a conta?”
Kramer examinou o seu rosto sorridente e em seguida examinou o da srta. Shelly Thomas. Consumia-se com sensações de desejo e pobreza.
— Bom, Shelly — disse —, já escolheu?
Era a primeira vez que a chamava pelo nome de batismo.
Sherman sentara-se na ponta de uma das cadeiras torneadas. Estava curvado, com as mãos entrelaçadas entre os joelhos e a cabeça baixa. O exemplar nocivo e incriminador de The City Light jazia sobre a mesa de base de carvalho, como algo radiativo. Maria estava sentada na outra cadeira, mais composta, mas não aparentava a despreocupação de sempre.
— Eu sabia — disse Sherman, sem a olhar. — Eu soube no momento em que aconteceu. Devíamos ter comunicado à polícia imediatamente. Não acredito que esteja..., não acredito que estejamos nesta situação.
— Bom, agora é tarde demais, Sherman. O caldo já entornou.
Ele se endireitou e a encarou.
— Talvez não seja tarde demais. O que se pode dizer é que não se sabia que se tinha atropelado alguém até ler os jornais.
— Ah, claro — respondeu Maria. — E como é que vou dizer que aconteceu, essa coisa que, para começar, eu nem sabia que tinha acontecido?
— Conte... Conte exatamente como aconteceu.
— Vai ser uma beleza. Os dois rapazes nos fizeram parar e tentaram nos assaltar, mas você atirou um pneu em um deles, e eu saí de lá como... um... corredor de carro envenenado, mas não sabia que tinha atropelado alguém.
— Bom, foi exatamente isso o que aconteceu, Maria.
— E quem vai acreditar nisso? Você leu a reportagem. Estão chamando aquele garoto de uma espécie de aluno brilhante, uma espécie de santo. Não falam nada do outro. Nem ao menos mencionam a rampa. Estão falando de um santinho que saiu para comprar comida para a família.
A possibilidade terrível tornou a lampejar. E se os dois garotos estivessem apenas tentando ajudar?
Ali estava Maria com uma malha de gola rulê que ressaltava seus seios perfeitos, mesmo naquele momento. Usava uma saia curta xadrez, as pernas sedosas estavam cruzadas, e um dos sapatos balançava na ponta do pé.
Atrás dela encontrava-se a cama, e acima da cama havia agora uma segunda pintura pequena a óleo, de uma mulher nua segurando um bichinho. As pinceladas eram tão barbaramente grosseiras, que não era possível identificar que bicho era aquele. Tanto podia ser um rato quanto um cachorro. A infelicidade fez seus olhos se demorarem nela por alguns instantes.
— Você notou — disse Maria, tentando sorrir. — Está melhorando. Foi Filippo quem me deu.
— Fantástico. — O problema das razões que levariam um artista seboso a se sentir tão generoso com relação a Maria já não interessava nem um pouco a Sherman. O mundo encolhera. — Então o que acha que devemos fazer?
— Acho que devemos respirar fundo dez vezes e nos descontrair. É o que acho.
— E depois?
— Depois, talvez nada. Sherman, se contarmos a eles a verdade, vão nos matar. Será que compreende? Vão nos cortar em pedacinhos. No momento não sabem de quem era o carro, não sabem quem estava dirigindo, não têm testemunhas, e o garoto está em coma e não parece que vá… que vá sair dele.
“Você é que estava dirigindo”, pensou Sherman. “Não se esqueça desse detalhe.” Tranquilizava-o ouvi-la dizer isso. Então uma pontada de medo: suponha que negasse e dissesse que ele é quem estava dirigindo? Mas o outro garoto sabia, onde quer que pudesse estar.
Só o que comentou, no entanto, foi:
— E o outro rapaz? Suponha que ele apareça.
— Se fosse aparecer, já teria aparecido a essa altura. Não vai aparecer, porque é um criminoso.
Sherman se curvou para a frente e tornou a baixar a cabeça. Descobriu-se olhando para a superfície reluzente dos sapatos New & Lingwood. A colossal futilidade de seus sapatos ingleses feitos à mão o enauseou. De que valia um homem... Não conseguia se lembrar da citação. Via a deplorável lua castanha no topo do crânio de Félix... Knoxville... Por que não se mudara para Knoxville há muito tempo?... uma casa simples georgiana com uma varanda telada de um lado...
— Não sei, Maria — disse sem erguer a cabeça. — Não acho que possamos adivinhar o que vão fazer. Acho que talvez devêssemos consultar um advogado... — dois advogados, sussurrou uma vozinha no fundo de sua cabeça, uma vez que não conheço essa mulher e talvez não fiquemos do mesmo lado para sempre... — e... contar o que sabemos.
— E meter a cabeça na boca do tigre, é o que quer dizer. — O sotaque sulista de Maria começava a dar nos nervos de Sherman. — Era eu quem estava dirigindo o carro, Sherman, e acho que cabe a mim decidir.
Era eu quem estava dirigindo o carro! Ela o dissera de viva voz. Seu ânimo melhorou um pouquinho.
— Não estou tentando convencê-la a fazer nada — disse. — Só estou pensando em voz alta.
A expressão de Maria se abrandou. Sorriu para ele de um jeito afetuoso, quase maternal.
— Sherman, deixe-me dizer uma coisa. Existem dois tipos de selva. Wall Street é uma selva. Já ouviu dizer isso, não ouviu? Você sabe como se cuidar naquela selva. — Uma brisa sulista soprava em seus ouvidos, mas era verdade, não era? Seu ânimo melhorou mais um pouco. — E existe o outro tipo de selva. Foi nesse que nos perdemos na outra noite, no Bronx. E você lutou, Sherman! Foi maravilhoso! — Ele teve que resistir para não se congratular com um sorriso. — Mas você não mora naquela selva, Sherman, e nunca morou. Sabe o que é que existe naquela selva? Pessoas que estão o tempo todo atravessando para lá e para cá, para lá e para cá, para lá e para cá, deste lado da lei para o outro lado, deste lado para o outro lado. Você não tem ideia do que seja isso. Você recebeu uma boa educação. As leis não representavam nenhuma ameaça para você. Elas eram as suas leis, Sherman, de gente como você e sua família. Bom, eu não fui criada assim. Estávamos sempre oscilando entre um lado da linha e o outro, como um bando de bêbados; conheço isso e a coisa não me assusta. E deixe-me dizer mais uma coisa. Do lado de lá todos são animais: a polícia, os juízes, os criminosos, todos.
Ela continuava a sorrir afetuosamente para ele, como uma mãe que revelou uma grande verdade para um filho. Pôs-se a imaginar se ela realmente sabia o que estava falando ou se estava apenas se deixando levar por um esnobismozinho sentimental às avessas.
— Então, que é que está querendo dizer? — perguntou ele.
— Estou querendo dizer que acho que deve confiar nos meus instintos.
Nesse momento, ouviu-se uma batida na porta.
— Quem é? — perguntou Sherman entrando em alerta vermelho.
— Não se preocupe — disse Maria. — É Germaine. Avisei que você estaria aqui. — Levantou-se e se encaminhou para a porta.
— Você não contou a ela o que aconteceu...
— Claro que não.
Abriu a porta. Mas não era Germaine. Era um homem gigantesco numa roupa exótica e preta. Entrou como se fosse o dono do apartamento, deu uma espiada pela sala, em Sherman, nas paredes, no teto, no chão e por último em Maria.
— Você é Germaine Boll — estava um pouco sem fôlego, aparentemente porque acabara de subir as escadas — ou Bowl?
Maria estava muda. E Sherman também. O gigante era jovem, branco, com uma barba negra e crespa, uma enorme cara vermelho-apoplexia, reluzindo de suor, um chapéu preto com aba absolutamente reta, um chapéu demasiado pequeno encarapitado no alto da cabeçorra como um brinquedo, uma camisa branca amarrotada e abotoada até o pescoço, mas sem gravata, um terno preto brilhante com paletó tipo jaquetão, com o lado direito transpassado sobre o esquerdo, como costumam ser os casacos das mulheres. Um judeu hasid. Sherman já vira muitos judeus hasidim no bairro de Diamond, que compreendia a 46th th e a 47 Street entre a Fifth e a Sixth Avenue, mas nunca vira um tão enorme. Tinha provavelmente mais de 1,90 metro pesava mais de 120 quilos, imensamente gordo, mas de físico musculoso, a pele amarelada estufada como um salsichão. Tirou o chapéu. O cabelo estava empastado no crânio. Bateu em um lado da cabeçorra com a palma da mão, como se quisesse fazê-la retomar a forma original. Então tornou a pôr o chapéu preto na cabeça. Estava encarapitado tão no alto, que parecia que ia cair a qualquer momento. O suor escorria de sua testa de gigante.
— Germaine Boll? Bowl? Buli?
— Não sou eu — disse Maria. Recuperara-se. Falou com impertinência, já no ataque. — Ela não está. Que quer aqui?
— A senhora mora aqui? — Para um homem tão grande, tinha uma voz estranhamente aguda.
— A srta. Boll não está no momento — disse Maria fingindo não ouvir a pergunta.
— A senhora mora aqui ou ela mora aqui?
— Olhe aqui, estamos meio ocupados. — Exagerando a paciência. — Por que não aparece mais tarde? — Desafiando: — Como foi que entrou neste prédio?
O gigante meteu a mão no bolso direito do paletó e tirou um enorme molho de chaves. Parecia haver dezenas delas. Correu o gordo indicador pelas chaves, parou ao tocar uma delas, e delicadamente a separou com o indicador e o polegar.
— Com isso. Imobiliária Winter. — Tinha um ligeiro sotaque judeu.
— Bom, terá que voltar mais tarde e falar com a srta. Boll.
O gigante nem se mexeu. Tornou a passar os olhos pelo apartamento.
— A senhora não mora aqui?
— Ouça aqui...
— Está bem, está bem. Vamos pintar isso aqui. — Dizendo isso o gigante abriu os braços, como asas, como se fosse dar um salto ornamental, caminhou até uma parede e parou diante dela. Então comprimiu a parede com a mão esquerda, deu uns passos para o lado, ergueu a mão esquerda e comprimiu o mesmo ponto com a mão direita, deu mais uns passos para a esquerda até voltar a abrir os braços na posição de voo de pássaro.
Maria olhou para Sherman. Ele sabia que iria ter que fazer alguma coisa, mas não conseguia imaginar o quê. Encaminhou-se para o gigante. No tom mais gélido e autoritário que conseguiu produzir, como o Leão da Dunning Sponget teria feito, perguntou:
— Um momento. O que está fazendo?
— Medindo — disse o gigante no seu voo de pássaro, deslizando ao longo da parede. — Temos que pintar isso aqui.
— Bom, sinto muito, mas não temos tempo para isso agora. Terá que tomar as suas providências uma outra hora.
O enorme rapaz virou-se lentamente e levou as mãos aos quadris. Inspirou profundamente, e pareceu ter inchado até chegar a uns 250 quilos. No rosto tinha um ar de quem é forçado a lidar com uma praga. Sherman teve a sensação esmorecedora de que esse monstro estava acostumado a tais confrontos e, na realidade, até os apreciava. Mas a batalha dos machos já estava em curso.
— Mora aqui? — perguntou o gigante.
— Eu disse que não temos tempo para isso agora — disse Sherman, tentando manter o tom calmo e autoritário do Leão. — Agora seja bonzinho, saia e volte para fazer suas pinturas uma outra hora.
— Mora aqui?
— Para ser exato, não moro, mas estou hospedado aqui e não...
— O senhor não mora aqui e ela também não. Que estão fazendo aqui?
— Não é da sua conta! — exclamou Sherman, incapaz de controlar a raiva, mas se sentindo cada vez mais desamparado. Apontou para a porta. — Agora seja bonzinho e saia!
— O senhor não é daqui, certo? Temos um problema sério — disse naquele seu sotaque. — Temos as pessoas erradas morando neste prédio. Este é um prédio de aluguel tabelado, e as pessoas dão as costas e alugam os apartamentos para outras por mil, dois mil dólares por mês. O aluguel deste apartamento é somente 331 dólares por mês. Entendem? Germaine Boll... mas nunca a encontramos aqui. Quanto é que pagam, hein?
Que insolência! A batalha dos machos! Que poderia fazer? Na maioria das situações, Sherman se sentia um grande homem, fisicamente. Ao lado dessa criatura exótica... Nem tinha possibilidade de tocá-lo. Não poderia intimidá-lo. As ordens peremptórias do Leão não surtiram efeito. E por baixo de tudo isso as próprias bases estavam abaladas. Encontrava-se em completa desvantagem moral. Não era dali... e tinha o mundo a esconder. E se o monstro inacreditável não fosse realmente da Companhia Imobiliária Winter? Suponha...
Felizmente Maria interveio.
— Acontece que a srta. Boll vai chegar daqui a pouco. Nesse meio-tempo...
— Está bem! Ótimo! Vou esperar por ela.
O gigante começou a caminhar pela sala como um druida balouçante. Parou à mesa de base de carvalho e, com gloriosa displicência, afundou seu tremendo peso em uma das cadeiras torneadas. — Muito bem! — disse Maria. — Agora chega!
A resposta que o gigante deu a isso foi cruzar os braços, fechar os olhos e se recostar, como se estivesse se acomodando para esperar. Naquele instante, Sherman percebeu que realmente teria que fazer alguma coisa, o que quer que fosse, ou então ser despojado de toda a sua macheza. A batalha dos machos! Começou a avançar.
Treeeqqquuueee! Inesperadamente, o monstro estava no chão, caído de costas, e a pala dura do chapéu estava rolando loucamente pelo tapete. Uma das pernas da cadeira partira-se quase em duas, junto ao assento, fazendo aparecer a madeira clara sob o verniz exterior. A cadeira desabara sob o seu peso.
Maria gritava:
— Agora veja o que fez, seu pica-pau! Seu porcalhão! Sua barrica de banha!
Com muitos bufos e resmungos, o gigante se endireitou e começou a se pôr de pé com dificuldade. Sua pose insolente se esfrangalhara. Seu rosto estava vermelho, e o suor recomeçava a escorrer. Abaixou-se para apanhar o chapéu e quase perdeu o equilíbrio.
Maria continuou a atacar. Apontou para os restos da cadeira.
— Espero que perceba que vai ter de pagar por isso!
— Que quer... que quer... — disse o gigante. — Isso não é seu! — Mas estava recuando. A censura de Maria e o próprio constrangimento eram demais para ele.
— Isso vai lhe custar quinhentos dólares e uma... e uma ação na justiça! — disse Maria. — Isso é invasão e destruição e destruição e invasão.
O gigante parou à porta e fez cara feia, mas era demais para ele. Saiu cambaleando pela porta, completamente atordoado.
Assim que o ouviu descer pesadamente a escada, Maria fechou a porta e passou a chave. Virou-se, olhou para Sherman e deu uma gostosa gargalhada.
— Você... viu... como... ficou... caído... no... chão! — Ria tanto que mal conseguia falar.
Sherman a observava. Era verdade, a moça tinha razão. Eles eram animais de espécies diferentes. Maria tinha estômago para... para o que quer que lhes acontecesse. Lutava... com prazer! A Vida era uma batalha naquela linha que mencionara, e daí? Ele queria rir. Queria partilhar de sua alegria animal com a cena absurda que tinham acabado de presenciar. Mas não conseguia. Não conseguia nem sorrir. Sentia como se o próprio isolamento de sua posição no mundo estivesse se esgarçando. Essas... pessoas inacreditáveis... podiam agora penetrar em sua vida.
— Tibuuummm! — exclamou Maria chorando de rir. — Puxa vida, queria ter um videoteipe dessa cena! — Então percebeu a expressão no rosto de Sherman. — O que houve?
— O que é que você acha que ele queria?
— O que quer dizer com “ele queria”?
— Que acha que ele estava fazendo aqui?
— O proprietário o mandou aqui. Lembra daquela carta que lhe mostrei?
— Mas não é meio estranho que...
— Germaine paga só 331 dólares por mês, e eu pago a ela 750 dólares. O aluguel é tabelado. Adorariam pô-la para fora daqui.
— Não lhe parece curioso que tenham decidido entrar aqui... logo agora?
— Logo agora?
— Bom, talvez eu esteja maluco, mas hoje... depois disso que saiu no jornal?
— No jornal? — Então começou a compreender o que ele estava dizendo e se abriu num sorriso.
— Sherman, você é maluco. É paranoico. Sabe disso?
— Talvez seja. Só que me parece uma estranha coincidência.
— Quem você acha que o mandou aqui senão o senhorio? A polícia?
— Bom... — Percebendo que parecia mesmo muita paranoia, ele deu um sorriso frouxo.
— A polícia ia mandar um hasid colossal, um retardado balofo e lunático para espionar você?
Sherman deixou cair o poderoso queixo Yale no colarinho.
— Tem razão.
Maria se aproximou e levantou o queixo dele com o indicador, olhou-o nos olhos e sorriu, o sorriso mais amoroso que já vira na vida.
— Sherman. — Chââmân. — O mundo inteiro não está parado pensando em você. O mundo inteiro não está a fim de pegar você. Só eu estou.
Ela tomou o rosto nas duas mãos e o beijou. Terminaram na cama, mas desta vez ele precisou se esforçar. Não era a mesma coisa quando se estava meio morto de medo.
2 “Lamb”, em inglês, significa “carneiro”. (N. do E.)
3 “Kid”, no original inglês. (N. do E.)