A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 7 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 6

6

UM LÍDER DO POVO

 

Na manhã seguinte, Sherman McCoy experimentou uma sensação inusitada nos oito anos em que trabalhava na Pierce & Pierce. Sentiu-se incapaz de se concentrar. Normalmente, assim que entrava na sala de operação de obrigações e se deparava com a claridade da parede de vidro e se deixava engolfar pelo ruído de uma legião de rapazes enlouquecidos pela cobiça e a ambição, tudo o mais em sua vida se eclipsava e o mundo se transformava nos pequenos símbolos verdes que deslizavam pelas telas negras dos terminais de computador. Até mesmo na manhã que se seguiu ao telefonema mais idiota que dera na vida, na manhã em que acordou se perguntando se a mulher ia deixá-lo, levando com ela o que possuía de mais precioso — ou seja, Campbell —, mesmo naquela manhã ele entrara na sala de operação de obrigações e, num piscar de olhos, a existência humana se resumira nas obrigações francesas garantidas em ouro e nas obrigações de vinte anos do governo dos Estados Unidos. Mas agora era como se tivesse um gravador de duas fitas no crânio e o mecanismo não parasse de pular de uma fita para outra sem que ele pudesse controlá-lo. Na tela:

“U Frag 10.1 ‘96 102.” Descera um ponto inteiro! As obrigações de treze anos da United Fragrance, vencíveis em 1996, tinham caído de 103 para 102,5 no dia anterior. Agora, a 102, renderiam 9,75 por cento — e a pergunta que ele se fazia era:

O carro tinha que ter batido em uma pessoa quando ela deu marcha a ré? Por que não poderia ser um pneu ou uma lata de lixo ou outra coisa completamente diferente? Tentou sentir de novo o baque em seu sistema nervoso central. Foi um... toque... uma batidinha. Na realidade, não fora muito forte. Podia ter sido qualquer coisa. Mas logo desanimou. Que mais poderia ter sido senão o rapaz alto e magricela? — e via aquele rosto escuro e delicado, a boca aberta de medo... Não, era tarde demais para ir à polícia! Trinta e seis horas — quarenta agora —, como faria a comunicação? Acho que nós — isto é, minha amiga sra. Ruskin e eu — talvez — pelo amor de Deus, homem, controle-se! Quarenta horas depois não seria mais a comunicação de um acidente, seria uma confissão! Você é um Senhor do Universo. Não chegou ao quinquagésimo andar da Pierce & Pierce porque sucumbe a pressões. Este pensamento feliz o fortaleceu para a tarefa imediata, e ele tornou a se concentrar na tela.

Os números deslizavam em fileiras horizontais, como se fossem pintados por um pincel imerso em tinta verde-rádio, e tinham estado a deslizar e a mudar bem diante de seus olhos sem que sua mente registrasse nada. Isso o assustou. A United Fragrance caíra para 107 7/8, o que significava que o rendimento chegava quase a 10 por cento. Alguma coisa errada? Ainda ontem verificara com o Departamento de Análises, e a United Fragrance estava em boa situação, um estável AA, ou seja, uma empresa sem riscos. No momento só o que precisava saber era:

Saíra alguma coisa em The City Light? O jornal fumegava no chão a seus pés. Não saíra nada no Times, no Post ou no Daily News, que ele vasculhara no táxi, a caminho do trabalho. A primeira edição de The City Light, um jornal vespertino, não saía antes das 10 horas. Por isso, há vinte minutos dera cinco dólares a Félix, o engraxate, para ir lá embaixo comprar The City Light. Mas como era possível lê-lo? Não poderia nem deixar que o vissem com o jornal em cima da escrivaninha. Não ele; não depois da descompostura que passara no jovem señor Arguello. Assim, o jornal estava debaixo da escrivaninha, fumegando a seus pés. O jornal fumegava, e ele se sentia em brasas. Ardia de desejo de apanhá-lo e examiná-lo... nesse minuto... e para o diabo com a impressão que desse... Mas naturalmente isso era irracional. Além do mais, que diferença faria ler agora ou daqui a seis horas? O que poderia mudar? Muito pouca coisa, muito pouca coisa. Então se consumiu mais um pouco até o ponto em que achou que não poderia aguentar.

Merda! Alguma coisa estava acontecendo com as obrigações de treze anos da United Fragrance! Estavam de novo a 102! Outros compradores identificariam a oportunidade! Aja depressa! Discou o número de Oscar Suder em Cleveland, atendeu o assistente, Frank... Frank... Como era mesmo o sobrenome?... Frank... Frank a rosquinha...

— Frank? Sherman McCoy, da Pierce & Pierce. Diga a Oscar que posso conseguir para ele 10,10 por cento de ‘96 rendendo 9,75, se estiver interessado. Mas estão subindo.

— Um instante. — Não demorou nada e a rosquinha voltou. — Oscar quer dez.

— Certo. Ótimo. Três milhões de 10,10 por cento de ‘96 da United Fragrance.

— Certo.

— Obrigado, Frank, lembranças ao Oscar. Ah, e diga a ele que voltarei a ligar em breve sobre a Giscard. O franco está um pouco baixo, mas isso não é problema. De qualquer forma, falarei com ele.

— Darei o recado — disse a rosquinha em Cleveland...

... e mesmo antes de terminar de preencher o formulário do pedido e o entregar a Muriel, assistente de vendas, já estava pensando: Talvez devesse consultar um advogado. Ligar para Freddy Button. Mas conhecia Freddy bem demais. Afinal, Freddy trabalhava na Dunning Sponget. Para começar fora o pai que o encaminhara a Freddy — e se ele comentasse alguma coisa com o Leão? Comentaria — ou não? Freddy se considerava um amigo da família. Conhecia Judy e perguntava por Campbell sempre que se falavam, embora Freddy provavelmente fosse homossexual. Bom, homossexuais podiam gostar de crianças, não podiam? Freddy tinha filhos. Isso porém não significava que não fosse homossexual. — Nossa! que importância tinha a vida sexual de Freddy Button? Era uma loucura deixar a mente divagar desse jeito. Iria se sentir como um idiota se contasse a história a Freddy Button e tudo não passasse de um alarme falso... e muito provavelmente era. Dois malfeitores tinham tentado roubar Maria e ele, e receberam o que mereciam. Uma refrega na selva, pela lei da selva; fora só o que acontecera. Por instantes, sentiu-se de novo satisfeito consigo mesmo. A lei da selva! O Senhor do Universo!

Então, sentiu o chão fugir. Em nenhum momento eles o ameaçaram. “Eh! Precisa de ajuda?” E Maria provavelmente o atropelara com o carro. É, foi Maria. Eu não estava dirigindo. Ela é que estava. Mas será que isso o eximia da responsabilidade aos olhos da lei? E será...

Que era aquilo? Na tela, as 10,10 por cento de ‘96 da United Fragrance tinham subido para 102 1/8. Ah! Isso significava que acabara de ganhar um quarto de um ponto percentual sobre 3 milhões de obrigações para Oscar Suder meramente agindo com rapidez. Informaria a ele amanhã. Isso ajudaria a tornar a Giscard atraente — mas se alguma coisa acontecesse com o... toque... o rapaz alto e delicado... Os simbolozinhos verdes brilhavam radiativamente na tela. Estavam imóveis havia pelo menos um minuto. Não aguentava mais. Iria ao banheiro. Não havia nenhuma lei contra isso. Apanhou um grande envelope pardo na escrivaninha. A aba tinha um barbante que se enrolava em torno de uma rodela de cartolina para fechá-lo. Era o tipo de envelope que se usava para mandar documentos de uma sala para outra. Ele deu uma olhada panorâmica na sala de operação de obrigações para ver se a barra estava limpa, então meteu a cabeça embaixo da mesa, enfiou The City Light no envelope e se encaminhou para o banheiro.

Havia quatro cubículos, dois mictórios e uma grande pia. No cubículo, ele se sentiu terrivelmente consciente do farfalhar do jornal quando o retirou do envelope. Como iria poder virar as páginas? Cada virada farfalhante, crepitante, amarrotante de página seria um anúncio trovejante de que algum preguiçoso estava ali bestando com um jornal. Puxou os pés para perto da base do vaso sanitário. Desse jeito ninguém poderia vislumbrar sob a porta do cubículo os seus sapatos pesados New & Lingwood de sola inteiriça e gáspea oblíqua e concluir “Aha! McCoy”.

Escondido por trás da porta do banheiro, o Senhor do Universo começou a esquadrinhar o jornal furiosamente, página por página imunda.

Não havia nada, nenhuma menção de rapaz atropelado numa rampa de rodovia no Bronx. Sentiu um imenso alívio. Quase dois dias tinham se passado — e nada. Nossa, estava quente ali. Transpirava barbaramente. Como podia se deixar arrebatar desse jeito? Maria tinha razão. Os brutos tinham atacado, e ele vencera os brutos, e tinham escapado, era só isso. Ele triunfara desarmado!

Ou será que o rapaz fora atropelado e a polícia estava procurando o carro, mas os jornais não tinham achado o acidente suficientemente importante para merecer uma notícia?

A febre recomeçou a subir. Suponha que alguma coisa aparecesse nos jornais... mesmo uma alusão... como é que iria conseguir montar a transação da Giscard numa situação dessas?... Estaria liquidado!... liquidado!... E mesmo enquanto estremecia de medo diante de uma catástrofe dessas, sabia que estava se deixando chafurdar nela por uma razão supersticiosa. Se a pessoa conscientemente prefigurasse algo tão terrível, não havia possibilidade de isso acontecer, havia?... Deus ou o Destino se recusaria a ser antevisto por um mero mortal, não?... Ele sempre insistia em emprestar aos seus desastres a pureza da surpresa, não?... E no entanto — e no entanto — algumas formas de catástrofe são tão óbvias que podem ser evitadas, certo? Um murmúrio de maledicência...

... seu ânimo despencou ainda mais. Um murmúrio de maledicência, e não só a transação da Giscard cairia por terra, mas a sua própria carreira estaria liquidada! E que faria, então? “Já estou indo à bancarrota com 1 milhão de dólares por ano!” As somas espantosas pipocaram em seu cérebro. No ano anterior seus rendimentos tinham totalizado 980 mil dólares. Mas tivera que pagar 21 mil dólares mensais pelo empréstimo de 1.800 dólares que contraíra para pagar o apartamento. Que eram 21 mil dólares mensais para alguém que faturava 1 milhão por ano? Fora assim que pensara na despesa, à época — e de fato, era apenas um encargo pesado e desgastante — só isso! E totalizava 252 mil dólares por ano, não deduzíveis, porque era um empréstimo pessoal e não por hipoteca. (Os condomínios nos Bons Prédios da Park Avenue como o dele não permitiam que se hipotecassem apartamentos.) Assim, considerando os impostos, era preciso um rendimento de 420 mil dólares para se pagar 252 mil dólares. Dos 560 mil dólares que restaram de seus rendimentos no ano anterior, 44.400 dólares eram necessários para pagar as taxas de manutenção mensal do apartamento; 116 mil dólares para a casa da Old Drover’s Mooring Lane em Southampton (84 mil dólares para o pagamento da hipoteca e dos juros, 18 mil para o aquecimento, concessionárias, seguro e consertos, 6 mil para a conservação do jardim e da cerca, 8 mil para os impostos). Festas em casa e em restaurantes tinham somado 37 mil dólares. Essa era uma soma modesta comparada às que outras pessoas gastavam; por exemplo, a festinha de aniversário de Campbell em Southampton tivera apenas um carrossel (mais, é claro, os indispensáveis cavalinhos e o mágico) e custara menos de 4 mil dólares. A Taliaferro, incluindo o serviço de ônibus, custava 9.400 dólares por ano. A conta de móveis e roupas chegara a uns 65 mil dólares; e havia pouca esperança de diminuí-la, já que Judy era, afinal, uma decoradora e precisava manter as coisas em dia. Os empregados (Bonita, a srta. Lyons, Lucille a faxineira, e Hobie o faz-tudo de Southampton) somavam 62 mil dólares anuais. Isso deixava apenas 226.200 dólares, ou seja, 18.850 dólares por mês para impostos adicionais e mais isso e aquilo, incluindo o pagamento dos seguros (quase mil por mês, em média), o aluguel da garagem para dois carros (840 dólares mensais), alimentação em casa (1.500 dólares mensais), mensalidade do clube (250 dólares) — a verdade abissal era que gastara mais de 980 mil dólares no ano anterior. Bem, obviamente podia cortar aqui e ali — mas nunca o suficiente — se o pior acontecesse! Não havia como escapar do empréstimo de 1,8 milhão de dólares, do encargo sufocante de 21 mil dólares mensais, sem liquidar a dívida ou vender o apartamento e se mudar para outro muito menor e mais modesto — uma impossibilidade! Não havia como voltar atrás! Uma vez que se tivesse vivido em um apartamento de 2,6 milhões de dólares na Park Avenue — era impossível viver em um apartamento de 1 milhão! Naturalmente, não havia maneira de se explicar isso a um único ser vivente. A não ser que se fosse um completo idiota, não se conseguiria nem mesmo que as palavras saíssem da boca. Contudo era assim! Era... uma impossibilidade! Ora, o seu edifício era um dos grandes construídos pouco antes da Primeira Guerra Mundial! Naquela época não era muito aceitável que uma boa família morasse em um apartamento (em vez de uma casa). Por isso os apartamentos eram construídos como mansões, com pés-direitos de 3,30, 3,60 e 3,90 metros, espaçosos vestíbulos, escadarias, alas de empregados, assoalhos de parquê espinha-de-peixe, paredes internas de 30 centímetros de espessura, paredes externas tão grossas quanto as de uma fortaleza, e lareiras, lareiras, lareiras, embora os edifícios possuíssem aquecimento central. Uma mansão! — exceto que se chegava à porta de entrada por um elevador (que abria para um hall privativo), e não pela rua. Isso era o que se adquiria por 2,6 milhões de dólares, e qualquer um que pusesse o pé no vestíbulo do dúplex de McCoy no décimo andar saberia que estava em... “um daqueles fabulosos apartamentos que o mundo, le monde, morreria para ter!” E o que é que se comprava com um milhão hoje em dia? No máximo, no máximo, no máximo: um apartamento de três quartos — sem quartos de empregados, sem quartos de hóspedes, sem falar em quartos de vestir e varandas envidraçadas — num edifício de muitos andares com revestimento de tijolos brancos a leste da Park Avenue, construído nos anos 1960, com um pé-direito de 2,60 metros, sala de jantar, sem biblioteca, com uma entrada do tamanho de um armário, sem lareira, com molduras baratas, quando as havia, paredes de gesso que deixavam passar sussurros, e sem hall privativo de elevador. Nada disso; ao invés, um hall de elevador apertado dando acesso a no mínimo cinco portas pateticamente simples, com revestimento de metal bege-bile, cada qual protegida por duas ou mais fechaduras, sendo que uma dessas portas mórbidas era a sua.

Manifestamente... uma impossibilidade!

Estava sentado com os seus sapatos New & Lingwood de 650 dólares apoiados contra a bacia branca e fria do vaso sanitário e o jornal farfalhante nas mãos trêmulas imaginando Campbell, os olhos rasos de lágrimas, deixando o vestíbulo de mármore do décimo andar pela última vez para começar a descer às profundezas.

“Uma vez que já previ, Senhor, Tu não poderás deixar isso acontecer, poderás?”

A Giscard!... Tinha de agir depressa! Tinha de mandar imprimir!... Essa frase subitamente se apoderou de sua mente, “mandar imprimir”. Quando completavam uma grande transação como a Giscard, encerravam-na para sempre; ela era transcrita sob a forma de um contrato realmente impresso por uma gráfica, numa prensa. “Mandar imprimir! Mandar imprimir!”

Estava sentado ali, cavalgando um vaso sanitário de porcelana branca enquanto implorava ao Todo-Poderoso um contrato impresso.

Dois rapazes brancos estavam sentados no Harlem olhando atentamente para um preto de meia-idade. O mais novo, o que falava, estava aturdido com o que via. Tinha a sensação de que fora afastado do próprio corpo, numa projeção astral, e escutava as próprias palavras, como um espectador, à medida que saíam de sua boca.

— Não sei exatamente como dizer isso, reverendo Bacon, mas dá-se o seguinte, nós — quero dizer, a diocese — a Igreja Episcopal — entregamos ao senhor 350 mil dólares para a fundação da Creche Pequeno Pastor, e ontem recebemos um telefonema de um repórter, e ele nos disse que a Administração de Recursos Humanos nos recusou seu pedido de licenciamento há nove semanas, e, quero dizer, bom, não conseguimos acreditar. Foi a primeira informação que tivemos da creche, por isso...

As palavras continuavam a sair de sua boca, mas o rapaz, cujo nome era Edward Fiske III, já não atentava para elas. Sua voz estava no automático, enquanto o cérebro procurava entender a situação em que ele se encontrava. A sala era um imenso salão de belas-artes cheio de arquitraves de carvalho maciço, cornijas e rosetas de gesso e guirlandas patinadas, rebordos canelados e rodapés em arco, tudo cuidadosamente restaurado no estilo original da virada do século. Era o tipo de mansão que os barões dos cereais costumavam construir em Nova York antes da Primeira Guerra Mundial. Mas agora o barão desses aposentos, sentado a uma enorme escrivaninha de mogno, era um preto.

Sua cadeira giratória de espaldar alto era estofada de couro cor de sangue. Não havia um só vestígio de emoção em seu rosto. Era um desses homens magros, ossudos, que parecem fortes sem serem musculosos. O cabelo negro começando a rarear na testa e nas têmporas era penteado para trás, muito liso por uns cinco centímetros e em seguida se desmanchando em ondas e cachinhos. Usava terno preto, tipo jaquetão, com lapelas pontudas, camisa branca com o colarinho duro de goma e gravata preta com grossas listras em diagonal. No pulso esquerdo trazia um relógio com ouro suficiente para fazer a agulha de um medidor saltar.

Fiske se sentiu estranhamente consciente do som da própria voz:

— ... então fizemos uma — na realidade fui eu que fiz —, uma ligação para a Administração de Recursos Humanos, falei com um sr. Lubidoff, e ele me disse, e estou apenas repetindo o que me disse, que diversos, sete para sermos exatos, disse que sete dos nove diretores da Creche Pequeno Pastor já cumpriram pena, e três estão em liberdade condicional, o que significa que tecnicamente, legalmente — aqui ele olhou para o colega, Moody, que era advogado — são considerados presidiários, ou lhes é concedido ou, diria, pesa-lhes na ficha essa condição.

Fiske encarou o reverendo Bacon, arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas. Era uma tentativa desesperada de induzir o barão a preencher a lacuna na conversa. Não ousava tentar questioná-lo, interrogá-lo. O máximo que podia esperar era que a apresentação de certos fatos o forçasse, pela lógica da situação, a responder.

Mas o reverendo Bacon nem sequer mudou de expressão. Encarou o rapaz como se estivesse observando um rato andando para lá e para cá numa gaiola. O bigode fino que sublinhava seu lábio superior nem mexia. Então começou a tamborilar dois dedos da mão esquerda na escrivaninha, como se dissesse: “Concluindo?”

Não foi o reverendo Bacon, mas o próprio Fiske, que não conseguiu suportar a lacuna e continuou:

— Concluindo... bem, quero dizer, aos olhos da Administração de Recursos Humanos... a seu ver... e eles são a autoridade que concede a licença para creches... e o senhor está a par de todo o furor... de como são sensíveis na questão de creches... é uma questão política importante... de que três diretores da Pequeno Pastor, os que ainda estão em liberdade condicional, ainda são prisioneiros, porque as pessoas em gozo de liberdade condicional continuam a cumprir pena e ainda estão sujeitas a todos... a todos os... bem, o que quer que sejam... e os outros quatro também têm antecedentes criminais, o que por si só é suficiente para... para... Bom, os regulamentos não permitem...

As palavras saíam aos arrancos, enquanto sua mente vasculhava toda a sala à procura de uma saída. Fiske era um desses brancos de saúde invejável que conservam a tez rosada de um garoto de treze anos até os vinte e tantos anos. Nesse momento seu rosto claro começava a enrubescer. Estava constrangido. Não estava apavorado. Dentro de poucos instantes teria que entrar na história dos 350 mil dólares, a não ser que o seu companheiro ali, Moody, o advogado, o fizesse. Deus todo-poderoso, como chegara a isso? Depois de se formar por Yale, Fiske entrara para a Wharton School of Business, onde preparara uma tese de mestrado intitulada “Aspectos quantitativos do comportamento ético numa empresa de capital intensivo”. Nos últimos três anos fora diretor extraordinário das Comunidades da Diocese Episcopal de Nova York, um cargo que o envolvia no pesado apoio moral e financeiro que a diocese oferecia ao reverendo Bacon e a suas obras. Mas mesmo nos primeiros dias de bons auspícios e animação, dois anos antes, sempre se sentira inquieto com as visitas a esse grande e velho palacete no Harlem. Desde o começo, milhares de pequeninas coisas tinham mordido os calcanhares do seu profundo liberalismo intelectual, a começar por essa história de “reverendo Bacon”. Todo graduado de Yale, ou certamente todo sectário da Igreja Episcopal, sabia que “reverendo” era um adjetivo e não um substantivo. Era a mesma coisa que “honorável” antes do nome de um legislador ou de um juiz. A pessoa podia se referir ao “Honorável William Rehnquis!”, mas não poderia chamá-lo de “Honorável Rehnquist”. Da mesma forma, era possível se referir ao “reverendo Reginald Bacon” ou ao “reverendo sr. Bacon”, mas não se dizia “reverendo Bacon” — exceto nessa casa e nesse bairro de Nova York, onde se chamava o homem como ele queria ser chamado, e se esquecia de Yale. A verdade era que Fiske achara o reverendo Bacon intimidante mesmo nos primeiros tempos, quando ele era todo sorrisos. Concordavam em praticamente todas as questões filosóficas e políticas. No entanto, não eram de maneira alguma pessoas semelhantes. E não estavam nos primeiros tempos. Eram o que se poderia chamar de últimos tempos.

— ... Portanto, obviamente temos um problema, reverendo Bacon. Até que consigamos acertar esse problema da licença... e gostaria de ter sabido disso há nove semanas, quando aconteceu... bem, não vejo maneira de o projeto prosseguir até que o resolvamos. Não que não possa ser resolvido, é claro... mas é preciso que o senhor o resolva... bom, a primeira coisa que precisamos fazer, me parece, é sermos objetivos sobre os 350 mil dólares. Naturalmente, essa diretoria... quero dizer, a sua atual diretoria... não poderá gastar nenhuma parcela dessa soma na creche, porque a diretoria terá que ser reorganizada, me parece, o que quando se entra em considerações significa a reorganização da empresa, e isso levará algum tempo. Talvez não muito tempo, mas levará algum e...

E enquanto sua voz prosseguia penosamente, Fiske voltou a olhar para o colega. Esse tal Moody não parecia nem um pouco perturbado. Estava ali sentado numa cadeira de braços, a cabeça virada para um lado, muito tranquilo, como se estivesse sacando o reverendo Bacon perfeitamente. Essa era sua primeira visita à Casa dos Bacon, e parecia encará-la como uma espécie de diversão. Ele era o último funcionário principiante que a firma Dunning Sponget & Leach impingira à diocese, uma conta que eles consideravam prestigiosa mas “mole”. No carro, durante a ida, o jovem advogado contara a Fiske que também frequentara Yale. Jogara como zagueiro no time de futebol. Conseguiu mencionar isso umas cinco vezes. Entrara no quartel-general do reverendo Bacon como se tivesse um tonel de Dortmunder Suave entre as pernas. Sentara-se na cadeira e se recostara gloriosamente descontraído. Mas não dissera nada...

— Assim, entrementes, reverendo Bacon — disse Ed Fiske —, achamos que o mais prudente seria... conversarmos sobre isso na diocese... esse foi o pensamento de todos e não só o meu — achamos mais sensato... quero dizer, nossa única preocupação aqui é o futuro do projeto, da Creche do Pequeno Pastor... porque continuamos a apoiá-lo cem por cento... isso não mudou nada... achamos que o mais prudente seria depositar os 350 mil dólares — sem contar o dinheiro que já entrou no arrendamento do prédio da West 129th Street, é claro... deveríamos depositar o saldo... concorda? — 340 mil dólares, ou o que seja, numa conta sob custódia, e então, quando tiver acertado o problema da diretoria, e receber a licença da Administração de Recursos Humanos, e não houver mais entraves burocráticos com que se preocupar, esse dinheiro seria entregue ao senhor e à sua nova diretoria, e, bem, é... mais ou menos isso!

Fiske tornou a arregalar os olhos, arquear as sobrancelhas e até mesmo forçou um ligeiro sorriso de simpatia, como se dissesse: “Ei! Estamos todos no mesmo barco, não estamos?” Olhou para Moody, que continuava a encarar o reverendo Bacon com aquela calma. O reverendo Bacon sequer piscou, e alguma coisa naquele olhar implacável fez Fiske decidir que não seria sensato continuar a encará-lo. Olhou para os dedos do reverendo Bacon enquanto tamborilavam na mesa. Nem uma palavra. Examinou a mesa. Havia um belo mata-borrão com capa de couro, um conjunto de caneta e lapiseira Dunhill de ouro, montado num pedestal de ônix, uma coleção de pesos para papel e medalhas engastadas em lucite, muitas das quais com dedicatórias de organizações cívicas ao reverendo Bacon, uma pilha de papéis sob um peso formado pelas letras WNBC-TV em latão maciço, um interfone com uma fileira de botões, um grande cinzeiro cúbico com os lados de couro emoldurados em latão, com uma grade de latão servindo de tampa...

Fiske mantinha os olhos baixos. No vácuo que se formara ouviam-se os sons do prédio. No andar acima, abafado pelos assoalhos e paredes espessas, o som distante de um piano... Moody, sentado ali a seu lado, provavelmente nem reparava. Mas Fiske seria capaz de acompanhar mentalmente aqueles acordes sonoros.

“O rei-no mi-le-nar...

Vai... ser...”

Acordes vibrantes.

“Mil anos de... e-ter-ni-da-de...

Rei dos ree-is...

Se-nhor dos senhores...”

Mais acordes. Um oceano inteiro de acordes. Ela estava lá em cima naquele momento. Quando essa coisa começara, essa transação da diocese com o reverendo Bacon, Fiske costumava tocar os discos gravados pela mãe do reverendo Bacon, à noite, em seu apartamento, e cantar acompanhando-os, com extático abandono “O rei-no mi-le-nar!”, um hino que Shirley Caesar tornara famoso... ah, ele conhecia os cantores do Evangelho — ele! — Edward Fiske III, Yale, ‘80 — que agora tinha o direito legítimo de entrar naquele mundo negro e rico... O nome de Adela Bacon ainda aparecia nas pautas de músicas evangélicas de tempos em tempos. De todas as organizações inscritas no vestíbulo da mansão no andar térreo, SOLIDARIEDADE DOS POVOS, IGREJA DOS PORTAIS DO REINO, LIGA TRABALHISTA PORTAIS ABERTOS, MATERNIDADE CONSCIENTE, CRUZADA INFANTIL ANTITÓXICO, LIGA CONTRA A DIFAMAÇÃO DO TERCEIRO MUNDO, CRECHE DO PEQUENO PASTOR, e todo o resto, somente a CORPORACÃO MUSICAL DO REINO MILENAR, de Adele Bacon, era uma organização comercial convencional. Lamentava que nunca tivesse realmente chegado a conhecê-la. Ela fundara a Igreja dos Portais do Reino, supostamente a Igreja do Reverendo Bacon, mas que na realidade se tornara quase inexistente. Ela a dirigira; conduzira os serviços religiosos; inspirara o rebanho pentecostal da Igreja com a sua surpreendente voz de contralto e as ondas crespas do seu oceano de acordes — e ela, somente ela, fora o organismo da Igreja que ordenara o filho Reggie transformando-o no reverendo Bacon. A princípio Fiske se sentira chocado, ao saber. Então se apercebera de uma grande verdade sociológica. Todas as credenciais religiosas eram arbitrárias, eram autorrevelações. Quem dera origem aos artigos de fé segundo os quais seu próprio chefe, o bispo episcopal de Nova York, fora ordenado? Será que Moisés os trouxera gravados em pedra quando desceu da montanha? Não, algum inglês os inventara havia alguns séculos, e uma porção de gente de rosto branco e comprido concordara em considerá-los rigorosos e sagrados. A fé episcopal era apenas mais antiga, mais calcificada e mais respeitável do que a baconiana na sociedade branca.

Mas já passara muito da hora de se preocupar com teologia e história religiosa. Era hora de recuperar os 350 mil dólares.

Agora ouvia água correr e uma porta de geladeira se abrir e uma dessas máquinas de café instantâneo ferver. Isso significava que a porta da pequena cozinha do andar estava aberta. Um negro alto espiava. Vestia uma camisa azul de operário. Tinha um pescoço longo e musculoso e usava um único brinco de ouro na orelha, como um pirata de contos de fadas. Essa era uma das coisas desse lugar... a maneira como esses... esses... esses... vilões estavam sempre por perto. Já não pareciam a Fiske revolucionários românticos... Pareciam... O pensamento do que poderiam ser fez Fiske desviar os olhos... Agora olhava para além de Bacon, pela janela em curva às costas dele. A janela se abria para um quintal. Era o início da tarde, mas o quintal recebia apenas uma claridade triste e esverdeada por causa dos edifícios que tinham sido construídos por trás. Fiske divisava o tronco de três enormes sicômoros. Era só o que restava do que deveria ter sido uma bonita paisagem à época, pelos padrões nova-iorquinos.

Os acordes abafados. Mentalmente, Fiske ouvia a bela voz de Adela Bacon:

“Ah, que... direi, Senhor?

E aconteceu... que...”

Ondas de acordes abafados.

“Uma voz... do alto disse...

Toda a carne... é relva...”

Todo um oceano de acordes.

O reverendo Bacon parou de tamborilar os dedos. Pousou a ponta dos dedos de ambas as mãos na borda da escrivaninha. Ergueu ligeiramente o queixo e disse:

— Isto é o Harlem.

Disse-o lentamente, em tom baixo. Estava tão calmo quanto Fiske estava nervoso. Fiske nunca soubera de que algum dia ele tivesse elevado a voz. O reverendo Bacon imobilizou a expressão do rosto e a posição das mãos, de modo a deixar que as palavras fossem completamente absorvidas.

— Isso — repetiu — é o Harlem... compreende...

Fez uma pausa.

— O senhor chega aqui, depois de todo esse tempo e me diz que há pessoas na diretoria da Creche do Pequeno Pastor que estão cumprindo pena. É o senhor que me informa esse fato.

— Não sou eu quem está dizendo isso, reverendo Bacon — respondeu Fiske. — Isto é o que a Administração de Recursos Humanos está dizendo a nós dois.

— Quero lhe dizer uma coisa. Quero lembrar-lhe algo que me disse. Quem nós queremos que dirija a Creche do Pequeno Pastor? Lembra-se? Queremos que as moças de Wellesley e as moças de Vassar venham aqui tomar conta das crianças do Harlem? Queremos os burocratas licenciados do serviço público? Os condenados ao serviço municipal perpétuo? É isso que queremos? É isso que queremos?

Fiske sentiu-se compelido a responder. Obedientemente, como um aluno de primeiro ano primário, disse:

— Não.

— Não — repetiu o reverendo Bacon demonstrando a sua aprovação —, não é isso que queremos. Que é que queremos? Queremos que o povo do Harlem cuide das crianças do Harlem. Vamos extrair nossa força... nossa força... do nosso povo e das nossas ruas. Disse-lhe isso há muito tempo, logo no início. Lembra-se? Lembra-se disso?

— Lembro — confirmou Fiske, sentindo-se mais juvenil a cada minuto e ao mesmo tempo desamparado diante daquele olhar firme.

— Sim. Das nossas ruas. Ora, um rapaz cresce nas ruas do Harlem; são muitas as chances de a polícia ter uma ficha desse rapaz. Compreende? E tem uma ficha desse rapaz. Estou falando de uma ficha criminal. Então, se vamos dizer a todos que já estiveram presos e a todos que estão saindo da prisão e a todos que estão em liberdade condicional, se vamos dizer “Você não pode participar do renascimento do Harlem, porque o excluímos assim que você é fichado”... compreende... então não estamos falando do renascimento do Harlem. Estamos falando de algum lugar de faz de conta, de algum reino encantado. Estamos nos iludindo. Não estamos procurando uma solução radical. Estamos querendo fazer o mesmo jogo de sempre, queremos ver as mesmas caras de sempre. Queremos pôr em prática o mesmo colonialismo de outrora. Compreende? Compreende o que quero dizer?

Fiske estava prestes a confirmar com a cabeça, quando de repente Moody falou:

— Olhe, reverendo Bacon, sabemos de tudo isso, mas o problema não reside aí. Temos um problema de caráter imediato, específico, técnico, legal. Por lei, a Administração de Recursos Humanos não pode conceder uma licença nas atuais circunstâncias, e encerrou-se o assunto. Portanto, vamos cuidar desse problema e dos 350 mil dólares, e em seguida estaremos em posição de resolver os problemas maiores.

Fiske não acreditava no que estava ouvindo. Involuntariamente escorregou na cadeira e lançou um olhar desconfiado ao reverendo Bacon. O religioso encarava Moody sem qualquer expressão. Encarou-o o tempo suficiente para que o silêncio o envolvesse. Então, sem entreabrir os lábios, meteu a língua na bochecha até ela ficar do tamanho de uma bola de golfe. Voltou-se para Fiske e disse, baixinho:

— Como foi que chegou aqui?

— Ah... de carro — respondeu Fiske.

— Onde deixou o carro? Que aspecto tem?

Fiske hesitou. Então informou.

— Devia ter me dito mais cedo — comentou o reverendo Bacon. — Há maus elementos aqui. — Chamou: — Ei, Buck!

Da cozinha acorreu o homem alto de brinco de ouro. As mangas de sua camisa de trabalho estavam enroladas. Tinha tremendos cotovelos. O reverendo Bacon fez-lhe sinal, ele se aproximou, curvou-se, pôs as mãos nos quadris, e o reverendo lhe disse alguma coisa baixinho. Os braços do homem formavam ângulos incríveis quando estavam dobrados pelos cotovelos. O homem se endireitou, olhou muito sério para o reverendo Bacon, assentiu com a cabeça e começou a deixar a sala.

— Ah, Buck — disse o reverendo.

Buck parou e voltou a cabeça.

— E fique de olho naquele carro.

Buck tornou a assentir e saiu.

O reverendo Bacon olhou para Fiske.

— Espero que nenhum desses rapazes irresponsáveis... de qualquer forma, não irão se meter com Buck. Agora, que é mesmo que eu estava dizendo? — Dirigia-se a Fiske. Era como se Moody não estivesse mais na sala.

— Reverendo Bacon — disse Fiske. — Acho que...

O interfone do reverendo.

— Sim?

Uma voz de mulher informou:

— Irv Stone do Canal 1, no 4-7.

O reverendo Bacon virou-se para um telefone sobre um pequeno armário próximo à cadeira.

— Alô, Irv... Otimo, ótimo... Não, não. Principalmente os da Solidariedade dos Povos. Temos um prefeito para derrotar em novembro... Não desta vez, Irv, não desta vez. Esse homem só precisa de um empurrão. Mas não foi para isso que lhe telefonei. Telefonei para falar da Liga Trabalhista... Eu disse Liga Trabalhista... Há quanto tempo? Há muito tempo, há muito tempo. Você não lê os jornais?... Bom, tudo bem. Foi para isso que liguei. Você conhece aqueles restaurantes no centro, nas imediações das East Fifties e East Sixties, aqueles restaurantes em que as pessoas gastam cem dólares num almoço e duzentos dólares num jantar, e nem pensam duas vezes?... Quê? Não queira me enganar, Irv. Conheço o pessoal da TV. Sabe aquele restaurante em que almoça todos os dias, La Boue d’Argent?

Fiske reparou que o reverendo Bacon não tinha a menor dificuldade em pronunciar o nome de um dos mais caros e elegantes restaurantes de Nova York.

— Eh-he, eh, bem, isso foi o que me disseram. Ou seria o Leicester’s?

Acertou nesse também. Leicester’s se pronunciava Lester’s, à moda inglesa. O reverendo dava risadinhas e sorrisos, agora. Evidentemente estava se divertindo com a própria piada. Fiske se alegrou de vê-lo sorrir — do que quer que fosse.

— Bom, o que quero dizer é: em qualquer desses lugares, você algum dia viu um garçom preto? Viu? Algum dia viu um garçom preto?... É isso mesmo, nunca viu. Você nunca viu. Em nenhum deles. E por quê?... Certo. Os sindicatos também. Você entende o que estou dizendo?... Isso mesmo. Bom, isso é que tem de mudar... entende... tem de mudar. Na próxima terça-feira, a partir do meio-dia, a liga vai fazer uma manifestação no Leicester’s, e quando terminarmos, vamos para o La Boue d’Argent e o Macaque e o La Grise e o Three Ortolans e todos os outros... Como? Pelos meios que se fizerem necessários. Você está sempre falando de metragem, Irv. Pois bem, posso lhe prometer uma coisa. Você vai ter muita metragem. Está me compreendendo?... Telefonar para o Leicester’s? Claro. Pode ligar... Não, de modo algum. Não me importo.

Quando desligou, disse, como se falasse para si mesmo:

— Espero que telefonem.

Então olhou para os dois rapazes.

— Agora! — exclamou, como se tivesse chegado a hora de empacotar tudo e mandar cada um tratar de sua vida. — Vocês, rapazes, estão vendo as coisas de que tenho que cuidar aqui. Estou na luta da minha vida. A luta... da... minha... vida. Na Solidariedade dos Povos, em novembro, temos que derrotar o prefeito mais racista da história dos Estados Unidos. Na Liga Trabalhista Portais Abertos, temos que pôr abaixo as paredes do apartheid no mercado de trabalho. Na Liga Contra a Difamação do Terceiro Mundo, estamos negociando com um bando de exploradores que estão rodando um filme estupidamente racista, chamado Os anjos do Harlem. É só quadrilhas, traficantes, viciados e bêbados. Estereótipos racistas. Acham que por terem esse preto que leva uma quadrilha de jovens a aceitar Jesus, não são racistas. São estupidamente racistas, e precisam ser corretamente orientados sobre essa realidade. Está chegando o dia em Nova York. A hora se aproxima. A batalha final, poderíamos dizer. O Exército de Gedeão... e vocês!... vocês vêm aqui e atiram umas titi... umas ninharias na minha cara sobre a diretoria da Creche do Pequeno Pastor!

A fúria permeara a voz do barão. Estivera prestes a dizer a palavra “titica” e Fiske nunca soubera que tivesse dito uma única palavra feia, nem mesmo “droga”, em todo esse tempo que o conhecera. Fiske se dilacerava entre o desejo de partir dessa casa antes que a batalha final começasse e a chuva de fogo desabasse e o desejo de salvar seu emprego, tal como era. Para início de conversa. Fora ele quem despachara os 350 mil dólares para o reverendo Bacon. Agora tinha que recuperá-los.

— Bom — disse, experimentando um terreno intermediário —, talvez tenha razão, reverendo Bacon. E nós — a diocese — não estamos aqui para complicar as coisas. Sinceramente, queremos protegê-lo, e queremos proteger o investimento que fizemos no senhor. Entregamos-lhe 350 mil dólares condicionados ao licenciamento da creche. Portanto, se devolver os 350 mil ou 340 mil, qualquer que seja o saldo exato, e nos deixar depositá-los sob custódia, então nós o ajudaremos. Vamos batalhar pelo senhor.

O reverendo Bacon olhou-o distraidamente, como se pesasse uma grande decisão.

— Não é tão simples — disse.

— Bom... por que não?

— A maior parte desse dinheiro está... comprometida.

— Comprometida?

— Com os fornecedores.

— Fornecedores? Que fornecedores?

— Que fornecedores? Meu Deus, homem, o equipamento, a mobília, os computadores, os telefones, o carpete, o ar-condicionado, a ventilação — muito importante para as crianças, a ventilação —, brinquedos seguros. É difícil lembrar tudo.

— Mas, reverendo Bacon — disse Fiske alteando a voz —, até o momento só o que o senhor tem é um armazém vazio! Acabei de passar por lá! Não há nada lá! O senhor não contratou um arquiteto! O senhor nem tem o projeto!

— Isso é o de menos. A coordenação é o que conta num projeto desse tipo. Coordenação.

— Coordenação? Não vejo. Bom, talvez seja, mas se assumiu compromissos com fornecedores, então me parece que só precisa explicar-lhes que haverá um atraso inevitável. — De repente Fiske receou que estivesse usando um tom incisivo demais. — Se não se importa, quanto do dinheiro ainda tem em seu poder, reverendo Bacon, quer comprometido ou não?

— Nem um tostão — respondeu o reverendo.

— Nem um tostão? Como assim?

— Esse era o dinheiro inicial, a semente. Tivemos que semeá-la. Uma parte caiu em terreno inculto.

— Semeá-la? Reverendo Bacon, não me diga que adiantou dinheiro a essas pessoas sem que executassem o trabalho!

— São firmas de minorias. Gente da comunidade. Era o que queríamos. Não estou certo?

— Sim. Mas não me diga que adiantou...

— Essas firmas não têm suas “linhas de crédito”, seus “inventários computadorizados”, seus “fluxos de caixa escalonados”, seus “programas de ativos conversíveis”, seus “quocientes de liquidez” e todo o resto. Não são firmas que tenham agentes comerciais, como na indústria de vestuário, a quem podem recorrer quando o azar bate à porta com os seus “atrasos inevitáveis”... entende... São firmas fundadas por gente da comunidade. São os brotinhos tenros que estão nascendo das sementes que plantamos: você, eu, a Igreja Episcopal, a Igreja dos Portais do Reino. Brotinhos tenros... e o senhor me vem com “atraso inevitável”. Isto não é apenas uma frase, não é apenas burocracia: é uma sentença de morte. Uma sentença de morte. É o mesmo que dizer “Faça o favor de morrer”. Por isso não venha me dizer que posso simplesmente explicar-lhes. Atraso inevitável... Diga antes, morte inevitável.

— Mas, reverendo Bacon... estamos falando de 350 mil dólares! Decerto...

Fiske olhou para Moody. O colega estava sentado muito impertigado. Já não parecia muito tranquilo, e não dizia nada.

— A diocese irá... haverá uma auditoria — disse Fiske. — Imediatamente.

— Ah, sim — disse o reverendo Bacon. — Haverá uma auditoria. Vou lhe dar uma auditoria... agora mesmo. Vou lhe dizer uma coisa. Vou lhe dizer uma coisa sobre o capitalismo ao norte da 96th Street. Por que acha que vocês estão investindo todo esse dinheiro, os seus 350 mil dólares, numa creche do Harlem? Por quê?

Fiske não respondeu. Os diálogos socráticos do reverendo Bacon faziam com que se sentisse infantil e desamparado.

Mas Bacon insistiu:

— Agora, vamos, me diga. Quero ouvir de sua boca. Conforme disse, vamos fazer uma auditoria. Uma auditoria. Quero ouvir de sua boca, com as suas próprias palavras. Por que estão investindo todo esse dinheiro em uma creche no Harlem? Por quê?

Fiske não conseguiu se aguentar mais.

— Porque o Harlem precisa desesperadamente de creches — disse, sentindo-se regredir aos seis anos de idade.

— Não, meu amigo — retorquiu Bacon, baixinho —, não é essa a razão. Se vocês estivessem tão preocupados com as crianças, construiriam a creche sozinhos e contratariam os melhores profissionais para trabalhar nela, gente com experiência. Não falariam em contratar a “comunidade das ruas”. O que sabe a “comunidade das ruas” do funcionamento de uma creche? Não, meu amigo, vocês estão investindo em outra coisa. Estão investindo no controle da caldeira. E estão recebendo mercadoria pelo seu dinheiro. Mercadoria por dinheiro.

— Controle da caldeira?

— Controle da caldeira. É um investimento fundamental. É ótimo. Sabe o que é capital? Você pensa que é uma coisa que se possui, e não é. Acha que são fábricas e máquinas e prédios e terras e coisas vendáveis e ações e dinheiro e bancos e empresas. Pensa que é algo que se possui, porque sempre o possuíram. Eram donos de toda essa terra. — Abriu o braço indicando a janela, o quintal sombrio e os três sicômoros. — Eram donos de toda a terra, e mais lá fora, e mais no... Kansas... e... em Oklahoma... faziam fila, e eles diziam “Apontar, preparar, já!”, e uma multidão de brancos começava a correr, e havia toda aquela terra, e só o que precisavam fazer era chegar lá, parar num lugar, e se tornavam proprietários, e a pele branca era o título de posse daquela propriedade... entende... O pele-vermelha, esse estava no caminho, e foi eliminado. Os amarelos, esses podiam assentar trilhos pelo país, mas depois foram confinados em Chinatown. E, quanto ao preto, esse já estava acorrentado o tempo todo. Então vocês eram donos de tudo, e ainda são, por isso pensam que o capital é a posse das coisas. Mas estão enganados. O capital é o controle das coisas. O controle das coisas. Quer ter terras no Kansas? Quer fazer valer a escritura de posse dos brancos? Primeiro vai precisar controlar o Kansas... entende... O controle das coisas. Suponho que nunca tenha trabalhado numa sala de caldeiras. As pessoas são donas das caldeiras, mas isso não vai lhes adiantar nada se não souberem controlar o vapor... entende... Se não souberem controlar... o vapor, então ela vai se transformar num paiol de pólvora para você e toda a sua turma. Se algum dia assistir a uma caldeira se descontrolar, então vai ver uma porção de gente correndo para salvar a vida. E essas pessoas não estão pensando na caldeira como um bem de capital, não estão pensando no retorno de seu investimento, não estão pensando em contas sob custódia e em auditorias nem na coisa mais sensata... entende... Estão dizendo: “Deus todo-poderoso, perdi o controle”, e estão correndo para salvar a vida: Estão tentando salvar a própria pele. Está vendo esta casa? — Fez um gesto vago abrangendo o teto. — Esta casa foi construída no ano de 1906 por um homem chamado Stanley Lightfoot Bowman. Lightfoot — “pés leves”. Toalhas felpudas e toalhas adamascadas por atacado, Stanley Lightfoot Bowman. Vendia essas toalhas felpudas e adamascadas para os varejistas. Gastou quase meio milhão de dólares nesta casa em 1906... entende... As iniciais do homem, S.L.B., estão aqui em bronze, acompanhando os degraus, em vez de pilares. Esse era o lugar do futuro em 1906. Construíam esses casarões até o West Side, começando na 72nd Street e terminando aqui. É, comprei essa casa de um — de um judeu — em 1906 por 62 mil dólares, e o sujeito ficou feliz de receber esse dinheiro todo. Lambia os beiços e dizia: “Encontrei um... um otário que me desse 62 mil dólares por aquela casa.” Muito bem, que aconteceu a todos esses Stanley Lightfoot Bowmans? Perderam o dinheiro? Não, perderam o controle... th entende... Perderam o controle da área ao norte da 96 Street, e quando perderam o controle, perderam o capital. Compreende? Todo aquele capital desapareceu da face da terra. A casa continuou de pé, mas o capital desapareceu... entende... O que estou lhe dizendo, então, é o seguinte: é melhor acordar. Você está praticando o capitalismo do futuro, e nem se apercebe disso. Não está investindo numa creche para as crianças do Harlem. Está investindo nas almas... nas almas... das pessoas que estão há tempo demais no Harlem para continuarem a vê-lo como crianças, gente que se criou com uma cólera justificada no coração e um vapor justificado crescendo na alma, pronto para explodir. Um vapor justificado. Quando vocês aparecem por aqui e falam de “fornecedores de minorias” e “contratação de minorias” e creches para a “comunidade das ruas”, da “comunidade das ruas” e dirigidas pela “comunidade das ruas”, vocês estão tocando a música certa, mas não querem cantar a letra certa. Não querem chegar e dizer francamente: “Por favor, meu Senhor Deus todo-poderoso, deixe-os fazer o que quiserem com o dinheiro, desde que controlem o vapor... antes que seja tarde demais...” Pois bem, continue e mande fazer a sua auditoria e fale com a Administração de Recursos Humanos e reorganize as diretorias e corte todos os tês e ponha pingos em todos os is. Entrementes, já fiz o seu investimento para vocês e, graças a mim, já se encontram um passo à frente... Ah, faça a sua auditoria!... Mas chegará a hora em que dirão: “Graças a Deus. Graças a Deus!” Graças a Deus que demos entrada do dinheiro nos livros do reverendo Bacon do jeito que ele gosta! Porque sou conservador, quer saibam ou não. Vocês não sabem quem está lá fora naquelas ruas violentas e famintas. Eu sou o seu corretor sensato no dia do Juízo Final. Harlem, Bronx e Brooklyn vão explodir, meu amigo, e nesse dia, como se sentirão gratos ao seu sensato corretor... seu sensato corretor... que é capaz de controlar a caldeira. Ah, sim. Nesse dia, os donos do capital se sentirão felizes em trocar o que possuem, como se sentirão felizes em entregar até os seus direitos inatos, só para controlar aquele vapor violento e voraz. Não, volte para o centro e diga: “Bispo, estive no Harlem e estou aqui para lhe informar que fizemos um bom investimento. Encontramos um corretor sensato. Vamos estar pisando em terreno seguro quando tudo desmoronar.”

Nesse instante a campainha do interfone tornou a tocar, e a voz da secretária anunciou: “Há um sr. Simpson no telefone, da Companhia de Seguros Mútuos Urbanos. Quer falar com o presidente da Investimentos Urbanos Garantidos.”

O reverendo Bacon ergueu o fone.

— Aqui é Reginald Bacon... Isso mesmo, presidente e diretor executivo... Exatamente, exatamente... Sim, bom, apreciamos o seu interesse, sr. Simpson, mas já negociamos esse lançamento no mercado... Exatamente, tudo o que emitimos... Ah, sem dúvida, sr. Simpson, essas obrigações de escolas são muito procuradas. Naturalmente, é de grande valia conhecer esse mercado e é para isso que a Investimentos Urbanos Garantidos existe. Queremos colocar o Harlem no mercado... Exatamente, exatamente, o Harlem sempre esteve no mercado... entende... Agora o Harlem vai estar disponível no mercado... Obrigado, obrigado... Bom, por que não experimenta ligar para um dos nossos sócios no centro? Conhece a firma Pierce & Pierce?... Exatamente... Estão lançando no mercado uma grande quantidade dessas obrigações, uma grande quantidade. Tenho certeza de que terão muita satisfação em negociar com o senhor.

Investimentos Urbanos Garantidos? Pierce & Pierce? A Pierce & Pierce era um dos maiores e mais ativos bancos de investimentos na Wall Street. Uma terrível suspeita invadiu o coração normalmente caridoso de Fiske. Arriscou uma olhadela para Moody e o colega olhava para ele, e era óbvio que estava pensando a mesma coisa. Será que Bacon tinha transferido os 350 mil dólares para uma operação de títulos, ou o que quer que em nome de Deus tivesse feito? Se o dinheiro dera entrada no mercado de títulos, então a essa altura poderia ter desaparecido sem deixar vestígio.

Assim que o reverendo Bacon desligou, Fiske comentou:

— Eu não sabia que o senhor tinha... nunca ouvi falar... bom, talvez o senhor... mas creio que não... que é... não pude deixar de ouvir o senhor mencionar... o que são esses Investimentos Urbanos Garantidos?

— Ah — disse o reverendo Bacon —, fazemos umas subscriçõezinhas de títulos sempre que podemos. Não há razão para o Harlem sempre comprar no varejo e vender no atacado... entende... Por que não fazer do Harlem o corretor?

Para Fiske isso era puro palavreado.

— Mas onde consegue... como pode financiar... quero dizer, uma coisa dessas... — Não conseguia pensar numa maneira de pôr esse rojão aceso em palavras. Os eufemismos necessários lhe escapavam. Para sua surpresa, Moody falou outra vez.

— Entendo alguma coisa de firmas de títulos, reverendo Bacon, e sei que exigem um bom capital. — Fez uma pausa, e Fiske percebeu que Moody estava se debatendo num mar encapelado de circunlóquios, também. — Bom, o que quero dizer é, capital normal, capital no sentido normal. O senhor... nós estivemos falando em capital ao norte da 96th Street e no controle... hum, do vapor. Conforme mencionou... mas isso me parece puro capitalismo, capitalismo, se entende o que quero dizer.

O reverendo Bacon lançou-lhe um olhar maligno, em seguida deu uma risada gutural e sorriu, mas sem bondade.

— Não preciso de capital. Somos subscritores. Lançamos os títulos no mercado, desde que sejam para o bem da comunidade... entende... escolas, hospitais...

— Sim, mas...

— Paulo sabia: há muitas estradas para Damasco, meu amigo. — As palavras “muitas estradas” ficaram pairando no ar, carregadas de significado.

— Sim, eu sei, mas...

— Se eu fosse o senhor — disse o reverendo Bacon —, não me preocuparia com os Investimentos Urbanos Garantidos. Se eu fosse o senhor, faria como diziam os antigos. Trataria do que me compete.

— É isso o que estou tentando fazer, reverendo Bacon. O que me compete é... bem, monta a 350 mil dólares.

Fiske tornou a afundar na cadeira. Moody recobrara a coragem dos tolos. Fiske arriscou uma olhadela para o matador de tolos à escrivaninha. Nesse minuto, o interfone tocou mais uma vez.

A voz da secretária informou:

— Annie Lamb está na linha. Diz que precisa falar com o senhor.

— Annie Lamb?

— Ela mesma, reverendo.

Um grande suspiro.

— Tudo bem, vou atender. — Apanhou o fone. — Annie?... Annie, espere um minuto. Mais devagar... Como disse? Henry?... Isso é terrível, Annie. Está muito mal?... Oh, Annie, sinto muito... Ele disse? — Uma longa pausa enquanto o reverendo Bacon escutava, de olhos baixos. — Que diz a polícia?... Multas de estacionamento? Isso não tem... Isso não tem... Eu digo que isso não tem... Tudo bem, Annie, olhe aqui. Venha até aqui e me conte a coisa toda... Nesse meio-tempo, vou ligar para o hospital. Não fizeram a coisa direito, Annie. É isso que me parece. Não fizeram a coisa direito... Quê?... Você tem absoluta razão. Não podia estar mais certa. Não fizeram a coisa direito, e vão ouvir o que tenho a dizer... Não se preocupe. Venha já para cá.

O reverendo Bacon desligou o telefone, girou a cadeira para encarar Fiske e Moody, apertou os olhos e olhou-os sério.

— Senhores, tenho uma emergência nas mãos. Uma das minhas colaboradoras mais leais, uma das minhas líderes comunitárias, teve o filho atropelado por um motorista irresponsável que fugiu... num Mercedes-Benz. Num Mercedes-Benz... Ele está às portas da morte, e essa boa mulher está com medo de ir à polícia, e sabem por quê? Multas de estacionamento. Há um mandado de prisão contra ela por multas de estacionamento. Essa senhora trabalha. Trabalha na prefeitura, no centro, e precisa do carro, e expediram um mandado de prisão por... multas de estacionamento. Isso não os deteria se fosse o seu filho, mas os senhores nunca moraram no gueto. Se fosse o filho dos senhores, não fariam o que fizeram. Não poriam uma atadura no pulso e o mandariam embora quando o que tinha era uma concussão, e agora está às portas da morte... entendem... Mas essa é a história do gueto. Uma negligência gritante... É isso o que o gueto é... uma negligência gritante... Senhores, a nossa reunião fica adiada. Tenho que tratar de assuntos sérios agora.

Na viagem de volta ao centro os dois rapazes de Yale não falaram muito até chegarem quase à 96th Street. Fiske se sentiu bastante feliz de encontrar o carro onde deixara, com os pneus ainda cheios e o para-brisa inteiro. Quanto a Moody... tinham percorrido vinte quarteirões, e Fiske não ouvira um pio de Moody sobre seus tempos de zagueiro em Yale.

Finalmente, Moody disse:

— Bom, quer jantar no Leicester’s? Eu conheço o maître, um negro grande e alto com um brinco de ouro.

Fiske esboçou um sorriso e não fez comentário. A piadinha de Moody fez Fiske se sentir superior. Parte do humor implícito era a implausibilidade da ideia de que qualquer dos dois fosse jantar no Leicester’s, que era o restaurante mais elegante daquele século. Bom, acontecia que Fiske estava indo ao Leicester’s naquela mesma noite. Moody também não tinha conhecimento de que o Leicester’s, embora elegante, não era um restaurante clássico com uma tropa de maîtres e garçons. Faria mais o gênero bistrô inglês nas imediações da Fulham Road. O Leicester’s era o ponto favorito da colônia britânica em Nova York, e Fiske fora conhecendo um bom número de seus membros... e, bem, era o tipo de coisa que jamais poderia explicar a um sujeito como Moody, mas os britânicos compreendiam a arte da boa conversa. Fiske considerava-se essencialmente britânico, britânico de linhagem e britânico em... bem, numa certa compreensão aristocrática e inata da maneira de conduzir a vida, aristocrática não no sentido da mais rica mas da melhor. Ele era como o grande Lorde Philbank, não era? — Philbank, um pilar da Igreja da Inglaterra que usara suas amizades sociais e seu conhecimento dos mercados financeiros para ajudar os pobres do East End londrino.

— Pensando bem — disse Moody —, nunca vi um garçom negro num restaurante de Nova York, exceto em lanchonetes. Acha que Bacon vai realmente conseguir alguma coisa?

— Depende do que queira dizer com essa pergunta.

— Bom, o que vai acontecer?

— Não sei — respondeu Fiske —, mas eles querem ser garçons no Leicester’s tanto quanto eu e você. Minha ideia é que os restaurantes talvez concordem em fazer uma contribuição para as boas obras do reverendo Bacon no Harlem, e eles então passam ao restaurante seguinte.

— Então é apenas um acerto de contas — comentou Moody.

— Bom, isso é que é o engraçado. As coisas mudam. Não tenho muita certeza se ele se importa que mudem ou não, mas elas mudam. Restaurantes de que ele nunca ouviu falar, e com os quais não se importaria se tivesse ouvido, começarão a contratar garçons negros em vez de esperar que Buck e todas aquelas figuras apareçam.

— O vapor.

— Suponho que sim. Você não adorou toda aquela história sobre a sala de caldeiras? Ele nunca trabalhou em nenhuma sala de caldeiras. Mas acabou de descobrir mais um recurso, creio que poderíamos chamá-lo assim. Talvez seja até uma forma de capital, se definirmos capital como qualquer coisa que se possa usar para criar mais riqueza. Não sei, mas talvez Bacon não seja diferente de Rockefeller ou Carnegie. Descobre-se um novo recurso e extrai-se dinheiro enquanto se é jovem, e quando se envelhece eles lhe concedem prêmios e dão o seu nome a coisas, e lembram-se de você como um líder do povo.

— Muito bem, e os Investimentos Urbanos Garantidos? Isso não me parece nenhum recurso novo.

— Eu não teria tanta certeza. Não sei do que se trata, mas vou descobrir. E estou pronto a apostar uma coisa: o que quer que seja, vai ter alguma coisa de esquisito, e vai me dar uma visão um pouco melhor da porra dessa história.

Então Fiske mordeu os lábios, porque na verdade era um sectário sincero da Igreja Episcopal, raramente xingava e considerava palavrões não só uma coisa errada, como vulgar. Isso era um dos muitos pontos em que, mesmo a essa altura, ele por acaso concordava com Reginald Bacon.

Quando finalmente chegaram à 79 th Street, em segurança na Manhattan Branca, Fiske já reconhecia que mais uma vez Bacon tinha razão. Não estavam investindo em uma creche, estavam?... Estavam tentando comprar almas. Estavam tentando tranquilizar a alma justificadamente enfurecida do Harlem.

Vamos encarar os fatos!

Então despertou. “Fiske... seu idiota...” Se não conseguisse recuperar os 350 mil dólares, ou a maior parte deles, ia parecer um idiota dos mais rematados.