A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 10 de 34

Páginas do PDF

A Fogueira das Vaidades

Capítulo 9

9

UM INGLÊS CHAMADO FALLOW

 

Dessa vez a explosão do telefone levou seu coração à taquicardia, e cada contração fazia o sangue irrigar sua cabeça com tanta pressão — um enfarte!, ia ter um enfarte!, deitado ali sozinho num pardieiro suspenso americano! — um enfarte! O pânico cresceu em seu peito. O monstro subiu direto à tona e mostrou o focinho.

Fallow abriu um olho e viu o telefone jazendo em seu ninho de Streptolon. Sentia-se tonto e nem ao menos levantara a cabeça. Grandes placas de remela flutuavam diante do seu rosto. O sangue palpitante desmanchava a gema de mercúrio em placas, e as placas saíam pelo olho. O telefone explodiu de novo. Fechou um olho. O focinho do monstro estava logo atrás de sua pálpebra. Aquela história de pedofilia...

E a noite passada tinha começado como uma noite tão normal!

Dispondo de menos de quarenta dólares para viver nos próximos três dias, ele fizera o de sempre. Chamara um ianque. Telefonara para Gil Archer, o agente literário, que era casado com uma mulher cujo nome Fallow nunca conseguia lembrar. Tinha sugerido que se encontrassem no Leicester’s para jantar, dando a impressão de que estaria acompanhado de uma moça. Archer chegara com a esposa enquanto ele chegara sozinho. Naturalmente, nas circunstâncias, Archer, o ianque afável e educado, pagara a conta. Uma noite tão calma; uma noite ainda tão no começo; uma noite tão rotineira para um inglês em Nova York, uma noite sem graça financiada por um ianque; estava realmente pensando em se despedir e ir para casa. E então Caroline Heftshank e aquele amigo artista, um italiano, Filippo Chirazzi, entraram, pararam à mesa, sentaram-se, e Archer perguntou se gostariam de beber alguma coisa, e o outro sugeriu por que não pediam mais uma garrafa de vinho, e Archer pedira outra garrafa de vinho, e beberam, e beberam mais uma, e mais uma, e agora o Leicester’s estava apinhado e a pleno vapor com todos os rostos habituais, e Alex Britt-Withers mandou um de seus garçons oferecer uma rodada de bebida por conta da casa, o que fez Archer se sentir socialmente importante, reconhecido pelo proprietário, esse tipo de coisa — os ianques gostavam muito disso — e Caroline Heftshank não largava seu belo e jovem italiano, Chirazzi, que posava com o bonito perfil para o alto, como se as pessoas devessem se sentir privilegiadas só de estarem respirando o mesmo ar que ele. St. John veio de outra mesa para admirar o signor Chirazzi, para desagrado de Billy Cortez, e o tal Chirazzi disse a St. John que um pintor precisava pintar com “olhos de criança” e St. John disse que ele próprio tentava ver o mundo com olhos de criança, ao que Billy Cortez retorquira: “Ele disse de uma criança, St. John, não de um pedófilo.” O signor Chirazzi posou mais um pouco, com o pescoço fino e o nariz de Valentino emergindo de uma ridícula camisa Punk azul-elétrico, com uma gola de 2 centímetros e uma gravata com cintilações cor-de-rosa, e então Fallow disse que era mais pós-moderno para um pintor ter os olhos de um pedófilo do que os olhos de uma criança, e que achava disso o signor Chirazzi? Caroline, que estava bem bêbada, disse a ele para deixar de ser burro, disse-o com bastante rispidez, e Fallow recuou, tencionando apenas fazer uma pose para caçoar do jovem pintor, mas perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Muitas risadas. Quando se levantou estava tonto e se apoiou em Caroline só para se firmar, mas o jovem signor Chirazzi se ofendeu, das profundezas de sua máscula honra italiana, e tentou empurrar Fallow, e Fallow e Caroline caíram, e Chirazzi tentou saltar em cima de Fallow, e St. John, sabe-se lá por quê, atirou-se sobre o belo italiano, e Billy Cortez gritou, e Fallow lutou para se levantar, carregando um enorme peso, e Britt-Withers estava junto dele, berrando: “Pelo amor de Deus!”, e então um monte de gente estava em cima dele, e saíram todos embolados pela porta de entrada que dava para a calçada da Lexington Avenue...

O telefone explodiu novamente, e Fallow ficou aterrorizado com o que poderia ouvir caso atendesse. Não se lembrava de nada desde a hora em que haviam saído embolados para a calçada. Pôs os pés para fora da cama, e aquilo tudo continuava a rugir e a fervilhar dentro de seu crânio, e todo o seu corpo doía. Engatinhou pelo tapete até o telefone que explodia e deitou-se ao lado dele. Sentia o tapete seco, metálico, empoeirado e sujo contra o rosto.

— Alô?

— Eeeeiii, Pete! Como vai?

Era uma voz alegre, uma voz de ianque, uma voz de Nova York, uma voz de Nova York particularmente inculta. Fallow achou essa voz ianque ainda mais irritante do que o “Pete”. Bom, pelo menos não era The City Light. Ninguém de The City Light lhe telefonaria com uma voz tão animada.

— Quem é? — perguntou Fallow. Sua voz soava como a de um animal na toca.

— Nossa, Pete, que voz horrível! Ainda tem pulso? Ei! Aqui é Al Vogel.

A notícia o fez fechar de novo os olhos. Vogel era uma dessas celebridades ianques típicas que, para um inglês que lesse sobre elas em Londres, pareciam muito coloridas, irrefreáveis e moralmente admiráveis. Em pessoa, em Nova York, sempre acabavam sendo a mesma coisa. Eram ianques: ou seja, chatos e grossos. Vogel era muito conhecido na Inglaterra como um advogado americano cuja especialidade eram as causas políticas antipáticas. Defendia radicais e pacifistas de maneira bastante semelhante à de Charles Garry, William Kunstler e Mark Lane no passado. Antipática, é claro, queria dizer antipática apenas para as pessoas comuns. Os clientes de Vogel eram decerto bastante simpáticos à imprensa e aos intelectuais nas décadas de 1960 e 1970, especialmente na Europa, onde qualquer pessoa defendida por Albert Vogel ganhava asas, uma auréola, uma toga e uma tocha. Poucos desses santos dos últimos dias, porém, tinham dinheiro e Fallow muitas vezes se perguntava de que vivia Vogel, principalmente porque a década de 1980 não lhe fora muito propícia. Na década de 1980 nem mesmo a imprensa e os intelectuais tinham paciência com o tipo de clientela irascível, espumante, mal-humorada, amante da miséria, drogada, em que ele se especializara. Ultimamente Fallow andava esbarrando nesse grande defensor nas festas mais extraordinárias. Vogel ia à inauguração de um estacionamento (e Fallow dizia “oi” para ele).

— Ôô, hi-i-i-i — disse Fallow terminando num gemido.

— Liguei para o seu escritório primeiro, Pete, e disseram que não o tinham visto.

“Mau”, pensou Fallow. Perguntou-se quando, se, por quê, onde dera seu telefone de casa a Vogel.

— Você ainda está aí, Pete?

— Hummmmmmmm. — Fallow conservava os olhos fechados. Não tinha noção de altura. —Tudo bem. Estou trabalhando em casa, hoje.

— Tem uma coisa que gostaria de conversar com você, Pete. Acho que dá uma reportagem incrível.

— Hummmm.

— É, só que preferia não entrar em detalhes pelo telefone. Vamos fazer o seguinte. Por que não vem almoçar comigo? Encontro-o no Regent’s Park à uma hora.

— Hummmm. Não sei, Al. O Regent’s Park... Onde fica?

— No Central Park South, perto do New York Athletic Club.

— Hummmmm.

Fallow se dilacerava entre dois instintos profundos. Por um lado, a ideia de se levantar do chão, de sacudir a gema de mercúrio uma segunda vez, sem nenhum outro motivo além de escutar um chato americano decadente durante uma ou duas horas... Por outro, um almoço gratuito num restaurante. O pterodátilo e o brontossauro estavam enlaçados num combate mortal no penhasco de onde se descortinava o Continente Perdido.

A boca-livre ganhou, como o fizera muitas vezes no passado.

— Tudo bem, Al. Vejo você à uma hora. Onde é mesmo o restaurante?

— No Central Park South, Pete, junto ao New York Athletic Club. É um lugar agradável. Você pode apreciar o parque. Pode admirar a estátua de José Martí a cavalo.

Fallow se despediu e fez força para se pôr de pé; a gema deu guinadas para lá e para cá, e ele meteu o pé na armação metálica da cama. A dor foi terrível, mas sintonizou o seu sistema nervoso central. Tomou um banho de chuveiro no escuro. A cortina de plástico do chuveiro o sufocava. Quando fechava os olhos tinha a sensação de que estava adernando. De tempos em tempos tinha que se segurar no crivo do chuveiro.

O Regent’s Park era o tipo de restaurante nova-iorquino preferido pelos homens casados que tinham casos com mulheres jovens. Era imponente, lustroso, solene, com muito mármore por dentro e por fora, colossalmente pretensioso, com uma hauteur que atraía principalmente as pessoas que se hospedavam no Ritz-Carlton, Park Lane, St. Moritz e Plaza, hotéis que ficavam próximos. Na história de Nova York nenhuma conversa jamais começara assim: “Estava almoçando no Regent’s Park no outro dia e...”

Cumprindo o prometido, Albert Vogel arranjara uma mesa junto à grande janela. Isso não era muito difícil no Regent’s Park. Todavia, lá estava o parque, em toda a sua glória primaveril. E lá estava a estátua de José Martí, que Vogel prometera. O cavalo de Martí estava empinado e o grande revolucionário cubano curvava-se perigosamente para a direita da sela. Fallow desviou os olhos. Uma estátua instável no parque era demais para aguentar.

Vogel estava na sua habitual animação. Fallow observava seus lábios se moverem sem ouvir uma palavra. O sangue fugiu do rosto de Fallow, depois do peito e dos braços. Sua pele se tornou fria. Em seguida um milhão de peixinhos de fogo tentaram escapar de suas artérias e alcançar a superfície. O suor brotou-lhe na testa. Perguntou-se se estaria morrendo. Era assim que os ataques cardíacos começavam. Lera isso. Perguntou-se se Vogel entenderia de ressuscitação coronária. Vogel parecia uma avozinha. Seu cabelo era branco; não grisalho, mas de um branco puro e sedoso. Era baixo e gorducho. Nos seus dias de glória também fora gorducho mas tinha uma aparência combativa, como os ianques gostavam de dizer. Agora sua pele era rosada e delicada. As mãos eram minúsculas, e cordões de veias corriam até os nós dos dedos. Uma velhota alegre.

— Pete — perguntou Vogel —, o que vai beber?

— Nadinha — disse Fallow, exagerando na ênfase. Em seguida pediu ao garçom: — Poderia me trazer água?

— Quero margarita com gelo — disse Vogel. — Tem certeza de que não vai mudar de ideia, Pete?

Fallow sacudiu a cabeça. Isso foi um erro. Um martelo envenenado começou a malhar sua cabeça.

— Nem unzinho para virar o motor?

— Não, não.

Vogel descansou os cotovelos na mesa, curvou-se para a frente e começou a examinar o salão, e seus olhos se fixaram numa mesa ligeiramente recuada. A mesa havia um homem de terno cinzento e uma mocinha de uns dezoito anos com vistosos cabelos louros, longos e lisos.

— Está vendo aquela moça? — perguntou Vogel. — Seria capaz de jurar que estava nesse comitê, ou que nome tenha, na Universidade de Michigan.

— Que comitê?

— Esse grupo estudantil. Organizam programas de palestras. Dei uma palestra na Universidade de Michigan duas noites atrás.

“E daí?”, pensou Fallow. Vogel tornou a espiar por cima do ombro.

— Não, não é ela. Mas, puxa vida, parece demais. Esse diabo dessas garotas universitárias — quer saber por que as pessoas aceitam entrar no circuito de palestras neste país?

“Não”, pensou Fallow.

— Muito bem, pelo dinheiro. Mas, fora isso, quer saber por quê?

Os ianques constantemente repetiam perguntas introdutórias.

— O diabo dessas garotas. — Vogel balançou a cabeça e ficou olhando distraído por um momento, como se estivesse atordoado só de pensar. — Juro por Deus, Pete, a pessoa tem que se segurar. De outro modo, se sente desesperadamente culpado. Essas moças... hoje... bem, quando eu era rapazinho, o barato era que, ao se entrar para a universidade, podia-se beber quando se tinha vontade. Certo? Essas moças vão à universidade para poderem transar quando têm vontade. E quem é que elas querem? Essa é a parte realmente patética. Querem rapazes saudáveis e bonitões da idade delas? Não. Sabe quem? Querem... Autoridade... Poder... Fama... Prestígio... Querem transar com os professores! Os professores atualmente ficam malucos nas universidades. Sabe, quando o movimento estudantil estava no auge, uma das coisas que tentamos fazer no campus foi destruir as barreiras da formalidade entre o corpo docente e os alunos, porque ela não passava de um instrumento de controle. Mas agora, nossa mãe, eu fico pensando... Acho que todas querem transar com o pai, se acreditarmos em Freud, eu não acredito. Sabe, esse é um dos pontos em que o movimento feminista não fez progressos. Quando uma mulher chega aos quarenta, seus problemas são tão grandes então quanto eram antes... e um cara como eu nunca esteve numa posição tão boa. Não sou tão velho, mas, puxa vida, tenho cabelos grisalhos...

“Brancos”, pensou Fallow, “como os de uma velha.”

— ... e isso não faz diferença alguma. Um leve toque de celebridade e elas caem em cima. Simplesmente caem em cima. Não estou contando vantagem, porque é muito patético. E o diabo dessas moças, cada qual é mais espetacular que a outra. Gostaria de fazer uma palestra sobre esse assunto, mas elas provavelmente não entenderiam o que eu diria. Não têm referenciais de nada. A palestra que fiz anteontem foi sobre os compromissos estudantis na década de 1980.

— Eu estava doido para saber — disse Fallow guturalmente, sem mover os lábios.

— Perdão?

Os ianques diziam “perdão?” em vez de “o quê?”

— Nada.

— Falei-lhes como eram os campi há quinze anos. — Seu rosto se anuviou. — Mas não sei... quinze anos atrás, cinquenta anos, cem anos... elas não possuem referenciais. Tudo é muito remoto. Dez anos... cinco anos... Cinco anos atrás foi antes do surgimento do walkman. Não conseguem nem imaginar.

Fallow parou de ouvir. Não havia maneira de poder desviar Vogel de seu curso. Era à prova de ironia. Fallow olhou para a moça de cabelos longos e louros. Pancadaria no restaurante. Caroline Heftshank e o olhar assustado em seu rosto. Será que ele fizera alguma coisa pouco antes de todos saírem embolados pela porta? O que quer que tenha sido — ela mereceu —, mas o que fora? A boca de Vogel estava se movendo. Repassava a palestra inteira. As pálpebras de Fallow se fecharam. O monstro varou a superfície, se debateu e o espiou. Fallow encarou seu focinho nojento. Agora o monstro o tolhera. Ele não conseguia se mexer.

— ... Manágua? — perguntou Vogel.

— O quê?

— Já esteve lá? — perguntou Vogel.

Fallow sacudiu a cabeça. A oscilação o deixou nauseado.

— Devia ir. Todo jornalista devia ir. É do tamanho de... ah, não sei, East Hampton. Se é que chega a tanto. Gostaria de ir lá? Seria bem fácil conseguir.

Fallow não quis sacudir a cabeça de novo.

— É essa a história que queria me contar?

Vogel fez uma pausa momentânea, como se avaliasse o conteúdo sarcástico do comentário.

— Não — respondeu —, mas não é uma má ideia. Somente um cinquenta avos de tudo o que deveria ser dito sobre a Nicarágua é publicado pela imprensa deste país. Não, eu me referia a uma coisa que aconteceu no Bronx três dias atrás. Poderia ter sido na Nicarágua, se vivêssemos lá. Em todo o caso, sabe quem é o reverendo Bacon, não sabe?

— Acho que sim.

— Ele é um... bom, ele é um... você já leu sobre ele ou o viu na TV, não?

— Já.

Vogel riu.

— Quer saber onde o vi pela primeira vez? Num gigantesco apartamento dúplex na Park Avenue, o apartamento de Peggy Fryskamp, no tempo em que estava interessada na Irmandade dos Gerônimos. Deu uma festa beneficente. Deve ter sido no fim da década de 1960, início da década de 1970. Havia esse cara, o Flying Deer. Falava à alma, como costumávamos dizer. Havia sempre a conversa da alma, e a conversa do dinheiro. De qualquer modo, ele fazia a conversa da alma, a conversa espiritual. Ela não sabia que o filho da mãe estava bêbado. Achou que era só conversa de índio, aquele jeito amalucado de falar. Quinze minutos depois ele vomitou em cima do piano de Peggy, um Duncan Phyfe de 80 mil dólares — nas teclas, nas cordas, nos marteletes. Sabe, aqueles marteletes de feltro? Ah, foi um horror. Ela nunca conseguiu esquecer. Aquele panaca perdeu um bom negócio naquela noite. E sabe quem foi que lhe passou uma descompostura? O reverendo Bacon. Foi. Ele estava se preparando para pedir o apoio de Peggy para alguns negócios que tinha em andamento e quando esse Flying Deer devolveu todos os salgadinhos por cima do Duncan Phyfe, ele percebeu que podia dizer adeus a Peggy

Fryskamp. Começou a chamá-lo de Flying Beer. Flying [1] Deer? Flying Beer, se é que sei das coisas! Nossa, foi engraçado. Mas ele não estava tentando fazer graça. Bacon nunca tenta fazer graça. Em todo o caso, há uma mulher que trabalha para ele de vez em quando: Annie Lamb, do Bronx. Annie Lamb mora no Conjunto Habitacional Edgar Allan Poe com o filho único, Henry.

— Ela é negra? — perguntou Fallow.

— É, é negra. Praticamente todo mundo no Edgar Allan Poe é negro ou porto-riquenho. Por falar nisso, por lei todos esses conjuntos deviam ser integrados. — Vogel arqueou as sobrancelhas. — Pois bem, essa Annie é uma mulher extraordinária. — Vogel contou a história de Annie Lamb e da família dela, culminando com o Mercedes-Benz que atropelara seu filho promissor, Henry, e fugira deixando-o às portas da morte.

“Que infelicidade”, pensou Fallow, “mas onde está a reportagem?”

Como se se antecipasse a essa objeção, Vogel disse:

— Bom, há dois lados nessa história, e ambos têm a ver com o que acontece com um bom rapaz como esse quando tem a desgraça de ser negro e criado no Bronx. Quero dizer, temos aqui um garoto que fez tudo certo. Quando se fala de Henry Lamb, está se falando do 1 por cento que faz exatamente o que o sistema lhe diz que deve fazer, certo? E o que acontece? Primeiro, o hospital trata o garoto de... fratura no pulso! Se fosse um garoto branco de classe média, teriam feito radiografia, tomografia axial, teste de ressonância, tudo o que existe. Segundo, a polícia e a promotoria não estão dando andamento ao caso. Isso é o que realmente está enfurecendo a mãe do garoto. Temos um atropelamento com fuga, eles têm a marca e parte do número da placa do carro, e não estão se mexendo.

— Por quê?

— Bom, basicamente porque, no que lhes toca, é apenas um garoto de South Bronx que foi atropelado por um carro. Não querem se amolar: Mas o que estão dizendo é que não houve testemunhas, exceto a própria vítima, e ele está em coma terminal, e com isso não teriam um caso mesmo que encontrassem o carro e o motorista. Agora, suponha que fosse o seu filho. Ele deu informações, mas não vão usá-las porque tecnicamente são consideradas apenas boatos.

A coisa toda fez a cabeça de Fallow doer. Não conseguia se imaginar com um filho, e certamente não num conjunto da prefeitura do bairro do Bronx na cidade de Nova York nos Estados Unidos.

— É uma situação lamentável — disse Fallow —, mas não tenho bem certeza se daria uma reportagem.

— Bem, muito em breve vai dar uma reportagem para alguém, Pete — disse Vogel. — A comunidade está revoltada. Prestes a explodir. O reverendo Bacon está organizando manifestações de protesto.

— E exatamente por que vão explodir?

— Estão cansados de serem tratados como se a vida humana no South Bronx não valesse nada! E vou lhe contar, quando Bacon põe o dedo em alguma coisa, ela vai pra frente. Ele não é Martin Luther King ou o bispo Tutu. Certo? Não vai ganhar nenhum prêmio Nobel. Tem um jeito pessoal de fazer as coisas e às vezes esse jeito talvez não resista a um exame atento. Mas essa é uma das razões da sua eficiência. Ele é aquilo que Hobsbawm chama de “revolucionário primitivo”. Hobsbawm era inglês, certo?

— Ainda é.

— Achei que era. Ele tinha essa teoria sobre revolucionários primitivos. Existem certas lideranças naturais nas classes oprimidas, e a estrutura do poder interpreta o que elas fazem como crimes — podem até fazer essa interpretação de boa-fé —, mas elas são, na realidade, revolucionárias. E é isso o que Bacon é. Eu o admiro. E tenho pena dessa gente. De qualquer forma, acho que dá uma reportagem incrível, mesmo sem entrarmos em considerações filosóficas.

Fallow fechou os olhos. Viu o focinho do monstro iluminado pela claridade suave das luzes do bistrô. Então sobreveio um arrepio gelado. Abriu os olhos. Vogel estava olhando para ele com o seu sorriso de vovó rosada, velha e alegre. Eta país ridículo!

— Olhe, Pete, na pior das hipóteses você vai extrair disso uma reportagem com interesse humano. E se as coisas derem certo, estará na crista de algo bastante grande. Posso lhe arranjar uma entrevista com Annie Lamb. Posso lhe conseguir uma entrevista com o reverendo Bacon. Posso levá-lo à unidade de tratamento intensivo onde o garoto está. Quero dizer, ele está em coma, mas pode vê-lo.

Fallow tentou imaginar a transferência da sua gema de mercúrio e das suas entranhas biliosas para o Bronx. Mal conseguia visualizar se sobreviveria à viagem. Do seu ponto de vista o Bronx era como o Ártico. Ficava na direção do norte e ninguém ia lá.

— Não sei, Al. Supostamente sou especialista em alta sociedade. — Tentou sorrir.

— Supostamente, Peter, supostamente. Eles não vão despedi-lo se aparecer com uma reportagem excelente sobre a vida dos desprivilegiados.

O verbo “despedir” foi o que o fez se decidir. Fechou os olhos. O focinho não estava lá. O que viu foi a cara do Rato Morto. Podia ver o Rato Morto olhando da redação para o seu cubículo naquele exato momento e descobrindo que estava vazio. O medo invadiu todas as suas células, e ele levou o guardanapo à testa.

— Você se importa que eu lhe faça uma pergunta, Al?

— Pode fazer.

— Qual é o seu interesse nisso tudo?

— Nenhum, se está falando de interesse material. O reverendo Bacon me telefonou pedindo para aconselhá-lo, e eu lhe disse que procuraria ajudá-lo, e só. Gosto dele. Gosto do que está tentando fazer. Gosto da maneira como sacode esta porra desta cidade. Estou do lado dele. Disse-lhe que deveria tentar publicar o caso nos jornais antes de fazer a manifestação de protesto. Assim, teria uma cobertura maior da televisão e todo o resto. Estou lhe dizendo a pura verdade agora. Pensei em você porque calculei que talvez pudesse tirar proveito de uma oportunidade dessas. Isso poderia resultar numa vantagem para você e numa vantagem para uma porção de gente decente que nunca tem a porra de uma chance nesta cidade.

Fallow estremeceu. Exatamente o que Vogel teria ouvido sobre a sua situação? Na verdade, não queria saber. Sabia que estava sendo usado. Ao mesmo tempo, ali estava um naco de carne para atirar para o Rato.

— Bem, talvez tenha razão.

— Sei que tenho razão, Pete. Isso vai dar uma reportagem sensacional de um jeito ou de outro. Bem podia ser você a escrevê-la.

— Você pode me levar para ver essas pessoas?

— Claro. Não se preocupe com isso. A única exigência é você não ficar sentado em cima da reportagem. Bacon está pronto para agir.

— Hummmm. Deixe-me anotar alguns desses nomes. — Fallow meteu a mão no bolso lateral do paletó. Nossa, não tinha nem apanhado um caderninho ou um pedaço de papel antes de sair. Do bolso, tirou um aviso de Con Edison de que seu gás e sua luz iam ser cortados. Estava impresso dos dois lados. Vogel observou tudo isso e, sem comentário, apanhou um bloco e entregou-lhe. Em seguida estendeu-lhe uma esferográfica de prata. Repetiu os nomes e os detalhes.

— Vou lhe dizer o que vou fazer — adiantou Fallow. — Vou ligar para a redação imediatamente.

Levantou-se e ricocheteou em uma cadeira na mesa ao lado, onde uma velhota num tailleur Chanel estava tentando levar uma colher de sopa de azedinhas à boca. Ela olhou feio para ele.

— O que quer comer? — perguntou Vogel. — Vou fazer o pedido para você.

— Nada. Um prato de sopa de tomate. E um paillard de frango.

— Vinho?

— Não. Bem. Só um copo.

O telefone público ficava num vestíbulo do lado oposto à chapelaria, onde havia uma moça bonitinha, sentada num banquinho alto, lendo um livro. Seus olhos espiaram por uma sinistra elipse negra cuidadosamente desenhada em torno das pálpebras. Fallow ligou para Frank de Pietro, o editor-geral de The City Light. De Pietro era um dos poucos americanos que ocupavam uma posição editorial importante no jornal. Precisavam de um nova-iorquino como editor local. Os outros ingleses que trabalhavam lá, como o próprio Fallow, conheciam apenas um único trecho de Manhattan, dos restaurantes da moda em TriBeCa, ao sul, aos restaurantes da moda em Yorkville, nas imediações da 86th Street, ao norte. O resto de Nova York poderia estar em Damasco.

— Sim? — A voz de Frank de Pietro. Seu entusiasmo em receber um telefonema de Peter Fallow numa hora crítica do dia era imperceptível.

— Frank — disse Fallow —, você está familiarizado com um lugar chamado Conjunto Habitacional Edgar Allan Poe?

— Estou. Você está?

Fallow não sabia o que era mais desagradável, esse hábito ianque de falar de boca mole ou a incredulidade na voz do homem. Assim mesmo, continuou contando a história de Albert Vogel, enfeitando-a onde se fazia necessário, e sem mencionar Albert Vogel. Deixou a impressão de que já estivera em contato com o reverendo Bacon e com a mãe da vítima, e que a aparição dele no Bronx era aguardada por todos. De Pietro respondeu que fosse em frente e apurasse. Disse isso sem nenhum entusiasmo especial. Fallow, no entanto, sentiu o coração se encher de uma inesperada felicidade.

Quando voltou à mesa, Vogel perguntou:

— Ei, como correram as coisas? Sua sopa está esfriando. — As palavras mal saíam de sua boca atochada de comida.

Havia um grande prato de sopa de tomate e um copo de vinho branco para Fallow. Vogel estava ocupado com uma articulação de vitela de aspecto hediondo.

— Gostaram, hein?

— Hummmmmmm. — “Bem, não desprezaram a ideia”, pensou Fallow. Sua náusea começou a desaparecer. A gema diminuiu de tamanho. Uma alegria revigorante, não muito diferente da que um atleta sente ao entrar numa competição, invadiu o seu sistema nervoso. Sentiu-se... quase limpo. Era a emoção, que os poetas nunca comentavam, experimentada por aqueles que sentem, ao menos uma vez, que estão fazendo jus ao que ganham.

Era a vez de Kramer usar na cintura o bipe durante doze horas. Na Delegacia de Homicídios da Promotoria Distrital do Bronx, alguém, algum promotor assistente, sempre tinha que estar de prontidão. A finalidade era ter alguém pronto para comparecer à cena dos crimes imediatamente, a fim de interrogar as testemunhas antes que desaparecessem ou perdessem a vontade de falar sobre o ocorrido. Nessas doze horas era provável que um promotor assistente se visse atrapalhado com todas as merdinhas no Bronx que envolvem um homicídio, e foi uma merdinha clássica do Bronx que levara Kramer ao distrito policial. Um sargento detetive negro, chamado Gordon, estava parado junto à mesa de registro de ocorrências fornecendo-lhe os dados.

— Eles chamam o cara de Cafetão — disse Gordon —, mas ele não é cafetão. É jogador, na maior parte do tempo, e provavelmente transa drogas, mas se veste como cafetão. Vai vê-lo num minuto. Está lá dentro do vestiário usando um daqueles ternos cheios de bolsos com um colete transpassado. — Gordon sacudiu a cabeça. — Está sentado na ponta de uma cadeira comendo costeletas e segurando-as assim — ele se curvou para a frente e ergueu a mão num gesto elegante — para que o molho não pingue no terno. Tinha uns quarenta ternos, e quando fala sobre aquelas porras dos ternos, faz pensar que foi um filho que desapareceu.

A coisa toda aconteceu porque alguém lhe roubara quarenta ternos. Ah, era uma merdinha daquelas. Ondas e ondas de infantilidade e violência gratuita, e Kramer ainda nem acabara de ouvir a história toda.

A sala principal do distrito estava saturada do cheiro úmido e estranhamente adocicado de madeira em decomposição, produzido por dezenas de anos de vazamentos em radiadores que escorriam para o chão. A maior parte do assoalho fora substituída por concreto. As paredes eram pintadas de verde-serviço público à exceção dos lambris velhos e maltratados tipo macho e fêmea, com 1 metro de altura, que corriam a toda a volta, na parte inferior das paredes. O prédio tinha paredes grossas e pés-direitos altos, agora sobrecarregados de conjuntos de lâmpadas fluorescentes. Do lado oposto Kramer via as costas de dois patrulheiros. Seus quadris eram deformados pelas armas e parafernália, inclusive lanternas, blocos de intimações, walkie-talkies e algemas. Um deles não parava de erguer as mãos em gestos explicativos ao falar com duas mulheres e um homem, residentes locais, cujo rosto fazia transparecer que não acreditavam numa só palavra.

Gordon dizia a Kramer:

— Então ele está nesse apartamento, e há quatro caras lá, e um deles é esse André Potts, que ele acredita que saiba quem tirou os ternos, só que André diz que não sabe nada de nada, e estão nesse vaivém e finalmente André se enche, levanta e sai da sala. Então o que faria você se um otário malcriado se levantasse e lhe desse as costas enquanto você está perguntando sobre a droga dos quarenta ternos? Atiraria nele pelas costas, certo? Pois foi isso que o Cafetão fez. Deu três tiros nas costas do sr. André Potts com um 38.

— Tem testemunhas?

— Ah, um monte delas.

Nesse instante o bip soou na cintura de Kramer.

— Posso usar o telefone?

Gordon indicou uma porta aberta que levava à Delegacia de Investigações, um gabinete separado da sala principal. No interior, havia horríveis escrivaninhas de metal cinzento-serviço público. A cada escrivaninha estava sentado um negro com trinta a quarenta anos de idade. Cada um deles usava as roupas costumeiras no Bronx, um tanto funk demais para serem genuínas. Kramer pensou em como era extraordinário se deparar com uma delegacia inteira formada por detetives negros. O que se encontrava à escrivaninha mais próxima da porta usava uma jaqueta preta acolchoada e uma camiseta preta sem mangas, que ressaltava seus braços musculosos.

Kramer estendeu a mão para um telefone na mesa dele e perguntou:

— Posso usar seu telefone?

— Ei, que porra é essa, cara?

Kramer encolheu a mão.

— Quanto tempo tenho que ficar aqui acorrentado como um animal, porra?

Dizendo isso, o homem ergueu o musculoso braço esquerdo produzindo um tremendo retinir. Havia uma algema em seu pulso, e da algema pendia uma corrente. A outra extremidade da corrente estava presa à perna da escrivaninha. Agora os outros dois, às outras mesas, levantavam os braços, retinindo e reclamando. Os três estavam algemados às escrivaninhas.

— Eu só fiz foi ver o filho da mãe apagar aquele otário, e foi ele o filho da mãe que apagou aquele otário, e sou eu que fico acorrentado como um animal, e aquele filho da mãe — mais um tremendo retinir quando ele gesticulou na direção de uma sala ao fundo com a mão esquerda — está sentado lá atrás vendo televisão, porra, e comendo costeletas.

Kramer olhou para o fundo da sala. Não havia dúvidas, lá no vestiário se encontrava uma figura sentada na beirada de uma cadeira, iluminada pelos clarões intermitentes do aparelho de televisão, comendo uma porção de costeletas grelhadas. E se curvava para a frente com elegância. A manga do paletó era talhada para mostrar um bom pedaço do punho branco da camisa e reluzentes abotoaduras.

Agora, os três gritavam reclamando: “Costeletas, porra”... “Correntes, porra”... “TV, porra!”

Mas é claro! As testemunhas. Uma vez que Kramer compreendeu isso, tudo, correntes e o resto, se encaixou.

— Está bem, está bem — disse ao homem com impaciência. — Vou cuidar de vocês em um minuto. Tenho que dar um telefonema.

“Costeletas, porra!... correntes, porra!”

Kramer ligou para o gabinete, e Gloria, secretária de Bernie Fitzgibbon, disse que Milt Lubell queria falar com ele. Lubell era o assessor de imprensa de Abe Weiss. Kramer mal conhecia Lubell; não se lembrava de ter falado com ele mais de quatro ou cinco vezes. Gloria lhe deu o número de Lubell.

Milt Lubell trabalhara no velho Mirror de Nova York no tempo em que Walter Winchell ainda escrevia sua coluna. Conhecera o grande homem muito ligeiramente e perpetuara a sua maneira enérgica e apressada de falar até a última década do século XX.

— Kramer — disse —, Kramer, Kramer, deixe-me ver, Kramer. Ah, sim, tudo bem, já sei. O caso de Henry Lamb. É provável que morra. Qual é o caso?

— É uma merdinha — disse Kramer.

— Bem, fui procurado por The City Ltght, por um inglês chamado Fallow. O cara tem aquele sotaque. Pensei que estava ouvindo o Canal 13. Em todo o caso, ele me leu uma declaração do reverendo Bacon sobre o caso de Henry Lamb. Era só do que eu precisava. As palavras do reverendo Reginald Bacon lidas com sotaque britânico. Você conhece Bacon?

— Conheço — respondeu Kramer. — Interroguei a mãe de Henry Lamb no escritório de Bacon.

— Esse cara tem alguma coisa dela também, mas o principal é do Bacon. Deixe-me ver, deixe-me ver, deixe-me ver. Diz, um... blá-blá-blá... a vida humana no Bronx... criminoso... classe média branca... blá-blá-blá... teste de ressonância nuclear magnética... Discorre sobre o teste de ressonância nuclear magnética. Existem talvez duas dessas máquinas, porra, no país inteiro, acho... blá-blá-blá... Deixe-me ver, achei. Ele acusa a promotoria pública de inação. Que não queremos nos dar o trabalho de levar o caso adiante porque o garoto é negro e mora num conjunto habitacional e seria amolação demais.

— Isso é idiotice.

— Bem, eu sei disso, e você sabe disso, mas tenho que ligar de volta para esse inglês e dizer alguma coisa.

Um tremendo ruído de correntes.

— Quanto tempo vou ficar aqui acorrentado, cara? — O homem de braços musculosos entrava novamente em erupção. — Isto é contra a lei!

— Ei! — exclamou Kramer realmente aborrecido. — Se quer dar o fora daqui, pare com isso. Porra, nem consigo ouvir a minha voz. — E para Lubell: — Desculpe, estou no distrito. — Envolveu a boca e o fone com a mão e disse em voz baixa: — Estão com três testemunhas de homicídio aqui acorrentadas às pernas das mesas na Delegacia de Investigações, e elas estão ficando doidonas. — Ele gostou da sensação de prazer másculo que experimentou ao apresentar esse caso de guerra para Lubell, embora nem conhecesse o homem.

— Nas pernas das mesas! — exclamou Lubell em tom de admiração. — Nossa, nunca tinha ouvido falar nisso.

— Mas, então — continuou Kramer —, onde é que eu estava? Tudo bem, temos um Mercedes-Benz com uma placa cuja primeira letra é R. Para começar, nem mesmo sabemos se estamos falando de uma placa de Nova York. Certo? Isto só para começar. Mas suponha que estejamos. Há 2.500 Mercedes registrados no estado de Nova York com placas começadas por R. Muito bem, agora, a segunda letra supostamente se parece com E ou F, ou talvez P ou B ou R, uma letra com um traço vertical à esquerda e alguma coisa horizontal saindo dele. Suponha que aceitemos isso. Ainda estamos falando de quase quinhentos carros. Que fazemos então? Investigamos quinhentos carros? Se tivermos uma testemunha que possa dizer que o garoto foi atropelado por um carro, talvez façamos isso. Mas não há testemunhas, exceto o garoto, e ele está em coma e não vai sair dela. Não temos nenhuma informação sobre o motorista. Só sabemos que havia duas pessoas no carro, dois brancos, um homem e uma mulher, e ainda por cima a história do garoto não bate.

— Bem, e que digo a ele? Que continuamos investigando?

— É. Continuamos investigando. Mas a não ser que Martin encontre uma testemunha, não teremos um caso. Mesmo que o garoto tenha sido atropelado por um carro, provavelmente não foi o tipo de colisão em que se obtém evidência judicial com o veículo, porque o garoto não apresenta as lesões corporais compatíveis com uma tal colisão... quero dizer, ora essa, há tantos “se” nessa embrulhada, porra. Se quer saber minha opinião, temos uma merdinha. O garoto parece ser decente, e a mãe dele também, mas, aqui entre nós, acho que se meteu em alguma enrascada e inventou essa história sem pé nem cabeça para contar à mãe.

— Bom, por que iria inventar o detalhe do número da placa? Por que não diria que não viu o número?

— Como vou saber? Por que alguém faria qualquer das coisas que se faz nesse município? Acha que esse sujeito, esse repórter, vai mesmo escrever alguma coisa?

— Não sei. Naturalmente vou dizer que estamos, é claro, acompanhando as investigações atentamente.

— Mais alguém lhe telefonou?

— Não. Parece que Bacon conseguiu entrar em contato com esse cara de algum jeito.

— Que é que Bacon ganha com isso?

— Ah, esse é um dos cavalos de batalha que ele faz por prazer. Os critérios ambíguos, a justiça dos brancos, blá-blá-blá. Está sempre empenhado em constranger o prefeito.

— Bom — disse Kramer —, se ele conseguir transformar essa merdinha em um caso, então ele é mágico.

Quando Kramer desligou, as três testemunhas acorrentadas estavam de novo sacudindo as correntes e reclamando. Acabrunhado, ele percebeu que teria de sentar e conversar com esses três micróbios e extrair alguma coisa coerente deles sobre um homem chamado Cafetão, que matara um homem, que conhecia um homem, que talvez soubesse ou não soubesse o paradeiro de quarenta ternos. Toda a sua noite de sexta-feira estava indo para o brejo, e ele teria que arriscar um jogo de dados com o Destino e tomar o metrô de volta para Manhattan. Deu mais uma espiada no vestiário. A visão em si, aquela personagem de capa de Gentleman’s Quarterly, aquele homem chamado Cafetão, ainda estava lá comendo costeletas e se divertindo a valer com um programa de televisão, que iluminava seu rosto em tons de rosa-queimadura-de-primeiro-grau e azul-terapia-de-cobalto.

Kramer saiu um instante da Delegacia de Investigações e disse a Gordon:

— As suas testemunhas estão ficando meio agitadas lá dentro. Um dos caras quer passar a corrente no meu pescoço.

— Tive de acorrentá-lo.

— Sei disso. Mas deixe-me perguntar-lhe uma coisa. O Cafetão está sentado calmamente, comendo costeletas. Ele não está acorrentado a nada.

— Ah, não estou preocupado com o Cafetão. Ele não vai a lugar algum. Está se acalmando. Está satisfeito. Só conhece este bairro. Aposto que nem sabe que Nova York fica no oceano Atlântico. É de casa. Não, ele não vai a parte alguma. É apenas o autor do crime. Mas as testemunhas, nossa mãe, se eu não acorrentasse as testemunhas, você não teria n-i-i-in-guém para interrogar. Nunca mais veria os cornos delas. As porras das testemunhas iriam se mandar para São Domingos antes que se pudesse dizer que a tarifa foi reduzida.

Kramer voltou para a Delegacia de Investigações para cumprir o seu dever e interrogar os três cidadãos irados e acorrentados em busca de alguma coerência nessa última merdinha.

Uma vez que The City Light não saía aos domingos, havia apenas uma equipe de plantão na redação nos sábados à tarde. O grosso dos plantonistas era formado por editores de notícias, que examinavam o material que continuamente saía gaguejando e tremelicando dos telexes da Associated Press e da United Press International, à procura de notícias que pudessem ser usadas na edição de segunda-feira. Havia três repórteres na redação, e mais um na Central de Polícia de Manhattan, para a eventualidade de ocorrer alguma catástrofe ou um crime tão macabro que os leitores de The City Light ainda pudessem querer degustar na segunda-feira. Havia um único editor local, que passava a maior parte da tarde ao telefone, fazendo ligações comerciais pela linha especial de The City Light, ligações de interesse particular, pois vendia bijuterias com emblemas de fraternidades universitárias, no atacado, para os gerentes dos clubes, que revendiam o material —prendedores de gravata, anéis e insígnias e o que fosse — no varejo, aos membros das irmandades, e guardava a diferença para si. O tédio e a lassidão dessas sentinelas da imprensa não eram exagero.

E precisamente nessa tarde de sábado havia também Peter Fallow.

Por contraste, Fallow era o fervor personificado. Dos diversos cubículos que circundavam a redação o seu era o único em atividade. Ele estava encarapitado na ponta da cadeira com o fone ao ouvido e uma Biro na mão. Estava tão ligado que a sua excitação cruzava a ressaca do dia com uma intensidade próxima à claridade.

Sobre a escrivaninha havia um catálogo de telefones do município de Nassau, que ficava em Long Island. Um objeto massudo, o tal catálogo. Nunca ouvira falar do município de Nassau, embora agora se desse conta de que devia ter passado por ali no fim de semana em que conseguira inspirar o chefe de St. John no museu, Virgil Gooch III — os ianques adoravam enfileirar algarismos romanos depois dos nomes dos filhos —, a convidá-los à sua casa, de cômica imponência, no litoral de East Hampton, Long Island. Não houve um segundo convite, mas... bom, bom... Quanto a Hewlett, situado no município de Nassau, sua existência na face da terra era novidade para ele, mas em algum ponto de Hewlett um telefone estava tocando e ele desejava desesperadamente que alguém o atendesse. Finalmente, após sete toques, aconteceu.

— Alô? — Sem fôlego.

— Sr. Rifkind?

— É... — Sem fôlego e preocupado.

— Aqui é Peter Fallow do City Light de Nova York.

— Não quero jornais.

— Perdão. Espero que me desculpe por estar lhe telefonando num sábado à tarde.

— Uma esperança vã. Já fui assinante do Times. Na verdade só o recebia uma vez por semana.

— Não, não, não, não estou...

— Ou alguém o roubava da porta da entrada antes que eu saísse de casa ou estava empapado de água ou nunca era entregue.

— Não, eu sou jornalista, sr. Rifkind. Eu escrevo para The City Light.

Finalmente conseguiu estabelecer esse fato para satisfação do sr. Rifkind.

— Bem, tudo bem — disse o sr. Rifkind —, prossiga. Eu estava lá fora na entrada da garagem tomando umas cervejinhas e pintando num cartaz VENDE-SE para colar na janela do meu carro. O senhor por acaso não está procurando um Thunderbird 1981 para comprar?

— Receio que não — respondeu Fallow com uma risada, como se o sr. Rifkind fosse um dos maiores piadistas de sábado à tarde de sua vida. — Na verdade estou telefonando para lhe fazer umas perguntas sobre um de seus alunos, o jovem sr. Henry Lamb.

— Henry Lamb. Não estou bem lembrado. Que foi que ele fez?

— Ah, ele não fez nada. Sofreu um acidente grave. — E começou a apresentar os fatos do caso, pendendo para a teoria Albert Vogel-reverendo Bacon do incidente. — Disseram-me que ele era aluno de sua turma de inglês.

— Quem lhe disse isso?

— A mãe dele. Tive uma longa conversa com ela. É uma mulher muito correta e está muito perturbada, como bem pode imaginar.

— Henry Lamb... Ah, sim, sei a quem se refere. Bem, é uma pena.

— O que eu gostaria de descobrir, sr. Rifkind, é que tipo de estudante Henry Lamb era.

— Que tipo?

— Bem, o senhor diria que ele era um aluno excepcional?

— De onde é o senhor, sr... desculpe, como é mesmo o seu nome?

— Fallow.

— Sr. Fallow. Imagino que não seja de Nova York.

— Tem razão.

— Então não há nenhuma razão por que devesse saber alguma coisa sobre a Colonel Jacob Ruppert High School, no Bronx. Na Ruppert usamos termos comparativos, mas “excepcional” não é um deles. A classificação vai de “cooperativo” a “ameaça à vida”. — O sr. Rifkind começou a rir. — Pelo amor de Deus, não diga que eu disse isso.

— Bem, e como descreveria Henry Lamb?

— Cooperativo. É um bom rapaz. Nunca me criou problemas.

— O senhor o descreveria como um bom aluno?

— “Bom” também não se aplica muito bem à Ruppert. É mais “ele comparece ou não às aulas?”.

— Henry Lamb comparecia às aulas?

— Que me lembre, sim. Em geral, está presente. É bastante confiável. É um bom rapaz, tão bom quanto é possível.

— Havia alguma parte do currículo em que se destacasse mais... ou, digamos, pela qual se interessasse mais, alguma coisa que fizesse melhor que as outras?

— Nada em especial.

— Não?

— É difícil explicar, sr. Fallow. Como diz o provérbio, “Ex nihilo nihil fit”. Não há uma gama muito ampla de atividades nessas turmas, por isso é difícil comparar desempenhos. Esses rapazes e moças... muitas vezes estão com a cabeça na aula e outras não estão.

— E Henry Lamb?

— É um bom rapaz. É educado, presta atenção, não me cria problemas. Procura aprender.

— Bem, ele deve ter algumas habilidades. A mãe dele me disse que estava pensando em ingressar na universidade.

— Pode ser verdade. Ela provavelmente está se referindo ao CCNY. É o City College of New York.

— Creio que foi esse que a sra. Lamb mencionou.

— O City College adota uma política de admissão franca. Se a pessoa mora na cidade de Nova York e terminou o segundo grau e quer entrar para o City College, entra.

— Henry Lamb vai se formar, ou iria?

— Pelo que sei, vai. Como disse, ele tem uma boa frequência.

— Como acha que ele se sairia como aluno em uma universidade?

Um suspiro.

— Não sei. Não consigo imaginar o que acontece com esses garotos quando entram no City College.

— Bem, sr. Rifkind, será que poderia me dizer qualquer coisa sobre o desempenho ou as aptidões de Henry Lamb, qualquer coisa que seja?

— O senhor precisa compreender que me entregam uns 65 alunos em cada turma quando o ano começa, porque sabem que se reduzirão a quarenta no meio do ano, e trinta até o final. Trinta alunos já seria demais, mas é o que recebo. Não é o que se poderia chamar de sistema preceptorial. Henry Lamb é um bom rapaz, que se aplica e quer estudar. Que mais posso lhe dizer?

— Deixe-me perguntar uma coisa. Como é que ele se sai nos trabalhos escritos?

O sr. Rifkind deixou escapar uma exclamação de espanto.

— Trabalhos escritos? Isso não existe na Ruppert High School há quinze anos! Talvez vinte! Fazemos testes de múltipla escolha. Compreensão de textos é que é importante. É só com o que o Conselho de Educação se preocupa.

— E como era a compreensão de textos de Henry Lamb?

— Eu teria que verificar. Provavelmente era boa.

— Melhor do que a da maioria? Mediana? Como a classificaria?

— Bem... Sei que deve ser difícil para o senhor compreender, sr. Fallow, sendo inglês. Estou certo, o senhor é inglês?

— Sou.

— Naturalmente, ou imagino que seja natural, o senhor está acostumado a níveis de excelência e coisas do gênero. Mas esses garotos não atingiram o nível em que valha a pena enfatizar o tipo de comparações de que o senhor está falando. Só estamos tentando levá-los até um certo nível e a partir daí impedir que regridam. O senhor está pensando em alunos dignos de louvor e de capacidade excepcional e tudo mais, o que é bastante natural, como disse. Mas na Colonel Jacob Ruppert, um estudante digno de louvor é alguém que comparece às aulas, não é dispersivo, procura aprender e tem um aproveitamento razoável em leitura e aritmética.

— Bem, vamos usar esse padrão. Por esse padrão, Henry Lamb é ou não é um aluno digno de louvor?

— Por esse padrão, é.

— Muito obrigado, sr. Rifkind.

— Foi um prazer. Sinto muito saber o que aconteceu. Ele parece um bom menino. Não devemos chamá-los de meninos, mas é o que são, pobres e infelizes meninos cheios de problemas. Não cite o que eu disse, por favor, ou eu terei uma porção de problemas. Ei, ouça. Tem certeza de que não gostaria de um Thunderbird 1981?

 

1 Respectivamente, “Cerveja Voadora” e “Veado Voador”. Trocadilho intraduzível.

(N.do E.)