A Fogueira das Vaidades

Tom Wolfe · Capítulo 28 de 34

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A Fogueira das Vaidades

Capítulo 27

27

HERÓI DA COLMEIA

 

Os manifestantes desapareceram com a mesma rapidez com que tinham aparecido. As ameaças de morte cessaram. “Mas por quanto tempo?” Sherman agora só precisava pesar o medo da morte contra o horror de falir. Conciliou. Dois dias depois da manifestação baixou o número de guarda-costas para dois, um para o apartamento e um para a casa dos pais.

Mesmo assim — uma sangria de dinheiro! Dois guarda-costas de serviço durante 24 horas, a 25 dólares por hora-homem, um total de 1.200 dólares por dia — 438 mil dólares por ano — uma sangria mortal!

Dois dias depois, conseguiu reunir coragem para comparecer a um compromisso que Judy marcara quase um mês antes: jantar na casa dos Di Duccis.

Cumprindo sua promessa, Judy fazia o que podia para ajudá-lo. E cumprindo igualmente sua promessa, isso não incluía ser carinhosa. Agia como um fornecedor de asfalto forçado a se aliar a outro por algum capricho sórdido do destino... Melhor que nada, talvez... Foi nesse estado de ânimo que os dois planejaram o retorno ao convívio com a Sociedade.

Sua ideia (a de McCoy & McCoy Associados) era que a longa reportagem do Daily News escrita pelo homem de Killian, Flannagan, oferecia uma explicação inatacável do caso McCoy. Assim sendo, por que deveriam se esconder? Será que não deveriam aparentar uma vida normal, e quanto mais publicamente melhor?

Mas será que le monde — e, mais especificamente, os colunáveis Di Duccis — seriam da mesma opinião? Com os Di Duccis pelo menos tinham uma chance. Silvio di Ducci, que morava em Nova York desde os 21 anos, era filho de um fabricante italiano de sapatas de freio. A mulher, Kate, nascera e fora criada em San Marino, Califórnia; ele era seu terceiro marido rico. Judy fora a decoradora que fizera seu apartamento. E agora tomava a precaução de telefonar e se oferecer para desistir do jantar.

— Nem ouse! — disse Kate di Ducci. — Estou contando com a sua presença!

Isso deu a Judy um tremendo alívio. Sherman percebia em seu rosto. Não o afetara, porém. Sua depressão e seu ceticismo eram demasiado profundos para reagirem a uma educada injeção de ânimo de gente como Kate di Ducci. Só o que conseguiu dizer a Judy foi:

— Veremos, não?

O guarda-costas do apartamento, Occhioni, dirigiu a caminhonete Mercury até a casa dos pais dele, apanhou Judy, voltou à Park Avenue e apanhou Sherman. Rumaram para a casa dos Di Duccis na Fifth Avenue. Sherman puxou da cintura o revólver do rancor e se preparou para o pior. Os Di Duccis e os Bavardages conviviam exatamente com o mesmo grupo (o mesmo grupo vulgar e sem tradição em Nova York). Na casa dos Bavardages haviam lhe dado o gelo até quando sua respeitabilidade estava intata. Com a combinação de descortesia, crueza, esperteza e elegância que possuíam, que lhe infligiriam agora? Disse a si mesmo que já não ligava a mínima se o aprovavam ou não. Sua intenção — a dos dois (McCoy & McCoy) — era mostrar ao mundo que, sendo inocentes, podiam continuar a levar a vida normalmente. Seu grande receio era que acontecesse algo que provasse o contrário: ou seja, uma cena desagradável.

A galeria de entrada dos Di Duccis não possuía o deslumbramento da dos Bavardages. No lugar das talentosas combinações de materiais de Ronald Vine, madeira patinada, seda, cânhamo e tiras de reforço, a casa dos Di Duccis traía a fraqueza de Judy pelo solene e o grandioso: mármore, pilastras caneladas, grandes cornijas clássicas. Contudo, cada detalhe pertencia a outro século (o XVIII), e estava ocupado pelos mesmos grupos de radiografias ambulantes, tortinhas de limão e homens de gravatas escuras; os mesmos sorrisos, as mesmas risadas, os mesmos olhos de trezentos watts, o mesmo burburinho beatífico e conversas rá-tá-tá-tá estáticas. Em suma, a colmeia. A colmeia! — a colmeia! — o zum-zum familiar cercou Sherman, mas já não ressoava em seus ossos. Escutava-o, imaginando se sua presença maculada interromperia o zum-zum em si, as frases, os sorrisos, as gargalhadas.

Uma mulher macilenta emergiu entre os grupos e adiantou-se para eles, sorrindo... Macilenta mas absolutamente linda... Nunca vira um rosto mais belo... Os cabelos louro-claros puxados para trás. Tinha uma testa alta e um rosto branco e liso de porcelana, porém os olhos grandes e vivazes e a boca com um sorriso sensual — não, mais que isso — provocante. Muito provocante! Quando o tomou pelo braço, sentiu uma excitação nas entranhas.

— Judy! Sherman!

Judy abraçou e beijou a mulher. Com toda a sinceridade, disse:

— Ah, Kate, você é tão boa! Você é tão maravilhosa! — Kate di Ducci enganchou o braço no de Sherman e puxou-o para si, de modo que os três formaram um sanduíche: Kate di Ducci entre os dois McCoys.

— Você é mais que bondosa — disse Sherman. — E corajosa. — De repente percebeu que estava usando o tom de barítono íntimo que costumava empregar quando queria alimentar aquele velho jogo.

— Não seja bobo! — exclamou Kate di Ducci. — Se não tivessem vindo, os dois, eu teria ficado muito, muito aborrecida! Vamos até ali, quero que conheçam algumas pessoas.

Sherman reparou com apreensão que ela os conduzia a um buquê familiar dominado pela figura alta e aristocrática de Nunnally Voyd, o romancista que estivera na casa dos Bavardages. Uma radiografia ambulante e dois homens de terno marinho, camisa branca e gravata marinho abriram enormes sorrisos sociais para o grande autor. Kate di Ducci fez as apresentações e prosseguiu com Judy até o grande salão contíguo à galeria.

Sherman prendeu o fôlego, preparando-se para a afronta ou, na melhor das hipóteses, o ostracismo. Em lugar disso, os quatro continuaram a sorrir com vontade.

— Bom, sr. McCoy — disse Nunnally Voyd com um sotaque do meio-leste. — Devo confessar-lhe que pensei no senhor mais de uma vez nos últimos dias. Bem-vindo à legião dos malditos... agora que foi devidamente devorado pelas drosófilas.

— Drosófilas?

— A imprensa. Divirto-me com todo o questionamento subjetivo que esses... insetos fazem. “Somos demasiado agressivos, demasiado frios, demasiado cruéis?” — como se a imprensa fosse um animal predatório, um tigre. Acho que gostariam que nós os imaginássemos sedentos de sangue. Isso é o que eu chamo elogiar-se pela confissão da culpa menor. Escolheram o animal errado. Na verdade, são drosófilas. Uma vez que farejam o cheiro, pairam, enxameiam. Se os abanamos com a mão, não mordem, correm a se proteger e, assim que viramos a cabeça, reaparecem. São drosófilas. Mas tenho certeza de que não preciso lhe dizer isso.

Apesar do magnífico literato estar usando os seus apuros como pedestal para entronizar tal conceito entomológico, tal peça de colecionador um tanto desbotada pela longa exposição, Sherman sentiu-se grato. De certa maneira Voyd era, de fato, um irmão, um camarada legionário. Parecia lembrar — nunca prestara muita atenção às fofocas literárias — que Voyd fora estigmatizado como homossexual ou bissexual. Tinha havido algum tipo de bate-boca que recebera ampla publicidade... Que grande injustiça! Como é que esses... insetos se atreviam a atormentar esse homem que, ainda que talvez um pouco afetado, demonstrava tanta grandeza de espírito, tanta sensibilidade em relação à condição humana? E quem se importava com ele ser... gay? A própria palavra “gay” acorrera a Sherman espontaneamente. (E, era verdade. “Um liberal é um conservador que foi preso.”)

Encorajado pelo novo irmão, Sherman contou de que maneira a mulher de cara de cavalo enfiara o microfone em seu rosto quando ele e Campbell saíam do edifício e ele virara o braço, apenas para afastar o objeto — e a mulher agora entrava na justiça contra ele! Estava chorando, fazendo beicinho, gemendo — e entrando com uma ação cível de 500 mil dólares!

Todos no buquê, até o próprio Voyd, olhavam atentos para ele, com um sorriso social.

— Sherman! Sherman! Nossa! — Uma voz retumbante... Virou a cabeça... Um rapagão vinha em sua direção... Bobby Shaflett... Destacara-se de outro buquê e vinha em sua direção com um largo sorriso de curral no rosto. Estendeu a mão, Sherman apertou-a, e o Caipira de Ouro exclamou:

— Sem dúvida anda provocando um grande estardalhaço desde a última vez que nos vimos! Não há dúvida alguma, nossa mãe!

Sherman não sabia o que responder. Mas não precisou dizer nada, afinal.

— Fui preso em Montreal no ano passado — disse o Tenor de Cabeça Loura com evidente satisfação. — Provavelmente leu alguma coisa sobre o incidente.

— Bom, não... não li.

— Não leu?

— Não. Ora, não me diga... por que foi preso?

— FAZENDO PIPI NUMA ÁRVORE! Ho ho ho ho ho ho ho ho ho ho! Eles não gostam muito quando se faz pipi nas árvores deles à meia-noite em Montreal, ou pelo menos não ali na porta do hotel! Ho ho ho ho ho ho ho ho ho!

Sherman olhava para aquele rosto sorridente, consternado.

— Meteram-me na cadeia! Atentado ao pudor! FAZENDO PIPI NUMA ÁRVORE! Ho ho ho ho ho ho! — Acalmou-se um pouco. — Sabe — disse —, nunca estive na cadeia antes. Que foi que você achou da cadeia?

— Não foi grande coisa — disse Sherman.

— Sei o que quer dizer — continuou Shaflett —, mas não foi tão ruim assim. Tinha ouvido falar dessas coisas que os outros prisioneiros fazem com a gente na cadeia? — Enunciou a afirmação como se fosse uma pergunta. Sherman assentiu. — Quer saber o que fizeram comigo?

— O que foi?

— Deram-me maçãs!

— Maçãs?

— Claro. A primeira refeição que recebi lá foi tão ruim que não consegui comer, e gosto de comer! Só o que consegui comer foi uma maçã que veio com a comida. Então sabe o que aconteceu? Espalhou-se a notícia de que eu só comia maçãs, e os outros prisioneiros me mandaram todas as maçãs deles. Foram passando as maçãs, de mão em mão, através das grades, até chegarem a mim. Na altura em que saí de lá, só a minha cabeça aparecia no alto de uma pilha de maçãs! Ho ho ho ho ho ho ho ho ho ho!

Animado por essa interpretação favorável do tempo passado na cadeia, Sherman contou a história do porto-riquenho no xadrez que vira as equipes de televisão filmando-o algemado e queria saber por que fora preso. Contou que a sua resposta “Negligência criminosa” obviamente desapontara o homem e, assim sendo, respondeu ao próximo que lhe perguntou: “Homicídio.” (O rapaz negro de cabeça raspada... Sentiu uma pontada do terror original... Mas isso ele não mencionou.) Ansiosos, todos mantinham os olhos nele, o buquê inteiro — seu buquê — o famoso Bobby Shaflett e o famoso Nunnally Voyd, bem como outros três grã-finos. Suas expressões eram tão arrebatadas, tão delirantemente ansiosas! Sherman sentiu um impulso irresistível de aumentar o seu caso de guerra. Então inventou um terceiro companheiro de cela. Esse companheiro teria lhe perguntado por que estava preso, e ele respondera: “Homicídio de segundo grau.”

— Eu já não sabia mais que delito inventar — disse o aventureiro Sherman McCoy.

— Ho ho ho ho ho ho ho ho — fazia Bobby Shaflett.

— Ho ho ho ho ho ho ho ho ho — fazia Nunnally Voyd.

— Ha ha ha ha ha ha ha — faziam a radiografia e os dois homens de terno marinho.

— He he he he he he he he he — fazia Sherman McCoy, como se o tempo passado num xadrez não fosse, na vida de um homem, mais que um caso de guerra.

A sala de jantar dos Di Duccis, como a dos Bavardages, apresentava um par de mesas redondas, e ao centro de cada mesa uma criação de Huck Thigg, o florista. Para essa noite, ele criara um par de árvores anãs, com menos de 40 centímetros, feitas com ramos de glicínias. Coladas aos galhinhos das árvores havia uma quantidade de centáureas secas cintilantes. Cada árvore era rodeada por um campo relvado, de uns 30 centímetros de largura, com botões-de-ouro plantados tão próximos que as pétalas se tocavam. Em torno de cada campo, uma cerquinha feita de teixo. Dessa vez, porém, Sherman não teve oportunidade de estudar a criatividade do jovem e famoso sr. Thigg. Longe de se sentir marginalizado, sem um interlocutor sequer, agora comandava toda uma ala da mesa. Imediatamente à esquerda encontrava-se a famosa radiografia da sociedade, Red Pitt, conhecida sotto voce como Poço sem Fundo, porque era tão soberbamente desnutrida que seus glutei maximi e o tecido circundante — em termos vulgares, seu rabo — pareciam ter desaparecido completamente. Podia-se pendurar um fio de prumo dos seus rins até o chão. À esquerda dela estava Nunnally Voyd, e à esquerda dele, uma radiografia da área imobiliária chamada Lily Bradshaw. Sentada à direita de Sherman achava-se a tortinha de limão chamada Jacqueline Balch, a loura terceira esposa de Knobby Balch, herdeiro da fortuna obtida graças a um remédio para indigestão, Colonaid. À direita dela, o barão Hochswald em pessoa, e à direita dele, Kate di Ducci. Durante a maior parte do jantar todos esses seis homens e mulheres tinham a atenção voltada unicamente para Sherman McCoy. Crime, Economia, Deus, Liberdade, Imortalidade — o tema sobre o qual McCoy, do caso McCoy, se dispusesse a falar, a mesa ouviria, até mesmo um tagarela incessante, egoísta e talentoso como Nunnally Voyd.

Voyd comentou que se surpreendera ao saber que se era possível ganhar somas tão vultosas operando obrigações — e Sherman percebeu que Killian tinha razão: a imprensa realmente criara a impressão de que ele era um titã do mundo financeiro.

— Francamente — disse Voyd —, sempre pensei no negócio de obrigações como... hummmm... algo meio insignificante.

Sherman viu-se sorrindo, o sorriso daqueles que conhecem um segredo apetitoso.

— Há dez anos — disse — você teria razão. Costumavam chamar-nos de “obrigachatos”. — Tornou a sorrir. — Não ouço isso há muito tempo. Atualmente suponho que haja cinco vezes mais dinheiro circulando em obrigações do que em ações. — Virou-se para Hochswald, que se curvava à frente para acompanhar a conversa. — O senhor não concordaria, barão?

— Ah, sim, sim — disse o velho. — Imagino que seja verdade. — E em seguida o barão se calou para ouvir o que o sr. McCoy tinha a dizer.

— Todas as compras e vendas de controle acionário, as fusões, são feitas por meio de obrigações — disse Sherman. — A dívida nacional? Um trilhão de dólares? O que pensam que é? Tudo obrigações. Todas as vezes que a taxa de juros flutua — para cima ou para baixo, tanto faz — caem migalhinhas de obrigações que se alojam nas frestas das calçadas. — Fez uma pausa e sorriu confiante... e pôs-se a pensar... Por que usara aquela odiosa expressão de Judy?... Deu uma risadinha e continuou: — O importante é não torcer o nariz para essas migalhas, porque há bilhões e bilhões delas. Na Pierce & Pierce, acreditem, recolhemos todas diligentemente. — Nós — na Pierce & Pierce! Até mesmo a tortinha à direita, Jacqueline Balch, concordava com tudo isso como se o compreendesse.

Red Pitt, que se orgulhava de sua rudeza, perguntou:

— Diga-me, sr. McCoy, diga-me... bom, vou falar francamente e perguntar: o que foi que realmente aconteceu no Bronx?

Então todos se curvaram para a frente e olharam, fascinados, para Sherman.

Sherman sorriu.

— Meu advogado me recomendou que não dissesse uma única palavra sobre o que aconteceu. — Então ele mesmo se curvou para a frente, olhou para a direita e em seguida para a esquerda, e respondeu: — Mas, absolutamente entre nous, foi uma tentativa de assalto. Fui literalmente atacado por um salteador de estradas.

Agora estavam todos tão curvados para a frente que formavam um ajuntamento em volta da glicínia em campo de botões-de-ouro de Huck Thigg.

Kate di Ducci perguntou:

— Por que você não pode ir a público e dizer isso, Sherman?

— Não posso entrar no assunto, Kate. Mas direi a vocês mais uma coisa: não atropelei ninguém com o meu carro.

Nenhum deles disse uma palavra. Estavam em transe. Sherman deu uma olhada para Judy na outra mesa. Quatro pessoas, duas de cada lado, incluindo o anfitriãozinho astuto, Silvio di Ducci, estavam ligados nela. McCoy & McCoy. Sherman continuou:

— Posso dar a vocês um conselho muito sensato. Nunca... se deixem apanhar... nas malhas do sistema de justiça penal... desta cidade. Assim que se é tragado pela máquina, só pela máquina, é a perdição. A única indagação que resta é quanto se vai perder. Uma vez que se entra numa cela — mesmo antes de se ter chance de declarar a própria inocência — a pessoa se transforma num número. A pessoa deixa de existir.

Silêncio a toda a volta... A expressão naqueles olhos! Suplicando casos de guerra!

Então contou-lhes sobre o porto-riquenhozinho que conhecia todos os números. Falou-lhes do jogo de hóquei com o camundongo vivo e de como ele (o herói) resgatou o camundongo e atirou-o para fora da cela, e em seguida um policial o esmagou com o salto. Confiante, voltou-se para Nunnally Voyd e disse: — Acho que isso se enquadra na sua definição de metáfora, sr. Voyd. — Sorriu sabiamente. — Uma metáfora para a coisa toda.

Então olhou para a direita. A linda tortinha de limão sorvia cada palavra que dizia. Sentiu de novo a excitação nas entranhas.

Depois do jantar um grupo bem grande se reuniu em torno de Sherman McCoy na biblioteca dos Di Duccis. Ele os entreteve com a história do policial que não parava de fazê-lo passar pelo detetor de metais.

Silvio di Ducci perguntou:

— Eles podem forçá-lo a fazer isso?

Sherman percebeu que o relato o fazia parecer um pouquinho submisso e estava prejudicando a sua nova posição de alguém que afrontara o fogo dos infernos.

— Fiz um trato — esclareceu. — Disse: “Tudo bem, deixo-o mostrar ao seu amigo como disparo o alarme, mas você tem que me fazer uma coisa. Tem que me tirar daquela porra” — disse “porra” bem baixinho, para indicar que, sim, sabia que era de mau gosto mas que nas circunstâncias a citação literal se fazia necessária —, “daquela pocilga”. — E apontou um dedo para ilustrar, como se estivesse apontando para o xadrez do Registro Central no Bronx. — E valeu a pena. Tiraram-me cedo. De outra forma eu teria que passar a noite em Rikers Island, e isso, pelo que sei, não é... tão... fantástico assim.

Todas as tortinhas do grupo estavam à sua disposição.

Quando o guarda-costas, Occhioni, levou-os até a casa dos pais, para deixar Judy, era Sherman que estava curtindo uma embriaguez de sociedade. Ao mesmo tempo, sentia-se confuso. Quem eram exatamente aquelas pessoas?

— É irônico — disse a Judy. — Jamais gostei desses seus amigos. Acho que você deduzia isso.

— Isso nunca exigiu tanta dedução assim — respondeu Judy. Não estava sorrindo.

— No entanto, são as únicas pessoas que foram decentes comigo desde que essa coisa toda começou. Meus pseudoamigos obviamente preferem que eu faça a coisa certa e desapareça. Essas pessoas, essas pessoas que eu nem conheço, me trataram como um ser humano.

Na mesma voz cautelosa, Judy comentou:

— Você é famoso. Segundo os jornais, é um rico aristocrata. É um magnata.

— Só nos jornais?

— Ah, está se sentindo rico de repente?

— Estou, um rico aristocrata com um fabuloso apartamento feito por uma famosa decoradora. Queria estar de bem com ela.

— Hã. — Séria, amargurada.

— É perverso, não é? Há duas semanas, quando estivemos nos Bavardages — essas mesmas pessoas me deram o gelo. Agora estou difamado — difamado! — por todos os jornais, e não se cansam de me ouvir.

Ela desviou os olhos para a janela.

— Você se contenta com pouco. — Sua voz estava tão distante quanto seu olhar.

McCoy & McCoy encerrara o expediente por aquela noite.

— Que temos esta manhã, Sheldon?

Assim que as palavras saíram de sua boca, o prefeito se arrependeu. Sabia o que o seu minúsculo assistente diria. Era inevitável, e sendo assim preparou-se para a frase abominável. Não deu outra, aí vinha.

— Distribuição de placas para negros — respondeu Sheldon. — O bispo Bottomley está aqui, aguardando para vê-lo, e recebemos uns doze pedidos mais ou menos para que comente o caso McCoy.

O prefeito queria protestar, como fizera muitas vezes antes, mas, em vez disso, deu as costas e espiou pela janela, na direção da Broadway. A sala do prefeito localizava-se no térreo, um cômodo pequeno, mas elegante, de canto, com um pé-direito alto e majestosas janelas paladianas. A vista do pequeno parque que cercava a prefeitura era empanada pela presença, logo no primeiro plano, praticamente ao pé da janela, de fileiras de barricadas azuis da polícia. Eram guardadas permanentemente ali, no gramado — ou melhor, nos trechos escalvados em que há tempos houvera grama —, para serem usadas sempre que irrompessem manifestações. Irrompiam o tempo todo. Quando isso ocorria, a polícia montava uma grande cerca azul com as barricadas e contemplava as grossas fileiras de policiais enquanto enfrentavam a horda estridente de manifestantes berrando do outro lado. Que espantosa coleção de apetrechos os policiais carregavam às costas! Cassetetes, maças, lanternas, algemas, balas, blocos de intimação, radiotransmissores. Surpreendia-se continuamente observando as costas carregadas dos policiais, enquanto vários descontentes gritavam e rosnavam, para benefício da televisão, é claro.

“Placas para negros, placas para negros, placas para negros, placas para negros.” Agora, a frase abominável atravessava-lhe a cabeça. Placas para negros era uma modesta maneira de combater fogo com fogo. Toda manhã saía de sua sala para a Sala Azul, e entre retratos de políticos calvos de outras eras, entregava placas e menções a grupos cívicos, professores, estudantes premiados, cidadãos corajosos, nobres trabalhadores voluntários e vários outros lavradores e desbravadores do solo urbano. Nesses tempos conturbados, com as pesquisas apresentando aqueles resultados, era prudente, e provavelmente proveitoso, destacar o maior número possível de receptores desses troféus e flores retóricas, mas não era prudente nem proveitoso que Sheldon Lennert, esse homúnculo com uma cabeça absurdamente pequena, e camisa, paletó e calça xadrezes que não combinavam entre si, chamasse esse processo de “placas para negros”. O prefeito já ouvira algumas pessoas na assessoria de imprensa usar a expressão. E se algum membro negro da equipe ouvisse isso? Talvez até risse. Mas não riria interiormente.

Mas não... Sheldon continuava a dizer “placas para negros”. Sabia que o prefeito odiava isso. Sheldon tinha a veia maliciosa de um bobo da corte. Exteriormente era leal como um cão; interiormente parecia estar caçoando dele boa parte do tempo. A raiva do prefeito cresceu.

— Sheldon, já lhe disse que não quero mais ouvir essa expressão aqui na prefeitura!

— Tudo bem, tudo bem — respondeu Sheldon. — Agora, que é que vai dizer quando lhe perguntarem sobre o caso McCoy?

Sheldon sempre sabia exatamente como desviar sua atenção. Apresentava um problema qualquer, um que soubesse que iria confundir mais o prefeito, um que o tornasse o mais dependente possível de sua cabeça pequena, mas espantosamente ágil.

— Não sei — respondeu o prefeito. — A princípio o caso parecia ter contornos bem nítidos. Tínhamos um sujeito da Wall Street que atropelou um estudante brilhante e fugiu. Mas agora descobre-se que havia um segundo rapaz negro, um traficante, e que talvez tenha sido uma tentativa de assalto. Creio que prefiro a atitude imparcial. Exijo uma investigação completa e uma avaliação cuidadosa das evidências. Certo?

— Negativo — disse Sheldon.

— Negativo? — Era assombroso o número de vezes que Sheldon impugnava o óbvio, e ao final tinha absoluta razão.

— Negativo — repetiu Sheldon. — O caso McCoy tomou-se uma das pedras de toque da comunidade negra. É como a pobreza e a África do Sul. Não existem dois lados na questão. Você sugere que talvez haja dois lados, e não está sendo imparcial, está sendo preconceituoso. É a mesma coisa aqui. A única questão que existe é: a vida de um negro vale tanto quanto a vida de um branco? E a única resposta é: caras brancos como McCoy, que trabalham na Wall Street e guiam Mercedes-Benz, não podem sair por aí atropelando brilhantes estudantes negros e seguir caminho porque não lhes convém parar.

— Mas isso é besteira, Sheldon — contrapôs o prefeito. — Nem ao menos temos certeza do que aconteceu.

Sheldon sacudiu os ombros:

— Que outros dados temos? Essa é a única versão que Abe Weiss está a fim de apresentar. Está conduzindo esse caso como se fosse a porra de um Abraham Lincoln.

— Foi Weiss quem começou tudo isso? — A ideia preocupou o prefeito, porque sabia que Weiss sempre acalentara a ideia de se candidatar à prefeitura.

— Não, foi Bacon quem começou — disse Sheldon. — De algum jeito chegou a esse bêbado de The City Light, esse inglês, Fallow. Foi como começou. Mas agora a coisa pegou fogo. Já se tornou maior que Bacon e sua quadrilha. Conforme disse, é uma pedra de toque. Weiss tem uma eleição para breve. E você também.

O prefeito pensou um momento.

— Que tipo de nome é McCoy? Irlandês?

— Não, branco, anglo-saxão, protestante.

— Que tipo de pessoa é?

— Um cara rico, branco, anglo-saxão, protestante. Em todos os sentidos. As escolas certas, Park Avenue, Wall Street, Pierce & Pierce. O velho dele foi o número um da Dunning Sponget & Leach.

— Ele me apoiou? Sabe se me apoiou?

— Não que eu saiba, Você conhece essas figuras. Nem pensam nas eleições locais porque o voto republicano em Nova York não significa merda nenhuma. Votam para presidente. Votam para senador. Discutem o Federal Reserve, orçamentos e toda essa merda.

— Hummmm-hummmm. Bom, e o que é que eu digo?

— Exija uma investigação ampla e minuciosa do papel de McCoy nessa tragédia e, se necessário, a nomeação de um promotor especial. Pelo governador. “Se necessário”, frise bem, “se todos os fatos não vierem à luz.” Dessa maneira você dá uma cutucada no Abe, sem mencionar o nome dele. Diga que a lei não respeita pessoas. Diga que não se pode permitir que a riqueza e a posição de McCoy impeçam que esse caso seja tratado da mesma maneira que seria se Henry Lamb tivesse atropelado Sherman McCoy. Então dê apoio irrestrito à mãe do garoto no sentido de levar à justiça o autor dessa violência. Não há possibilidade de parecer exagerado demais.

— É meio injusto para com esse tal de McCoy, não é?

— A culpa não é nossa — disse Sheldon. — O cara atropelou o garoto errado num bairro errado dirigindo o carro da marca errada com a mulher errada, em vez da esposa, no assento ao lado dele. Não tem uma imagem tão maravilhosa assim.

A coisa toda fez o prefeito se sentir intranquilo, mas os instintos de Sheldon estavam sempre certos nessas situações enroladas. Pensou mais um pouco.

— Tudo bem — disse. — Concordo com tudo isso. Mas será que não estamos fazendo Bacon parecer bom demais? Detesto aquele filho da mãe.

— É, mas ele já marcou um tento com essa história. Não se pode mudar isso. Só o que se pode fazer agora é ir na onda. Não falta muito para novembro, e se você fizer uma jogada errada nesse caso McCoy, Bacon pode realmente dar-lhe motivos para chorar.

O prefeito balançou a cabeça.

— Acho que tem razão. Vamos pôr o branco, anglo-saxão, protestante no paredão.

Tornou a sacudir a cabeça e seu rosto se anuviou:

— O burro filho da puta... Que diabo pretendia dirigindo em alta velocidade pelo Bruckner Boulevard à noite num Mercedes-Benz? Algumas pessoas parecem decididas a fazer o teto desabar na cabeça delas, não é? Estava pedindo. Continuo a não gostar da coisa — mas você está certo. O que quer que lhe aconteça, foi ele quem provocou. Muito bem. Chega de McCoy. Agora, que é que esse bispo Sei-Lá-Como-Se-Chama quer?

— Bottomley. É sobre aquela igreja episcopal, a de São Timóteo. A propósito, o bispo é negro.

— Os episcopais têm um bispo negro?

— Ah, eles são muito liberais — disse Sheldon, girando os olhos. — Também poderia ser uma mulher ou um sandinista. Ou uma lésbica. Ou uma lésbica sandinista.

O prefeito balançou mais um pouco a cabeça. Achava as igrejas cristãs desconcertantes. Quando era jovem, os goyim eram todos católicos, a não ser que se incluíssem na contagem os shvartze, o que ninguém fazia. Nem mereciam ser chamados de goyim. Os católicos eram de dois tipos: irlandeses e italianos. Os irlandeses eram boçais e gostavam de brigar e de fazer maldades. Os italianos eram boçais e desleixados. Ambos eram desagradáveis, mas o quadro era bastante fácil de se compreender. Já estava na universidade quando descobriu que havia esse outro grupo de goyim, os protestantes. Nunca via nenhum. Só havia judeus, irlandeses e italianos na universidade, mas ouvia falar deles, e aprendeu que algumas das pessoas mais famosas de Nova York eram desse tipo de goyim, os protestantes, gente como os Rockefellers, os Vanderbilts, os Roosevelts, os Astors, os Morgans. O termo WASP — branco, anglo-saxão, protestante — foi inventado muito mais tarde. Os protestantes eram subdivididos numa tal diversidade de seitas malucas que ninguém conseguia acompanhar. Era tudo muito pagão e sobrenatural, quando não era ridículo. Todos cultuavam um judeuzinho obscuro que vinha lá do outro lado do mundo. Os Rockefellers cultuavam-no! Até os Roosevelts! Muito sobrenatural tudo isso, e no entanto esses protestantes dirigiam as maiores firmas de advocacia, os bancos, as financeiras, as grandes corporações. Nunca via essa gente em carne e osso, exceto em cerimônias. Mal apareciam nas pesquisas eleitorais. Em números absolutos eram uma nulidade — porém estavam lá. E agora uma dessas seitas, a dos episcopais, tinha um bispo negro. Podia-se caçoar dos WASPs, e muitas vezes fazia isso entre amigos, no entanto não eram tão engraçados quanto assustadores.

— E essa igreja — perguntou o prefeito — tem alguma coisa a ver com o patrimônio?

— Certo — disse Sheldon. — O bispo quer vender a São Timóteo para uma incorporadora alegando que o número de crentes está decrescendo e a igreja está perdendo muito dinheiro, o que é verdade. Mas a comunidade está fazendo um bocado de pressão sobre o patrimônio para tombar a igreja de forma que ninguém possa alterar o imóvel mesmo que o comprem.

— Esse sujeito é honesto? — perguntou o prefeito. — Quem recebe o dinheiro, se a igreja for vendida?

— Nunca ouvi dizer que fosse desonesto — disse Sheldon. — É um cavalheiro culto do clero. Frequentou Harvard. Mesmo assim podia ser ganancioso, suponho, mas não tenho razões para pensar que seja.

— Hummm-hummm. — O prefeito subitamente teve uma ideia. — Bom, mande-o entrar.

O bispo Warren Bottomley provou ser um desses negros muito instruídos e educados que imediatamente adquirem uma auréola aos olhos dos brancos que não sabem o que esperar. Por alguns instantes, o prefeito sentiu-se até intimidado, tal a energia do bispo. Era bonitão, esguio, de uns 45 anos e porte atlético. Tinha um sorriso fácil, olhos cintilantes, aperto de mão firme, e usava uma roupa semelhante à de um padre católico, mas de aparência cara. E era alto, muito mais alto que o prefeito, que era suscetível a respeito de sua baixa estatura. Uma vez sentados, o prefeito recuperou a pose e refletiu sobre a sua ideia. Sim, o bispo Warren Bottomley seria perfeitíssimo.

Após algumas amenidades bem dosadas sobre a ilustre carreira política do prefeito, o bispo começou a apresentar as dificuldades financeiras da São Timóteo.

— Naturalmente, posso compreender as preocupações da comunidade — disse o bispo. — Não querem olhar para um edifício maior ou de aspecto diferente.

“Não tem o mínimo sotaque de negro”, pensou o prefeito. Parecia estar encontrando negros sem sotaque o tempo todo agora. O fato de que reparava nisso fê-lo sentir-se ligeiramente culpado, mas não conseguia deixar de reparar.

— Mas muito poucos cidadãos da comunidade frequentam a igreja de São Timóteo — continuou o bispo —, o que precisamente cria o problema. Há menos de 75 fiéis regulares num prédio muito grande, que além do mais não tem qualquer característica arquitetônica notável. O arquiteto foi um homem chamado Samuel D. Wiggins, um contemporâneo de Cass Gilbert, que não deixou uma única marca nas areias da história da arquitetura, pelo que pude averiguar.

Essa referência casual intimidou ainda mais o prefeito. Arte e arquitetura não eram os seus pontos fortes.

— Francamente, a igreja de São Timóteo já não serve mais à comunidade, senhor prefeito, porque não está mais em condições de fazê-lo, e achamos que seria muito mais proveitoso, não só para a Igreja Episcopal e suas manifestações vitais em nossa cidade, como para a própria cidade, uma vez que se construiria um imóvel maior e taxável no local, com o que mesmo a comunidade se beneficiaria, indiretamente, no sentido de que a cidade como um todo lucraria com um aumento em sua arrecadação de impostos. É por isso que gostaríamos de vender o prédio atual e solicitamos a sua consideração... para que o prédio não seja tombado, como quer a comissão do patrimônio histórico.

Graças a Deus! O prefeito sentiu-se aliviado ao ver que o bispo se enrolara na gramática e deixara uma frase incompleta no caminho. Sem dizer palavra, o prefeito sorriu para o bispo e apoiou o dedo sobre a lateral do nariz, a exemplo de Papai Noel no filme A véspera do Natal. Então apontou o dedo para o alto, como se dissesse “Atenção!” ou “Veja isto!”. Abriu um largo sorriso para o bispo, apertou um botão do intertone sobre o móvel ao lado da mesa e disse:

— Ligue-me com o secretário do Patrimônio. — Não tardou e se ouviu um bipe abafado, e o prefeito ergueu o fone.

— Mort?... Sabe a igreja de São Timóteo?... Certo. Exatamente... Mort: ENGAVETE!

O prefeito desligou, recostou-se na cadeira e sorriu mais uma vez para o bispo.

— Quer dizer... está resolvido? — O bispo parecia genuinamente surpreso e satisfeito. — Essa é... a comissão... não vai...

O prefeito assentiu com a cabeça e sorriu.

— Senhor prefeito, nem sei como agradecer-lhe. Acredite-me... Disseram-me que consegue fazer coisas incríveis, mas... bom! Sou-lhe muito grato! E posso assegurar-lhe que me esforçarei para que todos na diocese e todos os nossos amigos saibam do grande serviço que nos prestou. Realmente farei isso!

— Não é necessário, bispo — disse o prefeito. — Não há necessidade de considerar isso um favor e nem mesmo um serviço. Os fatos que o senhor me apresentou tão habilmente foram muito persuasivos, e creio que toda a cidade se beneficiará. Fico satisfeito de poder fazer alguma coisa pelo senhooor que ao mesmo tempo seja bom para o senhooor e para a cidade de Nova York.

— E certamente fez! E sou-lhe muito grato.

— Agora, no mesmo espírito — disse o prefeito, adotando seu melhor tom professoral, que já o servira tão bem tantas vezes —, gostaria que o senhooor fizesse alguma coisa por miiim... que é igualmente bom para o senhooor e para a cidade de Nova York.

O prefeito enviesou a cabeça e sorriu ainda mais efusivamente que antes. Parecia um papo-roxo observando uma minhoca.

— Bispo, gostaria que servisse numa comissão de alto nível que estarei formando em breve para investigar o crime na cidade de Nova York. Gostaria de anunciar a sua nomeação ao mesmo tempo que a formação da comissão. Não preciso dizer-lhe como a questão é crucial, e um dos nossos maiores problemas são seus reflexos raciais, as percepções e a falta delas quando se trata dos autores dos crimes e a maneira como os nossos policiais tratam os crimes. Não existe serviço mais importante que o senhor pudesse prestar à cidade de Nova York neste momento do que participar dessa comissão. Que me diz?

O prefeito viu a imediata consternação no rosto do bispo.

— Sinto-me imensamente honrado, senhor prefeito — disse o bispo. Contudo, não parecia imensamente honrado. Acabaram-se os sorrisos. — E naturalmente concordo com o senhor. Mas devo explicar-lhe que na medida em que as minhas atividades como bispo dessa diocese interagem com o setor público ou, digamos, com o setor oficial, minhas mãos estão um tanto atadas, e...

Mas as mãos não estavam atadas naquele instante. Ele começou a torcê-Ias como se tentasse abrir um pote de pêssegos em conserva, procurando explicar ao prefeito a estrutura da Igreja Episcopal e a teologia subjacente à estrutura e a teologia da teologia e o que podia ou não podia ser dado a César.

O prefeito se desligou passados dez ou doze segundos, mas deixou o bispo continuar a falar, sentindo um amargo prazer na aflição do homem. Ora, estava muito claro. O filho da puta estava enchendo o ar de baboseiras tentando encobrir o fato de que nenhum Líder Negro em Ascensão como ele poderia se filiar ao prefeito de nenhuma forma, nem mesmo para servir na porra de uma comissão sobre a porra do crime. E fora uma ideia tão brilhante! Uma comissão birracial para investigação do crime, com meia dúzia de simpáticos e dinâmicos líderes negros como o bispo. O bispo Warren Bottomley ressoaria em uníssono com o coração de todas as pessoas negras decentes de Nova York, os próprios constituintes com que o prefeito precisava contar se pretendesse ganhar em novembro. E essa suave cascavel educada em Harvard já estava escorregando de suas mãos! Muito antes de o bispo ter completado as suas exegeses e desculpas, o prefeito já abandonara a ideia da comissão de alto nível para investigar o crime na cidade de Nova York.

— Sinto realmente — disse o bispo —, mas as diretrizes da Igreja não me deixam escolha.

— Ah, compreendo — retrucou o prefeito. — O que não se pode fazer, não se pode fazer. Não consigo pensar em ninguém que eu gostasse mais de ver servindo na comissão, mas compreendo perfeitamente a sua situação.

— Estou duplamente pesaroso, senhor prefeito, em vista do que acabou de fazer por nossa igreja. — O bispo se perguntava se o trato ainda estaria de pé.

— Ah, não se preocupe com isso — tranquilizou-o o prefeito. — Não se preocupe nem um pouquinho. Como disse antes, não fiz pelo senhor, nem fiz pela sua Igreja. Fiz porque achei que estava atendendo aos interesses da cidade. E foi só.

— Bom, de qualquer modo, sou-lhe grato — retorquiu o bispo, levantando-se —, e pode ter certeza de que toda a diocese lhe será grata. Verei que assim seja.

— Não é necessário — disse o prefeito. — De vez em quando é bom nos depararmos com uma proposta que apresenta uma lógica irresistível e própria.

O prefeito lançou ao bispo o seu melhor sorriso, olhou-o diretamente no rosto, apertou-lhe a mão e continuou a sorrir até o bispo se retirar da sala. Quando o prefeito voltou à mesa de trabalho, apertou um botão e disse:

— Ligue para o secretário do Patrimônio.

Logo em seguida ouviu-se um bipe-bipe abafado; o prefeito ergueu o fone e falou:

— Mort? Sabe aquela igreja, a de São Timóteo?... Certo... TOMBE A MERDA!