A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 32 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 31

31

NO PLEXO SOLAR

 

Fazia um dia ensolarado dessa vez, um dia perfumado de junho. O ar estava tão leve que parecia puro e refrescante, mesmo ali no Bronx. Em suma, um dia perfeito; Sherman não gostou. Considerou isso uma ofensa pessoal. Que crueldade! Como é que a Natureza, o Destino — Deus — podiam imaginar uma produção tão sublime para a sua hora de aflição? Crueldade de todos os lados. Um espasmo de medo desceu até o finzinho do seu cólon descendente.

Encontrava-se no banco traseiro de um Buick com Killian. Ed Quigley sentava-se no banco dianteiro, junto ao motorista, que tinha a pele escura, abundantes cabelos negros e lisos e feições finas, exóticas, quase bonitas. Asiático? Desceram a rampa da rodovia logo depois da concha do Yankee Stadium, e um grande cartaz anunciava: HOJE À NOITE 19H YANKEES X KANSAS CITY. Que crueldade! De qualquer forma dezenas de milhares de pessoas viriam a esse lugar essa noite — para beber cerveja e ver uma bola branca saltar e quicar durante duas horas —, e ele estaria novamente lá dentro, numa escuridão que nem conseguia imaginar. E iria começar. Os pobres coitados! Não sabiam como era a realidade! Dezenas de milhares deles no Yankee Stadium, assistindo a um jogo, uma mera charada de guerra enquanto ele estaria na guerra. E iria começar... a violência física elementar...

Agora o Buick estava subindo a longa colina, pela 161st Street. Estariam lá a qualquer momento.

— Não é o mesmo tribunal — disse Killian. — É no edifício no alto da colina, para a direita.

Sherman viu uma imensa estrutura de concreto. Parecia bem majestosa assentada ali na crista da Grand Concourse à claridade de um dia perfeito; majestosa e estupendamente pesada.

Sherman viu os olhos do motorista procurando-o no espelho retrovisor, e, quando encontraram os seus num contato embaraçoso, se desviaram rapidamente. Quigley, na frente junto ao mo.torista, estava usando gravata e paletó, mas nada muito formal. O paletó, de um curioso tweed verde-marreco, afastava-se constantemente da pele bexigosa do pescoço. Parecia o tipo de Caso Perdido irrequieto que estava doido para encontrar uma oportunidade de despir o paletó e a gravata e começar uma briga e cultivar hematomas ou, melhor ainda, intimidar algum fracote medroso que não estivesse pronto para enfrentar o desafio de uma briga.

Enquanto o carro subia a colina, Sherman viu um ajuntamento na rua próxima ao topo, em frente ao edifício de calcário. Os carros se espremiam para passar.

— O que está acontecendo? — perguntou.

— Parece uma manifestação — aventou Quigley.

Killian disse:

— Bom, pelo menos não estão na frente do seu edifício desta vez.

Uma ma-ni-fes-ta-ção? Hahahaha — comentou o motorista. Tinha um sotaque cantado e uma risada educada, embora inteiramente nervosa. — Contra o quê? Hahahaha.

— Contra nós — disse Quigley com sua voz inexpressiva.

O motorista olhou para Quigley.

— Contra o senhooor? Hahahaha.

— Conhece o senhor que alugou este carro? O sr. McCoy? — Quigley indicou com a cabeça o banco traseiro.

Pelo espelho os olhos do motorista procuraram Sherman e tornaram a se imobilizar.

— Hahahaha. — Então se calou.

— Não se preocupe — disse Quigley. — Sempre é mais seguro no meio de um tumulto do que na periferia. Isso é fato conhecido.

O motorista tornou a olhar para Quigley e retrucou:

— Hahahaha. — Em seguida ficou muito quieto, sem dúvida tentando calcular de que deveria ter mais medo, se dos manifestantes de quem se aproximava na rua ou do Caso Perdido que estava ali dentro a uns poucos centímetros do seu pescoço ainda intacto. Então procurou Sherman mais uma vez com os olhos, deteve-os nele, a seguir desviou-os, arregalados de pânico.

— Não vai acontecer nada — disse Killian a Sherman. — Haverá tiras lá em cima. Estarão preparados para segurá-los. É o mesmo bando de sempre, Bacon e sua turma. Acha que o povo do Bronx está se importando com o que acontece? Não se lisonjeie. Esse é o mesmo bando, dando o mesmo espetáculo exótico. É um show. Mantenha a boca fechada e olhe para a frente. Desta vez, temos uma surpresa para eles.

À medida que o carro se aproximava da Walton Avenue, Sherman viu a turba na rua. Cercava toda a base do enorme edifício, no alto da colina. Ouviu uma voz que vinha de um microfone. O povo respondia à voz com um canto. Quem quer que estivesse berrando ao microfone parecia estar num patamar da escadaria do lado da 161st Street. Havia equipes de filmagem com o equipamento que se soerguia daquele mar de rostos.

O motorista perguntou:

— Quer que eu pare? Hahahahaha.

— Siga em frente — respondeu Quigley. — Eu lhe digo quando parar.

— Hahahaha.

Killian se dirigiu a Sherman:

— Vamos entrar pelo lado. — E para o motorista: — Entre na primeira à direita!

— Toda essa geeente! Hahahaha.

— Entre na primeira à direita — repetiu Quigley —, e não se incomode com as pessoas.

Killian falou com Sherman:

— Abaixe-se. Amarre o sapato ou faça qualquer coisa.

O carro dobrou na rua que corria ao longo da parte mais baixa do grande edifício de calcário. Mas Sherman continuou sentado, muito empertigado no banco. Já não importava. Quando começaria? Via os grandes camburões azul e laranja com tela nas janelas. A turba se espalhara, descendo a calçada. Olhavam na direção da 161st Street. A voz continuava a sua arenga, e a cantilena se erguia da multidão, nas escadas.

— Vire à esquerda — disse Killian. — Bem ali. Está vendo aquele cone vermelho? Ali.

O carro estava apontado num ângulo de 90 graus para o estacionamento na base do edifício. Um policial estava retirando um cone de borracha luminoso do centro de uma vaga. Quigley ergueu um cartão no para-brisa com a mão esquerda, aparentemente para que o policial o visse. Havia mais quatro ou cinco policiais na calçada. Usavam camisa branca de mangas curtas e traziam tremendos revólveres nos quadris.

— Quando eu abrir a porta — recomendou Killian —, fique entre Ed e mim e ande depressa.

A porta abriu, e eles desceram depressa. Quigley estava à direita de Sherman; Killian, à esquerda. Pessoas na calçada olharam para eles, mas não pareciam saber quem eram. Três dos policiais de camisa branca se esgueiraram entre o ajuntamento e Sherman, Killian e Quigley. Killian segurou o cotovelo de Sherman e conduziu-o na direção de uma porta. Quigley carregava uma maleta pesada. Um policial de camisa branca estava postado à porta e afastou-se para deixá-las passar a um saguão iluminado por fracas luzes fluorescentes. À direita havia uma porta que se abria para o que parecia ser uma sala de espera. Sherman conseguia divisar vultos negros e cinzentos sentados à vontade nos bancos.

— Eles nos fizeram um favor preparando a manifestação na escadaria — comentou Killian. Sua voz estava aguda e tensa. Dois policiais levaram-nos para um elevador, em que outro policial mantinha as portas abertas para eles.

Entraram no elevador, e o policial os acompanhou. Ele apertou o botão do nono andar e começaram a subir.

— Obrigado, Brucie — disse Killian ao policial.

— Tudo bem. Mas é ao Bernie que tem que agradecer. — Killian olhou para Sherman como se dissesse: “Que foi que lhe disse?”

No nono andar, do lado de fora de uma sala, a Câmara 60, havia uma aglomeração de gente barulhenta. Uma fileira de guardas judiciários mantinha-os afastados.

— Eh!... Olhe ele aí!

Sherman olhava para a frente. “Quando é que vai começar?” Um homem pulou na frente dele — um homem branco, alto, com os cabelos louros penteados para trás, deixando visível um acentuado bico de viúva. Usava blazer marinho, gravata marinho, camisa de peitilho listrado e colarinho duro, branco. Era o repórter, Fallow. Sherman o vira pela última vez quando ia entrar no Registro Central... aquele lugar...

— Sr. McCoy! — Aquela voz.

Com Killian de um lado, Quigley do outro e o guarda judiciário, Brucie, abrindo caminho, pareciam uma esquadrilha de aviões. Afastaram o inglês para um lado e entraram pela porta. Estavam na sala do tribunal. Um grupo de gente à esquerda de Sherman. Nas cadeiras reservadas ao público... Rostos negros... alguns rostos brancos... No primeiro plano havia um negro alto com um brinco de ouro em uma orelha. Levantou-se meio curvado da cadeira, apontou um braço longo e fino para Sherman e disse num sussurro alto e gutural:

— É ele! — Em seguida, em tom mais alto: — Cadeia, sim! Fiança, não.

A voz grave de uma mulher:

— Metam-no no xadrez!

— Hegggh!.... É esse.... Vejam só.... Cadeia, sim! Fiança, não.

“Agora? Ainda não.” Killian segurou seu cotovelo e cochichou-lhe no ouvido:

— Não dê atenção!

Uma voz de falsete:

— Sherrrr-maannnn... Sherrrr-maannnn.

— CALEM A BOCA! SENTEM-SE!

Era a voz mais potente que Sherman já ouvira na vida. A princípio pensou que era dirigida a ele. Sentiu-se horrivelmente culpado, embora não tivesse dito um ai.

— MAIS UMA MANIFESTAÇÃO DESSA... E MANDO EVACUAR O TRIBUNAL! ESTOU SENDO BEM CLARO?

No alto, à mesa do juiz, sob a inscrição EM DEUS CONFIAMOS, havia um homem magro, calvo, de nariz aquilino e vestes negras, de pé, com os punhos no tampo da mesa e os braços estendidos, como se fosse um corredor se preparando para saltar da posição de partida. Quando os olhos faiscantes do juiz percorreram a assistência, Sherman viu o branco sob as suas íris. Os manifestantes resmungaram mas fizeram silêncio.

O juiz, Myron Kovitsky, continuou a encará-los com o olhar furioso.

— Neste tribunal, os senhores falam quando o tribunal pedir que falem. Os senhores julgam os semelhantes quando forem escolhidos para jurados e o tribunal pedir que julguem. Os senhores se levantam e apresentam a sua obiter dicta quando o tribunal pedir que se levantem e apresentem sua obiter dicta. Até lá os SENHORES CALAM A BOCA E FICAM SENTADOS! E EU... SOU O TRIBUNAL! ESTOU SENDO CLARO? Há alguém que não concorde com o que acabei de dizer, e que sinta tal desrespeito por este tribunal que queira passar algum tempo como hóspede do estado de Nova York refletindo sobre o que acabei de dizer? ESTOU... SENDO... CLARO?

Seus olhos fizeram uma tomada panorâmica da assistência, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda e novamente da esquerda para a direita.

— Muito bem. Agora que estamos entendidos, talvez queiram assistir aos trâmites como membros responsáveis da comunidade. Enquanto agirem assim, serão bem-vindos a este tribunal. No momento que deixarem de agir assim... sentirão vontade de não terem saído da cama! Estou... sendo... claro?

Sua voz tornou a se elevar tão repentinamente e com tanta intensidade que os assistentes pareceram se encolher, assustados só de pensar que a cólera desse homenzinho furioso poderia se abater sobre eles de novo.

Kovitsky sentou-se e abriu os braços. Suas vestes inflaram como asas. Abaixou a cabeça. O branco dos olhos continuava visível sob as íris. A sala agora silenciara. Sherman, Killian e Quigley pararam junto ao gradil — a barra — que separava a seção dos espectadores do tribunal propriamente dito. Os olhos de Kovitsky pousaram em Sherman e Killian. Parecia estar zangado com eles também. Deu um suspiro que pareceu ser de desagrado.

Então voltou-se para o escrivão do tribunal, que estava sentado a uma grande mesa de reuniões a um lado. Sherman seguiu o olhar de Kovitsky, e ali, parado junto à mesa, viu o promotor distrital assistente, Kramer.

Kovitsky disse ao escrivão:

— Anuncie o caso.

O escrivão chamou em voz alta:

— Processo número 4-7-2-6, o Povo contra Sherman McCoy.

— Quem está representando o sr. McCoy?

Killian adiantou-se até a barra e disse:

— Eu.

O escrivão tornou a falar:

— Por favor, identifique-se.

— Thomas Killian, Reade Street, 86.

Kovitsky perguntou:

— Sr. Kramer, o senhor tem alguma moção preliminar a apresentar agora?

O tal Kramer deu alguns passos em direção à cadeira do juiz. Andava como um jogador de futebol. Parou, atirou a cabeça para trás, tensionou o pescoço, por alguma razão, e disse:

— Meritíssimo, o sr. McCoy encontra-se presentemente em liberdade mediante uma fiança de 10 mil dólares, uma soma insignificante para uma pessoa com os seus privilégios e recursos na comunidade financeira.

— É isso aí... Cadeia, sim! Fiança, não.... Faça ele pagar.

Kovitsky, de cabeça abaixada, olhou com ar irritado. As vozes foram diminuindo até se tornarem um murmúrio.

— Conforme é do seu conhecimento, Meritíssimo — continuou Kramer —, o júri de instrução concluiu pelo indiciamento do acusado por delitos graves: negligência criminosa, abandono da cena de um acidente e omissão em comunicar o acidente. Ora, Meritíssimo, considerando que o júri de instrução encontrou evidências suficientes de que o acusado abandonou suas responsabilidades para indiciá-lo, o Povo crê que também exista substancial possibilidade de que o acusado possa desprezar e abrir mão de sua fiança, dado o seu pequepo valor.

— Falou... É isso aí... Hum-hum...

— Portanto, Meritíssimo, o Povo crê que é dever deste tribunal dar uma clara indicação não só ao acusado mas à comunidade de que o caso em questão está sendo encarado com a máxima seriedade. No fulcro deste caso, Meritíssimo, encontra-se um rapaz, um rapaz exemplar, o sr. Henry Lamb, que se tornou um símbolo para o povo do Bronx, não só das esperanças que alimentam para seus filhos e filhas como também dos obstáculos desumanos e mortais que têm que enfrentar. O Meritíssimo está ciente da paixão com que a comunidade tem acompanhado cada passo do caso. Fosse o tribunal mais amplo, e o povo da comunidade estaria aqui neste momento às centenas, possivelmente aos milhares, como estão agora nos corredores e nas ruas lá fora.

— Muito bem!... Cadeia, sim! Fiança, não!... É isso aí! TAPUM!

Kovitsky bateu o martelo com um tremendo estrondo.

— SILÊNCIO!

O vozerio da turba decresceu para uma efervescência.

De cabeça abaixada, as íris flutuando num mar branco, Kovitsky disse:

— Vá direto à questão, sr. Kramer. Isto aqui não é um comício político. É uma audiência num tribunal de justiça.

Kramer percebeu que estava diante de todos os indícios usuais. As íris flutuavam naquele mar espumante. A cabeça estava abaixada. O nariz apontava para ele. Não ia precisar muito mais para Kovitsky explodir. “Por outro lado”, pensou, “não posso recuar. Não posso ceder.” A atitude de Kovitsky até o momento — embora fosse apenas o padrão Kovitsky, os berros costumeiros, a insistência beligerante na sua autoridade costumeira —, a atitude de Kovitsky até o momento colocava-o como adversário dos manifestantes. A Promotoria Distrital do Bronx era a favor deles. Abe Weiss era a favor. Larry Kramer era a favor. O Povo era... realmente o Povo. Era para isso que estava ali. Teria que se arriscar com Kovitsky — com aqueles olhos furiosos de guerrilheiro judeu que agora caíam sobre ele.

Sua própria voz lhe pareceu estranha quando falou:

— Estou ciente disso, Meritíssimo, mas também estou ciente da importância deste caso para o Povo, para todos os Henry Lambs, presentes e futuros, neste país e nesta cidade...

— É isso aí, cara!... Muito bem!... É isso aí!

Kramer apressou-se em continuar, com a voz ainda mais alta, antes que Kovitsky detonasse.

— ... e portanto o Povo requer a este tribunal que eleve a fiança do acusado para uma quantia expressiva e digna de fé... para 1 milhão de dólares... a fim de que...

— Cadeia, sim! Fiança, não!... Cadeia, sim! Fiança,não! Cadeia, sim! Fiança, não! — Os manifestantes irromperam numa cantilena.

— É isso mesmo!... Um milhão de dólares!... Ehhhhhhh!... — A voz da turba elevou-se num aplauso entremeado de risos exultantes e culminou com um canto: — Cadeia, sim! Fiança, não!... Cadeia, sim! Fiança, não!... Cadeia, sim! Fiança, não!... Cadeia, sim! Fiança, não!

O martelo de Kovitsky ergueu-se a bem uns 30 centímetros de sua cabeça e intimamente Kramer se encolheu antes que ele descesse.

TAPUM!

Kovitsky lançou um olhar furioso a Kramer, curvou-se para a frente e encarou a assistência.

— ORDEM NO TRIBUNAL!... CALEM A BOCA... ESTÃO DUVIDANDO DA MINHA PALAVRA? — Suas íris surfavam para cá e para lá no mar furiosamente agitado.

O canto parou e os gritos diminuíram, transformando-se num murmúrio. Mas pequenos surtos de riso indicavam que estavam só aguardando o próximo acesso.

— OS GUARDAS JUDICIÁRIOS...

— Meritíssimo! Meritíssimo! — Era o advogado de McCoy, Killian.

— O que foi, sr. Killian?

A interrupção distraiu a turba. Ela se aquietou.

— Meritíssimo, posso me aproximar?

— Muito bem, sr. Killian — Kovitsky fez-lhe sinal que se aproximasse. — Sr. Kramer? — Kramer também se dirigiu à mesa.

Agora estava parado ao lado de Killian, com suas roupas extravagantes, diante da mesa, sob os olhos faiscantes do juiz Kovitsky.

— Muito bem, sr. Killian, o que está havendo?

— Juiz — disse Killian —, se não me engano, o senhor é o juiz supervisor do júri de instrução neste caso, correto?

— Correto — disse a Killian, mas então voltou a sua atenção para Kramer. — O senhor é surdo, sr. Kramer?

Kramer não respondeu. Não precisava responder a uma pergunta dessas.

— Está embriagado com o barulho desse bando — Kovitsky indicou os espectadores com a cabeça — aplaudindo-o?

— Não, juiz, mas não há jeito de tratar este caso como um caso comum.

— Neste tribunal, sr. Kramer, ele vai ser tratado da porra do jeito que eu disser que vai ser tratado. Estou sendo claro?

— O senhor é sempre claro, juiz.

Kovitsky observou-o, aparentemente procurando decidir se havia alguma insolência nesse comentário.

— Muito bem, então sabe que se voltar a fazer uso desses artifícios de merda neste tribunal, o senhor vai desejar que nunca tivesse posto os olhos em Mike Kovitsky!

Ele não podia simplesmente aceitar isso, com Killian parado bem ali, então respondeu:

— Olhe, juiz, tenho todo o direito...

Kovitsky interrompeu-o:

— Todo o direito de fazer o quê? Fazer campanha para a reeleição de Abe Weiss aqui no meu tribunal? Uma porra, sr. Kramer! Diga a ele para alugar um salão, convocar a imprensa. Diga-lhe para fazer seus discursos, droga.

Kramer estava tão zangado que não conseguia falar. Seu rosto estava rubro. Entredentes respondeu:

— É só isso, juiz? — Sem esperar resposta, deu as costas e começou a se afastar.

— Sr. Kramer!

Ele parou e virou-se, enfurecido. Kovitsky fez-lhe sinal para voltar à mesa.

— O sr. Killian tem uma pergunta, creio. Ou quer que o escute em particular?

Kramer cerrou os dentes e encarou-o.

— Muito bem, sr. Killian, prossiga.

Killian disse:

— Juiz, tenho em meu poder importante evidência que não só tem relação com a petição do sr. Kramer sobre a fiança como também com a validade do próprio indiciamento.

— Que tipo de evidência?

— Tenho gravações de conversas entre o meu cliente e uma testemunha importante deste caso que faz parecer altamente provável que se tenha apresentado um testemunho viciado perante o júri de instrução.

“Que diabo está acontecendo?”

Kramer atalhou:

— Juiz, isto é absurdo. Temos um indiciamento válido proferido pelo júri de instrução. Se o sr. Killian tem alguma reclamação...

— Um momento, sr. Kramer — disse Kovitsky.

— ... se tem alguma reclamação sobre os trâmites do júri de instrução, tem à disposição os canais normais.

— Um momento. O sr. Killian diz que há evidências...

— Evidências! Isto não é uma audiência de apresentação de evidências, juiz! Ele não pode entrar aqui questionando os trâmites do júri de instrução, ex post facto!. E o senhor não pode...

— SR. KRAMER!

O som da voz de Kovitsky ao se elevar fez correr um murmúrio de protesto pelos manifestantes, que de repente estavam de novo falando.

Olhos surfando no mar tempestuoso:

— Sr. Kramer, sabe qual é o seu problema? O senhor não para para ouvir, para? Não ouve uma porra!

— Juiz...

— CALE A BOCA! O tribunal vai ouvir a evidência do sr. Killian.

— Juiz...

— E vamos ouvi-la in camera.

— In camera? Por quê?

— O sr. Killian diz que tem umas gravações. Primeiro vamos ouvi-las in camera.

— Ouça, juiz...

— O senhor não quer vir ao meu gabinete, sr. Kramer? Está com receio de perder a sua plateia?

Espumando, Kramer olhou para baixo e balançou a cabeça.

Sherman estava abandonado ao pé do gradil, da barra. Quigley, em algum lugar atrás dele, segurava a pesada maleta. Mas, sobretudo... eles estavam atrás dele. “Quando começaria?” Mantinha os olhos postos nas três figuras à mesa do juiz. Não ousava deixá-los se desviarem. Então as vozes começaram. Vinham das suas costas em cantilenas ameaçadoras.

— Seu último passeio, McCoy!

— A última ceia.

Então um falsete baixinho:

— Último suspiro.

Em algum lugar, dos dois lados, havia guardas judiciários. Não faziam nada para impedi-los. “Estão tão amedrontados quanto eu!”

O mesmo falsete:

— Eh, Sherman, por que está se contorcendo?

“Contorcendo”. Evidentemente os outros gostaram. Começaram a cantar em falsete, também.

— Sherrr-maaannnn...

— Sherman Minhocão!

Risadinhas e gargalhada.

Sherman olhava fixo para a mesa, onde parecia residir sua única esperança. Como se em resposta à sua súplica, o juiz olhou em sua direção e disse:

— Sr. McCoy, pode vir até aqui um instante?

Um vozerio e um coro de falsetes o acompanharam quando ele começou a andar. Ao se aproximar da mesa do juiz, ouviu o promotor distrital assistente, Kramer, dizer:

— Não compreendo, juiz. Que finalidade poderá ter a presença do acusado?

O juiz respondeu:

— A moção é dele, e a evidência é dele. Além do mais, não quero vê-lo levando sustos por aí. Concorda, sr. Kramer?

Kramer não disse nada. Olhou com um ar feroz para o juiz e em seguida para Sherman.

O juiz disse:

— Sr. McCoy, o senhor virá comigo, o sr. Killian e o sr. Kramer ao meu gabinete.

Então deu três batidas altas com o martelo e anunciou à assistência:

— O tribunal agora se reunirá com o promotor representante do Povo e o advogado de defesa in camera. Na minha ausência os senhores MANTERÃO o decoro exigido nesta sala. Estou sendo claro?

O vozerio dos manifestantes elevou-se até uma indignação contida, mas Kovitsky preferiu não tomar conhecimento; levantou-se e desceu os degraus do estrado. O escrivão ergueu-se da mesa para acompanhá-lo. Killian piscou para Sherman e rumou de volta à seção reservada aos espectadores. O juiz, o escrivão, o secretário do juiz e Kramer seguiram para uma porta na parede de painéis, a um lado do estrado. Killian voltou carregando a pesada maleta. Parou e fez sinal a Sherman para acompanhar Kovitsky. O guarda judiciário, com o enorme pneu de gordura caindo por cima do cinturão do coldre, fechou o cortejo.

A porta abria para uma sala que negava tudo o que o tribunal em si e o elegante termo “camera” sugeriram a Sherman. A “câmara” era na realidade uma única e pobre sala. Era pequena, suja, vazia, malcuidada, pintada com tinta creme Bastante Boa para o Serviço Público, exceto que a tinta estava falha aqui e descascava-se em deploráveis franzidos em outros pontos. Os únicos toques generosos eram o teto extraordinariamente alto e uma janela com uns 2,5 metros de altura, que inundava a sala de luz. O juiz acomodou-se a uma escrivaninha bordejada de metal. O escrivão sentou-se à outra. Kramer, Killian e Sherman se instalaram em cadeiras pesadas e antigas, de espaldar arredondado, do tipo conhecido como “cadeiras de banqueiro”. O secretário de Kovitsky e o gordo guarda judiciário postaram-se à parede. Um homem alto entrou carregando a máquina de estenografia portátil que os estenógrafos do tribunal usam. Que curioso! — o homem estava extremamente bem-vestido. Usava um paletó de tweed, camisa branca tão impecável quanto as de Rawlie, uma gravata antiga cor de garança, calça de flanela preta e sapatos meio pesados. Lembrava um professor de Yale com renda própria e dono de propriedades.

— Sr. Sullivan — disse Kovitsky —, é melhor trazer sua cadeira pra cá, também.

O sr. Sullivan saiu e voltou com uma cadeirinha de madeira, sentou-se, acertou a máquina, olhou para Kovitsky e fez sinal com a cabeça.

Então Kovitsky disse:

— Agora, sr. Killian, o senhor afirma estar de posse de informações que têm relação concreta e substancial com os trâmites do júri de instrução sobre este caso.

— Correto, juiz — disse Killian.

— Muito bem — tornou Kovitsky. — Quero ouvir o que tem a dizer, mas devo preveni-lo de que é melhor que esse recurso não seja leviano.

— Não é leviano, juiz.

— Porque se for, vou encará-lo com ceticismo, com um ceticismo maior do que encarei qualquer outra coisa em todos esses anos de magistratura, e isso seria realmente muito ceticismo. Estou sendo claro?

— Sem dúvida alguma, juiz.

— Muito bem. Agora, está preparado para apresentar a sua informação neste momento?

— Estou.

— Então, prossiga.

— Há três dias, juiz, recebi um telefonema de Maria Ruskin, a viúva do sr. Arthur Ruskin, pedindo para falar com o sr. McCoy aqui presente. Segundo é do meu conhecimento, e de acordo com o noticiário, a sra. Ruskin testemunhou perante o júri de instrução no caso em pauta.

Kovitsky dirigiu-se a Kramer:

— Isso é verdade?

Kramer respondeu:

— Ela prestou testemunho ontem.

O juiz voltou a Killian:

— Muito bem, continue.

— Então marquei um encontro entre a sra. Ruskin e o sr. McCoy, e por minha insistência o sr. McCoy usou um dispositivo de gravação escondido para comparecer a esse encontro, a fim de obter um registro concreto da conversa. O encontro foi em um apartamento da East 77th Street, que a sra. Ruskin aparentemente aluga para... hum, encontros particulares... e obtivemos um registro gravado desse encontro. Tenho a gravação em meu poder, e creio que o tribunal deveria tomar conhecimento do que está registrado na fita.

— Espere um instante, juiz — disse Kramer. — Ele está dizendo que o cliente dele foi se encontrar com a sra. Ruskin usando um gravador?

— Entendo que seja esse o caso — respondeu o juiz. — Estou certo, sr. Killian?

— Está certo, juiz — respondeu Killian.

— Bom, quero registrar uma objeção, juiz — disse Kramer —, e gostaria de fazê-la constar em ata. Este não é o momento para considerar tal moção, e, além do mais, não há maneira de se verificar a autenticidade dessa gravação que o sr. Killian alega ter.

— Primeiro vamos ouvir a gravação, sr. Kramer, e ver o que contém. Veremos se merece maior consideração, prima facie, e então nos preocuparemos com os outros problemas. O senhor está de acordo?

— Não, juiz, não vejo como posso...

O juiz, irritado:

— Ponha a gravação, advogado.

Killian meteu a mão na maleta, tirou um grande gravador e colocou-o sobre a escrivaninha de Kovitsky. Então inseriu um cassete. O cassete era excepcionalmente pequeno. Por alguma razão esse cartuchinho secreto parecia tão tortuoso e sórdido quanto o ato em si.

— Quantas vozes há nessa gravação? — perguntou Kovitsky.

— Apenas duas, juiz — informou Killian. — A do sr. McCoy e a da sra. Ruskin.

— Então estará suficientemente claro para o sr. Sullivan o que estamos ouvindo?

— Creio que sim — disse Killian. — Não, desculpe-me, juiz, esqueci-me. No início da gravação ouviremos o sr. McCoy falando com o motorista do carro que o levou ao prédio para se encontrar com a sra. Ruskin. E no final ouviremos de novo sua conversa com o motorista.

— Quem é o motorista?

— É um motorista do serviço de aluguel que o sr. McCoy contratou. Não quis fazer nenhum corte na gravação.

— Hum-hum. Muito bem, prossiga.

Killian ligou o gravador, e só o que se ouviu a princípio foi um ruído de fundo, um fluxo baixo e indistinto com ocasionais sons de tráfego, incluindo a sirene de um carro de bombeiros. Então, algumas palavras murmuradas ao motorista. Era tudo tão tortuoso, não era? Uma onda de vergonha o cobriu. Iriam botar a gravação até o fim! O estenógrafo a registraria, até a última palavra queixosa quando ele tentou escapar de Maria e negar o óbvio, ou seja, que era um filho da puta desonesto que viera ao seu apartamento armado de um gravador. Quanto disso passaria somente nas palavras? O suficiente; ele era desprezível.

Agora o gravador fraudulento e abafado irradiou o toque da campainha à porta do prédio, o c1ique-clique-clique da fechadura elétrica e — seria sua imaginação? — o rangido das escadas à medida que ia subindo. Então uma porta se abrindo... e a voz confiante e alegre de Maria: “Buu!... Assustou-se, eh?” E a resposta displicente do ator pérfido, numa voz que ele mal reconheceu: “De fato, não. Ultimamente tenho sido assustado por especialistas.” Deu uma olhada para um lado e para outro. Os outros homens na sala tinham a cabeça baixa e os olhos postos no chão ou na máquina na mesa do juiz. Então surpreendeu o gordo guarda judiciário olhando-o em cheio. O que estaria pensando? E os outros, com os olhos desviados? Mas, naturalmente! Não precisavam olhar para ele, porque já estavam bem no interior da caverna, fuçando à vontade, todos se esforçando para ouvir as palavras de sua má atuação nessa farsa. Os longos dedos do estenógrafo dançavam pela maquininha delicada. Sherman sentiu uma tristeza paralisante. Tão pesada... não conseguia se mover. Nessa deplorável salinha que se desfazia em pó havia sete outros homens, sete outros organismos, centenas de quilos de tecido e ossos, respirando, bombeando sangue, queimando calorias, processando alimentos, filtrando toxinas e poluentes, transmitindo impulsos nervosos, sete animais desagradáveis peludos e quentes fuçando, como castigo, nessa caverna inteiramente pública que ele costumava pensar que fosse sua alma.

Kramer estava louco para espiar McCoy, mas decidiu ser frio e profissional. Que cara faz um rato quando ouve sua traição numa sala cheia de gente que sabe que ele é um rato — ir ver a namorada com um gravador? Inconscientemente, mas de maneira profunda, Kramer sentiu alívio. Sherman McCoy, esse WASP, esse aristocrata da Wall Street, esse grã-fino, esse homem de Yale, era tão rato quanto qualquer traficante de drogas em que se instalava um gravador para trair os de sua espécie. Não, McCoy era um rato mais perfeito. Um traficante não esperava muita coisa de outro. Mas nas camadas mais elevadas, nesses pináculos de correção e moralismo, nessa estratosfera dominada pelos WASPs, pálidos de lábios finos, a honra, presumivelmente, não era uma palavra com que se brincasse. No entanto, imprensados contra a parede, eles se transformavam em ratos com a mesma rapidez que qualquer marginal. Isso era um alívio, porque se perturbara com o que Bernie Fitzgibbon dissera. Suponha que o caso não tivesse sido de fato investigado com o devido cuidado. Maria Ruskin corroborara a versão de Roland perante o júri de instrução, mas intimamente ele sabia que a pressionara para valer. Tinha-a metido numa camisa de força tão depressa que ela teria...

Preferiu não terminar o pensamento.

O conhecimento de que no fundo McCoy não passava de um rato com um currículo melhorado deixou-o tranquilo. McCoy estava enredado nessa confusão porque era o seu meio natural, o ninho imundo do seu caráter defeituoso.

Tendo se assegurado da justiça de sua causa, Kramer regalou-se com um pouco de justo rancor por esse pseudoaristocrata que estava agora sentado a poucos passos dele, enchendo a sala com o seu mau cheiro. Ao ouvir as duas vozes na gravação, o grasnido aristocrático de McCoy e a fala cantada sulista de Maria Ruskin, não precisou de muita imaginação para visualizar o que estava acontecendo. As pausas, a respiração, o farfalhar — McCoy, o rato, tomara essa deslumbrante criatura em seus braços... E esse apartamento na East 77th Street onde se encontravam — essa gente do Upper East Side tinha apartamentos só para seus prazeres!, enquanto ele continuava a procurar mentalmente (e nos bolsos) um lugar para acomodar os desejos da srta. Shelly Thomas. A Bela e o Rato continuavam a conversar. —. Houve uma pausa enquanto ela saiu da sala para preparar um drinque e um ruído rascante quando ele aparentemente tocou no microfone escondido. O Rato. As vozes retomaram a conversa, e ela disse: “Há muita gente que gostaria de ouvir esta conversa.”

Nem mesmo Kovitsky conseguiu resistir à vontade de erguer os olhos e olhar pela sala ao ouvir isso, mas Kramer recusou-se a brindá-lo com um sorriso.

A voz de Maria Ruskin continuou monótona. Agora queixava-se do casamento. Aonde é que essa gravação supostamente iria levar? As reclamações da mulher eram entediantes. Casara-se com um homem mais velho. Que diabo esperava? Ociosamente Kramer deixou o pensamento vagar — via-a, como se estivesse ali na sala. A maneira langorosa com que cruzava as pernas, o sorrisinho, o jeito de olhar para as pessoas às vezes...

Subitamente ele se pôs alerta: “Um homem da Promotoria Distrital do Bronx veio me procurar hoje com dois detetives.” E em seguida: “Um merdinha pomposo.”

— Hein? — estava atordoado. Uma onda de quentura subiu-lhe pelo pescoço e pelo rosto. Por alguma razão foi aquele “inha” que o feriu mais. Uma rejeição tão desdenhosa — e ele com os seus poderosos esternoclidomastóideos —, ergueu os olhos para observar o rosto dos outros, pronto para rir defensivamente se por acaso mais alguém erguesse os olhos e sorrisse de tal afronta. Mas ninguém olhou para ele, menos ainda McCoy, a quem teria esganado de boa vontade.

“Não parava de atirar a cabeça para trás, de fazer um gesto estranho com o pescoço, assim, e olhar para mim por entre as fendas que tem em lugar de olhos. Que sebo!”

Seu rosto agora estava escarlate, em fogo, fervendo de raiva e, pior que raiva, aflição. Alguém na sala fez um ruído que talvez fosse uma tosse, talvez uma risada. Ele não teve coragem suficiente para investigar. “Cadela!” disse a sua mente conscientemente. Mas o sistema nervoso disse: “Destruidora devassa das minhas mais caras esperanças!” Nessa salinha cheia de gente estava sofrendo as dores que os homens sentem quando seus egos perdem a virgindade — como acontece quando ouvem pela primeira vez a opinião direta e sem rodeios de uma bela mulher a respeito dos seus eus masculinos.

O que veio a seguir foi pior.

“Ele realmente simplificou a coisa, Sherman”, disse a voz na gravação. “Disse que se eu testemunhasse contra você e corroborasse a outra testemunha, concederia imunidade para mim. Se não aceitasse, então me trataria como cúmplice, e me acusaria desses... delitos.”

E depois:

“Ele chegou a me dar cópias das notícias dos jornais. Praticamente fez um roteiro para mim. Essas eram as versões corretas e essas outras eram as que você inventou. Devo concordar com as versões certas. Se disser o que realmente aconteceu, vou para a prisão.”

“A puta mentirosa!” Ele a pusera numa camisa de força, naturalmente — mas não fizera roteiro nenhum para ela! — não a “instruíra” sobre o que dizer — não a avisara para se afastar da verdade...

Disse impulsivamente:

— Juiz!

Kovitsky ergueu a mão, com a palma para fora, e a gravação continuou a rodar.

Sherman assustou-se com a voz do promotor distrital assistente. O juiz fizera-o calar-se imediatamente. Sherman estava preparado para o que sabia que viria a seguir.

A voz de Maria: “Venha aqui, Sherman.”

Ele sentia aquele momento de novo, aquele momento e aquela horrível luta livre... “Sherman, que foi que houve? Que foi que houve com as suas costas?”... Mas isso era só o começo... Sua própria voz, sua voz ordinária e mentirosa: “Não sabe quanto senti sua falta, quanto precisei de você.” E Maria: “Bom... eu estou aqui.” Então aquele pavoroso farfalhar denunciador — e sentia o cheiro do hálito dela de novo e sentia as mãos em suas costas.

“Sherman... o que é isso nas suas costas?”

As palavras encheram a sala num jorro de vergonha. Queria entrar pelo chão. Afrouxou o corpo na cadeira e deixou o queixo pender sobre o peito.

“Sherman, o que é isso?”... A voz dela se elevando, suas negativas capengas, a tentativa de se esquivar, sua respiração ofegante e seus gritinhos. “É um fio, Sherman!”... “Você... está me machucando!” “Sherman... seu filho da puta nojento e desonesto!”

“A pura verdade, Maria! A horrível verdade!”

Kramer ouvia a gravação em meio a uma bruma vermelha de mortificação. A Cadela e o Rato — o tête-à-tête dos dois tinha degenerado numa espécie de briga sórdida de cadela e rato. “Merdinha pomposo. Sebo. Uma coisa estranha no pescoço.” Zombara dele, humilhara-o, menosprezara-o, caluniara-o — expondo-o a uma acusação de suborno e indução ao perjúrio.

Sherman ficou assombrado com a força desesperada que fazia para respirar, que saía em arquejos da máquina preta sobre a mesa do juiz. Era um som mortificante. Dor, pânico, covardia, fraqueza, desonestidade, vergonha, indignidade — tudo ao mesmo tempo, seguido de passos pesados e inseguros. Esse era o som de sua fuga pelas escadas do prédio. Por alguma razão sabia que todos na sala podiam vê-lo fugindo às carreiras com o gravador e o fio entre as pernas.

Na altura em que a gravação se esgotou, Kramer conseguira se alienar de sua vaidade ferida e reorganizar os pensamentos.

— Juiz — disse —, não sei o que...

Kovitsky atalhou-o:

— Um minuto. Sr. Killian, pode rebobinar a fita? Quero ouvir aquele diálogo entre o sr. McCoy e a sra. Ruskin a respeito do testemunho dela.

— Mas, juiz...

— Vamos ouvi-lo de novo, sr. Kramer.

Tornaram a ouvir.

As palavras passavam voando por Sherman. Continuava afogado em ignomínia. Como poderia olhar qualquer deles no rosto?

O juiz falou:

— Muito bem, sr. Killian. Que conclusões o senhor propõe que o tribunal tire disso?

— Juiz — respondeu Killian —, essa mulher, a sra. Ruskin, ou foi instruída para prestar um determinado testemunho ou para omitir determinado testemunho ou sofrer sérias consequências, ou pelo menos assim pensou, o que afinal dá no mesmo. E...

— Isso é absurdo! — exclamou o promotor distrital assistente Kramer. Curvara-se para a frente na cadeira com o indicador grande e carnudo apontado para Killian e uma expressão de louco furioso no rosto.

— Deixe-o terminar — disse o juiz.

— Além disso — continuou Killian —, conforme acabamos de ouvir, a moça tinha ampla motivação para prestar um falso testemunho, não só com o intuito de proteger-se, como também de prejudicar o sr. McCoy, a quem chama de “filho da puta desonesto e nojento”.

O filho da puta desonesto e nojento mais uma vez se sentiu mortificado. O que poderia ser mais mortificante do que a verdade pura e simples? Uma competição de gritos irrompeu entre o promotor distrital assistente e Killian. O que estavam dizendo? Não significava nada em face da verdade óbvia e mesquinha.

O juiz berrou:

— CALEM-SE! — Calaram-se. — A questão do suborno não está me interessando neste momento, se é o que o preocupa, sr. Kramer. Mas penso realmente que existe a possibilidade de um testemunho viciado perante o júri de instrução.

— Isso é grotesco! — exclamou Kramer. — A mulher tinha dois advogados ao lado dela o tempo todo. Pergunte-lhes o que foi que eu disse!

— Se houver necessidade, perguntaremos. Mas estou menos preocupado com o que o senhor disse do que com o que se passava na cabeça dela quando apresentou seu testemunho perante o júri de instrução. Compreende, sr. Kramer?

— Não, juiz, não compreendo e...

Killian interrompeu-o:

— Juiz, tenho uma segunda gravação.

Kovitsky perguntou:

— Muito bem. Qual é a natureza dessa gravação?

— Juiz...

— Não interrompa, sr. Kramer. Terá oportunidade de ser ouvido. Prossiga, sr. Killian. Qual é a natureza da gravação?

— É uma conversa com a sra. Ruskin que o sr. McCoy me informa ter gravado há 22 dias, depois que a primeira notícia sobre as lesões de Henry Lamb apareceu nos jornais.

— Onde foi que essa conversa teve lugar?

— No mesmo lugar que a primeira, juiz. O apartamento da sra. Ruskin.

— E igualmente sem o conhecimento dela?

— Exato.

— E qual é a relação dessa gravação com esta audiência?

— Fornece a versão da sra. Ruskin sobre o acidente envolvendo Henry Lamb, num momento em que está falando sinceramente, de moto-próprio, com o sr. McCoy. Levanta a questão da possibilidade de ter ou não alterado o seu relato honesto quando testemunhou perante o júri de instrução.

— Juiz, isso é uma loucura! Agora estamos sendo informados que o acusado vive com um gravador ligado! Já sabemos que ele é um rato, na linguagem das ruas, então por que deveríamos acreditar...

— Acalme-se, sr. Kramer. Primeiro, vamos escutar a gravação. Depois avaliaremos. Não há nada registrado em ata, ainda. Prossiga, sr. Killian. Espere um minuto, sr. Killian. Primeiro quero que o sr. McCoy preste juramento.

Quando os olhos de Kovitsky encontraram os dele, Sherman conseguiu a custo sustentar seu olhar. Para sua surpresa, sentiu-se horrivelmente culpado com o que estava prestes a fazer. Estava em vias de cometer perjúrio.

Kovitsky mandou que o escrivão, Bruzzielli, o fizesse prestar juramento, então perguntou-lhe se gravara as duas fitas da forma e nas datas que Killian informara que o fizera. Sherman respondeu afirmativamente, forçou-se a olhar o tempo todo para Killian, enquanto se perguntava se a mentira transpareceria de alguma forma em seu rosto.

A fita começava: “Eu sabia. Eu sabia desde que aconteceu. Devíamos ter comunicado à polícia imediatamente...”

Sherman mal conseguia prestar atenção. “Estou fazendo uma coisa ilegal! Sim... mas em nome da verdade... Esse é o caminho subterrâneo para a luz... Essa é a verdadeira conversa que tivemos... Cada palavra, cada som, é verdade... Suprimir isso... seria uma desonestidade maior... não seria?... É — mas estou fazendo uma coisa ilegal!” Os pensamentos giravam sem parar em sua cabeça, enquanto a fita continuava a rodar... E Sherman McCoy, que agora jurara assumir o seu eu animal, descobriu o que muitos descobriram antes dele. Em meninos e meninas bem-criados, a culpa e o instinto de obedecer às leis eram reflexos, fantasmas insuprimíveis na máquina.

Mesmo antes de o gigante hasid ter descido estrondeando pelas escadas e as gargalhadas de Maria terem cessado nessa câmara dilapidada no Bronx, o promotor, Kramer, estava protestando furiosamente.

— Juiz, não posso permitir isso...

— Darei a você oportunidade de falar.

... truque ordinário...

— Sr. Kramer!

— ... influência... SR. KRAMER!

Kramer calou-se.

— Agora, sr. Kramer — disse Kovitsky —, tenho certeza de que conhece a voz da sra. Ruskin. Concorda que esta era a voz dela?

— Provavelmente, mas essa não é a questão. A questão é...

— Um minuto. Presumindo que seja este o caso, o que acabamos de ouvir na gravação difere do testemunho que a sra. Ruskin prestou diante do júri de instrução?

— Juiz... isso é absurdo! E difícil dizer o que está acontecendo nessa gravação!

— Difere, sr. Kramer?

— Varia.

— Varia é o mesmo que difere?

— Juiz, não há maneira de afirmar em que condições essa gravação foi feita!

— Prima facie, sr. Kramer, difere?

— Prima facie difere. Mas não pode permitir que esse artifício ordinário — virou a mão desdenhosamente na direção de McCoy — influencie o seu...

— Sr. Kramer...

— ... julgamento! — Kramer percebeu que a cabeça de Kovitsky ia gradualmente baixando. O branco começava a aparecer sob as íris. O mar começava a espumar. Mas Kramer não conseguia se conter. — O fato puro e simples é que o júri de instrução proferiu um indiciamento válido! O senhor tem... esta audiência não tem jurisdição sobre...

— Sr. Kramer...

— ... as deliberações devidamente concluídas de um júri de instrução!

— MUITO OBRIGADO POR SEU DOUTO CONSELHO, SR. KRAMER!

Kramer congelou, com a boca ainda aberta.

— Deixe-me lembrar-lhe — disse Kovitsky — que sou o juiz presidente do júri de instrução, e não estou nada encantado com a possibilidade das declarações de uma testemunha-ehave do caso serem viciadas.

Fumegando, Kramer balançou a cabeça.

— Nada que esses dois... indivíduos — tornou a virar a mão na direção de McCoy — digam em seu ninho de amor... — Sacudiu mais uma vez a cabeça, encolerizado demais para encontrar palavras para terminar a frase.

— Às vezes é justamente quando a verdade aparece, sr. Kramer.

— A verdade! Dois ricos mimados, um deles usando gravador como um rato... experimente dizer isso às pessoas naquele tribunal, juiz!...

Assim que as palavras saíram de sua boca, Kramer teve certeza de que cometera um erro, mas não conseguiu se refrear.

— ... e aos outros milhares que estão do lado de fora daquele tribunal acompanhando cada palavra deste caso! Experimente dizer-lhes...

Parou. As íris de Kovitsky mais uma vez surfavam num mar turbulento. Esperou que explodisse de novo, mas, em vez disso, ele fez algo ainda mais enervante. Sorriu. Sua cabeça estava abaixada, a bicanca saliente, as íris planando no oceano, e ele sorriu.

— Muito obrigado, sr. Kramer. Farei isso.

Quando o juiz Kovitsky voltou ao tribunal, os manifestantes se divertiam sozinhos, falando em altas vozes, gargalhando, passeando, fazendo caretas e mostrando de todas as formas ao pelotão de guardas judiciários de camisa branca quem mandava ali. Aquietaram-se um pouco quando viram Kovitsky, mas mais por curiosidade do que por qualquer outra razão. Estavam a mil.

Sherman e Killian dirigiram-se à mesa do acusado, uma mesa diante do juiz, e as cantilenas em falsete recomeçaram.

— Sherrr-maaannnn...

Kramer parou junto à mesa do escrivão para falar com um branco alto vestido num terno de gabardine ordinária.

— Aquele é o já mencionado Bernie Fitzgibbon, em quem você não tem fé — disse Killian. Estava sorrindo. Então falou, indicando Kramer: — Fique de olho na cara daquele panaca.

Sherman olhou sem compreender.

Kovitsky ainda não subira para sua mesa. Continuava parado a uns 3 metros, conversando com seu secretário, o sujeito ruivo. O barulho na seção reservada ao público aumentou. Kovitsky subiu lentamente os degraus que levavam à sua mesa sem olhar para os manifestantes. Permaneceu de pé diante da mesa com os olhos baixos, como se estivesse observando alguma coisa no chão.

De repente... TAPUM! O martelo — foi como uma bomba.

— VOCÊS! CALEM-SE E SENTEM-SE!

Os manifestantes imobilizaram-se um instante, chocados com o volume furioso da voz do homenzinho.

— COM QUE ENTÃO INSI-I-I-ISTEM... EM TESTAR... A VO-OO-NTADE... DESTE TRIBUNAL?

Silenciaram e começaram a sentar em seus lugares.

— Muito bem. Agora, quanto ao caso do Povo contra Sherman McCoy, o júri de instrução concluiu pelo indiciamento. Em conformidade com a minha autoridade para supervisar os trâmites do júri de instrução, ordeno que esse indiciamento seja anulado no interesse da justiça, sem preconceito e com permissão para que o promotor distrital reapresente o caso.

— Meritíssimo! — Kramer estava de pé, com a mão para o alto.

— Sr. Kramer...

— Este ato causará dano irreparável não somente à causa da população...

— Sr. Kramer...

— ... mas também à causa do Povo. Meritíssimo, hoje neste tribunal — fez um gesto abrangendo a seção reservada ao público e os manifestantes — encontram-se muitos membros da comunidade tão vitalmente afetada por este caso, e é prejudicial ao sistema de justiça penal deste país...

— SR. KRAMER! TENHA A GENTILEZA DE NÃO ME ATRIBUIR OS SEUS PREJUÍZOS!

— Meritíssimo...

— SR. KRAMER! O TRIBUNAL ORDENA QUE O SENHOR SE CALE!

Kramer ergueu os olhos para Kovitsky de boca escancarada, como se lhe tivessem tirado o fôlego.

— Agora, sr. Kramer...

Mas Kramer recuperara o fôlego.

— Meritíssimo, quero que conste dos registros que o tribunal levantou a voz. Gritou, para ser mais preciso.

— Sr. Kramer... o tribunal vai levantar... MAIS DO QUE A VOZ! Que o faz pensar que possa se apresentar diante do juiz agitando a bandeira da pressão comunitária? A lei não é uma criação de poucos ou de muitos. O tribunal não se deixa afetar por suas ameaças. O tribunal está ciente de sua conduta diante do juiz Auerbach na corte criminal. O senhor acenou com uma petição, sr. Kramer! O senhor a agitou no ar como se fosse uma bandeira! — Kovitsky ergueu a mão direita abanando-a no ar. — O senhor apareceu na TELEVISÃO, sr. Kramer! Uma artista desenhou o seu retrato brandindo uma petição como um Robespierre ou um Danton, e o senhor estava lá na TELEVISÃO! O senhor cedeu à turba, não foi... e talvez haja gente neste tribunal AGORA QUE TENHA GOSTADO DA SUA REPRESENTAÇÃO, sr. Kramer. Muito bem, tenho UMA INFORMAÇÃO para o senhor! Aqueles que entram NESTE tribunal agitando bandeiras... PERDEM OS BRAÇOS... ESTOU SENDO CLARO?

— Meritíssimo, eu estava apenas...

— ESTOU SENDO CLARO?

— Sim, Meritíssimo.

— Muito bem. Agora estou anulando o indiciamento no caso do Povo contra McCoy, com permissão para reapresentação.

— Meritíssimo! Devo repetir... tal ato prejudicaria irreparavelmente a causa do Povo! — Kramer cuspia as palavras de modo que Kovitsky não conseguisse abafá-lo com a sua tremenda voz. Kovitsky pareceu surpreso com o atrevimento dessa declaração e com a sua veemência. Congelou, e isso deu aos manifestantes coragem suficiente para entrar em ação.

— Buuuuuuuuuu!... Fora com a justiça da Park Avenue! — Um deles saltou da cadeira, em seguida outro e mais outro. O negro alto, de brinco numa orelha, estava na primeira fila com o punho no ar.

— ROUBALHEIRA! — gritou. — Roubalheira!

TAPUM! O martelo explodiu mais uma vez. Kovitsky levantou-se, meteu os punhos no tampo da mesa e se curvou para a frente.

— Guardas... RETIREM ESSE HOMEM! — Dizendo isso, Kovitsky ergueu o braço direito e apontou para o manifestante alto, de brinco. Dois guardas judiciários de camisa branca de mangas curtas, com 38 nos quadris, avançaram para ele.

— Não pode mandar retirar o Povo! — gritou o homem. — Não pode mandar retirar o Povo!

— Certo — respondeu Kovitsky —, mas VOCÊ vai ser retirado!

Os guardas aproximaram-se um de cada lado do homem e começaram a empurrá-lo para a saída. Ele olhou para trás, para seus confrades, mas eles pareciam confusos. Resmungavam, mas não tinham peito de enfrentar Kovitsky.

TAPUM!

— SILÊNCIO! — disse Kovitsky. Assim que a assistência ficou razoavelmente sossegada, Kovitsky olhou para Fitzgibbon e Kramer. — A sessão está suspensa.

Os espectadores se levantaram, seus resmungos agora se avolumavam até um vozerio irado ao se encaminharem para a porta, olhando feio para Kovitsky antes de saírem. Nove guardas judiciários formaram uma barreira entre os espectadores e a barra. Dois deles tinham as mãos pousadas no cabo das armas. Ouviam-se gritos abafados, mas Sherman não conseguia distingui-los. Killian se levantou e começou a andar em direção a Kovitsky. Sherman seguiu-o.

Um tremendo tumulto às suas costas. Sherman virou-se. Um negro alto irrompera pela barreira de guardas judiciários. Era o tal de brinco de ouro, o que Kovitsky mandara retirar do tribunal. Aparentemente os guardas tinham-no largado no corredor, e ele agora voltava, furioso. Já ultrapassara a barra. Rumava na direção de Kovitsky, os olhos faiscando.

— Seu velho babaca e careca! Seu velho babaca e careca!

Três guardas deixaram a barreira que estava tentando conduzir os manifestantes para fora da sala. Um deles agarrou o homem alto pelo braço, mas ele se desvencilhou.

— Justiça da Park Avenue!

Os manifestantes agora começavam a refluir pela brecha na barreira de guardas, falando e resmungando e calculando o grau de ferocidade que queriam demonstrar. Sherman olhou-os, paralisado com a cena. “É agora que vai começar!” Uma sensação de medo... expectativa!... “É agora que vai começar!” Os guardas recuam, tentando se manter entre a turba e o juiz e o pessoal do tribunal. Os manifestantes se reagrupam, resmungando, ladrando, se envenenando, tentando imaginar a força e a coragem que têm.

— Buuuuuu!... Êêêêêhhhhh... 00000000000... Eh! Goldberg!... Velho babaca e careca!

De repente, à esquerda, Sherman vê o vulto ossudo e selvagem de Quigley. Juntou-se aos guardas judiciários. Está tentando empurrar a turba para trás. Tem um ar alucinado no rosto.

— Muito bem, Jack, agora chega. Acabou. Todos vão para casa agora, Jack. — Chama-os de Jack. Está armado, mas o revólver continua guardado em algum lugar do casaco esporte verde-marreco. Os guardas judiciários vão recuando lentamente. A toda hora levam as mãos aos coldres nos quadris. Tocam o cabo das armas, então afastam as mãos, como se aterrorizados com o que aconteceria se as sacassem e começassem a atirar ali na sala.

Fazendo força e empurrando... uma tremenda agitação... Quigley!... Quigley agarra um manifestante pelo pulso, torce-lhe o braço para as costas e puxa-o para cima — Aaaiiiiii! — e chuta-lhe as pernas para lhe tirar o apoio do corpo. Dois dos guardas judiciários, o tal chamado Brucie e o grandalhão com o pneu de gordura na cintura, recuam para além de Sherman, curvados, as mãos nos coldres. Brucie começa a berrar para Kovitsky por cima do ombro:

— Entre no seu elevador, juiz! Droga, entre no seu elevador! — Mas Kovitsky não se mexe. Encara furioso a turba.

O alto, o tal de brinco de ouro, está a menos de um passo dos dois guardas. Não tenta passar por eles. Tem a cabeça erguida e o longo pescoço esticado no ar, e grita para Kovitsky: Seu velho babaca e careca!

— Sherman! — É Killian ao seu lado. — Vamos! Vamos descer pelo elevador do juiz! — Sente Killian puxando-o pelo cotovelo, mas está pregado ao chão. “É agora que vai começar! Para que adiar?”

Um borrão. Ergue os olhos. Uma figura furiosa de camisa de trabalho azul avança para ele. Um rosto contorcido. Um enorme dedo ossudo.

— Chegou a hora, Park Avenue!

Sherman se prepara. De repente — Quigley. Quigley se interpõe entre os dois e com um sorriso completamente maluco mete a cara na do homem e diz:

— Oi!

Assustado, o homem o encara, e naquele momento, ainda encarando-o nos olhos e sorrindo, Quigley levanta o pé esquerdo e desce-o com toda a força no dedão do homem. Um uivo terrível.

Isso é um sinal para a turba.

— Ôoooooooo!... Pega ele!... Pega ele!... — Passam pelos guardas aos repelões. Brucie empurra o negro alto de brinco. Ele sai cambaleando para um lado. De súbito está bem na frente de Sherman. Olha. Está assombrado. Cara a cara! E agora? Ele só olha fixamente. Sherman está petrificado... aterrorizado... “Agora!” Abaixa-se, gira nos quadris, e vira de costas — “agora! — vai começar agora!” Vira-se e mete o punho no plexo solar do homem.

— Ooooooo!

O filho da mãe está afundando, com a boca aberta, e os olhos esbugalhados e o pomo de adão em convulsões. Bate no chão.

— Sherman! Vamos! — Killian puxa-o pelo braço. Mas Sherman está paralisado. Não consegue tirar os olhos do homem de brinco de ouro. O homem está no chão, dobrado de um lado, arquejando. O brinco está pendurado na orelha, num ângulo esquisito.

Sherman é empurrado para trás por dois vultos que se debatem. Quigley. Quigley tem um rapaz branco e alto preso pelo pescoço com um braço e parece estar tentando empurrar o nariz do rapaz para dentro do crânio com o punho da outra mão. O rapaz branco está fazendo Aaaaaah, aaaaah, e sangra horrivelmente. O nariz é um pudim de sangue. Quigley está grunhindo Ummmm ummmm ummmm. Deixa o rapaz branco despencar no chão e em seguida amassa o salto do sapato no braço dele. Um pavoroso Aaaaah. Quigley pega Sherman pelo braço e empurra-o para trás.

— Vamos, Sherm! — Sherm. — Vamos dar o fora daqui! “Meti o braço na barriga dele — e ele saiu gritando ‘ooooooo!’ e caiu no chão.” Uma última olhada no brinco pendurado...

Agora Quigley o empurra para trás e Killian o puxa para a frente.

— Vamos! — berra Killian. — Perdeu a porra da cabeça?

Havia apenas um pequeno semicírculo de guardas judiciários, e mais Quigley, entre a turba e Sherman, Killian, o juiz, o secretário dele e o escrivão, que se espremeram pela porta do gabinete do juiz, ombro a ombro, pelejando. Os manifestantes — havia bastante para enfurecê-los agora! Um deles está tentando entrar aos empurrões pela porta... Brucie não consegue contê-lo... Quigley... Sacou o revólver. Ergue-o no ar. Mete a cara diante do manifestante à porta.

— Muito bem, veado! Quer mais um buraco na porra do nariz?

O homem se imobiliza — se imobiliza como uma estátua. Não é por causa do revólver. É a expressão no rosto de Quigley que o faz parar.

Uma batida... duas batidas... É só do que precisam. O guarda com o enorme pneu de banha mantém a porta para o elevador do juiz aberta. Estão arrebanhando todos para prosseguirem — Kovitsky, o secretário, o escrivão grandalhão, Killian. Sherman recua para dentro do elevador com Quigley e Brucie. Os três guardas permanecem no gabinete, prontos para sacar as armas. Mas a turba perdeu o gás, desanimou.Quigley. A expressão em seu rosto “Muito bem, veado. Quer mais um buraco na porra do nariz?”

O elevador começa a descer. Está insuportavelmente quente ali dentro. Todos comprimidos. Aaah, aaaahh, aaaaaah, aaaaahhhh. Sherman percebe que é ele mesmo, procurando respirar, ele e Quigley também, e Brucie e o outro guarda judiciário, o gordo. Aaaaaah, aaaahhhhh, aaaaahhhhh, aaaahhhhh, aaaaahhhhhhhh.

— Sherm! — É Quigley. falando entre arquejos. — Você nocauteou... aquele veado... Sherm! Você... o nocauteou!

“Afundou no chão. Dobrado. O brinco balançando. Agora! — e venci.” Está roído de um medo frio — “vão me pegar!” e eufórica expectativa. “Outra vez! Quero fazer isso outra vez!”

— Não se congratulem. — Era Kovitsky, em voz baixa e severa. — A coisa toda foi uma porra de um fiasco. Vocês nem sabem como foi ruim. Não deveria ter suspenso a sessão tão depressa. Deveria ter explicado a eles. Eles... não sabem. Nem sabem o que fizeram.

— Juiz — disse Brucie —, ainda não terminou. Temos manifestantes nos corredores e do lado de fora do edifício.

— Onde, do lado de fora?

— Principalmente na escadaria da frente, na 161 st Street, mas também na Walton Avenue. Onde está o seu carro, juiz?

— No lugar de sempre. Na depressão.

— Talvez um de nós devesse levá-lo até a entrada da Concourse.

Kovitsky pensou um instante.

— Fodam-se. Não vou dar a eles essa satisfação.

— Eles nem vão saber, juiz. Não quero assustá-lo, mas já estão lá fora... falando do senhor... Têm um sistema de som instalado e tudo mais.

— Ah, é? — respondeu Kovitsky. — Será que já ouviram falar em obstrução da administração pública?

— Acho que nunca ouviram falar de nada, exceto de armar encrenca, mas sabem como fazer isso.

— Bom, obrigado, Brucie. — Kovitsky começou a sorrir. Voltou-se para Killian. — Lembra-se da vez que o mandei sair do elevador do juiz? Nem me lembro como foi que você entrou.

Killian sorriu e assentiu com a cabeça.

— E você não queria sair, e eu disse que ia mandar prendê-lo por desacato? E você respondeu: “Desacato de quê? Desacato do elevador?” Lembra-se?

— Ah, pode crer que me lembro, juiz, mas sempre tive esperança de que o senhor não se lembrasse.

— Sabe o que foi que me irritou? Você tinha razão. Foi isso que me irritou.

Mesmo antes de o elevador chegar ao primeiro andar, eles ouviram o fantástico PRIIIIIMMMMMMM! do alarme.

— Nossa. Que idiota disparou isso? — exclamou Brucie. Quem é que eles acham que vai responder? Todos os guardas do edifício ja estão a postos.

Kovitsky voltou a ficar muito sério. Balançava a cabeça. Parecia tão pequeno, um homenzinho calvo e ossudo em volumosas vestes negras apertado num elevador sufocante.

— Eles não sabem a gravidade disso... Não sabem porra nenhuma... Sou o único amigo deles, o único amigo...

Quando a porta do elevador se abriu, o barulho do alarme PRRRRRRIIIIIIII! era ensurdecedor. Saíram num pequeno vestíbulo. Uma porta levava à rua. Outra levava ao saguão do andar térreo da ilha-fortaleza. Brucie gritou para Sherman:

— Como é que está pensando em sair daqui?

Quigley respondeu:

— Temos um carro, mas só Deus sabe onde está. O porra do motorista estava aterrorizado só de pensar em dirigir até este edifício.

Brucie perguntou:

— Onde é que ele deveria estar?

Quigley informou:

— Na entrada da Walton Avenue, mas conheço aquele veado, deve estar a meio caminho de Candy.

— Candy?

— É a porra da cidade de onde ele vem do Ceilão, Candy. Quanto mais perto chegávamos da porra deste edifício, mais ele falava da porra dessa cidade de onde ele vem, Candy. A porra da cidade se chama Candy.

Os olhos de Brucie se arregalaram, e ele gritou:

— Ei, juiz!

Kovitsky estava passando pela porta que levava ao corredor interno do edifício.

— Juiz! Não entre aí! Eles estão espalhados por todos os corredores!

“Agora! De novo!” Sherman precipitou-se para a porta e correu atrás da figurinha de preto.

A voz de Killian:

— Sherman! Que diabo está fazendo?!

A voz de Quigley:

— Sherm! Nossa!

Sherman viu-se num vasto saguão de mármore inundado com o eco estupendo do alarme. Kovitsky ia à sua frente, caminhando tão rápido que sua toga se enfunava. Parecia um corvo querendo ganhar altura. Sherman começou a correr para tentar pegá-lo. Um vulto passou correndo por ele. Brucie.

— Juiz! Juiz!

Brucie alcançou Kovitsky e tentou agarrá-lo pelo braço esquerdo. Sherman agora ia logo atrás deles. Com um gesto furioso, Kovitsky obrigou o guarda a largá-lo.

— Juiz, onde está indo?! O que está fazendo?!

— Tenho que dizer a eles! — disse Kovitsky.

— Juiz... vão matá-lo.

— Tenho que dizer!

Sherman percebeu que os outros estavam chegando pelos lados, correndo... o guarda gordo... Killian... Quigley... Todos os rostos no corredor pararam para olhar, tentando descobrir o que em nome de Deus estavam vendo... esse juizinho furioso de toga negra e seus acompanhantes correndo ao lado dele e gritando: “Juiz! Não faça isso!”

Gritos no corredor... “É ele!... Eh! É aquele veado!”... PRRRRIIIIIMMMMM! ... O alarme ensurdecia a todos com as suas ondas sonoras.

Brucie tentou mais uma vez refrear Kovitsky.

— Largue a PORRA DO MEU BRAÇO! — berrou Kovitsky. — Estou lhe dando a PORRA DE UMA ORDEM, BRUCIE!

Sherman desatou num trote para acompanhá-los. Estava apenas meio passo atrás do juiz. Observou os rostos no corredor. “Agora! — outra vez!” Contornaram uma quina do corredor. Estavam no grande saguão moderno que levava ao terraço sobre a 161st Street. Cinquenta ou sessenta curiosos, cinquenta ou sessenta rostos embevecidos encontravam-se no saguão, olhando para o terraço. Pelas portas de vidro Sherman via a silhueta de uma massa de vultos.

Kovitsky alcançou a porta e parou. PRRRRRIIIIIMMMMM! Brucie berrou:

— Não vá lá para fora, juiz! Estou suplicando!

No centro do terraço havia um microfone em um suporte, como o que se encontraria em uma banda de música. Ao microfone achava-se um negro alto de terno preto e camisa branca. Gente negra e gente branca se aglomerava de cada lado dele. Uma mulher branca de cabelo espetado louro-cinza estava junto dele. Um ajuntamento de negros e brancos espalhava-se pelo terraço e pelas escadas que davam acesso aos dois lados. A julgar pelo barulho, centenas, possivelmente milhares de pessoas, encontravam-se na grande escadaria e na calçada lá embaixo, na 161st Street. Então Sherman percebeu quem era o homen alto ao microfone: o reverendo Bacon.

Falava à multidão numa voz de barítono controlada e firme, como se cada palavra fosse mais um passo resoluto do destino.

— Depositamos a nossa confiança nessa sociedade... e nesta estrutura de poder... e o que foi que conseguimos? — Muitos murmúrios e muitos gritos irados da multidão. — Acreditamos nas promessas deles... e o que foi que conseguimos? — Resmungos, gemidos, uivos. — Acreditamos na justiça deles. Disseram-nos que a justiça era uma mulher cega... uma mulher imparcial... entendem?... E que essa mulher não distinguia a cor da nossa pele... E, afinal, quem era essa mulher? Qual é o nome dela? Quando ela faz o seu jogo mentiroso e racista, qual é a máscara que ela usa? — Gritos, vaias, uivos, urros de vingança. — Conhecemos seu rosto, conhecemos seu nome... MY-RON KO-VIT-SKY! — Vaias, uivos, risadas, berros, um ladrido colossal ergueu-se da multidão. — MYRON KO-VIT-SKY! — O ruído cresceu até se transformar num urro. — Mas podemos esperar, irmãos e irmãs... podemos esperar... Esperamos até agora, e não temos outro lugar para ir. PODEMOS ESPERAR! ... Podemos esperar que os carrascos da estrutura de poder mostrem seu rosto. Ele está aí dentro. Ele está aí dentro! — Bacon mantinha o rosto voltado para o microfone e a multidão, mas virou o braço e o dedo estirado para trás na direção do edifício. — E ele sabe que o povo está aqui, porque... ele... não... é... cego... Ele vive amedrontado nesta ilha, num mar poderoso de gente, porque sabe que o povo... e a justiça!... esperam por ele. E não há como escapar! — A multidão estrugiu, e Bacon se curvou um instante para o lado quando a mulher de cabelo espetado louro-cinzento cochichou alguma coisa em seu ouvido.

Naquele instante Kovitsky abriu as duas portas de vidro diante dele. Sua toga se enfunou como enormes asas negras.

— Juiz! Pelo amor de Deus!

Kovitsky parou ao portal, os braços abertos. O momento alongou-se... alongou-se... Os braços baixaram. As asas enfunadas penderam-lhe junto ao corpo frágil. Ele deu as costas e voltou para dentro do saguão. Seus olhos estavam baixos e ele resmungava.

— O único amigo deles, o único amigo deles, porra. — Olhou para o guarda judiciário. — Está bem, Brucie, vamos.

“Não! Agora!” Sherman gritou:

— Não, juiz! Enfrente-os! Irei com o senhor!

Kovitsky virou-se repentinamente e olhou para Sherman. Obviamente nem se dera conta de que ele estava ali. Uma expressão furiosa.

— Que diabo...

— Enfrente-os! — disse Sherman. — Enfrente-os, juiz!

Kovitsky só fez olhar para ele. Por insistência de Brucie estavam agora todos voltando pelo corredor num passo rápido. Os corredores estavam muito mais cheios... uma turba ameaçadora...

— Olhe ali o Kovitsky! — Gritos... um ruído infernal... PRRRRRRIIIIIIMMMMM! — o alarme tocava e tocava e ricocheteava no mármore, redobrando, triplicando... Um homem mais velho, que não era manifestante, surgiu pelo lado, como se quisesse confrontar Kovitsky, apontando e gritando:

— Você...

Sherman atirou-se contra ele e berrou:

— Tire a sua cara suja daqui! — O homem recuou de um salto, a boca pendendo aberta. Sua expressão: medo! “Agora! Outra vez! — meta o punho na barriga dele, amasse o nariz dele até sangrar, meta o salto do sapato no olho dele!”... Sherman virou-se para olhar Kovitsky.

Kovitsky o observava do jeito que se observa um doido varrido. Killian também. E os dois guardas também.

— Você perdeu o juízo? — berrou Kovitsky. — Quer morrer?

— Juiz — respondeu Sherman —, não faz diferença! Não faz diferença!

Ele sorriu. Sentiu o lábio superior se distender sobre os dentes. Deu uma gargalhada furiosa, curta e brusca. Sem liderança a turba no corredor se conteve, sem saber com quem estava lidando. Sherman espiou-lhes os rostos, como se os quisesse obliterar com os próprios olhos. Estava aterrorizado — e muito disposto! — outra vez!

O grupinho se retirou pelos corredores de mármore.