A Fogueira das Vaidades
Capítulo 20
20
CHAMADAS DAS ALTURAS
Gene Lopwitz não recebia visitantes à escrivaninha. Convidava-os a sentar a um grupo de enormes bergères inglesas estilo Chippendale e mesinhas Chippendale irlandesas diante da lareira. As peças Chippendale, bem como os outros grupos de móveis na ampla sala, eram criações de Ronald Vine, o decorador. Mas a lareira era de Lopwitz. A lareira funcionava. Os serventes da sala de operação de obrigações, que eram como velhos guardas bancários, podiam realmente acender um fogo de lenha nela — fato que dera ensejo a algumas semanas de caçoadas dos cínicos como Rawlie.
Como toda boa torre moderna de escritórios, o edifício não tinha dutos que resolvessem o problema da fumaça de lareiras. Mas Lopwitz, depois de um ano de estupendo sucesso, estava decidido a ter uma lareira que funcionasse, com um console de madeira entalhada em sua sala. E por quê? Porque Lorde Upland, dono do Daily Courier, possuía uma. O austero par do reino tinha oferecido um almoço a Lopwitz em seu grupo de salas em um imponente prédio de velhos tijolos aparentes na Fleet Street, na esperança de que ele vendesse um lote de ações “criativamente estruturadas” do Daily Courier para os ianques. Lopwitz nunca mais se esquecera do copeiro que entrava de tempos em tempos para pôr mais uma acha no fogo de cheiro agradável e acre da lareira. Era tão... como se poderia dizer?... tão baronial, era isso. Lopwitz se sentira como um garotinho sortudo convidado à casa de um grandç homem.
Um lar. Essa era a ideia. Os ingleses, com aquele inequívoco instinto de classe que possuíam, sabiam que se um homem ocupava uma posição de destaque nos negócios, não devia ter um escritório padrão, que fazia a pessoa parecer uma peça intercambiável de um grande mecanismo. Não, a pessoa devia ter um escritório que lembrasse a casa de um aristocrata, como se declarasse: “Eu, em pessoa, sou o senhor, o criador e o dono desta grande organização.” Lopwitz acabara entrando numa tremenda briga com os proprietários da torre, a companhia administradora, o Departamento de Edificações, o Departamento de Incêndios, e a construção dos dutos e das saídas de fumaça custara 350 mil dólares, mas ele finalmente conseguira o que queria, e Sherman McCoy agora observava pensativo a boca da lareira baronial, cinquenta andares acima da Wall Street, ao lado da sala de operação de obrigações da Pierce & Pierce. Não havia fogo na lareira, porém. Há muito tempo que não era acesa.
Sherman sentia uma vibração elétrica, uma taquicardia no peito. Lopwitz e ele, os dois, estavam sentados nas monstruosas bergères Chippendale. Lopwitz não era muito bom em conversa trivial, mesmo nas ocasiões festivas, e essa reuniãozinha ia ser lúgubre. A lareira... os micuins... Droga... Bom, qualquer coisa era melhor do que parecer um cachorro que apanhou. Por isso, Sherman se aprumou na cadeira, ergueu o famoso queixo e até conseguiu olhar ligeiramente por cima para o dono e senhor dessa poderosa organização.
— Sherman — disse Gene Lopwitz —, não vou usar de rodeios com você. Respeito-o demais para isso.
A vibração elétrica no peito! Os pensamentos de Sherman galopavam no mesmo ritmo do coração, e ele se viu imaginando, ociosamente, se Lopwitz saberia ou não de onde vinha a frase “usar de rodeios”. Provavelmente não.
— Tive uma longa conversa com Arnold na sexta-feira — estava dizendo Lopwitz. — Agora, o que vou lhe dizer... quero deixar uma coisa clara, não é o dinheiro, ou melhor, não é o dinheiro que se perdeu... não é essa a questão. — Essa expedição em terreno psicológico fez as bochechas já caídas de Lopwitz murcharem em rugas de perplexidade. Ele era um fanático da corrida (o tipo que corre às 5 horas da manhã). Tinha o aspecto descarnado e assombrado daqueles que diariamente contemplam as entranhas ossudas do grande deus Aeróbico.
Agora estava entrando no caso Oscar Suder e nas obrigações da United Fragrance, e Sherman sabia que devia prestar muita atenção. Obrigações da United Fragrance... Oscar Suder... e pensou em The City Light. Que queria dizer com “às vésperas de uma grande revelação no caso Henry Lamb”? A reportagem desse tal de Fallow era intrigantemente vaga, exceto no detalhe de que a “revelação” fora disparada pela reportagem de The City Light sobre os possíveis números da placa de licença. “Disparada!” Essa era a palavra que usaram! De alguma forma aquela palavra tinha iniciado a taquicardia quando se sentara escondido no banheiro. Nenhum dos outros jornais publicava nada parecido.
Agora Lopwitz discorria sobre a questão de sua ausência no dia em que ocorrera o grande lançamento de obrigações. Sherman via as mãos afetadas de Freddy Button esvoaçando em torno da cigarreira. Os lábios de Gene Lopwitz se mexiam. O telefone na mesinha Chippendale irlandesa ao lado da bergère de Lopwitz tocou com um discreto borbulhar. Lopwitz atendeu, dizendo:
— Sim?... Bem, ótimo. Ele ainda está na linha?
Inexplicavelmente, Lopwitz agora sorria para Sherman e dizia:
— Só vou demorar um segundo. Dei a Bobby Shaflett uma carona no avião para ele poder atender a um compromisso em Vancouver. Eles estão em Wisconsin ou Dakota do Sul ou num lugar desses.
Lopwitz então baixou os olhos, recostou-se na bergère e sorriu de prazer prevendo a conversa com o famoso Caipira de Ouro, cujos moles contornos e voz de tenor estavam agora acomodados no seu jatinho de oito lugares, equipado com motores Rolls-Royce. A rigor, o avião era da Pierce & Pierce, mas, para todas as finalidades práticas, era de Lopwitz, pessoalmente, baronialmente. Lopwitz baixou a cabeça, e uma grande animação surgiu em seu rosto, e ele disse:
— Bobby? Bobby? Está me ouvindo?... O que foi? Como estão as coisas?... Estão tratando bem de você aí em cima?... Quê?... Alô? Alô?... Bobby? Você ainda está aí? Alô? Está me ouvindo? Bobby?
Ainda segurando o telefone, Lopwitz olhou para Sherman com o cenho franzido, como se ele tivesse acabado de fazer algo muito pior do que se deixar embrulhar na transação da United Fragrance ou sair sem permissão.
— Merda! — exclamou. — Caiu a ligação. — Desligou o telefone. — Srta. Bayles?... A linha caiu. Veja se consegue se comunicar com o avião outra vez.
Ele desligou e pareceu infeliz. Perdera a oportunidade de ouvir o grande artista, a grande bola de gordura e fama, agradecer-lhe, e, portanto, prestar tributo à eminência de Lopwitz da altura de 12 mil metros, sobrevoando o coração dos Estados Unidos.
— Muito bem, onde estávamos? — perguntou Lopwitz, parecendo mais zangado do que Sherman jamais o vira. — Ah, sim, as Giscards. — Lopwitz começou a balançar a cabeça, como se algo verdadeiramente terrível tivesse ocorrido, e Sherman preparou-se, porque a debacle das obrigações garantidas em ouro era a parte pior. No instante seguinte, porém, Sherman teve a estranha sensação de que na realidade Lopwitz estava sacudindo a cabeça por causa da ligação interrompida.
O telefone tornou a tocar. Lopwitz agarrou-o.
— Sim?... A ligação para o avião?... Como?... Bem, está bem, complete a ligação.
Desta vez Lopwitz olhou para Sherman e sacudiu a cabeça de frustração e espanto, como se Sherman fosse um amigo compreensivo.
— É Ronald Vine. Chamando da Inglaterra. Está em Wiltshire. Encontrou painéis de dobras de linho para mim. São seis horas de diferença de lá para cá, de modo que tenho que atender.
Sua voz pedia compreensão e perdão. “Painéis de dobras de linho?” Sherman só conseguia olhar. Mas aparentemente receoso de que ele pudesse dizer alguma coisa numa conjuntura crítica dessas, Lopwitz ergueu um dedo e fechou os olhos um instante.
— Ronald? De onde está ligando?... Foi o que pensei... Não, conheço muito bem... Que quer dizer com “eles não querem vender”?
Lopwitz mergulhou em uma intensa discussão com o decorador, Ronald Vine, sobre algum impedimento à compra dos painéis de dobras de linho em Wiltshire. Sherman voltou a observar a lareira... Os micuins... Lopwitz só usara a lareira uns dois meses e depois nunca mais. Um dia, sentado à escrivaninha, fora acometido de uma sensação de intensa comichão e ardência na parte de baixo da nádega esquerda. Tinha bolhas vermelhas e ardidas... “Mordidas de micuins”... A única dedução plausível é que de algum modo os micuins tinham conseguido chegar ao quinquagésimo andar, ao poderoso andar da Pierce & Pierce, em um carregamento de lenha para a lareira e tinham mordido o traseiro do barão. Nos cães de lareira de latão, nesse momento, havia uma pilha de toras de madeira de lei de New Hampshire, cuidadosamente selecionadas, esculturalmente perfeitas, completamente limpas, absolutamente desinfetadas, pulverizadas com inseticida suficiente para fazer desaparecer de um bananal tudo o que se mexesse, permanentemente arrumadas, para nunca serem usadas.
A voz de Lopwitz se elevou:
— Que quer dizer com eles não vendem para “comércio”?... Sei, sei que disseram isso para você, mas eles sabem que está comprando para mim. Por que estão falando em “comércio”?... Hummm-hummm... Sei, bom, diga-lhes que tenho uma palavrinha para eles. Trayf... Deixe-os descobrir sozinhos. Se eu sou “comerciante” eles são trayf... O que significa? Significa algo como “impróprio para consumo”, só que pior do que isso. Em bom vernáculo acho que a palavra é “merda”. Há um ditado antigo “Quando se olha bem de perto, vê-se que tudo é merda”, e isso é válido também para esses aristocratas carcomidos, Ronald. Diga-lhes para pegarem os seus painéis de dobras de linho e darem o fora.
Lopwitz desligou e olhou para Sherman irritadíssimo.
— Muito bem, Sherman, vamos ilustrar os fatos. — Falava como se Sherman tivesse estado a remanchar, a discutir, a fugir, a embrulhá-lo, e de um modo geral tentado enlouquecê-lo. — Não consigo imaginar o que aconteceu com as Giscards... Deixe-me perguntar uma coisa. — Ele enviesou a cabeça e assumiu uma expressão que dizia: “Sou um arguto observador da natureza humana.”
— Não estou querendo ser indiscreto — acrescentou —, mas quero que me responda assim mesmo. Você está com problemas em casa ou alguma coisa do gênero?
Por um momento Sherman brincou com a ideia de apelar, de homem para homem, para a piedade dele e revelar um tantinho de sua infidelidade. Mas um sexto sentido lhe disse que “problemas em casa” só despertariam em Lopwitz o seu desprezo e seu apetite para as fofocas, que parecia ser desmesurado. Por isso sacudiu a cabeça e sorriu ligeiramente, para indicar que a pergunta nem mesmo o preocupava, e disse:
— Não, de modo algum.
— Bom, então está precisando de umas férias ou algo assim?
Sherman não soube o que responder a isso. Mas animou-se. Pelo menos não parecia que Lopwitz estivesse prestes a despedi-lo. De fato, não precisou responder nada, porque o telefone tornou a tocar. Lopwitz ergueu o fone, embora não tão avidamente dessa vez.
— Sim?... Como é, srta. Bayles?... Sherman? — Um grande suspiro. — Bem, ele está aqui, sim.
Lopwitz olhou de um jeito esquisito para Sherman. — Parece que é para você. — Estendeu o fone.
Muito estranho. Sherman levantou-se, apanhou o fone e ficou de pé junto à cadeira de Lopwitz.
— Alô?
— Sr. McCoy? — Era a srta. Bayles, secretária de Lopwitz. — Há um sr. Killian na linha. Diz que é “imperativo” falar com o senhor. O senhor quer falar com ele?
Sherman sentiu um soco de palpitação no peito. Então seu coração entrou numa taquicardia firme e galopante.
— Quero. Muito obrigado.
Uma voz disse:
— Sherman? — Era Killian. Ele nunca o chamara pelo nome de batismo antes. — Tinha que me comunicar com você.
— Estou na sala de Lopwitz — disse Sherman num tom formal.
— Sei disso — respondeu Killian. — Mas tinha que garantir que você não saísse do edifício ou fizesse qualquer outra coisa antes de eu falar com você. Acabei de receber um telefonema de Bernie Fitzgibbon. Eles dizem que têm uma testemunha que pode... entregar as pessoas que estavam na cena. Está entendendo?
— Entregar?
— Identificá-las.
— Compreendo... Deixe-me ligar para você quando estiver de volta à minha escrivaninha. — Composto.
— Tudo bem, estou no meu escritório, mas tenho que sair para o tribunal. Não demore. Tem uma coisa muito importante que você precisa saber. Vão querer vê-lo, oficialmente, amanhã. Oficialmente, certo? Ligue-me de volta imediatamente. — Pela maneira como Killian disse esse “oficialmente”, Sherman percebeu que era um código, caso alguém no escritório de Lopwitz tivesse acesso à conversa.
— Está bem — disse. Composto. — Muito obrigado. — Pousou o fone de volta no gancho sobre a mesa Chippendale irlandesa e tornou a sentar-se na bergère, aturdido.
Lopwitz continuou a falar como se não tivesse havido nenhum telefonema.
— Como já lhe disse, Sherman, a questão não é você ter perdido o dinheiro da Pierce & Pierce. Não é a isso que estou me referindo. As Giscards foram sua ideia. Era uma grande estratégia, e foi você quem a imaginou. Mas, quero dizer, droga, você a preparou durante quatro meses, e você é o nosso vendedor de obrigações número um. Por isso não é pelo dinheiro que perdeu, é que aí está você, um cara que se supõe que funcione o melhor possível lá nas operações, e agora estamos numa situação em que temos toda essa série de coisas de que estive lhe falando...
Lopwitz parou de falar e o encarou perplexo, quando Sherman, sem dizer palavra, levantou-se. Sherman sabia o que estava fazendo, mas ao mesmo tempo parecia não ter controle sobre o que fazia. Ele não podia simplesmente levantar-se e deixar Gene Lopwitz falando no meio de uma conversa crucial sobre o seu desempenho na Pierce & Pierce, contudo não podia continuar ali sentado nem mais um segundo.
— Gene — disse —, você vai ter que me dar licença. Preciso sair. — Ouvia a própria voz como se ela viesse de fora. — Sinto muito, mas realmente tenho que sair.
Lopwitz permaneceu sentado, olhando, como se ele tivesse enlouquecido.
— Aquele telefonema — disse Sherman. — Sinto muito.
Começou a se retirar da sala. Pela visão periférica estava consciente de que Lopwitz o acompanhava com os olhos.
No andar da sala de operação de obrigações, a loucura matinal atingira o auge. Ao se encaminhar para a escrivaninha, Sherman se sentiu como se flutuasse num delírio.
— ... outubro 1992 a cem dólares...
— ... eu disse para vender as merdas!
Ahhhhh, as migalhas de ouro... Como pareciam sem sentido...
Quando Sherman se sentou à escrivaninha, Arguello se aproximou e perguntou:
— Sherman, você sabe alguma coisa sobre os 10 milhões de Joshua Tree?
Sherman fez-lhe sinal para que recuasse, da forma como se avisa a alguém para se afastar de um incêndio ou da beira de um precipício. Ele reparou que o seu dedo indicador tremia ao digitar o número de Killian no telefone. A recepcionista atendeu, e mentalmente Sherman visualizou a claridade escaldante da sala de recepção no prédio velho da Reade Street. Em um instante, Killian estava na linha.
— Está em um lugar de onde possa falar?
— Estou. Que quis dizer com eles querem me ver oficialmente?
— Querem intimá-lo. É aético, é desnecessário, é uma imbecilidade, mas é o que querem fazer.
— Intimar? — Só em dizê-lo teve a pavorosa sensação de que sabia o que Killian queria dizer. A pergunta foi uma prece involuntária, vinda de seu próprio sistema nervoso central, de que estivesse enganado.
— Vão prendê-lo. É um absurdo. Deviam apresentar o que descobriram diante de um júri, conseguir um indiciamento, e então proceder à leitura do libelo perante o acusado. Bernie sabe disso, mas Weiss precisa fazer uma prisão rapidamente para tirar a imprensa das costas dele.
A garganta de Sherman secou com o “prendê-lo”. O restante foram apenas palavras.
— Prender? — Um lamento.
— Weiss é uma besta — disse Killian —, e uma puta quando se trata da imprensa.
— Prender, você não pode estar falando sério. — Por favor, não deixe que isso seja verdade. — Que é que podem... de que é que estão me acusando?
— Direção perigosa, abandono da cena de um acidente e omissão em comunicá-lo.
— Não posso acreditar. — Por favor, faça com que isso não seja real. — Direção perigosa? Mas pelo que você falou... quero dizer, como é que podem? Eu nem estava ao volante!
— Não pelo que diz a testemunha deles. Bernie disse que a testemunha apontou a sua foto em meio a uma série de outras.
— Mas eu não estava dirigindo!
— Só estou repetindo o que Bernie me disse. Ele afirma que a testemunha também sabia a cor e o modelo do seu carro.
Sherman tomou consciência de sua respiração acelerada e do ruído da sala de operação de obrigações.
Killian perguntou:
— Você está aí?
Sherman, rouco:
— Estou... quem é a testemunha?
— Isso ele não quis me dizer.
— É o outro rapaz?
— Ele não quis informar.
— Ou — Cristo! — Maria?
— Ele não vai me dizer isso.
— Ele falou alguma coisa de uma mulher no carro?
— Não. Vão guardar os detalhes em segredo, por ora. Mas, olhe, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Isso não vai ser tão ruim quanto pensa. Tenho um compromisso com Bernie. Posso levá-lo lá e entregá-lo pessoalmente. Você vai entrar e sair. Pingue-pongue.
Entrar e sair de quê? Mas o que disse foi:
— Entregar-me?
— É. Se quisessem, poderiam vir até a cidade, prendê-lo e levá-lo para lá algemado.
— Lá onde?
— No Bronx. Mas isso não vai acontecer. Tenho um compromisso com Bernie. E quando chegarem a liberar a informação para a imprensa você já estará fora de lá. Pode agradecer por isso.
A imprensa... o Bronx... apresentar... direção perigosa... uma abstração grotesca atrás da outra. Repentinamente sentiu-se desesperado para visualizar o que estava para acontecer, não importava o que fosse, em vez de simplesmente sentir aquela força terrível prestes a se abater sobre ele.
Killian perguntou:
— Você está aí?
— Estou.
— Pode agradecer a Bernie Fitzgibbon. Lembra-se do que andei lhe dizendo sobre contratos? Isso é um contrato, entre mim e Bernie.
— Olhe — disse Sherman —, preciso passar aí e conversar com você.
— Tenho que ir ao tribunal, e agora. Já estou atrasado. Mas devo terminar lá pelas 13 horas. Venha em torno dessa hora. Provavelmente vai precisar de algum tempo.
Dessa vez Sherman entendeu exatamente o que Killian estava dizendo.
— Deus do céu! — exclamou numa voz rouca. — Tenho que falar com minha mulher. Ela não tem a menor ideia disso tudo. — Falava para si tanto quanto para Killian. — E minha filha e meus pais... e Lopwitz... Não sei... Nem sei lhe dizer: isso é absolutamente inacreditável.
— É como se o chão lhe fugisse debaixo dos pés, certo? Isso é a coisa mais normal do mundo. Você não é um criminoso. Mas não vai ser tão ruim quanto pensa. Isso não significa que tenham um caso. Apenas significa que acham que têm suficiente evidência para agir. Por isso vou lhe dizer uma coisa. Ou vou repetir uma coisa que já disse. Você vai precisar contar a algumas pessoas o que está acontecendo, mas não entre em detalhes sobre o que ocorreu naquela noite. Sua mulher... bom, o que disser a ela, isso é entre vocês dois, e não posso orientá-lo. Mas com qualquer outra pessoa... não entre em detalhes. Podem ser usados contra você.
Uma onda muito triste de sentimentos envolveu Sherman. Que poderia dizer a Campbell? E quanto iria depreender do que outras pessoas diriam dele? Seis anos de idade, tão inocente, uma menininha que adora flores e coelhinhos.
— Compreendo — disse com uma voz absolutamente deprimida. Como Campbell poderia deixar de ser esmagada por isso tudo?
Depois de se despedir de Killian, ficou sentado à escrivaninha e deixou que as letras e números verde-diodo nas telas do computador deslizassem diante de seus olhos. Logicamente, intelectualmente, sabia que Campbell, sua filhinha, seria a primeira pessoa a acreditar nele totalmente e a última a perder a fé, contudo não adiantava tentar pensar lógica e intelectualmente nisso. Via seu rostinho meigo e exótico.
Sua preocupação com Campbell produziu ao menos um efeito favorável. Ofuscou a primeira de suas tarefas difíceis, que era voltar e falar com Eugene Lopwitz.
Quando apareceu de novo no escritório de Lopwitz, a srta. Bayles lançou-lhe um olhar preocupado. Obviamente Lopwitz contara-lhe que ele saíra da sala como um doido. Ela o conduziu a uma bombástica cadeira francesa e ficou de olho nele durante os quinze minutos em que o manteve esperando até Lopwitz mandá-lo entrar de novo.
Lopwitz estava em pé quando Sherman entrou na sala e não lhe ofereceu uma cadeira. Em vez disso, interceptou-o no meio do imenso tapete oriental que havia no escritório, como se dissesse: “Muito bem, eu o deixei voltar. Mas seja rápido.”
Sherman ergueu o queixo e procurou parecer digno. Mas se sentia tonto só de pensar no que estava prestes a revelar, prestes a confessar.
— Gene — disse —, não foi minha intenção me retirar daqui tão bruscamente, mas não tive outra escolha. Aquele telefonema que recebi quando estávamos conversando. Você me perguntou se eu tinha algum problema. Bem, a questão é que tenho. Vou ser preso pela manhã.
A princípio Lopwitz apenas ficou olhando para ele. Sherman reparou como as pálpebras dele eram espessas e enrugadas. Então disse:
— Vamos sentar ali — e indicou o grupo de bergères.
Sentaram-se mais uma vez. Sherman sentiu uma pontada de rancor contra a expressão absorta no rosto de morcego de Lopwitz, que tinha a palavra voyeur estampada de um canto ao outro. Então contou-lhe o caso Lamb conforme a primeira versão que aparecera na imprensa e a visita dos dois detetives à sua casa, embora sem os detalhes humilhantes. O tempo todo observava o rosto extasiado de Lopwitz e sentiu a exaltação enauseante do libertino incorrigível que troca dinheiro honesto por desonesto e uma vida honesta por uma sórdida. A tentação de contar tudo, de ser realmente devasso, de falar das nádegas moldáveis e doces de Maria Ruskin, da luta na selva e da vitória contra os dois brutos, dizer a Lopwitz que o que quer que tivesse feito, fizera-o como um homem — e que como homem ele fora impecável — e mais do que impecável, talvez até heroico — à tentação de desnudar todo o drama — “no qual não me portei como um vilão” — foi quase impossível de resistir. Mas controlou-se.
— Foi o meu advogado quem ligou quando eu estava aqui, Gene, e ele diz que por ora não devo entrar em detalhes sobre o que aconteceu ou não aconteceu com ninguém, mas quero que você saiba uma coisa, principalmente porque não sei o que vão dizer na imprensa sobre tudo isso. É que não atropelei ninguém com o meu carro, nem dirigi irresponsavelmente, nem fiz nada de que não tenha a consciência tranquila.
Assim que disse “consciência” percebeu que todo indivíduo culpado fala de sua consciência tranquila.
— Quem é o seu advogado? — perguntou Lopwitz.
— O nome dele é Thomas Killian.
— Não o conheço. Você devia contratar Roy Branner. É o maior advogado de Nova York. Fabuloso. Se eu algum dia estivesse em apuros, contrataria Roy. Se você quiser, ligo para ele.
Aturdido, Sherman escutou Lopwitz discorrer sobre a capacidade do fabuloso Roy Branner, os casos que tinha ganho, como o conhecera, como eram amigos, como as esposas se conheciam, e quanto Roy faria por ele, se ele, Gene, pedisse.
Então esse era o instinto primordial em Lopwitz ao saber da crise na vida de Sherman: mostrar que estava por dentro, as pessoas importantes que conhecia e o domínio que ele, o barão magnético, exercia sobre gente importante. O segundo instinto era de ordem mais prática. Foi estimulado pela palavra “imprensa”. Lopwitz propunha, de uma maneira que não admitia discussão, que Sherman tirasse uma licença até esse caso lamentável ser resolvido.
Essa sugestão perfeitamente razoável, feita em voz calma, disparou um alarme nos centros nervosos de Sherman. Se tirasse uma licença, poderia — não estava inteiramente certo —, poderia ainda receber o salário-base de 10 mil dólares por mês, que era menos da metade do que precisava pagar mensalmente pelo empréstimo. Mas não receberia mais sua parte nas comissões e na divisão de lucros das operações de obrigações. Para todas as finalidades práticas, não teria mais renda.
O telefone na mesinha Chippendale irlandesa de Lopwitz tocou seu arrulho. Lopwitz apanhou o fone.
— Sim?... É mesmo? — Grande sorriso. — Maravilhoso... Alô?... Alô... Bobby? Está me ouvindo bem? — Olhou para Sherman, brindou-o com um sorriso descontraído e encheu a boca com o nome do homem, “Bobby Shaflett”. Então baixou os olhos e se concentrou no telefonema. Seu rosto estava vincado e enrugado da mais pura alegria. — Você diz que está bem?... Maravilhoso! É um prazer para mim. Deram-lhe alguma coisa para comer, presumo... Ótimo, ótimo. Agora, ouça. Se precisar de algo, é só pedir. Eles são bons rapazes. Sabe que os dois voaram no Vietnã...? Claro. São incríveis. Se quiser uma bebida ou qualquer outra coisa é só pedir a eles. Tenho um Armagnac 1934 a bordo. Acho que está guardado aí atrás. Pergunte ao mais baixo, Tony. Ele sabe onde está... Bom, quando você voltar hoje à noite, então. É excelente. Foi o melhor ano da produção do Armagnac, 1934. É muito suave. Vai ajudá-lo a se descontrair... Então está tudo certo, hum?... Ótimo. Bem... Como?... De modo algum, Bobby. É um prazer, é um prazer.
Quando desligou, não poderia parecer mais contente. O mais famoso cantor de ópera dos Estados Unidos estava em seu avião, pegando uma carona para Vancouver, Canadá, com os dois ex-capitães da força aérea americana, empregados de Lopwitz, veteranos da guerra do Vietnã, bancando os motoristas e copeiros, servindo-lhe Armagnac com mais de meio século de idade, a 1.200 dólares por garrafa, e agora esse maravilhoso e famoso gordo estava lhe agradecendo, apresentando cumprimentos, a 12 mil metros de altitude, sobrevoando o estado de Montana.
Sherman olhou para o rosto sorridente de Lopwitz e ficou assustado. Lopwitz não estava zangado com ele. Não estava perturbado. Não estava nem desapontado. Não, a sorte de Sherman McCoy “não fazia diferença alguma”. A vida de Lopwitz, uma reprodução inglesa, sobreviveria aos problemas de Sherman McCoy, a Pierce & Pierce sobreviveria também. Todos se divertiriam com a história picante por algum tempo, e as obrigações continuariam a ser vendidas em grandes quantidades, e o novo operador de obrigações número um — quem? — Rawlie? ou outro? — se apresentaria na sala de reuniões de Lopwitz, ao estilo de uma casa de chá elegante, para discutir a transferência dos bilhões da Pierce & Pierce dessa área do mercado para aquela. Mais um telefonema ar-terra de uma outra gorda celebridade, e Lopwitz nem ao menos lembraria quem Sherman era.
— Bobby Shaflett — disse Lopwitz, como se ele e Sherman estivessem sentados tomando um drinque antes do jantar. — Ele estava em Montana quando telefonou. — Balançou a cabeça e deu uma risadinha como se dissesse: “Um cara incrível.”