A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 24 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 23

23

 

NO INTERIOR DA CAVERNA

 

— Bom, aí está você, Larry — disse Abe Weiss com um grande sorriso. — Sem dúvida alguma eles o brindaram com uma careca luzidia.

Já que Weiss não o convidara a fazê-lo, Kramer fez o que estava esperando nos últimos 45 segundos para fazer, ou seja, deu inteiramente as costas a Weiss para olhar o conjunto de televisores na parede.

E lá, de fato, estava ele.

O videocassete acabara de chegar à parte da transmissão do Canal 1, na noite anterior, em que a cena do tribunal era mostrada através de desenhos. O som estava baixo, mas Kramer conseguia ouvir a voz do comentarista, Robert Corso, como que reboando dentro do seu crânio: “O promotor distrital assistente Lawrence Kramer empurrou a petição para o juiz Samuel Auerbach e disse: Meritíssimo, o povo do Bronx...” No desenho, o alto de sua cabeça estava absolutamente calvo, o que era irrealista e injusto porque não era careca, seus cabelos apenas estavam rareando. Mesmo assim, ali estava ele. Não era uma Dessas Pessoas Que Se Vê na TV. Era ele mesmo, e se algum dia houve um valente guerreiro da causa da justiça, era ele ali naquela tela. O pescoço, os ombros, o peito, os braços — eram enormes, como se estivesse arremessando um peso de 8 quilos nas Olimpíadas, e não acenando com um maço de papéis para Sammy Auerbach. E verdade, uma das razões por que parecia tão grande era que o desenho estava um pouco fora de proporção, mas provavelmente fora assim que a artista o vira: Maior Que a Realidade. A artista... Que apetitosa italianinha... Lábios de nectarina... Bonitos seios sob o jérsei sedoso e brilhante... Lucy Dellafloria era seu nome... Se não tivesse havido tanta comoção e confusão, teria sido a coisa mais fácil do mundo. Afinal, sentara-se ali no tribunal concentrando-se nele, no meio do palco, absorta na sua aparência, no arrebatamento de sua apresentação, na confiança de seu desempenho no campo de batalha. Absorvera-se nele como artista e como mulher... com lábios carnudos de italianinha safada... nele.

Depressa demais, sem aviso, o desenho desapareceu, e Weiss ocupou a tela com uma floresta de microfones apontados para ele. Os microfones tinham sido postos em suportes metálicos sobre a sua escrivaninha para a entrevista coletiva que concedera logo depois da leitura da acusação. Dera outra pela manhã. Weiss sabia exatamente como manter o foco sobre si. Ah, isso sabia. O espectador médio de televisão presumiria que o espetáculo pertencia unicamente a Abe Weiss e que o promotor distrital assistente, que apresentara o caso no tribunal, esse tal de Larry Kramer, era meramente o instrumento da genialidade estratégica veiculada por Abe Weiss. Na realidade, Weiss nunca chegara a pôr os pés num tribunal desde que assumira o cargo de promotor público, o que já fazia quase quatro anos. Mas Kramer não se aborrecia com isso; ou pelo menos não muito. Essa era a premissa. Era assim que a coisa funcionava. Acontecia o mesmo em toda promotoria distrital, não era só na de Weiss. Não, nessa determinada manhã o capitão Ahab estava de bem com Kramer. Os noticiários de TV e os jornais tinham mencionado o nome de Lawrence Kramer muitas vezes, e ela, a deliciosa Lucy Dellafloria, a sexy Lucy Flor Delicada, desenhara o retrato e captara a possante forma de Kramer. Não, estava ótimo. E Weiss acabara de se incumbir de lhe mostrar isso, passando o videocassete. A mensagem implícita era a seguinte: “Muito bem, apresento-me como astro, porque dirijo este gabinete e sou quem tem de enfrentar uma reeleição. Mas, está vendo, não o deixei de fora. Você é o segundo nome nos letreiros luminosos do cinema.”

Com isso os dois assistiram ao restante da reportagem no Canal 1 pelos televisores montados na parede. Lá estava Thomas Killian parado à porta do Edifício dos Tribunais Criminais com os microfones espetados no rosto.

— Dê uma espiada na porra dessas roupas — murmurou Weiss. — Completamente ridículas. — O que passou pela cabeça de Kramer foi o preço que tais roupas deviam custar.

Killian discorria sobre a “prisão carnavalesca” e a “leitura de acusação carnavalesca”. Parecia extremamente zangado.

— Concluímos um acordo com o promotor distrital ontem, pelo qual o sr. McCoy se apresentaria para a leitura da acusação aqui no Bronx, pacificamente, voluntariamente, hoje pela manhã, e o promotor distrital preferiu violar esse acordo e trazer o sr. McCoy como um criminoso violento, como um animal... e para quê? Para conquistar suas câmeras e seus votos.

— Cai fora — disse Weiss à tela.

Killian dizia:

— O sr. McCoy não só nega essas acusações, mas está ansioso para que os fatos deste caso sejam revelados, e, quando o forem, verão que o roteiro que está sendo arquitetado para este caso carece por inteiro de fundamentos.

— Blá-blá-blá — disse Weiss à tela.

A câmera se deslocou para uma figura parada logo atrás de Killian. Era McCoy. A gravata estava frouxa e puxada para um lado. A camisa e o paletó estavam amarrotados. O cabelo, empastado. Parecia meio afogado. Seus olhos giraram, na direção do céu. Não parecia presente.

Agora o rosto de Robert Corso aparecia na tela, e ele falava sobre McCoy, McCoy, McCoy. Já não era o caso Lamb. Era o caso McCoy. A eminência da Wall Street, o branco, anglo-saxão, protestante de perfil aristocrático tinha emprestado ao caso um certo atrativo. A imprensa não se cansava de falar nele.

A escrivaninha de Weiss estava coberta de jornais. Ainda tinha um exemplar de The City Light da tarde anterior em cima dos outros. Em letras garrafais a primeira página anunciava:

“GRÃ-FINO DA WALL STREET

ACUSADO DO ATROPELAMENTO ”

As palavras estavam agrupadas ao lado de uma foto estreita e comprida de McCoy, encharcado, com os braços para a frente e o paletó cobrindo as mãos, obviamente para esconder as algemas. Tinha o belo e grande queixo erguido, e encarava com uma expressão feroz. Parecia estar dizendo: “Sim, e daí?” Até mesmo o Times noticiara o caso na primeira página dessa manhã, mas The City Light enlouquecera. A manchete dizia:

“PROCURA-SE MULHER MISTERIOSA

MORENA E TESUDA ”

Uma manchete menor no alto dizia: “A gangue do Mercedes: ele atropela, ela foge.” A fotografia era a da revista W, a que Roland Auburn identificara, aquela em que McCoy aparecia de smoking, sorrindo com a esposa correta e feiosa. A legenda dizia: “Testemunha ocular declarou que a companheira de McCoy era mais jovem, mais tesuda, mais desejável que a esposa quarentona, Judy, que aparece na foto com o maridinho numa festa de caridade.” Uma linha branca sobre tarja preta ao pé da página dizia: “Manifestantes exigem ‘Prisão sim, fiança não’ para o cobra da Wall Street. Veja página 3.” E: “Chez McCoy e Chez Lamb: conto de duas cidades. Fotos, páginas 4 e 5.” Nas páginas 4 e 5 havia fotos do apartamento de McCoy na Park Avenue, aquelas da Architectural Digest, de um lado, e as do apartamentinho dos Lambs no conjunto habitacional, do outro. Uma longa legenda dizia: “Duas Novas Yorks imensamente diversas colidiram quando o banqueiro de investimentos da Wall Street, Sherman McCoy, num Mercedes-Benz esporte de 50 mil dólares, atropelou o brilhante estudante Henry Lamb. McCoy mora na Park Avenue, num apartamento de 3 milhões de dólares, catorze cômodos, dois andares. Lamb, num apartamento de 247 dólares mensais de aluguel, três cômodos, num conjunto habitacional do South Bronx.”

Weiss adorou cada centímetro da reportagem. Explodira aquele papo de “justiça branca” e “Johannesbronx”. Não tinham conseguido majorar a fiança de McCoy para 250 mil dólares, mas tinham tentado com muito empenho e agressividade. Agressividade? Kramer sorriu. Os olhos de Sammy Auerbach tinham se aberto desmesuradamente como um par de guarda-chuvas quando acenara com a petição para ele. Isso fora um tantinho afrontoso, mas conseguira o efeito desejado. O gabinete da Promotoria Distrital do Bronx estava em contato com o povo. E continuaria a requerer uma fiança maior.

Não, Weiss estava satisfeito. Isso era óbvio. Era a primeira vez na vida que Kramer fora chamado ao gabinete de Weiss sozinho, sem Bernie Fitzgibbon.

Weiss apertou um botão, e a imagem desapareceu do televisor. Disse a Kramer:

— Viu o estado de McCoy, parado ali? Parecia que tinha saído de uma puta farra. Milt comentou que tinha o mesmo aspecto quando entrou no tribunal ontem. Disse que estava um pavor. Que foi que aconteceu?

— Bom — respondeu Kramer —, a coisa toda foi que estava chovendo. Ele se molhou esperando na fila do lado de fora do Registro. Fizeram-no esperar na fila como todos os outros, que era o que queríamos. Não queríamos conceder a ele tratamento especial.

— Tudo bem — disse Weiss —, mas, droga, aqui estamos nós trazendo a Park Avenue ao tribunal, e Milt diz que o sujeito parecia ter sido pescado do rio. Bernie também me aborreceu bastante com isso. Para começar, não queria fazê-lo passar pelo Registro.

— Ele não estava com o aspecto tão ruim assim, sr. Weiss — disse Kramer.

— Pode me chamar de Abe.

Kramer assentiu, mas resolveu que esperaria um intervalo decente antes de experimentar o seu primeiro “Abe”.

— Ele não parecia muito diferente de qualquer outro que sai do xadrez para o tribunal.

— E tem Tommy Killian criando caso por causa disso também. — Fez um gesto na direção dos televisores.

Kramer pensou: “Você finalmente se levantou nas pernas traseiras contra os dois jumentos.” Bernie ficara no mínimo descontente, quando Weiss o desautorizara e mandara Kramer solicitar que a fiança de McCoy fosse majorada de 10 mil para 250 mil dólares, depois de Bernie ter feito um acordo com Killian para o pagamento de 10 mil. Weiss disse a Bernie que era apenas para aplacar os enfurecidos moradores da comunidade, que achavam que McCoy receberia um tratamento especial, e que sabia que Auerbach nunca estabeleceria realmente uma fiança tão alta. Mas para Bernie isso era uma quebra de contrato, uma violação das regras do Banco de Favores, do sagrado código de lealdade de um gaiteiro para com o outro no sistema de justiça penal.

Kramer percebeu o rosto de Weiss se anuviar; em seguida, Weiss disse:

— Bom, deixe o Tommy chiar. A pessoa pode ficar doida se tentar agradar a todos. Tive que tomar uma decisão e tomei uma decisão. Bernie gosta de Tommy e está tudo bem. Eu mesmo gosto de Tommy. Mas Bernie quer lhe fazer todas as concessões! Pelas promessas que fez a Tommy, McCoy ia passar por aqui como se fosse o príncipe Charles. Quanto tempo McCoy ficou no xadrez?

— Ah, umas quatro horas.

— Ora, droga, isso é mais ou menos o normal, não é?

— Mais ou menos. Já vi acusados serem jogados de um distrito para o outro, depois para o Registro, Rikers Island, de volta ao distrito e só então ouvir a leitura de acusação. São presos na sexta-feira à noite, e chegam a passar o fim de semana todo quicando de um lugar para o outro. Aí então você veria alguém realmente sujo e amarrotado. McCoy nem ao menos precisou começar por um distrito e ser transportado de ônibus para o Registro.

— Bom, então não sei por que tanta reclamação. Aconteceu alguma coisa com ele no xadrez? Qual é o caso?

— Não aconteceu nada. O computador parou de funcionar, acho. Daí houve um atraso. Mas isso acontece o tempo todo. É normal.

— Quer saber minha opinião? Acho que Bernie, inconscientemente... não me interprete mal, gosto de Bernie e o respeito... mas acho que, inconscientemente, ele realmente pensa que alguém como McCoy deveria receber um tratamento especial, porque é branco e porque é conhecido. Ora, isso é muito sutil. Bernie é irlandês, da mesma forma que Tommy é irlandês, e os irlandeses têm uma certa deferência, como dizem os ingleses, inata, e nem se dão conta disso. Deixam-se impressionar por brancos, anglo-saxões, protestantes, como esse tal McCoy, embora conscientemente possam agir e pensar como se fossem membros do IRA. Não é realmente importante, mas um sujeito como Bernie tem que vencer essa deferência, esse elemento inconsciente irlandês, do qual ele nem ao menos se apercebe. Mas nós não representamos os brancos, anglo-saxões, protestantes, Larry. Chego a me perguntar se haverá algum branco, anglo-saxão, protestante morando no Bronx. Deve haver algum aí pelos lados de Riverdale.

Kramer riu.

— Não, estou falando sério. Isto aqui é o Bronx. Isto aqui é um Laboratório de Relações Humanas. É assim que o chamo, um Laboratório de Relações Humanas.

Era verdade; ele chamava o Bronx de Laboratório de Relações Humanas. Chamava-o todos os dias, como se esquecesse de que todas as pessoas que já tinham estado em seu gabinete tinham-no ouvido dizer aquilo antes. Mas Kramer estava disposto a perdoar o lado fátuo de Weiss. Mais do que perdoar... compreender... e de apreciar a verdade essencial que embasava a sua maneira bufa de definir as coisas.Weiss tinha razão. Não se podia dirigir o sistema de justiça penal no Bronx e fingir que se estava em uma espécie de Manhattan fora de lugar.

— Venha até aqui — convidou Weiss. Ele se levantou da grande cadeira, chegou até a janela atrás da mesa e chamou Kramer. Dali do sexto andar, no topo da colina, a vista era magnífica. Estavam suficientemente alto para que todos os detalhes sórdidos passassem ao segundo plano e a bela topologia ondulada do Bronx se destacasse. Contemplaram o Yankee Stadium e o John Mullaly Park, que do alto parecia realmente verdejante e bucólico. Ao longe, numa reta que cortava o rio Harlem, viam-se os contornos de Upper Manhattan, na altura do Columbia-Presbyterian Medical Center, e dali a vista parecia campestre, como numa daquelas pinturas de paisagens em que se colocam umas árvores esmaecidas e algumas nuvens fofas e cinzentas ao fundo.

Weiss perguntou:

— Olhe para aquelas ruas lá embaixo, Larry. O que você vê? Quem você vê?

De fato, só o que Kramer conseguia divisar eram umas figurinhas caminhando pela 161st Street e a Walton Avenue. Estavam tão distantes que pareciam insetos.

— São todos negros e porto-riquenhos — continuou Weiss. — Nem se vê mais um velho judeu andando por aí, nem italianos, tampouco, e isso é o centro cívico do Bronx. É como a Montague Street no Brooklyn ou City Hall Plaza em Manhattan. No verão, à noite, os judeus costumavam se sentar nas calçadas bem ali na Grand Concourse e ficar olhando os carros passarem. Não se conseguiria sentar Charles Bronson ali fora, agora. Estamos na era moderna e ninguém a compreende ainda. Quando eu era criança, os irlandeses mandavam no Bronx. Mandaram por muito tempo. Lembra-se de Charlie Buckley? Charlie Buckley, o deputado? Não, você é jovem demais. Charlie Buckley, o chefão do Bronx, irlandês até a medula dos ossos. Há uns trinta anos Charlie Buckley ainda mandava no Bronx. E agora estão acabados, e então quem é que manda? Judeus e italianos. Mas por quanto tempo? Não há mais nenhum lá na rua, e por quanto tempo vão estar aqui neste edifício? Mas isto é o Bronx, o Laboratório de Relações Humanas. É assim que o chamo, o Laboratório de Relações Humanas. Aquelas pessoas que estamos vendo lá embaixo, Larry, são pobres, e a pobreza gera o crime, e o crime nesta municipalidade... bom, não preciso lhe dizer. Parte de mim é idealista. Quero tratar de cada caso individualmente e cada pessoa de per si. Mas com o número de casos que temos? Eiiiiii... A outra parte de mim sabe o que estamos realmente fazendo: somos um bandinho de caubóis tocando uma manada. Com uma manada o máximo que se pode esperar é mantê-la sob controle como um todo — ele fez um gesto como se abarcasse a manada — e esperar que não se percam muitas reses pelo caminho. Ah, vai chegar o dia, e talvez muito breve, em que aquelas pessoas lá embaixo terão seus próprios líderes e suas próprias organizações, e serão o Partido Democratico do Bronx e tudo mais, e não estaremos mais ocupando este edifício. Mas no momento precisam de nós, e temos que agir corretamente com elas. Temos que deixar claro que não estamos distanciados delas e que fazem parte de Nova York tanto quanto nós. Temos que transmitir-lhes os sinais certos. Temos que deixar claro que agimos com severidade quando saem da linha, mas não é porque sejam negros, hispânicos ou pobres. Temos que deixar claro que a justiça é realmente cega. Temos que deixar claro que se a pessoa é branca e rica a nossa maneira de agir é a mesma. Esse é um sinal muito importante. É mais importante do que qualquer especificidade ou tecnicalidade da lei. É isso que fazemos neste gabinete, Larry. Não estamos aqui para cuidar de casos. Estamos aqui para criar esperanças. É isso que Bernie não compreende.

A conjugação correta dos verbos, no lugar da incorreta usada pelos irlandeses, assinalava a elevação dos pensamentos do promotor público naquele momento. — Bernie ainda está fazendo política irlandesa — disse Weiss —, da mesma maneira que Charlie Buckley costumava fazê-la, mas isso terminou. Acabou. Esta é a era moderna do Laboratório de Relações Humanas, e temos o dever de representar essa gente que você está vendo lá embaixo.

Kramer observou obedientemente os insetos. Quanto a Weiss, a elevação de seus sentimentos tinha permeado sua voz e seu rosto de emoção. Ele lançou a Kramer um olhar sincero e um sorriso cansado, do tipo que sugere: “A vida é assim, quando se removem as considerações mesquinhas.”

— Nunca pensei nisso sob esse prisma, Abe — disse Kramer —, mas você está absolutamente certo. — Parecia uma boa ocasião para o primeiro “Abe”.

— A princípio eu estava preocupado com esse caso McCoy — disse Weiss. — Parecia que Bacon e aquela gente estavam forçando o caso e que só estávamos conseguindo reagir. Mas, tudo bem. Acabou sendo uma boa coisa. Como é que realmente tratamos um grã-fino da Park Avenue? Como qualquer outro! Ele é preso, algemado, fichado, tiram suas impressões, espera no xadrez, como qualquer outra pessoa lá embaixo naquelas ruas! Ora, acho que isso transmite uma mensagem superlegal. Deixa claro para as pessoas que nós as representamos e que elas fazem parte de Nova York.

Weiss contemplou a 161st Street como um pastor contemplaria seu rebanho. Kramer se sentia satisfeito com o fato de que ninguém, a não ser ele, estivesse presenciando a cena. Se houvesse mais de uma testemunha ali, o cinismo teria predominado. Ninguém teria sido capaz de pensar em outra coisa além do fato de Abe Weiss ter de enfrentar uma eleição dentro de cinco meses, e que 70 por cento dos habitantes do Bronx eram negros e latinos. Mas, já que não havia nenhuma outra testemunha, Kramer podia chegar ao cerne da questão, que era: essa criatura maníaca diante dele, o capitão Ahab, tinha razão.

— Você fez um excelente trabalho ontem, Larry — disse Weiss —, e quero que continue a se esforçar o máximo. Não se sente bem usando os seus talentos para uma coisa que tem um significado? Droga, você sabe quanto eu ganho. — Isso Kramer sabia. Eram 82 mil dólares por ano. — Muitas vezes eu poderia ter tomado outro rumo para ganhar três, cinco vezes mais que isso, advogando. Mas para quê? Só se vive no mundo uma vez, Larry. Como é que se quer ser lembrado? Como o cara que tinha a porra de uma mansão em Riverdale ou em Greenwich ou em Locust Valley? Ou o cara que mudou alguma coisa? Tenho pena de Tommy Killian. Ele era um bom promotor assistente, mas Tommy queria ganhar dinheiro, e agora está lá fora ganhando dinheiro, mas de que maneira? Está segurando a mão e assoando o nariz de um bando de vigaristas, psicóticos e viciados. Um cara como McCoy melhora a sua imagem. Não tem visto caras como esse em todos os anos que esteve fora daqui. Não, eu prefiro dirigir o Laboratório de Relações Humanas. É assim que penso. Prefiro ser um agente transformador. Você fez um excelente trabalho ontem. E quero que continue a se esforçar o máximo.

Fez uma pausa.

— Nossa, que horas são? — indagou Weiss. — Estou começando a sentir fome.

Kramer consultou o relógio, alegre.

— É quase meio-dia e quinze.

— Por que não fica por aqui e almoça? O juiz Tonneto vai passar por aqui, e esse cara do Times, Overton Não-Sei-de-Quê... sempre me esqueço, todos eles se chamam Overton, Clifton ou um nome desses... Bobby Vitello e Lew Weintraub. Conhece Lew Weintraub? Não? Fique. Vai aprender alguma coisa.

— Bom, se tem certeza...

— Claro! — Weiss indicou uma gigantesca mesa de reuniões, como se dissesse que havia bastante espaço. — Vou mandar trazer uns sanduíches.

Disse isso como se esse fosse, casualmente, um daqueles almoços decididos na hora, em que se encomenda alguma coisa em vez de sair, como se ele ou qualquer outro caubói na ilha-fortaleza se atrevesse a caminhar lá fora em meio à manada no centro cívico do Bronx.

Mas Kramer baniu todo o cinismo mesquinho de seus pensamentos. Almoçar com gente do gabarito do juiz Tonneto, Bobby Vitello, Lew Weintraub, do mercado imobiliário, Overton Que-Nome-Anglo-Saxão-Tivesse, do New York Times, e o próprio promotor público!

Estava saindo da lama do anonimato.

Graças a Deus pelo Grande Réu Branco. Obrigado, Senhor, pelo sr. Sherman McCoy.

Com um lampejo de curiosidade, refletiu sobre McCoy. McCoy não era muito mais velho que ele. Que pensaria desse mergulhinho nas águas geladas do mundo real um branco, anglo-saxão, protestante que sempre tivera tudo exatamente como queria durante toda a vida? Mas fora apenas isso, um lampejo.

Os índios bororos, uma tribo primitiva que vive às margens do rio Vermelho nas selvas amazônicas do Brasil, acreditam que não existe um eu individual. Os bororos veem a mente como uma cavidade aberta, uma caverna, um túnel ou uma arcada, se preferirem, na qual a aldeia inteira vive e a floresta cresce. Em 1969, José M. R. Delgado, o eminente fisiologista espanhol, declarou que os bororos estavam certos. Durante quase três milênios, os filósofos ocidentais tinham visto o eu como algo único, algo encerrado no crânio de cada indivíduo, por assim dizer. Esse eu interior tinha que enfrentar o mundo exterior e aprender com ele, é claro, e poderia provar-se incompetente ao fazê-lo. Contudo, no cerne do eu presumia-se que existisse algo irredutível e inviolável. “Não existe”, afirmou Delgado. “Cada pessoa é um composto temporário de materiais extraídos do meio ambiente.” O importante era a palavra “temporário”, e ele não se referia a anos mas a horas. Citou experiências em que estudantes universitários saudáveis, deitados em camas colocadas em câmaras bem iluminadas à prova de som, usando luvas para reduzir o tato e óculos de proteção para bloquear determinadas visões, começavam a ter alucinações dentro de poucas horas. Sem a aldeia inteira, a floresta inteira, ocupando a cavidade, as mentes deixavam de existir.

Ele não citou, no entanto, pesquisas sobre o caso oposto. Não discutiu o que aconteceu quando o eu de uma pessoa — ou o que se imagina que seja o eu — não é apenas uma cavidade aberta para o mundo exterior, mas repentinamente se transforma num parque de diversões em que todo o mundo, todo el mundo, tout le monde, entra galopando, saltando e gritando, com os nervos à flor da pele, as entranhas em chamas, pronto para o que der e vier, tudo que o indivíduo tiver para oferecer, risos, lágrimas, gemidos, frêmitos, arquejos, horrores, qualquer coisa, quanto mais sangrento melhor. Ou, em outras palavras, ele não nos disse nada sobre a mente de uma pessoa que se torna pivô de um escândalo no último quartel do século XX.

A princípio, nas semanas que se seguiram ao incidente no Bronx, Sherman encarara a imprensa como um inimigo que o espreitava lá fora. Temia os jornais de cada dia e as transmissões de notícias, da mesma maneira que um homem temeria as armas de qualquer inimigo impessoal e invisível, da mesma maneira que temeria bombas caindo do céu ou balas de canhão. Mesmo no dia anterior, do lado de fora da seção de registro, na chuva e na lama, quando viu o branco dos olhos e o amarelo dos dentes deles, e o insultaram, atormentaram e provocaram, quando fizeram tudo, exceto pisar e cuspir nele, continuavam a ser o inimigo lá fora. Tinham acuado a caça, magoado e humilhado, mas não conseguiram atingir o seu eu inviolável, Sherman McCoy, no interior do cadinho de bronze de sua mente.

Tinham acuado a caça. E tinham-no matado.

Não conseguia lembrar se morrera enquanto ainda estava na fila do lado de fora, antes de a porta do Registro se abrir, ou se fora no xadrez. Mas quando deixara o edifício e Killian dera a sua entrevista improvisada na escadaria, ele morrera e renascera. Em sua nova encarnação, a imprensa deixara de ser um inimigo lá fora. Agora era uma doença, como um lupo eritematoso ou uma granulomatose. Todo o seu sistema nervoso central estava agora ligado nesse vasto e incalculável circuito de rádio, televisão e jornais, e seu corpo pulsava, ardia e zumbia com a energia da imprensa e a lascívia daqueles que eram influenciados pela mídia, ou seja, todos, desde o vizinho mais próximo até o estranho mais distante e indiferente excitavam-se por ora com a desgraça dele. Aos milhares, não, aos milhões, eles agora entravam galopando na cavidade que ele presumira ser seu eu, Sherman McCoy. Já não conseguia impedi-los de penetrar na própria pele da mesma forma que não conseguia manter o ar fora dos pulmões. (Ou, melhor dito, só poderia impedi-los de entrar na mesma medida em que poderia negar o ar aos pulmões, de uma vez por todas. Essa solução ocorreu-lhe mais de uma vez durante aquele longo dia, mas lutou contra a morbidez, lutou, lutou, lutou, ele, que já morrera uma vez.)

Começou minutos depois de ele e Killian terem conseguido se desvencilhar da turba de manifestantes, repórteres, fotógrafos e equipes de TV e entrar no sedã com motorista que Killian alugara. O motorista estava ouvindo música no rádio do carro, mas não tardou para que o noticiário que havia de meia em meia hora entrasse no ar, e imediatamente Sherman ouviu seu nome, seu nome e as palavras-chave que ouviria e veria sem cessar durante o restante do dia: Wall Street, grã-fino, atropelamento com fuga do responsável, estudante brilhante do Bronx, companhia feminina não identificada, e via os olhos do motorista no espelho retrovisor arregalados para a cavidade aberta conhecida como Sherman McCoy. Quando chegaram ao escritório de Killian, a edição do meio-dia de The City Light já estava lá, e seu rosto angustiado o encarava na primeira página, e todo mundo em Nova York gozava da liberdade de entrar por aqueles seus olhos cheios de horror. Naquela mesma tarde, quando voltou à Park Avenue, precisou suportar o suplício dos repórteres e equipes de televisão para entrar no próprio edifício em que morava. Eles o chamavam de “Sherman” tão alegre, desdenhosa e imperiosamente quanto queriam, e Eddie, o porteiro, olhou bem nos seus olhos e meteu a cabeça lá no fundo da cavidade. Para piorar a situação, teve que subir no elevador com os Morriseys, que moravam no apartamento de cobertura. Eles não disseram nada. Apenas espetaram o nariz comprido e cheiraram e cheiraram a sua vergonha, até que seus rostos se contraíram com o fedor. Contara com o número de telefone não listado como um refúgio, mas a imprensa já havia resolvido esse problema quando chegou em casa, e Bonita, a bondosa Bonita, que deu apenas uma espiada rápida na cavidade, teve que policiar as ligações. Todas as empresas de notícias imagináveis ligaram, e houve algumas chamadas para Judy. E para ele? Quem seria tão carente de dignidade, tão imune ao constrangimento, a ponto de fazer uma chamada pessoal para essa ululante galeria pública, essa concha de vergonha e depressão, que era o próprio Sherman McCoy? Só sua mãe, seu pai e Rawlie Thorpe. Bom, pelo menos Rawlie tinha essa bondade. Judy — vagava pelo apartamento, chocada e distante. Campbell — desnorteada, mas não às lágrimas; ainda não. Pensara que não seria capaz de enfrentar a tela da televisão, porém ligou-a. A difamação jorrava de todos os canais. Proeminente banqueiro de investimentos da Wall Street, alto funcionário da Pierce & Pierce, grã-fino, escola preparatória, Yale, filho mimado de antigo sócio da Dunning Sponget & Leach, a firma de advocacia da Wall Street, em seu Mercedes esporte de 60 mil dólares (10 mil a mais, agora) com uma morena sexy que não era sua mulher, nem se parecia com sua mulher e faz sua mulher parecer desenxabida por comparação, atropela um filho exemplar de pobres dignos, um jovem e brilhante estudante que cresceu nos conjuntos habitacionais, e foge em seu carro de luxo sem se condoer da vítima um só instante, e muito menos ajudá-la, um rapaz que agora se encontra às portas da morte. O esquisito — e sentia isso ao sentar ali diante da televisão — é que não estava chocado nem zangado com essas cruas distorções e manifestas mentiras. Ao contrário, sentia-se envergonhado. Até o cair da noite, elas tinham sido repetidas com tanta frequência, pelo vasto circuito ao qual a sua própria pele parecia ligada, que tinham adquirido foros de verdade, pois milhões tinham agora visto esse Sherman McCoy, esse Sherman McCoy das telas, e sabiam que ele era o homem que cometera aquele ato de crueldade. As pessoas estavam ali, agora, em imensas turbas, cacarejando e espumando e provavelmente pensando em fazer coisas piores, dentro da galeria pública que ele antigamente pensara ser o eu individual de Sherman McCoy. Todas as pessoas, todos os seres vivos que pusessem os olhos nele, com a possível exceção de Maria, se algum dia voltasse a pôr os olhos nele, o identificariam como a pessoa na primeira página de 2 milhões, 3 milhões, 4 milhões de exemplares de jornais e nas telas de Deus sabe quantos milhões de aparelhos de televisão. A energia das acusações, transmitida pelo vasto circuito da imprensa, que estava ligado ao seu sistema nervoso central, zumbia e ardia na pele e fazia sua adrenalina fluir. Seu pulso mantinha-se constantemente acelerado. No entanto, ele já não estava em estado de pânico. Um torpor melancólico, melancólico se instalara. Não conseguia se concentrar em... nada, nem mesmo o tempo suficiente para se entristecer. Pensou em como isso devia estar afetando Campbell e Judy, mas já não sentia as terríveis pontadas que sentira antes... antes de morrer. Isso o assustou. Olhou para a filha e tentou sentir as pontadas, mas era um exercício intelectual. Era tudo tão melancólico e pesado, pesado, pesado.

A única coisa que realmente sentia era medo. Era o medo de voltar para lá.

Na noite anterior, exausto, tinha ido para a cama e pensara que não conseguiria dormir. Na verdade, dormiu quase imediatamente e teve um sonho. Era o anoitecer. Encontrava-se num ponto de ônibus na First Avenue. Era estranho, porque não tomava um ônibus em Nova York há pelo menos dez anos. Antes que se desse conta, o ônibus percorria a 110th Street, e estava escuro. Perdera o ponto do ônibus em que ia saltar, embora não conseguisse se lembrar em que ponto seria. Encontrava-se agora num bairro negro. Provavelmente era, na verdade, um bairro latino, ou seja, o Harlem Hispânico, mas no sonho era um bairro negro. Desceu do ônibus temendo que, se continuasse nele, a situação piorasse. Nos portais, nas sacadas, nas calçadas, via vultos ao lusco-fusco, mas eles ainda não o tinham visto. Caminhou apressado pelas ruas sombrias, tentando rumar para oeste. O bom senso lhe dizia para voltar direto para a First Avenue, mas parecia sumamente importante rumar para oeste. Agora percebia que os vultos andavam à sua roda. Não diziam nada, nem mesmo chegavam muito próximo... por ora. Dispunham de muito tempo. Ele caminhava apressado pela escuridão, procurando as sombras, e gradualmente os vultos se acercaram; gradualmente, porque dispunham do tempo que quisessem. Acordou sentindo um pânico terrível, suando; seu coração saltava na boca. Dormira menos de duas horas.

De manhã cedinho, quando o sol nasceu, sentiu-se mais forte. O zumbido e a ardência tinham cessado, e ele começou a se perguntar: “Estarei livre dessa situação pavorosa?” Evidentemente não compreendera. O vasto circuito apenas se desligara durante a noite. Os milhões de olhos acusadores haviam se fechado. De qualquer forma, resolveu: serei forte. Que outra escolha tinha? Nenhuma, a não ser tornar a morrer, lenta ou rapidamente; e de verdade. Foi nesse estado de ânimo que decidiu que não seria prisioneiro em sua própria casa. Levaria a vida o melhor que pudesse e enfrentaria a turba de queixo erguido. Começaria por acompanhar Campbell ao ponto do ônibus, como sempre.

Às 7 horas, Tony, o porteiro, ligou para cima, desculpando-os, para dizer que meia dúzia de repórteres e fotógrafos estavam acampados do lado de fora, na calçada e em carros. Bonita retransmitiu a mensagem, e Sherman cerrou os maxilares, ergueu o queixo e resolveu enfrentá-los do mesmo jeito que se enfrenta o mau tempo. Os dois, Sherman, no seu mais impecável terno de lã penteada inglesa, e Campbell, no uniforme da Taliaferro, desembarcaram do elevador e se aproximaram da porta do edifício, e Tony disse, com sinceridade:

— Boa sorte. Eles são um bando de grossos.

Na calçada, o primeiro a se aproximar foi um rapaz muito jovem, de aparência infantil, que se acercou com algo que se assemelhava a cortesia e disse:

— Sr. McCoy, gostaria de lhe perguntar...

Sherman segurou a mão de Campbell, ergueu o queixo Yale e disse:

— Não tenho declarações a fazer. Agora, se me der licença...

De repente cinco, seis, sete deles cercavam-nos e não havia mais sr. McCoy.

— Sherman! Um instante! Quem era a mulher?

— Sherman! Espere um segundo! Só uma foto!

— Ei, Sherman! Seu advogado diz...

— Espere aí! Ei! Ei! Qual é o seu nome, bonequinha?

Um deles estava chamando Campbell de “bonequinha”! Estarrecido e furioso, ele se voltou na direção da voz. O mesmo — com o emaranhado de cabelo pixaim grudado no crânio — e agora dois pedaços de papel higiênico no rosto.

Sherman tornou a se voltar para Campbell. Havia um sorriso confuso em seu rosto. As máquinas fotográficas! Fotografias até então tinham significado ocasiões felizes.

— Qual é o nome dela, Sherman!

— Oi, bonequinha, qual é o seu nome?

O nojento com papel higiênico no rosto curvava-se e falava com sua filhinha num tom untuoso e avuncular.

— Deixe-a em paz! — disse Sherman. Percebeu o medo que surgiu no rosto de Campbell com a rispidez de sua voz.

De repente um microfone estava bem diante do seu nariz, bloqueando-lhe a visão.

Uma mulher alta e forte com uma enorme queixada:

— Henry Lamb está agora quase morrendo no hospital, e você está passeando pela Park Avenue. Como se sente com relação a Henry...

Sherman fez um movimento brusco com o braço para empurrar o microfone do rosto. A mulher começou a gritar:

— Seu grandíssimo filho da mãe! — E para os colegas: — Vocês viram isso? Ele me bateu! O filho da puta me bateu! Vocês viram! Vou mandar prendê-lo por agressão, seu filho da puta!

A matilha avançava de todos os lados de Sherman e da filhinha. Ele baixou o braço e passou-o pelos ombros de Campbell, tentando puxá-la para mais perto e ao mesmo tempo aumentando o passo em direção à esquina.

— Vamos, Sherman! Só umas perguntinhas e o deixaremos em paz!

Lá atrás, a mulher continuava a berrar e a reclamar:

— Ei, tiraram uma foto daquilo? Quero ver o que tiraram! Isso é evidência! Têm que me mostrar! — E na direção dele: — Você não se incomoda com quem atinge, não é mesmo, seu veado racista!

Veado racista! A mulher era branca.

O rosto de Campbell era uma máscara de medo e consternação.

O sinal abriu, e a matilha acompanhou-os, amontoando-se em volta deles como porcos ou marimbondos, por todo o cruzamento da Park Avenue. Sherman e Campbell, de mãos dadas, continuavam a atravessar a rua em linha reta, enquanto os repórteres e fotógrafos que os rodeavam pulavam para diante e para trás e enviesado como caranguejos.

— Sherman!

— Sherman!

— Olhe para mim, bonequinha!

Os pais, babás e crianças que esperavam no ponto de ônibus da Taliaferro recuaram. Não queriam participar de maneira alguma dessa manifestação revoltante que viam se deslocar em sua direção, esse enxame ruidoso de vergonha, culpa, humilhação e tormento. Por outro lado, também não queriam que seus menininhos perdessem o ônibus, que se aproximava. Então estremeceram e recuaram formando um grupo como se o vento os tivesse juntado. Por um instante Sherman pensou que alguém interviesse para ajudar, não tanto por ele, mas por Campbell, mas se enganara. Alguns olhavam como se não soubessem quem ele era. Outros desviavam a vista. Sherman examinou aqueles rostos. A bela e miúda sra. Lueger! Tinha as mãos nos ombros da filhinha, que espiava com os olhos arregalados e fascinados. A sra. Lueger olhou-o como se ele fosse um vagabundo do arsenal da 67th Street.

Campbell, em seu uniformezinho cor de vinho, subiu penosamente os degraus que levavam ao interior do ônibus e então lançou um último olhar sobre o ombro. As lágrimas rolavam em seu rosto, silenciosas.

Então uma pontada atravessou o plexo solar de Sherman. Ainda não tornara a morrer. Ainda não morrera uma segunda vez; ainda não. O fotógrafo com o papel higiênico na bochecha estava logo atrás dele, a menos de cinquenta centímetros de distância, com o seu terrível instrumento aparafusado numa órbita.

Agarre-o! Meta-lhe a máquina pelo cérebro! “Ei, bonequinha!”, você ousa dizer isso a alguém de minha carne e meu sangue...

Mas que adiantaria? Eles não eram mais o inimigo lá fora, eram? Eram parasitas debaixo de sua própria pele. O zumbido e a ardência recomeçaram.

Fallow saracoteava pela redação e deixava-os absorver sua figura imponente. Encolheu a barriga e aprumou as costas. No dia seguinte começaria um sério programa de exercícios. Não havia razão alguma para não ter um físico heroico. A caminho do centro parara na Herzfeld, uma camisaria na Madison Avenue que vendia roupas europeias e inglesas, e comprara uma gravata estampada de granadina de seda. As bolinhas minúsculas eram bordadas em branco. Colocara-a ali mesmo na loja, deixando o vendedor examinar o seu colarinho removível. Estava usando sua melhor camisa, que era da Bowring, Arundel & Co., na Savile Row. Era uma camisa autêntica e era uma gravata autêntica. Se ao menos pudesse comprar um blazer novo, com belas lapelas recortadas que não brilhassem... Ah, bom, bola pra frente — muito em breve! Ele parou junto à quina da mesa e apanhou um exemplar do City Light da pilha das primeiras edições deixadas ali para os repórteres. “PROCURA-SE MULHER MISTERIOSA MORENA E TESUDA.” Mais uma reportagem de primeira página de Peter Fallow. O resto do texto baralhou-se na remela espessa, diante de seu rosto. Mas ele continuou a olhar fixamente, para dar a todos a oportunidade de absorverem a presença de... Peter Fallow... Olhem bem, seus escravos, curvados sobre esses editores de texto, matraqueando e resmungando e reclamando dos seus “100 mil dólares”. Subitamente, sentiu-se tão magnífico que pensou no gesto grandioso que seria chegar para o coitado do Goldman e lhe devolver os seus cem dólares. Bom, arquivaria isso num cantinho da cabeça.

Quando chegou ao seu cubículo, já havia uns seis ou sete recados em cima da mesa. Deu uma olhada neles, meio esperançoso de que pelo menos um fosse de algum produtor de cinema.

Sir Gerald Steiner, o antigo Rato Morto, vinha em sua direção sem paletó, com um par de suspensórios de feltro vermelho-vivo sobre a camisa listrada e um sorriso no rosto, um sorriso encantador, um sorriso insinuante, no lugar da expressão lupina de algumas semanas atrás. O cantil de vodca continuava escondido no bolso da capa, que ainda se achava pendurada no cabide de plástico a um canto. Provavelmente poderia apanhá-la e virar um gole escaldante bem na cara do Rato, e que aconteceria? Nada, exceto um sorriso falsamente simpático, se é que conhecia o seu Rato.

— Peter — disse Steiner. Peter; não mais aquele Fallow de inspetor escolar. — Quer ver uma coisa para alegrar o seu dia?

Steiner jogou uma foto na escrivaninha de Fallow. Mostrava Sherman McCoy com uma cara terrível dando um tapa com as costas da mão no rosto de uma mulher alta que segurava uma espécie de bastão, que, ao exame mais atento, descobria-se ser um microfone. Com a outra mão Sherman segurava a mão de uma menininha de uniforme escolar. A menininha olhava para a máquina com uma expressão intrigada. Ao fundo, viam-se a marquise de um edifício residencial e um porteiro.

Steiner ria.

— A mulher, uma mulher horrível, por sinal, que trabalha em alguma estação de rádio, está ligando umas cinco vezes por hora. Diz que vai mandar prender McCoy por agressão. Quer a fotografia. Terá a fotografia, sim. Estará na primeira página da próxima edição.

Fallow apanhou a foto e examinou-a.

— Hummm. Menininha bonita. Deve ser difícil ter um pai que não para de agredir as minorias, rapazes negros, mulheres. Já reparou que os ianques se referem às mulheres como minoria?

— Pobre língua materna — comentou Steiner.

— Uma foto maravilhosa — disse Fallow, com sinceridade. — Quem a tirou?

— Silverstein. Aquele sujeito realmente tem peito. Tem mesmo.

— Silverstein está no velório?

— Ah, está — respondeu Steiner. — Ele adora essas coisas. Sabe, Peter — Peter — tenho respeito, talvez um respeito pervertido, mas um verdadeiro respeito por sujeitos como Silverstein. Eles são os agricultores do jornalismo. Eles adoram o campo bom e fértil em si, por si, e não pelo que ganham: gostam de meter as mãos no esterco. — Steiner parou, perplexo. Sempre se confundia com os próprios jogos de palavras.

Ah, como Sir Gerald, o garotinho do velho Steiner, adoraria poder se espojar naquela sujeira com dionisíaco abandono! — como um cara de coragem! Seus olhos marejaram de emoção: amor, talvez, ou saudades da lama.

— Os Vândalos Sorridentes — disse Steiner, com um largo sorriso e um sacudir de cabeça, a propósito das proezas do corajoso fotógrafo. Isso, por sua vez, o levou a uma fonte maior de satisfação.

— Quero dizer-lhe uma coisa, Peter. Não sei se é capaz de compreendê-la inteiramente ou não, mas você deu um furo muito importante com essa reportagem sobre esse tal de Lamb e o envolvimento do McCoy. Ah, é sensacional, mas é muito mais que isso. É uma peça moralista. Pense nisso um instante. Uma peça moralista. Você mencionou as minorias. Sei que estava brincando, mas já estamos recebendo notícias dessas minorias, dessas organizações negras e outras que tais, das mesmas organizações que andaram espalhando boatos de que somos racistas e todo esse gênero de tolices, e agora estão nos parabenizando e olhando para nós como uma espécie de... farol. Isso é uma grande reviravolta em poucos dias. Essa gente da Liga contra a Difamação do Terceiro Mundo, a mesma gente que ficou tão irritada com os Vândalos Sorridentes, acabou de me enviar o seu testemunho mais fulgurante. Agora somos os porta-estandartes do liberalismo e dos direitos civis! Acham que você é um gênio. Esse homem, o reverendo Bacon, como o chamam, parece ser o dirigente da liga. Daria o prêmio Nobel a você, se dependesse dele. Deveria pedir ao Brian para lhe mostrar a carta.

Fallow não fez comentários. Os idiotas poderiam ser um pouco mais sutis.

— O que estou tentando dizer, Peter, é que esse é um passo muito importante para o progresso do jornal. Os nossos leitores não têm o menor interesse pela respeitabilidade, nem contra nem a favor. Mas os anunciantes têm. Já pedi ao Brian para começar a ver se seria possível conseguir que alguns desses grupos negros formalizassem sua nova opinião sobre The City Light de alguma maneira, através de citações ou prêmios ou, sei lá, mas Brian descobrirá um jeito de fazer isso. Espero que possa separar um tempo para participar do que quer que ele arranje. Mas vamos ver em que vai dar a coisa.

— Ah, sem dúvida alguma — concordou Fallow. — É claro. Eu sei como essa gente é sensível. Sabia que o juiz que se recusou a majorar a fiança de McCoy ontem recebeu ameaças de morte?

— Ameaças de morte? Você não está falando sério. — O Rato se contorceu de excitação e horror.

— Verdade. E está levando a coisa a sério.

— Nossa! — exclamou Steiner. — Este país é surpreendente.

Fallow percebeu que esse era um momento propício para sugerir a Sir Gerald um passo importante em outra direção: um adiantamento de mil dólares, que por sua vez talvez sugerisse ao eminente Rato um aumento de salário também.

E estava correto em ambos os casos. Assim que o novo blazer estivesse pronto, iria queimar esse; com prazer.

Mal se passara um minuto desde que Steiner se retirara, e o telefone de Fallow tocou. Era Albert Vogel.

— Ei, Pete! Como vai? As coisas estão fervendo, as coisas estão fervendo, as coisas estão fervendo. Pete, você tem que me fazer um favor. Tem que me dar o número do telefone do McCoy. Não consta da lista.

Sem saber exatamente por quê, Fallow achou essa ideia assustadora.

— Para que iria querer o número do telefone dele, Al?

— Bom, é o seguinte, Pete: fui contratado por Annie Lamb, que quer impetrar uma ação em favor do filho. Duas ações, na realidade: uma contra o hospital por negligência flagrante e outra contra McCoy.

— E você quer o número da casa dele para quê?

— Para quê? Talvez tenhamos que negociar.

— Por que não liga para o advogado dele?

— Droga, Pete. — A voz de Vogel se alterou. — Não liguei para lhe pedir conselhos legais. Eu só quero a porra do número de telefone. Você tem o número dele ou não tem?

O bom senso de Fallow aconselhou-o a dizer não. Mas sua vaidade não o deixaria dizer a Vogel que eu, Fallow, proprietário do caso McCoy, não fui capaz de descobrir o número do telefone dele.

— Muito bem, Al. Proponho uma troca. Você me fornece os detalhes das ações e uma vantagem de um dia na posse da matéria, e lhe darei o número do telefone.

— Olhe, Pete, quero dar uma entrevista coletiva sobre as ações. Só estou lhe pedindo uma droga de um número de telefone.

— Você ainda pode convocar a entrevista coletiva. Terá uma plateia maior depois que eu escrever a matéria.

Pausa.

— Está bem, Pete. — Vogel riu, mas sem muita animação. — Acho que criei um monstro quando o pus na pista de Henry Lamb. Quem você acha que é, Lincoln Steffens?

— Lincoln de quê?

— Não importa. Não iria lhe interessar. Muito bem, terá a porra da reportagem. Será que não se cansa com todas essas exclusivas? Agora me dê o número.

E ele deu.

Pensando bem, que diferença faria ele ter ou não o número?