A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 3 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 2

2

GIBRALTAR

 

Na manhã seguinte, ela apareceu a Lawrence Kramer, à luz fraca e cinzenta do raiar do dia, ela, a moça do batom cor de terra. Está do lado dele. Não consegue discernir seu rosto, mas sabe que é a moça do batom cor de terra. Não consegue discernir nenhuma das palavras, tampouco as palavras que rolam como pérolas minúsculas daqueles lábios de batom cor de terra, porém sabe o que está dizendo. “Fique comigo, Larry. Deite-se comigo, Larry.” Ele quer se deitar! Quer. Não há nada que queira mais neste mundo! Então por que não se deita? O que o impede de esmagar os lábios contra aqueles lábios de batom cor de terra? Sua mulher, é isso. Sua mulher, sua mulher, sua mulher, sua mulher, sua mulher...

Acordou com os movimentos ondulantes da mulher engatinhando para os pés da cama. Que figura flácida e desajeitada... O problema era que a cama, extragrande e pousada sobre uma plataforma de compensado, era quase da largura do quarto. Por isso, era necessário engatinhar até os pés ou vencer de alguma forma o comprimento do colchão para chegar ao chão.

Agora chegara ao chão e se curvava sobre uma cadeira para apanhar o roupão de banho. Pela maneira com que a camisola de flanela caía sobre os quadris, ela parecia ter um quilômetro de largura. Imediatamente se arrependeu daquele pensamento. Sentia pruridos de emoção. Minha Rhoda! Afinal de contas, dera à luz fazia apenas três semanas. Estava olhando o corpo que trouxera ao mundo seu primeiro filho. Um filho! Ainda não recuperara a silhueta antiga. Tinha que dar um desconto.

Mesmo assim a ideia não melhorava em nada a visão.

Observou-a contorcer-se para entrar no roupão. E voltar-se em direção à porta. Vinha luz da sala de estar. Com certeza a enfermeira da Inglaterra, srta. Eficiência, já estava acordada e tinindo de eficiência. Na claridade, ele via o rosto pálido, inchado e sem pintura, da mulher em perfil.

Só tinha 29 anos e já estava igualzinha à mãe.

Era a mesma pessoa de novo! Era a mãe! Não havia talvez! Era apenas uma questão de tempo! Tinha o mesmo cabelo avermelhado, as mesmas sardas, o mesmo nariz e as mesmas bochechas gorduchas de camponesa, e até o esboço do queixo duplo da mãe. Uma yenta em embrião! A Maria do shtetl! Jovem e yitzy no Upper West Side.

Semicerrou as pálpebras até formar fendas para que não soubesse que estava acordado. Logo em seguida ela saiu do quarto. Ouviu-a dizer alguma coisa para a enfermeira e para o bebê.

Tinha um jeito de dizer Jo-shu-a numa cadência infantil. Aquele era um nome do qual já estava começando a se arrepender. Se queria um nome judeu, por que não Daniel, ou David, ou Jonathan? Puxou as cobertas por cima dos ombros. Voltaria para a sublime narcose do sono por mais uns cinco ou dez minutos. Voltaria para a moça do batom cor de terra. Fechou os olhos... Não adiantou. Não conseguia trazê-la de volta. A única coisa em que conseguiu pensar foi no que seria a corrida para o metrô se não se levantasse logo.

Por isso, levantou-se. Caminhou pelo colchão para descer. Era como tentar andar pelo fundo de um barco a remo, mas não queria engatinhar. Tão flácido e desajeitado... Usava uma camiseta e uma sunga. Tomou consciência de que sofria daquele mal comum aos jovens, ereção matinal. Foi até a cadeira e vestiu um velho roupão xadrez. Tanto ele quanto a mulher tinham começado a usar roupões desde que a enfermeira inglesa entrara em suas vidas. Um dos muitos e trágicos defeitos do apartamento era que não havia jeito de se ir do quarto ao banheiro sem passar pela sala de estar, onde a enfermeira dormia no sofá-cama, e o bebê habitava um berço sob um móbile-caixa de música de onde pendiam palhacinhos acolchoados. Ouvia-a agora. A caixa de música tocava a melodia “Mande entrar os palhaços”. Tocava repetidas vezes. Plim plim plimplim, plim plim plimplim, plim PLIM plimplim.

Olhou para baixo. O roupão não resolvera o problema. Parecia ter um mastro de barraca por baixo. Mas ao se curvar, assim, dava para disfarçar. Logo, ou atravessava a sala de estar e deixava a enfermeira ver o mastro de barraca, ou passava todo dobrado como se tivesse uma forte dor nas costas. Assim, deixou-se ficar onde estava, na obscuridade deprimente.

“Deprimente” era a palavra certa. A presença da enfermeira tinha tornado Rhoda e ele crucialmente conscientes da pocilga em que viviam. O apartamento inteiro, conhecido como uma unidade de três cômodos e meio no jargão imobiliário de Nova York, era a mutação do que em tempos fora um agradável quarto de dormir, mas nem tão grande assim, no terceiro andar de um palacete, com três janelas que se abriam para a rua. O pseudoquarto em que agora se encontrava na realidade não passava de um cubículo que fora criado com o levantamento de uma parede de gesso. O cubículo abarcava uma das janelas. O que restava do quarto original era agora chamado de sala de estar e incluía as outras duas janelas. Nos fundos, junto à porta de entrada, havia mais dois cubículos, um, a cozinha em que duas pessoas não podiam estar ao mesmo tempo, e o outro, um banheiro. Nenhum dos dois tinha janelas. O lugar lembrava um desses formigueiros que existem à venda, mas lhes custava 888 dólares por mês, com aluguel tabelado. Não fosse a lei de tabelamento de aluguéis, provavelmente custaria 1.500 dólares e estaria fora de cogitação. E tinham ficado felizes de encontrá-lo! Nossa, havia gente formada, de sua idade, 32 anos, por toda a Nova York morrendo de vontade de encontrar um apartamento assim, três cômodos e meio com vista, em um palacete, pé-direito alto, aluguel tabelado, na área da West 70th Street! Verdadeiramente patético, não? Mal conseguiam pagá-lo quando estavam os dois trabalhando, e os salários somados chegavam a 56 mil dólares anuais, 41 mil dólares, deduzidos os impostos. Tinham feito planos em que a mãe de Rhoda lhes daria o dinheiro como uma espécie de presente pelo neto para contratarem uma enfermeira por quatro semanas, até Rhoda poder se recuperar e voltar a trabalhar. Entrementes, procurariam uma estudante para morar com eles e cuidar do bebê em troca de casa e comida. A mãe de Rhoda cumprira sua parte do plano, mas já parecia óbvio que a estudante disposta a dormir num sofá-cama na sala de estar num formigueiro do West Side não existia. Rhoda não poderia voltar a trabalhar. Teriam que se arranjar com os seus 25 mil dólares líquidos, e o aluguel anual dessa pocilga, que, mesmo com a ajuda da lei de tabelamento de aluguéis, era de 10.656 dólares.

Bem, pelo menos essas considerações mórbidas tinham devolvido o seu roupão a uma forma apresentável. Assim sendo, saiu do quarto.

— Bom dia, Glenda — cumprimentou.

— Ah, bom dia, sr. Kramer — respondeu a enfermeira.

Muito calma e britânica, a voz dela. Kramer estava convencido de que realmente não ligava a mínima para sotaques britânicos nem para os britânicos em si. De fato, eles o intimidavam, os britânicos e seu sotaque. No “ah” da enfermeira, um simples “ah”, percebera algo de “Finalmente se levantou, hein?”.

Cinquentona gorducha, ela já estava eficientemente paramentada com seu uniforme branco. O cabelo puxado para trás, num coque perfeito. Já fechara o sofá-cama e pusera as almofadas de volta nos lugares, de modo que a peça retomara a sua feição diurna de móvel de sala de estar forrado de linho sintético amarelo-encardido. Estava sentada na beira da coisa, as costas perfeitamente retas, tomando uma xícara de chá. O bebê achava-se deitado de costas no berço, perfeitamente satisfeito. Perfeita era o segundo nome da mulher. Tinham-na encontrado através da Agência Gough, que um artigo na seção Casa do Times arrolara como uma das melhores e mais elegantes. Com isso estavam pagando o elegante preço de 525 dólares por semana por uma enfermeira inglesa. De vez em quando ela mencionava outros lugares em que trabalhara. Sempre na Park Avenue. Fifth Avenue, Sutton Place... Bem, tanto pior! Agora está enchendo os olhos com um prédio decrépito, sem elevador, no West Side! Eles a chamavam de Glenda. Ela os chamava de sr. Kramer e sra. Kramer, em vez de Larry e Rhoda. Estava tudo errado. Glenda era a própria imagem da fidalguia, tomando chá, enquanto o sr. Kramer, senhor do formigueiro, passava pesadamente a caminho do banheiro, descalço, pernas de fora, despenteado, usando um velho roupão xadrez esmolambado. A um canto, sob uma dracena extremamente empoeirada, a televisão estava ligada. Um clarão anunciava o fim de um comercial, e cabeças sorridentes começavam a falar no Today show. Mas sem som. Ela não cometeria a imperfeição de deixar a TV berrando. Que diabo estava realmente pensando, esse árbitro britânico em seu trono de juiz (um pavoroso sofá-cama) da sordidez chez Kramer?

Quanto à dona da casa, a sra. Kramer, acabava de emergir do banheiro, ainda de roupão e chinelos.

— Larry — exclamou —, olhe a minha testa. Acho que tem alguma coisa, uma urticária. Vi no espelho.

Ainda sonado, Kramer tentou examinar a testa dela.

— Não é nada, Rhoda. Parece uma espinha nascendo.

Isto era outra coisa. Desde que a enfermeira chegara, Kramer tornara-se agudamente consciente do modo de falar de sua mulher. Nunca reparara antes, não muito. Ela era formada pela Universidade de Nova York. Nos últimos quatro anos fora editora na Waverly Place Books. Era uma intelectual, ou pelo menos parecia andar lendo muita poesia de John Ashbery e Gary Snyder quando a conhecera, e tinha muito o que dizer sobre a África do Sul e a Nicarágua. Contudo, trocava as letras de determinadas palavras.

Nisso também era igual à mãe.

Rhoda continuou seu caminho com passos abafados, e Kramer entrou no banheiro-cubículo. O banheiro era típico da Vida em Cortiço. Havia roupa lavada pendurada em toda a extensão do suporte da cortina do chuveiro. Havia outro tanto numa corda que passava em diagonal pela peça, um macacãozinho de bebê, dois babadores, alguns biquínis, diversos pares de meias-calças, e Deus sabe o que mais, nada, é claro, da enfermeira. Kramer teve que se abaixar para chegar ao vaso sanitário. Um par de meias molhadas resvalou por sua orelha. Era revoltante. Havia uma toalha molhada sobre a tampa do vaso. Procurou um lugar para pendurá-la. Não encontrou. Atirou-a ao chão.

Depois de urinar, deslocou-se 30 ou 35 centímetros até a pia, tirou o roupão e a camiseta e deixou-os sobre a tampa do vaso sanitário. Kramer gostava de examinar o rosto e o físico pela manhã. Com as feições largas e pouco proeminentes, o nariz rombudo, o pescoço grosso, ninguém o tomava por judeu, à primeira vista. Parecia grego, eslavo, italiano, até irlandês — de qualquer forma, alguma nacionalidade violenta. Não lhe agradava que estivesse ficando careca no alto, mas de certa maneira isso o fazia parecer forte, também. Estava perdendo cabelos da mesma forma que muitos jogadores de futebol. E o físico... Mas esta manhã sentiu desânimo. Aqueles poderosos deltoides, aqueles maciços trapézios inclinados, aqueles peitorais socados, aquelas fatias arredondadas de músculos, seus bíceps — pareciam murchos. Droga, estava atrofiando. Não pudera se exercitar desde que o bebê e a enfermeira haviam chegado. Guardava seus pesos numa caixa atrás da tina em que estava plantada a dracena, e se exercitava entre a planta e o sofá — e não havia a menor condição de poder se exercitar, grunhir, gemer, fazer força, respirar e olhar-se apreciativamente ao espelho diante da enfermeira inglesa... ou da mítica futura estudante, pensando bem... Vamos encarar a realidade! Está na hora de abandonar esses sonhos infantis! Você agora é um pai de família americano! E nada mais.

Quando saiu do banheiro, encontrou Rhoda sentada no sofá com a enfermeira inglesa, e ambas tinham os olhos grudados no aparelho de TV, e o volume fora aumentado. Era o noticiário do Today show.

Rhoda ergueu os olhos e disse, agitada:

— Veja isto, Larry! É o prefeito! Houve um tumulto no Harlem ontem à noite. Alguém atirou um vidro nele.

Kramer reparou ligeiramente que ela acrescentara uma letra ao dizer vidro. Coisas espantosas apareciam na TV. Um palco — uma briga — corpos arquejantes — e em seguida uma enorme mão encheu a tela e borrou tudo por um instante. Mais gritos, caretas, mais briga, e pura vertigem. Para Kramer, Rhoda e a enfermeira, era como se os rebelados estivessem atravessando a tela e pulando para dentro da sala ao lado do berço de Joshua. E isso era o Today show, e não o noticiário local. Era o que estavam servindo a todos os americanos no café da manhã de hoje, um prato cheio do povo do Harlem se rebelando, justificadamente encolerizado, expulsando o prefeito branco do palco de um auditório. Ali vai a parte de trás da cabeça dele, procurando se proteger. Antes era o prefeito de Nova York. Agora é o prefeito da Nova York Branca.

Quando terminou, os três se entreolharam, e Glenda e a enfermeira falaram com extrema indignação.

— Acho que é absolutamente revoltante. As pessoas de cor não sabem apreciar o que têm neste país. Garanto a vocês. Na Grã-Bretanha não há ninguém de cor na força policial, muito menos em um cargo público importante, como aqui. Ora, vi um artigo ainda outro dia. Há mais de duzentos prefeitos de cor neste país. E ainda querem surrar o prefeito de Nova York. Há gente que não tem consciência da boa vida que tem, se querem saber a minha opinião.

E sacudiu a cabeça, aborrecida.

Kramer e a esposa se entreolharam. Podiam adivinhar que estavam pensando a mesma coisa.

Graças a Deus! Que alívio! Podiam respirar aliviados agora. A srta. Eficiência era racista. O problema é que o racismo ultimamente não era considerado dignificante. Era um indício de origem em cortiços, de inferioridade, de mau gosto. Com que então eram superiores à enfermeira inglesa, afinal. Que alívio dos diabos.

A chuva parara de cair quando Kramer começou a caminhar em direção ao metrô. Estava usando uma velha capa de chuva sobre o terno cinzento habitual, camisa social e gravata. Calçava um par de tênis Nike de corrida, branco com listras laterais. Levava os sapatos marrons de couro numa sacola, uma dessas de plástico branco e escorregadio que se recebe na A&P.

A estação do metrô onde se podia apanhar o trem D para o Bronx ficava na área da 81st Street e do Central Park West. Gostava de andar até o Central Park West pela 77th st Street e dali seguir para a 81, porque assim passava pelo Museu de História Natural. Era um belo quarteirão, o mais belo do West Side, na opinião de Kramer, pois parecia uma cena de rua parisiense; não que já tivesse estado em Paris. A 77th Street era muito larga naquele trecho. De um lado ficava o museu, uma maravilhosa criação do renascimento romântico em pedra vermelha envelhecida. Erguia-se em recuo numa pracinha com árvores. Mesmo num dia nublado como aquele as folhas novas de primavera pareciam brilhar. “Verdant” foi a palavra que lhe passou pela cabeça. Do lado da rua em que estava caminhando, havia um paredão de elegantes edifícios de apartamentos com vista para o museu. Havia porteiros. Ele vislumbrava saguões de mármore. E então pensou na moça de batom cor de terra... Visualizava-a muito claramente agora, com muito mais clareza do que no sonho. Cerrou os punhos. Droga! Ia ligar! Ia telefonar para ela! Ia dar aquele telefonema. Teria que esperar até o fim do julgamento, é claro. Mas ia ligar. Estava cansado de ver outros levarem... A Vida. A moça de batom cor de terra! — os dois se olhando nos olhos, um diante do outro, à mesa de um daqueles restaurantes em madeira clara e tijolo aparente, plantas penduradas, latão, vidro lavrado, menus com lagostim natchez, vitela, algarobo e broa de fubá com pimenta-de-caiena!

Kramer tinha essa visão bem focalizada quando logo adiante, na porta elegante do número 44 da West 77th Street, emergiu um vulto que o assustou.

Era um rapaz de aparência quase infantil, o rosto redondo e os cabelos escuros, caprichosamente penteados para trás. Vestia um sobretudo de sarja mista e macia com gola de veludo ouro-velho e levava uma dessas pastas de couro cor de vinho da Madler ou da T. Anthony da Park Avenue de uma maciez que dizia: “Eu custo quinhentos dólares.” Deu para ver parcialmente o braço uniformizado que mantinha a porta aberta para o homem. Ele caminhava com passinhos enérgicos sob o toldo que avançava sobre a calçada, na direção de um Audi sedã. Havia um motorista no banco dianteiro. E um número — 271 — na janela lateral traseira; um serviço de carros de aluguel. Agora o porteiro corria atrás dele, e o rapaz parou para que o alcançasse e abrisse a porta traseira do carro.

E esse rapaz era... Andy Heller! Não havia dúvida alguma. Era da turma de Kramer na Columbia Law School — e como Kramer se sentira superior quando Andy, o gorducho, inteligente e pequeno Andy, fizera o esperado, ou seja, fora trabalhar no centro para Angstrom & Molner. Andy e centenas iguais a ele iriam passar os próximos cinco ou dez anos curvados sobre uma escrivaninha conferindo vírgulas, citações e frases em maiúsculas para estimular e fortificar a ganância dos agentes hipotecários, dos produtores de artigos de saúde e beleza, árbitros de fusão e compra de empresas e agentes de resseguros — enquanto ele, Kramer, abraçaria a vida e mergulharia até a cintura na vida dos miseráveis e malditos e se sustentaria nos próprios pés nos tribunais para lutar, mano a mano, perante a justiça.

E fora realmente isso que acontecera. Por que então Kramer agora se detinha? Por que não seguia em frente e exclamava: “Oi, Andy”? Estava a menos de seis metros de seu antigo colega de turma. Ao invés, parou e virou a cabeça para a fachada do edifício e levou a mão ao rosto, como se tivesse alguma coisa no olho. Uma ova que ia deixar Andy Heller — enquanto o porteiro mantinha a porta do carro aberta e o chofer esperava o sinal de partir —, uma ova que ia deixar Andy Heller dar de cara com ele e dizer: “Larry Kramer, como vai a vida?”, e em seguida: “Que anda fazendo?” E ele teria que responder: “Bom, sou promotor distrital assistente no Bronx.” Não precisaria acrescentar: “Ganho 36.600 dólares por ano.” Isso todos sabiam. E, durante a conversa, Andy Heller estaria examinando sua capa suja, seu velho terno cinzento, de calça demasiadamente curta, os tênis Nike, a sacola da A&P... Que merda... Kramer continuou parado ali com a cabeça virada, fingindo ter uma poeirinha no olho, até que ouviu a porta do Audi fechar. O som era o de um cofre se fechando. Voltou-se bem a tempo de levar no rosto uma nuvenzinha vaporosa de fumaça de carro alemão de luxo, no instante em que Andy partia para o escritório. Kramer nem quis pensar no aspecto que aquele maldito lugar provavelmente tinha.

No metrô — no trem D com destino ao Bronx —, Kramer postou-se no corredor firmando-se numa barra de aço inoxidável enquanto o carro arremetia, dava guinadas e guinchava. No banco de plástico em frente sentava-se um velho ossudo que parecia se espalhar como limo num muro grafitado. Lia um jornal. A manchete anunciava “TURBA EXPULSA PREFEITO NO HARLEM”. As palavras eram tão graúdas que tomavam a página inteira. No alto, em letras menores: “Volte para a Cidade dos Judeus!” O velho usava um par de tênis de corrida com listas roxas e brancas. Pareciam esquisitas num homem tão velho, mas não havia nada realmente estranho nos tênis, não num trem D. Kramer correu os olhos pelo chão. Metade das pessoas no carro calçava tênis com desenhos espalhafatosos e solas prensadas que lembravam lanchas. Gente nova, velhos, mães com crianças ao colo, e até mesmo as crianças usavam. Não era por causa dos lançamentos da Young Fit & Firm Chic, como acontecia na cidade, onde se viam muitos jovens brancos e bem-vestidos indo trabalhar de manhã usando esses tênis. Não, no trem D a razão para isso era o fato de os tênis serem baratos. No trem D, esses tênis eram como um letreiro ao pescoço onde se lia CORTIÇO ou EL BARRIO.

Kramer resistiu ao impulso de admitir para si mesmo por que ele usava tênis. Deixou o olhar vagar para cima. Havia algumas pessoas olhando para os tabloides com manchetes sobre o tumulto, mas o trem D para o Bronx não era um trem de leitores... Não... seja lá o que acontecesse no Harlem não produziria absolutamente efeito algum no Bronx. Todos no carro contemplavam o mundo com o habitual olhar parado, evitando o contato visual.

Naquele instante percebeu uma dessas quedas de ruído, um desses vazios no estrépito que ocorre quando se abre uma porta entre os carros do metrô. Entraram no carro três rapazes negros, de quinze ou dezesseis anos, usando enormes tênis com cordões longuíssimos, mas enfiados nos ilhoses com precisão, em linhas paralelas, e jaquetas antitérmicas pretas. Kramer se preparou e se esforçou para parecer durão e entediado. Retesou os esternoclidomastóideos, estufando o pescoço como faria um lutador. Um a um... seria capaz de estraçalhar qualquer deles... Mas nunca era um a um... Via rapazes como esses todos os dias no tribunal... Agora os três percorriam o corredor... Andavam com um passo gingado conhecido como “ginga de cafetão”... Ele via essa ginga de cafetão todos os dias no tribunal, também... Nos dias menos frios, no Bronx, havia tantos rapazes se exibindo nas ruas com essa ginga, que ruas inteiras pareciam ondular... Eles se aproximaram, com o indefectível olhar calmo e vazio... Bem, que poderiam fazer?... Passaram por ele, pelos lados... e nada aconteceu... Bem, claro que nada aconteceu... Um touro, um cavalão como ele... seria a última pessoa no mundo com quem se meteriam... Assim mesmo, sempre se alegrava quando o trem chegava na estação da 161st Street.

Kramer subiu as escadas e desembocou na 161st Street. O céu estava desanuviado. Diante dele, ali mesmo, erguia-se a grande concha do Yankee Stadium. Para além do estádio apareciam as estruturas corroídas do Bronx. Dez ou quinze anos antes tinham reformado o estádio. Gastaram centenas de milhares de dólares. Supostamente isso deveria contribuir para “a revitalização do coração do Bronx”. Que piada de mau gosto! Desde então, esse distrito, o 44º, nessas mesmas ruas, tinha se tornado o pior do Bronx em criminalidade. Kramer via isso todos os dias, também.

Começou a subir a colina, de tênis, carregando a sacola da A&P com os sapatos dentro. As pessoas dessas tristes ruas estavam paradas do lado de fora das lojas e lanchonetes ao longo da 161st Street.

Ergueu os olhos — e por um segundo pôde contemplar o velho Bronx em todo o seu esplendor. No alto da colina, onde a 161st Street cortava a Grand Concourse, o sol rompera as nuvens e iluminara a fachada do Concourse Plaza Hotel. Daquela distância, ele ainda podia passar por um hotel de veraneio europeu da década de 1920. Os jogadores de beisebol do Yankee costumavam se hospedar ali durante a temporada, os que podiam pagar, os astros. Sempre os visualizara morando em espaçosas suítes. Joe DiMaggio, Babe Ruth, Lou Gehrig... Só conseguia lembrar esses nomes, embora o pai costumasse falar de muitos outros. Ó douradas colinas judias de outrora! Ali no topo da colina, a 161st Street e a Grand Concourse tinham sido o máximo do sonho judeu, da nova Canaã, o novo bairro judeu de Nova York, o Bronx! O pai de Kramer fora criado a dezessete quarteirões dali, na 178th Street, e o seu sonho mais glorioso fora possuir um apartamento... um dia... num desses magníficos edifícios, na Grand Concourse. Tinham-na construído para ser a Park Avenue do Bronx, só que a nova Canaã seria ainda melhor. A Concourse era mais larga do que a Park Avenue, e fora mais profusamente ajardinada — e aí residia mais uma piada de mau gosto. Queria um apartamento na Concourse? Hoje era possível escolher. O Grand Hotel do sonho judeu era agora um hotel-abrigo, e o Bronx, a Terra Prometida, era 70 por cento negro e porto-riquenho.

Pobre e triste Bronx judeu! Quando tinha 22 anos e acabara de ingressar na faculdade de direito, Kramer começara a pensar no pai como um judeuzinho que ao fim de toda uma vida conseguira finalmente realizar a grande migração diaspórica do Bronx para Oceanside, Long Island, a 32 quilômetros de distância, e que ainda se deslocava diariamente até um depósito de caixas de papelão na área da West 20th Street, em Manhattan, onde era contador-chefe. Ele, Kramer, seria o advogado... o cosmopolita... E agora, passados dez anos, que acontecera? Morava num formigueiro que fazia a casa colonial de três quartos em Oceanside parecer San Simeon e tomava o trem D — o trem D! — para trabalhar todos os dias no... Bronx!

Bem diante dos olhos de Kramer o sol começou a iluminar o outro grande edifício no topo da colina, aquele em que trabalhava, o Edifício da Municipalidade do Bronx. O prédio era um fantástico Partenon de concreto, construído no início da década de 1930 no estilo moderno cívico. Tinha nove andares e cobria três quarteirões, da 161st th Street à 158 Street. Que sincero otimismo possuía quem quer que tivesse projetado aquele edifício na época!

Apesar de tudo, o tribunal mexia com ele. Suas quatro grandes fachadas eram perfeitas apoteoses de esculturas e baixos-relevos. Havia grupos de figuras clássicas em cada canto. Agricultura, Comércio, Indústria, Religião, Artes, Justiça, Governo, Lei e Ordem, Direitos do Homem — nobres romanos usando togas no Bronx! Um sonho dourado de futuro apolíneo!

Hoje, se um daqueles belos mancebos clássicos descesse lá de cima, não sobreviveria tempo suficiente para chegar à 162nd Street e comprar um picolé ou um sanduíche. Eles o moeriam de porrada só para lhe roubarem a toga. Não era brincadeira esse distrito, o 44ª. Do lado da 158th Street, o tribunal dava para o Franz Sigel Park, que, visto da janela do sexto andar, era uma maravilhosa faixa de paisagismo inglês, uma fantasia de árvores, arbustos, grama e arranjos de pedras, que se estendia pela falda sul da colina. Praticamente ninguém, exceto ele, sabia mais o nome do Franz Sigel Park, porque ninguém que tivesse metade do cérebro perfeito se embrenharia o suficiente para chegar à placa que o identificava. Ainda na semana anterior um pobre coitado fora morto a facadas, às 10 horas da manhã, em um dos bancos de concreto, construído em 1971, durante a campanha para “oferecer condições urbanas, revitalizar o Franz Sigel Park e resgatá-lo para a comunidade”. O banco ficava a três metros da entrada do parque. Alguém matara o homem para lhe tirar o rádio portátil, um dos grandes, conhecido na Promotoria Distrital como zero-zero-sete. Ninguém daquela promotoria ia ao parque num dia ensolarado de maio para almoçar, nem mesmo alguém capaz de agarrar noventa quilos como ele. Nem mesmo um oficial de justiça, que usava farda e portava legalmente um 38. Todos permaneciam no interior do prédio, essa ilha-fortaleza do Poder dos brancos como ele, essa Gibraltar no pobre e triste mar dos Sargaços do Bronx.

Na avenida que estava prestes a atravessar, a Walton Avenue, três camburões azul e laranja do Departamento Correcional estavam enfileirados, aguardando para entrar no pátio de serviço do edifício. Os camburões traziam prisioneiros da Casa de Detenção do Bronx, em Rikers Island, e do Tribunal Criminal do Bronx, a um quarteirão de distância, para comparecerem ao Supremo Tribunal Municipal do Bronx, que julgava delitos graves. As salas de audiência estavam localizadas nos andares superiores, e os prisioneiros eram transportados até o pátio de serviço. Dali eram levados de elevador para a carceragem nos andares das salas de audiência.

Não se podia espiar para dentro dos camburões, porque as janelas eram protegidas por telas grossas. Kramer não precisava olhar. Naqueles camburões certamente havia o lote habitual de marginais negros e latinos, além de algum eventual rapaz italiano das vizinhanças da Arthur Avenue e, vez por outra, um garoto irlandês de Woodlawn ou outro gato-pingado que teve o azar de escolher o Bronx para se meter em apuros.

— O rango — Kramer disse de si para si. Qualquer pessoa que o estivesse observando teria realmente visto seus lábios se moverem ao dizer isso.

Dentro de 45 segundos iria descobrir que alguém o estava de fato acompanhando. Mas naquele instante não havia nada de anormal nos camburões azul e laranja e nele dizendo para si mesmo “o rango”.

Kramer atingira aquele ponto baixo na vida de um promotor distrital assistente no Bronx em que se é assaltado pelas Dúvidas. Todo ano, 40 mil pessoas, 40 mil incompetentes, debiloides, alcoólatras, psicopatas, desordeiros, boas almas levadas a algum gesto extremo de cólera, e gente que só poderia ser descrita como perversa, eram presas no Bronx. Sete mil delas eram indiciadas e acusadas, e então entravam no ruminadouro do sistema judiciário — logo ali — pelos portais da Gibraltar, onde se enfileiravam os camburões. Eram aproximadamente 150 novos casos, mais 150 corações sobressaltados e olhares insociáveis, toda semana em que os tribunais e a Promotoria Distrital do Bronx estavam abertos. E para quê? Os mesmos crimes estúpidos, deprimentes, patéticos, horripilantes eram cometidos todos os dias, do mesmo jeito. Que poderia conseguir o promotor distrital assistente, ou qualquer outro, revolvendo incessantemente a sujeira? O Bronx se esboroava e deteriorava um pouquinho mais, e um pouquinho mais de sangue secava em suas rachaduras. As Dúvidas! Uma coisa certamente se conseguia. O sistema era alimentado, e aqueles camburões traziam o rango. Cinquenta juízes, 35 oficiais de justiça, 245 promotores distritais assistentes, um promotor público — pensar nele fez Kramer recurvar os lábios num sorriso, porque com toda a certeza Weiss se encontrava lá em cima no sexto andar, nesse exato momento, berrando com o Canal 4 ou 7 ou 2 ou 5 sobre a cobertura da televisão que não recebera no dia anterior e queria hoje — e só Deus saberia quantos advogados penalistas, defensores públicos, escreventes, técnicos, auxiliares, oficiais de justiça, oficiais de custódia, assistentes sociais, investigadores especiais, peritos judiciais — que multidão a ser alimentada! E toda manhã o rango chegava, o rango, e, com ele, as Dúvidas.

Kramer acabara de pousar o pé na rua quando um grande Pontiac Bonneville passou em alta velocidade, uma verdadeira banheira, com fantásticas projeções na carroceria, tipo de carrão de 6 metros que tinham parado de fabricar por volta de 1980. Mergulhou de nariz, cantando os pneus, até parar na esquina mais distante. A porta do Bonneville, uma gigantesca superfície de metal moldado com quase metro e meio de largura, se abriu com um estalido surdo e melancólico, e um juiz chamado Myron Kovitsky desceu. Tinha uns sessenta anos, era baixo, magro, careca, rijo, com um nariz adunco, olhos fundos e boca severa. Pela janela traseira do Bonneville, Kramer viu uma silhueta escorregando para o assento do motorista, que o juiz deixara vazio. Devia ser a mulher dele.

O som da enorme porta do carro velho e a visão daquela figurinha descendo eram deprimentes. O juiz, Mike Kovitsky, vinha trabalhar numa banheira sebosa com praticamente dez anos de uso. Como juiz do Supremo Tribunal ele ganhava 60.100 dólares anuais. Kramer conhecia as cifras de cor. Talvez lhe restassem 45 mil dólares líquidos. Para um homem de sessenta anos nos altos escalões da profissão legal, isso era patético. No centro... no mundo de Andy Heller... estavam pagando o mesmo salário como piso a gente recém-saída da faculdade de direito. E esse homem cujo carro faz chuóp todas as vezes em que a porta se abre está no topo da hierarquia aqui nesta ilha-fortaleza. Ele, Kramer, ocupava uma posição incerta no escalão intermediário. Se jogasse corretamente sua cartada e conseguisse ganhar as boas graças da organização democrática no Bronx, esse chuóp! era o ápice a que poderia aspirar, dali a trinta anos.

Kramer atravessara metade da rua quando a coisa começou:

— Eh! Kramer!

Era um vozeirão. Kramer não era capaz de dizer de onde vinha. — Veadão!

Hum! Isso o fez parar instantaneamente. Uma sensação — um som — como um vapor sibilante — encheu seu cérebro.

— Ei, Kramer, seu merdinha!

Era outra voz. Eles...

— Eh! Cabeça rachada!

Vinham da traseira do camburão, o camburão azul e laranja, o mais próximo dele, a menos de nove metros de distância. Não os via. Não conseguia distingui-los através da tela das janelas.

— Eh! Jacozinho! Cu de judeu!

Jacozinho! Como sabiam que era judeu? Ele não parecia — Kramer não era um — por que diriam — isto o sacudiu!

— Eh! Kramer! Seu arrombado! Vem lamber meu cu!

— Eeeiiiii, caaaaara, vá tomá no cu! Vá tomá no culo!

Uma voz latina — o barbarismo da pronúncia em si enterrava a faca mais fundo.

— Eh! Seu merda!

— Eeeeiiii! Seu lambe-cu! Seu lambe-cu!

— Eh! Kramer! Põe no cu da mãe!

— Eeeeiiii! Caaaara! Vá se foder! Vá se foder!

Era um coro! Um jorro de obscenidades! Um Rigoletto saído do esgoto, da goela podre do Bronx!

Kramer continuava no meio da rua. Que fazer? Ele examinou o camburão.

Não conseguia distinguir nada. Quais deles?... Quais... entre a interminável procissão de negros e latino-americanos funestos... Mas não! Não olhe! Afastou o olhar. Quem o estava observando? Deveria receber essas inacreditáveis ofensas e continuar a caminhar até a entrada da Walton Avenue, enquanto despejavam mais xingamentos sobre sua pessoa, ou deveria enfrentá-los?... Enfrentá-los? Como?... Não! Fingiria que não era com ele que gritavam... Quem saberia a diferença... Continuaria a subir a 161st Street e contornaria até a entrada principal! Ninguém precisava saber que era com ele! Esquadrinhou a calçada da entrada da Walton Avenue, próxima aos camburões... Ninguém além dos cidadãos pobres e tristes de costume... Tinham parado, surpresos. Estavam observando o camburão. O guarda! O guarda na entrada da Walton Avenue o conhecia! Ele saberia que estava tentando escapar como se nada tivesse acontecido! Mas não estava no posto... Provavelmente se escondera na entrada para não ter que tomar nenhuma atitude. Então Kramer viu Kovitsky. O juiz se encontrava na calçada a uns cinco metros da entrada. Estava parado com os olhos cravados no camburão. Então olhou diretamente para Kramer. Merda! Ele me conhece! Sabe que estão gritando para mim! A figurinha que acabara de descer — chuóp! — de seu Bonneville interpunha-se entre Kramer e uma retirada tranquila.

— Eh! Kramer! Seu cagão!

— Ei! Seu careca escroto!

— Eeeeeiiii! Enfia essa careca no cu! Enfia essa careca no cu!

Careca? Por que careca? Ele não era careca. Estava perdendo um pouquinho de cabelo, filhos da mãe, mas ainda estava muito longe de ser careca! Espere aí! Não era com ele — tinham avistado o juiz, Kovitsky. Agora tinham dois alvos.

— Eh! Kramer! Que está levando na sacola, cara?

— Ei, seu careca chifrudo!

— Seu cabeça de penico!

— Está levando os colhões na sacola, Kramer?

Estavam na mesma situação, ele e Kovitsky. Agora não ia conseguir escapulir pela entrada da 161st Street. Então continuou a atravessar a rua. Sentia-se como se estivesse debaixo de água. Deu uma olhada em Kovitsky. Mas Kovitsky deixara de observá-lo. Caminhava em linha reta para o camburão. Abaixara a cabeça. Tinha uma expressão feroz no olhar. Dava para ver o branco dos seus olhos. As pupilas pareciam dois raios da morte faiscando sob as pálpebras. Kramer ja o vira no tribunal assim... a cabeça abaixada e os olhos faiscando.

As vozes no interior do camburão tentaram fazê-lo retroceder.

— Que está olhando, seu velho broxa?

— Ahhhggghh, vem! Vem, bimbinho!

Mas o coro estava perdendo o ritmo. Eles não sabiam o que pensar daquele homenzinho furioso.

Kovitsky foi direto ao camburão e tentou encará-los através da tela. Levou as mãos aos quadris.

— Eh! O que está olhando?

— Chiii! Vamos lhe mostrar um troço, cara!

Mas estavam perdendo a animação. Agora Kovitsky caminhava para a frente do camburão. Voltou a olhar enfurecido para o motorista.

— Está... ouvindo... isso? — perguntou o juizinho apontando para a traseira do camburão.

— Hum? — exclamou o motorista. — Que foi? — Não sabia o que dizer.

— Está surdo, seu porra? — perguntou Kovitsky. — Seus prisioneiros... seus... prisioneiros... Você é um oficial do Departamento Correcional...

E começou a sacudir o dedo no nariz do homem.

— Seus... prisioneiros... Você deixa seus prisioneiros fazerem... essa merda... com cidadãos desta comunidade e com membros deste tribunal?

O motorista era um sujeito gordo e moreno, atarracado, de uns cinquenta anos, ou talvez de banhuda e grisalha meia-idade, cumprindo pena perpétua no serviço público... e de repente seus olhos e sua boca se abriram, sem emitir nenhum som, ergueu os ombros, virou a palma das mãos para cima e os cantos da boca para baixo.

Era o gesto primordial das ruas de Nova York, a expressão que queria dizer: “E daí? Que quer que eu faça?” E mais especificamente neste caso: “Que quer que eu faça, que entre aí atrás nessa gaiola com esse bando?”

Era o velho apelo de misericórdia nova-iorquino, irretorquível e inegável.

Kovitsky encarou o homem e sacudiu a cabeça como se faz quando alguém acaba de se deparar com um caso perdido. Então deu meia-volta e se dirigiu para a traseira do camburão.

— Aí vem o Jacozinho!

— Ahhhn! Ahhhn! Ahhhn!

— Vem chupar meu pau, Meritíssimo!

Kovitsky olhou fixamente para a janela, ainda procurando divisar o inimigo através da tela grossa. Então inspirou profundamente, e se ouviu um fantástico ruído de ar entrando em suas narinas; além disso, um ronco profundo em seu peito e garganta. Parecia incrível que um som vulcânico desses pudesse ser produzido por um corpo tão franzino. Então ele cuspiu. Atirou uma prodigiosa quantidade de escarro na janela do camburão. A gosma atingiu a tela e ficou pendurada ali, uma enorme ostra líquida e amarela, parte da qual começou a escorrer como se fosse um fio repugnante e virulento de goma ou melado com um laganho na ponta. E ficou ali, brilhando ao sol, para aqueles que estavam dentro, quem quer que fossem, contemplarem à vontade.

Isso os atordoou. O coro parou. Por um instante estranho e febril não havia mais nada no mundo, no sistema solar, no universo, em toda a astronomia, exceto a gaiola e esse langanho de escarro brilhando, escorrendo, oscilando à luz do sol.

Então, mantendo a mão direita junto ao peito de modo que ninguém na calçada pudesse vê-la, o juiz fez um gesto com o dedo médio, deu as costas e caminhou para a entrada do edifício.

Estava a meio caminho da porta quando eles recuperaram o fôlego.

— Uuuuhhh, vá tomar no cu você também, cara!

— Quer... briga... toma lá...

Mas já não estavam tão animados. O terrível espírito de revolta do camburão fracassara diante do arroubo de fúria daquele homenzinho de aço.

Kramer correu atrás de Kovitsky e alcançou-o quando ia entrando pela porta da Walton Avenue. Tinha de alcançá-lo. Tinha de lhe mostrar que acompanhara tudo. Os dois tinham recebido aqueles xingamentos sórdidos, lá fora.

O guarda reaparecera à porta.

— Bom dia, juiz — cumprimentou como se fosse apenas mais um dia qualquer na ilha-fortaleza de Gibraltar.

Kovitsky mal o olhou. Estava preocupado. Tinha a cabeça baixa.

Kramer tocou-lhe o ombro.

— Puxa, juiz, o senhor é demais! — Kramer sorria radiante, como se os dois tivessem acabado de travar uma grande batalha, ombro a ombro. — Eles se calaram! Não pude acreditar! Eles se calaram!

Kovitsky parou e examinou Kramer de alto a baixo, como se olhasse para alguém que nunca tivesse visto antes.

— Um porra inútil — disse o juiz.

“Ele está me culpando por não ter feito nada, por não ter ajudado.” — Mas no instante seguinte Kramer percebeu que Kovitsky estava na realidade se referindo ao motorista do camburão.

— Bem, o pobre filho da mãe — continuou Kovitsky — está aterrorizado. Eu me envergonharia de ter um emprego daqueles se fosse um porra medroso como ele.

Parecia estar falando mais consigo mesmo do que com Kramer. Continuou falando sobre o porra isso e o porra aquilo. Kramer mal registrava o palavrão. O tribunal era como o exército. Dos juízes até os guardas havia um adjetivo ou particípio, ou que nome tivesse, que servia para tudo, e que depois de algum tempo se tornava tão natural quanto respirar. Não, os pensamentos de Kramer galopavam adiante. Temia que as próximas palavras a saírem da boca de Kovitsky pudessem ser “Porra, por que ficou parado ali, sem fazer nada?” Já estava preparando desculpas. “Não sabia dizer de onde vinha... Não sabia se vinha do camburão” ou...

A iluminação fluorescente produzia no saguão uma névoa fraca e tóxica de clínica de radiografia.

— ... essa história de judeuzinho — dizia Kovitsky. Então lançou um olhar a Kramer que exigia claramente uma resposta.

Kramer não sabia que diabo o juiz estivera dizendo.

— Jacozinho?

— É, “Aí vem o Jacozinho” — disse Kovitsky. — “Birrinho.” Que diferença faz, “birrinho”. — Riu, genuinamente divertido com a ideia. — “Birrinho”... Mas “Jacozinho”... É veneno puro. Isso é ódio! Isso é antissemitismo. E para quê? Não fossem os judeus, eles ainda estariam asfaltando ruas sob a mira de escopetas na Carolina do Sul; é o que esses porras estariam fazendo, pobres filhos da mãe.

Um alarme soou. Um toque nervoso invadiu o saguão. Martelou os ouvidos de Kramer em ondas. O juiz Kovitsky teve que elevar a voz para se fazer ouvir, mas nem olhou para os lados. Kramer não piscava um olho. O alarme significava que um prisioneiro escapara ou que o irmãozinho magricela de um malfeitor sacara um revólver na sala de audiências, ou algum réu gigantesco agarrara um escrivão de 60 quilos e lhe torcera o braço contra as costas. Ou talvez fosse apenas um incêndio. As primeiras vezes que Kramer ouvira o alarme na ilha-fortaleza de Gibraltar, seus olhos se arregalaram inquietos e ele se preparou para o tropel de guardas, usando cassetetes militares e brandindo uns 38, a correr pelos andares de mármore à caça de algum doido em tênis supergráficos que, impelido pelo medo, fazia 30 metros em 8,4 segundos. Depois de algum tempo deixou de se importar. Era o estado normal de alerta vermelho, pânico e confusão no Edifício da Municipalidade do Bronx. A toda a volta de Kramer e do juiz as pessoas giravam a cabeça em todas as direções. Que rostos tristes... Entravam na Gibraltar pela primeira vez, Deus sabe em que triste missão.

De repente, Kovitsky apontou para o chão e perguntou:

— ... é isso, Kramer?

— Isso? — repetiu Kramer, tentando desesperadamente imaginar a que se referia o juiz.

— Essa porra desses sapatos — disse Kovitsky.

— Ah! Sapatos — disse Kramer. — São tênis de corrida, juiz.

— É ideia do Weiss?

— Nããão — respondeu Kramer, rindo como se motivado pela piada do juiz.

— Correndo pela justiça? É isso que Abe mandou vocês fazerem, correr pela justiça?

— Não, não, não. — Mais risos e um grande sorriso, já que Kovitsky obviamente adorara essa frase, “correndo pela justiça”.

— Meu Deus, cada garoto que assalta uma mercearia aparece no meu tribunal usando uma merda dessas, e agora vocês também?

— Nããão-ho-ho.

— Acha que vai entrar na minha câmara com isso?

— Nãããããão-ho-ho-ho! Nem passaria pela minha cabeça, juiz.

O alarme continuava a tocar. Os recém-chegados, as caras novas e tristes que nunca tinham estado no interior da cidadela, olhavam para tudo com olhos e bocas muito abertos, e viam um velho branco e careca de terno cinza, camisa branca e gravata, e um jovem branco em vias de se tornar careca, de terno cinza, camisa branca e gravata, parados ali, conversando, sorrindo, tagarelando, arejando a língua; logo, se esses dois brancos, que, de forma tão óbvia, faziam parte do Poder, estavam simplesmente parados ali, sem sequer altear uma sobrancelha, não poderia ser tão grave assim.

Enquanto o alarme percutia em sua cabeça, Kramer foi se sentindo cada vez mais deprimido.

Ali e então decidiu-se. Ia fazer alguma coisa — algo surpreendente, algo intempestivo, algo desesperado, o que quer que fosse preciso. Ia cortar as amarras. Ia sair daquela sujeira. Ia incendiar o céu, agarrar a Vida para si...

Conseguia visualizar de novo a moça de batom cor de terra, com a mesma nitidez que a veria se estivesse ali, ao lado dele, naquele lugar triste e sombrio.