A Fogueira das Vaidades
Capítulo 14
14
NÃO SEI MENTIR
Sherman acordou de um sonho de que não conseguia se lembrar, com o coração malhando as paredes do tórax. Era a hora dos bêbados, aquela hora na calada da noite, quando os bêbados e os insones repentinamente acordam e descobrem que terminou o sono furtado. Ele resistiu ao impulso de consultar o relógio luminoso no rádio à mesa de cabeceira. Não queria saber quantas horas teria que permanecer ali deitado lutando com esse estranho, seu coração, que estava desesperado para fugir para um Canadá muito muito muito muito muito distante.
As janelas se abriam para a Park Avenue e para uma rua lateral. Entre os parapeitos e a parte inferior das persianas havia uma faixa de claridade arroxeada. Ele ouviu um automóvel, um automóvel solitário, dar partida em um sinal de tráfego. Então ouviu um avião. Não era um jato, mas um avião de hélice. O motor parou. Ia bater! Então tornou a ouvi-lo, zumbindo e gemendo nos céus de Nova York. Como era estranho...
... na calada da noite. Sua mulher dormia, a meio metro de distância, do outro lado do Muro de Berlim, respirando ritmadamente... alheia... Estava de costas para ele, deitada de lado, os joelhos dobrados. Como seria bom rolar para junto dela, encaixar os joelhos por trás dos dela e apertar o peito contra as suas costas. Um dia isso fora possível... um dia, quando eram tão íntimos... podiam fazer isso sem acordar um ao outro... na calada da noite.
Isso não podia ser verdade! Não havia possibilidade de irromperem por essas paredes e invadirem sua vida! O rapaz alto e magricela, os jornais, a polícia... na hora dos bêbados.
Sua filha meiga e querida dormia no quarto mais adiante. Querida Campbell. Uma menininha feliz — alheia! Uma névoa passou por seus olhos bem abertos.
Fixou o olhar no teto e tentou se enganar para voltar a dormir. Pensou em... outras coisas... A moça que encontrara no salão de jantar do hotel em Cleveland aquela vez... a maneira profissional com que se despira diante dele... contrastando com Maria... que fazia isso e aquilo, intumescida de... luxúria!... A luxúria o levara às... entranhas do Bronx, ao rapaz magricela... Lá foi ele para o chão...
Não havia outras coisas. Todas estavam ligadas a essas, e ele estava deitado ali com elas relampejando pela mente em imagens medonhas... Os rostos medonhos na tela de televisão, o rosto melancólico de Arnold Parch, naquela medonha tentativa de severidade... a voz evasiva de Bernard Levy... a expressão no rosto de Muriel, como se soubesse que ele agora possuía uma marca infamante e já não era uma personagem olímpica na Pierce & Pierce... A hemorragia de dinheiro... Claro que isso eram sonhos! Seus olhos estavam arregalados, fixos na claridade arroxeada que penetrava pelo ponto em que as persianas terminavam aquém do parapeito... na calada da noite, temendo a luz da alvorada.
Levantou-se cedo, acompanhou Campbell ao ponto do ônibus, comprou os jornais na Lexington Avenue e tomou um táxi para a Pierce & Pierce. No Times... nada. No Posto... nada. No Daily News, apenas uma foto e uma legenda. A foto mostrava os piquetes e os manifestantes. Um cartaz em primeiro plano dizia A JUSTIÇA DE WEISS É UMA JUSTIÇA BRANCA. Dentro de mais duas horas... The City Light estaria nas bancas.
Era um dia tranquilo na Pierce & Pierce, ao menos para ele. Fez as ligações rotineiras para a Prudential, Morgan Guaranty, Allen & Company... The City Light... Félix estava do outro lado da sala. Até pensar em usá-lo novamente seria demasiado humilhante... Nem uma palavra de Arnold Parch ou de qualquer outro. Estão me dando o gelo?... The City Light... Telefonaria para Freddy e pediria para mandar buscar o jornal. Freddy poderia lê-lo pelo telefone. Então ligou para ele, mas Freddy saíra para atender a um compromisso. Ligou para Maria; não se encontrava em parte alguma... The City Light... Não conseguia aguentar mais. Iria lá embaixo, compraria o jornal, leria no saguão e voltaria. No dia anterior estivera ausente sem licença quando aparecera um lançamento de obrigações. Estourara milhões — milhões! — nas obrigações garantidas em ouro. Em que medida mais uma transgressão poderia piorar as coisas? O mais calmamente possível começou a atravessar a sala de operação de obrigações em direção aos elevadores. Ninguém pareceu notar. (Ninguém mais se importa!)
Lá embaixo, na banca do saguão, olhou para a direita e para a esquerda e então comprou The City Light. Dirigiu-se para trás de uma grande coluna de mármore rosado. Seu coração batia com força. Que sinistro! que estranho! — viver amedrontado, todos os dias, com jornais de Nova York! Nada na primeira página... nem na página 2... nem na página 3... Estava na página 5, uma foto e uma notícia desse tal de Peter Fallow. A foto mostrava uma negra magra chorando, enquanto um negro alto de terno a consolava. Bacon. Havia cartazes dos piquetes ao fundo. A notícia não era longa. Leu-a rapidamente... “fúria da comunidade”... “carro de luxo”... “motorista branco”... Nenhuma indicação clara do que a polícia estava fazendo. No fim da notícia havia uma chamada que dizia “Editorial, página 36”. Seu coração disparou de novo. Os dedos tremiam enquanto folheava até a página 36... Ali, no alto da coluna de editoriais, o título “JUSTIÇA INEFICAZ”.
“Na segunda-feira, Peter Fallow de The City Light noticiou a trágica história de Henry Lamb, o excepcional estudante do Bronx que foi gravemente ferido num acidente de carro com fuga do responsável — e abandonado como mais um detrito nesta cidade emporcalhada.
É verdade que, do ponto de vista legal, o caso de Henry Lamb não é um caso bem estruturado. Nem ele, tampouco, teve uma vida bem estruturada. Conseguiu superar os piores obstáculos que a vida em um conjunto habitacional poderia opor ao seu caminho — inclusive o assassinato do pai por um assaltante — e obteve um excelente desempenho escolar na Ruppert High School. Foi atropelado no limiar de um brilhante futuro.
Não basta termos pena de Henry Lamb e de muitas outras pessoas de bem que estão decididas a enfrentar as desvantagens existentes nas zonas menos ricas de nossa cidade. Elas precisam saber que suas esperanças e sonhos são importantes para o futuro de toda Nova York. Exigimos uma investigação irrestrita de todos os ângulos do caso Lamb.”
Sentiu-se abalado. A coisa estava se transformando numa cruzada. Olhou para o jornal. Deveria guardá-lo? Não; era melhor não ser visto com ele. Procurou uma cesta de lixo ou um banco. Nada. Fechou o jornal, dobrou-o ao meio, deixou-o cair no chão atrás da coluna e voltou depressa para os elevadores.
Almoçou à escrivaninha, um sanduíche e um suco de laranja, procurando parecer diligente. Sentia-se nervoso e terrivelmente cansado. Não conseguiu terminar o sanduíche. No início da tarde teve um desejo incontido de fechar os olhos. Sua cabeça estava tão pesada... o início de uma dor de cabeça se aferrara à sua testa. Ficou imaginando se estaria pegando uma gripe. Precisava ligar para Freddy Button. Mas estava muito cansado. Nesse instante, o telefone tocou. Era Freddy Button.
— Engraçado, estava justamente pensando em telefonar para você. Saiu um maldito editorial hoje, Freddy.
— Eu sei. Já li.
— Leu?
— Li os quatro jornais. Ouça, Sherman, tomei a liberdade de ligar para Tommy Killian. Por que não vai vê-lo? O escritório dele é na Reade Street. Não é muito longe de onde você está, junto à Prefeitura. Ligue para ele. — Na sua voz oclusiva de fumante, recitou um número de telefone.
— Acho que a coisa não parece muito boa.
— Não é isso. Não há nada de concreto no que li. É só porque o caso está assumindo uma feição mais política, e Tommy terá uma ideia melhor da coisa.
— Está bem. Obrigado, Freddy. Vou ligar.
Um irlandês na Reade Street chamado Tommy Killian.
Não telefonou. Tinha uma dor de cabeça tão forte, fechou os olhos e massageou as têmporas com a ponta dos dedos. Às 17 horas em ponto, o fim oficial do dia, ele saiu. Isto não era a praxe. O fim do dia de operações era o começo da segunda parte do dia para um Senhor do Universo.
O fim do dia de operações era como o fim de uma batalha. Depois das 17 horas, os Senhores do Universo cuidavam de todas as coisas que as pessoas em outros ramos de negócio passavam o dia inteiro fazendo. Calculavam o “líquido líquido”, ou seja, os lucros e as perdas reais naquele dia de trabalho. Reexaminavam os mercados, reexaminavam as estratégias, discutiam problemas pessoais, pesquisavam novos lançamentos e liam todas as notícias financeiras, coisa proibida durante a batalha diária. Contavam casos de guerra, batiam no peito e cantavam vitória, se a mereciam. A única coisa que a pessoa nunca fazia era simplesmente voltar para casa, a mulher e as crianças.
Sherman mandou Muriel chamar um carro do serviço de aluguel para ele. Observou-lhe o rosto procurando sinais de sua queda em desgraça. Nada.
Diante do prédio, na rua, havia filas quádruplas e quíntuplas de carros do serviço de aluguel e homens brancos de terno passando entre eles, de cabeça baixa, apertando os olhos, procurando o número de seu carro. O nome do serviço e o número do carro estavam sempre afixados a uma janela lateral. A Pierce & Pierce utilizava uma companhia chamada Tango. Só sedãs Buick ou Oldsmobile. A Pierce & Pierce fazia de trezentas a quatrocentas corridas por dia a uma tarifa média de quinze dólares. Algum espertalhão na Tango, quem quer que fosse o dono, provavelmente estava faturando 1 milhão de dólares líquidos por ano só com a Pierce & Pierce. Sherman estava procurando o Tango 278. Perambulava naquele mar de sedãs, ocasionalmente se desviando de homens que se pareciam muito com ele, a cabeça baixa, apertando os olhos... ternos escuros... “Licença”... “Licença”... A nova hora de pico! Nos filmes antigos, a hora de pico na Wall Street passava-se toda no metrô... Metrô?... Lá embaixo com... eles?... Isola!... Hoje... vagando, vagando... entre os sedãs... apertando e apertando os olhos... Licença, licença... Finalmente encontrou o Tango 278.
Bonita e Lucille se surpreenderam ao vê-lo entrar no apartamento às 17 horas e 30 minutos. Ele não se sentia suficientemente bem para se fazer simpático. Judy e Campbell não estavam em casa. Judy levara a filha a uma festa de aniversário no West Side.
Sherman subiu com esforço a grande escadaria curva. Entrou no quarto, tirou o paletó e a gravata. Sem descalçar os sapatos, estirou-se na cama. Fechou os olhos. Sentiu a consciência se esvaindo, esvaindo. Era insuportavelmente pesada, a consciência.
Sr. McCoy. Sr. McCoy.
Bonita estava ao lado dele. Não conseguia imaginar por quê.
— Não quero incomodar — disse. — O porteiro, ele disse que tem dois homens da polícia lá embaixo.
— O quê?
— O porteiro, ele diz...
— Lá embaixo?
— É. Diz que são da polícia.
Sherman se ergueu apoiando-se no cotovelo. Lá estavam suas pernas, estendidas na cama. Não conseguia imaginar por quê. Devia ser de manhã, mas estava de sapatos. Bonita se encontrava parada a seu lado. Esfregou o rosto.
— Bom... diga-lhes que não estou.
— O porteiro, ele já disse que o senhor está.
— O que querem?
— Não sei, sr. McCoy.
Uma claridade suave e fraca. Seria o amanhecer? Estava em estado hipnótico. Sentia como se as ligações neurais estivessem bloqueadas. Não formavam um padrão ordenado: Bonita; a polícia. O pânico se instalou nele mesmo antes de conseguir colocar em foco as razões para isso.
— Que horas são?
— Seis horas.
Tornou a olhar para as pernas, para os sapatos. Deviam ser seis horas da tarde. Chegara em casa às 17 horas e 30 minutos. Caíra no sono. Ainda estava estendido... diante de Bonita. Um senso de dignidade, mais do que qualquer outra coisa, fê-lo escorregar as pernas para fora da cama e se sentar na beirada.
— O que digo a ele, sr. McCoy?
Devia estar se referindo ao porteiro. Não conseguia entender direito. Estavam lá embaixo. Dois policiais. Ele estava sentado na beira da cama, tentando acordar. Havia dois policiais lá embaixo com o porteiro. O que deveria dizer?
— Diga a ele... a eles... que terão de esperar um pouco, Bonita.
Levantou-se e começou a caminhar em direção ao banheiro. Tão tonto, tão estremunhado; a cabeça doía; havia um som de cascata em seus ouvidos. O rosto no espelho do banheiro mantinha o queixo aristocrata, mas estava vincado, turvo e decrépito. A camisa estava amarrotada e para fora da calça. Jogou água no rosto. Uma gotinha oscilava na ponta do nariz. Enxugou o rosto com uma toalha de mão. Se ao menos conseguisse pensar! Mas estava tudo bloqueado. Era só nevoeiro. Caso se recusasse a atendê-los, e soubessem que estava lá em cima, e sabiam, então ficariam desconfiados, não ficariam? Mas se conversasse com eles e lhe perguntassem — o quê? Tentou imaginar... não conseguia se concentrar. O que quer que perguntem... não sabe... Não! Não pode se arriscar! Não deve vê-los! Mas que dissera a Bonita? — “Terão que esperar um pouco” — como se dissesse: “Vou recebê-los, mas terão que esperar um minuto.”
— Bonita! — Voltou ao quarto, mas ela não estava lá. Saiu para o corredor. — Bonita!
— Aqui embaixo, sr. McCoy.
Da balaustrada do corredor podia vê-la parada ao pé da escada.
— Você ainda não ligou para o porteiro, não?
— Já, já liguei. Disse a ele que eles têm de esperar.
Merda. Isto significava que os receberia. Tarde demais para recuar. Freddy! Ligaria para Freddy! Voltou para o quarto, o telefone, a cama. Telefonou para o escritório de Freddy. Ninguém respondeu. Ligou para a mesa da Dunning Sponget e perguntou por ele; decorrido o que lhe pareceu uma espera interminável, informaram-lhe que já saíra. Chamá-lo em casa. Qual era o número? No catálogo telefônico, lá embaixo na biblioteca.
Correu escada abaixo — percebeu que Bonita ainda se encontrava no saguão de entrada. Não devia parecer atordoado diante dela. Dois policiais lá embaixo com o porteiro. Atravessou o piso de mármore com o que talvez passasse por um andar calmo.
Guardava o catálogo numa prateleira atrás da escrivaninha. Seus dedos tremiam enquanto folheavam as páginas. B. O telefone não estava sobre a escrivaninha. Alguém o deixara na mesinha auxiliar junto à bergère. Um abuso. Saiu correndo da mesa para a poltrona. O tempo corria. Discou o número de Freddy. Uma criada atendeu. Button saiu para jantar. Merda. E agora? O tempo estava correndo, correndo, correndo. Que faria o Leão? O tipo de família em que a cooperação com as autoridades era automática. Só poderia haver uma razão para não cooperar. Quando havia realmente o que esconder. Naturalmente perceberiam isso imediatamente, o fato de alguém não cooperar. Se ao menos...
Saiu da biblioteca e voltou para o vestíbulo. Bonita ainda estava lá. Olhava para ele muito atenta — e foi isso que o levou a se decidir. Não queria parecer assustado ou indeciso diante dos criados. Não queria parecer uma pessoa em apuros.
— Muito bem, Bonita. — Tentou falar como alguém que já estava incomodado e sabia que ainda ia perder mais tempo. — Quem é o porteiro de serviço esta noite? Eddie?
— Eddie.
— Diga-lhe para deixá-los subir. Mande-os esperar aqui. Desço em um minuto.
Subiu muito estudadamente a escada. Quando chegou ao hall de cima, correu para o quarto. O que viu no espelho foi algo embaçado e amarrotado. Ergueu o queixo. Isso ajudava. Seria forte. Não perderia a cabeça. Seria... permitiu-se a frase... — um Senhor do Universo.
Que aparência deveria ter? Deveria vestir de novo o paletó e a gravata? Estava de camisa branca, calça do terno de lã penteada cinzenta e sapatos pretos. Com a gravata e o paletó iria parecer demasiadamente Wall Street, demasiadamente conservador. Poderiam não gostar disso. Correu para o outro quarto, que transformara em quarto de vestir, e tirou um paletó de tweed xadrez do armário e o vestiu. O tempo corria, corria. Muito mais displicente, descontraído; um homem em casa, inteiramente tranquilo. Mas o paletó de tweed macio não combinava com a calça de textura áspera. Além do mais... um paletó esporte... um esportista... um jovem dissoluto que vivia correndo em seu carro esporte... Despiu o paletó de tweed, atirou-o no divã e voltou correndo para o quarto de dormir. O paletó e a gravata estavam jogados numa cadeira estofada.
Colocou a gravata e ajeitou-a com um nó apertado. O tempo correndo, o tempo correndo. Vestiu o paletó e o abotoou. Ergueu o queixo e aprumou os ombros. Wall Street. Entrou no banheiro e escovou os cabelos para trás. Tornou a erguer o queixo. Seja forte. Um Senhor do Universo.
Correu de volta para o hall e foi diminuindo o passo ao se aproximar das escadas. Desceu a passos lentos e tentou se lembrar de manter uma postura correta.
Eles estavam parados no meio do vestíbulo de mármore, dois homens e Bonita. Como tudo parecia estranho! Os dois homens estavam de pé com as pernas ligeiramente afastadas, e Bonita estava postada a uns dois metros de distância, como se eles fossem o seu pequeno rebanho. Seu coração batia a um bom ritmo.
O maior dos dois parecia um grande flanco de carne vestido. O paletó do terno se empinava como um papelão na altura da barriga de lutador. Tinha um rosto moreno, um rosto mediterrâneo, na concepção de Sherman. Tinha um bigode que não combinava com o cabelo. O bigode se enroscava para baixo nos cantos da boca, um estilo que para um operador de obrigações da Pierce & Pierce imediatamente o enquadrava na Classe Baixa. O tal detetive observava enquanto Sherman descia as escadas, mas o outro, o menor, não. Usava um paletó esporte e o tipo de calça marrom que uma mulher escolheria para combinar. Apreciava a entrada como um turista... o mármore, o porta-chapéus de teixo, a seda damasco nas paredes, as cadeiras Thomas Hope, os detalhezinhos perfeitos em que Judy sangrara dezenas de milhares de dólares... O nariz do homem era grande, mas o queixo e os maxilares eram delicados. Mantinha a cabeça virada em ângulo. Parecia que alguma força portentosa o atingira de um lado da cabeça. Então voltou o olhar enviesado para ele. Sherman tinha consciência das batidas de seu coração e do ruído que os sapatos faziam enquanto atravessava o vestíbulo de mármore. Mantinha o queixo erguido e forçava-se a rir amavelmente.
— Senhores, em que posso servi-los? — Olhou para o maior ao dizer isso, mas foi o menor, o vesgo, que respondeu:
— Sr. McCoy? Sou o detetive Martin, e esse é o detetive Goldberg.
Deveria apertar as mãos? Era melhor. Estendeu a mão, o menor a apertou e em seguida o maior o imitou. Isso parecia embaraçá-los. Não apertavam as mãos com muita firmeza.
— Estamos investigando um acidente de automóvel que causou lesões em alguém. Talvez tenha lido sobre o caso ou visto alguma coisa na televisão. — Meteu a mão no bolso do paletó e tirou um pedaço de papel, dobrado ao meio. Entregou-o a Sherman. Nele havia um recorte de jornal, a primeira notícia de The City Light. A foto do rapaz alto e magricela. Trechos da notícia estavam sublinhados em amarelo. Bruckner Boulevard. Mercedes-Benz. R. Seus dedos tremeriam? Se segurasse o papel o tempo suficiente para ler o artigo inteiro, tremeriam. Ergueu os olhos para os dois detetives.
— Vimos alguma coisa sobre isso na televisão ontem à noite, minha esposa e eu. — Deveria dizer que estava surpreso? Ou “que coincidência, não?”. Tais pensamentos se resumiram na frase: “Não sei mentir.” — Pensamos, nossa, temos um Mercedes, e o número da placa começa com R. — Tornou a abaixar os olhos para o recorte e o devolveu logo para o menor, Martin.
— O senhor e muito mais gente — disse Martin com um sorriso tranquilizador. — Estamos tentando verificar todos.
— Quantos são?
— Um monte. Temos um monte de detetives trabalhando nisso. Meu companheiro e eu temos uma lista aqui de uns vinte.
Bonita continuava parada ali, assistindo, observando tudo.
— Bom, vamos entrar — disse Sherman para o homem chamado Martin. Indicou a biblioteca. — Bonita, faça-me um favor. Se a sra. McCoy e Campbell voltarem, diga-lhes que estou ocupado com estes senhores na biblioteca.
Bonita assentiu e se retirou na direção da cozinha.
Na biblioteca, Sherman encaminhou-se para a escrivaninha e fez um gesto convidando-os a sentar na bergère e na cadeira de braços Sheraton. O menor, Martin, olhou a toda a volta. Sherman se sentiu agudamente consciente de quanta... coisa... obviamente cara estava metida naquela salinha... os trastes fabulosos... os enfeites... e quando os olhos do pequeno detetive chegaram ao friso entalhado, permaneceram pregados ali. Virou-se para Sherman com uma expressão franca e juvenil no rosto, como se dissesse “Nada mau!”. Então sentou-se na cadeira de braços, e o maior, Goldberg, na bergère. Sherman sentou-se à escrivaninha.
— Bem, vejamos — começou Martin. — Pode nos dizer se seu carro foi usado na noite em que isso aconteceu?
— Quando foi exatamente? — “Bom... agora vou ter que mentir.”
— Terça-feira passada — respondeu Martin.
— Não sei — disse Sherman. — Preciso tentar calcular.
— Quantas pessoas usam seu carro?
— A maior parte do tempo eu, às vezes minha mulher.
— Tem filhos?
— Tenho uma filha, mas só tem seis anos.
— Mais alguém tem acesso ao carro?
— Não, imagino que não, exceto o pessoal da garagem.
— Garagem? — perguntou Martin. — Estacionamento?
— É. — Por que mencionara a garagem?
— O senhor deixa o carro lá com as chaves, e eles o estacionam?
— É.
— Onde fica a garagem?
— É... perto daqui. — A cabeça de Sherman começou a girar a uma velocidade vertiginosa. Eles suspeitam dos empregados! Não, isso é loucura. Dan! Via o anãozinho ruivo e gorducho. Ele terá satisfação em contar que saí com o carro naquela noite! Talvez não se lembrasse ou não soubesse que noite fora. Ah, ele saberá! Do jeito que dei o gelo nele...
— Poderíamos ir lá dar uma olhada?
A boca de Sherman secara. Sentia os lábios se contraírem.
— No carro?
— É.
— Quando?
— Assim que acabarmos aqui, seria o ideal para nós.
— Está querendo dizer agora? Bom, não sei... — Sherman sentiu como se os músculos dos lábios estivessem sendo apertados pelos cordões de um saco.
— Há determinadas marcas que são compatíveis com um incidente como esse. Se o carro não apresenta essas marcas então continuamos verificando a lista. No momento estamos procurando um carro. Não temos a descrição do motorista. Portanto... concorda?
— Bom... não sei... — Não! Deixe-os olhar! Não há nada para eles! Ou há? Alguma coisa que não sei, de que nunca ouvi falar! Mas se eu disser não, ficarão desconfiados! Diga sim! Mas suponha que o empregadinho ruivo esteja de serviço!
— É a rotina. Examinamos todos os carros.
— Eu sei, mas, hum, se isso, hum, é a rotina, então acho que devo... seguir a rotina que eu... que é esperada de mim, de alguém com um carro nessa situação. — Sua boca não parava de se contrair. Viu os dois homens se entreolharem.
O menor, Martin, tinha um ar de grande desapontamento no rosto.
— Quer cooperar, não quer?
— Claro que quero.
— Bom, isso não é nenhuma complicação. Faz parte da rotina. Verificamos os carros.
— Eu sei, há uma rotina... então é isso que devo fazer também, seguir a rotina. Ou pelo menos isso seria o mais lógico, me parece.
Sherman estava extremamente consciente de estar dizendo bobagens, mas aferrou-se a essa palavra “rotina” como se dela dependesse a sua vida. Se ao menos conseguisse controlar os músculos que contornavam a boca...
— Desculpe-me, mas não entendo — disse Martin. — Que rotina?
— Bom, o senhor mencionou uma rotina, a sua rotina, para investigar casos como esse. Não sei como funcionam essas coisas, mas deve haver uma rotina para o dono de um carro nessa situação... quero dizer, por acaso sou proprietário de um carro de uma marca e com uma placa... com uma placa... e sei que deve haver uma rotina. É isso que estou tentando dizer. Acho que é isso que preciso considerar. A rotina.
Martin se levantou e começou a olhar mais uma vez para o friso entalhado. Seus olhos o acompanharam até a metade da sala. Então voltaram-se para Sherman, a cabeça enviesada. Havia um sorrisinho em seus lábios. Impertinente! Enregelante!
— Muito bem, a rotina é... não é nada complicada. Se o senhor quer cooperar conosco, e não se importa de cooperar conosco, então coopera conosco e damos uma olhada no seu carro, e continuamos a verificação. Nada complicado. Certo? Se o senhor não quer cooperar, se tem suas razões para não cooperar, então não coopera, e então temos que passar pelos canais competentes, e no final dá no mesmo, portanto o senhor é quem decide.
— Bom, é que... — Ele não sabia como ia terminar a frase.
— Quando foi a última vez que o senhor saiu com o seu carro, sr. McCoy? — Era o outro, o maior, Goldberg, que continuava sentado na bergère. Por um instante Sherman se sentiu grato com a mudança de assunto.
— Deixe-me ver... no fim de semana, acho, a não ser que... deixe-me ver se voltei a dirigi-lo desde então...
— Quantas vezes o dirigiu nas últimas duas semanas?
— Não sei bem... Deixe-me ver...
Estava olhando para o grande flanco de carne na bergère, tentando desesperadamente calcular de que maneira mentir em resposta a essas perguntas... e pelo canto do olho via o menor vindo em sua direção, pelo lado da escrivaninha.
— Com que frequência o senhor normalmente o dirige? — perguntou Goldberg.
— Varia.
— Quantas vezes por semana?
— Como disse, varia.
— Varia. O senhor o dirige quando vai trabalhar?
Sherman encarou o grande flanco de carne com o bigode. Algo muitíssimo insolente nesse interrogatório. Hora de cortá-lo, de se afirmar. Mas que tom usar? Esses dois estavam ligados por um fio invisível a um perigoso... Poder... que ele não compreendia. O quê?...
O menor, Martin, agora contornara a mesa até o lado em que ele estava.
De baixo, sentado à cadeira, Sherman ergueu os olhos para Martin, e Martin olhou para ele de cima com a sua expressão enviesada. A princípio parecia triste. Depois deu um sorriso corajoso.
— Olhe, sr. McCoy — disse sorrindo em meio à sua tristeza. — Tenho certeza de que quer cooperar, e não quero vê-lo dependente da rotina. Só que temos de verificar tudo nesse caso com muito cuidado, porque a vítima, esse sr. Lamb, está muito mal. Na melhor das hipóteses, vai morrer. Então estamos pedindo a todos para cooperar, mas isso não quer dizer que o senhor tenha que fazê-lo. Se quiser, não precisa dizer nada. Tem esse direito. Compreende?
Quando disse “Compreende?” enviesou a cabeça num ângulo acentuado e deu um sorriso incrédulo, a indicar que Sherman teria que ser um grande ingrato, criador de casos, um cidadão insensível mesmo, se não cooperasse.
Então apoiou as duas mãos no tampo da escrivaninha de Sherman e se curvou para a frente até que o peso do tronco ficasse apoiado nos braços. Isso fez com que seu rosto se aproximasse do de Sherman, embora continuasse a olhá-lo do alto.
— Quero dizer, o senhor sabe — continuou —, o senhor tem direito a um advogado.
A maneira como disse advogado, foi como se estivesse tentando pensar em todas as escolhas malucas e ridículas que um homem — menor e muito mais astuto que Sherman McCoy — pudesse fazer.
— Compreende, não compreende?
Sherman viu-se assentindo com a cabeça involuntariamente. Um tremor gelado começou a se espalhar pelo seu corpo.
— Quero dizer, a propósito, que se o senhor não tivesse recursos para pagar um advogado — disse isso com um sorriso tão cúmplice e tão bem-humorado, que era como se ele e Sherman fossem companheiros há anos e fizessem piadinhas que só eles conhecessem — e quisesse um advogado, o Estado providenciaria um para o senhor gratuitamente. Se houvesse razão para o senhor querer um.
Sherman assentiu de novo. Olhou para o rosto inclinado do homem. Sentia-se impotente para agir ou para resistir. A mensagem do homem parecia ser: “Não preciso lhe dizer tudo isso. O senhor é um cidadão abastado, e está acima disso. Mas se não estiver... então deve ser o tipo de micróbio que temos de exterminar.”
— Só o que estou dizendo é que precisamos da sua cooperação. — Então deu meia-volta e sentou-se na ponta da escrivaninha e olhou em cheio no rosto de Sherman. Ele está sentado em cima da minha escrivaninha!
O detetive deu o sorriso mais caloroso que se pode imaginar e perguntou baixinho:
— Bem, então, sr. McCoy? Meu companheiro estava perguntando se vai trabalhar de carro. — Continuava a sorrir.
A desfaçatez! A ameaça! Sentado na minha escrivaninha! A insolência atroz!
— Bom, vai? — Sorrindo aquele sorriso enviesado. — Vai trabalhar de carro?
Medo e indignação cresciam juntos. Mas o medo falou mais alto.
— Não... não vou.
— Então quando o usa?
— Nos fins de semana... Ou... sempre que me convém... durante o dia ou talvez às vezes de noite. Quero dizer que não o uso muito de dia, exceto quando minha mulher precisa, o que significa, quero dizer, é difícil dizer.
— Sua mulher poderia tê-lo usado na terça-feira passada à noite?
— Não! Quero dizer, creio que não.
— Então o senhor talvez o tivesse usado a qualquer momento, mas não se lembra.
— Não é isso. É que... eu simplesmente uso o carro, não tomo nota disso, não mantenho um registro, não penso muito no assunto, creio.
— Com que frequência o usa de noite?
Desesperadamente Sherman procurou calcular a resposta correta. Se dissesse “muita”, isso tornaria mais provável que estivesse dirigindo “naquela noite”. Mas se dissesse “pouca” — então não teria uma certeza maior se estaria ou não dirigindo naquela determinada noite?
— Não sei — disse. — Não com muita frequência... mas acho que com razoável frequência, comparativamente.
— Não com muita frequência mas com razoável frequência, comparativamente — repetiu o detetive menor em tom monocórdico. Quando chegou a comparativamente estava olhando para o companheiro. Virou-se de novo e olhou mais uma vez para Sherman do alto do seu poleiro, na ponta da escrivaninha.
— Bom, vamos voltar ao carro. Por que não vamos dar uma olhada nele? Que diz a isso?
— Agora?
— Claro.
— Não é uma boa hora.
— Tem um compromisso ou alguma coisa assim?
— Estou... esperando por minha mulher.
— Vão sair?
— Eu... hummmm. — A primeira pessoa do singular degenerou num suspiro.
— Vão sair de carro? — perguntou Goldberg. — Poderíamos dar uma olhada. Não demora nem um segundo.
Por um instante Sherman pensou em tirar o carro da garagem e deixar que o examinassem diante do edifício. Mas suponha que não ficassem quietos, esperando? Suponha que o acompanhassem — e conversassem com Dan?
— Eu o ouvi dizer que sua mulher não tardará a voltar — disse o menor. — Talvez devêssemos esperar e falar com ela também. Talvez se lembre se alguém estava usando o carro na terça-feira passada à noite.
— Bom, ela... a hora não é muito boa, senhores.
— Quando é uma boa hora? — perguntou o menor.
— Não sei. Se puderem me dar um instante para pensar...
— Pensar no quê? Quando é uma boa hora? O senhor vai cooperar?
— Não é bem essa a questão. Estou... bem, estou preocupado com o procedimento.
— O procedimento?
— De que maneira isso deve ser feito. Corretamente.
— O procedimento é o mesmo que a rotina? — O detetive espiou-o do alto com um sorrisinho ofensivo.
— Procedimento... rotina... Não estou familiarizado com a terminologia. Suponho que no fim dê no mesmo.
— Também não estou familiarizado, sr. McCoy, porque tal terminologia não existe, tal procedimento não existe, tal rotina não existe. Pensei que quisesse cooperar.
— Quero, mas o senhor reduziu minhas opções.
— Que opções?
— Bom... olhe. Acho que o que deveria fazer é, eu deveria... deveria discutir isso com um advogado.
Assim que as palavras saíram de sua boca, sentiu que fizera uma terrível admissão.
— Conforme lhe disse — retorquiu o detetive menor —, esse é o seu direito. Mas por que iria querer falar com um advogado? Por que iria querer ter esse trabalho e essa despesa?
— Só quero ter certeza de que estou procedendo — imediatamente receou que fosse se meter em apuros por pronunciar a forma verbal de “procedimento” — corretamente.
O gordo, sentado na bergère, disse:
— Deixe-me perguntar uma coisa, sr. McCoy. Há algo que queira desabafar?
Sherman esfriou.
— Desabafar?
— Porque se há — um sorriso paternal: insolência! —, agora é a hora de fazê-lo, antes que as coisas cheguem mais longe e se compliquem.
— O que teria eu para desabafar? — Pretendera dar às palavras um tom firme, mas elas saíram com um tom de... atordoamento.
— Isso é o que estou lhe perguntando.
Sherman ergueu-se e sacudiu a cabeça.
— Creio que não adianta continuarmos essa conversa agora. Terei que falar...
O menor, ainda sentado na escrivaninha, terminou a frase para ele:
— ... com um advogado.
— Isso.
O menor sacudiu a cabeça daquele jeito que se sacode quando alguém a quem se está aconselhando parece decidido a perseguir um curso tolo de ação.
— Esse é o seu privilégio. Mas se tiver alguma coisa concreta para falar com um advogado, será melhor para o senhor se a desembuchar agora. E vai se sentir melhor. O que quer que seja, provavelmente não é tão mau quanto está pensando. Todos nós cometemos erros.
— Eu não disse que havia nada de concreto. Não há. — Sentia-se preso em uma arapuca. Estou tentando fazer o jogo deles, quando deveria estar me recusando a entrar nele!
— Tem certeza? — perguntou o gordo com o que obviamente pensava ser um sorriso paternal no rosto. Na verdade, era... horrível... obsceno... Que impertinência.
Sherman esgueirou-se pelo menor, que permanecia sentado na escrivaninha e o seguia com olhinhos ameaçadores. Perto da porta Sherman virou-se e olhou para os dois.
— Sinto muito — disse —, mas não vejo sentido em entrar nesse assunto... Acho que não devo continuar a discuti-lo.
Finalmente o menor levantou-se — finalmente se retira de seu insolente poleiro na minha escrivaninha! Deu de ombros e olhou para o gordo, que também se ergueu.
— Muito bem, sr. McCoy — disse o menor —, voltaremos a vê-lo com o seu advogado. — Pela maneira com que falou isso, parecia querer dizer: “Voltaremos a vê-lo... no tribunal.”
Sherman abriu a porta da biblioteca e acenou com a cabeça, convidando-os a sair para o vestíbulo. Pareceu-lhe extremamente importante fazê-los sair e deixar a sala por último — para provar que essa, afinal, era a sua casa e que ali ele era o senhor.
Quando chegaram à porta que dava para o hall do elevador, o menor disse para o gordo:
— Davey, você tem um cartão? Dê ao sr. McCoy um cartão.
O gordo tirou um cartão do bolso lateral do paletó e entregou-o a Sherman. O cartão estava amarrotado.
— Se mudar de ideia — disse o menor —, nos telefone.
— É, pense no assunto — disse o gordo, com aquele sorriso hediondo. — O que quer que esteja pensando, quanto mais cedo nos disser, melhor será para o senhor. As coisas são assim. No momento o senhor ainda está em posição de cooperar. O senhor espera... a máquina entra em funcionamento... — Ele virou a palma das mãos para cima, como se quisesse dizer: “E aí vai se meter numa encrenca dos diabos.”
Sherman abriu a porta. O menor disse:
— Pense bem.
Quando saíram, o gordo lançou uma horrível piscadela.
Sherman fechou a porta. Haviam saído. Longe de se sentir aliviado, foi invadido por um desânimo avassalador. Todo o seu sistema nervoso central lhe dizia que acabara de sofrer uma derrota catastrófica — e no entanto não sabia o que acontecera. Não conseguia analisar suas feridas. Fora indignamente violado — mas como acontecera isso? Como é que esses dois... animais... insolentes... de cortiço... tinham invadido sua vida?
Quando se virou, Bonita saíra da cozinha e estava parada no batente do piso de mármore. Precisava dizer alguma coisa. Ela sabia que eram da polícia.
— Estão investigando um acidente de automóvel, Bonita. Atarantado demais.
— Ah, um acidente. — Seus olhos arregalados diziam: “Conte mais.”
— Bem... não sei. Um dos carros envolvidos tinha uma placa parecida com a nossa. Ou uma coisa assim. — Suspirou e fez um gesto de desalento. — Não consegui entender tudo.
— Não se preocupe, sr. McCoy. Eles sabem que não foi o senhor. — Pela maneira com que disse isso, ele percebeu que deveria estar parecendo mesmo muito preocupado.
Sherman entrou na biblioteca, fechou a porta e esperou três ou quatro minutos. Sabia que era irracional, mas tinha a impressão de que se não esperasse até que os policiais estivessem fora do edifício, eles iriam reaparecer de alguma forma, materializar-se de repente, assim, sorrindo e piscando daquele jeito horrível como tinham feito. Então telefonou para a casa de Freddy Button e deixou recado para que ligasse quando chegasse.
Maria. Tinha que falar com ela. Ousaria ligar? Nem ao menos sabia onde estaria... no esconderijo, no apartamento da Fifth Avenue... Telefone grampeado!... Será que havia maneira de grampear seu telefone imediatamente? Teriam deixado um dispositivo de escuta na sala?... Acalme-se... Isso é loucura... Mas suponha que Judy já tivesse voltado e não a ouvisse chegar!
Levantou-se da cadeira e foi até o imponente vestíbulo... Ninguém por ali... Ouviu um tilim tilim... A plaquinha de licença de Marshall... O triste bassê saiu bamboleando da sala de visitas... As unhas do bicho faziam ruído no mármore... O pedacinho de salame ambulante... a causa de metade dos meus problemas... E quando é que você se preocupa com a polícia?... Comida e passeios, comida e passeios... Então Bonita meteu a cabeça pelo portal... Não quer perder nada, hein? Quer devorar toda a história dos tiras, certo?... Sherman olhou-a acusadoramente.
— Ah, achei que a sra. McCoy tinha voltado — disse.
— Não se preocupe — respondeu-lhe —, quando a sra. McCoy e Campbell entrarem, você as ouvirá. — “E até lá não meta o nariz nos meus assuntos.”
Entendendo perfeitamente o tom de voz, Bonita se retirou para a cozinha. Sherman rumou de volta para a biblioteca. Vou arriscar um telefonema. Naquele instante a porta do hall do elevador se abriu.
Judy e Campbell.
E agora? Como poderia ligar para Maria? Teria que contar a Judy sobre a polícia primeiro? Se não contasse, Bonita o faria.
Judy olhou-o intrigada. Que diabos ela estava usando? Calça de flanela branca, um suéter branco de cashmere, e uma espécie de jaqueta punk preta com ombreiras... até aqui... mangas arregaçadas quase até os cotovelos, uma gola com um recorte ridiculamente largo até... aqui embaixo... Comparativamente Campbell parecia infinitamente senhoril na sainha cor de vinho e blazer da Taliaferro e blusa branca de gola amarela... Por que seria que ultimamente todas as menininhas se vestiam como senhoras e as mães se vestiam como pirralhas adolescentes?
— Sherman — disse Judy parecendo preocupada —, algum problema?
Deveria contar sobre a polícia imediatamente? Não! Saia e ligue para Maria!
— Ah, não — respondeu —, só que eu...
— Papai! — exclamou Campbell, vindo em sua direção. — Está vendo estas cartas?
— Vendo estas cartas?
Ela lhe estendeu três cartas de um baralho em miniatura, o ás de copas, o ás de espadas e o ás de ouros.
— O que elas são? — perguntou a menina. — O que elas são?
— Não sei, queridinha. Cartas de jogar.
— Mas o que é que elas são?
— Espere um instante, meu anjo. Judy, tenho que sair um minuto.
— Papai! O que é que elas são?
— O mágico deu-lhe as cartas — explicou Judy. — Diga quais são. — Um ligeiro aceno de cabeça que dizia: “Faça a vontade dela. Ela quer lhe mostrar um truque.”
— Quando eu voltar — disse a Campbell. — Tenho que sair só um segundinho.
— Papai! — Ela saltava para cima e para baixo, tentando colocar as cartas bem diante de seu rosto.
— Um segundo, queridinha!
— Você vai sair? — perguntou Judy. — Aonde vai?
— Tenho que ir até...
— PAPAI! ME-DIGA-O-QUE-ELAS-SÃO!
— ... a casa de Freddy Button.
— PAPAI!
— Psssiiiuu — disse Judy. — Quietinha.
— Papai... olhe! — As três cartas estavam dançando no ar diante de seu rosto.
— Casa de Freddy Button? Sabe que horas são? Temos que nos arrumar para sair!
— Me diga o que elas são, papai!
Nossa! Esquecera completamente! Tinham que ir jantar na casa daquela gente horrível, os Bavardages! A turma de Judy... as radiografias ambulantes... Hoje à noite? Impossível!
— Não sei, Judy. Eu... não sei quanto tempo precisarei demorar na casa de Freddy. Sinto muito, eu...
— O que quer dizer com não sei?
— PAPAI! — Prestes a chorar de tanta frustração.
— Pelo amor de Deus, Sherman, olhe para as cartas.
— Não diga “Deus”, mamãe.
— Tem toda a razão, Campbell. Não deveria ter dito isso.
Ele se virou e espiou as cartas.
— Bom... o ás de copas... o ás de espadas... e o ás de ouros.
— Tem certeza?
— Tenho.
Um grande sorriso. Triunfante.
— Só vou sacudi-las assim. — E começou a abanar as cartas numa velocidade incrível, até que se tornaram apenas um borrão no ar.
— Sherman, você não tem tempo para ir à casa de Freddy Button. — Uma expressão severa de “e está encerrado o assunto”.
— Judy, tenho que ir. — Girando os olhos na direção da biblioteca, como se dissesse: “Explico lá dentro.”
— Bibidi, babadi bu! — exclamou Campbell. — Agora olhe, papai!
Judy, numa voz tensíssima:
— Nós vamos... a... esse... jantar.
Ele se curvou outra vez.
— O ás de ouros... o ás de copas... o ás de... paus! Puxa... Campbell! Como foi que o ás de paus foi parar aí?
Com prazer.
— Simplesmente... foi!
— Ora... isso é mágica!
— Sherman...
— Como foi que fez isso? Não posso acreditar!
— Sherman, você me ouviu?
Campbell, com grande modéstia:
— Foi o mágico que me ensinou.
— Ah! O mágico. Que mágico?
— Na festa de aniversário de MacKenzie.
— Fantástico!
— Sherman, olhe para mim.
Ele olhou para a mulher.
— Papai! Quer ver como foi que fiz?
— Sherman. — Mais daquele “e está encerrado o assunto”.
— Olhe, papai, vou lhe mostrar.
Judy, com furiosa doçura:
— Campbell, sabe quem adora truques de mágica?
— Quem?
— Bonita. Ela é doida por truques. Por que não vai mostrar a ela antes que comece a preparar o seu jantar? Depois pode voltar e mostrar ao papai como foi que fez.
— Ah, está bem. — Ela saiu arrastando os pés, desconsolada, até a cozinha. Sherman se sentiu culpado.
— Vamos para a biblioteca — disse a Judy num tom de voz agourento.
Entraram na biblioteca, ele fechou a porta e disse a Judy para se sentar. “Isto será demais para você ouvir de pé.” Ela se sentou na bergère, e ele, na cadeira de braços.
— Judy, lembra daquela notícia na televisão ontem à noite sobre um acidente com atropelamento e fuga do responsável no Bronx, e que estão procurando um Mercedes com placa de licença começando por R?
— Lembro.
— Bom, dois policiais vieram aqui, pouco antes de você e Campbell voltarem para casa. Dois detetives, e me fizeram uma porção de perguntas.
— Foi?
Ele descreveu o interrogatório, querendo que parecesse ameaçador — Preciso ir ver Freddy Button! — mas evitando falar de seus próprios sentimentos de incompetência, medo e culpa.
— Então telefonei para Freddy, mas ele não estava, embora o estejam aguardando. Então vou até o apartamento dele deixar este bilhete — apertou o peito do paletó, como se houvesse uma carta no bolso interno —, e se tiver voltado quando eu chegar lá, falarei com ele. Por isso é melhor eu ir.
Judy só fez olhá-lo por alguns instantes.
— Sherman, isso não tem sentido algum. — Falou quase com cordialidade, como se fala com alguém que precisa ser persuadido a sair da beira do telhado. — Não vão pô-lo na cadeia só porque tem metade de um número de placa. Li alguma coisa sobre isso no Times desta manhã. Aparentemente existem 2.500 Mercedes com placas de licenciamento que começam com R. Estive caçoando com Kate di Ducci no almoço. Almoçamos no La Boue d’ Argent. Afinal, com que está se preocupando? Com certeza você nem esteve dirigindo aquela noite no Bronx, ou onde quer que seja.
Agora!... Conte-lhe!... Livre-se desse terrível peso de uma vez por todas! Confesse! Com uma sensação próxima à euforia ele escalou os últimos centímetros da grande muralha de impostura que erigira entre ele e a família, e...
— Bom... Eu sei que não estava. Mas eles agiram como se não acreditassem em mim.
... e imediatamente tornou a escorregar.
— Tenho certeza de que está imaginando coisas, Sherman. Provavelmente esse é apenas o jeito deles. Tenha dó. Se quer falar com Freddy, terá muito tempo para isso amanhã.
— Não! De modo algum! Tenho que ir até lá.
— E ter uma longa conversa, se necessário.
— Bom, é, se necessário.
Sorriu de um jeito que ele não gostou. Então sacudiu a cabeça. Continuou a sorrir.
— Sherman, aceitamos esse convite há cinco semanas. Temos que estar lá dentro de uma hora e meia. E eu vou. E você vai. Se quiser deixar o número dos Bavardages para Freddy ligar para você, muito bem. Estou certa de que Inez e Leon não se importarão. Mas nós vamos.
Ela continuava a sorrir cordialmente... para o cara no telhado e... está encerrado o assunto.
A calma... o sorriso... a pretensa cordialidade... O rosto impunha o seu ponto de vista com mais firmeza do que qualquer explicação que jamais pudesse dar. As palavras talvez pudessem deixar vazas por onde escapar. Aquela expressão não oferecia vaza alguma. Jantar na casa de Inez e Leon Bavardage era tão importante para Judy como foram as Giscards para ele. Este ano os Bavardages eram o anfitrião e anfitriã do século, os arrivistas mais intrometidos e ruidosos. Leon Bavardage era um vendedor de chicória de Nova Orleans que fizera uma fortuna em imóveis. A mulher, Inez, talvez pertencesse realmente a uma família tradicional da Louisiana, os Belairs. Para Sherman (o nova-iorquino de velha cepa), eram ridículos.
Judy sorriu: e nunca estivera mais séria na vida.
Mas precisava falar com Maria!
Ele se pôs de pé num salto.
— Muito bem, nós vamos... mas preciso dar uma corrida até a casa de Freddy! Não me demoro!
— Sherman!
— Prometo! Volto logo!
Ele só faltou correr pelo mármore verde-escuro do vestíbulo. E de certa forma esperou que ela corresse atrás e o puxasse do hall do elevador de volta para dentro.
Embaixo, Eddie, o porteiro, disse:
— Boa noite, sr. McCoy — e fixou um olhar nele que parecia dizer: “Por que foi que os tiras vieram vê-lo?”
— Alô, Eddie — disse sem se deter para olhá-lo. Começou a subir a Park Avenue.
Quando alcançou a esquina, correu para a fatídica cabine de telefone.
Com muito, muito cuidado, discou o número de Maria. Primeiro o do esconderijo. Não atendia. Então ligou para o apartamento na Fifth Avenue. Uma voz espanhola disse que a sra. Ruskin não poderia atender o telefone. Droga! Deveria dizer que era urgente? Deveria deixar seu nome? Mas o velho, o marido, Arthur, poderia muito bem estar lá. Então disse que tornaria a ligar.
Tinha que matar algum tempo para tornar plausível que tivesse ido ao edifício de Freddy Button deixar o bilhete e voltar. Caminhou até a Madison Avenue... o Whitney Museum... o Carlyle Hotel... Três homens saíram pela porta do Café Carlyle. Tinham aproximadamente a sua idade. Conversavam e riam, atirando para trás as cabeças beatificamente embriagadas... Os três carregavam pastas, e dois usavam ternos escuros, camisas brancas e gravatas amarelo-claras com estamparia miúda. Essas gravatas amarelo-claras tinham se tornado o emblema das abelhinhas obreiras do mundo de negócios... Que diabo teriam para rir e folgar, a não ser o zumbido alcoólico em seus cérebros, os pobres iludidos...
Experimentava o rancor daqueles que descobrem que, apesar de sua grave situação, o mundo continua a girar, insensível, sem nem ao menos fazer cara triste.
Quando voltou ao apartamento, Judy estava no andar de cima, na suíte do casal.
— Bom... está vendo? Não demorei tanto — disse. Parecia esperar uma estrelinha por manter sua palavra.
Diversos comentários possíveis tiveram tempo de passar pela cabeça dela. Mas o que disse finalmente foi:
— Temos menos de uma hora, Sherman. Agora, faça-me um favor. Use o terno azul-marinho que comprou no ano passado, o azul-marinho bem escuro. Azul-meia-noite, acho que se chama. E uma gravata lisa, e não dessas estampadas. A azul-marinho de crepe da china. Ou uma de xadrez miúdo; também pode ser. Você sempre fica muito bem com elas.
Uma de xadrez miúdo também pode ser... Foi tomado de desespero e culpa. Estavam lá fora, circulando, e não tivera coragem de lhe dizer. Ela pensava que ainda podia usufruir do luxo incalculável de se preocupar com a gravata certa.